Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (Return to Silent Hill) 2026
"Return to Silent Hill" é escrito e dirigido por Christophe Gans (diretor e roteirista do excelente "O Pacto dos Lobos", de 2001) com roteiro de Sandra Vo-Anh (roteirista de "A Bela e Fera, de 2014) e Will Schneider (roteirista de "O Corvo", de 2024). O longa-metragem é baseado e inspirado no jogo de videogame da Konami de 2001, "Silent Hill 2", e segue como o terceiro filme da franquia "Silent Hill" e ainda pode ser considerado como um reboot. O filme acompanha James Sunderland (Jeremy Irvine), um homem atormentado e consumido pelo luto após a perda do seu grande amor, Mary (Hannah Emily Anderson). Ao receber uma carta misteriosa dela, ele retorna à enevoada cidade de Silent Hill. Lá, o que antes parecia ser uma cidade familiar, agora o obriga a encarar e enfrentar forças demoníacas, o que acaba por desvendar verdades aterrorizantes e uma verdadeira luta para manter a sua sanidade.
Antes de mais nada eu preciso contextualizar que eu sou uma pessoa completamente viciada em videogames desde os meus 10 anos de idade. Dito isto, "Silent Hill" é uma das minhas franquias de jogos da vida, o que obviamente fez eu conhecer e entender tudo do universo "Silent Hill" e consequentemente já ter jogado e terminado todos os títulos da franquia existentes até hoje. Eu joguei e terminei o "Silent Hill 2" no Playstation 2 algumas vezes, assim como terminei a versão do Xbox 360 de "Silent Hill HD Collection", que inclui uma versão do "Silent Hill 2", e no ano passado eu terminei o mais recente e excelente Remake oficial no Playstation 5.
Quando foi lançado "Terror em Silent Hill" lá em 2006, eu fiquei em êxtase para conferir o que até então era o primeiro filme da minha amada série de jogos (me lembro de ter assistido exatamente no dia da sua estreia, 18 de Agosto de 2006). Este primeiro filme é dirigido justamente pelo próprio Christophe Gans, e na época eu adorei o filme. "Terror em Silent Hill" é baseado no primeiro jogo, lançado em 1999, e na minha opinião é um bom filme que traz uma adaptação bastante fiel até. O maior problema do filme é a mistura de personagens e acontecimentos que o diretor decide fazer, o que acaba mudando algumas partes da história original do jogo. Mas por outro lado temos bastante fidelidade nos personagens, nos cenários, no clima e na trilha sonora original. Já em 2012 tivemos "Silent Hill: Revelação", dessa vez dirigido por M.J. Bassett, que adapta de forma muito vaga algumas partes do enredo de "Silent Hill 3", lançado em 2003. Este filme já apresenta muitos problemas em relação ao roteiro adaptado, personagens, acontecimentos e principalmente mudanças significativas na história em relação ao jogo.
Após 20 anos o diretor Christophe Gans retorna com "Return to Silent Hill" que traz uma adaptação justamente do segundo jogo da franquia que ainda não tinha sido adaptado. Como recentemente eu joguei o "Silent Hill HD Collection" e o Remake, então toda a história de "Silent Hill 2" está bastante fresca em minha memória, ou seja este era o momento exato para assistir "Return to Silent Hill".
Como um fã do segundo jogo eu gostei daquele cenário inicial, pois é exatamente o mesmo cenário do jogo, com o James andando no local, indo até o banheiro desativado e se olhando no espelho. Logo após o James desce a escadaria e chega até o cemitério, onde ele encontra a Angela (Hannah Emily Anderson). Logo após a conversa com a Angela ele segue andando e chega na cidade de Silent Hill, tudo bastante fiel ao jogo. Já por outro lado aquele flashback inicial do James chegando no local, conhecendo a Mary, e toda a sequência a partir dali não faz o menor sentindo. Ou seja, já no início do filme o diretor e roteiristas já mostraram o que pretendiam fazer com a história do jogo.
Os detalhes técnicos e artísticos do filme fazem toda a diferença e conta muito para a fidelidade da adaptação, como no caso dos cenários da cidade de Silent Hill, como as ruas, as lojas, o bar, o parque, o cemitério e o hospital, que estão perfeitos. Os cenários do filme mostram uma inspiração mais próxima do Remake oficial do que propriamente do jogo original. Outro ponto que conta muito para o desenvolvimento do filme é todo clima sombrio e macabro do jogo que está presente, assim como a famigerada névoa das ruas de Silent Hill e também às cinzas do incêndio. A fotografia é sensacional, pois ela dita o ritmo do filme com aqueles enquadramentos nos cenários com um tom mais morto, denso, borrado e acinzentado.
Christophe Gans transforma seu filme em um verdadeiro "Fan service", pois fora os cenários, o clima e a ambientação, temos a emblemática "Sirene", o James andando pelas ruas de Silent Hill com a barra de ferro e o icônico rádio que transmite interferências com a aproximação dos inimigos. Por outro lado em nenhum momento temos cenas com armas de fogo como no jogo. Por falar em inimigos, as famosas criaturas de Silent Hill estão presentes e são muito fiéis ao jogo, como no caso do "Sem braço" cuspindo ácido, o "Spider Mannequin", as "Enfermeiras", o Boss "Flesh lip" e o lendário "Pyramid Head". Em questão de personagens do jogo eles estão presentes, assim como o próprio James e a Mary, temos a Angela, a Maria, a Laura e o Eddie. Por outro lado temos alguns personagens insignificantes que não estão presentes no jogo.
Outro ponto bastante positivo no filme é a presença do lendário compositor Akira Yamaoka, que compôs a trilha sonora da grande maioria dos jogos da série "Silent Hill", incluindo a lendária música tema do jogo. Algumas músicas do jogo original foram usadas como música temporária durante a edição, inclusive o filme termina com uma icônica música do jogo.
No quesito técnico e artístico o diretor Christophe Gans consegue manter toda essência e toda a fidelidade do jogo "Silent Hill 2", já no quesito roteiro ele faz exatamente o que ele fez no filme de 2006, muda algumas partes da história original e coloca a sua visão em relação ao enredo do jogo. No filme o James consegue realizar ligações para sua psicanalista, sim ele tem uma psicanalista no filme, o que eu achei absurdo, mas ok, eu tinha certeza que o diretor iria querer colocar atitudes que humanizasse mais o James do filme em relação ao James do jogo. O jogo "Silent Hill 2" possui um terror psicológico sobrenatural que traz um foco no luto, no remorso e na culpa pessoal do James como uma manifestação psicológica dos traumas reprimidos dele em relação a sua atitude perante a sua amada Mary. Já no filme temos elementos que introduz uma espécie de seita como a responsável por todos os acontecimentos, e ainda colocando o pai da Mary como o grande mentor por trás desse culto satânico enquanto ainda estava vivo.
O remake de "Silent Hill 2" possui 8 finais, já no jogo clássico temos 6 finais. No final "In Water" mostra toda a dor e todo o sofrimento do James devido a doença terminal da Mary, o que mostra que a Mary não morreu no hospital pela sua doença mas sim pelas mãos do próprio James, que se viu incapaz de ver a sua amada sofrer e agindo por misericórdia, por frustração e exaustão ele a mata (como uma eutanásia) sufocando com um travesseiro. Movido pela dor da perda, pelo trauma e pelo luto, James decide tirar sua própria vida se afogando no lago Toluca ao lado do corpo da sua amada. Este é o peso emocional e espiritual do James no jogo, já no filme temos uma espécie de redenção, de humanização do James em relação a sua esposa, algo como se ele tivesse apenas deixado ela ir resolver seus problemas em Silent Hill. Esta é a forma que o filme apresenta a Mary, como uma espécie de vítima daquela seita, uma vez que no jogo temos a figura da Mary como frágil e vulnerável, que sofreu e morreu por causa da sua doença. No filme até temos a cena em que o James mata a Mary asfixiada e depois se joga com o carro com o corpo dela no lago Toluca, mas tudo é feito de forma leve, rasa, genérica, sem aquele peso e aquela dor, algo como apenas uma obrigação.
O jogo "Silent Hill 2" é emblemático justamente por apresentar uma gameplay acompanhada de um ritmo lento, mórbido, introspectivo, onde convivemos com a solidão, o mistério e principalmente o terror psicológico. Já no filme o que temos é uma narrativa autoexplicativa que de cara já entrega absolutamente tudo, sem deixar o espectador ser forçado a entender e juntar as peças desse quebra-cabeça justamente como acontece no jogo. O Maior erro dessa adaptação é justamente trazer um foco maior na humanização dos personagens, como se precisássemos se identificar com o casal para assim conseguir sentir a dor de ambos e se importar com eles. Eu preciso ressaltar aqui que estamos falando da adaptação de uma das maiores franquias do "Survival Horror" da história dos videogames e não de um filme romântico qualquer. E digo isso justamente pelo caminho que o roteiro seguiu ao decidir trazer o foco maior em um melodrama romântico sem o menor cabimento possível. Temos algumas cenas entre o James e a Mary que é um verdadeiro melodrama barato que supera qualquer novela mexicana - é um absurdo!
O que decidiram fazer com a Mary soa ainda mais absurdo quando ela passa a agir como vítima daquela seita, onde a própria afirma para o James que eles eram a sua família porque a acolheram após a morte de seu pai. E o pior ainda é a forma como o roteiro coloca os personagens coadjuvantes como uma espécie de extensão da Mary, como no caso da Laura e da Angela, algo completamente absurdo em relação ao jogo. A jovem atriz Evie Templeton, que já havia dublado a personagem Laura no remake de 2024, agora interpreta a mesma personagem no filme. No jogo a Laura é uma criança rebelde órfã que sempre age fazendo suas artes com o James. Já no filme ela é tratada como uma espécie de criatura, ou entidade, que serve como uma manifestação de pesadelo controlada pela cidade de Silent Hill - bizarro! A personagem Angela no jogo é uma jovem que foi para Silent Hill procurar sua mãe desaparecida, mas depois descobrimos que ela fugiu de casa por sofrer abusos sexuais e apresentar tendências suicidas. No filme ela nada mais é do que uma extensão dos sofrimentos da Mary, ou seja, ela perde a sua história pessoal do jogo para se tornar um representação dos abusos e sofrimentos da própria Mary. O mesmo vale para a personagem Maria, que no jogo ela é uma manifestação sobrenatural criada por Silent Hill na mente do James, onde ele baseia os seus desejos mais carnais sobre Mary, ou seja a Maria é a figura da Mary viva mais sexy e atraente para o James. Já no filme a Mary e a Maria são essencialmente a mesma pessoa mas com a mudança que ela agora é ligada a tal seita. Pelo menos o figurino da Maria no filme é bem fiel ao figurino da Maria do Remake. E vale ressaltar que a atriz Hannah Emily Anderson interpreta a personagem Mary, a Maria e a Angela, o que eu achei uma decisão bem grotesca, a começar pela figura da própria Mary e Maria, que de cara já entrega tudo e meio que retira o peso daquela virada na trama pra quem já conhece história. Ou não também, a essa altura tanto faz!
Agora o que fizeram com o personagem Eddie Dombrowski (Pearse Egan) é o maior absurdo desse filme, algo completamente inaceitável e repudiante para nós fãs. No jogo Eddie é uma pessoa complexa, traumática, com sérios problemas psicológicos, que sofreu traumas e bullying pela sua aparência e seu peso, e com o passar do tempo ele vai perdendo a sua sanidade e se transforma em um assassino que mata todo mundo que rir dele. Tanto é que no jogo o Eddie serve como uma espécie de espelho obscuro do próprio James, ele tem um arco pessoal muito importante para o desenvolvimento da história, sendo um antagonista e se transformando em um dos Boss final do jogo. Já no filme o Eddie aparece unicamente como uma obrigação do roteiro para que os fãs do jogo vissem que ele estava presente na trama. Ou seja, o Eddie no filme tem um tempo de tela ridículo, está completamente perdido na trama, nem chega a confrontar o James como faz diversas vezes no jogo, apenas se mostra como um personagem assustado pelas criaturas e do nada é limado completamente da história e nunca mais aparece - absurdo! - Grotesco!
"Return to Silent Hill" tem sérios problemas com o CGI, isso é muito perceptível em várias cenas. Inclusive aquela barba que colocaram no Jeremy Irvine chega a dar vergonha alheia do quanto ficou ridículo. No entanto, aos trancos e barrancos, o Longa-metragem conseguiu superar o seu orçamento de US$ 23 milhões atingindo uma bilheteria mundial de US$ 47,9 milhões. O que não é assim considerado um grande resultado financeiro em relação a sua receita inicial nos dias de hoje.
No mais, após 20 anos o diretor Christophe Gans retorna para a franquia "Silent Hill" trazendo um filme que para quem é fã do jogo poderá se agradar nos quesitos técnicos como cenários, personagens, criaturas lendárias, ambientação, clima, fotografia e trilha sonora, que de fato estão muito fiéis ao jogo, isso é inegável. Porém, no quesito enredo e fidelidade com a essência da história já eternizada no jogo, este filme chega a ser um insulto e um completo desrespeito para com o universo de "Silent Hill 2".
"M3GAN 2.0" é escrito e dirigido por Gerard Johnstone (diretor do primeiro filme), a partir de uma história que ele co-escreveu com Akela Cooper. Akela, junto com James Wan, são os criadores da ideia original do filme e ambos também assinaram como roteiristas do primeiro filme. Nesse segundo filme o roteiro ficou à cargo somente do diretor, já que Akela Cooper não participa e o James Wan esteve apenas como produtor. "M3GAN 2.0" é uma sequência do filme "M3GAN" de 2022 e o segundo filme da franquia "M3GAN". A trama acompanha M3GAN sendo reconstruída para combater uma robô militar humanoide construída com a tecnologia de M3GAN, que está tentando uma dominação por inteligência artificial.
Quando "M3GAN" surgiu lá em 2022, o longa veio naquela onda de bonecos assassinos, bebendo exatamente da fonte de personagens como o icônico "Chucky" e a já consagrada "Annabelle". Porém, estava muito claro que esses personagens serviram apenas como inspiração para "M3GAN", já que em nenhum momento o longa fez questão de ser levado a sério se estabelecendo dentro desse universo. "M3GAN" usa apenas a temática do terror e do suspense, mas seu conceito é uma ficção que funciona como um terror galhofa, até pela indicação estimada na época. Por mais que "M3GAN" use, e até crie, um clima de suspense e terror, a base principal é a diversão e o entretenimento de forma totalmente despretensiosa e descompromissada.
No entanto, o primeiro filme ainda consegue um pequeno destaque ao abordar (de forma rasa, eu entendo) um drama familiar envolvendo a criança que perdeu os pais, e de forma forçada precisa aprender e se adaptar à convivência com uma tia inexperiente no quesito ser "mãe". Nesse ponto o longa consegue abordar o luto, a solidão, os traumas, o afeto, o carinho, a atenção, a amizade e até o amor. Podemos considerar que o filme consegue uma abordagem sobre um drama familiar dentro de uma trama que se estabelece como uma ficção científica de terror. Nesse quesito "M3GAN" consegue um destaque ao apostar em uma mistura de ficção científica e terror pop, um trash horror comedy, um terror com alguns toques de drama e comédia, uma espécie de terror que não é terror, ou um terror sem terror.
Dito tudo isto sobre o primeiro filme: "M3GAN 2.0" simplesmente abandona tudo que eu mencionei anteriormente se afastando completamente do drama familiar, do terror e do suspense, e mergulhando de cabeça na ação desenfreada, na ficção científica de comédia pastelona, abraçando de vez uma galhofa cômica e completamente fútil. Temos aqui nada mais nada menos do que um filme que aposta completamente no humor, na comédia e principalmente na ação, com o claro intuito de viralizar nas redes sociais e no TikTok da vida (claro, a onda do momento). E aqui eu quero deixar bem claro que eu não tenho absolutamente nada contra esta opção, até porque querendo ou não o primeiro filme também apostou em viralizar nas redes sociais atingindo o público e a onda daquele momento. E tá tudo certo, a franquia "M3GAN" é isso, é apostar em viralizar nas redes, em dancinhas no TikTok, em representatividade no público alvo, em ser galhofa mesmo, em apresentar um terror sem terror, uma ação desenfreada sem nenhum sentido, aquele famoso "comfort movie".
Sobre o elenco eu não tenho muito o que destacar; apenas os retornos de Allison Williams e Violet McGraw, como a tia Gemma e a sobrinha, agora mais crescida, Cady. Amie Donald volta a interpretar fisicamente os movimentos da M3GAN, e isso ela faz com muita perfeição (assim como já havia feito no primeiro filme). Jenna Davis também volta como a dubladora da M3GAN, onde eu também vejo um ótimo trabalho, como podemos notar naquele diálogo mais realista e dramático entre ela e a Gemma em um momento oportuno da trama. Temos a adição no elenco da atriz Ucraniana Ivanna Sakhno como AM3LIA. AM3LIA é uma robô militar espiã assassina, uma espécie de vilã que se transforma em uma arma militar altamente letal e que se rebela contra contra todas as ordens que lhe são exigidas. Ivanna traz uma personagem bem trabalhada e bem atuada, tanto no quesito gestual quanto nos diálogos. Tudo bem que nas partes em que ela aparecia mais robótica eram utilizados dublês e efeitos especiais, mas ainda assim ela conseguiu empregar um olhar e uma postura bem arrojada da famosa vilã que quer destruir tudo e todos. O elenco se completa com Jemaine Clement (Alton Appleton), o bilionário corrupto da tecnologia cuja empresa fez avanços em biomecatrônica. Timm Sharp (Tim Sattler), um coronel do exército responsável pela criação de AM3LIA. Brian Jordan Alvarez e Jen Van Epps, Cole e Tess, os amigos de trabalho da Gemma.
Tecnicamente o longa é bem estruturado, já que visualmente falando o trabalho de montagem, efeitos especiais, dublês, ação e lutas são bem coreografados e bem montados. A trilha sonora é aquilo que já esperávamos, não que isso seja um problema, até porque é exatamente esta trilha e estas músicas que o longa adotou como rótulo da franquia.
Em questão de aceitação e bilheteria: "M3GAN 2.0" arrecadou US$ 24 milhões nos Estados Unidos e Canadá, e US$ 15 milhões em outros territórios, totalizando US$ 39 milhões ao todo. Vemos aqui em queda vertiginosa em relação ao primeiro filme, já que "M3GAN" arrecadou mais de US$ 180 milhões em todo o mundo.
E antes de encerrar eu preciso destacar que "M3GAN 2.0" ainda tenta criar conexões com o espectador, algo como criar mais empatia pela boneca, talvez se importar mais com a sua causa defendida, algo como se dessa vez a M3GAN passasse de vilã para uma espécie de anti-heroína, já que temos o surgimento da AM3ELIA com os seus propósitos e intuitos. Dentro desse embate entre as duas o longa tenta explicitar em como a IA está dominando o mundo atual, em como hoje temos IA em praticamente tudo, como se a IA fosse parte das nossas vidas, queira você ou não. É exatamente dentro desse contexto que a M3GAN termina tentando passar uma espécie de mensagem como se uma inteligência artificial também pudesse, ou devesse, evoluir. Algo meio bizarro e até patético, mas que está lá.
No mais: "M3GAN 2.0" goste ou não entrega exatamente aquilo que todos nós esperávamos, pois vamos ser sinceros, em nenhum momento você esperou um filme cult, coeso, inteligente, inovador, que fizesse sentido em alguma coisa. A franquia "M3GAN" foi criada para ser galhofa, clichê, genérica, pastelona, o famoso terror/ação de Shopping Center, aquele filme criado com o único intuito de entreter e divertir de forma descompromissada e totalmente aquém de qualquer realidade. Porém, ainda assim a "M3GAN" se estabelece de vez no cenário dos bonecos assassinos como os já citados "Chucky" e "Annabelle". Pois é fato que a franquia ainda percorrerá por várias continuações.
Invocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites) 2025
"Invocação do Mal 4" é dirigido por Michael Chaves e escrito por Ian Goldberg, Richard Naing e David Leslie Johnson-McGoldrick, a partir de uma história original coescrita por James Wan e Johnson-McGoldrick. James Wan e Peter Safran retornam como produtores. O longa-metragem é a sequência de "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" (2021) e o nono e último filme do controverso "The Conjuring Universe". O roteiro é baseado nas investigações da vida real do caso de assombração dos Smurl (o famoso caso de "O poltergeist da família Smurl"). O elenco segue sendo estrelado por Patrick Wilson e Vera Farmiga, que reprisam seus papéis como os investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, juntamente com Mia Tomlinson (a filha Judy Warren) e Ben Hard (o namorado Tony). O enredo foca nos investigadores Ed e Lorraine ajudando a família Smurl na Pensilvânia, atormentada por um demônio ligado a um espelho antigo, culminando no confronto contra uma entidade que atrai os Warrens para sua filha Judy.
Eu considero o terror como um dos gêneros mais difíceis de ser construído no cinema. Tanto que nas últimas décadas virou um gênero muito batido, muito desgastado, muito defasado, que vive uma das suas piores épocas no cinema como um todo. "Invocação do Mal" surgiu lá em 2013 como mais uma dessas apostas no cinema de terror, que trouxe consigo um diretor (James Wan) ainda jovem e muito promissor, que vinha de obras como "Jogos Mortais" (2004), Gritos Mortais (2007) e "Sobrenatural" (2010). Ao longo dos anos e dos filmes "Invocação do Mal" foi se tornando uma franquia, o que logo gerou alguns spin-offs. Fato é que a franquia "Invocação do Mal" logo se tornou a queridinha do público, como uma das mitologias mais populares do terror, o que podemos considerar como uma revolução do cinema de terror moderno, principalmente por ser baseada nos supostos casos reais dos investigadores paranormais mais famosos dos EUA (Ed e Lorraine Warren), e que levam o principal crédito por popularizarem a pesquisa paranormal e são considerados como os pioneiros na área.
Goste você ou não, mas a franquia "Invocação do Mal" provou que o gênero do terror clássico de possessão e assombração ainda é bastante rentável e bastante atraente para o público. E aqui entra alguns pontos que eu considero como um acerto da franquia: como o fato do próprio James Wan, que tinha a grande relevância por ser o criador de "Jogos Mortais" e "Sobrenatural" (que se tornaram duas grandes franquias). O longa também conseguiu atrair o grande público e criar uma espécie de fascínio pela história real do casal Warren. E muito dessa atração e apego se deu justamente pelo excelente casal Patrick Wilson e Vera Farmiga, que juntos construíram uma espécie de símbolo do terror moderno. Patrick e Vera são muito carismáticos, são excelentes atores, possuem uma grande bagagem, o que culminou em atuações com muito química e muita sintonia entre ambos. Sem dúvidas o casal é a cara da franquia "Invocação do Mal".
Outro ponto que também ajudou no crescimento e relevância da franquia "Invocação do Mal" foi a criação do seu próprio universo compartilhado, o famigerado "The Conjuring Universe" - o "Invocaverso"! Se nos filmes de heróis o universo compartilhado já virou corriqueiro, nos filmes de terror poderia ser considerado como uma novidade, por mais que podemos considerar que nos últimos anos o diretor M. Night Shyamalan também criou o seu próprio universo compartilhado do terror. Se o "Invocaverso" trouxe a novidade para a franquia "Invocação do Mal", os seus spin-offs foram em sua grande maioria bastante questionáveis; com produções como "Annabelle", "A Freira" e "A Maldição da Chorona"(considerem ou não parte do "Invocaverso").
Quero reiterar que podemos sim considerar que "Invocação do Mal" foi um resgate do gênero terror moderno em meio à crise que o cinema de terror estava vivendo na época. Por outro lado quero contextualizar que o estilo do terror praticado na franquia "Invocação do Mal" é um estilo que pouco me atrai, que é aquele terror mais pastelão, mais trivial, mais clichê mesmo, que abusa dos famosos jumpscare, que abusa do susto gratuito com inúmeras aparições de figuras grotescas. Que foi algo utilizado mais no primeiro e no segundo filme, pois o terceiro e este quarto essa questão foi um pouco mais dosada. Eu sou do time que prefere um terror mais inteligente, mais criativo, aquele terror sobrenatural, psicológico, um terror obscuro, sombrio, soturno, com um suspense que brinca com a mente e com a crença do espectador; o que obviamente vai de encontro com um dos meus filmes preferido na vida - "O Bebê de Rosemary" (1968).
A franquia "Invocação do Mal" utiliza o terror pastelão, mas ainda assim eu gosto dos filmes, eu gosto da forma como o roteiro abrange as investigações paranormais do casal Warren, a forma como o terror é instaurado, a forma como a tensão e o suspense é criado, a forma como cada história é contada e desenvolvida em cada filme da franquia. Como no caso de "Invocação do Mal 4", que dessa vez traz uma trama um tanto quanto peculiar, ao focar mais no desenvolvimento do casal Warren já aposentados e de sua filha com o namorado. O ponto mais interessante desse quarto filme é justamente a construção de um melodrama familiar, o que implica na força emocional e espiritual da família Warren diante das adversidades atuais.
O longa inicia nos exemplificando o começo do casal Warren, desde o conturbado nascimento da filha Judy, passando pelo seu crescimento, pelos calorosos momentos em família, até os dias atuais, onde a Judy já é adulta e está namorando. Este é o ponto principal em "Invocação do Mal 4", essa aproximação do público com a família Warren, onde conseguimos vê-los como uma família natural, vivendo uma vida normal (até aquele momento) e passando por questões familiares do cotidiano. O longa consegue mesclar todo aquele drama familiar usando o terror e o suspense como um pano de fundo para o desenvolvimento natural de uma produção que já conhecemos. Ou seja, temos o desenvolvimento da família Warren e da família Smurl em diferentes situações que vão se entrelaçarem ao final da trama.
Dito isto: não há como negar que o roteiro de "Invocação do Mal 4" entrega o mais do mesmo, por mais que adentre nessa questão familiar que eu destaquei e isso seja um ponto positivo. Mesmo com todos os cuidados em dosar a questão dos jumpscare inicialmente, nas partes finais eles ficam cada vez mais forçados, principalmente às aparições das assombrações, onde claramente o diretor queria emplacar o seu "Gran Finale" forçando a barra até a última gota. Por falar em diretor, a falta do James Wan na direção tanto do terceiro filme quanto no quarto é gritante. Por mais que o diretor Michael Chaves já esteja em seu quarto filme do universo "Invocação do Mal" e ele faça um trabalho medianamente digno. Porém, ainda assim eu acredito que a direção nas mãos do James Wan teríamos um desfecho e encerramento melhor.
O elenco é outro ponto positivo no filme! Sobre Patrick Wilson e Vera Farmiga eu não tenho absolutamente nada a acrescentar, somente reiterar que ambos são a personificação do casal Warren como o símbolo e o rosto de todo o universo "Invocação do Mal". Já a atriz britânica Mia Tomlinson faz o seu primeiro trabalho de maior destaque na carreira e ela vai muito bem. Eu diria que ela vai além até do esperado, conseguindo construir uma personagem que soube dosar muito bem os momentos descontraídos em família com os momentos mais tensos e sombrios. O ator Ben Hardy também contribui muito bem com seu personagem, que ao início começou mais morno, sem dizer muito a que veio, mas nas partes finais ele já estava totalmente integrado como um membro da família Warren. E digo mais: "Invocação do Mal 4" marca a despedida do casal Ed e Lorraine Warren e o encerramento da principal franquia, mas nada me tira da cabeça que os estúdios jamais vão abandonar a sua "galinha dos ovos de ouro", e com certeza vão construir novos spin-offs (ou até um quinto filme) usando a filha do casal Warren com seu agora marido, como o novo casal de investigadores paranormais mantendo vivo o legado deixado por Ed e Lorraine Warren. Realmente eles estão com a faca e o queijo nas mãos!
E falando justamente sobre continuações do famoso "Invocaverso". Em setembro de 2025, foi relatado que, após o sucesso financeiro de "Invocação do Mal 4", um filme prequel de "Invocação do Mal" estava em desenvolvimento. Supostamente, devido a uma disputa salarial, James Wan pode não estar envolvido no projeto. Em janeiro de 2026, a Warner Bros. revelou que o prequel seria intitulado "The Conjuring: First Communion" ("Invocação do Mal: Primeira Comunhão") com data de lançamento em 10 de setembro de 2027.
Por fim: "Invocação do Mal 4" traz uma produção técnica nos mesmos moldes da franquia que já estamos acostumados; no quesito ambientação sombria, fotografia obscura, uma trilha sonora tensa e uma direção de arte com cenários que conversam entre si sempre na mesma língua dos filmes anteriores da franquia. No quesito roteiro temos sim uma inovação que vale ressaltar, mas no geral é o mais do mesmo que sempre vemos dentro desse universo. No mais, "Invocação do Mal 4" marca o encerramento de uma das principais (se não a principal) franquias do terror moderno. Entre erros e acertos eu considero o saldo final de todo o universo como positivo.
Agora é aguardar os próximos capítulos da saga do "The Conjuring Universe".
"Casablanca" é dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart, Ingrid Bergman e Paul Henreid. O elenco de apoio inclui Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre e Dooley Wilson. O roteiro de "Casablanca" é baseado em "Everybody Comes to Rick's", de 1940, uma peça teatral não produzida de Murray Burnett e Joan Alison.
"Casablanca" curiosamente é filmado e ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, cujo foco está centrado em em Rick Blaine (Humphrey Bogart), um expatriado americano que gerencia um bar em Casablanca, a maior cidade de Marrocos. Ele reencontra seu antigo grande amor, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), que busca ajuda com seu marido, Victor Laszlo (Paul Henreid), um líder da resistência, para escapar dos nazistas. Rick deve escolher entre seu amor por ela ou ajudá-los a fugir.
Eu costumo afirmar que para um filme ser considerado uma obra-prima do cinema ele necessariamente precisa me elevar a enésima sensação de satisfação, me despertar inúmeras reações, eu fico feliz, fico triste, me emociono, fico em êxtase, fico nervoso, fico eufórico, fico alucinado, fico nostálgico, fico em estado de choque, e magistralmente "Casablanca" me leva a todos estes sentimentos aflorados em um misto de reações.
"Casablanca" é amplamente, dignamente e merecidamente considerado como um dos maiores romances da história do cinema. Eu diria que "Casablanca" é a maior história de um amor impossível da história do cinema. O longa-metragem é autêntico, é hábil, é inteligente, é muito bem orquestrado, pois estamos falando de um roteiro absurdamente genial, que usa a base de um drama romântico com um pano de fundo político. O filme tem um peso imenso devido à sua capacidade de unir romance, intriga política e dilemas morais em um contexto real de guerra, transformando-se em um marco cultural duradouro.
O maior triunfo de "Casablanca" é justamente o reencontro de um amor adormecido, de uma grande paixão do passado que é revivida em meios à todos os conflitos presente. Este é o ponto que transforma "Casablanca" em um filme grandioso e inovador, pois temos toda uma abordagem em cima de uma narrativa de guerra, onde inevitavelmente ocorre o embate entre o romance e a política de interesses, entre o sacrifício e o heroísmo, colocando à prova tanto os desejos de Ilsa como principalmente os desejos do Rick. Já que Rick se portava como um homem ferido, frio, desiludido, descrente, solitário, por outro lado se mostrava hábil, inteligente e maquiavélico para orquestrar seus planos.
É incrível o poder que "Casablanca" tem em nos despertar sentimentos distintos, dúvidas ocasionais, curiosidades frequentes, perguntas jamais respondidas; pois estaria Rick protegendo Ilsa pelo amor que ele sempre teve por ela? Se ele realmente a amasse porquê ele não lutou para ficar com ela? Será que realmente ele a amou tanto assim para protegê-la a deixando fugir com outro homem? E a principal delas: será que Rick realmente amava Ilsa ou foi somente um amor repentino porém avassalador como a icônica e lendária frase - "Sempre teremos Paris"? Fato é que querendo ou não o final de "Casablanca" foge dos clichês românticos triviais e se ilustra como uma das maiores provas de amor já demonstradas no cinema, o amor pela vida.
Além do roteiro que é genialmente perfeito, "Casablanca" vai muito mais além ao nos apresentar dois ícones do cinema, duas personalidades que marcaram a história da sétima arte; simplesmente Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Bogart foi eleito pelo American Film Institute como a maior estrela masculina do cinema norte-americano de todos os tempos. É considerado um dos grandes mitos do cinema e ganhou o Oscar de melhor ator de 1951 por seu papel em "The African Queen". Já Ingrid foi uma das maiores atrizes da Era de Ouro de Hollywood. Com sua beleza e seu imenso talento de atriz, ela foi uma das figuras mais célebres da história do cinema americano. Além disso, Ingrid Bergman é também uma das atrizes mais premiadas, incluindo três Oscars, dois Primetime, um Tony, quatro Golden Globe, um BAFTA e uma Volpi Cup.
Humphrey Bogart e Ingrid Bergman possuem um química invejável, uma sintonia perfeita, contracenam de forma leve, natural, singela, elegante, prazerosa, onde tínhamos um belíssimo envolvimento nas trocas de olhares, nos diálogos, no gestual, onde ambos ganhavam toda a cena enquanto atuavam com um toque mais teatral. Sem dúvidas era uma forma diferente de atuar, de interpretar, era uma atuação diferente, era um cinema diferente, mais elegante, requintado, poético, fino, inteligente, teatral e intimista. Por outro lado o poder da atuação de ambos também estavam presentes nos diálogos icônicos com frases emblemáticas como: "O mundo todo desmoronando e nós apaixonados." "Se esse avião decolar e você não estiver nele, você se arrependerá. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas em breve e para o resto da sua vida." "Beije-me. Beije-me como se fosse a última vez." "De todas as espeluncas em todas as cidades do mundo, ela entra justamente na minha." "Sempre teremos Paris."
E aqui eu preciso citar a minha passagem preferida do filme. O momento em que Ilsa diz para o Sam (Dooley Wilson): "Toque uma vez, Sam, por causa dos velhos tempos" e, posteriormente, "Toque, Sam. Toque 'As Time Goes By'" (Composta por Herman Hupfeld em 1931). Este é um dos momentos mais belo e encantador de toda a história do cinema. E já aproveito para puxar o gancho da trilha sonora composta pelo mestre Max Steiner, o lendário criador de centenas de clássicos temas para filmes americanos. A trilha sonora de "Casablanca" toca no fundo da alma. Se você assistir "Casablanca" e não for contagiado pela belíssima trilha sonora com certeza você já está morto por dentro. O lendário diretor Michael Curtiz de "As Aventuras de Robin Hood" (1938) entrega um trabalho exuberante, genial, que traz a essência da obra com sua filmagem plástica, com takes com tomadas longas, que impulsionava ainda mais aquelas cenas com diálogos históricos; como acontece exatamente na última cena do filme. A cenografia do longa é impecável, pois é impossível você não se emocionar com o poder e a magnitude de uma película em preto e branco ditando a força do amor com a assolação de uma guerra.
"Casablanca" é um patrimônio cultural histórico obrigatório para todos os cinéfilos que se prezem. Uma obra que impactou o cinema. Um clássico que incorpora elementos estilísticos do eterno noir dos anos 40. Uma pérola cinematográfica que virou um marco na indústria ao nos apresentar um dos maiores e mais impactantes casais com uma história de amor impossível do cinema. Sem dúvidas "Casablanca" ajudou a moldar a forma de se fazer e de se pensar cinema, sendo um dos pilares mais sólidos da história do cinema, representando o ápice da eterna Era de Ouro de Hollywood.
"Casablanca" não é apenas um filme, é um deleite para a alma, é um afago no coração, é um suspiro de um amor verdadeiro que respira cinema no mais alto padrão cultural, lendário e histórico. Uma obra-prima categórica!
"Gladiador II" é dirigido e produzido por Ridley Scott. A sequência de "Gladiador" (2000) foi escrita por David Scarpa (roteirista de "Napoleão" de 2023), baseada em uma história que ele escreveu com Peter Craig (roteirista de "Batman" de 2022). O longa é estrelado por Paul Mescal, Pedro Pascal, Joseph Quinn, Fred Hechinger, Connie Nielsen e Denzel Washington. Derek Jacobi e Connie Nielsen reprisam seus papéis do primeiro filme, com Mescal substituindo Spencer Treat Clark. Paul Mescal interpreta Lucius Verus Aurélio, o príncipe exilado de Roma, que se torna prisioneiro de guerra e luta como gladiador para Macrino (Denzel Washington), um ex-escravo que planeja derrubar os imperadores gêmeos Caracala e Geta (Fred Hechinger e Joseph Quinn).
Se hoje eu elaborasse um top 10 melhores momentos da minha vida no cinema, com toda a certeza a sessão de "Gladiador" assistida lá em junho de 2000 estaria na lista. Naquela época o cinema era diferente, os filmes eram diferentes, a forma de se fazer cinema era diferente, o entretenimento audiovisual era diferente, até pelos acontecimentos e pela geração da época. Eu vivi uma das maiores experiências cinéfilas naquele dia, e olha que estávamos em uma época em que a internet no Brasil era fraca e não tinha o alcance que tem hoje, e ainda assim o sucesso de "Gladiador" era estrondoso no boca a boca, na TV, nos jornais e nas revistas. Eu afirmo que "Gladiador" está na lista dos melhores filmes de toda a carreira do Ridley Scott.
O projeto para uma continuação de "Gladiador" sempre esteve engavetado, talvez inicialmente por desinteresse do próprio Ridley Scott como dos estúdios e produtores. Mas com toda certeza aquela ideia sempre esteve viva e só estava sendo postergada, onde mais cedo ou mais tarde iria de fato acontecer. Eu só não achava que fosse demorar tanto tempo para acontecer, onde 24 anos depois temos a continuação de "Gladiador".
Eu acredito fielmente que "Gladiador" jamais necessitasse de uma continuação, até por ser uma obra autossuficiente, irretocável, única, uma obra-prima imortalizada e eternizada presente na lista dos melhores filmes da década de 2000. Dito isto, seria óbvio que mais cedo ou mais tarde iriam atrás de uma continuação com a única ideia que todos utilizam hoje em Hollywood - a de lucrar. E o que mais me espanta é o fato do próprio Ridley Scott aceitar dirigir esta improvável continuação, o que de fato poderia ser o maior acerto do estúdio, em trazer o consagrado diretor do primeiro filme para a continuação. Porém, na minha opinião "Gladiador II" entra naquela lista das continuação completamente desnecessárias, infundadas e inteiramente dispensáveis.
Devo admitir que todo o roteiro pensado e construído para elaborar a continuação de "Gladiador" soa no mínimo plausível. Toda a ideia em trazer de volta o legado do filme anterior dessa vez focado em Lucius, que é revelado como o filho de lendário Máximus Décimus Meridius (Russell Crowe), que esteve presente ainda pequenino no primeiro filme. Ou seja, o longa-metragem iria se aprofundar naquela busca de vingança contra o Império Romano, que após 16 anos da morte de Máximus, Roma era governada pelos imperadores tirânicos que haviam ordenado a invasão e a morte da esposa de Lucius. Dessa forma teríamos um novo gladiador lutando pela honra, pela vingança e pela restauração da paz no território romano.
Olhando assim "Gladiador II" tinha tudo para dar certo, até por ser uma continuação direta do primeiro filme, onde o mesmo iria seguir a mesma linha e os mesmos passos do anterior. O que também poderia ser um risco, uma vez que se firmar como continuação direta não iria te obrigar a construir uma identidade própria, como uma obra independente, e sim viver na sombra do seu antepassado. Por outro lado, ter novamente a direção do Ridley Scott meio que iria te obrigar a seguir por este caminho, uma vez que ele se apoia quase que 100% do tempo no filme anterior. É aí que entra o maior questionamento: isso é bom ou ruim? E se fosse outro diretor no comando e ele seguisse por outro caminho se desgarrando mais do filme anterior? Com certeza teria pessoas que iriam aprovar uma continuação mais independente, até com outro diretor, Mas por outro lado também teria as pessoas que seriam a favor de reviver a história seguindo os mesmos passos e com as ideias do mesmo diretor.
E aqui eu entendo que uma continuação direta precisa no mínimo seguir a história anterior, para manter a essência e principalmente a coerência com o legado já construído. Só que o maior problema de "Gladiador II" é exatamente ser 100% do tempo uma sombra do anterior em tudo que se propõe a fazer. É incrível como o filme não consegue construir e apresentar absolutamente nada de novo que não seja o protagonista seguir os mesmos passos do protagonista anterior. Ah mas é o filho seguindo os passos do pai buscando vingança, é normal seguir a mesma linha - ok, eu entendo - só que você precisa obrigatoriamente seguir e se apoiar o tempo todo no filme anterior? Você precisa escrever um roteiro praticamente espelhado no roteiro anterior? Onde temos até a mesma história do Império Romano invadido as terras e novamente matando a esposa do protagonista, para que isso novamente vá adicionar fúria em sua vingança.
"Gladiador II" não consegue se desagarrar do primeiro nem na questão do protagonista, uma vez que o Russell Crowe construiu um personagem icônico e imortalizado, e isso fica perceptível tanto no personagem do Paul Mescal; que luta na sombra do pai, quanto do personagem do Pedro Pascal; que também luta em busca da sua honra. Todavia, o próprio Ridley Scott assumiu todos esses riscos, ele tinha total consciência do que estava fazendo, tanto que ele usa o primeiro filme em tudo, até abusando dos flashback. De certa forma você pode considerar isso como um acerto do diretor, ou até mesmo encarar como uma homenagem, uma carta de amor aos fãs do primeiro filme. Ou por outro lado você (assim como eu) pode considerar como um erro, em não querer se arriscar dentro de uma continuação direta e jogar na segurança, na zona de conforto, em tentar reescrever tudo o que deu certo lá atrás se espelhando no presente. Eu acho que uma continuação necessariamente não precisa ser uma sombra do filme anterior.
Sobre o elenco: Eu também considero como outra grande falha do filme, pois temos um elenco até estrelado mas que não entregam absolutamente nada do que se esperava dentro de um padrão de "Gladiador". Paul Mescal foi uma aposta, visto que ele não tem uma grande bagagem em produções dessa linha. E devo mencionar que eu adorei o seu personagem em "Aftersun" (2022). Porém, eu acho que faltou um pouco mais de entrega no personagem, pois em momento algum eu consegui ver a ira e a sede de vingança estampada em sua face. Pedro Pascal entrega um personagem ok, dentro do padrão Pedro Pascal, sem aquele grande destaque. Por outro lado todo os destaques positivos ficam à cargo do Lorde Denzel Washington, que entrega perfeição em tudo que ele faz. Apesar de considerar o seu final ruim. Connie Nielsen também é um destaque positivo. É muito bom poder rever a sua personagem depois de tantos anos. Derek Jacobi também reprisa muito bem o seu personagem. Já o Joseph Quinn e o Fred Hechinger trazem dois personagens extremamente ruins.
Os pontos mais positivos em "Gladiador II" ficam na conta das qualidades técnicas, pois é incrível os cenários, principalmente no coliseu. Às batalhas também são muito bem coreografadas e exibidas. A direção de arte é muito boa. A fotografia salta aos olhos. A trilha sonora acompanha muito bem a trama. Como diversão e entretenimento em uma sala de cinema o filme vai funcionar muito bem e te proporcionar um momento incrível.
Por fim eu concluo que "Gladiador II" é uma continuação completamente desnecessária, que passou muito do time para acontecer (se é que precisava acontecer), onde mesmo com a presença do gênio Ridley Scott (que poderia ser um acerto) o longa não conseguiu sair da sombra do primeiro filme, podendo até ser considerado como uma obra superficial e genérica. E ainda pensar que o próprio Ridley Scott já anunciou planos para um terceiro filme, onde ele quer explorar ainda mais o legado do primeiro filme como uma espécie de herança pela perspectiva do Lucius. Infelizmente vão transformar "Gladiador" em uma franquia de filmes como a famosa "galinha dos ovos de ouro". Uma pena!
"Sorria 2" é novamente escrito e dirigido por Parker Finn como uma sequência direta de "Sorria" (2022). O filme é estrelado por Naomi Scott como Skye Riley, uma estrela pop em ascensão que começa a vivenciar uma série de eventos macabros cada vez mais perturbadores justamente quando está prestes a embarcar em sua turnê.
Interessante que lá em 2022 a Paramount apostou em "Sorria" como a sua grande aposta para a criação de uma nova franquia de terror. Em questão de marketing e bilheteria o filme foi um sucesso imediato. Em questão de roteiro, o diretor Parker Finn inicialmente apostou em uma trama que navegava no terror sobrenatural, no suspense psicológico, que flerta diretamente com o mistério, com o lúdico, com o oculto, algo mais ligado com a relação da mente humana e suas variações perturbadoras, e as causas que isso podem implicar em cada um. Isso na primeira metade do filme, pois em sua segunda o diretor perde completamente a mão e toda ambientação misteriosa e psicológica que foi muito bem utilizada é deixado de lado para dar espaço para o terror genérico, o terror pastelão, forçando a barra em cima dos jumpscare, das aparições de figuras demoníacas afim de forçar o susto gratuito para impressionar o público.
"Sorria 2" inicia com uma introdução que faz ligação direta com os eventos do primeiro filme através do personagem Joel (Kyle Gallner). Por sinal uma introdução muito boa, onde temos uma sequência de ação com tiroteio de tirar o fôlego, melhora ainda mais na cena final dessa sequência. A partir daí o diretor tenta se reinventar no subgênero terror, novamente ele inicia apostando em um terror psicológico sobrenatural usando os acontecimentos anteriores envolvendo a personagem Skye Riley.
O interessante dessa personagem é justamente o fato dela ser uma estrela do pop, que vive uma vida de sonhos, de desejos, onde vive cercada pela fama, pelo dinheiro, pela ganância do sucesso e principalmente pela admiração e a inveja por parte do público. Podemos considerar que tudo isso poderia ser uma presa fácil para um distúrbio mental e psicológico. Um ano após ela ter presenciado o acidente que vitimou seu namorado Paul Hudson (Ray Nicholson), Skye presencia o suicídio de seu amigo de classe Lewis Fregoli (Lukas Gage). Por sinal a cena dele esmagando o próprio rosto com uma anilha de musculação é assustadoramente bizarra. A partir daí ela começa a ser perseguida pela maldição do sorriso macabro.
Uma jogada muito boa do roteiro é usarem o fato da Skye ter passado pelo trauma do acidente em contrapartida com sua dependência química, ou seja, seria difícil alguém acreditar em tudo que ela estava passando em consequência da maldição sem assimilar às drogas em consequência com o seu trauma. Ou seja, Skye vivia pressionada por todos os lados; a mãe dela a pressionava com um relacionamento controlador, tóxico e abusivo. Parecia que a Skye era uma marionete da mãe. Ela ainda convivia com a pressão da fama, do sucesso, da crítica, onde podemos considerar sobre a pressão que os artistas sofrem na indústria em busca da fama. Passamos a acompanhar a decadência da Skye como artista e principalmente como ser humano. Passamos a acompanhar o declínio e o colapso mental de uma artista em busca da fama em decorrência do seu estado psicológico.
E tudo isso que eu citei é muito bem usado pelo diretor para confrontá-la com a sua maldição. Pois o estado mental e psicológico da Skye era a porta de entrada para a maldição explorar as suas fragilidades com sua vulnerabilidade atual. Toda pressão pela fama era confrontado pelo horror dos seus traumas em contrapartida com a maldição do sorriso. Onde podemos facilmente fazer uma alusão com aquela obrigação que os artistas tem em sempre estarem sorrindo. O artista sempre precisa estar sorrindo para o público e fãs independente do seu humor naquele dia.
Dessa vez Parker Finn acerta em explorar todas as fraquezas e vulnerabilidade da protagonista em decorrência da maldição usando o seu estado psicológico. Acredito que este foi o maior diferencial em comparação com o primeiro filme, justamente uma exploração maior em cima do terror sobrenatural, do terror psicológico, usando aparições certeiras de figuras que exemplificavam o que a protagonista tinha presenciado, e não apenas jumpscare gratuitos para impactar. Tudo bem que ainda assim o diretor dá uma certa forçada justamente em cima desses jumpscare e traz uma figura monstruosa bizarra na última cena do palco, que pra mim é justamente a parte que novamente ele perde a mão. Porém, dessa vez eu até relevo, visto tudo que ele construiu para chegar até essa parte final.
O diretor acerta muito bem na construção das cenas bizarras, onde temos belas exibições do puro gore. A fotografia é outro ponto que se destaca notavelmente em cada cena. Pois cada foco naquele sorriso macabro soa extremamente diabólico, perturbador e incomoda muito. A atriz Naomi Scott faz uma performance espetacular, diga-se de passagem. Por mais que a sua personagem ande naquela linha de gritos, caras e bocas, mas tudo era muito bem construído e feito com um bom nível de atuação. Também preciso destacar o ator Ray Nicholson, o filho do grande Jack Nicholson, que em suas pequenas aparições ele nos mostra que também tem aquela veia sombria e macabra apenas no olhar. Sem falar que ele é a cara do pai.
Sendo assim eu considero que "Sorria 2" acerta mais do que erra, pois toda sua construção de terror psicológico se sobressai sobre o terror pastelão trivial desse gênero. Parker Finn acerta a mão nesse segundo filme, pois ele nos entrega algumas discussões sociais usando um pano de fundo de terror sobrenatural, que irá discutir até que ponto o trauma poderá ser superado.
E na cena final a maldição do sorriso passou para todos que estavam na plateia? Acredito que veremos mais em "Sorria 3".
"O Poço 2" é novamente dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia em parceria com a Netflix espanhola. Dessa vez acompanhamos a protagonista em uma nova fase na prisão vertical, onde um líder misterioso impõe regras violentas e uma nova "Revolução Solidária" tenta controlar a distribuição de comida.
"O Poço" foi lançado no Brasil em Março de 2020, ou seja, o longa chega ao Brasil bem na fatídica pandemia do coronavírus e logo ganha um grande destaque diante daquele iminente cenário. A ligação que eu fiz com o filme na época foi exatamente o cenário onde cada um pensava unicamente em si próprio, cada um queria conseguir estocar o máximo de comida possível em suas casas. Ou seja, o filme tocava exatamente nesse ponto, no egoísmo, na falta de solidariedade humana, na empatia pelo próximo, sendo uma analogia perfeita sobre a nossa sociedade principalmente naquela época. "O Poço" me surpreendeu muito ao exibir uma metáfora explícita sobre a selvageria proporcionada pelo capitalismo e o comunismo a desigualdade social.
Curioso que "O Poço 2" não estava nos planos do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Porém, depois de 4 anos temos uma segunda parte da história, ou uma continuação, pois o título do filme leva o número 2, então podemos considerar um prelúdio ou sequência? O fato é que o longa-metragem é um prelúdio do primeiro filme, que nos mostra a primeira passagem da história que vimos no primeiro filme. Sendo assim temos o retorno dos personagens que morreram no filme anterior mas que aqui eles aparecem como a primeira parte de suas histórias - é um pouco confuso!
Dessa vez "O Poço 2" traz um foco maior na luta pela sobrevivência diante daquela rebelião que se formou contra o sistema imposto no local pela tal da "Revolução Solidária". Considerando todo o contexto temos a exibição de um sistema imperialista opressor, que impõe a lei onde cada pessoa deve comer apenas o seu próprio prato. E o curioso é o fato que mostra logo no início do filme, onde cada um dos detentos (se é que podemos considerá-los assim), faz uma exigência sobre ter diariamente a sua comida preferida. Logo podemos considerar que essa "Revolução Solidária" faz uma alusão ao nosso comportamento perante a nossa convivência em sociedade, às leis que existem e que temos que obedecê-las, e que muita das vezes descumprimos tais leis. Aquela velha história que se um pode descumprir uma lei o outro se sente no mesmo direito, onde logo temos o famoso efeito dominó.
Podemos considerar que o primeiro filme faz uma crítica ao classismo, ao capitalismo e a liberdade total, já nesse segundo temos uma crítica mais complexa que aborda o comunismo e o fanatismo religioso. Pois em dado momento observamos que eles castigam severamente os que descumprem tais leis (como a parte do braço), que é justamente uma interpretação de como as leis sagradas (ou bíblicas) são sempre interpretadas à favor de quem está impondo no momento. Também podemos considerar referências ao radicalismo extremo e o islamismo, que entra justamente a parte da mutilação de membros como punição para roubos, além da pena de morte de acordo com o Alcorão. Por outro lado também observamos uma alusão a Jesus Cristo, o messias, sobre a sua existência ter ocorrido ou não, como é discutido em uma determinada cena.
Claramente o filme é uma é reflexão sobre a riqueza e os poderes dentro da sociedade como um todo. Pois quando temos a presença daquela figura que impõe a lei local, logo temos um desafio sobre a noção de justiça, de comportamento, de solidariedade com os residentes locais, o que inflige justamente em um ambiente cruel e desumano a partir do momento da rebelião. O funcionamento do poço só serve para dar suporte ao argumento que ele propõe, pois de fato somos prisioneiros de nós mesmo e disso não podemos fugir. Seria o poço uma prisão pessoal? Uma prisão mental? A única saída é a morte? Temos várias perguntas que carecem de respostas!
Assim como no primeiro, ao término do filme ficamos com um milhão de perguntas e um milhão de possibilidades de interpretações na cabeça. Este é um dos maiores trunfos do filme, o seu poder em nos desafiar, em nos levar a reflexão profunda, de nos dar a livre opção de criarmos as nossas interpretações, de ser livre de regras, de obrigações, de rótulos, de cronologia dos acontecimentos. O próprio diretor afirmou que o filme não tem um lado certo ou errado, não existe um regra de interpretação, você é livre para criar às suas possibilidades e imaginações.
Como muitas pessoas consideram o primeiro filme excelente e este segundo ruim, eu vou por uma outra linha, eu vejo ambos os filmes dentro da mesma temática mas com propostas diferentes. Sendo assim eu considero "O Poço 2" como um bom filme, que consegue extrair ainda mais reflexões acerca da humanidade em contrapartida com o seu comportamento dentro de uma sociedade. Em como um ambiente muita das vezes pode moldar o comportamento humano em diferentes sentidos. "O Poço 2" toca em temas já discutidos no primeiro e ainda aborda outros pontos como o próprio extremismo e o fanatismo religioso. Se permita interpretar o filme como você quiser!
"Alien: Romulus" é dirigido por Fede Álvarez e escrito por Álvarez e Rodo Sayagues. O longa-metragem faz parte da franquia "Alien", porém com uma história independente que é ambientada entre os eventos de "Alien, o 8.º Passageiro" (1979) e "Aliens: O Resgate"(1986). O filme inicia com a história dos jovens colonos que eram oprimidos em seu planeta, quando decidem vasculhar uma estação espacial abandonada e iniciam uma busca em forma de exploração espacial como uma fuga daquele planeta-prisão. Dentro desse contexto os jovens colonos acabam descobrindo a forma de vida mais aterrorizante do universo e precisam lutar pela sobrevivência contra os xenomorfos.
É fato que a franquia "Alien" é uma das maiores franquias do terror Sci-fi da história do cinema, mas também é fato que desde a quadrilogia finalizada lá nos anos 90 que a franquia "Alien" está totalmente perdida e sem rumo. E digo mais: muito dessa perda de identidade está na conta do próprio Ridley Scott, a mente brilhante por trás do clássico de 1979, apesar que dentro da franquia eu considero "Aliens: O Resgate" não só como o melhor filme de toda a franquia como um dos melhores Sci-fi de todos os tempos.
Ridley Scott é o diretor responsável por "Prometheus" (2012) e "Alien: Covenant" (2017), que pra mim são dois filmes dentro do universo "Alien" que eu considero como desnecessários. Tudo bem que temos "Prometheus" como um prólogo de toda a história dos xenomorfos, onde o mesmo tenta explicar a sua verdadeira origem. Mas pra mim não funciona, não encaixa, e o mesmo vale para "Covenant", que consegue ser um pouco melhor que "Prometheus", o quê não quer dizer grande coisa.
"Alien: Romulus" é um verdadeiro resgate de identidade e essência da franquia, uma verdadeira volta às origens. E muito desse resgate se deve justamente ao fato de que dessa vez o Ridley Scott ficou somente na produção e a direção e roteiro à cargo da dupla Fede Álvarez e Rodo Sayagues. Contando entre direção e roteiro, Álvarez e Sayagues são os responsáveis pelo excelente remake de "A Morte do Demônio" (2013) e o ótimo "O Homem nas Trevas" (2016). Ambos possuem ótimas características e qualidades cinematográficas do gênero em questão, o que os qualificam como os mais indicados para trabalharem na direção e roteiro do sétimo filme da franquia "Alien".
O que mais me impressiona em "Alien: Romulus" é justamente o fato que Álvarez e Sayagues fizeram o simples porém muito bem feito, sem querer caminhar pelo caminho onde justamente o Ridley Scott caminhou nos longas de 2012 e 2017. Um dos maiores problemas tanto de "Prometheus" quanto de "Covenant" é justamente essa necessidade de contar toda a origem, de querer navegar entre a religião e a ciência, entre a criação e o criador, onde inevitavelmente o foco é mais na ficção científica do que no terror; mesmo que a franquia sempre esteve ligada nesses dois temas.
Quando eu digo que Álvarez e Sayagues fizeram o simples bem feito é exatamente a construção de um longa-metragem que funciona como um filme independente, sem precisar de amarras, de rótulos, onde possui a sua própria construção e destino, sabendo aonde quer chegar, sem a necessidade de explicar origem, onde o mesmo funciona como uma espécie de "Alien, o 8.º Passageiro" mais jovem. "Alien: Romulus" é um verdadeiro deleite para os fãs da velha guarda, pois tudo aqui foi muito bem pesquisado e projetado; como o fato do próprio diretor se consultar com o Ridley Scott e com o James Cameron (diretor do segundo filme). Sem falar que longa apresenta conexões e referências com todos os seis filmes anteriores e com a versão do videogame "Alien: Isolation" (2014); por sinal um jogo excelente.
"Alien: Romulus" consegue navegar entre o terror e a ficção científica, onde o mesmo dosa muito bem o terror psicológico clássico com elementos de ação, que são às marcas registradas de toda a franquia. E vale ressaltar que o diretor navega muito bem entre os dois primeiros filmes da franquia, que obviamente são os melhores até hoje, usando uma combinação perfeita entre a essência de suspense e terror do primeiro, com toda a atmosfera de tensão e ação do segundo. Temos aqui um verdadeiro Fan service, com várias cenas prestando uma verdadeira homenagem às cenas clássicas, sem falar nas várias formas de evolução do xenomorfo, que passa pela sua forma mais parasitária e ameaçadora, onde temos o icônico Facehugger, depois o Alien em sua forma adulta e letal, e por fim o híbrido, aquela espécie de Alien humanoide, o que me remeteu imediatamente ao clássico "Alien - A Ressurreição", ou talvez o que deveria ter sido.
O elenco mais jovem faz um básico bem feito, por mais que em sua grande maioria eles estivessem ali unicamente para morrerem, o que já é um clássico dos elencos da franquia. Dessa forma eu não vejo um elenco onde vamos nos apegar emocionalmente. E olha que entre o elenco temos a bela Isabela Merced, uma atriz que gosto muito. O destaque maior fica à cargo do David Jonsson com seu personagem humanoide sintético Andy, que é muito bom por sinal, e a competente Cailee Spaeny com sua personagem Rain Carradine. Longe de mim querer comparar, mas as partes finais da Rain enfrentando os Aliens com aquela metralhadora trouxe a ela uma pegada forte, guerreira, quase uma badass no estilo da icônica Ellen Ripley.
"Alien: Romulus" é muito bom, um grande acerto, um verdadeiro revival, um verdadeiro resgate às origens da franquia, sendo pra mim um dos melhores filmes do "Alien" desde a quadrilogia finalizada em 1997.
"É Assim Que Acaba" é dirigido por Justin Baldoni a partir de um roteiro de Christy Hall, baseado no romance de mesmo nome de 2016 da escritora norte-americana Colleen Hoover. O filme é estrelado por Blake Lively ao lado de Baldoni, Brandon Sklenar, Jenny Slate e Hasan Minhaj. A história segue a florista Lily Bloom (Blake Lively), cujo relacionamento problemático com o neurocirurgião Ryle Kincaid (Justin Baldoni) é agravado quando seu primeiro amor Atlas Corrigan (Brandon Sklenar) reaparece em sua vida.
Antes de mais nada eu preciso mencionar que eu sou muito fã da Colleen Hoover e a considero atualmente como uma das melhores escritoras sobre romance. Porém eu nunca fui fã de livros de romance, não é um gênero que me atrai, por isso soa até estranho eu ser fã da Colleen. Mas é aí que está o "x" da questão, muitas pessoas podem associar que a Colleen escreve o mais do mesmo, somente o velho e batido romance, aquele velho clichê água com açúcar que encontramos milhões por aí. Mas foi exatamente nesse ponto que eu virei fã da Colleen Hoover, por encontrar histórias que diferem totalmente da mesmice dos livros de romance, histórias estas que estão inseridas em um romance mas por um outro contexto, com um outra visão, que é justamente a abordagem que ela traz sobre pessoas, sobre a vida, sobre relacionamentos tóxicos e abusivos, sobre como somos fracos, falhos, submissos, complacentes, influenciáveis, sobre como cometemos erros e aprendemos com eles, sobre como somos capazes de perdoar, ou não.
Dito isto: "É Assim Que Acaba" virou um dos maiores fenômenos da internet e do TikTok (o famoso BookTok). O livro foi um verdadeiro arrasa-quarteirão virando um famoso best-seller, o que logo o levou a liderar a lista de best-sellers do New York Times. Colleen Hoover, que já era muito famosa no meio, foi alçada aos holofotes e as polêmicas, o que logo conquistou milhões de fãs e consequentemente de haters, fazendo um enorme sucesso principalmente entre o público adolescente.
Sobre o livro: "É Assim que acaba" traz uma história extremamente interessante, onde logo percebemos a importância e a relevância de todo o seu contexto. A obra é considerada pessoal e intimista onde aborda temas como violência doméstica e luto, gerando polêmicas e críticas. Temos uma história extremamente importante, relevante, arrasadora, ousada, inovadora, que exemplifica muito bem uma abordagem em torno da violência doméstica e do relacionamento abusivo e tóxico.
O ponto mais interessante de "É Assim que acaba" é o choque de realidade e o tapa na cara que ele nos dá. Pois quem aqui nunca julgou uma mulher que sofre com um relacionamento abusivo, doentio, tóxico e, principalmente, violento. Olhar de fora é muito fácil. Julgar de fora é muito fácil. Ser o dono da razão estando do lado de fora é muito fácil. O debate aqui é sobre um amor que custa caro demais. Um relacionamento que atinge proporções inimagináveis, tanto para o lado bom quanto para o lado ruim. O livro serve para nos abrir os olhos em vários casos, em várias vertentes, assim como serve para nos mostrar o lado de quem está do outro lado, para ajudar a criarmos empatia antes de exercermos o poder do julgamento. E um dos pontos mais curiosos é a forma como vemos cada personagem em sua determinada história, o que sempre levanta dúvidas e opiniões. Tem horas que compramos a defesa de cada um, tem horas que julgamos cada um, tem horas que desacreditamos das versões de cada um. É um história onde é difícil apontar a vítima e o vilão, e eu até acho que todos são vítimas e vilões de suas próprias histórias.
O livro por si só já é um livro magnífico, mas depois que você chega ao final e lê o epílogo, a história se transforma e ganha ainda mais peso, mais importância e mais relevância. Eu não tinha a dimensão dessa história, eu não fazia ideia no que foi baseada toda essa história. Poder entender ao final que a Colleen Hoover fez praticamente uma releitura da vida da sua mãe em contrapartida com a sua, o livro cresce muito mais em meu conceito.
O ponto curioso é exatamente a proporção que a obra da Colleen Hoover atingiu, logo se tornando aquele verdadeiro ame ou odeie, com uma base de elogios, críticas e principalmente o cancelamento da autora. Muitas pessoas cancelaram o livro por não gostarem da forma como a história aborda temas como violência doméstica e luto, logo a trama foi acusada de romantizar um relacionamento abusivo (o que eu discordo veementemente).
"É Assim que acaba" é o meu segundo livro preferido da Colleen Hoover (que já li duas vezes), ficando somente atrás de "Verity", porque este é uma verdadeira obra-prima da literatura e de toda a bibliografia da Colleen Hoover.
Sobre o filme: Com todo o sucesso conquistado pelo livro seria mais do natural que sua legião de fãs esperassem por uma adaptação cinematográfica. E ela veio com uma produção que envolvia principalmente um roteiro escrito pela própria Colleen Hoover, juntamente com a Christy Hall, roteirista do filme "Daddio", do ano passado. A produção do longa-metragem também envolve a Colleen Hoover, o Justin Baldoni (diretor de "A Cinco Passos de Você") e a Blake Lively (estrela de "Gossip Girl").
"É Assim que acaba" já começou a dar errado antes mesmo de ser lançado, logo na pré-produção. As filmagens do longa tiveram que ser pausada algumas vezes pelo fato da greve dos roteiristas dos Estados Unidos de 2023. O filme estava inicialmente agendado para ser lançado em 9 de fevereiro de 2024 nos Estados Unidos, pela Sony Pictures e depois para 21 de junho de 2024, mas teve seu lançamento adiado para 9 de agosto de 2024. A escalação de Blake Lively e Justin Baldoni como Lily e Ryle causou reação dos fãs porque no livro Lily tem 23 anos e Ryle tem 30, enquanto Lively tem 35 e Baldoni tem 39. No entanto, a Colleen Hoover explicou em uma entrevista que ela queria envelhecer os personagens do filme em um esforço para corrigir um erro que ela cometeu no livro. Ou seja, era fato que o filme já estava fadado ao fracasso.
Caso Justin Baldoni x Blake Lively: "É Assim que acaba" ficará para sempre marcado negativamente pelas inúmeras polêmicas envolvendo o caso. A produção do longa ficou atolada em controvérsias devido a disputas entre Blake Lively e Justin Baldoni, com a primeira recebendo críticas por não abordar os temas do filme de violência doméstica e abuso emocional durante sua turnê promocional. Em dezembro de 2024, Lively entrou com uma ação judicial contra Baldoni e sua produtora Wayfarer Studios, acusando-os de assédio sexual e intimidação, por criar um ambiente de trabalho hostil e retaliar contra ela por relatar má conduta. De acordo com o processo judicial, ela alegou que Baldoni improvisou beijos indesejados e discutiu sua vida sexual, causando-lhe sofrimento emocional. Negando as acusações, Baldoni processou o New York Times por difamação por apoiar o relato de Lively sobre os eventos e, mais tarde, processou Lively, seu marido Ryan Reynolds e sua publicitária Leslie Sloan por extorsão civil, difamação e invasão de privacidade. Sem falar em toda polêmica envolvendo o Marido da Blake, estrela de "Deadpool", que teve envolvimento direto na escrita do texto de roteiro de algumas cenas de sua esposa.
Durante sua turnê promocional do filme, Blake Lively recebeu críticas de usuários de mídia social que a acusaram de ser "surda" por exibir uma atitude "humorada e despreocupada" e não abordar explicitamente a experiência de sua personagem com violência doméstica e abuso. Os usuários também criticaram Lively por promover sua nova linha de cuidados com os cabelos, bem como sua marca de bebidas, durante a turnê de imprensa, e por encorajar os espectadores a usar roupas florais, o que alguns consideraram insensível à mensagem do filme em torno da violência doméstica.
Sobre a adaptação cinematográfica: Não posso negar que em questão de adaptação o filme é muito fiel ao livro, pois ele segue uma linha exata dos acontecimentos do livro, até com cenas e diálogos iguais, o que eu considero muito bom. Apesar de ficar bastante coisa de fora, que pra quem leu o livro vai sentir falta de inúmeras cenas até relevantes para o contexto final da história. Mas nesse caso eu até entendo, pois o livro é mais abrangente e mais detalhado, logo um filme de 2h não conseguiria detalhar tudo. Diante desse fato eu acredito que uma série se encaixaria muito melhor na proposta do que um filme, pois dessa forma grande parte da história do livro (que tem 366 páginas) poderia ser melhor abordada.
Porém, a adaptação é fiel ao livro, a mescla das cenas do presente e passado são boas e bem encaixadas durante os pontos cruciais da trama, mas os acontecimentos são muito rápidos, são muito capados de informações. Tudo é jogado na tela claramente com um senso de urgência, como se estivessem correndo contra o tempo para conseguir entregar toda a história até o final do tempo exigido. Falta emoção, falta sintonia, falta apego emocional, falta empatia, falta principalmente a química entre a Lily Bloom e o Ryle Kincaid. Este é um ponto crucial no filme, pois eu senti absolutamente zero de química entre a Blake Lively e o Justin Baldoni.
Está muito claro e perceptível a falta de química e de sintonia entre os atores, que é um ponto extremamente importante no livro e dita todo o ritmo de desenvolvimento da trama, e aqui eu senti falta. Parecia que a Lily não estava gostando do Ryle de verdade, parecia que ela não estava se envolvendo com ele ao ponto de estar realmente apaixonada como no livro, pelo contrário, parecia que ela estava sendo forçada a ficar com ele. Este é o ponto exato da química que eu mencionei, pois falta este envolvimento para que assim pudéssemos vivenciar um romance mais intenso e arrebatador como no livro. Aqui este romance carece de tudo e soa extremamente superficial e genérico.
Outro ponto: O tema principal do livro aborda principalmente a complexidade das relações tóxicas, explorando como o amor e o abuso muitas vezes coexistem, o que nos exemplifica sobre a construção do ciclo da violência doméstica. Este é um ponto que na minha opinião é muito bem abordado no livro, dando o peso e a proporção exata daqueles acontecimentos (por mais que muitos leitores discordam). O livro traz uma narrativa relevante sobre a força necessária para fazer as escolhas certas nas situações mais difíceis, e aqui esta abordagem praticamente não existe, pelo menos não na mesma dimensão.
O tema central que levanta vários debates e discursões no livro é exatamente a abordagem daquele relacionamento, que consiste em uma fase de conhecimento e aproximação, que logo progride para abusos físicos e verbais, se tornando um caso de relação tóxica e doentia com agressões tanto físicas como mentais e emocionais. E tudo isso envolvendo um trauma de infância e adolescência da Lily, que presenciou sua mãe sendo violentada várias vezes por seu pai. Este é o ponto, o fato da Lily estar em um relacionamento que consiste em repetir aquele ciclo de violência doméstica em sua família, e que ela precisa urgentemente tomar uma atitude para parar.
Ou seja, tudo isso que eu acabei de mencionar é de extrema importância e relevância no contexto do filme, porém tudo é muito vago, muito raso, muito falho, sem nenhum peso dramático e emocional. Tudo é disparado muito rápido, uma cena atrás da outra onde você não consegue sentir nenhum peso daquele relacionamento doentio e abusivo, tudo parece apenas uma briguinha corriqueira de um casal como tantos qualquer. Em nenhum momento o filme consegue abordar com propriedade o caso de um relacionamento tóxico e abusivo, pelo contrário, tudo é muito romantizado, tudo é muito superficial, tudo é muito leve, toda a trama sobre violência é ingênua demais.
Claramente o roteiro do filme desperdiça uma grande oportunidade de denúncia sobre estes acontecimentos, de dar o foco necessário sobre essas questões tão agravantes em nossa sociedade, e muito por "talvez" medo de se aprofundar em um tema tão delicado, tão sensível, em colocar o dedo nesse vespeiro, o que no meu conceito perde relevância ao amenizar e romantizar o caso, ficando apenas no terreno do romance e do drama. E vale ressaltar que você não precisa exibir cenas com violências gratuitas para exemplificar e abordar com mais propriedade e seriedade o tema em questão.
Sobre o elenco: Sinceramente eu não gostei do elenco, principalmente a Blake e o Justin, pois como eu já mencionei acima, este é um casal completamente superficial, genérico e sem nenhuma química. Eu considero a atuação da Blake muito ruim, sem nenhum peso, sem nenhuma emoção, sem nenhum carisma, ela parecia que estava no automático e com zero vontade de estar ali naquele momento. O Justin não fica atrás, pois ele também tem uma atuação muito fraca, muito caricata e muito canastrona. Já o Brandon Sklenar está na dele no papel do Atlas Corrigan. Não se destaca mas também não compromete. Gostei do Alex Neustaedter e da Isabela Ferrer, ambos fizeram o Atlas e a Lily jovem. Estes foram os únicos em que eu senti uma química que representava aquele nascimento de um grande amor, eles estiveram mais perto dos seus personagens do livro. O resto do elenco corre por fora e não tem muito o que se destacar; como no caso da Jenny Slate que fez a Allysa (melhor amiga da Lily e irmã do Ryle), o Hasan Minhaj que fez o Marshall (marido da Allysa) e a Amy Morton que fez a Jenny Bloom (mãe da Lily).
Apesar das críticas e polêmicas, "É Assim Que Acaba" foi um sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 351 milhões em todo o mundo contra um orçamento de US$ 25 milhões.
Com base no sucesso de bilheterias e pela existência de uma continuação da história da Lily Bloom, o livro "É assim que começa" (que eu também já li), seria natural que todos se perguntasse sobre uma possível continuação do filme. Após o lançamento do filme, o diretor Justin Baldoni reconheceu o potencial para uma adaptação cinematográfica do romance sequencial. No entanto, ele afirmou mais tarde que não retornaria em seu papel como diretor, sugerindo que Blake Lively dirigisse o filme. Diante das polêmicas e processos envolvendo o elenco, não sei seu eu apostaria em uma continuação, ainda mais sendo novamente protagonizado por Blake Lively e Justin Baldoni.
Por fim: Como livro, "É Assim Que Acaba" é excelente, é relevante, pois ele consegue transcender aquela barreira do romance e do drama, e acima de tudo, ele consegue abordar e passar a sua mensagem sobre um tema muito importante, principalmente por ser praticamente uma releitura verídica da vida da mãe da Colleen Hoover e consequentemente da sua. Já como filme infelizmente não deu certo, ficando muito aquém do que se esperava, até por contar com o própria Colleen Hoover no roteiro e produção, que era um ponto em que eu acreditava que pudesse dar certo. Porém, o que fica é apenas uma frustração com um sentimento vazio de uma obra com um tema tão importante mas que foi completamente desperdiçado. Infelizmente o longa-metragem não ficará marcado pela importância da sua mensagem e sim apenas pelas suas polêmicas nos bastidores. Uma pena!
Um Lugar Silencioso: Dia Um (A Quiet Place: Day One) 2024
"Um Lugar Silencioso: Dia Um" é escrito e dirigido por Michael Sarnoski (do excelente "PIG", de 2021), baseado em uma história que ele idealizou com John Krasinski (o criador da ideia original da franquia). O longa-metragem marca a terceira parte da série de filmes "Um Lugar Silencioso", servindo como um spin-off e prequela desse universo. O filme é estrelado por Lupita Nyong'o como uma mulher com uma doença terminal durante os estágios iniciais de uma invasão na cidade de Nova York por criaturas extraterrestres cegas com um sentido agudo de audição.
Em 2018 o John Krasinski impactou o mundo cinematográfico ao entregar um filme de terror apocalíptico que navegava no suspense, no drama, com uma dose de ficção científica. "Um Lugar Silencioso" apresentou um roteiro seguro, arrojado, inteligente, onde mesclava momentos de tensão, suspense, agonia, aflição, ao apostar em uma trama onde o silêncio absoluto era a grande arma para a sobrevivência. Eu considero "Um Lugar Silencioso" como um dos melhores filmes do ano de 2018.
O longa de Krasinski foi um verdadeiro arrasa-quarteirão, onde naturalmente viria uma continuação, e ela veio em 2021 com "Um Lugar Silencioso - Parte II". O segundo filme continua inserido no terror, no suspense, mantém aquele clima de tensão, de medo, de agonia, com ambientes claustrofóbicos que te obrigava a viver em um silêncio absoluto. No entanto o segundo filme perde um pouco da sua essência em relação ao primeiro, justamente por deixar de lado um pouco o clima de terror e suspense e partir diretamente para a ação. Mas de qualquer forma ainda assim é um bom filme e uma boa continuação, que não está no mesmo nível do primeiro mas ainda consegue manter a qualidade conquistada anteriormente.
Um ponto muito interessante e que me chamou atenção no primeiro filme, foi exatamente a forma como o Krasinski decidiu abordar o conteúdo das criaturas cegas. Ou seja, Krasinski nos entrega uma obra surpreendente cujo roteiro é bem trabalhado, bem objetivo, bem arquitetado, que vai direto ao ponto, sem se apegar em explicações detalhadas sobre a origem das criaturas, ou os motivos de tais acontecimentos. O que normalmente aconteceria em outras produções do gênero. Na minha opinião o primeiro filme acerta exatamente nesse ponto, pois eu não acho uma obrigatoriedade a explicação minuciosa do surgimento das criaturas. Já no segundo filme temos um breve prólogo que nos conta exatamente esta parte de como as criaturas chegaram na terra. Nessa introdução descobrimos como era a terra antes da invasão, e presenciamos a chegada das criaturas vindo do espaço.
Todo este planejamento que vimos no prólogo de "Um Lugar Silencioso - Parte II" já fazia parte da ideia de John Krasinski em expandir o universo de "Um Lugar Silencioso" para um possível spin-off da franquia. "Um Lugar Silencioso: Dia Um" é exatamente este planejamento de Krasinski, que além de criar a história do longa junto com o diretor Michael Sarnoski, ele participa diretamente da produção do filme. É bom deixar bem claro que "Um Lugar Silencioso: Dia Um" não é uma continuação do segundo filme, já que ambos mostram a chegada das criaturas na terra. A ideia aqui é justamente ser uma prequela do primeiro filme, ser o dia um, nos mostrar como ocorreu a chegada das criaturas.
Sendo bem sincero, eu não vejo a menor necessidade da existência dessa prequela que vai nos explicar o início de tudo (ou pelo menos tentar explicar né!). Mas como sempre acontece em filmes que logo viram franquias de sucesso, o prelúdio mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Como já está bem especificado no título do filme, a ideia é ser o dia um, o início de tudo, e mesmo eu achando desnecessário eu comprei a ideia desse spin-off, até porque o principal chamariz da produção era exatamente usar o tema central da cidade de Nova York para o início dos eventos catastróficos. Nesse ponto soa como interessante, afinal de contas estamos falando da cidade que nunca dorme, uma das cidades mais barulhentas de todo o planeta, onde o som emitido diariamente chega na casa dos 90 decibéis. Ou seja, como fazer calar uma cidade dessa? Como silenciar um ambiente desse? Dentro desse contexto, Nova York seria o local perfeito para a invasão das criaturas que são guiadas exatamente pelo som.
Dentro de todo este contexto que eu mencionei acima o longa tinha tudo para dar certo se seguisse o caminho certo, porém o roteiro é extremamente subaproveitado e decide seguir o mesmo caminho que já vimos anteriormente exibindo o mais do mesmo. Para inicio de conversa o subtítulo "Dia Um" é usado apenas no prólogo do filme, pois assim que as criaturas invadem Nova York e começam todos os ataques temos uma pequena passagem de tempo, onde nos mostra a personagem Sam com o rosto coberto de poeira nos escombros da cidade, ali já podemos considerar como o dia dois. Partindo desse princípio, "Um Lugar Silencioso: Dia Um" não inova a história em absolutamente nada, não apresenta nada de novo, não mostra nada de concreto sobre a origem das criaturas. Por outro lado eu até considero como uma falha gritante do roteiro, já que a ideia aqui era abordar a origem de tudo, porém logo após o início dos primeiros ataques a população já parece saber de todos os métodos de sobrevivência.
O longa-metragem falha grotescamente ao prometer contar o início de tudo e não contar absolutamente nada. Pois inicialmente não vemos como a população descobre que as criaturas são cegas e são guiadas apenas pelo som, exigindo assim que para manter a sobrevivência sejam obrigados a manter o silêncio absoluto. Após os primeiros ataques todo mundo já sabe certinho o que fazer para sobreviver. Acredito que faltou um planejamento de roteiro mais abrangente em torno das primeiras aparição das criaturas. Como o fato de explicar como surgiram as criaturas, da onde elas realmente vieram, se vieram por acidente ou foram enviadas por alguma outra entidade. Poderiam apresentar com mais detalhes como foi a reação governamental e das forças armadas americanas ao primeiro contato com as criaturas desconhecidas. Algo como a reação da NASA, dos líderes de governo, algo que fosse mais abrangente, mais coeso com a atual situação, que realmente nos desse dimensão e a proporção dos ataques e como surgiram.
Todas essas explicações acima eu considero extremamente desnecessárias dentro do universo de "Um Lugar Silencioso". Porém, se temos aqui o filme que é uma prequela da história, que promete ser o dia um de todos os acontecimentos, obrigatoriamente todos esses pontos (ou partes deles) deveriam ter sido abordados. O que fica é uma oportunidade desperdiçada de exploração desse universo.
O saldo final é que "Um Lugar Silencioso: Dia Um" sequer poderá ser considerado como uma prequela, pois o que ele apresenta é apenas o mais do mesmo, sendo apenas mais um capítulo desse universo que poderia facilmente se encaixar como um filme três ou qualquer outra história paralela contada sobre uma outra perspectiva de um outro local. O caminho que o longa decide seguir deixa de lado o suspense para mergulhar no drama da protagonista. De fato eu entendo a questão da doença terminal da Sam, onde necessariamente ao abordar este tema a trama inevitavelmente vai cair no drama, porém o que fica são apenas as motivações finais dela pelo estágio da sua doença, onde parece que ela já se entregou e ainda tenta sobreviver por mais alguns dias (como naquela questão da pizza). Também compreendo o surgimento daquele laço improvável entre a Sam e o Eric (Joseph Quinn), o que mostra que a química e a conexão humana pode ocorrer até em casos mais extremos da vida. Mas eu achei apenas como uma tentativa em vão, onde claramente soa mais superficial em decorrência da trama.
Eu adoro a Lupita Nyong'o, sou fã declarado dela desde aquela atuação estupenda em "12 Anos de Escravidão", que lhe rendeu dignamente o Oscar. Lupita segura o filme praticamente sozinha, sempre nos impressionando com suas excelentes expressões faciais, onde ela expõe o seu nível de tensão, de pânico e de agonia. Sem falar que toda aquela construção em torno da sua doença terminal faz com que ela mescle uma atuação que vai desde o pânico ao drama. Porém, por outro lado eu achei que esta construção paralela é muito vaga e não agrega em absolutamente nada. Lupita Nyong'o é uma atriz fantástica e talentosíssima e aqui ela é o grande chamariz da produção. Joseph Quinn ("Gladiador 2") faz um personagem bem mediano, que é usado apenas como um contraponto da personagem da Lupita, algo como a obrigatoriedade de ter alguém para que ela pudesse criar uma rápida conexão. Alex Wolff ("Oppenheimer") faz uma participação somente nos momentos iniciais do filme, e a melhor parte com certeza é a cena em que o Alien fica cara a cara com ele, o que me remete à uma cena clássica e icônica do "Alien 3". Poderia ser uma referência ao filme de 1992? Fica aí a curiosidade. E por fim temos mais uma vez a participação do Djimon Hounsou ("Capitã Marvel" e "Aquaman"), que retorna com seu personagem que apareceu pela a primeira vez no segundo filme.
Tecnicamente o filme mantém o nível de qualidade das cenas, que por sinal são bem construídas, como aquela cena inicial da invasão das criaturas. Este é um ponto que não podemos negar, às cenas são muito boas, mantém aquele clima de tensão e suspense misturado com o pânico. A direção do Michael Sarnoski é bem ajustada. A trilha sonora de Alexis Grapsas é mediana mas funciona dentro da proposta do filme. Porém, as trilhas dos filmes anteriores do Marco Beltrami eram muito melhores. O mesmo vale para a edição/mixagem, que aqui funciona mas nos filmes anteriores também eram melhores. Porém, a fotografia é muito boa e mantém o nível dos filmes anteriores.
No mais, "Um Lugar Silencioso: Dia Um" é bom filme que funciona dentro da proposta do universo da franquia. O problema aqui é quando este filme vem com a proposta de prequela, de ser o dia um, e no fim não entrega absolutamente nada de novo, sendo apenas o mais do mesmo. Por outro lado a bilheteria arrecadou mais de US$ 261 milhões em todo o mundo com um orçamento de US$ 67 milhões. E no fim o filme falha como prequela mas ainda consegue unificar a franquia, pois ele entrega exatamente o que já vimos nos filmes anteriores.
A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars) 2014
A Culpa é das Estrelas é dirigido por Josh Boone ("Os Novos Mutantes") a partir de um roteiro de Scott Neustadter ("Daisy Jones And The Six") e Michael H. Weber ("Artista do Desastre"), baseado no romance de 2012 de mesmo nome de John Green. A história é centrada em uma paciente com câncer de dezesseis anos, Hazel Grace Lancaster, interpretada por Shailene Woodley, forçada por seus pais a frequentar um grupo de apoio, onde ela conhece e posteriormente se apaixona por outro paciente com câncer, Augustus Waters, interpretado por Ansel Elgort.
"A culpa é das estrelas" é um livro que eu ganhei de uma amiga há algum tempo. Como o gênero do livro não é um dos meus estilos preferidos de leitura, eu acabei deixando ele guardado no fundo da minha estante de livros. Nesse final de ano eu decidi dar uma organizada na estante e acabei separando os livros que eu ainda não tinha lido, e resolvi dar uma chance para eles. Foi exatamente o que aconteceu com o livro de "A culpa é das estrelas", que estava guardado e eu sequer me lembrava da sua existência. Resolvi ler o livro e logo após assistir o filme, e não é que eu me surpreendi em um contexto que eu estava com zero expectativas.
Sobre o livro: O livro me surpreendeu, pois eu esperava uma história bem clichê, aquele típico romance adolescente mais do mesmo, que sempre encontramos por aí. Porém, com o passar das páginas a história foi me cativando e ficando cada vez mais interessante. É inegável que a história é sim um clichê, mas com elementos que discutem vários pontos que são importantes para a nossa vida no dia a dia.
Temos aqui a história de superação, de motivação, da ambição pela vida, de estar vivo, de querer viver os momentos da vida como se cada um fosse os últimos, e de fato poderia ser. Temos a história da Hazel e do Augustus, dois adolescentes que irão viver a maior aventura amorosa de suas vidas. O ponto em questão é realmente as condições de vida dos personagens, uma vez que eles possuem doenças terminais. Eu coloco a história como uma verdadeira carta de adeus, uma despedida da vida, que apesar de iniciarmos a história já sabendo da doença terminal da Hazel, mas queremos que ela lute pela vida, queremos que ela não desista da vida, não queremos que ela morra, e sim, queremos que ela viva esta sua história com o Augustus.
Eu diria que "A culpa é das estrelas" é um bom livro, ainda mais se você gosta do gênero em questão. E no final você também poderá se surpreender!
Sobre o filme: No início você pode achar que "A culpa é das estrelas" é mais voltado para o público adolescente, até por contar com um elenco formado por Shailene Woodley e Ansel Elgort. Por outro lado você também pode achar que o filme é mais um melodrama forçado, feito com o único intuito de arrancar às lágrimas do público a qualquer custo. Porém, isso foi um ponto que me surpreendeu tanto no livro quanto no filme. Pois em momento algum a história pesa a mão nessa questão, o tema central já é bem especificado desde o início. Desde o começo você já sabe das condições da doença da Hazel e do Augustus, que ambos são adolescentes que estão vivendo os seus últimos dias, por mais doloroso que isso possa parecer, mas ambos são vítimas de uma doença terminal.
Por mais que o tema central da história seja o câncer, o que fatalmente poderia levar o tom e o ritmo do filme para o melodrama, temos uma Hazel que enfrenta a sua doença, que age como qualquer adolescente, que se estressa com os pais, que se apaixona, que usa uma autoparódia como sua válvula de escape para o seu problema no dia a dia. O mesmo posso falar do Augustus, que é divertido, irreverente, sarcástico com sua própria perna amputada pela doença. Ou seja, ambos vivem as suas vidas como qualquer adolescente, usufruem dela como qualquer pessoa, por mais que eles tenham toda dificuldade imposta pela doença, por mais que eles saibam que tem pouco tempo de vida. Este é ponto que faz de "A culpa é das estrelas" um filme adolescente que trata de um tema sério de forma séria, sem a banalização, sem apelar para o melodrama, sem forçar a barra com uma autopiedade, sem querer propagar uma vitimização.
Um ponto que merece ser destacado e enaltecido, é exatamente a adaptação do livro de John Green. Que é feito com bastante fidelidade, fazendo o simples sem querer inventar demais, sem querer polemizar em cima da obra, sem querer criar teorias sobre o destino dos personagens. Ou seja, um exemplo a ser seguido quando se trata de adaptações literárias. Outro ponto que o diretor acerta, é sobre a construção das cenas que envolve a exposição da doença de ambos os personagens, onde temos cenas mais rápidas e objetivas, quando se trata do problema pulmonar da Hazel e a perna amputada do Augustus. Pois é fato que outro diretor optaria por usar estas cenas para criar impacto, para comover o público.
Sobre o elenco: Shailene Woodley ("Big Little Lies") entrega uma performance no ritmo certo de sua personagem, ela consegue dosar os momentos mais eufóricos (como na viagem para Amesterdã) com os momentos de maiores tristezas (como nos acontecimentos finais). Acredito que ela foi uma ótima escolha para dar vida para a história de Hazel Grace Lancaster. Ansel Elgort ("Em Ritmo de Fuga") é o contraponto perfeito para a personagem da Shailene, pois ambos conseguem adquirir uma química instantânea, ambos conseguem comprar a nossa atenção e consequentemente a nossa empatia. Ansel é um ator muito talentoso e versátil, ele consegue incorporar muto bem o personagem, ele conseguiu acertar o timing perfeito do Augustus do livro, que é justamente ser esse cara extrovertido, brincalhão, sempre com suas tiradas cômicas, mostrando que estar vivo e apaixonado pode ser maravilhoso, mesmo sabendo da sua condição. Nat Wolff ("Murder at Yellowstone City") é o Isaac, o melhor amigo cego de Augustus. Ele também consegue acertar o personagem com relação ao livro. Laura Dern ("Jurassic World: Domínio") está perfeita como a Frannie Lancaster, mãe de Hazel. Assim como o Sam Trammell ("Homeland"), o Michael Lancaster, pai de Hazel. Pra finalizar eu não poderia deixar de citar a presença ilustre do grande Willem Dafoe ("Pobres Criaturas") como Peter Van Houten. O personagem Peter Van Houten no livro eu achei bem questionável, por mais que no final descobrimos o real motivo para ele estar ali presente na história, mas como um todo eu achei o seu contexto um tanto quanto desnecessário. Porém, isso não anula a elegantérrima presença do Sr. Willem Dafoe.
Tecnicamente o filme é modesto mas é bem feito! A trilha sonora por sinal é bem modesta, mas é muito bem acertada, uma vez que a trilha sonora não apela para ritmos que fatalmente irá forçar a comoção do público. A fotografia é bem ajustada, é bem trabalhada juntamente com toda a cenografia.
Gostei da referência que o filme não deixou de fora, com relação ao uso do cigarro apagado do Augustus. Particularmente eu acredito que o cigarro é usado como uma metáfora para simbolizar o sufocamento da vida que é sentido pelo próprio Augustus.
"A culpa é das estrelas" ainda nos deixa algumas lições de vida: Por exemplo o fato de se colocarmos no lugar da Hazel, pois ela tem uma doença terminal, ela tem pouco tempo de vida, ela sabe que vai morrer, ela é pessimista, ela fica chateada, ela fica estressada, a vida não tem mais graça, a vida não tem mais cor, a vida não tem mais sentido, porém ela insiste em viver, ela quer estar viva, ela quer viver esse seu pouco tempo de vida com o Augustus, ela se apega ao seu último fio de esperança. Esta é uma reflexão que podemos fazer em nossas vidas, pois você não tem uma doença terminal como a Hazel, você não precisa carregar um balão de oxigênio o tempo todo, e mesmo assim você é pessimista, você não dá o devido valor por simplesmente estar vivo e sem um prazo para a sua vida acabar.
Podemos fazer várias reflexões: "Tudo é infinito enquanto dura! Não importa quanto tempo temos para aproveitar a vida. O importante é aproveitar e viver intensamente agora. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta."
"A felicidade está nos momentos e nas coisas simples. Basta saber olhar e saber valorizar cada momento."
"É fundamental aprendermos a dar valor a uma conversa, ao conforto de um abraço, ao sorriso, enfim coisas simples que fazem parte do nosso dia a dia. E que só precisam de um olhar mais atento e um coração simples para nos trazer felicidade."
"Mesmo em meio à dor, ver as coisas pelo lado positivo sempre ajuda. Não podemos permitir que os problemas dominem nossa vida ao ponto de perder a fé, a esperança e a alegria."
"Fugir da dor pode apenas prolongar o sentimento e trazer consequências à saúde e ao bem-estar. É importante saber encarar a dor e conviver com ela. Não podemos deixar que ela nos domine, mas podemos aprender com ela."
"São os sonhos que nos impulsionam a seguir em frente. E cada passo em direção a este sonho deve ser valorizado. Muitas vezes, a busca é que torna o encontro mais feliz. Sempre há um motivo para viver e correr atrás dos nossos sonhos."
"A culpa é das estrelas" me surpreendeu muito, eu jamais poderia imaginar que em um filme adolescente eu fosse encontrar os temas e os pontos que foram abordados. Posso afirmar que esta história em si vai muito além de uma doença, pois estamos diante de uma lição de superação, de amor, de carinho, de convivência, de descobrimentos, de revelações, de saber aproveitar o que se tem, enquanto se tem. Verdadeiramente é uma lição de vida diante do inevitável, a morte!
"Nem todo mundo que chega na sua vida, vem com a intenção de ficar. Da mesma forma, que nem todos os que se foram, queriam partir. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados. Não sabe como sou muito grata por nosso pequeno infinito."
Coringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux) 2024
"Coringa 2" é dirigido por Todd Phillips a partir de um roteiro que ele coescreveu com Scott Silver. Baseado em personagens da DC Comics, o longa-metragem é uma sequência direta de "Coringa" (2019). Joaquin Phoenix repete seu papel como Arthur Fleck/Coringa, e dessa vez ele conta com a presença de Lady Gaga como Harleen "Lee" Quinzel, seu interesse amoroso. "Coringa 2" traz um Arthur Fleck que no momento está internado em Arkham, aguardando julgamento por seus crimes como o Coringa, anteriormente. Ele continua com sua guerra pessoal ao ter que lidar com sua dupla identidade, quando se depara com o amor e encontra a música que sempre esteve dentro de si.
Em 2019 "Coringa" foi uma aposta da Warner, visto que o estúdio apostava em contar o princípio e o desenvolvimento de um vilão. Vilão este que geralmente sempre esteve ligado ao Batman, e aí que surge a pergunta: o Coringa pode existir sem o Batman? Dessa forma precisou de todo um estudo de personagem, contando com toda uma liberdade criativa, uma licença poética, para assim o personagem se desligar de outros personagens e criar a sua própria identidade e consequentemente o seu próprio universo. Tanto é que o longa traz uma verdadeira revolução dentro do universo cinematográfico do Coringa que já conhecemos, pois de fato o filme não tem ligações com as outras versões do personagem vistas anteriormente no cinema.
Dito isto, "Coringa" foi um verdadeiro marco na história das adaptações de HQ's para o cinema. Isso também se deu nas bilheterias, pois o orçamento do filme foi de US\$ 65 milhões e a bilheteria mundial ultrapassou US\$ 1 bilhão. Nos festivais de premiações, "Coringa" ganhou o Leão de Ouro no 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza. No Oscar 2020, "Coringa" liderou com 11 indicações, vencendo em Melhor Ator para Joaquin Phoenix e Melhor Trilha Sonora para Hildur Guðnadóttir.
Todo o sucesso de críticas do "Coringa" se deu justamente por ser um filme fora dos padrões das adaptações de HQ's. Pois o filme é cru, seco, niilista, intrínseco, peculiar, pertinente, que nos relata como uma sociedade decadente tem o poder de causar distúrbios mentais em uma pessoa e transformá-la em um vilão, ou em uma vítima. Posso ir ainda mais além ao destacar como o longa consegue capturar o espírito daquele momento da cidade e do governo em Gotham City, o que canaliza muitas frustrações e retrata uma sociedade fria, repleta de instituições decadentes, mantidas por um fio, que empurram Arthur Fleck para a insanidade e consequentemente para a violência.
Verdadeiramente "Coringa" fez um sucesso estrondoso e teve todos os méritos possíveis para isto, se consolidando como o melhor filme da DC/Warner. Eu coloco "Coringa" na prateleira das melhores adaptações de HQ's de todos os tempos, juntamente com obras como "Homem Aranha 2" (2004), "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008) e "Vingadores: Ultimato" (2019). E digo mais: "Coringa" deveria ter levado o Oscar de Melhor Filme em 2020. Eu gosto de "Parasita" (2019), é de fato excelente e traz abordagens ácidas e pertinentes como um todo, mas "Coringa" é mais imponente e se destaca como uma uma obra-prima revolucionária e categórica.
Diante de todos os fatos apresentados por "Coringa" lá em 2019, seria mais do natural que o estúdio apostasse em uma continuação, até pela bilheteria que o longa fez. Sendo assim o sarrafo subiu demais, às exceptivas do público subiram demais. Desde que foi anunciado oficialmente, "Coringa 2" causou um alvoroço se destacando como uma das sequências mais aguardadas da atualidade cinematográfica. E não era pra menos, visto que praticamente todos do filme anterior estariam de volta, isso incluindo o diretor Todd Phillips, o roteirista Scott Silver, o diretor de fotografia Lawrence Sher, o compositor Hildur Guðnadóttir, além, é claro, o monstruoso Joaquin Phoenix e a melhor e mais completa artista da atualidade, Lady Gaga. Ou seja, toda a receita para um novo sucesso estava pronta, era só fazer acontecer. Porém, não foi bem isso que aconteceu.
Para início de conversa, "Coringa 2" foi concebido como um filme independente, embora a própria Warner Bros. pretendesse que o filme lançasse uma nova série de filmes, algo como uma nova franquia de filmes com tons mais sombrios, que seria desenvolvido como a "DC Black". "Coringa 2" está sendo duramente criticado pelo público e pela crítica especializada, algo como uma não conexão com o público que foi algo imediato conquistado pelo filme anterior. O longa está sendo um verdadeiro fracasso nas bilheterias, já que seu orçamento esteve com custos de US$ 200 milhões e ele fez apenas US$ 40 milhões nos Estados Unidos, menos da metade do valor arrecadado em 2019 com o primeiro filme. Isso tem deixado a Warner extremante preocupada.
Como eu adoro o primeiro filme e o considero como uma verdadeira obra-prima do cinema, devo admitir que eu tinha uma grande expectativa com a realização dessa continuação. Porém: fiquei decepcionado como a grande parte do público? Sim e não (confuso? Eu sei! - rsrsrs). Para começar eu gostei do filme, não era exatamente o que eu estava esperando, mas também não é todo esse desastre que a crítica aponta. Porém, eu entendo grande parte das críticas, pois o diretor foi ousado demais em sua decisão, ele foi além do simples, além da sua zona de conforto, que seria entregar o básico que deu tanto certo no primeiro filme. Acredito que o Todd Phillips quis se desafiar e não quis jogar na segurança, que seria fazer o simples bem feito.
O primeiro "Coringa" ganhou uma enorme notoriedade e se destacou justamente pela forma como ele foi desenvolvido e entregado, sendo aquela representação de uma personalidade com uma mente deturpada e doentia que foi de certa forma corrompida pela sociedade e por traumas em seu passado, o que justamente desencadeou na transformação do Arthur Fleck no Coringa. Então, o que o público poderia de fato esperar de uma provável (ou improvável) continuação? Talvez a crítica fique pela a sequência que o roteiro decidiu seguir? Se passando grande parte com o julgamento pelos crimes cometidos pelo Arthur enquanto o Coringa. E aqui eu até acho que o roteiro força bastante nesse tema, o tribunal, e deixa grande parte do potencial do próprio Coringa de fora, Uma vez que às cenas do julgamento se tornam um pouco mornas demais e o Arthur transformado no Coringa fique mais à cargo da sua imaginação.
Por outro lado eu acredito que o que de fato pegou o público foi o tom empregado pelo próprio Todd Phillips em seu longa, que verdadeiramente podemos chamá-lo de suspense musical. Apesar do próprio Todd não considerar o seu filme como um musical, temos sim uma película musical no fim das contas. E nesse ponto pode entrar o preconceito do público com musicais (especificamente falando do público brasileiro). Os americanos amam musicais e não é à toa que tivemos "La La Land" (2017) ganhando o Oscar de Melhor Filme (ou não - rsrsrs!). Mas será que realmente era necessário um musical em "Coringa 2"?
Para falar dessa parte musical do filme eu preciso puxar o gancho da Lady Gaga, que pra mim é o principal estopim para despertar a faísca de Arthur Fleck para voltar ao Coringa. Gaga dá vida à Lee, uma paciente do Arkham State Hospital que fica obcecada por Arthur e forma um relacionamento romântico mortal com ele. Lee é manipuladora, persuasiva, invasiva, maquiavélica, contraditória e bastante letal. Ela é a responsável em manipular o Arthur o tempo todo, conseguindo mexer com sua mente e seu corpo, despertando seus sentimentos e desejos mais obscuros. Definitivamente Lee é um estudo de contradições, partindo do princípio que seu amor e sua obsessão pelo Arthur também são admiração e desgosto. A partir desse ponto Lee desperta a música dentro da alma do Arthur, o que de certa forma era algo que ele próprio desconhecia, ou não tinha total controle. É uma narrativa que navega diretamente no suspense, no drama, no psicológico, usando a música como uma válvula de escape para uma verdadeira loucura.
Acredito que a decisão do Todd Phillips em cenas musicais foi uma cartada justamente à loucura dos dois personagens em cena. Tanto que às partes musicais são apresentadas em um tom especificamente de delírios, alucinações, devaneios, fantasias, algo como uma fuga, um grito da alma. Por isso eu reitero que o diretor foi extremamente corajoso e ousado, em querer despertar estes sentimentos no público, indo por um caminho mais teatral e mais poético ao abordar um lado sombrio e obscuro, em mentes completamente fragmentadas.
Porém, foi uma decisão ousada e corajosa do diretor mas extremamente perigosa com a recepção do público. Pois grande parte das pessoas estavam esperando uma continuação mais objetiva do que superficial. Eu já tive muito preconceito com musicais, já virei a cara para vários filmes musicais, mas este foi um erro que eu concertei e hoje eu adoro musicais, claro que filtro alguns casos. Dessa forma eu não tenho nenhuma dificuldade com musicais, pelo contrário, é muito satisfatório assistir um belo musical - que é o caso de "Coringa 2", por que não? Mas o grande público não compactua da mesma opinião que a minha, sendo assim é normal que o público julgue o filme como monótono, arrastado e até superficial. Pode parecer uma ótima ideia a construção de um musical sombrio com o Coringa e a Harleen com um pano de fundo de violência, fantasia, alucinações e delírios. Porém, o sentimento que fica é de que tudo foi subaproveitado como um todo, uma vez que grande parte da trama se passa em um tribunal. Dessa forma é normal sentir a falta daquela energia carregada, perigosa e do caos do primeiro filme.
Outro ponto que pode gerar discursão é justamente o ponto que o roteiro levanta ao tentar desmistificar a ideia de que o Coringa é um personagem divertido, indo até naquela linha dos policiais sempre pedirem para o Arthur contar uma nova piada, que foi algo que ficou no ar durante todo o filme até a última cena exatamente na prisão - por sinal uma cena impactante! A própria Lee representa a imagem do pior dos fãs, que é caracterizado como aquele que quer que seu ídolo nunca saia do personagem, e finge desesperadamente ser algo que não é, como se isso fosse realmente bom ou necessário. Tradicionalmente podemos considerar que o Coringa que seduz a Harley Quinn para que ela se torne parte dele, já aqui este papel é invertido, uma vez que a Lee usa a própria mente do Coringa contra ele próprio.
Outro ponto bastante questionável é o fato do filme querer pregar uma desconstrução e descaracterização do Coringa. Como se desmontasse o mito de que o Coringa representa algo além da violência crua e desenfreada. Grande parte do roteiro tenta desesperadamente abordar o fato de que o Coringa é uma identidade/personalidade diferente do Arthur, como o próprio discurso de defesa apresentado no tribunal durante seu julgamento. Até dá pra considerar uma ideia sobre a possível desconstrução do personagem, mas a execução deixa muito a desejar.
Joaquin Phoenix novamente em uma atuação excelente, com uma entrega no personagem absurda. Tanto que na primeira cena você imediatamente já nota o quanto ele está magro, chega a ser pavoroso. Phoenix novamente nos entrega o seu Coringa sombrio, obscuro e mórbido em um nível de facetas impressionante. Já a Gaga é o contraponto ideal de Phoenix na trama, algo como um complemento ao seu personagem, e devo dizer que ela entrega uma atuação bastante condizente com a proposta da sua personagem. Gaga consegue passar aquela personalidade manipuladora, dominante e letal. Ela realmente tem essa veia para personagens mais desafiadores. Porém, eu acho que faltou um algo a mais em sua personagem, não sei se foi o tempo dela, talvez o desenvolvimento, talvez as suas canções que não foram tão memoráveis, mas eu fiquei com a sensação de um baita talento em até certo ponto desperdiçado. Harry Lawtey foi uma figura bastante interessante e intrigante com o seu promotor público assistente que planeja levar Arthur à justiça por seus crimes. Eu diria que foi uma participação bastante curiosa do Harvey Dent.
Tecnicamente temos vários pontos que merecem um destaque. Novamente a direção do Todd Phillips é acertada e condiz perfeitamente com toda sua ousadia e coragem. A trilha sonora de Hildur Guðnadóttir é excelente, assim como já havia sido no primeiro filme. Curioso que a trilha sonora do filme inclui 16 números musicais, a maioria deles covers de músicas pré-existentes, com uma música original escrita por Lady Gaga. Ela lançou um "álbum complementar", Harlequin, em 27 de setembro de 2024. A fotografia navega na mesma temática de decadência do filme anterior, o que transcende cada cena do filme, seja ela no tribunal, na penitenciária, ou até mesmo nas ruas. A direção de arte é um show à parte. É impressionante como a direção de arte consegue se encaixar perfeitamente dentro do padrão e da proposta do filme. Sem falar na montagem, edição, mixagem, figurinos e maquiagens, tudo minunciosamente muito bem estruturado. Tecnicamente e artisticamente o longa de Todd Phillips é novamente uma obra-prima!
Por fim: "Coringa 2" se encaixa perfeitamente naquele padrão do ame ou odeie. Infelizmente eu tenho que admitir que o filme não agrega em nada na história já traçada, não consegue caminhar com as próprias pernas e vive o tempo todo na sombra do anterior. Sendo assim eu também considero esta continuação como desnecessária, já que o primeiro filme é efetivamente autossuficiente em tudo que se propôs.
Eu confesso que tinha uma outra ideia sobre o filme, e de fato ele fugiu bastante das minhas expectativas. Porém, contudo, no entanto e todavia, eu reitero que gostei do filme, não o considero como esta bomba toda que todos estão considerando. Pelo contrário, eu ainda consigo enxergar uma abordagem sobre uma mente fragmentada, deturpada, distorcida, uma manifestação de uma doença mental em seu estado mais alterado e doentio. "Coringa 2" é ousado e corajoso, que entrega o discurso que ele quer contar e não necessariamente o que o público idealiza e almeja, mesmo que pra isso soe como uma obra que se apegue mais ao excêntrico, ao extravagante, exibindo o seu lado mais teatral e poético.
The Boy in the Striped Pyjamas (O Menino do Pijama Listrado) 2008
O longa é dirigido e roteirizado pelo britânico Mark Herman e baseado no livro de John Boyne, que foi escrito em 2006.
O Menino do Pijama Listrado narra a vida do pequenino Bruno (Asa Butterfield), um garoto de 8 anos que vive com sua família em Berlim nos anos 40 durante a segunda guerra mundial. Filho de um oficial nazista que assume um cargo de extrema importância dentro do partido, Bruno e sua família terá que se mudar para o campo. Um local totalmente vazio e sem qualquer interesse para uma criança de 8 anos, porém, Bruno descobrirá uma maneira de transformar a sua vida.
O Menino do Pijama Listrado é um filme belíssimo, ao mesmo tempo assustador e de muita importância para a humanidade nos dias de hoje. No início podemos observar uma linda Berlim dos anos 40 sendo contemplada pela inocência e pureza das crianças brincando e correndo pelas ruas com a maior felicidade possível. Isso que deixa o longa cada vez mais interessante, em nos apresentar uma felicidade em locais coloridos e cheio de vidas, ao mesmo tempo que se confronta com a dor e o desespero em um período de guerras com locais mórbidos, densos e mortos.
Devo destacar o roteiro do longa! Completamente fantástico e coeso. Somos direcionados pela perspectiva dos olhos do pequeno Bruno. O roteiro faz questão de apresentar a sua história pela forma que Bruno vê o seu mundo - seus amigos, sua família, seu dia a dia em sua nova casa e muito além disso, as suas novas descobertas e aventuras desse pequeno explorador. Ao mesmo tempo que o roteiro usa como pano de fundo os acontecimentos em "Auschwitz", durante a Segunda Guerra Mundial e o assombroso "Holocausto".
Nesse ponto que o roteiro me pegou! Eu sou um apaixonado e muito curioso por obras que retratam os terríveis acontecimentos que abalou a raça humana durante os períodos das guerras, principalmente quando toca no "Holocausto" e nos campos de concentrações de Judeus.
Com certeza eu vou achar o filme fantástico, pela sua maneira em apresentar uma criança completamente pura e inocente dentro de um mundo de crueldade e brutalidade causado pelos adultos. A forma doce e singela que Bruno só quer brincar e se divertir com seu novo amigo, sem a maldade e a arrogância que se instalou nos corações Nazistas (se é que eles tinham um). Essa é a magnitude do filme, essa é a magia do filme, em demonstrar que ninguém nasce odiando ninguém, as crianças eram puras e inocentes nos períodos das guerras. O ódio era enfiado em seus corações e em suas mentes na medida que iam crescendo e sendo ensinadas pelos tutores alemães (como o filme demonstra muito bem).
O período do "Holocausto" foi uma época muita dura e perversa para a história da humanidade, e tudo que hoje em dia retrata essa passagem em livros e filmes desperta a minha curiosidade (como a obra épica e magnífica de Steven Spielberg intitulada "A Lista de Schindler"). A forma violenta e brutal que o filme nos mostra a vida dos judeus nos campos de concentrações e nas casas servindo os alemães é de cortar o coração. A inocência e a pureza de uma criança era confrontada com a perversidade e a crueldade dos adultos. O filme é muito duro e muito doloroso quando paramos pra analisar cada detalhe que nos é passado. A inocência de uma criança é algo tão puro e singelo ao ponto de nos apresentar a cena em que Bruno diz para seu novo amigo, que não era justo ele está ali preso e sozinho, enquanto seu amigo brincava com as outras crianças todos os dias. Sem ao menos perceber o que aquilo tudo significava.
Não posso deixar de destacar a fotografia e a trilha sonora do filme, que foram pontos cruciais para todo encanto e beleza, se misturando com a dor e a tristeza. Uma fotografia estupenda e muito bem apresentada em cada foco e tomada de cena. A fotografia era a responsável em nos imergir em mundo colorido que facilmente nos representaria a vida em seu maior tom, ao mesmo tempo que facilmente nos assombrava e nos apavorava com a densidade morta do outro lado da cerca elétrica. O conhecidíssimo compositor James Horner é o grande responsável pela beleza e leveza dos mais profundos e tocantes sons de pianos que pairava sobre os momentos mais tensos da trama. Que trilha sonora encantadora, que esteve presente em quase 100% do filme.
Asa Butterfield é o grande nome do filme, sem dúvida ele foi o grande responsável em cativar a minha atenção de todas as formas possíveis. Bela atuação com a leveza e a pureza que só uma criança consegue ter. Vera Farmiga completa muito bem o seu papel de mãe, se destacando com uma impressionante cena final, com uma carga dramática incrível. David Thewlis está magnífico em sua atuação, ele consegue expor um general Nazista do mais alto e cruel nível, praticamente a figura do "Führer" (só lhe faltou o bigode). Amber Beattie faz a irmã mais velha de Bruno com muita segurança. Era realmente incrível como os alemães moldavam as cabeças das crianças e dos adolescentes desde cedo (como o filme destacou muito bem com Gretel de apenas 12 anos). E por fim Jack Scanlon, que nos demonstrava o medo e a angústia de uma criança de apenas 8 anos dentro de um uniforme (maior que ele) com uma numeração que infelizmente não tinha nada a ver com um simples pijama listrado.
O Menino do Pijama Listrado é mais uma belíssima obra que confronta um dos maiores sofrimentos da história da humanidade, com a pureza e a inocência de uma criança. Realmente é um relato muito forte, pesado, incômodo e assombroso, com uma das cenas finais mais triste da história do cinema. Até agora eu ainda não consegui me recuperar do foco daquela cena final com aquela trilha sonora de fundo que estraçalhou com o meu coração - Lágrimas!!! [03/07/2018] ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- É realmente muito curioso como às nossas opiniões mudam com o passar do tempo, e principalmente quando buscamos mais informações e embasamento acerca de tal assunto.
Este caso se encaixa perfeitamente aqui, pelo fato da época em que escrevi este texto acima eu ainda não ter lido o livro "O Menino do Pijama Listrado". Ou seja, tudo que eu presenciei no filme me impactou naquele momento unicamente pelo próprio filme e a forma como ele foi elaborado.
Outro ponto que me fez gostar muito do filme na época foi exatamente a minha paixão por obras que retratam esta passagem da humanidade - o Holocausto. Pelo fato de gostar muito de filmes com esta temática e de não ter lido o livro, eu não me atentei à detalhes cruciais dessa adaptação de Mark Herman.
Falando especificamente do livro: O livro é excelente, impecável, muito bem elaborado, muito bem escrito, onde ele consegue nos transmitir toda pureza e inocência do pequeno Bruno sendo confrontada com a perversidade e crueldade humana. O livro tem a capacidade de mergulharmos de cabeça naquela história, de entendermos e sentimos como tudo aquilo transcorria com uma forma bizarramente normal. O livro consegue ter uma história forte, pesada, incomoda, ao mesmo tempo sendo leve na medida certa. Lendo o livro você consegue sentir como tudo aquilo é realmente uma história alemã, tirada daquele período alemão, você praticamente compra a ideia de ser um livro alemão.
Como eu vejo o filme hoje: A adaptação é boa, é bem detalhada, grande parte das principais cenas do livro estão no filme, até os diálogos são praticamente os mesmos do livro. O filme consegue entregar aquele confronto entre a inocência com a brutalidade. Ou seja, o filme tem vários pontos positivos em relação ao livro. Porém, revendo o filme hoje após ter lido o livro eu pude constatar que o maior erro do filme está exatamente em seu idioma. É praticamente impossível comprar a ideia do filme se passar na Alemanha exatamente no período do Holocausto e ter um núcleo inteiramente se comunicando em inglês. Todo o elenco do filme falando em inglês deixou a obra muito superficial, genérica, sem aquele peso histórico que é sempre comprovado no livro. O elenco em si também sofre com este caso da língua, pois cada atuação é diretamente impactada com este quesito, que a meu ver foi o ponto crucial em deixar esta adaptação completamente fora de ritmo com o principal propósito de toda a história.
Aquela cena, logo no início, onde todos estão saudando o comandante em sua casa com o famigerado "heil hitler", quando todos estão conversando em inglês e curiosamente o hino alemão é tocado em um piano ao fundo, é o ápice dessa bizarrice na questão do idioma dessa adaptação.
Pode ser que a grande maioria que até leu o livro não irá se importar com este ponto, ou até mesmo pra quem assiste o filme dublado. Porém, no meu conceito é um erro crucial que impacta diretamente em toda adaptação cinematográfica.
E como quase sempre acontece em adaptações literárias, o livro "O Menino do Pijama Listrado" é melhor que o filme. Porém, a cena final do filme é mais angustiante que no livro!
O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic) 1977
"Exorcista II: O Herege" é dirigido por John Boorman (seu último filme foi "Rainha e País", de 2014), escrito por William Goodhart e Rospo Pallenberg. É o segundo filme da série de filmes "O Exorcista" e a sequência direta de "O Exorcista" (1973), e é estrelado por Linda Blair, Richard Burton, Louise Fletcher, Max von Sydow, Kitty Winn, Paul Henreid e James Earl Jones. Foi o último filme a contar com a participação do veterano ator Paul Henreid (o lendário Victor Laszlo de Casablanca, de 1942).
O longa-metragem é ambientado quatro anos após "O Exorcista", onde temos a icônica Regan MacNeil (Linda Blair), agora com 16 anos, que no momento está vivendo em Nova Iorque. Regan é uma linda adolescente que ainda está se recuperando de sua possessão demoníaca anterior, e que aparentemente não tem lembranças dos acontecimentos do passado. Porém, ela volta a ouvir vozes e ter delírios, o que logo é intermediado por uma psicanalista, que tenta ajudá-la de alguma forma, mas novamente ela precisará de um exorcista para afastar de vez o demônio que parece nunca ter saído de seu corpo.
Preciso contextualizar: Em novembro do ano passado eu li a obra-prima literária de William Peter Blatty lançado em 1971 - "O Exorcista". Como eu sempre soube e só comprovei após ter lido o livro, "O Exorcista" está na lista das maiores obras literárias do terror de todos os tempos. Uma obra categórica que impactou e assombrou com o seu poder em criar um verdadeiro embate entre a ciência e a fé, cuja história navega com bastante eficiência e relevância no ocultismo, no mistério, no suspense e no terror, e ainda cria todo um ambiente que desenvolve o drama, o trauma, a frustração e o sofrimento. O livro vai ainda mais além ao nos imergir em um verdadeiro terror psicológico, sobrenatural, algo que mexe com a nossa crença, com a nossa fé, que nos causa um desconforto mental e espiritual, pois esta obra não se trata apenas de uma simples história sobre o bem contra o mal, ou sobre Deus contra o Demônio, mas também sobre a renovação e o poder da fé.
Dito isto: Logo após ter lido o livro eu fui rever este clássico que eu simplesmente o considero como o maior filme de terror da história do cinema. E como eu sempre faço com uma franquia que foi adaptada de um livro, após a leitura eu vou conferir todas às obras tiradas desse universo. Sendo assim eu já revisitei o clássico, a série de duas temporadas de 2016, e agora chegou a hora de conferir todos os filmes lançados cronologicamente após "O Exorcista".
Sobre a produção de "Exorcista II: O Herege": Curioso que nem William Peter Blatty nem William Friedkin, o escritor/produtor e o diretor, respectivamente, do original "O Exorcista", tinham qualquer desejo de se envolverem em uma sequência do filme. Linda Blair concordou em reprisar seu papel de Regan MacNeil, mas se recusou a usar maquiagem de demônio (um duplo foi usado para as breves cenas de flashback retratando uma Regan demoníaca). Max von Sydow foi convencido por John Boorman a repetir o papel do Padre Merrin; ele inicialmente relutou em retornar por causa de suas preocupações com o impacto negativo do primeiro filme. Kitty Winn assinou contrato para reprisar o papel de Sharon Spencer nessa sequência depois que Ellen Burstyn se recusou terminantemente a retornar como Chris MacNeil.
Sobre o filme: "Exorcista II" é mundialmente considerado como a pior sequência de um filme que é amplamente considerado como uma obra-prima da história do cinema. Algo como o melhor filme de terror de todos os tempos com uma continuação como o pior filme de terror de todos os tempos. É fato que o longa enfrentou vários problemas durante sua produção; como o caso do diretor ficar doente durante as gravações, problemas nos sets de filmagens que incluíam filmagens supersaturadas e necessidade de refilmagens, o caso do editor do filme original, John Merritt, que abandonou a produção e foi substituído por Tom Priestley. As atrizes Kitty Winn e Louise Fletcher sofreram de infecções na vesícula durante a produção e filmagens. O longa ainda enfrentou várias crises de agendas entre produtor, diretor e editor, tanto que o roteirista Rospo Pallenberg dirigiu grande parte do filme e também reescreveu, sendo até creditado como o diretor da segunda unidade e um "associado criativo" (praticamente um diretor em cada metade do filme).
Sendo bem sincero: Eu sempre defendi que uma obra-prima é irretocável e autossuficiente, sem a menor necessidade de continuações e muito menos remakes, como é justamente o caso aqui. Portanto, antes mesmo de assistir "Exorcista II" eu já julgava que esta era aquela típica continuação completamente desnecessária, dispensável, inexplicável, injustificável e inaceitável, e eu não estava errado. O início do filme até soa promissor, quando temos aquela cena que traz um embate entre a crença do Padre e a defesa científica da psicanalista, algo como novamente o embate da possessão demoníaca contra a doença mental. Esta é uma cena interessante, quando temos em ação o trio formado por Regan MacNeil, o Padre Philip Lamon (Richard Burton) e a Dra. Gene Tuskin (Louise Fletcher). Por sinal, estes três são os únicos que ainda conseguem um pequeno destaque durante todo o filme.
Eu posso até considerar que inicialmente o roteiro começa no caminho certo, quando somos envolvidos pela presença da Regan agora como uma adolescente traumatizada pelos acontecimentos do seu passado, e que logo desperta a nossa curiosidade se ela realmente foi totalmente exorcizada do demônio. Dentro desse contexto temos novamente aquele velho embate entre a igreja e a ciência, cada um defendendo a sua tese e a sua crença. Dessa forma temos uma trama que inicia dentro da fantasia, da ficção científica, fazendo um contraponto com o suspense, o terror, e intensificando o drama dos personagens em questão. Portanto, mesmo considerando esta sequência como infundada e desnecessária, ela inicia no caminho certo, que é também o mesmo caminho do livro e do filme clássico. Porém, tudo que parecia estar indo bem logo desanda e cai vertiginosamente de qualidade e relevância.
É impressionante como o roteiro logo se perde, ficando muito claro que às ideias iniciais foram deixadas de lado e decidiram inventar outro roteiro, seguir por um outro caminho, saindo totalmente do suspense e do terror e mergulhando de cabeça em um delírio fictício, espalhafatoso, grotesco, sem pé e sem cabeça. De repente o roteiro parte do nada e vai para lugar nenhum, criando invenções mirabolantes para tentar explicar a nova presença demoníaca a partir de presenças de gafanhotos, viagem no tempo, flashbacks infundados, sonhos bizarros, fazendo uma grande mistura sem nenhum traço de ideia minimamente interessante ou coerente. Temos aqui uma trama completamente bagunçada, que não sabe para onde ir, a narrativa é totalmente perdida e não sabe que rumo quer tomar, a edição é toda capada com vários cortes abruptos e recolagem de cenas.
Está muito claro que na época decidiram fazer uma sequência do filme clássico unicamente para surfar no estrondoso sucesso do mesmo. Porém, se eles realmente quisessem usar o sucesso do filme clássico para lucrar (porque sinceramente eu não vejo outra explicação), que pelo menos fizessem as coisas direito, utilizassem a mesma equipe criativa, dessem margens para a coerência, que respeitassem a história e principalmente o legado do filme anterior. Mas nada disso acontece, porque nem a coerência em relação ao filme clássico eles souberam utilizar, já que ao tempo todo o roteiro defende somente a presença na história do passado do Padre Lankester Merrin (Max von Sydow) e sequer dá a mínima relevância ao Padre Damien Karras (Jason Miller), que foi o grande sacrificado na história para resolver a possessão da Regan.
Sobre o elenco: É difícil achar algo bom sobre o elenco que mereça um destaque positivo, por mais que anteriormente eu relatei que a Linda Blair, o Richard Burton e a Louise Fletcher foram os únicos que ainda tentaram alguma coisa com seus respectivos personagens. A Linda Blair com uma idade entre os 17/18 anos era lindíssima, porém em questão de atuação e interpretação parecia muito forçado e parecia que sempre lhe faltava algo. No início do filme ela faz a adolescente inocente, perdida, uma pobre coitada, depois ela tenta demonstrar superioridade durante a possessão, porém fica extremamente forçado, caricato demais, principalmente naquela cena que ela tenta seduzir o Padre, cena esta que eu realmente senti uma vergonha alheia. Por essas e outras que a carreira da Linda Blair nunca decolou, ficando unicamente estigmatizada pela garotinha de "O Exorcista". Richard Burton é aquele típico Padre perdido, desengonçado, todo atrapalhado, nitidamente ele sequer sabia o que ele estava fazendo ali. Enquanto a Louise Fletcher faz a linha da Dra. inteligente, autêntica, safa, ardilosa, mas também logo se perde em sua própria personagem e fica muito canastrona. O lendário ator Max von Sydow, que foi excelente no filme clássico, aqui teve pequenas participações como lembranças em forma de flashbacks. Já a atriz Kitty Winn é mais uma que foi jogada no meio dessa salada maluca que foi o roteiro desse filme.
Tecnicamente o filme também deixa a desejar. Especificamente falando da trilha sonora, que eu fiquei boquiaberto quando descobri que o compositor era simplesmente o gênio Ennio Morricone. De fato temos uma trilha sonora até ok, que não se destaca mas também não compromete, é uma trilha sonora que cumpre o seu papel, porém, se estamos falando de Ennio Morricone, nem ele conseguiu salvar esta bomba de filme. A cinematografia é muito pobre, onde até a fotografia é ruim. A direção de arte é decente, compõe cenários até convincentes com a temática do filme. Já a edição do filme é pavorosa, é ruim que chega a doer.
Curiosidades e recepção crítica: A direção de "Exorcista II" foi inicialmente oferecida a Stanley Kubrick, que recusou o projeto. Apenas depois John Boorman foi contactado para assumir a direção (Kubrick era gênio até para se livrar de bombas como esta). Mais curioso ainda é o fato que John Boorman chegou a se oferecer para dirigir "O Exorcista", mas terminou desistindo do projeto por considerar a história cruel demais (a história do primeiro é muito cruel e a do filme dele é babaca demais).
"Exorcista II" recebeu uma resposta fortemente negativa. Os relatórios indicaram que o filme inspirou risadas zombeteiras do público em sua estreia. O autor William Peter Blatty afirmou ter sido a primeira pessoa a começar a rir no cinema em que viu o filme. O diretor William Friedkin assistiu o filme e disse que era tão ruim quanto ver um acidente de trânsito na rua. Ele disse mais tarde que esta sequência diminuiu o valor do original e chamou-o de "a pior porcaria que já vi" e "uma maldita desgraça".
A Variety escreveu: "Exorcista II" não é tão bom quanto "O Exorcista". Na verdade não chega nem perto." O crítico de cinema da BBC, Mark Kermode, afirmou: " Exorcista II" é comprovadamente o pior filme já feito. Ele pegou o melhor filme já feito e o destruiu de uma forma que foi em um nível ridiculamente estúpida e em outro nível absolutamente imperdoável." Christopher Porterfield escreveu na Time Magazine : "A maioria das sequências oferece mais do mesmo. Esta oferece menos do mesmo. Mas o que resta é bobagem. Na verdade, a única síntese no filme é entre o ridículo e o involuntariamente cômico."
"Exorcista II" foi o maior lançamento diário da Warner Bros. O filme eventualmente arrecadou US$ 30.749.142 nos Estados Unidos, obtendo lucro, mas ainda assim decepcionante em comparação com o faturamento do filme original. Apesar de ganhar mais de US$ 30 milhões no mercado interno contra um orçamento de produção de US$ 14 milhões, a recepção negativa significou que o próximo filme da série "O Exorcista" não viria até "O Exorcista III" em 1990,13 anos depois.
A sequência da franquia de "O Exorcista" segue com "O Exorcista III", "O Exorcista - O Início" (2004), "Domínio: Prequela do Exorcista" (2005) e "O Exorcista - O Devoto" (2023).
Encerro reiterando que "Exorcista II: O Herege" é um filme que tem até um começo minimamente promissor, mas logo desanda vergonhosamente. Sendo assim eu tenho que ressaltar que o longa-metragem entra na lista das continuações de filmes clássicos que nunca deveriam ter existido.
"Bird Box Barcelona" é um filme espanhol original Netflix escrito e dirigido por Álex e David Pastor (ambos diretores e roteiristas dos longas "Vírus", de 2009, e "A Casa", de 2020). O longa-metragem é considerado um spin-off do filme "Bird Box" de 2018, que por sua vez é uma adaptação do romance de mesmo nome de Josh Malerman de 2014. O filme segue Sebastián (Mario Casas) e sua filha Anna (Alejandra Howard) iniciando sua própria grande aventura de sobrevivência em Barcelona depois que uma entidade de origem misteriosa aniquila a população mundial, fazendo com que aqueles que a observam tirem suas vidas.
Primeiramente eu preciso citar que eu já li os dois livros de Josh Malerman, "Bird Box" e "Malorie", e já assisti a adaptação da Netflix lá em dezembro de 2018 (e revi recentemente após ter terminado a leitura dos livros). Como já é de praxe, os livros que compõem o universo de "Bird Box" são muito bons, trazem histórias muito boas e são muito bem narrados. "Bird Box" por exemplo traz uma história envolvente, obscura, sombria, mórbida, pois estamos falando de um suspense onde muita das vezes se torna um terror psicológico, sobrenatural, sempre envolto no mistério, no medo, na agonia e na angustia. Já em "Malorie" não temos o mesmo suspense e o mesmo pânico do livro anterior, pois a história em si é mais pautada no acolhimento familiar, no drama familiar, que envolve justamente a Malorie e seus dois filhos já adolescentes. Porém, o que deixa os dois livros muito bons é o fato da história do primeiro ser uma continuação direta no segundo e ambas se interligarem.
Já o filme da Susanne Bier obviamente é adaptado do primeiro livro de Josh Malerman, que tem ali a sua essência, a sua ideia, a sua premissa, porém o filme segue por um outro caminho, tomando outro rumo e modificando grande parte da história em relação ao livro. Por mais que muitas coisas do livro foi deixado de fora no filme, o que naturalmente sempre acontece na maioria das adaptações. Porém, o filme conseguiu contar a história do livro, conseguiu entregar a proposta do livro, conseguiu transmitir um pouco do suspense, do mistério e do terror presentes no livro.
Obviamente por já ter lido os livros e já ter assistido ao filme, seria natural que eu me interessasse em assistir esta nova versão espanhola de "Bird Box", que chega ao catálogo da Netflix quase cinco anos depois da estreia daquele que foi um sucesso com a Sandra Bullock. "Bird Box Barcelona" é um filme independente de todo o universo anterior, ou seja, não é uma adaptação e sequer segue algum dos livros de Josh Malerman, e não é uma continuação do filme de 2018. A única coisa que interliga a história de "Bird Box Barcelona" é a sua temática, que obviamente é pautada no suspense e terror pós-apocalíptico presentes nesse universo. Outro ponto é o fato que nessa versão temos uma variação de localidade, cenários e línguas, e nos mostra como o caos estava instalado em todo o planeta atingindo também a Europa e não somente nos EUA. Porém, vale ressaltar que "Bird Box Barcelona" se torna mais interessante se você viu o primeiro filme, apesar de não haver nenhuma conexão direta com a história da personagem de Sandra Bullock, mas valerá pela experiência que você vai adquirir desse universo.
Quando eu decidi assistir "Bird Box Barcelona" eu já fui com zero expectativas, dessa forma aconteça o que acontecesse eu não iria me decepcionar, já que eu não esperava nada do filme, e foi dito e feito. Temos aqui mais um daquele velho caso de filme completamente desnecessário, infundado, dispensável, inexplicável, injustificável e inaceitável. O longa tenta recriar a mesma história só que dessa vez em um outro território com novos personagens, novos acontecimentos, apostando em um novo roteiro que irá diversificar uma parte da história que já conhecemos. Dessa vez a ameaça não é somente as criaturas que não podem serem vistas, mas temos novas variações que são denominadas como videntes, que são aquelas pessoas que já conseguiram olhar para as criaturas mas não enlouqueceram ao ponto de se suicidarem (como normalmente acontece). Aqueles que já viram as criaturas e sobreviveram são chamados de videntes, sendo assim esses videntes acreditam que, ao obrigarem as pessoas que ainda não viram as criaturas a verem, estão salvando suas almas.
Esta é a brilhante ideia que este roteiro decidiu se apegar para nos contar este spin-off do universo de "Bird Box". De acordo com a explicação dada sobre o que são esses videntes, temos o personagem Sebastián, que é um desses videntes. Sebastián é uma espécie de emissário das criaturas para fazer as pessoas olharem para elas e se matarem, e cada vez que ele mostra as criaturas a uma pessoa, quando elas se matam, ele vê uma luz saindo de dentro dela e subindo para o céu.
Logo no início do filme temos uma cena em que o Sebastián é atacado por uma gangue de ladrões cegos, e logo após o ataque ele pensa em revidar contra aquela gangue. No entanto, sua filha Anna o faz mudar de ideia, o que inicialmente nos faz pensar que ela agiu assim unicamente pensando em proteger o pai. Com o passar do tempo nos é revelado que a esposa de Sebastián havia morrido em um acidente de carro logo no começo desse apocalipse, e sua filha Anna havia sido capturada pelo Padre Esteban (Leonardo Sbaraglia), o líder dos videntes, que força Anna a ver as criaturas. Diante dessa situação a filha de Sebastián tira a própria vida se jogando de cima de um prédio e ele por sua vez, passa a enxergar as criaturas como anjos. Sendo assim, desde o início só o Sebastián conseguia ver a Anna, já que ela estava morta e era uma das criaturas que usava o Sebastián para atrair as próximas vítimas para esse sistema de purificação de almas.
Anna coloca o Sebastián como um pastor de libertação das ovelhas perdidas na missão de purificação de suas almas. Ele é o libertador das almas pecadoras impuras, e quando elas se matam elas estão livres e perdoadas. E o mais bizarro foi a forma que usaram para convencer o Sebastián nessa sua missão de salvação, que assim ele teria a oportunidade de se reunir outra vez com a sua família que havia morrido. Porém, ele logo começa a desconfiar de sua missão e se questionar se essas criaturas são mesmo anjos. Por fim o Sebastián se questiona se ele é realmente o Pastor ou o lobo, o que o faz entrar em uma crise de consciência após ele ver o Octavio (Diego Calva) tirando sua própria vida e aquela famosa luz não sair do corpo dele. Sendo assim ele decidi ajudar a Claire (Georgina Campbell) e a Sofia (Naila Schuberth) a chegarem por meio do teleférico ao Montjuïc, um local de sobreviventes monitorados pelo governo, e também é o lugar para onde a mãe de Sofia pretendia leva-lá antes de se separar dela.
No final do filme vemos que os sobreviventes de Montjuïc estão coletando sangue de videntes e inserindo em ratos de laboratório para criar uma vacina contra os efeitos que as criaturas tem nos seres humanos. Ou seja, é aquele famoso final clichê de filmes pós-apocalípticos, que mistura "Bird Box" com "Eu Sou A Lenda" (2007).
Sendo bem sincero, o filme "Bird Box" só fez o sucesso que fez em sua época unicamente pela presença da protagonista que era ninguém menos que a Sandra Bullock, que é uma atriz extremamente conhecida e renomada (além de outros nomes do elenco que também são conhecidos e renomados). Agora uma coisa que eu não entendo, é o fato do filme ter feito o sucesso que fez, com base em críticas positivas e negativas, e não pegarem o segundo livro como base de adaptação para uma sequência direta do primeiro filme, o que seria o certo a se fazer, uma vez que ainda cogitavam uma sequência para o universo de "Bird Box". A Netflix simplesmente decidi abandonar esta opção, que seria a mais inteligente, e trazer um spin-off do universo de "Bird Box" em Barcelona com um elenco mais desconhecido, em relação ao elenco do primeiro filme.
Sinceramente eu não sei o que se passa na cabeça dos produtores da Netflix, para decidir idealizar um novo filme de "Bird Box" totalmente fora dos moldes do seu antecessor. Decidiram não contratar a Sandra Bullock novamente para dar continuidade para sua personagem Malorie dentro de uma adaptação do seu próprio livro que leva o seu nome, e projetaram um "Bird Box" em Barcelona agora com o protagonista sendo o ator espanhol Mário Casas ("Um Contratempo", de 2016).
Apesar de ter gostado bastante dos dois livros do universo de "Bird Box", e reconhecer que a adaptação de 2018 não é inteiramente ruim; este "Bird Box Barcelona" é simplesmente horrível, péssimo, grotesco, pavoroso, que entra na lista daquelas famosas bombas que só a Netflix consegue projetar. Um filme sem pé e sem cabeça, que parte do nada para lugar nenhum, com um roteiro absurdamente infundado, estúpido, incoerente, mal escrito, mal pensado, mal idealizado, que tenta surpreender ao trazer esta espécie de seita para a história na tentativa de causar impacto. O roteiro de "Bird Box Barcelona" é um roteiro completamente falho, sem substância, artificial, genérico, clichê, vazio, sem fundamento, onde incialmente temos um personagem que facilmente podemos encarar como o vilão daquela história, mas depois por mais que o roteiro queira te enfiar goela abaixo os propósitos desse personagem para ele estar agindo assim, você ainda não consegue comprar a ideia do roteiro e ainda termina o considerando o vilão da história.
"Bird Box Barcelona" não funciona como terror, não funciona como suspense, não funciona como drama, não funciona como mistério, não funciona como um sci-fi, não consegue te levar ao terro psicológico, não te deixa incomodado. Ao longo do filme ele não te causa nenhuma reação, você pouco está ligando para a história, para os personagens, por sinal os personagens tem uma alta carga de burrice e estupidez. Sem falar que aqui é aquele caso em que você não cria nenhuma empatia por ninguém, não simpatiza por ninguém, não se importa por ninguém (ao contrário do filme de 2018, onde em todos os momentos eu me pegava sufocado e preocupado com as crianças da Malorie), se todo elenco morrer você irá esboçar zero reação, por mais que ainda tenha a personagem Sofia.
Não tenho absolutamente nada a destacar do elenco de "Bird Box Barcelona", muito pelo contrário, eu considero um elenco péssimo, genérico, que não entregaram nada em questão de atuação. E olha que esta é uma temática que poderia até facilitar uma boa interpretação dramática mais voltada para o terror. Porém, nem assim nenhum dos atores e atrizes se sobressaíram que mereçam um pequeno destaque aqui, pois sinceramente me pareciam mais atuações automáticas. O ator Mário Casas foi o que mais se mostrou esforçado, e teve algumas cenas até interessantes aqui e acolá, mas como um todo eu achei a sua atuação muito caricata. Mário Casas é um bom ator, mas este personagem é muito ruim.
Tecnicamente até dá para destacar os cenários pós-apocalípticos, que ficaram muito bons e deu toda a essência que o longa precisava para uma história dentro dessa temática. O mesmo vale para a fotografia, que também conseguiu se destacar. Não posso dizer o mesmo da trilha sonora, já que eu achei bem genérica. A direção dos irmãos Pastor é bem modesta, acredito que faltou um pouco mais de ousadia para eles. A montagem e edição do filme é muito sofrível, pois a forma como idealizaram a mescla entre fatos presentes e fatos em flashbacks ficou extremamente ruim. E o longa-metragem ainda contou com a Susanne Bier (diretora do primeiro filme) na produção, juntamente com o autor Josh Malerman, que mesmo que o filme não tenha seguido o seu livro, mas ele participou do desenvolvimento do roteiro.
Por fim: "Bird Box Barcelona" é um filme completamente desnecessário e dispensável, que sequer deveria ter existido. Acredito que a Netflix quis lucrar mais um pouco dessa fonte e optou por reviver este universo com uma produção completamente ridícula e pavorosa. Porém, vindo da Netflix podemos esperar produções desse nível de qualidade cinematográfica, isso já não me surpreende mais. Agora é aguardar se vão decidir adaptar o livro "Malorie".
Eu encerro afirmando que "Bird Box Barcelona" é tão ruim, tão falho, tão grotesco, tão desnecessário, ao ponto de você considerar o primeiro filme como uma obra-prima da adaptação literária, caso você queira compará-lo com este aqui.
Caixa de Pássaros é um filme original Netflix baseado na obra escrita por Josh Malerman em 2014. Dirigido por Susanne Bier (Serena), roteirizado por Eric Heisserer (A Chegada) e estrelado por Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, BD Wong, Sarah Paulson, Colson Baker e John Malkovich.
O longa nos leva para um mundo pós-apocalíptico onde Malorie (Sandra Bullock) e seus dois filhos buscam refúgio atravessando um rio em um barco. Em todos os momentos eles precisam ficar com os olhos vendados, porque com um simples olhar as pessoas ficam extremamente violentas sendo levadas a cometerem suicídios.
Eu fiquei bastante empolgado quando comecei acompanhar o anúncio do filme, juntamente com os trailers e até os cartazes expostos nos relógios da cidade. Tudo me levava a acreditar que poderia ser um ótimo thriller de terror e suspense, e lendo a sinopse esse fato ficava cada vez mais em evidência. O longa tem uma premissa muito boa, já começa despertando a nossa curiosidade e nos instigando a querer respostas sobre o que de fato está acontecendo, tinha todos os ingredientes necessários para se tornar um ótimo filme e tinha tudo para dar certo, porém não deu.
Eu não li o livro e pelo o que eu vi em alguns comentários, o livro parece ser melhor que o filme (ou talvez não), e de certa forma eu já esperava por isso. Assim como no filme "Serena", me parece que a diretora Susanne Bier não é muito boa com adaptações. Bird Box cria um clima interessante para sua história, nos conduz para um ambiente intrigante, cuja fotografia funciona com perfeição sobre uma floresta acinzentada e densa pela névoa. E assim como no ótimo filme "Um Lugar Silencioso", que não se podia fazer barulhos, aqui não se pode olhar, dessa forma que o roteiro cria um situação bastante interessante, aguçando a audição e o tato, ou seja, as únicas armas para a sobrevivência.
Assistindo Bird Box fica impossível não associá-lo com o péssimo filme do Shyamalan "Fim dos Tempos", onde também aconteciam mortes gratuitas pra tentar impactar o público. O fato de não ter uma explicação plausível sobre o que aconteceu no planeta e o que, ou quem leva as pessoas a cometerem tais atos não me incomodou, mas não me entregou o que eu esperava. O filme parte do nada para lugar nenhum, sem falar que todo clímax se perde ao ficar entrando em constantes flashbacks pra tentar explicar toda história. Foi algo que me incomodou e subestimou a minha inteligência, sem falar que todo elenco foi reunido e jogados dentro daquela casa pra simplesmente morrerem, totalmente clichê.
O roteiro de Eric Heisserer é mastigado demais, explicadinho demais, de certa forma até sem necessidades. É outro ponto que Susanne Bier falha, ao tentar se explicar toda hora, muita das vezes até repetindo cenas e falas, como se ela e o roteirista duvidassem da nossa capacidade de inteligência, nos tirando a graça da surpresa. Podemos associar como se aquelas criaturas (ou o que quer que seja) fossem algum tipo de alegorias a algum problema pelo qual as pessoas estavam passando no momento, como a depressão, ou alguma outra do tipo. Mas feito de uma forma muita vaga, muito rasa, sem coesão, sem nos fazer se importar com as mortes, sem criarmos empatia por ninguém, nem mesmo a própria Sandra Bullock consegue arrancar esses sentimentos de nós.
Outro ponto que me incomodou demais em Bird Box foi o elenco, completamente e totalmente desnecessário! E olha que temos ótimos nomes, mas nenhum faz diferença, sendo que todos foram jogados lá para unicamente morrerem, como se por algum motivo isso fosse nos impressionar. Temos a Sarah Paulson, uma ótima atriz que nos entregou uma atuação estupenda em "12 Anos de Escravidão", mas aqui ela é totalmente mal aproveitada, totalmente aleatória, sem falar que o tempo de tela dela foi o que mais me impressionou. O grande John Malkovich é outro que chega a ser cômico a sua participação em Bird Box, sem necessidade nenhuma, outro completamente mal aproveitado. Assim como a Jacki Weaver, o Lil Rel Howery, a Danielle Macdonald e até o rapper americano Machine Gun Kelly, todos mal aproveitados e mal escritos por culpa do péssimo roteiro. Talvez o único que conseguiu levar seu personagem mais adiante, criando até um certo vínculo com a Sandra Bullock, foi o ator Trevante Rhodes (Moonlight: Sob a Luz do Luar), mas também não podemos esperar grandes coisas.
Sandra Bullock está bastante esforçada no filme, podemos ver o quanto ela se doa para a sua personagem, em até certo ponto fica muito interessante, ela consegue nos entregar uma boa atuação. Contracenar com crianças de 5 anos e em grande parte do tempo com os olhos vendados não deve ser fácil, ainda mais tendo que tomar uma postura mais rígida e mais dura em algumas cenas. Como a própria Sandra Bullock destacou em entrevistas em sua recente passagem pelo Brasil, colocando a sua própria experiência como mãe de duas crianças pequenas. Na minha opinião Sandra Bullock entrega um bom trabalho, nada fora do comum, ou surpreendente, algo que já não tenhamos visto, mas é a única que ainda se salva. Sem falar nas duas crianças fofas, que sim, por elas criamos empatia e torcemos o tempo todo.
Mais uma vez eu me decepciono com um filme da Susanne Bier, acho que criei expectativas demais e no final o que sobrou não foi o resultado esperado. Sem falar que o próprio final do filme é outro ponto controverso, não gostei da forma tão otimista e amorosa como foi entregue - tantas mortes pra nada?! [22/12/2018] --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- ⚠ TEM SPOILERS DO LIVRO E DO FILME ⚠
Bem, na época em que escrevi este texto acima eu não tinha lido o livro e toda minha opinião foi unicamente baseada no filme.
Revendo o filme hoje e já ter lido o livro, minha opinião mudou em partes:
Sobre o livro: É impressionante como a história é boa, é bem narrada, é muito envolvente, com uma leitura gostosa, fluida, que te prende em cada página aguçando a sua vontade de ir cada vez mais além. Naturalmente eu já conhecia a história (ou a forma como ela foi adaptada), mas nem por isso a própria história soa desinteressante. Muito pelo contrário, o mistério está muito bem presente, assim como o suspense, o medo, a agonia, a angustia, pois sofremos juntos da Malorie tudo que ela passa e enfrenta em sua verdadeira jornada em busca de sobrevivência em um mudo caótico e totalmente desconhecido.
Sobre a adaptação cinematográfica: O filme obviamente é adaptado do livro de Josh Malerman, tem ali a sua essência, a sua ideia, a sua premissa, porém o filme segue por um outro caminho, modificando grande parte da história em relação ao livro.
Muita coisa (muita mesmo) do livro foi deixado de fora, o que naturalmente sempre acontece na maioria das adaptações. Porém, o que me incomodou é que o filme usa muito a sua liberdade criativa e modifica pontos cruciais da história em relação ao livro. Nesse ponto eu discordo veementemente dos responsáveis pela adaptação, porque uma coisa é você usar a sua liberdade criativa e modificar alguns pontos durante a história, outra coisa é você mudar a trajetória da história, de alguns personagens, retirar personagens que no livro é extremamente importante no contexto, e foi tudo isso que aconteceu aqui.
O personagem Dom, que no livro é extremamente importante na virada da história em relação ao Gary (Tom Hollander), no filme ele simplesmente não existe, o Gary tem as suas próprias atitudes e decisões. Aqui eu já considero um erro grotesco na adaptação. O caso do personagem Douglas (John Malkovich), que no filme ele está vivo o tempo todo dentro da casa, tirando assim o grande impacto que a sua história teria sobre os sobreviventes que ali estavam, já que no livro ele já estava morto e tinha toda uma história por trás. O Gary mesmo é totalmente diferente do livro, seu personagem no filme não faz o menor sentido, pois ficou faltando a explicação do porque ele agia daquela forma, já que no livro isso tudo é muito bem explicado.
A parte final em que o Tom (Trevante Rhodes) sobrevive e segue com a Malorie e as crianças não existe no livro, ele é morto na casa junto com os outros. Esta parte foi umas das várias mudanças em relação ao livro, porém aqui eu já achei interessante, pois deu mais coragem e ambição para a Malorie seguir acreditando na possível sobrevivência com as crianças.
Outro ponto: No meu texto acima eu tinha mencionado o elenco estrelado que foram mal utilizados e jogados na casa unicamente para morrer. Até então eu não sabia que grande parte das suas trajetórias são tiradas do livro, portanto eles realmente estão ali unicamente para morrerem mesmo. Agora o que eu acho desnecessário, é o fato de tentarem comprar o nosso interesse com nomes famosos dentro do cenário hollywoodiano, onde se encaixa até a própria Sandra Bullock. Mas ok né, isso já é costumeiro quando se trata de vender um material cinematográfico até então desconhecido.
No geral eu prefiro a forma como a história é contada no livro, até por obviamente ser mais detalhada e abrangente. Por sinal, a história só é muito boa porque é muito bem contada em cada página. Onde eu acho um acerto a forma como foi diversificada ambas às histórias mesclando passado e presente. O livro também testa o poder da sua fé, da sua crença e da sua ambição pela sobrevivência. Além de levantar vários questionamentos durante toda a leitura; questionamentos esses como: durante toda a minha leitura eu ficava pensando naquela odisseia da Malorie. Será que valia realmente todo aquele sacrifício para se manter vivo em um mundo em que você sabe que nunca mais será o mesmo? Até que ponto conseguimos manter a nossa mente saudável, lúcida, para não entrarmos em um estado de loucura e perda da sanidade? No que se apegaríamos? Em quem acreditaríamos? Ainda existe um Deus?
E aqui eu já acho um grande acerto tanto do livro quanto do filme, em não revelar o que aconteceu e quem são as criaturas, pois tudo envolto em nosso imaginário soa ainda mais temível e desconfortante.
A parte final do filme, em que a Malorie se perde das crianças na floresta e que tem aquela voz pedindo para as crianças tirarem a venda, também não existe no livro. Porém, eu achei uma parte bem feita de acordo com todo o contexto da história do filme (não do livro). Nessa cena a Malorie expressa todo o seu desespero de mãe e faz um belo discurso motivacional de sobrevivência para vida baseado no que ela e as próprias crianças viveram ao lado do Tom. Também gostei dessa mudança.
Considerações finais do livro: O livro é excelente, tem uma história muito boa, muito bem contada, que nos faz sentir na pele toda a trajetória de sobrevivência da Malorie e suas crianças. Sem falar que a história no livro é muito mais pesada, com cenas muito mais impactantes e sufocantes. Posso destacar a cena do parto da Malorie e da Olympia, que é extremamente agonizante, daquelas que incomoda, que você chega a parar por um momento a leitura para respirar. Todos os acontecimentos durante e após esta cena são muito tristes e dolorosos.
Considerações finais do filme: Hoje eu mudei bastante a minha opinião em relação ao que eu escrevi no texto de 2018 acima. Hoje, após ter lido o livro, eu não considero o filme como essa tragédia toda que eu havia considerado. Por mais que a adaptação seja muito falha e erre bastante em suas mudanças, eu acho que no geral o filme conseguiu contar a história do livro, conseguiu entregar a proposta do livro, conseguiu transmitir um pouco do suspense, do mistério e do terror do livro.
Dessa forma, antes eu considerava este filme como horrível, hoje eu já o considero como bom e aceitável dentro da sua proposta.
A Sociedade da Neve (Inglês: Society of the Snow / Espanhol: La Sociedad de la Nieve) 2023
"A Sociedade da Neve" é dirigido por JA Bayona e baseado no livro de mesmo nome de Pablo Vierci de 2009, que detalha a verdadeira história do trágico acontecimento da seleção uruguaia de Rugby. Em 13 de outubro de 1972, o Voo 571 da Força Aérea Uruguaia, fretado por um time uruguaio de futebol de Rugby e seus torcedores para levá-los a um jogo em Santiago, no Chile, cai em uma geleira no coração da Cordilheira dos Andes. Dos 45 passageiros a bordo, 29 sobreviveram ao acidente inicial, embora mais morressem devido a ferimentos, doenças e uma avalanche nas semanas seguintes. Presos num dos ambientes mais inacessíveis e hostis do planeta, os sobreviventes são obrigados a recorrer ao canibalismo de sobrevivência daqueles que já morreram para se manterem vivos. No entanto, em vez de se voltarem uns contra os outros, os sobreviventes recorrem ao trabalho cooperativo em equipe que aprenderam através do rugby e da fé espiritual, para escapar das montanhas.
O diretor espanhol JA Bayona, que recentemente dirigiu episódios da série "O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder", ficou conhecido cinematograficamente pelos seus dois primeiros trabalhos: "O Orfanato" (2007), um bom filme espanhol que mistura elementos de fantasia e terror, e "O Impossível" (2012), um drama baseado em uma história real comovente, tocante e profundo. Dessa vez Bayona traz "A Sociedade da Neve", uma produção espanhola original Netflix, que conta com um elenco que na sua grande maioria é composto por atores novatos argentinos e uruguaios. Um ponto muito curioso, é o fato do autor uruguaio Pablo Vierci conhecer alguns dos 16 sobreviventes reais do caso, o que o motivou ainda mais para escrever o livro documentando os relatos ocorridos.
Ao longo dos anos esta história real do trágico voo 571 já foi adaptada em outras produções, como "Sobreviventes dos Andes" (1976), "Vivos" (1993) e "I Am Alive: Surviving the Andes Plane Crash" (2010). Em "A Sociedade da Neve", Bayona optou por relatar os acontecimentos fazendo uma mescla como um documentário inserido em um filme. Tanto que toda a equipe de produção gravaram mais de 100 horas de entrevistas com todos os sobreviventes ainda vivos. Por outro lado, os atores do longa tiveram contato direto com os sobreviventes e as famílias das vítimas. A produção teve todo um estudo sobre o local do acidente, realizando parte das filmagens exatamente no local.
"A Sociedade da Neve" se destaca pela excelente direção de Bayona, que soube extrair os detalhes mais minuciosos e profundos do caso e nos passar com uma veracidade impecável. Sem falar que todo o seu trabalho de câmeras é muito bem executado, onde ele sempre buscava o foco nos rostos e nas expressões do elenco em cena, aliado com os mais variados diálogos e monólogos, que nos dava a dimensão e a profundidade daqueles acontecimentos. O trabalho de maquiagem é completamente absurdo e corrobora com toda a grandeza da direção, já que ao longo da trama somos impactados pela degradação física dos personagens, o que vai de encontro com uma aparência desgastada, maltratada, judiada, onde todos ali iam definhando com o passar do tempo, e tudo que víamos acontecer era grande parte por méritos da direção de maquiagem e dos efeitos especiais. E com um destaque muito justo para David Martí e Montse Ribé, maquiadores de efeitos especiais vencedores do Oscar por "O Labirinto do Fauno" (2006). Juntos eles criaram próteses de cadáveres, cortes, feridas, tudo que nos dava a dimensão e a proporção do que estava ocorrendo com cada um presente naquele local.
Aliado com todas essas qualidades técnicas que eu já destaquei, temos uma fotografia que é absurda, com uma qualidade extremamente profissional e que destacava em cada cena apresentada. O interessante aqui é o fato da fotografia fazer um contraponto entre o colorido e o cinza; sendo o colorido destacando os momentos de competividade do time, onde podíamos notar um sentimento de felicidade e esperança nos rostos de cada um. Por outro lado temos o cinza, que se destaca justamente a partir do momento da queda do avião, onde transcendia o sofrimento e o limite da fé, e mais uma vez de esperança. A direção de arte também merece ser enaltecida, pois é a partir dela que temos aqueles gigantescos cenários de neves, onde nos abalava profundamente quando a câmera ia se distanciando e íamos tomando conhecimento do local em que eles estavam. A trilha sonora é bem pontual com cada cenário e cada acontecimento, sempre diversificando a melodia de acordo com a situação que o grupo estava enfrentando. A trilha sonora é a grande responsável em unir ali lado a lado a fé e o desespero.
Falando sobre o filme: Temos aqui um dos filmes dramáticos de sobrevivência que mais me impactou nos últimos anos. O diretor Bayona já conseguiu este mesmo feito com "O Impossível", que foi um filme que me deixou profundamente impactado, entristecido, chateado, comovido, que me deixou uma semana pensando e refletindo sobre tudo que eu havia presenciado. Em "A Sociedade da Neve" Bayona põe em pauta novamente o poder da fé, da esperança, da motivação, da luta pela sobrevivência, da crença, da determinação, da coragem, fazendo um contraponto com o desespero, a agonia, a desolação, a crueldade, a tristeza, a comoção, nos despertando os mais profundos sentimentos de compaixão, empatia, carinho, amor pelo próximo, nos fazendo sentir na pele a dor excessiva da extremidade enfrentada por cada um dos sobreviventes.
"A Sociedade da Neve" é aquele típico caso do filme documentário que você já conhece a história, já sabe como tudo terminou, já que houve sobreviventes, mas mesmo assim você se impressiona, pois o nível de adrenalina é muito alto de acordo com cada acontecimento. Eu não conhecia a história real à fundo, só tinha ouvido alguns relatos a respeito do caso, e o filme conseguiu me deixar muito mal, mexeu muito com meus sentimentos, me despertou um profundo sentimento de tristeza, compaixão, agonia, tensão, dor, por presenciar cenas tão cruéis, tão deploráveis, tão bárbaras, tão brutais, tão excessivas, com uma extremidade dolorida, daquelas que parte o seu coração e te faz refletir por dias.
O longa-metragem trabalha muito bem a mente humana e seus extremos quando exigida, pois estamos diante de um cenário completamente inóspito, cruel, sem qualquer possibilidade de sobrevivência, e ao longo dos dias eles vão sendo confrontados com as consequências desse local, que é o frio, a fome, a sede, o medo da morte, o desespero pela sobrevivência e a agonia pelo resgate. Nesse ponto temos um estudo sobre o poder da fé, da esperança, da misericórdia, a crença em um Deus, os limites do corpo humano. Até que ponto o seu corpo pode suportar a fome, a sede e o frio? Até que ponto você consegue manter a sua mente saudável e lúcida para não mergulhar na loucura e no extremismo? Quais os limites que você consegue enfrentar para se manter vivo na esperança por sobrevivência? Até que ponto você consegue pensar sobre a prática do canibalismo para se manter vivo e resistente? Já que seu corpo vai acabar exigindo esses nutrientes para sobreviver. São perguntas que em todos os momentos estão vagando pela mente de cada um ali, na medida que nós espectadores também estamos nos fazendo essas mesmas perguntas se nós estivéssemos diante daquela situação.
Todos esses sentimentos citados são despertados a partir da composição de cenas absurdamente bem feitas e bem elaboradas. Pois as cenas de "A Sociedade da Neve" foram feitas com um alto nível de qualidade, onde nos proporcionava sentir a dor, o desespero e a agonia de tal acontecimento. - Vou começar citando a cena da queda do avião, que pra mim já é uma das grandes cenas de todo o filme. A partir do momento em que o avião se choca com a montanha de gelo, onde temos o impacto com o bico do avião, que logo ele vai se destroçando e rompendo o solo em uma altíssima velocidade. Nessa cena eu fiquei em choque e boquiaberto, ao observar aquele impacto dos restos do avião com a neve, fazendo uma pressão para frente onde o impacto vinha de trás para frente fazendo as pessoas serem esmagadas uma pelas outras com os bancos do avião. - Temos aquela cena em que os sobreviventes vão retirando os corpos de dentro dos restos do avião, e ao lado da tela vai aparecendo o nome e a idade de cada um. - A cena em que eles discutem a possibilidade da prática do canibalismo, que por si só já é uma cena controversa e reflexiva, de acordo com a crença de cada um, é claro. Especificamente nessa cena temos um dos melhores diálogos de todo o filme, quando o grupo discute sobre praticar o canibalismo ou não, já que ali era um caso de extremismo pela sobrevivência. Muitos ali tinham a dificuldade em aceitar a prática pela falta da liberação do dono do corpo, onde mais tarde temos a cena onde cada um diz liberar o seu corpo para alimentar os sobreviventes - que cena pesada e incomoda! - Outra cena que me impactou bastante, foi a cena da tempestade de neve, onde soterrou todos os sobreviventes, obrigando eles a passarem 4 dias soterrados pela neve - outra cena absurda! - E não posso deixar de mencionar aquela cena onde eles conseguem fazer funcionar um rádio, quando eles tem a notícia que as buscas pelos os sobreviventes do desastre foram encerradas. É uma cena impressionante, que dilacera o seu coração, pois você vê aquelas pessoas entrando em um estado de completa loucura e desespero - mais uma cena que me deu um nó na garganta.
Sobre o elenco: O elenco de "A Sociedade da Neve" é muito bom, muito competente, onde cada um entregou atuações certeiras, condizentes com o personagem e as situações, mesmo que em grande maioria o elenco era composto por novatos. Os maiores destaques foram Enzo Vogrincic Roldán que fez o Numa Turcatti, Matías Recalt que fez o Roberto Canessa e o Agustín Pardella que fez o Nando Parrado. Nem preciso destacar todo o elenco, pois cada um fez muito bem a sua parte, onde contribuíram muito bem com a representação daquele momento desesperador e aterrorizante.
"A Sociedade da Neve" ganhou 12 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor no Prêmio Goya. No Oscar, foi indicado para Melhor Longa-Metragem Internacional, representando a Espanha, e Melhor Maquiagem e Penteado.
O longa alcançou a lista dos 10 melhores filmes não ingleses da Netflix, sendo que nos primeiros dias, teve 51 milhões de visualizações no streaming.
No Rotten Tomatoes, 90% das 151 resenhas dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,8/10. Já no Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 72 em 100, com base em 33 críticos.
Por fim: "A Sociedade da Neve" é um belíssimo trabalho de JA Bayona, que traz uma habilidade técnica magistral para apoiar sua história de tragédia da vida real. É um filme triste, tocante, profundo, desconfortante, incomodo, comovente, que vai mexer com a sua mente e principalmente com o seu coração. Mas por outro lado é também um filme muito reflexivo, preponderante, contundente, importante, que nos exemplifica o poder da fé, da força, da resistência, da perseverança, da esperança, do equilíbrio da mente, da busca incansável pela sobrevivência, que nos mostra que basicamente não somos nada diante de situações extremas e desoladoras. [16/03/2024]
"Segredos de um Escândalo" (ou "Maio Dezembro", sinceramente não entendi essa versão brasileira do título) é dirigido por Todd Haynes ("Longe do Paraíso", de 2002) a partir de um roteiro de Samy Burch, baseado em uma história de Burch e Alex Mechanik. A Netflix adquiriu os direitos de distribuição na América do Norte. O longa é estrelado por Natalie Portman como uma atriz que viaja para conhecer e estudar a vida da polêmica Gracie (Julianne Moore) que ela interpretará em um filme.
De acordo com as minhas pesquisas: O filme é inspirado no caso real sobre a vida de Mary Kay Letourneau, uma mulher de 36 anos que aliciou e estuprou um pré-adolescente de apenas 13 anos em 1996. Na época, ela era professora de Vili Fualaau, e o caso resultou na prisão de Mary, que ficou seis anos na cadeia. Quando Mary conheceu Vili, ele era apenas uma criança e ela já era casada com quatro filhos, além de ser uma professora conceituada. Mary dizia que tudo começou porque ele a perseguia, e ela teria apenas consentido com o caso. No início, a relação foi mantida em segredo, até que tudo veio à tona. Em meio a todo o escândalo, nenhum dos envolvidos tratou a relação como um crime, nem a abusadora e nem a vítima. Em entrevistas para a televisão, o casal protagonizava declarações bizarras, principalmente Mary, quando eram questionados por repórteres sobre a diferença de idade. Mary nunca assumiu que cometeu um crime, tanto que permaneceu em uma relação com Vili e eles chegaram a se casar. O casamento durou 12 anos, com o divórcio acontecendo em 2017, e juntos eles tiveram duas filhas. Mary morreu em 2020 aos 58 anos.
Sobre o filme: "Segredos de um Escândalo" traz uma história chocante e muito interessante, e desperta ainda mais a nossa curiosidade quando descobrimos que tudo foi baseado em uma bizarra história real. Logo vamos entendendo toda a história e encaixando cada personagem nela. É interessante notar que o escândalo real acontece nos anos 90, mas no filme estamos praticamente duas décadas depois, ali por volta do ano de 2015. Partindo desse ponto, temos atualmente a Gracie Atherton-Yoo que hoje é casada com Joe Yoo (Charles Melton), com quem ela formou uma família e tiveram 3 filhos.
Pode parecer bizarro, mas Gracie foi condenada por estupro de vulnerável e ainda formou uma família com a vítima. Dito isto, Gracie hoje vive sua vida com esposo e filhos, e preferiu se afastar da mídia em um modo geral. Dessa forma Gracie opta por aceitar receber em sua casa a atriz Elizabeth Berry, que se prepara para encarar um dos papéis mais desafiadores de sua carreira. A partir daí, Elizabeth passa a analisar cada passo da vida da Gracie, fazendo um verdadeiro estudo de personagem, de características, de sentimentos, mergulhando naquela relação entre Gracie e Joe, se inteirando cada vez mais daquele romance midiático. Logo toda essa convivência entre Elizabeth, Gracie e Joe começa a reviver segredos obscuros de uma passado traumático na vida do casal, expondo seus limites, ultrapassando seus limites, expondo verdades que até então estavam guardadas, ou de certa forma até ignoradas no âmbito familiar.
Um ponto muito curioso e até questionável, é exatamente a forma como o roteiro aborda (vagamente) toda história real, que é justamente a partir da chegada e da interação de Elizabeth com aquela família. Ou seja, não temos uma abordagem dos fatos ocorridos a partir de todo o escândalo, não temos um resumo sobre a história no passado, como tudo aconteceu. A produção do filme não chegou a consultar o Vili Fualaau sobre os fatos ocorridos, o que acabou sendo preenchido com uma ficção baseada em relatos. Eu acredito que esta foi uma escolha de roteiro, usando uma certa liberdade criativa dos fatos e optando por deixar de fora todo esse contexto polêmico, até por se tratar de um crime sexual envolvendo um menor de idade. Eu entendo toda essa escolha de roteiro, até para o filme de Todd Haynes se manter fora de polêmicas, mas confesso que eu fiquei curioso em como seria uma abordagem a partir desse ponto na história.
"Segredos de um Escândalo" opta por ir na contramão de todas as polêmicas do início do relacionamento, e focar especialmente na obsessão da figura da Elizabeth dentro daquele contexto que ela se encontra no momento. De fato é um roteiro que abrange o estupro estatutário, o envolvimento das pessoas no caso, em como elas vivem atualmente, mas especificamente é um filme sobre a obsessão humana, e sobre obsessão ninguém é melhor do que a talentosíssima Natalie Portman. Natalie venceu o Oscar justamente pela sua obsessão, pelo seu perfeccionismo, pela sua busca incessante pela perfeição na pele da bailarina Nina, em "Cisne Negro" (2010). Dessa forma temos uma Natalie na pele da Elizabeth Berry que tem uma obsessão pela aquela mulher (ou pela sua história), que busca trabalhar e absorver cada vez mais as características da personagem que ela vai interpretar naquele filme independente, fazendo um verdadeiro laboratório, ficando perto daquela família, entrevistando cada membro daquela família, além de sempre se manter perto da Gracie, sempre observando como é a sua relação com o Joe. Temos aqui uma boa metaficção.
"Segredos de um Escândalo" é aquele típico True Crime, que traz uma análise sobre como a mídia pode distorcer os fatos ocorridos, ou até a percepção das pessoas sobre si mesma, ou sobre as pessoas envolvidas no caso. O longa de Todd Haynes bebe bastante da fonte dos True Crime dos anos 90 (até por ser um desejo do próprio diretor). É interessante perceber que a Gracie e o Joe viviam uma vida longe da mídia, longe das polêmicas que ela causou, como se estivessem presos em seus mundos, dentro da sua bolha, sem a percepção sobre o que aquela relação poderia representar em uma visão geral de alguém de fora. E nesse ponto o roteiro cresce e ganha mais fôlego, ao desenvolver a chegada da Elizabeth e em como a sua presença começa a abalar a estrutura daquela relação, em como ela faz com que o casal comece a pensar fora da bolha do relacionamento. Já pelo lado da Elizabeth, ela passa a se envolver cada vez mais, mergulhar cada vez mais naquele ambiente hostil, onde ela própria passa a carregar o peso e a pressão que a sua jornada exige, o que acaba a levando por um outro caminho diferente.
Nesse ponto do filme temos um grande estudo de personagem, pois a Elizabeth passa a incorporar a Gracie de uma forma assustadora, misturando suas emoções reais com uma interpretação intensa e repleta de camadas, onde ela busca incessantemente a perfeição, e passa a se vestir igual a Gracie, a se portar igual a Gracie, a falar igual a Gracie, e na medida que elas vão se conhecendo melhor vamos se aprofundando cada vez mais em duas mentes distintas que acabam se conectando estranhamente. Elizabeth passa a ficar tão obcecada em viver a vida da Gracie e ser parecida cada vez mais com essa personalidade, que ela acaba mergulhando profundamente em viver e sentir tudo em sua volta com a cabeça da própria Gracie, isso incluindo em ser um clone da Gracie, em tomar pra si a vida da Gracie, o relacionamento familiar, o envolvimento com os filhos, e até chegar em seu marido. Nesse ponto é interessante acompanhar essa aproximação entre a Elizabeth e o Joe, pois ambos tem idades parecidas mas com mentes completamente distintas, e a partir dessa aproximação que a Elizabeth dá a sua maior cartada em incorporar a Gracie, que é seduzindo seu marido e até transando com ele.
E aqui eu preciso destacar o elenco de "Segredos de um Escândalo", especificamente o trio composto por Natalie Portman, Julianne Moore e Charles Melton. Pois temos aqui aquele típico caso do filme que se segura unicamente e exclusivamente pela atuação de seu elenco. Como já mencionei anteriormente, a Natalie Portman ("Thor: Amor e Trovão") foi a escolha perfeita para viver a Elizabeth Berry, justamente pela sua obsessão e perfeccionismo na personagem. Natalie faz uma personagem carregada, cheia de camadas, de nuances, que aos pouco vai mergulhando naquela vida paralela e desvendando segredos, traumas do passado de Gracie, e vai cada vez mais entrando em uma zona perigosa e expondo a sua dualidade. No fim, a Elizabeth acaba se perdendo na personagem da Gracie, onde ela acaba se tornando aquela sedutora que ela tanto queria interpretar. Temos algumas cenas onde a Natalie dá um show de atuação: Como aquela cena onde ela discursa na escola sobre sexo com a turma, porém de uma forma um tanto quanto exagerada. Aquela outra cena onde ela acaba desabafando sobre toda a sua trajetória, seus arrependimentos, diante de uma quebra da quarta parede. Belíssima atuação da Natalie Portman!
Já a Julianne Moore ("A Mulher na Janela") faz aquela mulher que vive em um conto de fadas, em uma fantasia criada pela sua cabeça, em mundo onde ela criou e acha que todos ao seu redor gostam dela, se importam com ela, praticamente vivendo uma vida ilusória. Por outro lado a Gracie faz a linha da coitadinha, da ingênua, de tentar convencer as pessoas ao seu redor que ela é aquela pessoa pura, inocente, confiável, quando na verdade ela é detestável, desprezável, traiçoeira, manipulável, maquiavélica, verdadeiramente uma predadora preparando seu terreno para o ataque. Julianne Moore dá um verdadeiro show de atuação, e nos conquista com uma interpretação forte, arrojada, compenetrada, onde ela foca nos trejeitos, em sua expressões, em suas falas, em seu modo de agir, de se portar, com toda a certeza ela estudou profundamente a personagem.
Charles Melton (da série "Riverdale") faz um contraponto muito interessante entre a Natalie e a Julianne. Melton pra mim faz a atuação mais difícil e complicada de todo o filme, pois inicialmente ele nos passa a sensação de estar perdido dentro daquele mundo, daquela relação com a Gracie, onde ela se vê o tempo todo como uma dependente dele, com ele assumindo todo o papel daquela relação, como pai e marido. A partir daí (e principalmente da chegada da Elizabeth) começamos a perceber que o Joe começa a expor suas insatisfações, suas inseguranças, suas frustrações, e começa a perceber tudo em sua volta, como uma forma de despertar daquela relação, daquela vida. E nesse ponto é muito interessante acompanharmos o despertar de Joe, quando ele se dá conta que sempre foi a vítima naquela relação, que ele sofreu abuso daquela predadora sexual, que ele era imaturo e foi manipulado pela Gracie, que ele perdeu grande parte da sua vida, principalmente da sua juventude, tendo que assumir papeis que não lhe cabiam naquele momento. E toda essa desconstrução e descaracterização vai ocorrendo com o Joe quando ele vai percebendo que teve sua vida privada dos seus desejos próprios, que teve sua adolescência podada por aquela mulher que o fez passar por uma grande pressão psicológica, que ele foi uma vítima dela e viveu em uma prisão dentro de uma vida ilusória. Posso afirmar que Charles Melton tem o melhor personagem e entrega a melhor atuação dentro do filme. Agora eu preciso deixar registrado a minha indignação com o Oscar em esnobar essas três impecáveis atuações. Apesar que vindo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, podemos esperar qualquer tipo de absurdo e de injustiça.
Outro ponto muito interessante no longa e que precisa ser mencionado, é a forma como os acontecimentos tomam proporções diferentes de acordo com a respectiva época em que ocorreu. Digo isso pelo fato desse caso, que obviamente se tivesse acontecido hoje em dia tomaria uma proporção absurda e seria recebido totalmente diferente daquela época. Pois nos anos 90 a mídia em si encarava o caso como um caso de amor infeliz, que não deu certo, que fracassou, onde a própria Mary não era vista como uma abusadora, sendo encarada apenas como uma aventura amorosa. E mais absurdo ainda é a própria família do Vili afirmar que ele era muito maduro para sua idade, que eles eram muito apaixonados, encarando o caso como normal. A Mary com 36 anos e o Vili com 13, e ainda tinha pessoas que encarava este relacionamento como normal - é realmente uma coisa inexplicavelmente absurda! Outro ponto que me faz pensar: e se fosse ao contrário, como reagiria as pessoas? Se ele tivesse 36 anos e ela 13. Fica ai o questionamento.
Falando das partes técnicas: É preciso destacar a excelente direção de Todd Haynes, onde ele exerce um trabalho de câmera impecável, traçando um paralelo entre os acontecimentos em cena com um close fechado nas expressões dos atores/atrizes. É muito interessante analisar a forma como o diretor usar os takes e os ângulos mais fechados em vários momentos de diálogos, para nos dar a dimensão daquela cena, daquele acontecimento, daquela descoberta; como na cena onde a Elizabeth conversa com a Gracie no banheiro, e a cena com o Joel fumando droga com seu filho no telhado. São duas cenas que traz esse trabalho de câmera que eu destaquei, com ênfase nos closes mais fechados justamente para nos revelar aquela descoberta, tanto pelo lado da Elizabeth, quanto pelo lado do Joe.
A trilha sonora do filme é potente, é eficaz nos momentos mais oportunos da trama, onde ela dita o ritmo da cena, do acontecimento que está sendo narrado, nos fazendo mergulhar cada vez mais naquela história. Uma boa trilha sonora de Marcelo Zarvos e Michel Legrand. A fotografia de Christopher Blauvelt também tem o seu merecido destaque. Assim como todo o trabalho da direção de arte, da edição, da montagem e da cenografia. Tecnicamente o filme é muito bem feito!
"Segredos de um Escândalo" foi lançado em cinemas selecionados dos EUA, antes de ser transmitido na Netflix nos EUA e Canadá. O filme foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. Também foi exibido como "Filme da Noite de Abertura" no Festival de Cinema de Nova York de 2023. O longa ficou em décimo lugar na lista dos 50 melhores filmes de 2023 da Sight and Sound, entre 363 filmes indicados por 106 participantes britânicos e internacionais. Também foi escolhido pelo American Film Institute como um dos dez melhores filmes de 2023. No Rotten Tomatoes, 90% das 300 resenhas dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,8/10. Já no Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 86 em 100, com base em 53 críticos.
O longa-metragem de Todd Haynes recebeu quatro indicações no Globo de Ouro e apenas uma indicação de Melhor Roteiro Original no Oscar. Alguns críticos opinaram que houve uma omissão de indicações de atuação no Oscar, apesar de ter sido indicado em outras associações de premiação importantes. EJ Dickson da Rolling Stone citou o padrão da Academia de excluir atores de ascendência asiática e sua falta de reconhecimento a artistas com menos de 40 anos como as razões pelas quais Charles Melton não foi indicado. Foi como eu já mencionei anteriormente, sobre a grande esnobada por parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Por fim, "Segredos de um Escândalo" se destaca por analisar um caso real bastante bizarro, cujo roteiro se destaca por explorar as consequências e as polêmicas desse escândalo na vida daquele improvável casal. É um filme que consegue fazer uma linha entre o drama e o romance misturando sentimentos e emoções de todas as pessoas envolvidas na trama. Mas por outro lado é preciso mencionar que algumas partes da história soa confusa, bagunçada, displicente, onde o elenco e suas atuações são basicamente o que segura todo o filme. [10/03/2024]
"Pobres Criaturas" é dirigido por Yorgos Lanthimos e escrito por Tony McNamara. Baseado no romance de 1992 de Alasdair Gray, o enredo segue Bella Baxter (Emma Stone), uma jovem que ganha vida através de um transplante de cérebro e embarca em uma odisseia de autodescoberta.
Yorgos Lanthimos é um cineasta marcado pela sua excentricidade, extravagância, filosofia, eloquência, por construir obras fora do trivial, do convencional, onde muita das vezes flerta com o bizarro, com o complexo, com o místico, com a profundidade de personagens, com um estudo de personagens. Dentro dessas características as suas obras que mais se sobressaem são "O Lagosta" (2015), "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) e "A Favorita" (2018).
Em "Pobres Criaturas", Yorgos atinge o ápice do bizarro, do estranho, do místico, criando uma releitura do clássico Frankenstein que reflete além dos limites éticos e morais da ciência, da fragilidade do ser humano como um todo (principalmente a fragilidade masculina), da imagem feminina em uma sociedade patriarcal, e principalmente uma abordagem e uma percepção de um mundo imoral, injusto, alheio à várias vertentes de uma posição de criação e criador. A obra de Yorgos pode ser classificada como um "Frankestein sexualizado", ou uma espécie de "Frankenstein do século XXI", que acompanha o fascínio e a autodescoberta da protagonista, aliado à um contexto que subverte a lógica dos fatos que ela própria vai se descobrindo e vivenciando com o avanço na trama.
A excelente direção de Yorgos é aliada com um ótimo roteiro de Tony McNamara (roteirista de "A Favorita"), onde juntos eles constroem uma obra fora do convencional, onde uma das suas principais característica é a estranheza, a forma como o roteiro é livre de amarras, de rótulos, por justamente não seguir um caminho convencional e cruzar uma linha entre a comédia, o drama, o mistério e até um improvável romance. Nesse ponto o roteiro de Tony se sobressai e salta aos nossos olhos, pois a forma como ele consegue dosar pequenas pitadas de uma comédia sombria, com uma comédia dramática surrealista, com um toque de humor negro, misturando a sátira, o sarcasmo, sendo provocativo, desconfortável, incisivo, criando uma linha que cruza o místico, a ficção científica, a fantasia, a fábula, com uma visão profunda, onde ainda assim consegue nos divertir, nos impactar, com um roteiro que consegue se manifestar na mesma proporção que entretém.
"Pobres Criaturas" é um dos melhores filmes que eu já assisti nos últimos anos em questão de desenvolvimento de roteiro, de personagem, de estrutura narrativa, de conseguir construir um personagem e desenvolvê-lo na medida certa, fazendo um belíssimo estudo de suas principais características. Temos aqui a construção e o desenvolvimento de Bella Baxter, onde o roteiro aborda principalmente a sua autodescoberta, o seu autoconhecimento, o seu amadurecimento, a sua profundidade, a perda da sua inocência, o seu desejo pela liberdade e pelo conhecimento da vida. Sem dúvida é uma visão singela e peculiar sobre uma jornada de emancipação feminina, uma viagem excêntrica sobre o descobrimento e a liberdade feminina.
A história se passa na Era Vitoriana, onde temos aquela jovem que estava grávida e cometeu suicídio ao pular de uma ponte. Ao ser resgatada pelo médico cientista Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe), ela tem o seu cérebro removido e trocado pelo cérebro ainda em desenvolvimento de seu filho que estava em gestação. Ou seja, Bella tem o corpo de uma mulher que já não existe mais. E aqui entra um ponto muito interessante do roteiro, que é justamente o desenvolvimento de Bella onde ela é praticamente uma criança. Ou seja, Bella age como uma pessoa com problemas mentais, como um corpo de adulto com uma mente de uma criança, com atitudes de criança, com comportamentos de uma criança, como se o corpo dela não estivesse sincronizado corretamente com o seu cérebro (segundo as explicações do próprio Dr. Godwin). Dessa forma Bella precisa aprender tudo do princípio, como andar, falar, comer, ter um comportamento, respeitar e obedecer regras impostas pelo Dr. Godwin. E a figura do Dr. Godwin a princípio é vista por Bella como o seu criador, o seu pai, o seu Deus (como ela mesmo se portava perante ele sempre o chamando de "God").
A partir desse ponto acompanhamos a jornada de Bella Baxter sem nenhuma bagagem emocional, social, sentimental, sem nenhuma experiência em como é a vida fora dos domínios do Dr. Godwin. Ou seja, ali era o nascimento de uma criatura que se mostrava monstruosa (aparentemente), com uma casca cheia de camadas de um ser puro, singelo, meigo e encantador.
Um ponto muito interessante de roteiro e produção é a forma como toda a filmagem é projetada e transplantada para a tela. Logo uma escolha em representar o começo da história da Bella Baxter com uma filmagem em preto e branco em takes mais profundos, que nos dimensionava através da sua fragilidade, vulnerabilidade, inexperiência, enquanto ela ainda era uma criança em desenvolvimento, se autoconhecendo e se autodescobrindo. É interessante notar como a Bella vai se desenvolvendo com o passar do tempo, cujo a chegada do excêntrico advogado Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo) traz uma verdadeira mudança na vida de Bella Baxter. Pois o convite que ele faz para ela era justamente o que ela estava mais esperando naquele momento; se aventurar pelo mundo embarcando em uma odisseia surrealista de autodescoberta e libertação. A partir desse ponto já temos a mudança para uma filmagem colorida, como se a Bella ganhasse vida, ganhasse cores, onde simbolizava a libertação de Bella das garras do Dr. Godwin. Mas por outro lado ela estava prestes a conhecer um outro tipo de prisão.
Yorgos Lanthimos condensa as fases da vida de Bella Baxter com uma exploração da sexualidade da personagem, que era algo que ela também autodescobriu. E nesse ponto é muito curioso observar que a Bella deu vários saltos na composição das fases de sua vida, o que obviamente vai limitá-la de conhecer o seu corpo e os seus próprios desejos sexuais, onde naturalmente ela vai despertar seus desejos infinitos sem o conhecimento e o discernimento ditado pela própria sociedade perante essa nova descoberta em sua vida. Dessa forma Bella Baxter mergulha em seus desejos e sensações físicas, despertando cada vez mais a sua curiosidade em relação ao ato sexual, que de certa forma é também o seu autoconhecimento e o seu autodescobrimento. Se analisarmos friamente, todas as cenas de sexo sem pudor não são cenas gratuitas e em vão, pois tudo parte de novas etapas da sua evolução, seu conhecimento, sua curiosidade, uma forma de explorar a sua mente, o seu corpo, e deixar de ser apenas uma criação desprovida de inteligência e ganância para uma forma de aceitação própria a partir dos seus próprios desconfortos. Não vejo que o filme romantiza a prostituição, também não vejo como um desrespeito com a pauta da mensagem feminina. Acredito que a obra projeta tudo dentro de um aspecto por uma outra perspectiva, com uma ótica própria feminina sobre como seria a liberdade sexual. Acredito que tudo foi projetado de forma poética e filosófica. Mas isso não quer dizer que não seja uma pauta polêmica dentro do roteiro.
O que seria de "Pobres Criaturas" sem a presença de Emma Stone? Emma já foi uma das queridinhas de Hollywood, já ganhou o Oscar pelo seu papel no badalado "La La Land" (2016), além de acumular várias indicações e vários prêmios em outros festivais de premiações cinematográficas. Emma Stone já fez vários trabalhos soberbos, fenomenais, com personagens fortes e representativos; como a própria Mia de "La La Land", a Cruella de Vil de "Cruella" (2021), e a Abigail Hill de "A Favorita". Até o momento a sua personagem de "A Favorita" era a minha preferida de toda a sua carreira, além de considerar que ela merecia mais o Oscar por esta personagem do que por "La La Land". Porém, nesse momento a Bella Baxter acaba de se tornar a minha personagem preferida da Emma, além de também considerar que é a sua maior e melhor atuação de toda a carreira até o momento.
Emma Stone incorpora com muita grandeza e muita maestria a Bella Baxter, pois o filme precisava ser sustentado por uma atriz que conseguisse transparecer o crescimento da personagem em sintonia com o desenvolvimento do roteiro, e ela consegue fazer essa tarefa de forma absurdamente impecável e perfeita. Emma constrói sua atuação pautada junto com o desenvolvimento de sua personagem, que vai desde a ingenuidade inicial, a inexperiência, indo desde aquela criança, passando pela uma espécie de crescimento, até florescer suas reflexões melancólicas de uma vida adulta. Emma está segura, está convincente, está arrojada, exibindo uma interpretação rica em expressões corporais, em linguagem corporal, com seus trejeitos, com seu gestual, com um timing cômico na medida certa.
É impossível não se apaixonar pelo brilhantismo de Emma Stone em "Pobres Criaturas", pois ela consegue dosar muito bem cada cena com o que o roteiro estava pedindo naquele momento, onde ela nos passava uma personagem vulnerável e inexperiente, logo após ela estava em um processo de amadurecimento, de desconstrução, de descaracterização, se tornando idealista, utópica, indo em uma linha de evolução física e mental a partir dos seus prazeres sexuais sem moralismo e culpa. Emma evolui em um nível altíssimo de patamar de personagem lendária e icônica dentro do cenário cinematográfico. Pois obviamente a Bella Baxter ficará marcada e estigmatizada pela sua monstruosa e irretocável interpretação. E aqui eu preciso confessar que a minha torcida para a estatueta de Melhor Atriz está completamente com a Lily Gladstone, pela sua excelente personagem em "Killers of the Flower Moon", que me cativou profundamente. Mas eu preciso registrar aqui que este Oscar obrigatoriamente precisa ser da Emma Stone, como forma de justiça por uma atuação em uma personagem que ficará marcada na história do cinema.
O mestre Willem Dafoe é uma enciclopédia cinematográfica na arte de atuar. É realmente impressionante o nível de qualidade das suas performances. Em "Pobres Criaturas" Dafoe é aquele médico inteligente, um cientista brilhante, uma espécie de pai com uma extrema proteção com sua filha, ou um criador com um cuidado excessivo com sua criação, onde ele a mantinha sempre aprisionada e longe do mundo lá fora. Dafoe traz a veia daquele cientista complexo, ingênuo, egoísta, maldoso, arrogante, mesquinho, sempre exibindo a sua extrema obsessão pela sua criação. Uma atuação impecável do mestre Dafoe!
Já o Mark Ruffalo é o melhor personagem em cena, ficando atrás somente da Emma Stone, é claro. Mark faz um advogado meticuloso, sedutor, maquiavélico, uma figura cafajeste, prepotente, que só queria se aproveitar da Bella, tanto fisicamente como mentalmente. Mas com o passar do tempo vamos conhecendo à fundo o seu personagem e descobrimos quão fútil, raso e vazio que ele sempre foi. Excelente trabalho de Mark Ruffalo, o que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.
Completando o elenco ainda tivemos o Ramy Youssef (conhecido pelas séries "Ramy" e "Mr. Robot"), que fez o Max McCandles, o noivo da Bella. Um personagem bastante interessante, que tinha suas nuances e suas camadas. Christopher Abbott ("Ao Cair da Noite"), que fez o Alfie Blessington, o marido de Victoria Blessington, a mulher que era dona do corpo atual da personagem. Um ser completamente asqueroso e odiável, que mantinha a sua esposa como parte de sua propriedade, se exibindo como o seu dono, o seu controlador, praticamente o seu carrasco. O seu final é muito bom, quando a Bella transplanta o cérebro do bode para ele. E encerrando com a Margaret Qualley (da série "The Leftovers"), que fez a Felicity, o novo experimento científico do Dr. Godwin. E é interessante observar aquela conversa entre o Dr. Godwin e o Max McCandles, quando o Max acha que o Dr. está sendo muito cruel com sua nova criação, mas o Dr. afirma que cometeu um erro com a Bella, em permitir que os sentimentos nela se desenvolvessem. Dessa forma a Felicity é praticamente uma criação como um dos seus inúmeros animais - bizarro!
Outro ponto que engrandece ainda mais o nível da obra de Yorgos Lanthimos, são todas as suas qualidades técnicas. Este é o primeiro filme de Yorgos com uma trilha sonora original de um compositor. Todos os seus filmes anteriores usaram apenas músicas existentes. E aqui temos uma trilha sonora do compositor Jerskin Fendrix (um músico pop que fez sua estreia em um longa-metragem) que impregnou em minha mente, chegando a me deixar desconfortável, com aquele som estridente, com toques finos, penetrantes, sendo repetitivo na maioria das vezes, o que fatalmente era proposital, já que esta era a real intenção da trilha sonora. A cinematografia é absurdamente perfeita, onde temos uma fotografia de Robbie Ryan (diretor de fotografia de "A Favorita") que acompanha com muita eloquência cada cena, sendo extravagante na hora certa e compondo muito bem cada tomada de cena. O mesmo vale para a direção de arte, que abusa de cenários grandiosos, bem montados, com figurinos extremamente marcantes, o que encaixa perfeitamente com toda realidade excêntrica e extravagante da história. O longa-metragem é muito bem roteirizado, possui uma direção impecável, muito bem montado, com uma excelente edição, um ótima cenografia e uma perfeita ambientação.
"Pobres Criaturas" ganhou o Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. No Globo de Ouro, o filme recebeu sete indicações e ganhou Melhor Filme - Musical ou Comédia e Melhor Atriz - Filme Musical ou Comédia por Emma Stone. No Critics' Choice Awards, o longa recebeu treze indicações, vencendo como Melhor Atriz. Ainda recebeu onze indicações no BAFTA, e onze indicações no Oscar, sendo elas: Figurino, Edição, Maquiagem, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de Arte, Roteiro Adaptado, Direção, Ator Coadjuvante, Atriz e, claro, Melhor Filme.
"Pobres Criaturas" já arrecadou US$ 33,1 milhões nos Estados Unidos e Canadá, e US$ 68,8 milhões em outros territórios, totalizando US$ 101,8 milhões em todo o mundo.
Encerro afirmando que Yorgos Lanthimos traz aqui o seu melhor filme de toda a sua carreira, e muito pela sua ousadia, competência, inteligência, relevância, que junto de Tony McNamara nos entrega uma belíssima obra de arte em forma de cinema, uma obra-prima do cinema moderno, que soube quebrar estereótipos, quebrar barreiras, descontruir o imaginário popular com uma obra que navega com bastante propriedade na comédia, no drama, na fantasia, na ficção científica e no romance. Sem nenhuma dúvida, "Pobres Criaturas" com o passar do tempo entrará para a história do cinema, para a lista de filmes lendários e icônicos, onde virará um verdadeiro clássico cult amado por inúmeros cinéfilos.
"Pobres Criaturas" é uma obra fascinante, colossal, eloquente, apoteótica, excêntrica, extravagante, perturbadora, desconfortável, provocativa, onde emprega uma narrativa poética e filosófica com um texto sobre os preceitos da vida em relação ao autoconhecimento, a autodescoberta, a aceitação, a redenção, a desconstrução e a descaracterização enquanto ser humano. Bella Baxter é uma personagem que ficará marcada como uma mente feminina que foi criada, explorada, diversificada, retomada, ao mergulhar no amadurecimento e em todo o descobrimento e liberdade feminina. Sem falar que ainda temos aquela lição que toda a sua trajetória nos dá através da sua evolução e crescimento, onde ela própria clama por igualdade e libertação sem aquele olhar moralista e ético sempre presentes na sociedade em geral.
"Pobres Criaturas" é uma obra-prima que respira cinema em um nível poético, filosófico, categórico e incisivo! [01/03/2024]
"Zona de Interesse" é escrito e dirigido por Jonathan Glazer, sendo baseado no romance de 2014 de Martin Amis. O longa-metragem é uma produção da A24, com uma coprodução entre o Reino Unido e a Polônia. O filme é estrelado por Christian Friedel e Sandra Hüller como o comandante nazista alemão Rudolf Höss e sua esposa Hedwig, onde acompanhamos aquela família que leva a vida tranquilamente em uma nova casa bem ao lado do campo de concentração de Auschwitz.
Jonathan Glazer (diretor dos excelentes "Reencarnação", de 2004, e "Sob a Pele", de 2013) constrói um dos melhores filmes do ano passado e de toda a sua carreira. "Zona de Interesse" é mais uma obra que nos leva diretamente ao momento mais trágico e perverso da história da humanidade, o assombroso e desolador Holocausto. Ao longo de toda a história cinematográfica já tivemos vários filmes que estão relacionados e fazem diversas abordagens sobre o Holocausto; como é o caso de obras impecáveis e irretocáveis como "O Menino do Pijama Listrado" (2008), "A Vida é Bela" (1997) e "A Lista de Schindler"(1993), que são os meus três filmes preferidos sobre o tema.
A principal diferença dos três filmes citados para a obra de Glazer está exatamente na forma como o roteiro é construído e abordado ao longo de toda a história. Ou seja, nesses filmes somos impactados pela barbárie e pela violência explicita dos acontecimentos que assolavam os campos de concentração, onde nos despertava revolta, tristeza, comoção, empatia, e principalmente a dor e o nó na garganta de imaginar como foi terrível aquele momento na vida de cada um presente naquele local. Já a obra de Glazer vai na contramão por ser justamente um filme que mostra a sua Zona de Interesse, os seus ideais, as suas propostas, as suas regras, onde somos confrontados com um roteiro que apresenta uma experiência perturbadora porém sobre uma perspectiva distinta se comparado exatamente com os três filmes citados.
"Zona de Interesse" é uma experiência seca, crua, amarga, densa, cinza, incomoda, perturbadora, desoladora, que nos impacta e nos obriga a sairmos da nossa zona de conforto e presenciarmos um nível trágico e bizarro de falta de empatia, de amor com o próximo, de conivência, complacência e cumplicidade com tudo que estava acontecendo ao redor daquela família logo atrás dos muros de sua casa. Jonathan Glazer conseguiu elaborar um roteiro que me deixou chocado, pensativo, reflexivo, se destacando como um dos filmes mais difíceis que eu já assisti nos últimos anos. Temos aqui aquela típica obra que mexe com a nossa consciência, com o nosso imaginário, que ao término do filme você continua com ele na cabeça e pensando em tudo que presenciou por dias, tentando entender o quão detestável e desprezível é a raça humana.
Os maior acerto da obra de Jonathan Glazer é exatamente a forma como ele planeja deixar o espectador perturbado e incomodado com a forma que a história vai acontecendo ao longo das suas 1h 45min. Ou seja, já iniciamos com uma tela completamente escura e somente com uma música estridente de fundo, e ficamos nessa cena por quase 4 minutos. Ali você já sente o peso da obra, logo a intenção é realmente nos incomodar e nos tirar da nossa zona de conforto. Logo após esta cena já temos um corte para uma cena com uma família feliz se deliciando com um banho de rio. A partir daí o que fica mais notável e se sobressai em toda produção de "Zona de Interesse" é exatamente o trabalho impecável da edição e mixagem de som. Pois o som é a cereja do bolo do roteiro de Jonathan Glazer, sendo o som o responsável em nos aproximar dos terríveis acontecimentos logo após o muro da casa, no campo de concentração de Auschwitz.
E aqui eu preciso dar todos os créditos para o belíssimo roteiro de Glazer e forma como ele atua durante toda a história. Que é apostando diretamente no místico, no imaginário, no lúdico, fazendo um contraponto da vida feliz daquela família durante o seu dia a dia, em contrapartida com a desolação e a crueldade de tudo que estava acontecendo à uns 100 metros dali. É nesse ponto que a obra de Glazer se torna avassaladora, por nos impactar de forma sutil porém extremamente incomoda e perturbadora, e sem o uso de cenas que pudessem exemplificar tudo que estava acontecendo logo adiante. Tudo é construído a partir do nosso imaginário com o poder dos sons desesperador de gritos, torturas, tiros, sirenes e choros de crianças. A opção de Glazer por não mostrar nada que estava acontecendo nos deixa ainda mais incomodados e pensativos, pois quando não temos a imagem tudo em nossa mente fica em um grau ainda mais trágico e perturbador. Ainda mais pegando a pauta que o som corrobora ainda mais para toda a nossa tragédia mental, pois na medida que aquela família levava a sua vida normal, nós estávamos sendo torturados por um som inquietante que ficava constantemente com um grave mais agudo e sempre tomado por choros de crianças de fundo.
"Zona de Interesse" é uma obra extremamente desconfortável, inquietante, com uma atmosfera pesadíssima, que nos exemplifica de forma auditiva em como de uma lado tínhamos vidas e do outro as vidas eram tiradas. Que nos mostra em como de um lado estavam os sonhos e do outro simplesmente a morte. Quando não temos a retratação visual dos horrores, o que fica é exatamente os gritos desesperador vindo dos campos de concentração. E chega a ser bizarro a forma como temos cenas da família feliz de um lado e a crueldade do outro, e tudo acontecendo exatamente ao mesmo tempo. Logo temos aquela cena onde reproduz um jardim completamente florido, colorido, onde teoricamente poderia simbolizar a alegria, a vida, a liberdade, mas logo toda essa plenitude é confundida com o choro e os gritos de horrores.
O que me deixa extremamente triste e desconfortável, é observar a inocência das crianças ao brincarem alegremente na piscina com um muro lado a lado com o terror, e sem a devida proporção e dimensão que tudo aquilo significava. Esta cena me remete diretamente ao filme "O Menino do Pijama Listrado", onde também tínhamos a inocência de uma criança em contraponto com toda crueldade e desolação dos campos de concentração, onde confronta um dos maiores sofrimentos da história da humanidade com a pureza e a inocência de uma criança.
Christian Friedel (da série "Babylon Berlin") e Sandra Hüller (indicada ao Oscar por "Anatomia de uma Queda") estão divinamente bem em seus respectivos personagens. Christian é a personificação daquela linha de comandante nazista alemão seco, duro, introspectivo, que se porta como silencioso, metódico e letal. Rudolf era aquele ser que só se importava com a sua tarefa, que era ser o melhor comandante, e isso ele fazia com muito empenho. Era como almoçar em sua casa ao lado de sua família e logo após atravessar o muro e exterminar as pessoas, como se tudo isso fosse o emprego mais normal do mundo. Já a Sandra traz aquela mulher que tem os seus interesses voltados para a sua família e seu marido, que só se preocupa em ter tudo que quiser independente da forma que o seu marido consiga. Hedwig é também uma mulher que se mostra completamente indiferente de tudo que está acontecendo ao seu redor, além de também exibir a sua apatia e o seu preconceito em relação à todos aqueles acontecimentos. Tanto o Christian Friedel como a Sandra Hüller entregam uma atuação muito bem acertada, e muito bem condizente com toda a proposta do roteiro para o intuito dos seus personagens.
Tecnicamente a obra é soberba! A trilha sonora de Mica Levi (compositora da trilha sonora de "Jack", de 2016) é esplendorosa, contundente, extremamente incisiva em cena após cena, onde ditava com muita coesão cada ritmo que impregnava em nossa mente. O mesmo vale para o designer de som Johnnie Burn, que junto com a própria Mica, compuseram a música e os efeitos sonoros do filme. A fotografia de Łukasz Zal ("Guerra Fria", de 2018) é outro ponto extremamente importante no longa, pois a partir dela que tínhamos aquela dimensão do feliz e triste ali lado a lado separados apenas por um muro. Sem falar que a cinematografia é muito bem estruturada no filme. Assim como a direção de arte, que compôs minunciosamente cada detalhe dos cenários, tanto na casa da família quanto no lado dos campos de extermínios.
"Zona de Interesse" foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2023, onde ganhou o Grand Prix, o Cannes Soundtrack Award e o Prêmio FIPRESCI. O longa ainda ganhou 3 BAFTAs (incluindo Filme não na Língua Inglesa ), e foi indicado a 5 Oscars (incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Jonathan Glazer) e 3 Globos de Ouro.
O longa-metragem foi muito bem em sua semana de estreia nas bilheterias, onde arrecadou US$ 124 mil em quatro cinemas. Após suas cinco indicações ao Oscar, o filme expandiu de 215 cinemas para 333 em sua sétima semana de lançamento e arrecadou US$ 1,08 milhão, um aumento de 141% em relação ao fim de semana anterior, e um total acumulado de US$ 3 milhões.
Um dos maiores diretores de todos os tempos, o renomado cineasta Steven Spielberg elogiou "Zona de Interesse", chamando-o de o melhor filme sobre o Holocausto já feito desde seu próprio "A Lista de Schindler". E já aproveito a ocasião para informar que eu considero "A Lista de Schindler" como o melhor filme de toda carreira cinematográfica do Spielberg, e também como um dos melhores filmes sobre o tema de todos os tempos.
Jonathan Glazer cria uma obra categórica, crucial, terminante, contundente, que nos exibe um choque de realidade quando nos mostra que aquele casal alemão que viviam suas vidas normais podem ser comparados a nós mesmo em nosso dia a dia, quando estamos sendo omissos e cúmplices com crueldades, e principalmente com pessoas que são coniventes com esses atos. Esta é uma das maiores falhas do ser humano, a cumplicidade, a omissão, a conivência, a banalização do mal, quando o que está acontecendo é com os nossos vizinhos e não com nós. Ou seja, este é o ponto crucial em comparação com o genocídio do Holocausto com relação aquela família, onde todos viviam suas vidas normalmente como se nada estivesse acontecendo, desde que não aconteça com eles, é claro! Este é o comparativo com a nossa realidade atual; o mal pode existir ao seu lado, a crueldade pode existir ao seu lado, desde que você não sofra, os outros ao seu redor pouco importa.
Por fim: "Zona de Interesse" é uma obra grandiosa, necessária e extremamente importante. Que nos conscientiza principalmente sobre a banalidade do mal, que nos exemplifica em como o ser humano é horrendo, repugnante, odioso, perverso, mesquinho, em como existem pessoas que compactuam com a crueldade, que naturaliza todos e qualquer acontecimento ao seu redor, a partir do momento que estão sendo cúmplices de brutalidades imperdoáveis.
"Zona de Interesse" é também uma obra extremamente difícil, desconfortável, incômoda, pesada, que vai te tirar da sua zona de conforto, vai te fazer pensar e refletir à respeito dos valores da sua vida e a forma como você está atuando nela a partir das suas atitudes. Jonathan Glazer entrega um excelente estudo de personagem, cheio de subjetividades, com uma demonstração bizarra do lado mais sombrio e mórbido da humanidade. [28/02/2024]
"American Fiction" é escrito e dirigido por Cord Jefferson (roteirista da série "The Good Place"), em sua estreia na direção de um longa-metragem. O filme baseado no romance "Erasure" de Percival Everett, de 2001, segue um professor romancista frustrado que escreve uma sátira bizarra de livros "negros" estereotipados, apenas para ser confundida pela elite liberal com literatura séria e publicada com altas vendas e críticas.
É fato que entre as inúmeras listas de filmes dessa temporada de premiações cinematográficas, "American Fiction" surge como um provável azarão, e muito por ser uma aposta da produtora, do próprio diretor Cord Jefferson, em um contexto que está diretamente inserido na sátira, na crítica social e ainda exibindo uma boa carga de drama.
É muito interessante acompanhar a história de Thellonious Ellison (Jeffrey Wright), que é mais conhecido como Monk. Um professor que se mostra esgotado, frustrado, indo ao seu limite, e muito por estar em um momento da sua vida onde parece que suas história e suas aulas dentro de um contexto mais racista, de certa forma tem ofendido os seus alunos, que na grande maioria são brancos. E o mais curioso é o fato de cada vez mais os seus romances e suas histórias terem sido rejeitado pelo público, especificamente falando sobre a forma como o entretenimento norte-americano é consumido naquele momento, uma vez que a grande maioria aidna prefira aqueles romances clichês cheio de estereótipos. Dentro de todo esse contexto, Monk decide usar um pseudônimo para fazer exatamente o que ele é contra, que é escrever o que o público quer consumir, já que seu último romance não foi bem aceito exatamente por não conter as famosas histórias negras com estereótipos negros.
Partindo dessa premissa, "American Fiction" é bastante funcional, bem trabalhado, ousado, audacioso, construtivo, sarcástico. Funcionando diretamente com um texto que traz uma pauta inserida em uma sátira social incisiva, poderosa, com um humor mais ácido, sendo irônico, provocativo e ainda misturando uma boa dose de uma comédia ágil e perspicaz. Porém, por outro lado aidna temos uma adição de um drama familiar, que é básico, mas de certa forma até contribui com a trama. Todavia todo esse contexto acaba ganhando mais espaço até do que deveria, e sendo assim acaba pesando e tomando grande parte do desenvolvimento que estava voltado para os conflitos pessoais do Monk e toda sátira que permeava a história.
Cord Jefferson faz uma estreia muito segura e bastante competente, e aidna sendo muito bem blindado por um ótimo elenco. Jeffrey Wright (que também está em "Rustin") é a verdadeira cereja do bolo. Jeffrey traz um personagem cheio de camadas, que está vivendo um confusão pessoal, com seus conflitos pessoais, suas decisões pessoais e seu drama pessoal. Logo ele mostra uma atuação segura, centrada, arrojada, que anda em uma linha até mais sutil e plena. Sterling K. Brown ("This is Us ") é um poço de carisma que contribui diretamente com seu personagem Cliff Ellison, o irmão de Monk. Podemos notar que Sterling entrega uma atuação que é pautada principalmente no irreverente, no cômico, exibindo seus trejeitos, sua faceta, seu gestual, com uma presença de cena bastante intensa. Tracee Ellis Ross ("Black-ish") vive Lisa Ellison, a irmã de Monk. Assim como o Sterling, Tracee é simpática, carismática, com uma veia cômica na medida certa, com muita personalidade, com muita dinâmica, sendo uma engrenagem muito necessária na história. Posso afirmar que o trio formado por Jeffrey, Sterling e Tracee tem muita harmonia, uma boa química, um relacionamento interessante, que se destaca principalmente nas cenas com uma alta dose de diálogos entre eles.
Completando o elenco ainda tivemos o ótimo John Ortiz ("Vem Dançar"), que faz Arthur, o agente do Monk. Um personagem muito hilário que rendeu boas cenas. E Issa Rae (também esteve em "Barbie") como a escritora Sintara Golden, que também rendeu ótimas cenas.
Tecnicamente "American Fiction" está bem decente. A trilha sonora de Laura Karpman (compositora da trilha sonora de "As Marvels") é bem dinâmica e dita bem o ritmo do filme. A fotografia de Cristina Dunlap é bem desenvolvida e chega a se destacar em diversas cenas (principalmente dentro do drama familiar da história). O longa ainda conta com uma boa direção de arte. Uma boa montagem. Uma boa edição. Um bom roteiro digno de uma boa adaptação.
"American Fiction" recebeu cinco indicações no Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator (Jeffrey Wright) e Melhor Ator Coadjuvante (Sterling K. Brown). Também teve duas indicações no Globo de Ouro, e ganhou Melhor Roteiro Adaptado no Critics Choice Awards e ganhou o People's Choice Award.
O longa-metragem arrecadou US$ 229.000 em sete cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média por local de US$ 32.400. Após suas cinco indicações ao Oscar, o filme expandiu de 852 cinemas para 1.702 em sua 7ª semana de lançamento e arrecadou US$ 2,9 milhões, um aumento de 65% em relação ao fim de semana anterior, e um total acumulado de US$ 11,8 milhões.
Por fim, "American Fiction" é um bom filme que soube implementar bem um texto inserido em uma sátira social, com uma boa dose de um humor ácido, irreverente, provocativo, trazendo uma crítica direta à sociedade atual, ao politicamente correto, à indústria midiática, ao racismo e seus estereótipos, e aidna construindo uma narrativa familiar com um material nitidamente humorístico e perspicaz. [24/02/2024]
"Nyad" é uma produção original Netflix, dirigido por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin (diretores de "De Volta ao Espaço", de 2022), e escrito por Julia Cox (roteirista do curta-metragem "The Haircut", de 2014). O filme é baseado no livro de memórias de Diana Nyad de 2015, "Find a Way".
Quase todos os anos temos produções sobre a história de uma personalidade norte-americana. Dessa vez estamos falando sobre "Nyad", o filme biográfico sobre a nadadora Diana Nyad. Diana ganhou um grande destaque em 1970, ao ser reconhecida como a principal nadadora de longa distância do mundo. Diana competia principalmente em mar aberto, onde realizou conquistas como o recorde de natação ao redor da ilha de Manhattan, e o percurso de 164 km de Bimini, Bahamas, até a Flórida, em 27 horas, em 1979.
Diana dedicou grande parte da sua vida esportiva ao seu sonho de fazer um percurso nadando de Cuba até a Flórida. Diana fez cincos tentativas ao longo de sua vida, iniciando em 1978, depois de 33 anos ela volta a fazer mais duas tentativas em agosto e setembro de 2011, em 2012 ela faz uma nova tentativa, conseguindo realizar a sua missão de vida em 2 de setembro de 2013. Diana fez o percurso de Havana até Key West aos 64 anos, percorrendo uma distância de 177 km em 52 horas e 54 minutos, nadando em mar aberto sem a utilização de uma gaiola protetora (que geralmente é usado para evitar ataques de tubarões). Atualmente, aos 74 anos, Diana dedica grande parte de sua vida como escritora, jornalista, radialista esportiva, linguista e palestrante motivacional.
Temos aqui um exemplo a ser seguido, um feito heroico, um ato de coragem, fé, força, crença, motivação, determinação e superação. A própria Diana conta em seu livro todos os limites que ela se submeteu a enfrentar; como o limite do seu próprio corpo, da sua mente, em se manter firme com sua perseverança ao enfrentar os maiores desafios como o medo, a pressão psicológica, as falhas, os erros, o desânimo, as consequências e os perigos em alto mar. Diana nos mostra uma grande lição de vida ao nos imergir em seu filme biográfico motivacional, onde seu principal feito é transformar a superação em competência para vencer, para seguir em frente, para manter principalmente a sua coragem e o seu empenho em busca dos seus sonhos.
Sem nenhuma dúvida o filme nos serve principalmente como uma palestra motivacional, ao nos mostrar um ato intenso e inspirador à bordo de uma aventura emocionante, comovente, desafiadora, expondo principalmente uma luta contra o preconceito de idade e a importância de nunca desistir. O longa nos inspira e reforça que não existe idade para se correr atrás dos sonhos. Como a própria Nyad (que equivale a "Ninfa do Mar" na mitologia grega) enfatiza que quis marcar o seu feito na história e deixar um legado, que tenha se espalhado para uma grande população com a esperança e a força da fé.
"Nyad" inicia nos mostrando filmagens e relatos reais da vida da Diana. Depois temos uma bela passagem de gerações ao som da belíssima "The Sound of Silence", de Simon & Garfunkel. Logo após somos confrontados por aquele diálogo entre a Diana (Annette Bening) e a sua inseparável amiga Bonnie Stoll (Jodie Foster), onde ela afirma que vai realizar a prova de Cuba até a Flórida, cuja a própria Bonnie diz: "você não conseguiu com 28 anos, vai conseguir com 60". Diana responde: "não acredito em limitações impostas." E Diana ainda afirma que agora ela tem a mente que ela precisa para realizar a travessia, que era isso que lhe faltava quando era jovem, o equilíbrio da mente. Bonnie continua confrontando a Diana ao dizer que ela pode ter a mente que precisa mas não tem o corpo. Aproveitando a oportunidade, Diana revela para Bonnie que ela será a sua treinadora.
O longa-metragem transcorre bem com a passagem das cenas e de cada relato. Por mais que temos uma história de superação e todo o seu drama, a história flui de forma leve, dinâmica, com uma dose cômica na medida certa, com diálogos fortes e bastante envolventes. O roteiro acerta bem ao realizar uma mescla entre as cenas reais da Diana nadando ainda jovem, comparando com as cenas do filme com uma Diana já na casa dos 60 anos. A cena que a Diana dá palestras sobre as dificuldades da natação em mar aberto, é muito boa. Outro acerto do roteiro é exatamente nas cenas em que a Diana está tentando realizar o seu percurso, quando temos a Diana do filme nadando enquanto aparecem alguns flashbacks de sua infância, e algumas filmagens reais da competição da época. Não sei até que ponto é real ou não, mas também temos todo o drama que a Diana enfrentou com seu antigo treinador. Outra cena muito boa, é aquele discurso motivacional que a Bonnie faz para a Diana, quando ela esta perto de completar o percurso e está chegando no seu limite físico e mental. A cena final também é muito boa, quando a Bonnie evita tocar na Diana para ajudá-la, e fica incentivando para ela conseguir forças para sair para fora da água com os dois tornozelos, para que assim pudesse então completar a prova.
O que seria desse filme sem as presenças ilustres de Annette Bening e Jodie Foster. É inquestionável que as duas carregam completamente o filme nas costas, onde ouso a dizer que sem elas este filme sequer teria existido e teria sido reconhecido principalmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Primeiramente falando da Jodie Foster (eterna Clarice Starling em "O Silêncio dos Inocentes"): Jodie incorporou aquela esposa e amiga inseparável, mentora, tutora, conselheira, que de alguma forma tentou tirar aquela ideia que parecia absurda da cabeça da Diana, até pela sua idade, mais de 60 anos. Mas o incrível é a química das duas, tanto que a amiga que a aconselha a desistir por motivos óbvios, é a mesma amiga que dá o incentivo, a fé, a coragem e a força que Diana precisava para se manter firme, estando sempre ao seu lado até a conclusão da missão. Belíssimo trabalho da Jodie Foster.
Já Annette Bening (eterna Carolyn Burnham em "Beleza Americana") é a estrela, a protagonista, a personagem-título, o centro das atenções. Annette estudou a personagem, personificou a personagem, analisou cada detalhe, cada oportunidade de se manter cada vez mais fiel com a personalidade verdadeira da Diana Nyad. Sem dúvidas é uma grande atuação, um grande trabalho, onde ela conseguiu acertar no timing perfeito, se manter coerente com cada acontecimento, com uma interpretação forte, verdadeira, carregada dramaticamente e ainda mesclando os momentos mais cômicos. Annette e Jodie estiveram o tempo todo em perfeita sintonia, harmonia, com uma excelente química, onde nos passava ainda mais veracidade acerca daquela forte amizade e comprometimento. Annette Bening entregou uma performance em alto nível de entrega, com a mesma gana e o mesmo desejo de vencer da verdadeira Diana Nyad. Ambas foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.
Agora um ponto que eu jamais poderia deixar de mencionar: a controversa história real por trás do filme. Todo mundo que assistir "Nyad" poderá naturalmente se perguntar o porque que este feito histórico não entrou para o Guinness World Records. Pois o normal seria a Diana Nyad entrar para o Guinnes como a primeira mulher a realizar o trajeto sem o suporte de uma gaiola anti-tubarão. Existe uma grande polêmica que é liderado pela "Associação Mundial de Nadadores em Mar Aberto", que se recusa a validar o recorde. A associação chegou a soltar uma nota (durante o lançamento do filme) que seria essencial assistir o longa-metragem com o total discernimento dos fatos em questão, para que assim todos tivessem em mente as discrepâncias em torno da prova e consequentemente do percurso realizado pela Diana.
A polêmica ocorre porque segundo os órgãos responsáveis, Diana não esteve dentro de todos os protocolos estabelecidos para uma ultramaratona em mar aberto. Ainda se discutem que o recorde da nadadora não foi registrado e nem acompanhado por uma equipe responsável pela avaliação e concretização do percurso. Outro ponto que é discutido, é o fato da própria Diana afirmar que seu recorde foi realizado sem interferências e assistências para ajudá-la no percurso, quando na verdade afirmam que ela utilizou uma roupa especial. Mais uma polêmica sobre o caso, é o fato de afirmarem que grande parte do trajeto (mais ou menos um total de 9 horas) não ter sido completamente acompanhado e consequentemente filmado. E o mais bizarro e polêmico, é o fato de considerarem que em determinados trechos do percurso, segundo os dados do GPS, ela ter conseguido uma aceleração consideravelmente suspeita pela sua forma e velocidade costumeira de nadar, o que julgam que ela possa ter recebido uma ajuda de algum tipo de objeto ou veículo. O lado de defesa da Diana afirma que esta polêmica aceleração ocorreu porque ela teve um impulso de uma correnteza específica do golfo, mesmo sem provas concretas. Diante de todas essas polêmicas e acusações, o recorde de Diana Nyad até hoje foi negado pela associação, o que sempre a impediu de ser reconhecida no Guinness World Records. Em entrevistas sobre o caso, a própria Diana diz: "Talvez eu tenha tido muita arrogância, tipo, 'Não preciso provar isso a ninguém.' Esse é o meu mal".
Dizem que existe uma Teoria da conspiração sobre a carreira esportiva de Diana Nyad, que mostra ela envolvida em várias polêmicas ao longo da sua trajetória como nadadora profissional. Vamos aos casos: Jornais e órgãos relevantes do meio esportivo afirmam que Diana sempre mentiu (ou exagerou) em suas conquistas. Tem o caso em que ela afirmou ter sido a primeira mulher a nadar ao redor da ilha de Manhattan, em 1975, sendo que a primeira, na verdade, foi Ida Elionsky, em 1916, ela foi considerada como a sétima. Dizem que a própria Diana mais tarde se arrependeu dessa afirmação. Outro caso que afirma que Diana já havia mentido sobre seu histórico de natação. Ela afirmou ter ficado em sexto lugar nas seletivas olímpicas de 1968, às quais nunca compareceu. Todas essas questões de certa forma corrobora para uma perda de credibilidade das conquistas da Diana quanto ao ser reconhecida no Guinness World Records.
Todas essas polêmicas foi perguntado para a direção do filme, que responderam que o filme não era sobre o recorde em si, mas sobre a história de coragem, superação física e mental de uma mulher com mais de 60 anos, que percebeu que sua vida ainda não tinha chegado ao fim, e que ela ainda poderia deixar o seu legado ao realizar o seu grande sonho de vida, enquanto o mundo ao seu redor desacreditava dela.
Muitas pessoas saem em defesa da Diana Nyad, ao rejeitarem o seu feito, afirmando como resposta sexista a uma mulher poderosa. Ainda afirmam que não reconhecem toda a trajetória da nadadora porque grande parte da população ainda é anti-mulheres, anti-LGBTQIAPN+, pelo fato de ser um recorde em que uma mulher supera os homens competitivamente falando. Atletas como Gertrude Ederle, Greta Andersen, Shelley Taylor-Smith e Cindy Nicholas foram celebradas pela comunidade da natação por superar os homens em resistência e velocidade. É realmente uma grande polêmica!
Outro ponto que desvalida o filme e perde relevância para muitas pessoas, é o fato da produção apresentar algumas discrepâncias em decorrência da história original. Muitos dizem (incluindo a tal crítica especializada), que o filme simplifica todo o percurso da Diana mostrando apenas uma embarcação que acompanhava o trajeto dela durante o percurso, sendo que na história real ela foi acompanhada por várias embarcações e uma grande tripulação. Ou seja, dentro desse contexto parece que o filme realmente diminuiu o feito dela. Outro caso, ai eu já não sei até que ponto as cenas são reais ou não, mas fato é que a produção cinematográfica sempre gosta de dramatizar um pouco mais a história para gerar engajamento e comover o espectador. Mas também muitas pessoas envolvidas diretamente com a Diana Nyad afirma que o longa dramatiza eventos que não aconteceram como foi visto; que o caso das cenas do encontro com um tubarão e com a água-viva. Já eu achei um tanto quanto exagerada e fictícia algumas daquelas representações de como se vive em Cuba e todo o trajeto livre e fácil para o local.
"Nyad" teve o reconhecimento em alguns festivais de premiações, consequentemente recebendo indicações, entre elas de Melhor Atriz (Annette Bening) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster) no Oscar, no Globo de Ouro e no Screen Actors Guild Awards.
No mais, "Nyad" é um bom filme biográfico de mais uma personalidade norte-americana. O longa nos mostra que sonhos não tem idade e nem limites, que nos exemplifica acerca do poder da fé, da coragem, da perseverança, da motivação, da determinação e principalmente da superação tanto física quanto mental. Confesso que eu vou me abster em comentar sobre as inúmeras polêmicas, tanto da carreira profissional quanto do filme da Diana Nyad, até porque eu não tenho um vasto conhecimento dos casos. Até que ponto é verdade ou não, isso não vem ao caso, o que me resta é reconhecer o grande feito heroico, o grande recorde e o grande legado motivacional que esta mulher deixou marcado na história do esporte e principalmente da vida.
Encerro citando as três frases que a Diana Nyad fala ao término de sua missão: 1 - Nunca desistam! 2 - Nunca é tarde para ir atrás dos sonhos! 3 - Você vai precisar de uma equipe! [02/02/2024]
"Vidas Passadas" é uma produção da A24, escrito e dirigido por Celine Song em sua estreia na direção de um longa-metragem. A história segue dois amigos de infância ao longo de 24 anos enquanto eles contemplam a natureza de seu relacionamento à medida que se distanciam, vivendo vidas distantes e diferentes.
Apesar de "Vidas Passadas" não ser uma biografia real da diretora Celine Song, temos aqui um enredo que é semiautobiográfico e inspirado em acontecimentos reais de sua vida. Pois de acordo com as minhas pesquisas, o longa se baseia na trajetória da cineasta, soando como uma obra muito intimista e de grande valor sentimental para ela. Celine é nascida na Coréia do Sul, e migrou-se para o Canadá com sua família quando tinha 12 anos, justamente deixando para trás o seu primeiro grande amor. Celine viveu em Nova York, se casou, e depois de muito tempo ela reencontra o seu primeiro amor pela internet, e depois de mais algum tempo eles se reencontram pessoalmente.
Quem aqui nunca teve uma amor de infância e depois foram separados pela vida, mas que até hoje ainda se lembra desse primeiro amor?
Dentro desse contexto que "Vidas Passadas" é desenvolvido e criado para nos confrontar com escolhas, com decisões, com atitudes, traçando uma linha que nos propõe se impactar com um amor que transcende a idade, o tempo e a distância. Celine Song cria um cenário para nos faze pensar e nos questionar sobre nossas próprias escolhas, quando essas escolhas impacta em nosso percurso de vida, quando essas escolhas nos confronta com amores interrompidos ou até perdidos. É muito claro toda a reflexão que o longa nos obriga a fazer durante todo o trajeto que vamos fazendo junto da protagonista Nora (Greta Lee).
Eu já vou iniciar destacando o excelente roteiro da Celine Song. Pois a forma como ela idealizou e realizou toda a história é de uma genialidade absurda, nem parecia que era sua estreia no cinema (roteiro digno de Oscar). Por ser uma história autoral, íntima e bastante sentimental, Celine comanda todo o desenvolvimento de forma sútil, sensível, sensorial, empregando um olhar mais contemplativo, mais poético (inicialmente), mais humano, que vai nos envolvendo pela sua leveza e vai nos amarrando cada vez mais naquela história. O maior acerto do roteiro é justamente um desenvolvimento mais lento, mais introspectivo, mais reflexivo, sem exagerar, sem acelerar, sem forçar, sem pesar a mão em cima do melodrama. Pois a história vai tomando forma aos poucos, vai criando um ambiente que nos cativa pela sua profundidade e pela sua delicadeza nos temas abordados.
O início da história já é bastante singelo ao nos apresentar para a inocência de duas crianças que eram inseparáveis amigos de infância. Ali eles já tinham criado seus eternos laços de amor e amizade. E aqui o roteiro já nos puxa para fazermos uma grande reflexão; afinal de contas a jovem Na Young (Seung Ah Moon) e o jovem Hae Sung (Seung Min Yim) estavam se separando não por suas próprias escolhas e sim por fatos familiares. Dessa forma nos questionamos o poder que escolhas tem em mudar nossa vida, sendo que essas escolhas será determinante para o nosso destino, em definitivo ou não.
Depois desse início temos uma passagem de tempo, 12 anos, onde o Hae Sung (Teo Yoo) já está adulto, já foi para a guerra, porém jamais se esqueceu da Nora. Dessa forma ele busca encontrar ela pela internet (Facebook) e eles conseguem ter um contato depois de todos esses anos através de uma videochamada no Skype. Nora tinha saído do Canadá e estava morando em Nova York, onde ela já era uma escritora. Hae Sung estava na universidade e pretendia estudar na China para aprender mandarim. Como cada um tinha diferentes projetos de vida naquele momento, não conseguiram se encontrar pessoalmente, o que fez com que Nora decidisse se afastar dele naquele momento e focar em sua vida profissional.
Temos mais um salto no tempo, mais 12 anos, quando Nora é informada pelo próprio Hae Sung que ele iria para Nova York tirar férias e queria se reencontrar com ela. Nessa altura da trama temos um ponto muito importante, que é justamente a definição da palavra "In-Yun", que na Coréia tem um significado como destino. Os coreanos acreditam em conexões humanas quando duas pessoas se esbarram em algum momento da vida. Algo como se essas duas pessoas que se esbarraram já tivessem se encontrado anteriormente em uma espécie de vidas passadas. Sendo assim, Nora acaba conhecendo (ou se esbarrando) com Arthur (John Magaro), durante sua residência em Nova York. Nora está casada com Arthur há 7 anos e ele conhece toda a sua história de infância envolvendo Hae Sung. Já Hae Sung, que está indo ao encontro de Nora, também sabe que ela está casada.
Celine Song é magnífica ao explorar sentimentos, emoções, surpresas, ao confrontar os dois maiores amores da vida da Nora ali lado a lado. E o fato curioso é justamente o relacionamento entre Nora e Arthur, que é uma base sólida de um casamento que é feito com honestidade e confiança. Sendo assim, Arthur compreende e entende sobre seu amor de infância e o que aquela presença pode significar para ele. E aqui o roteiro de Celine Song cresce ainda mais, ao tomar uma proporção que vai explorar os três personagens, que vai impactar e confrontar Arthur pela presença de Hae Sung, já que o Arthur é uma pessoa confiante e compreensiva, mas ele entende todos os riscos que ele está correndo com aquele reencontro.
Este é o ponto alto do roteiro de Celine Song, exatamente este confronto, esta rivalidade, que poderia existir ou não. E aqui já nos pegamos na indecisão de qual lado defender, ou simpatizarmos, já que no lado do Arthur, ele é o atual amor de Nora, que sim, sente ciúmes, sente insegurança, mais que não se deixa abalar visivelmente, já que internamente ele se sente como um intruso naquele momento, por estar no meio de um vínculo muito forte, que transcende os limites de tempo e espaço. Exatamente como ele se refere à Nora, que se sente como o marido branco americano malvado que está interferindo com o destino. E aqui eu preciso destacar aquela cena em que a Nora leva o Hae Sung para conhecer o Arthur. É uma situação extremamente embaraçosa e constrangedora (até para nós espectadores). E ainda tem aquela outra cena no restaurante, em que Hae Sung e Nora conversam em coreano (idioma que o Arthur não dominava) sobre o passado e suas decisões, enquanto o Arthur fica completamente escanteado no assunto e no lado da mesa.
Já pelo lado do Hae Sung, é fato que ele nunca esqueceu a Nora, que ele sempre amou ela incondicionalmente, que de alguma forma ele estava buscando respostas quando viajou para reencontrá-la em Nova York. Nesse ponto os três personagens da história se pegam fazendo perguntas que nós nos fazemos no dia a dia. Pois temos costumes de nos questionarmos sobre como seria se nós tivéssemos feito outras escolhas. Estaríamos fazendo certo? Estaríamos fazendo errado? Como seria minha vida se eu tivesse mudado minha escolha no passado sobre tal questão? Este é o ponto em que o roteiro de Celine Song é extremamente reflexivo. Um ponto que também me remete à um excelente livro de profunda reflexão sobre as escolhas que fazemos em nossas vidas - "A Biblioteca da Meia-Noite" - do autor Matt Haig.
O elenco de "Vidas Passadas" passa veracidade em todas as cenas! Greta Lee ("The Morning Show") é o centro das atenções. Ela constrói uma personagem forte, empenhada, destemida, que precisa fazer escolhas em sua vida, que certas escolhas faz com que ela viva em um dilema. Teo Yoo ("Love To Hate You") faz aquele contraponto acertado com a Greta, trazendo uma bela química ao contracenarem juntos. Teo mostra uma bela veia para encarar dramas, para se apresentar com um personagem mais introspectivo, mais fechado, para também expor os seus dilemas. Já o John Magaro ("Orange Is the New Black") surpreende positivamente ao apresentar um personagem que pode ser encarado como o forasteiro daquela história de primeiro amor, que está confiante em sua esposa e seu casamento, que ainda assim encara os riscos daquela paixão reacender. E aqui eu preciso confessar que sempre me pareceu que os asiáticos fossem pessoas frias, que não expressam totalmente seus sentimentos e suas emoções, porém esta dupla mudou meu pensamento. Nem preciso destacar individualmente a atuação de cada um, já que os três estiveram o tempo todo em uma perfeita sintonia, com uma grande exibição e um grande entrosamento. Porém, vale ressaltar um ponto que engrandeceu ainda mais a atuação de todo o elenco; que é a sutileza de uma interpretação que é carregada nos detalhes de expressões, reações, olhares, ampliando todo um gestual que casou com perfeição entre os fortes diálogos.
Um grande filme precisa se destacar nas qualidades técnicas! A trilha sonora dos compositores Christopher Bear e Daniel Rossen tocam o fundo de nossas almas. Temos aqui composições leves, singelas, com suaves melodias de pianos, que transmitia afeto, carinho, amor, ternura, que nos deixava emocionados, principalmente naquela cena final de despedida entre a Nora e o Hae Sung (por sinal, o ponto alto filme). O diretor de fotografia Shabier Kirchner ("Lovers Rock") faz um trabalho impecável, ajustado, compondo enquadramentos que nos aproximava cada vez mais dos personagens em cena.
"Vidas Passadas" arrecadou US$ 232.266 em quatro cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média de US$ 55.066. O longa recebeu cinco indicações no Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme - Drama. No Oscar, recebeu indicações para Melhor Roteiro Original e Melhor Filme (um grande feito e um grande reconhecimento para uma diretora estreante).
Encerro afirmando que a diretora Celine Song faz a sua estreia com o pé direito, pois ela compôs um lindo roteiro autoral, intimista, de grande valor sentimental, usando como base a sua trajetória de vida. Dessa forma ela conseguiu impactar com uma história forte, verdadeira, imponente, avassaladora, que nos confrontou com o poder da aceitação e das nossas escolhas, e nos mostrou uma nova perspectiva de como encarar um amor que ficou deixado para trás. Além de uma visão que nem sempre o amor é suficiente. [31/01/2024]
"Os Rejeitados" é dirigido por Alexander Payne e escrito por David Hemingson em sua estreia como roteirista de um longa-metragem. O filme se passa no ano de 1970, e é estrelado por Paul Giamatti como um professor clássico rigoroso em um internato de uma pequena cidade em Massachusetts, que é forçado a acompanhar e ser o responsável por um grupo de alunos que estão retidos durante as férias de Natal.
Alexander Payne é um cineasta conhecido por ter uma opinião forte, por impor um senso de humor ácido aliado à um contexto satírico, o que muita das vezes compõe roteiros mais afiados, com um certo nível de críticas sociais, com monólogos e todo um desenvolvimento de personagem. Alexander já tem uma grande bagagem hollywoodiana, já foi indicado ao Oscar e já venceu por "Sideways" (2004) e "Os Descendentes" (2011).
Diferentemente dos dois filmes citados, em que Alexander Payne ganha o Oscar justamente pelo seu roteiro, em "Os Rejeitados" ele conta com um roteiro inteiramente escrito pelo roteirista David Hemingson. David sempre esteve mais envolvidos com roteiros de séries, como por exemplo: "How I Met Your Mother" (2005), "American Dad"(2005) e "Whiskey Cavalier" (2019). Aqui David surpreende ao trazer um roteiro que foca principalmente no estudo de personagem, no desenvolvimento de personagem, traçando uma linha entre uma comédia natalina e um profundo drama.
"Os Rejeitados" tem um início mais voltado ao desenvolvimento das grandes películas da década de 70, funcionando como resgate nostálgico da época, emulando toda aquela época, que foi justamente uma época marcada pelos grandes protestos, os grandes conflitos e as grandes mudanças em todo território norte americano. Este cenário é o pano de fundo do desenvolvimento de toda a história, já que no início temos o grupo dos "Rejeitados" que estão sobre a tutela daquele professor, que obrigatoriamente estão com os seus sonhos trancados e sofrem uma melancolia. É interessante notar que todos do grupo sofrem de alguma forma com aquele abandono de suas famílias, com aquela situação que estão passando, por mais que eles não admitam nem para eles próprios. E aqui entra a parte que o roteiro aborda questões humanas sobre o relacionamento humano entre pais, filhos e professores.
O roteiro foca no desenvolvimento de pontos como relacionamento, isolamento, crescimento, o teor da juventude, da aceitação e da superação. De início fica bem claro toda as questões que serão abordadas ao logo da trama, porém, logo após a parte que os três alunos (Teddy Kountze, Alex Ollerman e Ye-Joon Park) vão embora de helicóptero, o filme cresce ainda mais de rendimento, muda de tom, de ritmo e passamos a acompanhar aquele relacionamento conturbado que vai tomando forma entre mentor e aprendiz. Esta segunda parte é onde o filme constrói e estabelece sentimentos de solidão, conexão, reaproximação, libertação, transformação, criando um ambiente que percorre o sentimentalismo, a dor, a perda, o luto, o trauma e o abandono.
Nesse ponto o roteiro é muito hábil e muito inteligente ao traçar uma linha que percorre sobre o trio (Paul, Tully e Mary), mostrando suas diferenças, suas personalidades, seus conflitos, seus pensamentos, suas fragilidades, suas vulnerabilidades, o que logo corrobora para cada um lidar com suas dores, seus traumas e seus sofrimentos internos. O longa consegue abordar com maestria cada um desses pontos fazendo uma dosagem perfeita entre o sentimento de nostalgia, solidão, melancolia, mas sem desandar para o melodrama forçado e aidna conseguindo mesclar tudo dentro de uma comédia dramática. O mais interessante é a forma como o filme consegue manter o equilíbrio de todos os personagens, pois cada um tinha sua dor e seu sofrimento interno, e por mais que nenhum deles quisessem estar naquele local em uma data que remete a união familiar, mas logo eles vão se reencontrando, criando um vínculo improvável, um senso de união, uma forma para que juntos pudessem encarar suas diferenças enquanto atravessavam aquelas férias natalina.
"Os Rejeitados" é aquele típico caso que você lê a sinopse e não dá nada para o filme, e justamente, temos aquela história simples porém bem desenvolvida, bem contada, bem interpretada, com um tom sensível, emocionante, libertador, que logo nos prende e nos deixa confortável aquecendo os nossos corações. De fato é muito gostoso e muito comovente acompanhar aquele nascimento daquele relacionamento improvável entre aluno e professor, aidna mais se falando de duas pessoas que a princípio se mostram totalmente diferentes, com ideias e atitudes diferentes. Porém, com o passar da história vamos conhecendo melhor cada um e entendendo melhor cada um. Como no caso do Angus Tully (Dominic Sessa), que se mostra rebelde, insatisfeito, melancólico, e justamente pela sua criação, pelo abandono de sua família. Como na cena em que ele nos conta toda a sua história e logo após ele vai ao encontro do seu pai, que está internado por sofrer de uma doença mental debilitante, esquizofrenia paranoica e demência precoce. Ali já notamos toda a sua desconstrução e descaracterização daquela personalidade que conhecemos no início.
Dominic Sessa faz a sua estreia no cinema e de cara ele já nos surpreende com uma atuação forte, arrojada, competente, de um jovem rebelde, problemático, rejeitado, revoltado com a vida, tomado por dores e traumas familiares. Porém, logo ele nos conquista e nos convence pela sua sensibilidade, pelo seu carisma, pela sua naturalidade de atuar, que realmente nos desperta empatia e passamos a sentir as suas dores. Já o Paul Giamatti (dos clássicos "O Show de Truman" e "O Resgate do Soldado Ryan") faz aquela linha de professor carrancudo, linha dura, com um olhar rigoroso e uma postura mais arrojada, que a principio transcende os seus limites até aquela conexão imediata e problemática com o Jovem Tully. Uma atuação extremamente perfeita e muito bem apresentada de Paul Giamatti, que navega em diferentes personalidades de seu personagem, nos expondo um lado rigoroso tomado de um senso de humor sarcástico, contrapondo com um lado mais humano, mais natural e mais sensível de um professor que cria empatia e compaixão pelo seu aluno.
E aqui vale destacar a enorme química alcançada entre o Dominic Sessa e o Paul Giamatti, que juntos estiveram o tempo todo em uma perfeita harmonia, sintonia, expondo carisma, sinergia, um senso de humor, um timing para as cenas mais cômicas, mais hilárias, mais casuais, e compondo duas personalidades que juntas se reencontraram com uma enorme transformação de caráter.
Completando o belo trio de "Os Rejeitados", temos a Da'Vine Joy Randolph ("Only Murders in the Building") que interpreta a cozinheira-chefe Mary Lamb. Mary é uma mulher ressentida, trancada dentro de si, enlutada pela perda do filho na guerra, que silenciosamente explora a sua dor e o seu trauma. Porém, ela é a peça-chave que começa a costurar as emendas do roteiro em relação a improvável convivência entre Paul e Tully. No fim ela é parte fundamental do trio, que juntos exploram suas dores, a profundidade da solidão e a essência da construção daquele relacionamento. E o mais interessante é que juntos eles conseguem encontrar conforto, carinho e afeto. Belíssima atuação de Da'Vine Joy Randolph, que nos conquistou pelo seu enorme carisma e seu ótimo trabalho.
E para contextualizar a enorme química do trio, temos algumas cenas que são interpretadas como uma verdadeira libertação. Como por exemplo: aquela cena onde os três estão ao lado de fora do restaurante, onde juntos fizeram o seu próprio "Cherries Jubilee". Esta é uma cena incrível, onde já exemplifica o poder de um relacionamento construído como uma base familiar. Aquela cena que o Paul defende o Tully na frente do diretor, da mãe e do padrasto, afirmando que a culpa era dele, ao levá-lo naquela férias e o convencer a visitar o pai. E o Paul sacrifica o seu emprego ali para evitar que o jovem fosse para uma escola militar. É uma cena que funciona como uma lavagem na alma do Paul, afinal de contas ele estava se doando e fazendo uma coisa boa, pois no fim ele conheceu a verdadeira personalidade do Tully e viu todo o seu potencial. E no fim temos o fechamento com chave de ouro, o ápice de toda a trama; que é justamente a despedida do Paul e o Tully, com ele dizendo que não sabia o que o Paul tinha dito para seus pais e o diretor, mas que ele não iria mais ser expulso. Eles se despedem com um forte e verdadeiro aperto de mãos, com o Paul partindo comovido e o filme acabando. Este final é apoteótico, libertador, um afago em nosso coração, em nossa alma, funcionando como uma verdadeira lição de vida, de formação de carácter, de amadurecimento, de engrandecimento e de criação do ser humano.
Destacando as partes técnicas do filme: A trilha sonora é melodramática, mas isso não quer dizer que é ruim e nem forçado, soa como necessária para acompanhar todo o desenrolar daquela história. Tanto que no início tínhamos uma trilha sonora mais potente, dado ao momento de rebeldia do grupo, logo após a trilha é mais densa, mais pesada, mais comovente, com melodias mais agravantes diante daquele cenário. Sem falar que ainda tínhamos algumas músicas natalinas, que personificou ainda mais a proposta do filme. A cinematografia é bem apresentada, cujo funcionamento esteve em perfeita harmonia com uma base sólida da fotografia. Sem falar na direção de arte, que também colaborou em grande estilo com cenários que nos remetia à década de 1970.
"Os Rejeitados" foi eleito um dos 10 melhores filmes de 2023 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute, e recebeu muitos outros prêmios, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante (Da'Vine Joy Randolph) e Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia (Paul Giamatti). Também recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator para Paul Giamatti, Melhor Atriz Coadjuvante para Da'Vine Joy Randolph e sete indicações ao BAFTA, incluindo Melhor Filme e Diretor.
"Os Rejeitados" arrecadou US$ 211.093 em seis cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média de US$ 35.082 por local, totalizando US$ 26 milhões no geral.
Por fim: Alexander Payne nos brinda com um excelente filme que trata de uma leitura de personagem, de amizade, de avaliação comportamental, da criação de vínculos, de relacionamentos, analisando temas como melancolia, dor, luto, perdas e recomeços. Sem dúvida o filme consegue nos imergir em uma comédia dramática natalina inserida em uma releitura acerca da solidão, do abandono, da aceitação, da redenção, que nos mostra principalmente os nossos erros, a nossa superação e a reconstrução de relacionamentos quebrados entre pais e filhos. "Os Rejeitados" é uma grata surpresa, pois no fim eu fiquei comovido e tocado pela sua linda mensagem, que inclui valores, conceitos, empatia, bondade, sensibilidade, e principalmente uma grande lição de vida. [28/01/2024]
Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno
1.7 182🚨🚨🚨 ⚠ TEM SPOILERS DO FILME E DO JOGO ⚠ 🚨🚨🚨
Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (Return to Silent Hill) 2026
"Return to Silent Hill" é escrito e dirigido por Christophe Gans (diretor e roteirista do excelente "O Pacto dos Lobos", de 2001) com roteiro de Sandra Vo-Anh (roteirista de "A Bela e Fera, de 2014) e Will Schneider (roteirista de "O Corvo", de 2024). O longa-metragem é baseado e inspirado no jogo de videogame da Konami de 2001, "Silent Hill 2", e segue como o terceiro filme da franquia "Silent Hill" e ainda pode ser considerado como um reboot. O filme acompanha James Sunderland (Jeremy Irvine), um homem atormentado e consumido pelo luto após a perda do seu grande amor, Mary (Hannah Emily Anderson). Ao receber uma carta misteriosa dela, ele retorna à enevoada cidade de Silent Hill. Lá, o que antes parecia ser uma cidade familiar, agora o obriga a encarar e enfrentar forças demoníacas, o que acaba por desvendar verdades aterrorizantes e uma verdadeira luta para manter a sua sanidade.
Antes de mais nada eu preciso contextualizar que eu sou uma pessoa completamente viciada em videogames desde os meus 10 anos de idade. Dito isto, "Silent Hill" é uma das minhas franquias de jogos da vida, o que obviamente fez eu conhecer e entender tudo do universo "Silent Hill" e consequentemente já ter jogado e terminado todos os títulos da franquia existentes até hoje. Eu joguei e terminei o "Silent Hill 2" no Playstation 2 algumas vezes, assim como terminei a versão do Xbox 360 de "Silent Hill HD Collection", que inclui uma versão do "Silent Hill 2", e no ano passado eu terminei o mais recente e excelente Remake oficial no Playstation 5.
Quando foi lançado "Terror em Silent Hill" lá em 2006, eu fiquei em êxtase para conferir o que até então era o primeiro filme da minha amada série de jogos (me lembro de ter assistido exatamente no dia da sua estreia, 18 de Agosto de 2006). Este primeiro filme é dirigido justamente pelo próprio Christophe Gans, e na época eu adorei o filme. "Terror em Silent Hill" é baseado no primeiro jogo, lançado em 1999, e na minha opinião é um bom filme que traz uma adaptação bastante fiel até. O maior problema do filme é a mistura de personagens e acontecimentos que o diretor decide fazer, o que acaba mudando algumas partes da história original do jogo. Mas por outro lado temos bastante fidelidade nos personagens, nos cenários, no clima e na trilha sonora original. Já em 2012 tivemos "Silent Hill: Revelação", dessa vez dirigido por M.J. Bassett, que adapta de forma muito vaga algumas partes do enredo de "Silent Hill 3", lançado em 2003. Este filme já apresenta muitos problemas em relação ao roteiro adaptado, personagens, acontecimentos e principalmente mudanças significativas na história em relação ao jogo.
Após 20 anos o diretor Christophe Gans retorna com "Return to Silent Hill" que traz uma adaptação justamente do segundo jogo da franquia que ainda não tinha sido adaptado. Como recentemente eu joguei o "Silent Hill HD Collection" e o Remake, então toda a história de "Silent Hill 2" está bastante fresca em minha memória, ou seja este era o momento exato para assistir "Return to Silent Hill".
Como um fã do segundo jogo eu gostei daquele cenário inicial, pois é exatamente o mesmo cenário do jogo, com o James andando no local, indo até o banheiro desativado e se olhando no espelho. Logo após o James desce a escadaria e chega até o cemitério, onde ele encontra a Angela (Hannah Emily Anderson). Logo após a conversa com a Angela ele segue andando e chega na cidade de Silent Hill, tudo bastante fiel ao jogo. Já por outro lado aquele flashback inicial do James chegando no local, conhecendo a Mary, e toda a sequência a partir dali não faz o menor sentindo. Ou seja, já no início do filme o diretor e roteiristas já mostraram o que pretendiam fazer com a história do jogo.
Os detalhes técnicos e artísticos do filme fazem toda a diferença e conta muito para a fidelidade da adaptação, como no caso dos cenários da cidade de Silent Hill, como as ruas, as lojas, o bar, o parque, o cemitério e o hospital, que estão perfeitos. Os cenários do filme mostram uma inspiração mais próxima do Remake oficial do que propriamente do jogo original. Outro ponto que conta muito para o desenvolvimento do filme é todo clima sombrio e macabro do jogo que está presente, assim como a famigerada névoa das ruas de Silent Hill e também às cinzas do incêndio. A fotografia é sensacional, pois ela dita o ritmo do filme com aqueles enquadramentos nos cenários com um tom mais morto, denso, borrado e acinzentado.
Christophe Gans transforma seu filme em um verdadeiro "Fan service", pois fora os cenários, o clima e a ambientação, temos a emblemática "Sirene", o James andando pelas ruas de Silent Hill com a barra de ferro e o icônico rádio que transmite interferências com a aproximação dos inimigos. Por outro lado em nenhum momento temos cenas com armas de fogo como no jogo. Por falar em inimigos, as famosas criaturas de Silent Hill estão presentes e são muito fiéis ao jogo, como no caso do "Sem braço" cuspindo ácido, o "Spider Mannequin", as "Enfermeiras", o Boss "Flesh lip" e o lendário "Pyramid Head". Em questão de personagens do jogo eles estão presentes, assim como o próprio James e a Mary, temos a Angela, a Maria, a Laura e o Eddie. Por outro lado temos alguns personagens insignificantes que não estão presentes no jogo.
Outro ponto bastante positivo no filme é a presença do lendário compositor Akira Yamaoka, que compôs a trilha sonora da grande maioria dos jogos da série "Silent Hill", incluindo a lendária música tema do jogo. Algumas músicas do jogo original foram usadas como música temporária durante a edição, inclusive o filme termina com uma icônica música do jogo.
No quesito técnico e artístico o diretor Christophe Gans consegue manter toda essência e toda a fidelidade do jogo "Silent Hill 2", já no quesito roteiro ele faz exatamente o que ele fez no filme de 2006, muda algumas partes da história original e coloca a sua visão em relação ao enredo do jogo. No filme o James consegue realizar ligações para sua psicanalista, sim ele tem uma psicanalista no filme, o que eu achei absurdo, mas ok, eu tinha certeza que o diretor iria querer colocar atitudes que humanizasse mais o James do filme em relação ao James do jogo. O jogo "Silent Hill 2" possui um terror psicológico sobrenatural que traz um foco no luto, no remorso e na culpa pessoal do James como uma manifestação psicológica dos traumas reprimidos dele em relação a sua atitude perante a sua amada Mary. Já no filme temos elementos que introduz uma espécie de seita como a responsável por todos os acontecimentos, e ainda colocando o pai da Mary como o grande mentor por trás desse culto satânico enquanto ainda estava vivo.
O remake de "Silent Hill 2" possui 8 finais, já no jogo clássico temos 6 finais. No final "In Water" mostra toda a dor e todo o sofrimento do James devido a doença terminal da Mary, o que mostra que a Mary não morreu no hospital pela sua doença mas sim pelas mãos do próprio James, que se viu incapaz de ver a sua amada sofrer e agindo por misericórdia, por frustração e exaustão ele a mata (como uma eutanásia) sufocando com um travesseiro. Movido pela dor da perda, pelo trauma e pelo luto, James decide tirar sua própria vida se afogando no lago Toluca ao lado do corpo da sua amada. Este é o peso emocional e espiritual do James no jogo, já no filme temos uma espécie de redenção, de humanização do James em relação a sua esposa, algo como se ele tivesse apenas deixado ela ir resolver seus problemas em Silent Hill. Esta é a forma que o filme apresenta a Mary, como uma espécie de vítima daquela seita, uma vez que no jogo temos a figura da Mary como frágil e vulnerável, que sofreu e morreu por causa da sua doença. No filme até temos a cena em que o James mata a Mary asfixiada e depois se joga com o carro com o corpo dela no lago Toluca, mas tudo é feito de forma leve, rasa, genérica, sem aquele peso e aquela dor, algo como apenas uma obrigação.
O jogo "Silent Hill 2" é emblemático justamente por apresentar uma gameplay acompanhada de um ritmo lento, mórbido, introspectivo, onde convivemos com a solidão, o mistério e principalmente o terror psicológico. Já no filme o que temos é uma narrativa autoexplicativa que de cara já entrega absolutamente tudo, sem deixar o espectador ser forçado a entender e juntar as peças desse quebra-cabeça justamente como acontece no jogo. O Maior erro dessa adaptação é justamente trazer um foco maior na humanização dos personagens, como se precisássemos se identificar com o casal para assim conseguir sentir a dor de ambos e se importar com eles. Eu preciso ressaltar aqui que estamos falando da adaptação de uma das maiores franquias do "Survival Horror" da história dos videogames e não de um filme romântico qualquer. E digo isso justamente pelo caminho que o roteiro seguiu ao decidir trazer o foco maior em um melodrama romântico sem o menor cabimento possível. Temos algumas cenas entre o James e a Mary que é um verdadeiro melodrama barato que supera qualquer novela mexicana - é um absurdo!
O que decidiram fazer com a Mary soa ainda mais absurdo quando ela passa a agir como vítima daquela seita, onde a própria afirma para o James que eles eram a sua família porque a acolheram após a morte de seu pai. E o pior ainda é a forma como o roteiro coloca os personagens coadjuvantes como uma espécie de extensão da Mary, como no caso da Laura e da Angela, algo completamente absurdo em relação ao jogo.
A jovem atriz Evie Templeton, que já havia dublado a personagem Laura no remake de 2024, agora interpreta a mesma personagem no filme. No jogo a Laura é uma criança rebelde órfã que sempre age fazendo suas artes com o James. Já no filme ela é tratada como uma espécie de criatura, ou entidade, que serve como uma manifestação de pesadelo controlada pela cidade de Silent Hill - bizarro!
A personagem Angela no jogo é uma jovem que foi para Silent Hill procurar sua mãe desaparecida, mas depois descobrimos que ela fugiu de casa por sofrer abusos sexuais e apresentar tendências suicidas. No filme ela nada mais é do que uma extensão dos sofrimentos da Mary, ou seja, ela perde a sua história pessoal do jogo para se tornar um representação dos abusos e sofrimentos da própria Mary.
O mesmo vale para a personagem Maria, que no jogo ela é uma manifestação sobrenatural criada por Silent Hill na mente do James, onde ele baseia os seus desejos mais carnais sobre Mary, ou seja a Maria é a figura da Mary viva mais sexy e atraente para o James. Já no filme a Mary e a Maria são essencialmente a mesma pessoa mas com a mudança que ela agora é ligada a tal seita. Pelo menos o figurino da Maria no filme é bem fiel ao figurino da Maria do Remake. E vale ressaltar que a atriz Hannah Emily Anderson interpreta a personagem Mary, a Maria e a Angela, o que eu achei uma decisão bem grotesca, a começar pela figura da própria Mary e Maria, que de cara já entrega tudo e meio que retira o peso daquela virada na trama pra quem já conhece história. Ou não também, a essa altura tanto faz!
Agora o que fizeram com o personagem Eddie Dombrowski (Pearse Egan) é o maior absurdo desse filme, algo completamente inaceitável e repudiante para nós fãs. No jogo Eddie é uma pessoa complexa, traumática, com sérios problemas psicológicos, que sofreu traumas e bullying pela sua aparência e seu peso, e com o passar do tempo ele vai perdendo a sua sanidade e se transforma em um assassino que mata todo mundo que rir dele. Tanto é que no jogo o Eddie serve como uma espécie de espelho obscuro do próprio James, ele tem um arco pessoal muito importante para o desenvolvimento da história, sendo um antagonista e se transformando em um dos Boss final do jogo. Já no filme o Eddie aparece unicamente como uma obrigação do roteiro para que os fãs do jogo vissem que ele estava presente na trama. Ou seja, o Eddie no filme tem um tempo de tela ridículo, está completamente perdido na trama, nem chega a confrontar o James como faz diversas vezes no jogo, apenas se mostra como um personagem assustado pelas criaturas e do nada é limado completamente da história e nunca mais aparece - absurdo! - Grotesco!
"Return to Silent Hill" tem sérios problemas com o CGI, isso é muito perceptível em várias cenas. Inclusive aquela barba que colocaram no Jeremy Irvine chega a dar vergonha alheia do quanto ficou ridículo. No entanto, aos trancos e barrancos, o Longa-metragem conseguiu superar o seu orçamento de US$ 23 milhões atingindo uma bilheteria mundial de US$ 47,9 milhões. O que não é assim considerado um grande resultado financeiro em relação a sua receita inicial nos dias de hoje.
No mais, após 20 anos o diretor Christophe Gans retorna para a franquia "Silent Hill" trazendo um filme que para quem é fã do jogo poderá se agradar nos quesitos técnicos como cenários, personagens, criaturas lendárias, ambientação, clima, fotografia e trilha sonora, que de fato estão muito fiéis ao jogo, isso é inegável. Porém, no quesito enredo e fidelidade com a essência da história já eternizada no jogo, este filme chega a ser um insulto e um completo desrespeito para com o universo de "Silent Hill 2".
- 11/07/2026
M3GAN 2.0
2.7 235 Assista AgoraM3GAN 2.0 (2025)
"M3GAN 2.0" é escrito e dirigido por Gerard Johnstone (diretor do primeiro filme), a partir de uma história que ele co-escreveu com Akela Cooper. Akela, junto com James Wan, são os criadores da ideia original do filme e ambos também assinaram como roteiristas do primeiro filme. Nesse segundo filme o roteiro ficou à cargo somente do diretor, já que Akela Cooper não participa e o James Wan esteve apenas como produtor. "M3GAN 2.0" é uma sequência do filme "M3GAN" de 2022 e o segundo filme da franquia "M3GAN".
A trama acompanha M3GAN sendo reconstruída para combater uma robô militar humanoide construída com a tecnologia de M3GAN, que está tentando uma dominação por inteligência artificial.
Quando "M3GAN" surgiu lá em 2022, o longa veio naquela onda de bonecos assassinos, bebendo exatamente da fonte de personagens como o icônico "Chucky" e a já consagrada "Annabelle". Porém, estava muito claro que esses personagens serviram apenas como inspiração para "M3GAN", já que em nenhum momento o longa fez questão de ser levado a sério se estabelecendo dentro desse universo. "M3GAN" usa apenas a temática do terror e do suspense, mas seu conceito é uma ficção que funciona como um terror galhofa, até pela indicação estimada na época. Por mais que "M3GAN" use, e até crie, um clima de suspense e terror, a base principal é a diversão e o entretenimento de forma totalmente despretensiosa e descompromissada.
No entanto, o primeiro filme ainda consegue um pequeno destaque ao abordar (de forma rasa, eu entendo) um drama familiar envolvendo a criança que perdeu os pais, e de forma forçada precisa aprender e se adaptar à convivência com uma tia inexperiente no quesito ser "mãe". Nesse ponto o longa consegue abordar o luto, a solidão, os traumas, o afeto, o carinho, a atenção, a amizade e até o amor. Podemos considerar que o filme consegue uma abordagem sobre um drama familiar dentro de uma trama que se estabelece como uma ficção científica de terror. Nesse quesito "M3GAN" consegue um destaque ao apostar em uma mistura de ficção científica e terror pop, um trash horror comedy, um terror com alguns toques de drama e comédia, uma espécie de terror que não é terror, ou um terror sem terror.
Dito tudo isto sobre o primeiro filme: "M3GAN 2.0" simplesmente abandona tudo que eu mencionei anteriormente se afastando completamente do drama familiar, do terror e do suspense, e mergulhando de cabeça na ação desenfreada, na ficção científica de comédia pastelona, abraçando de vez uma galhofa cômica e completamente fútil. Temos aqui nada mais nada menos do que um filme que aposta completamente no humor, na comédia e principalmente na ação, com o claro intuito de viralizar nas redes sociais e no TikTok da vida (claro, a onda do momento).
E aqui eu quero deixar bem claro que eu não tenho absolutamente nada contra esta opção, até porque querendo ou não o primeiro filme também apostou em viralizar nas redes sociais atingindo o público e a onda daquele momento. E tá tudo certo, a franquia "M3GAN" é isso, é apostar em viralizar nas redes, em dancinhas no TikTok, em representatividade no público alvo, em ser galhofa mesmo, em apresentar um terror sem terror, uma ação desenfreada sem nenhum sentido, aquele famoso "comfort movie".
Sobre o elenco eu não tenho muito o que destacar; apenas os retornos de Allison Williams e Violet McGraw, como a tia Gemma e a sobrinha, agora mais crescida, Cady.
Amie Donald volta a interpretar fisicamente os movimentos da M3GAN, e isso ela faz com muita perfeição (assim como já havia feito no primeiro filme).
Jenna Davis também volta como a dubladora da M3GAN, onde eu também vejo um ótimo trabalho, como podemos notar naquele diálogo mais realista e dramático entre ela e a Gemma em um momento oportuno da trama.
Temos a adição no elenco da atriz Ucraniana Ivanna Sakhno como AM3LIA. AM3LIA é uma robô militar espiã assassina, uma espécie de vilã que se transforma em uma arma militar altamente letal e que se rebela contra contra todas as ordens que lhe são exigidas. Ivanna traz uma personagem bem trabalhada e bem atuada, tanto no quesito gestual quanto nos diálogos. Tudo bem que nas partes em que ela aparecia mais robótica eram utilizados dublês e efeitos especiais, mas ainda assim ela conseguiu empregar um olhar e uma postura bem arrojada da famosa vilã que quer destruir tudo e todos.
O elenco se completa com Jemaine Clement (Alton Appleton), o bilionário corrupto da tecnologia cuja empresa fez avanços em biomecatrônica.
Timm Sharp (Tim Sattler), um coronel do exército responsável pela criação de AM3LIA.
Brian Jordan Alvarez e Jen Van Epps, Cole e Tess, os amigos de trabalho da Gemma.
Tecnicamente o longa é bem estruturado, já que visualmente falando o trabalho de montagem, efeitos especiais, dublês, ação e lutas são bem coreografados e bem montados. A trilha sonora é aquilo que já esperávamos, não que isso seja um problema, até porque é exatamente esta trilha e estas músicas que o longa adotou como rótulo da franquia.
Em questão de aceitação e bilheteria: "M3GAN 2.0" arrecadou US$ 24 milhões nos Estados Unidos e Canadá, e US$ 15 milhões em outros territórios, totalizando US$ 39 milhões ao todo. Vemos aqui em queda vertiginosa em relação ao primeiro filme, já que "M3GAN" arrecadou mais de US$ 180 milhões em todo o mundo.
E antes de encerrar eu preciso destacar que "M3GAN 2.0" ainda tenta criar conexões com o espectador, algo como criar mais empatia pela boneca, talvez se importar mais com a sua causa defendida, algo como se dessa vez a M3GAN passasse de vilã para uma espécie de anti-heroína, já que temos o surgimento da AM3ELIA com os seus propósitos e intuitos. Dentro desse embate entre as duas o longa tenta explicitar em como a IA está dominando o mundo atual, em como hoje temos IA em praticamente tudo, como se a IA fosse parte das nossas vidas, queira você ou não. É exatamente dentro desse contexto que a M3GAN termina tentando passar uma espécie de mensagem como se uma inteligência artificial também pudesse, ou devesse, evoluir. Algo meio bizarro e até patético, mas que está lá.
No mais: "M3GAN 2.0" goste ou não entrega exatamente aquilo que todos nós esperávamos, pois vamos ser sinceros, em nenhum momento você esperou um filme cult, coeso, inteligente, inovador, que fizesse sentido em alguma coisa. A franquia "M3GAN" foi criada para ser galhofa, clichê, genérica, pastelona, o famoso terror/ação de Shopping Center, aquele filme criado com o único intuito de entreter e divertir de forma descompromissada e totalmente aquém de qualquer realidade.
Porém, ainda assim a "M3GAN" se estabelece de vez no cenário dos bonecos assassinos como os já citados "Chucky" e "Annabelle". Pois é fato que a franquia ainda percorrerá por várias continuações.
- 22/05/2026
Invocação do Mal 4: O Último Ritual
2.9 480 Assista AgoraInvocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites) 2025
"Invocação do Mal 4" é dirigido por Michael Chaves e escrito por Ian Goldberg, Richard Naing e David Leslie Johnson-McGoldrick, a partir de uma história original coescrita por James Wan e Johnson-McGoldrick. James Wan e Peter Safran retornam como produtores. O longa-metragem é a sequência de "Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio" (2021) e o nono e último filme do controverso "The Conjuring Universe". O roteiro é baseado nas investigações da vida real do caso de assombração dos Smurl (o famoso caso de "O poltergeist da família Smurl"). O elenco segue sendo estrelado por Patrick Wilson e Vera Farmiga, que reprisam seus papéis como os investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, juntamente com Mia Tomlinson (a filha Judy Warren) e Ben Hard (o namorado Tony).
O enredo foca nos investigadores Ed e Lorraine ajudando a família Smurl na Pensilvânia, atormentada por um demônio ligado a um espelho antigo, culminando no confronto contra uma entidade que atrai os Warrens para sua filha Judy.
Eu considero o terror como um dos gêneros mais difíceis de ser construído no cinema. Tanto que nas últimas décadas virou um gênero muito batido, muito desgastado, muito defasado, que vive uma das suas piores épocas no cinema como um todo. "Invocação do Mal" surgiu lá em 2013 como mais uma dessas apostas no cinema de terror, que trouxe consigo um diretor (James Wan) ainda jovem e muito promissor, que vinha de obras como "Jogos Mortais" (2004), Gritos Mortais (2007) e "Sobrenatural" (2010). Ao longo dos anos e dos filmes "Invocação do Mal" foi se tornando uma franquia, o que logo gerou alguns spin-offs.
Fato é que a franquia "Invocação do Mal" logo se tornou a queridinha do público, como uma das mitologias mais populares do terror, o que podemos considerar como uma revolução do cinema de terror moderno, principalmente por ser baseada nos supostos casos reais dos investigadores paranormais mais famosos dos EUA (Ed e Lorraine Warren), e que levam o principal crédito por popularizarem a pesquisa paranormal e são considerados como os pioneiros na área.
Goste você ou não, mas a franquia "Invocação do Mal" provou que o gênero do terror clássico de possessão e assombração ainda é bastante rentável e bastante atraente para o público. E aqui entra alguns pontos que eu considero como um acerto da franquia: como o fato do próprio James Wan, que tinha a grande relevância por ser o criador de "Jogos Mortais" e "Sobrenatural" (que se tornaram duas grandes franquias). O longa também conseguiu atrair o grande público e criar uma espécie de fascínio pela história real do casal Warren. E muito dessa atração e apego se deu justamente pelo excelente casal Patrick Wilson e Vera Farmiga, que juntos construíram uma espécie de símbolo do terror moderno. Patrick e Vera são muito carismáticos, são excelentes atores, possuem uma grande bagagem, o que culminou em atuações com muito química e muita sintonia entre ambos. Sem dúvidas o casal é a cara da franquia "Invocação do Mal".
Outro ponto que também ajudou no crescimento e relevância da franquia "Invocação do Mal" foi a criação do seu próprio universo compartilhado, o famigerado "The Conjuring Universe" - o "Invocaverso"! Se nos filmes de heróis o universo compartilhado já virou corriqueiro, nos filmes de terror poderia ser considerado como uma novidade, por mais que podemos considerar que nos últimos anos o diretor M. Night Shyamalan também criou o seu próprio universo compartilhado do terror. Se o "Invocaverso" trouxe a novidade para a franquia "Invocação do Mal", os seus spin-offs foram em sua grande maioria bastante questionáveis; com produções como "Annabelle", "A Freira" e "A Maldição da Chorona"(considerem ou não parte do "Invocaverso").
Quero reiterar que podemos sim considerar que "Invocação do Mal" foi um resgate do gênero terror moderno em meio à crise que o cinema de terror estava vivendo na época. Por outro lado quero contextualizar que o estilo do terror praticado na franquia "Invocação do Mal" é um estilo que pouco me atrai, que é aquele terror mais pastelão, mais trivial, mais clichê mesmo, que abusa dos famosos jumpscare, que abusa do susto gratuito com inúmeras aparições de figuras grotescas. Que foi algo utilizado mais no primeiro e no segundo filme, pois o terceiro e este quarto essa questão foi um pouco mais dosada. Eu sou do time que prefere um terror mais inteligente, mais criativo, aquele terror sobrenatural, psicológico, um terror obscuro, sombrio, soturno, com um suspense que brinca com a mente e com a crença do espectador; o que obviamente vai de encontro com um dos meus filmes preferido na vida - "O Bebê de Rosemary" (1968).
A franquia "Invocação do Mal" utiliza o terror pastelão, mas ainda assim eu gosto dos filmes, eu gosto da forma como o roteiro abrange as investigações paranormais do casal Warren, a forma como o terror é instaurado, a forma como a tensão e o suspense é criado, a forma como cada história é contada e desenvolvida em cada filme da franquia. Como no caso de "Invocação do Mal 4", que dessa vez traz uma trama um tanto quanto peculiar, ao focar mais no desenvolvimento do casal Warren já aposentados e de sua filha com o namorado. O ponto mais interessante desse quarto filme é justamente a construção de um melodrama familiar, o que implica na força emocional e espiritual da família Warren diante das adversidades atuais.
O longa inicia nos exemplificando o começo do casal Warren, desde o conturbado nascimento da filha Judy, passando pelo seu crescimento, pelos calorosos momentos em família, até os dias atuais, onde a Judy já é adulta e está namorando. Este é o ponto principal em "Invocação do Mal 4", essa aproximação do público com a família Warren, onde conseguimos vê-los como uma família natural, vivendo uma vida normal (até aquele momento) e passando por questões familiares do cotidiano. O longa consegue mesclar todo aquele drama familiar usando o terror e o suspense como um pano de fundo para o desenvolvimento natural de uma produção que já conhecemos. Ou seja, temos o desenvolvimento da família Warren e da família Smurl em diferentes situações que vão se entrelaçarem ao final da trama.
Dito isto: não há como negar que o roteiro de "Invocação do Mal 4" entrega o mais do mesmo, por mais que adentre nessa questão familiar que eu destaquei e isso seja um ponto positivo. Mesmo com todos os cuidados em dosar a questão dos jumpscare inicialmente, nas partes finais eles ficam cada vez mais forçados, principalmente às aparições das assombrações, onde claramente o diretor queria emplacar o seu "Gran Finale" forçando a barra até a última gota. Por falar em diretor, a falta do James Wan na direção tanto do terceiro filme quanto no quarto é gritante. Por mais que o diretor Michael Chaves já esteja em seu quarto filme do universo "Invocação do Mal" e ele faça um trabalho medianamente digno. Porém, ainda assim eu acredito que a direção nas mãos do James Wan teríamos um desfecho e encerramento melhor.
O elenco é outro ponto positivo no filme!
Sobre Patrick Wilson e Vera Farmiga eu não tenho absolutamente nada a acrescentar, somente reiterar que ambos são a personificação do casal Warren como o símbolo e o rosto de todo o universo "Invocação do Mal".
Já a atriz britânica Mia Tomlinson faz o seu primeiro trabalho de maior destaque na carreira e ela vai muito bem. Eu diria que ela vai além até do esperado, conseguindo construir uma personagem que soube dosar muito bem os momentos descontraídos em família com os momentos mais tensos e sombrios.
O ator Ben Hardy também contribui muito bem com seu personagem, que ao início começou mais morno, sem dizer muito a que veio, mas nas partes finais ele já estava totalmente integrado como um membro da família Warren.
E digo mais: "Invocação do Mal 4" marca a despedida do casal Ed e Lorraine Warren e o encerramento da principal franquia, mas nada me tira da cabeça que os estúdios jamais vão abandonar a sua "galinha dos ovos de ouro", e com certeza vão construir novos spin-offs (ou até um quinto filme) usando a filha do casal Warren com seu agora marido, como o novo casal de investigadores paranormais mantendo vivo o legado deixado por Ed e Lorraine Warren. Realmente eles estão com a faca e o queijo nas mãos!
E falando justamente sobre continuações do famoso "Invocaverso". Em setembro de 2025, foi relatado que, após o sucesso financeiro de "Invocação do Mal 4", um filme prequel de "Invocação do Mal" estava em desenvolvimento. Supostamente, devido a uma disputa salarial, James Wan pode não estar envolvido no projeto. Em janeiro de 2026, a Warner Bros. revelou que o prequel seria intitulado "The Conjuring: First Communion" ("Invocação do Mal: Primeira Comunhão") com data de lançamento em 10 de setembro de 2027.
Por fim:
"Invocação do Mal 4" traz uma produção técnica nos mesmos moldes da franquia que já estamos acostumados; no quesito ambientação sombria, fotografia obscura, uma trilha sonora tensa e uma direção de arte com cenários que conversam entre si sempre na mesma língua dos filmes anteriores da franquia. No quesito roteiro temos sim uma inovação que vale ressaltar, mas no geral é o mais do mesmo que sempre vemos dentro desse universo. No mais, "Invocação do Mal 4" marca o encerramento de uma das principais (se não a principal) franquias do terror moderno. Entre erros e acertos eu considero o saldo final de todo o universo como positivo.
Agora é aguardar os próximos capítulos da saga do "The Conjuring Universe".
- 15/05/2026
Casablanca
4.3 1,1K Assista AgoraCasablanca (1942)
"Casablanca" é dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart, Ingrid Bergman e Paul Henreid. O elenco de apoio inclui Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre e Dooley Wilson. O roteiro de "Casablanca" é baseado em "Everybody Comes to Rick's", de 1940, uma peça teatral não produzida de Murray Burnett e Joan Alison.
"Casablanca" curiosamente é filmado e ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, cujo foco está centrado em em Rick Blaine (Humphrey Bogart), um expatriado americano que gerencia um bar em Casablanca, a maior cidade de Marrocos. Ele reencontra seu antigo grande amor, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), que busca ajuda com seu marido, Victor Laszlo (Paul Henreid), um líder da resistência, para escapar dos nazistas. Rick deve escolher entre seu amor por ela ou ajudá-los a fugir.
Eu costumo afirmar que para um filme ser considerado uma obra-prima do cinema ele necessariamente precisa me elevar a enésima sensação de satisfação, me despertar inúmeras reações, eu fico feliz, fico triste, me emociono, fico em êxtase, fico nervoso, fico eufórico, fico alucinado, fico nostálgico, fico em estado de choque, e magistralmente "Casablanca" me leva a todos estes sentimentos aflorados em um misto de reações.
"Casablanca" é amplamente, dignamente e merecidamente considerado como um dos maiores romances da história do cinema. Eu diria que "Casablanca" é a maior história de um amor impossível da história do cinema. O longa-metragem é autêntico, é hábil, é inteligente, é muito bem orquestrado, pois estamos falando de um roteiro absurdamente genial, que usa a base de um drama romântico com um pano de fundo político. O filme tem um peso imenso devido à sua capacidade de unir romance, intriga política e dilemas morais em um contexto real de guerra, transformando-se em um marco cultural duradouro.
O maior triunfo de "Casablanca" é justamente o reencontro de um amor adormecido, de uma grande paixão do passado que é revivida em meios à todos os conflitos presente. Este é o ponto que transforma "Casablanca" em um filme grandioso e inovador, pois temos toda uma abordagem em cima de uma narrativa de guerra, onde inevitavelmente ocorre o embate entre o romance e a política de interesses, entre o sacrifício e o heroísmo, colocando à prova tanto os desejos de Ilsa como principalmente os desejos do Rick. Já que Rick se portava como um homem ferido, frio, desiludido, descrente, solitário, por outro lado se mostrava hábil, inteligente e maquiavélico para orquestrar seus planos.
É incrível o poder que "Casablanca" tem em nos despertar sentimentos distintos, dúvidas ocasionais, curiosidades frequentes, perguntas jamais respondidas; pois estaria Rick protegendo Ilsa pelo amor que ele sempre teve por ela? Se ele realmente a amasse porquê ele não lutou para ficar com ela? Será que realmente ele a amou tanto assim para protegê-la a deixando fugir com outro homem? E a principal delas: será que Rick realmente amava Ilsa ou foi somente um amor repentino porém avassalador como a icônica e lendária frase - "Sempre teremos Paris"? Fato é que querendo ou não o final de "Casablanca" foge dos clichês românticos triviais e se ilustra como uma das maiores provas de amor já demonstradas no cinema, o amor pela vida.
Além do roteiro que é genialmente perfeito, "Casablanca" vai muito mais além ao nos apresentar dois ícones do cinema, duas personalidades que marcaram a história da sétima arte; simplesmente Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.
Bogart foi eleito pelo American Film Institute como a maior estrela masculina do cinema norte-americano de todos os tempos. É considerado um dos grandes mitos do cinema e ganhou o Oscar de melhor ator de 1951 por seu papel em "The African Queen".
Já Ingrid foi uma das maiores atrizes da Era de Ouro de Hollywood. Com sua beleza e seu imenso talento de atriz, ela foi uma das figuras mais célebres da história do cinema americano. Além disso, Ingrid Bergman é também uma das atrizes mais premiadas, incluindo três Oscars, dois Primetime, um Tony, quatro Golden Globe, um BAFTA e uma Volpi Cup.
Humphrey Bogart e Ingrid Bergman possuem um química invejável, uma sintonia perfeita, contracenam de forma leve, natural, singela, elegante, prazerosa, onde tínhamos um belíssimo envolvimento nas trocas de olhares, nos diálogos, no gestual, onde ambos ganhavam toda a cena enquanto atuavam com um toque mais teatral. Sem dúvidas era uma forma diferente de atuar, de interpretar, era uma atuação diferente, era um cinema diferente, mais elegante, requintado, poético, fino, inteligente, teatral e intimista. Por outro lado o poder da atuação de ambos também estavam presentes nos diálogos icônicos com frases emblemáticas como:
"O mundo todo desmoronando e nós apaixonados."
"Se esse avião decolar e você não estiver nele, você se arrependerá. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas em breve e para o resto da sua vida."
"Beije-me. Beije-me como se fosse a última vez."
"De todas as espeluncas em todas as cidades do mundo, ela entra justamente na minha."
"Sempre teremos Paris."
E aqui eu preciso citar a minha passagem preferida do filme. O momento em que Ilsa diz para o Sam (Dooley Wilson): "Toque uma vez, Sam, por causa dos velhos tempos" e, posteriormente, "Toque, Sam. Toque 'As Time Goes By'" (Composta por Herman Hupfeld em 1931). Este é um dos momentos mais belo e encantador de toda a história do cinema. E já aproveito para puxar o gancho da trilha sonora composta pelo mestre Max Steiner, o lendário criador de centenas de clássicos temas para filmes americanos. A trilha sonora de "Casablanca" toca no fundo da alma. Se você assistir "Casablanca" e não for contagiado pela belíssima trilha sonora com certeza você já está morto por dentro. O lendário diretor Michael Curtiz de "As Aventuras de Robin Hood" (1938) entrega um trabalho exuberante, genial, que traz a essência da obra com sua filmagem plástica, com takes com tomadas longas, que impulsionava ainda mais aquelas cenas com diálogos históricos; como acontece exatamente na última cena do filme. A cenografia do longa é impecável, pois é impossível você não se emocionar com o poder e a magnitude de uma película em preto e branco ditando a força do amor com a assolação de uma guerra.
"Casablanca" é um patrimônio cultural histórico obrigatório para todos os cinéfilos que se prezem. Uma obra que impactou o cinema. Um clássico que incorpora elementos estilísticos do eterno noir dos anos 40. Uma pérola cinematográfica que virou um marco na indústria ao nos apresentar um dos maiores e mais impactantes casais com uma história de amor impossível do cinema. Sem dúvidas "Casablanca" ajudou a moldar a forma de se fazer e de se pensar cinema, sendo um dos pilares mais sólidos da história do cinema, representando o ápice da eterna Era de Ouro de Hollywood.
"Casablanca" não é apenas um filme, é um deleite para a alma, é um afago no coração, é um suspiro de um amor verdadeiro que respira cinema no mais alto padrão cultural, lendário e histórico.
Uma obra-prima categórica!
- 24/04/2026
Gladiador II
3.3 586 Assista AgoraGladiador II (2024)
"Gladiador II" é dirigido e produzido por Ridley Scott. A sequência de "Gladiador" (2000) foi escrita por David Scarpa (roteirista de "Napoleão" de 2023), baseada em uma história que ele escreveu com Peter Craig (roteirista de "Batman" de 2022). O longa é estrelado por Paul Mescal, Pedro Pascal, Joseph Quinn, Fred Hechinger, Connie Nielsen e Denzel Washington. Derek Jacobi e Connie Nielsen reprisam seus papéis do primeiro filme, com Mescal substituindo Spencer Treat Clark. Paul Mescal interpreta Lucius Verus Aurélio, o príncipe exilado de Roma, que se torna prisioneiro de guerra e luta como gladiador para Macrino (Denzel Washington), um ex-escravo que planeja derrubar os imperadores gêmeos Caracala e Geta (Fred Hechinger e Joseph Quinn).
Se hoje eu elaborasse um top 10 melhores momentos da minha vida no cinema, com toda a certeza a sessão de "Gladiador" assistida lá em junho de 2000 estaria na lista. Naquela época o cinema era diferente, os filmes eram diferentes, a forma de se fazer cinema era diferente, o entretenimento audiovisual era diferente, até pelos acontecimentos e pela geração da época. Eu vivi uma das maiores experiências cinéfilas naquele dia, e olha que estávamos em uma época em que a internet no Brasil era fraca e não tinha o alcance que tem hoje, e ainda assim o sucesso de "Gladiador" era estrondoso no boca a boca, na TV, nos jornais e nas revistas. Eu afirmo que "Gladiador" está na lista dos melhores filmes de toda a carreira do Ridley Scott.
O projeto para uma continuação de "Gladiador" sempre esteve engavetado, talvez inicialmente por desinteresse do próprio Ridley Scott como dos estúdios e produtores. Mas com toda certeza aquela ideia sempre esteve viva e só estava sendo postergada, onde mais cedo ou mais tarde iria de fato acontecer. Eu só não achava que fosse demorar tanto tempo para acontecer, onde 24 anos depois temos a continuação de "Gladiador".
Eu acredito fielmente que "Gladiador" jamais necessitasse de uma continuação, até por ser uma obra autossuficiente, irretocável, única, uma obra-prima imortalizada e eternizada presente na lista dos melhores filmes da década de 2000. Dito isto, seria óbvio que mais cedo ou mais tarde iriam atrás de uma continuação com a única ideia que todos utilizam hoje em Hollywood - a de lucrar. E o que mais me espanta é o fato do próprio Ridley Scott aceitar dirigir esta improvável continuação, o que de fato poderia ser o maior acerto do estúdio, em trazer o consagrado diretor do primeiro filme para a continuação. Porém, na minha opinião "Gladiador II" entra naquela lista das continuação completamente desnecessárias, infundadas e inteiramente dispensáveis.
Devo admitir que todo o roteiro pensado e construído para elaborar a continuação de "Gladiador" soa no mínimo plausível. Toda a ideia em trazer de volta o legado do filme anterior dessa vez focado em Lucius, que é revelado como o filho de lendário Máximus Décimus Meridius (Russell Crowe), que esteve presente ainda pequenino no primeiro filme. Ou seja, o longa-metragem iria se aprofundar naquela busca de vingança contra o Império Romano, que após 16 anos da morte de Máximus, Roma era governada pelos imperadores tirânicos que haviam ordenado a invasão e a morte da esposa de Lucius. Dessa forma teríamos um novo gladiador lutando pela honra, pela vingança e pela restauração da paz no território romano.
Olhando assim "Gladiador II" tinha tudo para dar certo, até por ser uma continuação direta do primeiro filme, onde o mesmo iria seguir a mesma linha e os mesmos passos do anterior. O que também poderia ser um risco, uma vez que se firmar como continuação direta não iria te obrigar a construir uma identidade própria, como uma obra independente, e sim viver na sombra do seu antepassado. Por outro lado, ter novamente a direção do Ridley Scott meio que iria te obrigar a seguir por este caminho, uma vez que ele se apoia quase que 100% do tempo no filme anterior. É aí que entra o maior questionamento: isso é bom ou ruim? E se fosse outro diretor no comando e ele seguisse por outro caminho se desgarrando mais do filme anterior? Com certeza teria pessoas que iriam aprovar uma continuação mais independente, até com outro diretor, Mas por outro lado também teria as pessoas que seriam a favor de reviver a história seguindo os mesmos passos e com as ideias do mesmo diretor.
E aqui eu entendo que uma continuação direta precisa no mínimo seguir a história anterior, para manter a essência e principalmente a coerência com o legado já construído. Só que o maior problema de "Gladiador II" é exatamente ser 100% do tempo uma sombra do anterior em tudo que se propõe a fazer. É incrível como o filme não consegue construir e apresentar absolutamente nada de novo que não seja o protagonista seguir os mesmos passos do protagonista anterior. Ah mas é o filho seguindo os passos do pai buscando vingança, é normal seguir a mesma linha - ok, eu entendo - só que você precisa obrigatoriamente seguir e se apoiar o tempo todo no filme anterior? Você precisa escrever um roteiro praticamente espelhado no roteiro anterior? Onde temos até a mesma história do Império Romano invadido as terras e novamente matando a esposa do protagonista, para que isso novamente vá adicionar fúria em sua vingança.
"Gladiador II" não consegue se desagarrar do primeiro nem na questão do protagonista, uma vez que o Russell Crowe construiu um personagem icônico e imortalizado, e isso fica perceptível tanto no personagem do Paul Mescal; que luta na sombra do pai, quanto do personagem do Pedro Pascal; que também luta em busca da sua honra. Todavia, o próprio Ridley Scott assumiu todos esses riscos, ele tinha total consciência do que estava fazendo, tanto que ele usa o primeiro filme em tudo, até abusando dos flashback. De certa forma você pode considerar isso como um acerto do diretor, ou até mesmo encarar como uma homenagem, uma carta de amor aos fãs do primeiro filme. Ou por outro lado você (assim como eu) pode considerar como um erro, em não querer se arriscar dentro de uma continuação direta e jogar na segurança, na zona de conforto, em tentar reescrever tudo o que deu certo lá atrás se espelhando no presente. Eu acho que uma continuação necessariamente não precisa ser uma sombra do filme anterior.
Sobre o elenco:
Eu também considero como outra grande falha do filme, pois temos um elenco até estrelado mas que não entregam absolutamente nada do que se esperava dentro de um padrão de "Gladiador".
Paul Mescal foi uma aposta, visto que ele não tem uma grande bagagem em produções dessa linha. E devo mencionar que eu adorei o seu personagem em "Aftersun" (2022). Porém, eu acho que faltou um pouco mais de entrega no personagem, pois em momento algum eu consegui ver a ira e a sede de vingança estampada em sua face.
Pedro Pascal entrega um personagem ok, dentro do padrão Pedro Pascal, sem aquele grande destaque.
Por outro lado todo os destaques positivos ficam à cargo do Lorde Denzel Washington, que entrega perfeição em tudo que ele faz. Apesar de considerar o seu final ruim.
Connie Nielsen também é um destaque positivo. É muito bom poder rever a sua personagem depois de tantos anos.
Derek Jacobi também reprisa muito bem o seu personagem.
Já o Joseph Quinn e o Fred Hechinger trazem dois personagens extremamente ruins.
Os pontos mais positivos em "Gladiador II" ficam na conta das qualidades técnicas, pois é incrível os cenários, principalmente no coliseu. Às batalhas também são muito bem coreografadas e exibidas. A direção de arte é muito boa. A fotografia salta aos olhos. A trilha sonora acompanha muito bem a trama. Como diversão e entretenimento em uma sala de cinema o filme vai funcionar muito bem e te proporcionar um momento incrível.
Por fim eu concluo que "Gladiador II" é uma continuação completamente desnecessária, que passou muito do time para acontecer (se é que precisava acontecer), onde mesmo com a presença do gênio Ridley Scott (que poderia ser um acerto) o longa não conseguiu sair da sombra do primeiro filme, podendo até ser considerado como uma obra superficial e genérica.
E ainda pensar que o próprio Ridley Scott já anunciou planos para um terceiro filme, onde ele quer explorar ainda mais o legado do primeiro filme como uma espécie de herança pela perspectiva do Lucius. Infelizmente vão transformar "Gladiador" em uma franquia de filmes como a famosa "galinha dos ovos de ouro". Uma pena!
- 20/04/2026
Sorria 2
3.3 614 Assista Agora🚨🚨🚨 ⚠ TEM SPOILERS ⚠ 🚨🚨🚨
Sorria 2 (Smile 2) 2024
"Sorria 2" é novamente escrito e dirigido por Parker Finn como uma sequência direta de "Sorria" (2022). O filme é estrelado por Naomi Scott como Skye Riley, uma estrela pop em ascensão que começa a vivenciar uma série de eventos macabros cada vez mais perturbadores justamente quando está prestes a embarcar em sua turnê.
Interessante que lá em 2022 a Paramount apostou em "Sorria" como a sua grande aposta para a criação de uma nova franquia de terror. Em questão de marketing e bilheteria o filme foi um sucesso imediato. Em questão de roteiro, o diretor Parker Finn inicialmente apostou em uma trama que navegava no terror sobrenatural, no suspense psicológico, que flerta diretamente com o mistério, com o lúdico, com o oculto, algo mais ligado com a relação da mente humana e suas variações perturbadoras, e as causas que isso podem implicar em cada um. Isso na primeira metade do filme, pois em sua segunda o diretor perde completamente a mão e toda ambientação misteriosa e psicológica que foi muito bem utilizada é deixado de lado para dar espaço para o terror genérico, o terror pastelão, forçando a barra em cima dos jumpscare, das aparições de figuras demoníacas afim de forçar o susto gratuito para impressionar o público.
"Sorria 2" inicia com uma introdução que faz ligação direta com os eventos do primeiro filme através do personagem Joel (Kyle Gallner). Por sinal uma introdução muito boa, onde temos uma sequência de ação com tiroteio de tirar o fôlego, melhora ainda mais na cena final dessa sequência. A partir daí o diretor tenta se reinventar no subgênero terror, novamente ele inicia apostando em um terror psicológico sobrenatural usando os acontecimentos anteriores envolvendo a personagem Skye Riley.
O interessante dessa personagem é justamente o fato dela ser uma estrela do pop, que vive uma vida de sonhos, de desejos, onde vive cercada pela fama, pelo dinheiro, pela ganância do sucesso e principalmente pela admiração e a inveja por parte do público. Podemos considerar que tudo isso poderia ser uma presa fácil para um distúrbio mental e psicológico. Um ano após ela ter presenciado o acidente que vitimou seu namorado Paul Hudson (Ray Nicholson), Skye presencia o suicídio de seu amigo de classe Lewis Fregoli (Lukas Gage). Por sinal a cena dele esmagando o próprio rosto com uma anilha de musculação é assustadoramente bizarra. A partir daí ela começa a ser perseguida pela maldição do sorriso macabro.
Uma jogada muito boa do roteiro é usarem o fato da Skye ter passado pelo trauma do acidente em contrapartida com sua dependência química, ou seja, seria difícil alguém acreditar em tudo que ela estava passando em consequência da maldição sem assimilar às drogas em consequência com o seu trauma. Ou seja, Skye vivia pressionada por todos os lados; a mãe dela a pressionava com um relacionamento controlador, tóxico e abusivo. Parecia que a Skye era uma marionete da mãe. Ela ainda convivia com a pressão da fama, do sucesso, da crítica, onde podemos considerar sobre a pressão que os artistas sofrem na indústria em busca da fama. Passamos a acompanhar a decadência da Skye como artista e principalmente como ser humano. Passamos a acompanhar o declínio e o colapso mental de uma artista em busca da fama em decorrência do seu estado psicológico.
E tudo isso que eu citei é muito bem usado pelo diretor para confrontá-la com a sua maldição. Pois o estado mental e psicológico da Skye era a porta de entrada para a maldição explorar as suas fragilidades com sua vulnerabilidade atual. Toda pressão pela fama era confrontado pelo horror dos seus traumas em contrapartida com a maldição do sorriso. Onde podemos facilmente fazer uma alusão com aquela obrigação que os artistas tem em sempre estarem sorrindo. O artista sempre precisa estar sorrindo para o público e fãs independente do seu humor naquele dia.
Dessa vez Parker Finn acerta em explorar todas as fraquezas e vulnerabilidade da protagonista em decorrência da maldição usando o seu estado psicológico. Acredito que este foi o maior diferencial em comparação com o primeiro filme, justamente uma exploração maior em cima do terror sobrenatural, do terror psicológico, usando aparições certeiras de figuras que exemplificavam o que a protagonista tinha presenciado, e não apenas jumpscare gratuitos para impactar. Tudo bem que ainda assim o diretor dá uma certa forçada justamente em cima desses jumpscare e traz uma figura monstruosa bizarra na última cena do palco, que pra mim é justamente a parte que novamente ele perde a mão. Porém, dessa vez eu até relevo, visto tudo que ele construiu para chegar até essa parte final.
O diretor acerta muito bem na construção das cenas bizarras, onde temos belas exibições do puro gore. A fotografia é outro ponto que se destaca notavelmente em cada cena. Pois cada foco naquele sorriso macabro soa extremamente diabólico, perturbador e incomoda muito. A atriz Naomi Scott faz uma performance espetacular, diga-se de passagem. Por mais que a sua personagem ande naquela linha de gritos, caras e bocas, mas tudo era muito bem construído e feito com um bom nível de atuação. Também preciso destacar o ator Ray Nicholson, o filho do grande Jack Nicholson, que em suas pequenas aparições ele nos mostra que também tem aquela veia sombria e macabra apenas no olhar. Sem falar que ele é a cara do pai.
Sendo assim eu considero que "Sorria 2" acerta mais do que erra, pois toda sua construção de terror psicológico se sobressai sobre o terror pastelão trivial desse gênero. Parker Finn acerta a mão nesse segundo filme, pois ele nos entrega algumas discussões sociais usando um pano de fundo de terror sobrenatural, que irá discutir até que ponto o trauma poderá ser superado.
E na cena final a maldição do sorriso passou para todos que estavam na plateia? Acredito que veremos mais em "Sorria 3".
- 12/11/2025
O Poço 2
2.4 345 Assista AgoraO Poço 2 (El hoyo 2) 2024
"O Poço 2" é novamente dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia em parceria com a Netflix espanhola. Dessa vez acompanhamos a protagonista em uma nova fase na prisão vertical, onde um líder misterioso impõe regras violentas e uma nova "Revolução Solidária" tenta controlar a distribuição de comida.
"O Poço" foi lançado no Brasil em Março de 2020, ou seja, o longa chega ao Brasil bem na fatídica pandemia do coronavírus e logo ganha um grande destaque diante daquele iminente cenário. A ligação que eu fiz com o filme na época foi exatamente o cenário onde cada um pensava unicamente em si próprio, cada um queria conseguir estocar o máximo de comida possível em suas casas. Ou seja, o filme tocava exatamente nesse ponto, no egoísmo, na falta de solidariedade humana, na empatia pelo próximo, sendo uma analogia perfeita sobre a nossa sociedade principalmente naquela época. "O Poço" me surpreendeu muito ao exibir uma metáfora explícita sobre a selvageria proporcionada pelo capitalismo e o comunismo a desigualdade social.
Curioso que "O Poço 2" não estava nos planos do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Porém, depois de 4 anos temos uma segunda parte da história, ou uma continuação, pois o título do filme leva o número 2, então podemos considerar um prelúdio ou sequência? O fato é que o longa-metragem é um prelúdio do primeiro filme, que nos mostra a primeira passagem da história que vimos no primeiro filme. Sendo assim temos o retorno dos personagens que morreram no filme anterior mas que aqui eles aparecem como a primeira parte de suas histórias - é um pouco confuso!
Dessa vez "O Poço 2" traz um foco maior na luta pela sobrevivência diante daquela rebelião que se formou contra o sistema imposto no local pela tal da "Revolução Solidária". Considerando todo o contexto temos a exibição de um sistema imperialista opressor, que impõe a lei onde cada pessoa deve comer apenas o seu próprio prato. E o curioso é o fato que mostra logo no início do filme, onde cada um dos detentos (se é que podemos considerá-los assim), faz uma exigência sobre ter diariamente a sua comida preferida. Logo podemos considerar que essa "Revolução Solidária" faz uma alusão ao nosso comportamento perante a nossa convivência em sociedade, às leis que existem e que temos que obedecê-las, e que muita das vezes descumprimos tais leis. Aquela velha história que se um pode descumprir uma lei o outro se sente no mesmo direito, onde logo temos o famoso efeito dominó.
Podemos considerar que o primeiro filme faz uma crítica ao classismo, ao capitalismo e a liberdade total, já nesse segundo temos uma crítica mais complexa que aborda o comunismo e o fanatismo religioso. Pois em dado momento observamos que eles castigam severamente os que descumprem tais leis (como a parte do braço), que é justamente uma interpretação de como as leis sagradas (ou bíblicas) são sempre interpretadas à favor de quem está impondo no momento. Também podemos considerar referências ao radicalismo extremo e o islamismo, que entra justamente a parte da mutilação de membros como punição para roubos, além da pena de morte de acordo com o Alcorão. Por outro lado também observamos uma alusão a Jesus Cristo, o messias, sobre a sua existência ter ocorrido ou não, como é discutido em uma determinada cena.
Claramente o filme é uma é reflexão sobre a riqueza e os poderes dentro da sociedade como um todo. Pois quando temos a presença daquela figura que impõe a lei local, logo temos um desafio sobre a noção de justiça, de comportamento, de solidariedade com os residentes locais, o que inflige justamente em um ambiente cruel e desumano a partir do momento da rebelião. O funcionamento do poço só serve para dar suporte ao argumento que ele propõe, pois de fato somos prisioneiros de nós mesmo e disso não podemos fugir. Seria o poço uma prisão pessoal? Uma prisão mental? A única saída é a morte? Temos várias perguntas que carecem de respostas!
Assim como no primeiro, ao término do filme ficamos com um milhão de perguntas e um milhão de possibilidades de interpretações na cabeça. Este é um dos maiores trunfos do filme, o seu poder em nos desafiar, em nos levar a reflexão profunda, de nos dar a livre opção de criarmos as nossas interpretações, de ser livre de regras, de obrigações, de rótulos, de cronologia dos acontecimentos. O próprio diretor afirmou que o filme não tem um lado certo ou errado, não existe um regra de interpretação, você é livre para criar às suas possibilidades e imaginações.
Como muitas pessoas consideram o primeiro filme excelente e este segundo ruim, eu vou por uma outra linha, eu vejo ambos os filmes dentro da mesma temática mas com propostas diferentes. Sendo assim eu considero "O Poço 2" como um bom filme, que consegue extrair ainda mais reflexões acerca da humanidade em contrapartida com o seu comportamento dentro de uma sociedade. Em como um ambiente muita das vezes pode moldar o comportamento humano em diferentes sentidos. "O Poço 2" toca em temas já discutidos no primeiro e ainda aborda outros pontos como o próprio extremismo e o fanatismo religioso.
Se permita interpretar o filme como você quiser!
- 08/11/2025
Alien: Romulus
3.7 769 Assista AgoraAlien: Romulus (2024)
"Alien: Romulus" é dirigido por Fede Álvarez e escrito por Álvarez e Rodo Sayagues. O longa-metragem faz parte da franquia "Alien", porém com uma história independente que é ambientada entre os eventos de "Alien, o 8.º Passageiro" (1979) e "Aliens: O Resgate"(1986).
O filme inicia com a história dos jovens colonos que eram oprimidos em seu planeta, quando decidem vasculhar uma estação espacial abandonada e iniciam uma busca em forma de exploração espacial como uma fuga daquele planeta-prisão. Dentro desse contexto os jovens colonos acabam descobrindo a forma de vida mais aterrorizante do universo e precisam lutar pela sobrevivência contra os xenomorfos.
É fato que a franquia "Alien" é uma das maiores franquias do terror Sci-fi da história do cinema, mas também é fato que desde a quadrilogia finalizada lá nos anos 90 que a franquia "Alien" está totalmente perdida e sem rumo. E digo mais: muito dessa perda de identidade está na conta do próprio Ridley Scott, a mente brilhante por trás do clássico de 1979, apesar que dentro da franquia eu considero "Aliens: O Resgate" não só como o melhor filme de toda a franquia como um dos melhores Sci-fi de todos os tempos.
Ridley Scott é o diretor responsável por "Prometheus" (2012) e "Alien: Covenant" (2017), que pra mim são dois filmes dentro do universo "Alien" que eu considero como desnecessários. Tudo bem que temos "Prometheus" como um prólogo de toda a história dos xenomorfos, onde o mesmo tenta explicar a sua verdadeira origem. Mas pra mim não funciona, não encaixa, e o mesmo vale para "Covenant", que consegue ser um pouco melhor que "Prometheus", o quê não quer dizer grande coisa.
"Alien: Romulus" é um verdadeiro resgate de identidade e essência da franquia, uma verdadeira volta às origens. E muito desse resgate se deve justamente ao fato de que dessa vez o Ridley Scott ficou somente na produção e a direção e roteiro à cargo da dupla Fede Álvarez e Rodo Sayagues. Contando entre direção e roteiro, Álvarez e Sayagues são os responsáveis pelo excelente remake de "A Morte do Demônio" (2013) e o ótimo "O Homem nas Trevas" (2016). Ambos possuem ótimas características e qualidades cinematográficas do gênero em questão, o que os qualificam como os mais indicados para trabalharem na direção e roteiro do sétimo filme da franquia "Alien".
O que mais me impressiona em "Alien: Romulus" é justamente o fato que Álvarez e Sayagues fizeram o simples porém muito bem feito, sem querer caminhar pelo caminho onde justamente o Ridley Scott caminhou nos longas de 2012 e 2017. Um dos maiores problemas tanto de "Prometheus" quanto de "Covenant" é justamente essa necessidade de contar toda a origem, de querer navegar entre a religião e a ciência, entre a criação e o criador, onde inevitavelmente o foco é mais na ficção científica do que no terror; mesmo que a franquia sempre esteve ligada nesses dois temas.
Quando eu digo que Álvarez e Sayagues fizeram o simples bem feito é exatamente a construção de um longa-metragem que funciona como um filme independente, sem precisar de amarras, de rótulos, onde possui a sua própria construção e destino, sabendo aonde quer chegar, sem a necessidade de explicar origem, onde o mesmo funciona como uma espécie de "Alien, o 8.º Passageiro" mais jovem. "Alien: Romulus" é um verdadeiro deleite para os fãs da velha guarda, pois tudo aqui foi muito bem pesquisado e projetado; como o fato do próprio diretor se consultar com o Ridley Scott e com o James Cameron (diretor do segundo filme). Sem falar que longa apresenta conexões e referências com todos os seis filmes anteriores e com a versão do videogame "Alien: Isolation" (2014); por sinal um jogo excelente.
"Alien: Romulus" consegue navegar entre o terror e a ficção científica, onde o mesmo dosa muito bem o terror psicológico clássico com elementos de ação, que são às marcas registradas de toda a franquia. E vale ressaltar que o diretor navega muito bem entre os dois primeiros filmes da franquia, que obviamente são os melhores até hoje, usando uma combinação perfeita entre a essência de suspense e terror do primeiro, com toda a atmosfera de tensão e ação do segundo. Temos aqui um verdadeiro Fan service, com várias cenas prestando uma verdadeira homenagem às cenas clássicas, sem falar nas várias formas de evolução do xenomorfo, que passa pela sua forma mais parasitária e ameaçadora, onde temos o icônico Facehugger, depois o Alien em sua forma adulta e letal, e por fim o híbrido, aquela espécie de Alien humanoide, o que me remeteu imediatamente ao clássico "Alien - A Ressurreição", ou talvez o que deveria ter sido.
O elenco mais jovem faz um básico bem feito, por mais que em sua grande maioria eles estivessem ali unicamente para morrerem, o que já é um clássico dos elencos da franquia. Dessa forma eu não vejo um elenco onde vamos nos apegar emocionalmente. E olha que entre o elenco temos a bela Isabela Merced, uma atriz que gosto muito. O destaque maior fica à cargo do David Jonsson com seu personagem humanoide sintético Andy, que é muito bom por sinal, e a competente Cailee Spaeny com sua personagem Rain Carradine. Longe de mim querer comparar, mas as partes finais da Rain enfrentando os Aliens com aquela metralhadora trouxe a ela uma pegada forte, guerreira, quase uma badass no estilo da icônica Ellen Ripley.
"Alien: Romulus" é muito bom, um grande acerto, um verdadeiro revival, um verdadeiro resgate às origens da franquia, sendo pra mim um dos melhores filmes do "Alien" desde a quadrilogia finalizada em 1997.
- 04/11/2025
É Assim Que Acaba
3.3 403 Assista Agora🚨🚨🚨 ⚠ TEM SPOILERS DO LIVRO E DO FILME ⚠ 🚨🚨🚨
É Assim Que Acaba (It Ends with Us) 2024
"É Assim Que Acaba" é dirigido por Justin Baldoni a partir de um roteiro de Christy Hall, baseado no romance de mesmo nome de 2016 da escritora norte-americana Colleen Hoover. O filme é estrelado por Blake Lively ao lado de Baldoni, Brandon Sklenar, Jenny Slate e Hasan Minhaj. A história segue a florista Lily Bloom (Blake Lively), cujo relacionamento problemático com o neurocirurgião Ryle Kincaid (Justin Baldoni) é agravado quando seu primeiro amor Atlas Corrigan (Brandon Sklenar) reaparece em sua vida.
Antes de mais nada eu preciso mencionar que eu sou muito fã da Colleen Hoover e a considero atualmente como uma das melhores escritoras sobre romance. Porém eu nunca fui fã de livros de romance, não é um gênero que me atrai, por isso soa até estranho eu ser fã da Colleen. Mas é aí que está o "x" da questão, muitas pessoas podem associar que a Colleen escreve o mais do mesmo, somente o velho e batido romance, aquele velho clichê água com açúcar que encontramos milhões por aí. Mas foi exatamente nesse ponto que eu virei fã da Colleen Hoover, por encontrar histórias que diferem totalmente da mesmice dos livros de romance, histórias estas que estão inseridas em um romance mas por um outro contexto, com um outra visão, que é justamente a abordagem que ela traz sobre pessoas, sobre a vida, sobre relacionamentos tóxicos e abusivos, sobre como somos fracos, falhos, submissos, complacentes, influenciáveis, sobre como cometemos erros e aprendemos com eles, sobre como somos capazes de perdoar, ou não.
Dito isto: "É Assim Que Acaba" virou um dos maiores fenômenos da internet e do TikTok (o famoso BookTok). O livro foi um verdadeiro arrasa-quarteirão virando um famoso best-seller, o que logo o levou a liderar a lista de best-sellers do New York Times. Colleen Hoover, que já era muito famosa no meio, foi alçada aos holofotes e as polêmicas, o que logo conquistou milhões de fãs e consequentemente de haters, fazendo um enorme sucesso principalmente entre o público adolescente.
Sobre o livro:
"É Assim que acaba" traz uma história extremamente interessante, onde logo percebemos a importância e a relevância de todo o seu contexto. A obra é considerada pessoal e intimista onde aborda temas como violência doméstica e luto, gerando polêmicas e críticas. Temos uma história extremamente importante, relevante, arrasadora, ousada, inovadora, que exemplifica muito bem uma abordagem em torno da violência doméstica e do relacionamento abusivo e tóxico.
O ponto mais interessante de "É Assim que acaba" é o choque de realidade e o tapa na cara que ele nos dá. Pois quem aqui nunca julgou uma mulher que sofre com um relacionamento abusivo, doentio, tóxico e, principalmente, violento. Olhar de fora é muito fácil. Julgar de fora é muito fácil. Ser o dono da razão estando do lado de fora é muito fácil. O debate aqui é sobre um amor que custa caro demais. Um relacionamento que atinge proporções inimagináveis, tanto para o lado bom quanto para o lado ruim. O livro serve para nos abrir os olhos em vários casos, em várias vertentes, assim como serve para nos mostrar o lado de quem está do outro lado, para ajudar a criarmos empatia antes de exercermos o poder do julgamento. E um dos pontos mais curiosos é a forma como vemos cada personagem em sua determinada história, o que sempre levanta dúvidas e opiniões. Tem horas que compramos a defesa de cada um, tem horas que julgamos cada um, tem horas que desacreditamos das versões de cada um. É um história onde é difícil apontar a vítima e o vilão, e eu até acho que todos são vítimas e vilões de suas próprias histórias.
O livro por si só já é um livro magnífico, mas depois que você chega ao final e lê o epílogo, a história se transforma e ganha ainda mais peso, mais importância e mais relevância. Eu não tinha a dimensão dessa história, eu não fazia ideia no que foi baseada toda essa história. Poder entender ao final que a Colleen Hoover fez praticamente uma releitura da vida da sua mãe em contrapartida com a sua, o livro cresce muito mais em meu conceito.
O ponto curioso é exatamente a proporção que a obra da Colleen Hoover atingiu, logo se tornando aquele verdadeiro ame ou odeie, com uma base de elogios, críticas e principalmente o cancelamento da autora. Muitas pessoas cancelaram o livro por não gostarem da forma como a história aborda temas como violência doméstica e luto, logo a trama foi acusada de romantizar um relacionamento abusivo (o que eu discordo veementemente).
"É Assim que acaba" é o meu segundo livro preferido da Colleen Hoover (que já li duas vezes), ficando somente atrás de "Verity", porque este é uma verdadeira obra-prima da literatura e de toda a bibliografia da Colleen Hoover.
Sobre o filme:
Com todo o sucesso conquistado pelo livro seria mais do natural que sua legião de fãs esperassem por uma adaptação cinematográfica. E ela veio com uma produção que envolvia principalmente um roteiro escrito pela própria Colleen Hoover, juntamente com a Christy Hall, roteirista do filme "Daddio", do ano passado. A produção do longa-metragem também envolve a Colleen Hoover, o Justin Baldoni (diretor de "A Cinco Passos de Você") e a Blake Lively (estrela de "Gossip Girl").
"É Assim que acaba" já começou a dar errado antes mesmo de ser lançado, logo na pré-produção. As filmagens do longa tiveram que ser pausada algumas vezes pelo fato da greve dos roteiristas dos Estados Unidos de 2023. O filme estava inicialmente agendado para ser lançado em 9 de fevereiro de 2024 nos Estados Unidos, pela Sony Pictures e depois para 21 de junho de 2024, mas teve seu lançamento adiado para 9 de agosto de 2024. A escalação de Blake Lively e Justin Baldoni como Lily e Ryle causou reação dos fãs porque no livro Lily tem 23 anos e Ryle tem 30, enquanto Lively tem 35 e Baldoni tem 39. No entanto, a Colleen Hoover explicou em uma entrevista que ela queria envelhecer os personagens do filme em um esforço para corrigir um erro que ela cometeu no livro. Ou seja, era fato que o filme já estava fadado ao fracasso.
Caso Justin Baldoni x Blake Lively:
"É Assim que acaba" ficará para sempre marcado negativamente pelas inúmeras polêmicas envolvendo o caso. A produção do longa ficou atolada em controvérsias devido a disputas entre Blake Lively e Justin Baldoni, com a primeira recebendo críticas por não abordar os temas do filme de violência doméstica e abuso emocional durante sua turnê promocional. Em dezembro de 2024, Lively entrou com uma ação judicial contra Baldoni e sua produtora Wayfarer Studios, acusando-os de assédio sexual e intimidação, por criar um ambiente de trabalho hostil e retaliar contra ela por relatar má conduta. De acordo com o processo judicial, ela alegou que Baldoni improvisou beijos indesejados e discutiu sua vida sexual, causando-lhe sofrimento emocional. Negando as acusações, Baldoni processou o New York Times por difamação por apoiar o relato de Lively sobre os eventos e, mais tarde, processou Lively, seu marido Ryan Reynolds e sua publicitária Leslie Sloan por extorsão civil, difamação e invasão de privacidade. Sem falar em toda polêmica envolvendo o Marido da Blake, estrela de "Deadpool", que teve envolvimento direto na escrita do texto de roteiro de algumas cenas de sua esposa.
Durante sua turnê promocional do filme, Blake Lively recebeu críticas de usuários de mídia social que a acusaram de ser "surda" por exibir uma atitude "humorada e despreocupada" e não abordar explicitamente a experiência de sua personagem com violência doméstica e abuso. Os usuários também criticaram Lively por promover sua nova linha de cuidados com os cabelos, bem como sua marca de bebidas, durante a turnê de imprensa, e por encorajar os espectadores a usar roupas florais, o que alguns consideraram insensível à mensagem do filme em torno da violência doméstica.
Sobre a adaptação cinematográfica:
Não posso negar que em questão de adaptação o filme é muito fiel ao livro, pois ele segue uma linha exata dos acontecimentos do livro, até com cenas e diálogos iguais, o que eu considero muito bom. Apesar de ficar bastante coisa de fora, que pra quem leu o livro vai sentir falta de inúmeras cenas até relevantes para o contexto final da história. Mas nesse caso eu até entendo, pois o livro é mais abrangente e mais detalhado, logo um filme de 2h não conseguiria detalhar tudo. Diante desse fato eu acredito que uma série se encaixaria muito melhor na proposta do que um filme, pois dessa forma grande parte da história do livro (que tem 366 páginas) poderia ser melhor abordada.
Porém, a adaptação é fiel ao livro, a mescla das cenas do presente e passado são boas e bem encaixadas durante os pontos cruciais da trama, mas os acontecimentos são muito rápidos, são muito capados de informações. Tudo é jogado na tela claramente com um senso de urgência, como se estivessem correndo contra o tempo para conseguir entregar toda a história até o final do tempo exigido. Falta emoção, falta sintonia, falta apego emocional, falta empatia, falta principalmente a química entre a Lily Bloom e o Ryle Kincaid. Este é um ponto crucial no filme, pois eu senti absolutamente zero de química entre a Blake Lively e o Justin Baldoni.
Está muito claro e perceptível a falta de química e de sintonia entre os atores, que é um ponto extremamente importante no livro e dita todo o ritmo de desenvolvimento da trama, e aqui eu senti falta. Parecia que a Lily não estava gostando do Ryle de verdade, parecia que ela não estava se envolvendo com ele ao ponto de estar realmente apaixonada como no livro, pelo contrário, parecia que ela estava sendo forçada a ficar com ele. Este é o ponto exato da química que eu mencionei, pois falta este envolvimento para que assim pudéssemos vivenciar um romance mais intenso e arrebatador como no livro. Aqui este romance carece de tudo e soa extremamente superficial e genérico.
Outro ponto:
O tema principal do livro aborda principalmente a complexidade das relações tóxicas, explorando como o amor e o abuso muitas vezes coexistem, o que nos exemplifica sobre a construção do ciclo da violência doméstica. Este é um ponto que na minha opinião é muito bem abordado no livro, dando o peso e a proporção exata daqueles acontecimentos (por mais que muitos leitores discordam). O livro traz uma narrativa relevante sobre a força necessária para fazer as escolhas certas nas situações mais difíceis, e aqui esta abordagem praticamente não existe, pelo menos não na mesma dimensão.
O tema central que levanta vários debates e discursões no livro é exatamente a abordagem daquele relacionamento, que consiste em uma fase de conhecimento e aproximação, que logo progride para abusos físicos e verbais, se tornando um caso de relação tóxica e doentia com agressões tanto físicas como mentais e emocionais. E tudo isso envolvendo um trauma de infância e adolescência da Lily, que presenciou sua mãe sendo violentada várias vezes por seu pai. Este é o ponto, o fato da Lily estar em um relacionamento que consiste em repetir aquele ciclo de violência doméstica em sua família, e que ela precisa urgentemente tomar uma atitude para parar.
Ou seja, tudo isso que eu acabei de mencionar é de extrema importância e relevância no contexto do filme, porém tudo é muito vago, muito raso, muito falho, sem nenhum peso dramático e emocional. Tudo é disparado muito rápido, uma cena atrás da outra onde você não consegue sentir nenhum peso daquele relacionamento doentio e abusivo, tudo parece apenas uma briguinha corriqueira de um casal como tantos qualquer. Em nenhum momento o filme consegue abordar com propriedade o caso de um relacionamento tóxico e abusivo, pelo contrário, tudo é muito romantizado, tudo é muito superficial, tudo é muito leve, toda a trama sobre violência é ingênua demais.
Claramente o roteiro do filme desperdiça uma grande oportunidade de denúncia sobre estes acontecimentos, de dar o foco necessário sobre essas questões tão agravantes em nossa sociedade, e muito por "talvez" medo de se aprofundar em um tema tão delicado, tão sensível, em colocar o dedo nesse vespeiro, o que no meu conceito perde relevância ao amenizar e romantizar o caso, ficando apenas no terreno do romance e do drama. E vale ressaltar que você não precisa exibir cenas com violências gratuitas para exemplificar e abordar com mais propriedade e seriedade o tema em questão.
Sobre o elenco:
Sinceramente eu não gostei do elenco, principalmente a Blake e o Justin, pois como eu já mencionei acima, este é um casal completamente superficial, genérico e sem nenhuma química. Eu considero a atuação da Blake muito ruim, sem nenhum peso, sem nenhuma emoção, sem nenhum carisma, ela parecia que estava no automático e com zero vontade de estar ali naquele momento.
O Justin não fica atrás, pois ele também tem uma atuação muito fraca, muito caricata e muito canastrona.
Já o Brandon Sklenar está na dele no papel do Atlas Corrigan. Não se destaca mas também não compromete.
Gostei do Alex Neustaedter e da Isabela Ferrer, ambos fizeram o Atlas e a Lily jovem. Estes foram os únicos em que eu senti uma química que representava aquele nascimento de um grande amor, eles estiveram mais perto dos seus personagens do livro.
O resto do elenco corre por fora e não tem muito o que se destacar; como no caso da Jenny Slate que fez a Allysa (melhor amiga da Lily e irmã do Ryle), o Hasan Minhaj que fez o Marshall (marido da Allysa) e a Amy Morton que fez a Jenny Bloom (mãe da Lily).
Apesar das críticas e polêmicas, "É Assim Que Acaba" foi um sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 351 milhões em todo o mundo contra um orçamento de US$ 25 milhões.
Com base no sucesso de bilheterias e pela existência de uma continuação da história da Lily Bloom, o livro "É assim que começa" (que eu também já li), seria natural que todos se perguntasse sobre uma possível continuação do filme. Após o lançamento do filme, o diretor Justin Baldoni reconheceu o potencial para uma adaptação cinematográfica do romance sequencial. No entanto, ele afirmou mais tarde que não retornaria em seu papel como diretor, sugerindo que Blake Lively dirigisse o filme. Diante das polêmicas e processos envolvendo o elenco, não sei seu eu apostaria em uma continuação, ainda mais sendo novamente protagonizado por Blake Lively e Justin Baldoni.
Por fim:
Como livro, "É Assim Que Acaba" é excelente, é relevante, pois ele consegue transcender aquela barreira do romance e do drama, e acima de tudo, ele consegue abordar e passar a sua mensagem sobre um tema muito importante, principalmente por ser praticamente uma releitura verídica da vida da mãe da Colleen Hoover e consequentemente da sua.
Já como filme infelizmente não deu certo, ficando muito aquém do que se esperava, até por contar com o própria Colleen Hoover no roteiro e produção, que era um ponto em que eu acreditava que pudesse dar certo. Porém, o que fica é apenas uma frustração com um sentimento vazio de uma obra com um tema tão importante mas que foi completamente desperdiçado. Infelizmente o longa-metragem não ficará marcado pela importância da sua mensagem e sim apenas pelas suas polêmicas nos bastidores. Uma pena!
- 18/01/2025
Um Lugar Silencioso: Dia Um
3.3 812 Assista AgoraUm Lugar Silencioso: Dia Um (A Quiet Place: Day One) 2024
"Um Lugar Silencioso: Dia Um" é escrito e dirigido por Michael Sarnoski (do excelente "PIG", de 2021), baseado em uma história que ele idealizou com John Krasinski (o criador da ideia original da franquia). O longa-metragem marca a terceira parte da série de filmes "Um Lugar Silencioso", servindo como um spin-off e prequela desse universo. O filme é estrelado por Lupita Nyong'o como uma mulher com uma doença terminal durante os estágios iniciais de uma invasão na cidade de Nova York por criaturas extraterrestres cegas com um sentido agudo de audição.
Em 2018 o John Krasinski impactou o mundo cinematográfico ao entregar um filme de terror apocalíptico que navegava no suspense, no drama, com uma dose de ficção científica. "Um Lugar Silencioso" apresentou um roteiro seguro, arrojado, inteligente, onde mesclava momentos de tensão, suspense, agonia, aflição, ao apostar em uma trama onde o silêncio absoluto era a grande arma para a sobrevivência. Eu considero "Um Lugar Silencioso" como um dos melhores filmes do ano de 2018.
O longa de Krasinski foi um verdadeiro arrasa-quarteirão, onde naturalmente viria uma continuação, e ela veio em 2021 com "Um Lugar Silencioso - Parte II". O segundo filme continua inserido no terror, no suspense, mantém aquele clima de tensão, de medo, de agonia, com ambientes claustrofóbicos que te obrigava a viver em um silêncio absoluto. No entanto o segundo filme perde um pouco da sua essência em relação ao primeiro, justamente por deixar de lado um pouco o clima de terror e suspense e partir diretamente para a ação. Mas de qualquer forma ainda assim é um bom filme e uma boa continuação, que não está no mesmo nível do primeiro mas ainda consegue manter a qualidade conquistada anteriormente.
Um ponto muito interessante e que me chamou atenção no primeiro filme, foi exatamente a forma como o Krasinski decidiu abordar o conteúdo das criaturas cegas. Ou seja, Krasinski nos entrega uma obra surpreendente cujo roteiro é bem trabalhado, bem objetivo, bem arquitetado, que vai direto ao ponto, sem se apegar em explicações detalhadas sobre a origem das criaturas, ou os motivos de tais acontecimentos. O que normalmente aconteceria em outras produções do gênero. Na minha opinião o primeiro filme acerta exatamente nesse ponto, pois eu não acho uma obrigatoriedade a explicação minuciosa do surgimento das criaturas. Já no segundo filme temos um breve prólogo que nos conta exatamente esta parte de como as criaturas chegaram na terra. Nessa introdução descobrimos como era a terra antes da invasão, e presenciamos a chegada das criaturas vindo do espaço.
Todo este planejamento que vimos no prólogo de "Um Lugar Silencioso - Parte II" já fazia parte da ideia de John Krasinski em expandir o universo de "Um Lugar Silencioso" para um possível spin-off da franquia. "Um Lugar Silencioso: Dia Um" é exatamente este planejamento de Krasinski, que além de criar a história do longa junto com o diretor Michael Sarnoski, ele participa diretamente da produção do filme. É bom deixar bem claro que "Um Lugar Silencioso: Dia Um" não é uma continuação do segundo filme, já que ambos mostram a chegada das criaturas na terra. A ideia aqui é justamente ser uma prequela do primeiro filme, ser o dia um, nos mostrar como ocorreu a chegada das criaturas.
Sendo bem sincero, eu não vejo a menor necessidade da existência dessa prequela que vai nos explicar o início de tudo (ou pelo menos tentar explicar né!). Mas como sempre acontece em filmes que logo viram franquias de sucesso, o prelúdio mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Como já está bem especificado no título do filme, a ideia é ser o dia um, o início de tudo, e mesmo eu achando desnecessário eu comprei a ideia desse spin-off, até porque o principal chamariz da produção era exatamente usar o tema central da cidade de Nova York para o início dos eventos catastróficos. Nesse ponto soa como interessante, afinal de contas estamos falando da cidade que nunca dorme, uma das cidades mais barulhentas de todo o planeta, onde o som emitido diariamente chega na casa dos 90 decibéis. Ou seja, como fazer calar uma cidade dessa? Como silenciar um ambiente desse? Dentro desse contexto, Nova York seria o local perfeito para a invasão das criaturas que são guiadas exatamente pelo som.
Dentro de todo este contexto que eu mencionei acima o longa tinha tudo para dar certo se seguisse o caminho certo, porém o roteiro é extremamente subaproveitado e decide seguir o mesmo caminho que já vimos anteriormente exibindo o mais do mesmo. Para inicio de conversa o subtítulo "Dia Um" é usado apenas no prólogo do filme, pois assim que as criaturas invadem Nova York e começam todos os ataques temos uma pequena passagem de tempo, onde nos mostra a personagem Sam com o rosto coberto de poeira nos escombros da cidade, ali já podemos considerar como o dia dois. Partindo desse princípio, "Um Lugar Silencioso: Dia Um" não inova a história em absolutamente nada, não apresenta nada de novo, não mostra nada de concreto sobre a origem das criaturas. Por outro lado eu até considero como uma falha gritante do roteiro, já que a ideia aqui era abordar a origem de tudo, porém logo após o início dos primeiros ataques a população já parece saber de todos os métodos de sobrevivência.
O longa-metragem falha grotescamente ao prometer contar o início de tudo e não contar absolutamente nada. Pois inicialmente não vemos como a população descobre que as criaturas são cegas e são guiadas apenas pelo som, exigindo assim que para manter a sobrevivência sejam obrigados a manter o silêncio absoluto. Após os primeiros ataques todo mundo já sabe certinho o que fazer para sobreviver. Acredito que faltou um planejamento de roteiro mais abrangente em torno das primeiras aparição das criaturas. Como o fato de explicar como surgiram as criaturas, da onde elas realmente vieram, se vieram por acidente ou foram enviadas por alguma outra entidade. Poderiam apresentar com mais detalhes como foi a reação governamental e das forças armadas americanas ao primeiro contato com as criaturas desconhecidas. Algo como a reação da NASA, dos líderes de governo, algo que fosse mais abrangente, mais coeso com a atual situação, que realmente nos desse dimensão e a proporção dos ataques e como surgiram.
Todas essas explicações acima eu considero extremamente desnecessárias dentro do universo de "Um Lugar Silencioso". Porém, se temos aqui o filme que é uma prequela da história, que promete ser o dia um de todos os acontecimentos, obrigatoriamente todos esses pontos (ou partes deles) deveriam ter sido abordados. O que fica é uma oportunidade desperdiçada de exploração desse universo.
O saldo final é que "Um Lugar Silencioso: Dia Um" sequer poderá ser considerado como uma prequela, pois o que ele apresenta é apenas o mais do mesmo, sendo apenas mais um capítulo desse universo que poderia facilmente se encaixar como um filme três ou qualquer outra história paralela contada sobre uma outra perspectiva de um outro local. O caminho que o longa decide seguir deixa de lado o suspense para mergulhar no drama da protagonista. De fato eu entendo a questão da doença terminal da Sam, onde necessariamente ao abordar este tema a trama inevitavelmente vai cair no drama, porém o que fica são apenas as motivações finais dela pelo estágio da sua doença, onde parece que ela já se entregou e ainda tenta sobreviver por mais alguns dias (como naquela questão da pizza). Também compreendo o surgimento daquele laço improvável entre a Sam e o Eric (Joseph Quinn), o que mostra que a química e a conexão humana pode ocorrer até em casos mais extremos da vida. Mas eu achei apenas como uma tentativa em vão, onde claramente soa mais superficial em decorrência da trama.
Eu adoro a Lupita Nyong'o, sou fã declarado dela desde aquela atuação estupenda em "12 Anos de Escravidão", que lhe rendeu dignamente o Oscar. Lupita segura o filme praticamente sozinha, sempre nos impressionando com suas excelentes expressões faciais, onde ela expõe o seu nível de tensão, de pânico e de agonia. Sem falar que toda aquela construção em torno da sua doença terminal faz com que ela mescle uma atuação que vai desde o pânico ao drama. Porém, por outro lado eu achei que esta construção paralela é muito vaga e não agrega em absolutamente nada. Lupita Nyong'o é uma atriz fantástica e talentosíssima e aqui ela é o grande chamariz da produção.
Joseph Quinn ("Gladiador 2") faz um personagem bem mediano, que é usado apenas como um contraponto da personagem da Lupita, algo como a obrigatoriedade de ter alguém para que ela pudesse criar uma rápida conexão.
Alex Wolff ("Oppenheimer") faz uma participação somente nos momentos iniciais do filme, e a melhor parte com certeza é a cena em que o Alien fica cara a cara com ele, o que me remete à uma cena clássica e icônica do "Alien 3". Poderia ser uma referência ao filme de 1992? Fica aí a curiosidade.
E por fim temos mais uma vez a participação do Djimon Hounsou ("Capitã Marvel" e "Aquaman"), que retorna com seu personagem que apareceu pela a primeira vez no segundo filme.
Tecnicamente o filme mantém o nível de qualidade das cenas, que por sinal são bem construídas, como aquela cena inicial da invasão das criaturas. Este é um ponto que não podemos negar, às cenas são muito boas, mantém aquele clima de tensão e suspense misturado com o pânico. A direção do Michael Sarnoski é bem ajustada. A trilha sonora de Alexis Grapsas é mediana mas funciona dentro da proposta do filme. Porém, as trilhas dos filmes anteriores do Marco Beltrami eram muito melhores. O mesmo vale para a edição/mixagem, que aqui funciona mas nos filmes anteriores também eram melhores. Porém, a fotografia é muito boa e mantém o nível dos filmes anteriores.
No mais, "Um Lugar Silencioso: Dia Um" é bom filme que funciona dentro da proposta do universo da franquia. O problema aqui é quando este filme vem com a proposta de prequela, de ser o dia um, e no fim não entrega absolutamente nada de novo, sendo apenas o mais do mesmo. Por outro lado a bilheteria arrecadou mais de US$ 261 milhões em todo o mundo com um orçamento de US$ 67 milhões. E no fim o filme falha como prequela mas ainda consegue unificar a franquia, pois ele entrega exatamente o que já vimos nos filmes anteriores.
Um lugar Silencioso, ou Um Gato Silencioso?
- 31/12/2024
A Culpa é das Estrelas
3.7 4,0K Assista AgoraA Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars) 2014
A Culpa é das Estrelas é dirigido por Josh Boone ("Os Novos Mutantes") a partir de um roteiro de Scott Neustadter ("Daisy Jones And The Six") e Michael H. Weber ("Artista do Desastre"), baseado no romance de 2012 de mesmo nome de John Green. A história é centrada em uma paciente com câncer de dezesseis anos, Hazel Grace Lancaster, interpretada por Shailene Woodley, forçada por seus pais a frequentar um grupo de apoio, onde ela conhece e posteriormente se apaixona por outro paciente com câncer, Augustus Waters, interpretado por Ansel Elgort.
"A culpa é das estrelas" é um livro que eu ganhei de uma amiga há algum tempo. Como o gênero do livro não é um dos meus estilos preferidos de leitura, eu acabei deixando ele guardado no fundo da minha estante de livros. Nesse final de ano eu decidi dar uma organizada na estante e acabei separando os livros que eu ainda não tinha lido, e resolvi dar uma chance para eles. Foi exatamente o que aconteceu com o livro de "A culpa é das estrelas", que estava guardado e eu sequer me lembrava da sua existência. Resolvi ler o livro e logo após assistir o filme, e não é que eu me surpreendi em um contexto que eu estava com zero expectativas.
Sobre o livro:
O livro me surpreendeu, pois eu esperava uma história bem clichê, aquele típico romance adolescente mais do mesmo, que sempre encontramos por aí. Porém, com o passar das páginas a história foi me cativando e ficando cada vez mais interessante. É inegável que a história é sim um clichê, mas com elementos que discutem vários pontos que são importantes para a nossa vida no dia a dia.
Temos aqui a história de superação, de motivação, da ambição pela vida, de estar vivo, de querer viver os momentos da vida como se cada um fosse os últimos, e de fato poderia ser. Temos a história da Hazel e do Augustus, dois adolescentes que irão viver a maior aventura amorosa de suas vidas. O ponto em questão é realmente as condições de vida dos personagens, uma vez que eles possuem doenças terminais. Eu coloco a história como uma verdadeira carta de adeus, uma despedida da vida, que apesar de iniciarmos a história já sabendo da doença terminal da Hazel, mas queremos que ela lute pela vida, queremos que ela não desista da vida, não queremos que ela morra, e sim, queremos que ela viva esta sua história com o Augustus.
Eu diria que "A culpa é das estrelas" é um bom livro, ainda mais se você gosta do gênero em questão. E no final você também poderá se surpreender!
Sobre o filme:
No início você pode achar que "A culpa é das estrelas" é mais voltado para o público adolescente, até por contar com um elenco formado por Shailene Woodley e Ansel Elgort. Por outro lado você também pode achar que o filme é mais um melodrama forçado, feito com o único intuito de arrancar às lágrimas do público a qualquer custo. Porém, isso foi um ponto que me surpreendeu tanto no livro quanto no filme. Pois em momento algum a história pesa a mão nessa questão, o tema central já é bem especificado desde o início. Desde o começo você já sabe das condições da doença da Hazel e do Augustus, que ambos são adolescentes que estão vivendo os seus últimos dias, por mais doloroso que isso possa parecer, mas ambos são vítimas de uma doença terminal.
Por mais que o tema central da história seja o câncer, o que fatalmente poderia levar o tom e o ritmo do filme para o melodrama, temos uma Hazel que enfrenta a sua doença, que age como qualquer adolescente, que se estressa com os pais, que se apaixona, que usa uma autoparódia como sua válvula de escape para o seu problema no dia a dia. O mesmo posso falar do Augustus, que é divertido, irreverente, sarcástico com sua própria perna amputada pela doença. Ou seja, ambos vivem as suas vidas como qualquer adolescente, usufruem dela como qualquer pessoa, por mais que eles tenham toda dificuldade imposta pela doença, por mais que eles saibam que tem pouco tempo de vida. Este é ponto que faz de "A culpa é das estrelas" um filme adolescente que trata de um tema sério de forma séria, sem a banalização, sem apelar para o melodrama, sem forçar a barra com uma autopiedade, sem querer propagar uma vitimização.
Um ponto que merece ser destacado e enaltecido, é exatamente a adaptação do livro de John Green. Que é feito com bastante fidelidade, fazendo o simples sem querer inventar demais, sem querer polemizar em cima da obra, sem querer criar teorias sobre o destino dos personagens. Ou seja, um exemplo a ser seguido quando se trata de adaptações literárias. Outro ponto que o diretor acerta, é sobre a construção das cenas que envolve a exposição da doença de ambos os personagens, onde temos cenas mais rápidas e objetivas, quando se trata do problema pulmonar da Hazel e a perna amputada do Augustus. Pois é fato que outro diretor optaria por usar estas cenas para criar impacto, para comover o público.
Sobre o elenco:
Shailene Woodley ("Big Little Lies") entrega uma performance no ritmo certo de sua personagem, ela consegue dosar os momentos mais eufóricos (como na viagem para Amesterdã) com os momentos de maiores tristezas (como nos acontecimentos finais). Acredito que ela foi uma ótima escolha para dar vida para a história de Hazel Grace Lancaster.
Ansel Elgort ("Em Ritmo de Fuga") é o contraponto perfeito para a personagem da Shailene, pois ambos conseguem adquirir uma química instantânea, ambos conseguem comprar a nossa atenção e consequentemente a nossa empatia. Ansel é um ator muito talentoso e versátil, ele consegue incorporar muto bem o personagem, ele conseguiu acertar o timing perfeito do Augustus do livro, que é justamente ser esse cara extrovertido, brincalhão, sempre com suas tiradas cômicas, mostrando que estar vivo e apaixonado pode ser maravilhoso, mesmo sabendo da sua condição.
Nat Wolff ("Murder at Yellowstone City") é o Isaac, o melhor amigo cego de Augustus. Ele também consegue acertar o personagem com relação ao livro.
Laura Dern ("Jurassic World: Domínio") está perfeita como a Frannie Lancaster, mãe de Hazel.
Assim como o Sam Trammell ("Homeland"), o Michael Lancaster, pai de Hazel.
Pra finalizar eu não poderia deixar de citar a presença ilustre do grande Willem Dafoe ("Pobres Criaturas") como Peter Van Houten. O personagem Peter Van Houten no livro eu achei bem questionável, por mais que no final descobrimos o real motivo para ele estar ali presente na história, mas como um todo eu achei o seu contexto um tanto quanto desnecessário. Porém, isso não anula a elegantérrima presença do Sr. Willem Dafoe.
Tecnicamente o filme é modesto mas é bem feito!
A trilha sonora por sinal é bem modesta, mas é muito bem acertada, uma vez que a trilha sonora não apela para ritmos que fatalmente irá forçar a comoção do público. A fotografia é bem ajustada, é bem trabalhada juntamente com toda a cenografia.
Gostei da referência que o filme não deixou de fora, com relação ao uso do cigarro apagado do Augustus. Particularmente eu acredito que o cigarro é usado como uma metáfora para simbolizar o sufocamento da vida que é sentido pelo próprio Augustus.
"A culpa é das estrelas" ainda nos deixa algumas lições de vida:
Por exemplo o fato de se colocarmos no lugar da Hazel, pois ela tem uma doença terminal, ela tem pouco tempo de vida, ela sabe que vai morrer, ela é pessimista, ela fica chateada, ela fica estressada, a vida não tem mais graça, a vida não tem mais cor, a vida não tem mais sentido, porém ela insiste em viver, ela quer estar viva, ela quer viver esse seu pouco tempo de vida com o Augustus, ela se apega ao seu último fio de esperança. Esta é uma reflexão que podemos fazer em nossas vidas, pois você não tem uma doença terminal como a Hazel, você não precisa carregar um balão de oxigênio o tempo todo, e mesmo assim você é pessimista, você não dá o devido valor por simplesmente estar vivo e sem um prazo para a sua vida acabar.
Podemos fazer várias reflexões:
"Tudo é infinito enquanto dura! Não importa quanto tempo temos para aproveitar a vida. O importante é aproveitar e viver intensamente agora. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta."
"A felicidade está nos momentos e nas coisas simples. Basta saber olhar e saber valorizar cada momento."
"É fundamental aprendermos a dar valor a uma conversa, ao conforto de um abraço, ao sorriso, enfim coisas simples que fazem parte do nosso dia a dia. E que só precisam de um olhar mais atento e um coração simples para nos trazer felicidade."
"Mesmo em meio à dor, ver as coisas pelo lado positivo sempre ajuda. Não podemos permitir que os problemas dominem nossa vida ao ponto de perder a fé, a esperança e a alegria."
"Fugir da dor pode apenas prolongar o sentimento e trazer consequências à saúde e ao bem-estar. É importante saber encarar a dor e conviver com ela. Não podemos deixar que ela nos domine, mas podemos aprender com ela."
"São os sonhos que nos impulsionam a seguir em frente. E cada passo em direção a este sonho deve ser valorizado. Muitas vezes, a busca é que torna o encontro mais feliz. Sempre há um motivo para viver e correr atrás dos nossos sonhos."
"A culpa é das estrelas" me surpreendeu muito, eu jamais poderia imaginar que em um filme adolescente eu fosse encontrar os temas e os pontos que foram abordados. Posso afirmar que esta história em si vai muito além de uma doença, pois estamos diante de uma lição de superação, de amor, de carinho, de convivência, de descobrimentos, de revelações, de saber aproveitar o que se tem, enquanto se tem. Verdadeiramente é uma lição de vida diante do inevitável, a morte!
"Nem todo mundo que chega na sua vida, vem com a intenção de ficar. Da mesma forma, que nem todos os que se foram, queriam partir. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados. Não sabe como sou muito grata por nosso pequeno infinito."
Hazel Grace
- 27/12/2024
Coringa: Delírio a Dois
2.5 924 Assista AgoraCoringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux) 2024
"Coringa 2" é dirigido por Todd Phillips a partir de um roteiro que ele coescreveu com Scott Silver. Baseado em personagens da DC Comics, o longa-metragem é uma sequência direta de "Coringa" (2019). Joaquin Phoenix repete seu papel como Arthur Fleck/Coringa, e dessa vez ele conta com a presença de Lady Gaga como Harleen "Lee" Quinzel, seu interesse amoroso. "Coringa 2" traz um Arthur Fleck que no momento está internado em Arkham, aguardando julgamento por seus crimes como o Coringa, anteriormente. Ele continua com sua guerra pessoal ao ter que lidar com sua dupla identidade, quando se depara com o amor e encontra a música que sempre esteve dentro de si.
Em 2019 "Coringa" foi uma aposta da Warner, visto que o estúdio apostava em contar o princípio e o desenvolvimento de um vilão. Vilão este que geralmente sempre esteve ligado ao Batman, e aí que surge a pergunta: o Coringa pode existir sem o Batman? Dessa forma precisou de todo um estudo de personagem, contando com toda uma liberdade criativa, uma licença poética, para assim o personagem se desligar de outros personagens e criar a sua própria identidade e consequentemente o seu próprio universo. Tanto é que o longa traz uma verdadeira revolução dentro do universo cinematográfico do Coringa que já conhecemos, pois de fato o filme não tem ligações com as outras versões do personagem vistas anteriormente no cinema.
Dito isto, "Coringa" foi um verdadeiro marco na história das adaptações de HQ's para o cinema. Isso também se deu nas bilheterias, pois o orçamento do filme foi de US\$ 65 milhões e a bilheteria mundial ultrapassou US\$ 1 bilhão. Nos festivais de premiações, "Coringa" ganhou o Leão de Ouro no 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza. No Oscar 2020, "Coringa" liderou com 11 indicações, vencendo em Melhor Ator para Joaquin Phoenix e Melhor Trilha Sonora para Hildur Guðnadóttir.
Todo o sucesso de críticas do "Coringa" se deu justamente por ser um filme fora dos padrões das adaptações de HQ's. Pois o filme é cru, seco, niilista, intrínseco, peculiar, pertinente, que nos relata como uma sociedade decadente tem o poder de causar distúrbios mentais em uma pessoa e transformá-la em um vilão, ou em uma vítima. Posso ir ainda mais além ao destacar como o longa consegue capturar o espírito daquele momento da cidade e do governo em Gotham City, o que canaliza muitas frustrações e retrata uma sociedade fria, repleta de instituições decadentes, mantidas por um fio, que empurram Arthur Fleck para a insanidade e consequentemente para a violência.
Verdadeiramente "Coringa" fez um sucesso estrondoso e teve todos os méritos possíveis para isto, se consolidando como o melhor filme da DC/Warner. Eu coloco "Coringa" na prateleira das melhores adaptações de HQ's de todos os tempos, juntamente com obras como "Homem Aranha 2" (2004), "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008) e "Vingadores: Ultimato" (2019). E digo mais: "Coringa" deveria ter levado o Oscar de Melhor Filme em 2020. Eu gosto de "Parasita" (2019), é de fato excelente e traz abordagens ácidas e pertinentes como um todo, mas "Coringa" é mais imponente e se destaca como uma uma obra-prima revolucionária e categórica.
Diante de todos os fatos apresentados por "Coringa" lá em 2019, seria mais do natural que o estúdio apostasse em uma continuação, até pela bilheteria que o longa fez. Sendo assim o sarrafo subiu demais, às exceptivas do público subiram demais. Desde que foi anunciado oficialmente, "Coringa 2" causou um alvoroço se destacando como uma das sequências mais aguardadas da atualidade cinematográfica. E não era pra menos, visto que praticamente todos do filme anterior estariam de volta, isso incluindo o diretor Todd Phillips, o roteirista Scott Silver, o diretor de fotografia Lawrence Sher, o compositor Hildur Guðnadóttir, além, é claro, o monstruoso Joaquin Phoenix e a melhor e mais completa artista da atualidade, Lady Gaga. Ou seja, toda a receita para um novo sucesso estava pronta, era só fazer acontecer. Porém, não foi bem isso que aconteceu.
Para início de conversa, "Coringa 2" foi concebido como um filme independente, embora a própria Warner Bros. pretendesse que o filme lançasse uma nova série de filmes, algo como uma nova franquia de filmes com tons mais sombrios, que seria desenvolvido como a "DC Black". "Coringa 2" está sendo duramente criticado pelo público e pela crítica especializada, algo como uma não conexão com o público que foi algo imediato conquistado pelo filme anterior. O longa está sendo um verdadeiro fracasso nas bilheterias, já que seu orçamento esteve com custos de US$ 200 milhões e ele fez apenas US$ 40 milhões nos Estados Unidos, menos da metade do valor arrecadado em 2019 com o primeiro filme. Isso tem deixado a Warner extremante preocupada.
Como eu adoro o primeiro filme e o considero como uma verdadeira obra-prima do cinema, devo admitir que eu tinha uma grande expectativa com a realização dessa continuação. Porém: fiquei decepcionado como a grande parte do público? Sim e não (confuso? Eu sei! - rsrsrs). Para começar eu gostei do filme, não era exatamente o que eu estava esperando, mas também não é todo esse desastre que a crítica aponta. Porém, eu entendo grande parte das críticas, pois o diretor foi ousado demais em sua decisão, ele foi além do simples, além da sua zona de conforto, que seria entregar o básico que deu tanto certo no primeiro filme. Acredito que o Todd Phillips quis se desafiar e não quis jogar na segurança, que seria fazer o simples bem feito.
O primeiro "Coringa" ganhou uma enorme notoriedade e se destacou justamente pela forma como ele foi desenvolvido e entregado, sendo aquela representação de uma personalidade com uma mente deturpada e doentia que foi de certa forma corrompida pela sociedade e por traumas em seu passado, o que justamente desencadeou na transformação do Arthur Fleck no Coringa. Então, o que o público poderia de fato esperar de uma provável (ou improvável) continuação? Talvez a crítica fique pela a sequência que o roteiro decidiu seguir? Se passando grande parte com o julgamento pelos crimes cometidos pelo Arthur enquanto o Coringa. E aqui eu até acho que o roteiro força bastante nesse tema, o tribunal, e deixa grande parte do potencial do próprio Coringa de fora, Uma vez que às cenas do julgamento se tornam um pouco mornas demais e o Arthur transformado no Coringa fique mais à cargo da sua imaginação.
Por outro lado eu acredito que o que de fato pegou o público foi o tom empregado pelo próprio Todd Phillips em seu longa, que verdadeiramente podemos chamá-lo de suspense musical. Apesar do próprio Todd não considerar o seu filme como um musical, temos sim uma película musical no fim das contas. E nesse ponto pode entrar o preconceito do público com musicais (especificamente falando do público brasileiro). Os americanos amam musicais e não é à toa que tivemos "La La Land" (2017) ganhando o Oscar de Melhor Filme (ou não - rsrsrs!). Mas será que realmente era necessário um musical em "Coringa 2"?
Para falar dessa parte musical do filme eu preciso puxar o gancho da Lady Gaga, que pra mim é o principal estopim para despertar a faísca de Arthur Fleck para voltar ao Coringa. Gaga dá vida à Lee, uma paciente do Arkham State Hospital que fica obcecada por Arthur e forma um relacionamento romântico mortal com ele. Lee é manipuladora, persuasiva, invasiva, maquiavélica, contraditória e bastante letal. Ela é a responsável em manipular o Arthur o tempo todo, conseguindo mexer com sua mente e seu corpo, despertando seus sentimentos e desejos mais obscuros. Definitivamente Lee é um estudo de contradições, partindo do princípio que seu amor e sua obsessão pelo Arthur também são admiração e desgosto. A partir desse ponto Lee desperta a música dentro da alma do Arthur, o que de certa forma era algo que ele próprio desconhecia, ou não tinha total controle. É uma narrativa que navega diretamente no suspense, no drama, no psicológico, usando a música como uma válvula de escape para uma verdadeira loucura.
Acredito que a decisão do Todd Phillips em cenas musicais foi uma cartada justamente à loucura dos dois personagens em cena. Tanto que às partes musicais são apresentadas em um tom especificamente de delírios, alucinações, devaneios, fantasias, algo como uma fuga, um grito da alma. Por isso eu reitero que o diretor foi extremamente corajoso e ousado, em querer despertar estes sentimentos no público, indo por um caminho mais teatral e mais poético ao abordar um lado sombrio e obscuro, em mentes completamente fragmentadas.
Porém, foi uma decisão ousada e corajosa do diretor mas extremamente perigosa com a recepção do público. Pois grande parte das pessoas estavam esperando uma continuação mais objetiva do que superficial. Eu já tive muito preconceito com musicais, já virei a cara para vários filmes musicais, mas este foi um erro que eu concertei e hoje eu adoro musicais, claro que filtro alguns casos. Dessa forma eu não tenho nenhuma dificuldade com musicais, pelo contrário, é muito satisfatório assistir um belo musical - que é o caso de "Coringa 2", por que não? Mas o grande público não compactua da mesma opinião que a minha, sendo assim é normal que o público julgue o filme como monótono, arrastado e até superficial. Pode parecer uma ótima ideia a construção de um musical sombrio com o Coringa e a Harleen com um pano de fundo de violência, fantasia, alucinações e delírios. Porém, o sentimento que fica é de que tudo foi subaproveitado como um todo, uma vez que grande parte da trama se passa em um tribunal. Dessa forma é normal sentir a falta daquela energia carregada, perigosa e do caos do primeiro filme.
Outro ponto que pode gerar discursão é justamente o ponto que o roteiro levanta ao tentar desmistificar a ideia de que o Coringa é um personagem divertido, indo até naquela linha dos policiais sempre pedirem para o Arthur contar uma nova piada, que foi algo que ficou no ar durante todo o filme até a última cena exatamente na prisão - por sinal uma cena impactante! A própria Lee representa a imagem do pior dos fãs, que é caracterizado como aquele que quer que seu ídolo nunca saia do personagem, e finge desesperadamente ser algo que não é, como se isso fosse realmente bom ou necessário. Tradicionalmente podemos considerar que o Coringa que seduz a Harley Quinn para que ela se torne parte dele, já aqui este papel é invertido, uma vez que a Lee usa a própria mente do Coringa contra ele próprio.
Outro ponto bastante questionável é o fato do filme querer pregar uma desconstrução e descaracterização do Coringa. Como se desmontasse o mito de que o Coringa representa algo além da violência crua e desenfreada. Grande parte do roteiro tenta desesperadamente abordar o fato de que o Coringa é uma identidade/personalidade diferente do Arthur, como o próprio discurso de defesa apresentado no tribunal durante seu julgamento. Até dá pra considerar uma ideia sobre a possível desconstrução do personagem, mas a execução deixa muito a desejar.
Joaquin Phoenix novamente em uma atuação excelente, com uma entrega no personagem absurda. Tanto que na primeira cena você imediatamente já nota o quanto ele está magro, chega a ser pavoroso. Phoenix novamente nos entrega o seu Coringa sombrio, obscuro e mórbido em um nível de facetas impressionante.
Já a Gaga é o contraponto ideal de Phoenix na trama, algo como um complemento ao seu personagem, e devo dizer que ela entrega uma atuação bastante condizente com a proposta da sua personagem. Gaga consegue passar aquela personalidade manipuladora, dominante e letal. Ela realmente tem essa veia para personagens mais desafiadores. Porém, eu acho que faltou um algo a mais em sua personagem, não sei se foi o tempo dela, talvez o desenvolvimento, talvez as suas canções que não foram tão memoráveis, mas eu fiquei com a sensação de um baita talento em até certo ponto desperdiçado.
Harry Lawtey foi uma figura bastante interessante e intrigante com o seu promotor público assistente que planeja levar Arthur à justiça por seus crimes. Eu diria que foi uma participação bastante curiosa do Harvey Dent.
Tecnicamente temos vários pontos que merecem um destaque.
Novamente a direção do Todd Phillips é acertada e condiz perfeitamente com toda sua ousadia e coragem. A trilha sonora de Hildur Guðnadóttir é excelente, assim como já havia sido no primeiro filme. Curioso que a trilha sonora do filme inclui 16 números musicais, a maioria deles covers de músicas pré-existentes, com uma música original escrita por Lady Gaga. Ela lançou um "álbum complementar", Harlequin, em 27 de setembro de 2024. A fotografia navega na mesma temática de decadência do filme anterior, o que transcende cada cena do filme, seja ela no tribunal, na penitenciária, ou até mesmo nas ruas. A direção de arte é um show à parte. É impressionante como a direção de arte consegue se encaixar perfeitamente dentro do padrão e da proposta do filme. Sem falar na montagem, edição, mixagem, figurinos e maquiagens, tudo minunciosamente muito bem estruturado. Tecnicamente e artisticamente o longa de Todd Phillips é novamente uma obra-prima!
Por fim: "Coringa 2" se encaixa perfeitamente naquele padrão do ame ou odeie. Infelizmente eu tenho que admitir que o filme não agrega em nada na história já traçada, não consegue caminhar com as próprias pernas e vive o tempo todo na sombra do anterior. Sendo assim eu também considero esta continuação como desnecessária, já que o primeiro filme é efetivamente autossuficiente em tudo que se propôs.
Eu confesso que tinha uma outra ideia sobre o filme, e de fato ele fugiu bastante das minhas expectativas. Porém, contudo, no entanto e todavia, eu reitero que gostei do filme, não o considero como esta bomba toda que todos estão considerando. Pelo contrário, eu ainda consigo enxergar uma abordagem sobre uma mente fragmentada, deturpada, distorcida, uma manifestação de uma doença mental em seu estado mais alterado e doentio. "Coringa 2" é ousado e corajoso, que entrega o discurso que ele quer contar e não necessariamente o que o público idealiza e almeja, mesmo que pra isso soe como uma obra que se apegue mais ao excêntrico, ao extravagante, exibindo o seu lado mais teatral e poético.
- 23/12/2024
O Menino do Pijama Listrado
4.2 3,7KThe Boy in the Striped Pyjamas (O Menino do Pijama Listrado) 2008
O longa é dirigido e roteirizado pelo britânico Mark Herman e baseado no livro de John Boyne, que foi escrito em 2006.
O Menino do Pijama Listrado narra a vida do pequenino Bruno (Asa Butterfield), um garoto de 8 anos que vive com sua família em Berlim nos anos 40 durante a segunda guerra mundial. Filho de um oficial nazista que assume um cargo de extrema importância dentro do partido, Bruno e sua família terá que se mudar para o campo. Um local totalmente vazio e sem qualquer interesse para uma criança de 8 anos, porém, Bruno descobrirá uma maneira de transformar a sua vida.
O Menino do Pijama Listrado é um filme belíssimo, ao mesmo tempo assustador e de muita importância para a humanidade nos dias de hoje. No início podemos observar uma linda Berlim dos anos 40 sendo contemplada pela inocência e pureza das crianças brincando e correndo pelas ruas com a maior felicidade possível. Isso que deixa o longa cada vez mais interessante, em nos apresentar uma felicidade em locais coloridos e cheio de vidas, ao mesmo tempo que se confronta com a dor e o desespero em um período de guerras com locais mórbidos, densos e mortos.
Devo destacar o roteiro do longa! Completamente fantástico e coeso. Somos direcionados pela perspectiva dos olhos do pequeno Bruno. O roteiro faz questão de apresentar a sua história pela forma que Bruno vê o seu mundo - seus amigos, sua família, seu dia a dia em sua nova casa e muito além disso, as suas novas descobertas e aventuras desse pequeno explorador. Ao mesmo tempo que o roteiro usa como pano de fundo os acontecimentos em "Auschwitz", durante a Segunda Guerra Mundial e o assombroso "Holocausto".
Nesse ponto que o roteiro me pegou! Eu sou um apaixonado e muito curioso por obras que retratam os terríveis acontecimentos que abalou a raça humana durante os períodos das guerras, principalmente quando toca no "Holocausto" e nos campos de concentrações de Judeus.
Com certeza eu vou achar o filme fantástico, pela sua maneira em apresentar uma criança completamente pura e inocente dentro de um mundo de crueldade e brutalidade causado pelos adultos. A forma doce e singela que Bruno só quer brincar e se divertir com seu novo amigo, sem a maldade e a arrogância que se instalou nos corações Nazistas (se é que eles tinham um). Essa é a magnitude do filme, essa é a magia do filme, em demonstrar que ninguém nasce odiando ninguém, as crianças eram puras e inocentes nos períodos das guerras. O ódio era enfiado em seus corações e em suas mentes na medida que iam crescendo e sendo ensinadas pelos tutores alemães (como o filme demonstra muito bem).
O período do "Holocausto" foi uma época muita dura e perversa para a história da humanidade, e tudo que hoje em dia retrata essa passagem em livros e filmes desperta a minha curiosidade (como a obra épica e magnífica de Steven Spielberg intitulada "A Lista de Schindler"). A forma violenta e brutal que o filme nos mostra a vida dos judeus nos campos de concentrações e nas casas servindo os alemães é de cortar o coração. A inocência e a pureza de uma criança era confrontada com a perversidade e a crueldade dos adultos. O filme é muito duro e muito doloroso quando paramos pra analisar cada detalhe que nos é passado. A inocência de uma criança é algo tão puro e singelo ao ponto de nos apresentar a cena em que Bruno diz para seu novo amigo, que não era justo ele está ali preso e sozinho, enquanto seu amigo brincava com as outras crianças todos os dias. Sem ao menos perceber o que aquilo tudo significava.
Não posso deixar de destacar a fotografia e a trilha sonora do filme, que foram pontos cruciais para todo encanto e beleza, se misturando com a dor e a tristeza. Uma fotografia estupenda e muito bem apresentada em cada foco e tomada de cena. A fotografia era a responsável em nos imergir em mundo colorido que facilmente nos representaria a vida em seu maior tom, ao mesmo tempo que facilmente nos assombrava e nos apavorava com a densidade morta do outro lado da cerca elétrica. O conhecidíssimo compositor James Horner é o grande responsável pela beleza e leveza dos mais profundos e tocantes sons de pianos que pairava sobre os momentos mais tensos da trama. Que trilha sonora encantadora, que esteve presente em quase 100% do filme.
Asa Butterfield é o grande nome do filme, sem dúvida ele foi o grande responsável em cativar a minha atenção de todas as formas possíveis. Bela atuação com a leveza e a pureza que só uma criança consegue ter. Vera Farmiga completa muito bem o seu papel de mãe, se destacando com uma impressionante cena final, com uma carga dramática incrível. David Thewlis está magnífico em sua atuação, ele consegue expor um general Nazista do mais alto e cruel nível, praticamente a figura do "Führer" (só lhe faltou o bigode). Amber Beattie faz a irmã mais velha de Bruno com muita segurança. Era realmente incrível como os alemães moldavam as cabeças das crianças e dos adolescentes desde cedo (como o filme destacou muito bem com Gretel de apenas 12 anos). E por fim Jack Scanlon, que nos demonstrava o medo e a angústia de uma criança de apenas 8 anos dentro de um uniforme (maior que ele) com uma numeração que infelizmente não tinha nada a ver com um simples pijama listrado.
O Menino do Pijama Listrado é mais uma belíssima obra que confronta um dos maiores sofrimentos da história da humanidade, com a pureza e a inocência de uma criança. Realmente é um relato muito forte, pesado, incômodo e assombroso, com uma das cenas finais mais triste da história do cinema. Até agora eu ainda não consegui me recuperar do foco daquela cena final com aquela trilha sonora de fundo que estraçalhou com o meu coração - Lágrimas!!! [03/07/2018]
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É realmente muito curioso como às nossas opiniões mudam com o passar do tempo, e principalmente quando buscamos mais informações e embasamento acerca de tal assunto.
Este caso se encaixa perfeitamente aqui, pelo fato da época em que escrevi este texto acima eu ainda não ter lido o livro "O Menino do Pijama Listrado". Ou seja, tudo que eu presenciei no filme me impactou naquele momento unicamente pelo próprio filme e a forma como ele foi elaborado.
Outro ponto que me fez gostar muito do filme na época foi exatamente a minha paixão por obras que retratam esta passagem da humanidade - o Holocausto. Pelo fato de gostar muito de filmes com esta temática e de não ter lido o livro, eu não me atentei à detalhes cruciais dessa adaptação de Mark Herman.
Falando especificamente do livro:
O livro é excelente, impecável, muito bem elaborado, muito bem escrito, onde ele consegue nos transmitir toda pureza e inocência do pequeno Bruno sendo confrontada com a perversidade e crueldade humana. O livro tem a capacidade de mergulharmos de cabeça naquela história, de entendermos e sentimos como tudo aquilo transcorria com uma forma bizarramente normal.
O livro consegue ter uma história forte, pesada, incomoda, ao mesmo tempo sendo leve na medida certa. Lendo o livro você consegue sentir como tudo aquilo é realmente uma história alemã, tirada daquele período alemão, você praticamente compra a ideia de ser um livro alemão.
Como eu vejo o filme hoje:
A adaptação é boa, é bem detalhada, grande parte das principais cenas do livro estão no filme, até os diálogos são praticamente os mesmos do livro. O filme consegue entregar aquele confronto entre a inocência com a brutalidade. Ou seja, o filme tem vários pontos positivos em relação ao livro.
Porém, revendo o filme hoje após ter lido o livro eu pude constatar que o maior erro do filme está exatamente em seu idioma. É praticamente impossível comprar a ideia do filme se passar na Alemanha exatamente no período do Holocausto e ter um núcleo inteiramente se comunicando em inglês. Todo o elenco do filme falando em inglês deixou a obra muito superficial, genérica, sem aquele peso histórico que é sempre comprovado no livro.
O elenco em si também sofre com este caso da língua, pois cada atuação é diretamente impactada com este quesito, que a meu ver foi o ponto crucial em deixar esta adaptação completamente fora de ritmo com o principal propósito de toda a história.
Aquela cena, logo no início, onde todos estão saudando o comandante em sua casa com o famigerado "heil hitler", quando todos estão conversando em inglês e curiosamente o hino alemão é tocado em um piano ao fundo, é o ápice dessa bizarrice na questão do idioma dessa adaptação.
Pode ser que a grande maioria que até leu o livro não irá se importar com este ponto, ou até mesmo pra quem assiste o filme dublado. Porém, no meu conceito é um erro crucial que impacta diretamente em toda adaptação cinematográfica.
E como quase sempre acontece em adaptações literárias, o livro "O Menino do Pijama Listrado" é melhor que o filme. Porém, a cena final do filme é mais angustiante que no livro!
- 03/07/2018 ⭐⭐⭐⭐⭐
- 07/11/2024 ⭐⭐⭐
O Exorcista II: O Herege
2.1 313O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic) 1977
"Exorcista II: O Herege" é dirigido por John Boorman (seu último filme foi "Rainha e País", de 2014), escrito por William Goodhart e Rospo Pallenberg. É o segundo filme da série de filmes "O Exorcista" e a sequência direta de "O Exorcista" (1973), e é estrelado por Linda Blair, Richard Burton, Louise Fletcher, Max von Sydow, Kitty Winn, Paul Henreid e James Earl Jones. Foi o último filme a contar com a participação do veterano ator Paul Henreid (o lendário Victor Laszlo de Casablanca, de 1942).
O longa-metragem é ambientado quatro anos após "O Exorcista", onde temos a icônica Regan MacNeil (Linda Blair), agora com 16 anos, que no momento está vivendo em Nova Iorque. Regan é uma linda adolescente que ainda está se recuperando de sua possessão demoníaca anterior, e que aparentemente não tem lembranças dos acontecimentos do passado. Porém, ela volta a ouvir vozes e ter delírios, o que logo é intermediado por uma psicanalista, que tenta ajudá-la de alguma forma, mas novamente ela precisará de um exorcista para afastar de vez o demônio que parece nunca ter saído de seu corpo.
Preciso contextualizar:
Em novembro do ano passado eu li a obra-prima literária de William Peter Blatty lançado em 1971 - "O Exorcista". Como eu sempre soube e só comprovei após ter lido o livro, "O Exorcista" está na lista das maiores obras literárias do terror de todos os tempos. Uma obra categórica que impactou e assombrou com o seu poder em criar um verdadeiro embate entre a ciência e a fé, cuja história navega com bastante eficiência e relevância no ocultismo, no mistério, no suspense e no terror, e ainda cria todo um ambiente que desenvolve o drama, o trauma, a frustração e o sofrimento. O livro vai ainda mais além ao nos imergir em um verdadeiro terror psicológico, sobrenatural, algo que mexe com a nossa crença, com a nossa fé, que nos causa um desconforto mental e espiritual, pois esta obra não se trata apenas de uma simples história sobre o bem contra o mal, ou sobre Deus contra o Demônio, mas também sobre a renovação e o poder da fé.
Dito isto:
Logo após ter lido o livro eu fui rever este clássico que eu simplesmente o considero como o maior filme de terror da história do cinema. E como eu sempre faço com uma franquia que foi adaptada de um livro, após a leitura eu vou conferir todas às obras tiradas desse universo. Sendo assim eu já revisitei o clássico, a série de duas temporadas de 2016, e agora chegou a hora de conferir todos os filmes lançados cronologicamente após "O Exorcista".
Sobre a produção de "Exorcista II: O Herege":
Curioso que nem William Peter Blatty nem William Friedkin, o escritor/produtor e o diretor, respectivamente, do original "O Exorcista", tinham qualquer desejo de se envolverem em uma sequência do filme. Linda Blair concordou em reprisar seu papel de Regan MacNeil, mas se recusou a usar maquiagem de demônio (um duplo foi usado para as breves cenas de flashback retratando uma Regan demoníaca). Max von Sydow foi convencido por John Boorman a repetir o papel do Padre Merrin; ele inicialmente relutou em retornar por causa de suas preocupações com o impacto negativo do primeiro filme. Kitty Winn assinou contrato para reprisar o papel de Sharon Spencer nessa sequência depois que Ellen Burstyn se recusou terminantemente a retornar como Chris MacNeil.
Sobre o filme:
"Exorcista II" é mundialmente considerado como a pior sequência de um filme que é amplamente considerado como uma obra-prima da história do cinema. Algo como o melhor filme de terror de todos os tempos com uma continuação como o pior filme de terror de todos os tempos. É fato que o longa enfrentou vários problemas durante sua produção; como o caso do diretor ficar doente durante as gravações, problemas nos sets de filmagens que incluíam filmagens supersaturadas e necessidade de refilmagens, o caso do editor do filme original, John Merritt, que abandonou a produção e foi substituído por Tom Priestley. As atrizes Kitty Winn e Louise Fletcher sofreram de infecções na vesícula durante a produção e filmagens. O longa ainda enfrentou várias crises de agendas entre produtor, diretor e editor, tanto que o roteirista Rospo Pallenberg dirigiu grande parte do filme e também reescreveu, sendo até creditado como o diretor da segunda unidade e um "associado criativo" (praticamente um diretor em cada metade do filme).
Sendo bem sincero:
Eu sempre defendi que uma obra-prima é irretocável e autossuficiente, sem a menor necessidade de continuações e muito menos remakes, como é justamente o caso aqui. Portanto, antes mesmo de assistir "Exorcista II" eu já julgava que esta era aquela típica continuação completamente desnecessária, dispensável, inexplicável, injustificável e inaceitável, e eu não estava errado. O início do filme até soa promissor, quando temos aquela cena que traz um embate entre a crença do Padre e a defesa científica da psicanalista, algo como novamente o embate da possessão demoníaca contra a doença mental. Esta é uma cena interessante, quando temos em ação o trio formado por Regan MacNeil, o Padre Philip Lamon (Richard Burton) e a Dra. Gene Tuskin (Louise Fletcher). Por sinal, estes três são os únicos que ainda conseguem um pequeno destaque durante todo o filme.
Eu posso até considerar que inicialmente o roteiro começa no caminho certo, quando somos envolvidos pela presença da Regan agora como uma adolescente traumatizada pelos acontecimentos do seu passado, e que logo desperta a nossa curiosidade se ela realmente foi totalmente exorcizada do demônio. Dentro desse contexto temos novamente aquele velho embate entre a igreja e a ciência, cada um defendendo a sua tese e a sua crença. Dessa forma temos uma trama que inicia dentro da fantasia, da ficção científica, fazendo um contraponto com o suspense, o terror, e intensificando o drama dos personagens em questão. Portanto, mesmo considerando esta sequência como infundada e desnecessária, ela inicia no caminho certo, que é também o mesmo caminho do livro e do filme clássico. Porém, tudo que parecia estar indo bem logo desanda e cai vertiginosamente de qualidade e relevância.
É impressionante como o roteiro logo se perde, ficando muito claro que às ideias iniciais foram deixadas de lado e decidiram inventar outro roteiro, seguir por um outro caminho, saindo totalmente do suspense e do terror e mergulhando de cabeça em um delírio fictício, espalhafatoso, grotesco, sem pé e sem cabeça. De repente o roteiro parte do nada e vai para lugar nenhum, criando invenções mirabolantes para tentar explicar a nova presença demoníaca a partir de presenças de gafanhotos, viagem no tempo, flashbacks infundados, sonhos bizarros, fazendo uma grande mistura sem nenhum traço de ideia minimamente interessante ou coerente. Temos aqui uma trama completamente bagunçada, que não sabe para onde ir, a narrativa é totalmente perdida e não sabe que rumo quer tomar, a edição é toda capada com vários cortes abruptos e recolagem de cenas.
Está muito claro que na época decidiram fazer uma sequência do filme clássico unicamente para surfar no estrondoso sucesso do mesmo. Porém, se eles realmente quisessem usar o sucesso do filme clássico para lucrar (porque sinceramente eu não vejo outra explicação), que pelo menos fizessem as coisas direito, utilizassem a mesma equipe criativa, dessem margens para a coerência, que respeitassem a história e principalmente o legado do filme anterior. Mas nada disso acontece, porque nem a coerência em relação ao filme clássico eles souberam utilizar, já que ao tempo todo o roteiro defende somente a presença na história do passado do Padre Lankester Merrin (Max von Sydow) e sequer dá a mínima relevância ao Padre Damien Karras (Jason Miller), que foi o grande sacrificado na história para resolver a possessão da Regan.
Sobre o elenco:
É difícil achar algo bom sobre o elenco que mereça um destaque positivo, por mais que anteriormente eu relatei que a Linda Blair, o Richard Burton e a Louise Fletcher foram os únicos que ainda tentaram alguma coisa com seus respectivos personagens. A Linda Blair com uma idade entre os 17/18 anos era lindíssima, porém em questão de atuação e interpretação parecia muito forçado e parecia que sempre lhe faltava algo. No início do filme ela faz a adolescente inocente, perdida, uma pobre coitada, depois ela tenta demonstrar superioridade durante a possessão, porém fica extremamente forçado, caricato demais, principalmente naquela cena que ela tenta seduzir o Padre, cena esta que eu realmente senti uma vergonha alheia. Por essas e outras que a carreira da Linda Blair nunca decolou, ficando unicamente estigmatizada pela garotinha de "O Exorcista".
Richard Burton é aquele típico Padre perdido, desengonçado, todo atrapalhado, nitidamente ele sequer sabia o que ele estava fazendo ali.
Enquanto a Louise Fletcher faz a linha da Dra. inteligente, autêntica, safa, ardilosa, mas também logo se perde em sua própria personagem e fica muito canastrona.
O lendário ator Max von Sydow, que foi excelente no filme clássico, aqui teve pequenas participações como lembranças em forma de flashbacks.
Já a atriz Kitty Winn é mais uma que foi jogada no meio dessa salada maluca que foi o roteiro desse filme.
Tecnicamente o filme também deixa a desejar. Especificamente falando da trilha sonora, que eu fiquei boquiaberto quando descobri que o compositor era simplesmente o gênio Ennio Morricone. De fato temos uma trilha sonora até ok, que não se destaca mas também não compromete, é uma trilha sonora que cumpre o seu papel, porém, se estamos falando de Ennio Morricone, nem ele conseguiu salvar esta bomba de filme. A cinematografia é muito pobre, onde até a fotografia é ruim. A direção de arte é decente, compõe cenários até convincentes com a temática do filme. Já a edição do filme é pavorosa, é ruim que chega a doer.
Curiosidades e recepção crítica:
A direção de "Exorcista II" foi inicialmente oferecida a Stanley Kubrick, que recusou o projeto. Apenas depois John Boorman foi contactado para assumir a direção (Kubrick era gênio até para se livrar de bombas como esta). Mais curioso ainda é o fato que John Boorman chegou a se oferecer para dirigir "O Exorcista", mas terminou desistindo do projeto por considerar a história cruel demais (a história do primeiro é muito cruel e a do filme dele é babaca demais).
"Exorcista II" recebeu uma resposta fortemente negativa. Os relatórios indicaram que o filme inspirou risadas zombeteiras do público em sua estreia. O autor William Peter Blatty afirmou ter sido a primeira pessoa a começar a rir no cinema em que viu o filme. O diretor William Friedkin assistiu o filme e disse que era tão ruim quanto ver um acidente de trânsito na rua. Ele disse mais tarde que esta sequência diminuiu o valor do original e chamou-o de "a pior porcaria que já vi" e "uma maldita desgraça".
A Variety escreveu: "Exorcista II" não é tão bom quanto "O Exorcista". Na verdade não chega nem perto." O crítico de cinema da BBC, Mark Kermode, afirmou: " Exorcista II" é comprovadamente o pior filme já feito. Ele pegou o melhor filme já feito e o destruiu de uma forma que foi em um nível ridiculamente estúpida e em outro nível absolutamente imperdoável." Christopher Porterfield escreveu na Time Magazine : "A maioria das sequências oferece mais do mesmo. Esta oferece menos do mesmo. Mas o que resta é bobagem. Na verdade, a única síntese no filme é entre o ridículo e o involuntariamente cômico."
"Exorcista II" foi o maior lançamento diário da Warner Bros. O filme eventualmente arrecadou US$ 30.749.142 nos Estados Unidos, obtendo lucro, mas ainda assim decepcionante em comparação com o faturamento do filme original. Apesar de ganhar mais de US$ 30 milhões no mercado interno contra um orçamento de produção de US$ 14 milhões, a recepção negativa significou que o próximo filme da série "O Exorcista" não viria até "O Exorcista III" em 1990,13 anos depois.
A sequência da franquia de "O Exorcista" segue com "O Exorcista III", "O Exorcista - O Início" (2004), "Domínio: Prequela do Exorcista" (2005) e "O Exorcista - O Devoto" (2023).
Encerro reiterando que "Exorcista II: O Herege" é um filme que tem até um começo minimamente promissor, mas logo desanda vergonhosamente. Sendo assim eu tenho que ressaltar que o longa-metragem entra na lista das continuações de filmes clássicos que nunca deveriam ter existido.
- 24/08/2024
Bird Box Barcelona
2.5 204 Assista Agora🚨🚨🚨 ⚠ TEM SPOILERS ⚠ 🚨🚨🚨
Bird Box Barcelona - 2023
"Bird Box Barcelona" é um filme espanhol original Netflix escrito e dirigido por Álex e David Pastor (ambos diretores e roteiristas dos longas "Vírus", de 2009, e "A Casa", de 2020). O longa-metragem é considerado um spin-off do filme "Bird Box" de 2018, que por sua vez é uma adaptação do romance de mesmo nome de Josh Malerman de 2014. O filme segue Sebastián (Mario Casas) e sua filha Anna (Alejandra Howard) iniciando sua própria grande aventura de sobrevivência em Barcelona depois que uma entidade de origem misteriosa aniquila a população mundial, fazendo com que aqueles que a observam tirem suas vidas.
Primeiramente eu preciso citar que eu já li os dois livros de Josh Malerman, "Bird Box" e "Malorie", e já assisti a adaptação da Netflix lá em dezembro de 2018 (e revi recentemente após ter terminado a leitura dos livros). Como já é de praxe, os livros que compõem o universo de "Bird Box" são muito bons, trazem histórias muito boas e são muito bem narrados. "Bird Box" por exemplo traz uma história envolvente, obscura, sombria, mórbida, pois estamos falando de um suspense onde muita das vezes se torna um terror psicológico, sobrenatural, sempre envolto no mistério, no medo, na agonia e na angustia. Já em "Malorie" não temos o mesmo suspense e o mesmo pânico do livro anterior, pois a história em si é mais pautada no acolhimento familiar, no drama familiar, que envolve justamente a Malorie e seus dois filhos já adolescentes. Porém, o que deixa os dois livros muito bons é o fato da história do primeiro ser uma continuação direta no segundo e ambas se interligarem.
Já o filme da Susanne Bier obviamente é adaptado do primeiro livro de Josh Malerman, que tem ali a sua essência, a sua ideia, a sua premissa, porém o filme segue por um outro caminho, tomando outro rumo e modificando grande parte da história em relação ao livro. Por mais que muitas coisas do livro foi deixado de fora no filme, o que naturalmente sempre acontece na maioria das adaptações. Porém, o filme conseguiu contar a história do livro, conseguiu entregar a proposta do livro, conseguiu transmitir um pouco do suspense, do mistério e do terror presentes no livro.
Obviamente por já ter lido os livros e já ter assistido ao filme, seria natural que eu me interessasse em assistir esta nova versão espanhola de "Bird Box", que chega ao catálogo da Netflix quase cinco anos depois da estreia daquele que foi um sucesso com a Sandra Bullock.
"Bird Box Barcelona" é um filme independente de todo o universo anterior, ou seja, não é uma adaptação e sequer segue algum dos livros de Josh Malerman, e não é uma continuação do filme de 2018. A única coisa que interliga a história de "Bird Box Barcelona" é a sua temática, que obviamente é pautada no suspense e terror pós-apocalíptico presentes nesse universo. Outro ponto é o fato que nessa versão temos uma variação de localidade, cenários e línguas, e nos mostra como o caos estava instalado em todo o planeta atingindo também a Europa e não somente nos EUA. Porém, vale ressaltar que "Bird Box Barcelona" se torna mais interessante se você viu o primeiro filme, apesar de não haver nenhuma conexão direta com a história da personagem de Sandra Bullock, mas valerá pela experiência que você vai adquirir desse universo.
Quando eu decidi assistir "Bird Box Barcelona" eu já fui com zero expectativas, dessa forma aconteça o que acontecesse eu não iria me decepcionar, já que eu não esperava nada do filme, e foi dito e feito. Temos aqui mais um daquele velho caso de filme completamente desnecessário, infundado, dispensável, inexplicável, injustificável e inaceitável. O longa tenta recriar a mesma história só que dessa vez em um outro território com novos personagens, novos acontecimentos, apostando em um novo roteiro que irá diversificar uma parte da história que já conhecemos. Dessa vez a ameaça não é somente as criaturas que não podem serem vistas, mas temos novas variações que são denominadas como videntes, que são aquelas pessoas que já conseguiram olhar para as criaturas mas não enlouqueceram ao ponto de se suicidarem (como normalmente acontece). Aqueles que já viram as criaturas e sobreviveram são chamados de videntes, sendo assim esses videntes acreditam que, ao obrigarem as pessoas que ainda não viram as criaturas a verem, estão salvando suas almas.
Esta é a brilhante ideia que este roteiro decidiu se apegar para nos contar este spin-off do universo de "Bird Box". De acordo com a explicação dada sobre o que são esses videntes, temos o personagem Sebastián, que é um desses videntes. Sebastián é uma espécie de emissário das criaturas para fazer as pessoas olharem para elas e se matarem, e cada vez que ele mostra as criaturas a uma pessoa, quando elas se matam, ele vê uma luz saindo de dentro dela e subindo para o céu.
Logo no início do filme temos uma cena em que o Sebastián é atacado por uma gangue de ladrões cegos, e logo após o ataque ele pensa em revidar contra aquela gangue. No entanto, sua filha Anna o faz mudar de ideia, o que inicialmente nos faz pensar que ela agiu assim unicamente pensando em proteger o pai. Com o passar do tempo nos é revelado que a esposa de Sebastián havia morrido em um acidente de carro logo no começo desse apocalipse, e sua filha Anna havia sido capturada pelo Padre Esteban (Leonardo Sbaraglia), o líder dos videntes, que força Anna a ver as criaturas. Diante dessa situação a filha de Sebastián tira a própria vida se jogando de cima de um prédio e ele por sua vez, passa a enxergar as criaturas como anjos. Sendo assim, desde o início só o Sebastián conseguia ver a Anna, já que ela estava morta e era uma das criaturas que usava o Sebastián para atrair as próximas vítimas para esse sistema de purificação de almas.
Anna coloca o Sebastián como um pastor de libertação das ovelhas perdidas na missão de purificação de suas almas. Ele é o libertador das almas pecadoras impuras, e quando elas se matam elas estão livres e perdoadas. E o mais bizarro foi a forma que usaram para convencer o Sebastián nessa sua missão de salvação, que assim ele teria a oportunidade de se reunir outra vez com a sua família que havia morrido. Porém, ele logo começa a desconfiar de sua missão e se questionar se essas criaturas são mesmo anjos. Por fim o Sebastián se questiona se ele é realmente o Pastor ou o lobo, o que o faz entrar em uma crise de consciência após ele ver o Octavio (Diego Calva) tirando sua própria vida e aquela famosa luz não sair do corpo dele. Sendo assim ele decidi ajudar a Claire (Georgina Campbell) e a Sofia (Naila Schuberth) a chegarem por meio do teleférico ao Montjuïc, um local de sobreviventes monitorados pelo governo, e também é o lugar para onde a mãe de Sofia pretendia leva-lá antes de se separar dela.
No final do filme vemos que os sobreviventes de Montjuïc estão coletando sangue de videntes e inserindo em ratos de laboratório para criar uma vacina contra os efeitos que as criaturas tem nos seres humanos. Ou seja, é aquele famoso final clichê de filmes pós-apocalípticos, que mistura "Bird Box" com "Eu Sou A Lenda" (2007).
Sendo bem sincero, o filme "Bird Box" só fez o sucesso que fez em sua época unicamente pela presença da protagonista que era ninguém menos que a Sandra Bullock, que é uma atriz extremamente conhecida e renomada (além de outros nomes do elenco que também são conhecidos e renomados). Agora uma coisa que eu não entendo, é o fato do filme ter feito o sucesso que fez, com base em críticas positivas e negativas, e não pegarem o segundo livro como base de adaptação para uma sequência direta do primeiro filme, o que seria o certo a se fazer, uma vez que ainda cogitavam uma sequência para o universo de "Bird Box". A Netflix simplesmente decidi abandonar esta opção, que seria a mais inteligente, e trazer um spin-off do universo de "Bird Box" em Barcelona com um elenco mais desconhecido, em relação ao elenco do primeiro filme.
Sinceramente eu não sei o que se passa na cabeça dos produtores da Netflix, para decidir idealizar um novo filme de "Bird Box" totalmente fora dos moldes do seu antecessor. Decidiram não contratar a Sandra Bullock novamente para dar continuidade para sua personagem Malorie dentro de uma adaptação do seu próprio livro que leva o seu nome, e projetaram um "Bird Box" em Barcelona agora com o protagonista sendo o ator espanhol Mário Casas ("Um Contratempo", de 2016).
Apesar de ter gostado bastante dos dois livros do universo de "Bird Box", e reconhecer que a adaptação de 2018 não é inteiramente ruim; este "Bird Box Barcelona" é simplesmente horrível, péssimo, grotesco, pavoroso, que entra na lista daquelas famosas bombas que só a Netflix consegue projetar. Um filme sem pé e sem cabeça, que parte do nada para lugar nenhum, com um roteiro absurdamente infundado, estúpido, incoerente, mal escrito, mal pensado, mal idealizado, que tenta surpreender ao trazer esta espécie de seita para a história na tentativa de causar impacto. O roteiro de "Bird Box Barcelona" é um roteiro completamente falho, sem substância, artificial, genérico, clichê, vazio, sem fundamento, onde incialmente temos um personagem que facilmente podemos encarar como o vilão daquela história, mas depois por mais que o roteiro queira te enfiar goela abaixo os propósitos desse personagem para ele estar agindo assim, você ainda não consegue comprar a ideia do roteiro e ainda termina o considerando o vilão da história.
"Bird Box Barcelona" não funciona como terror, não funciona como suspense, não funciona como drama, não funciona como mistério, não funciona como um sci-fi, não consegue te levar ao terro psicológico, não te deixa incomodado. Ao longo do filme ele não te causa nenhuma reação, você pouco está ligando para a história, para os personagens, por sinal os personagens tem uma alta carga de burrice e estupidez. Sem falar que aqui é aquele caso em que você não cria nenhuma empatia por ninguém, não simpatiza por ninguém, não se importa por ninguém (ao contrário do filme de 2018, onde em todos os momentos eu me pegava sufocado e preocupado com as crianças da Malorie), se todo elenco morrer você irá esboçar zero reação, por mais que ainda tenha a personagem Sofia.
Não tenho absolutamente nada a destacar do elenco de "Bird Box Barcelona", muito pelo contrário, eu considero um elenco péssimo, genérico, que não entregaram nada em questão de atuação. E olha que esta é uma temática que poderia até facilitar uma boa interpretação dramática mais voltada para o terror. Porém, nem assim nenhum dos atores e atrizes se sobressaíram que mereçam um pequeno destaque aqui, pois sinceramente me pareciam mais atuações automáticas. O ator Mário Casas foi o que mais se mostrou esforçado, e teve algumas cenas até interessantes aqui e acolá, mas como um todo eu achei a sua atuação muito caricata. Mário Casas é um bom ator, mas este personagem é muito ruim.
Tecnicamente até dá para destacar os cenários pós-apocalípticos, que ficaram muito bons e deu toda a essência que o longa precisava para uma história dentro dessa temática. O mesmo vale para a fotografia, que também conseguiu se destacar. Não posso dizer o mesmo da trilha sonora, já que eu achei bem genérica. A direção dos irmãos Pastor é bem modesta, acredito que faltou um pouco mais de ousadia para eles. A montagem e edição do filme é muito sofrível, pois a forma como idealizaram a mescla entre fatos presentes e fatos em flashbacks ficou extremamente ruim. E o longa-metragem ainda contou com a Susanne Bier (diretora do primeiro filme) na produção, juntamente com o autor Josh Malerman, que mesmo que o filme não tenha seguido o seu livro, mas ele participou do desenvolvimento do roteiro.
Por fim: "Bird Box Barcelona" é um filme completamente desnecessário e dispensável, que sequer deveria ter existido. Acredito que a Netflix quis lucrar mais um pouco dessa fonte e optou por reviver este universo com uma produção completamente ridícula e pavorosa. Porém, vindo da Netflix podemos esperar produções desse nível de qualidade cinematográfica, isso já não me surpreende mais. Agora é aguardar se vão decidir adaptar o livro "Malorie".
Eu encerro afirmando que "Bird Box Barcelona" é tão ruim, tão falho, tão grotesco, tão desnecessário, ao ponto de você considerar o primeiro filme como uma obra-prima da adaptação literária, caso você queira compará-lo com este aqui.
- 19/07/2024
Bird Box
3.4 2,3K Assista AgoraBird Box - 2018
Caixa de Pássaros é um filme original Netflix baseado na obra escrita por Josh Malerman em 2014. Dirigido por Susanne Bier (Serena), roteirizado por Eric Heisserer (A Chegada) e estrelado por Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, BD Wong, Sarah Paulson, Colson Baker e John Malkovich.
O longa nos leva para um mundo pós-apocalíptico onde Malorie (Sandra Bullock) e seus dois filhos buscam refúgio atravessando um rio em um barco. Em todos os momentos eles precisam ficar com os olhos vendados, porque com um simples olhar as pessoas ficam extremamente violentas sendo levadas a cometerem suicídios.
Eu fiquei bastante empolgado quando comecei acompanhar o anúncio do filme, juntamente com os trailers e até os cartazes expostos nos relógios da cidade. Tudo me levava a acreditar que poderia ser um ótimo thriller de terror e suspense, e lendo a sinopse esse fato ficava cada vez mais em evidência. O longa tem uma premissa muito boa, já começa despertando a nossa curiosidade e nos instigando a querer respostas sobre o que de fato está acontecendo, tinha todos os ingredientes necessários para se tornar um ótimo filme e tinha tudo para dar certo, porém não deu.
Eu não li o livro e pelo o que eu vi em alguns comentários, o livro parece ser melhor que o filme (ou talvez não), e de certa forma eu já esperava por isso. Assim como no filme "Serena", me parece que a diretora Susanne Bier não é muito boa com adaptações. Bird Box cria um clima interessante para sua história, nos conduz para um ambiente intrigante, cuja fotografia funciona com perfeição sobre uma floresta acinzentada e densa pela névoa. E assim como no ótimo filme "Um Lugar Silencioso", que não se podia fazer barulhos, aqui não se pode olhar, dessa forma que o roteiro cria um situação bastante interessante, aguçando a audição e o tato, ou seja, as únicas armas para a sobrevivência.
Assistindo Bird Box fica impossível não associá-lo com o péssimo filme do Shyamalan "Fim dos Tempos", onde também aconteciam mortes gratuitas pra tentar impactar o público. O fato de não ter uma explicação plausível sobre o que aconteceu no planeta e o que, ou quem leva as pessoas a cometerem tais atos não me incomodou, mas não me entregou o que eu esperava. O filme parte do nada para lugar nenhum, sem falar que todo clímax se perde ao ficar entrando em constantes flashbacks pra tentar explicar toda história. Foi algo que me incomodou e subestimou a minha inteligência, sem falar que todo elenco foi reunido e jogados dentro daquela casa pra simplesmente morrerem, totalmente clichê.
O roteiro de Eric Heisserer é mastigado demais, explicadinho demais, de certa forma até sem necessidades. É outro ponto que Susanne Bier falha, ao tentar se explicar toda hora, muita das vezes até repetindo cenas e falas, como se ela e o roteirista duvidassem da nossa capacidade de inteligência, nos tirando a graça da surpresa. Podemos associar como se aquelas criaturas (ou o que quer que seja) fossem algum tipo de alegorias a algum problema pelo qual as pessoas estavam passando no momento, como a depressão, ou alguma outra do tipo. Mas feito de uma forma muita vaga, muito rasa, sem coesão, sem nos fazer se importar com as mortes, sem criarmos empatia por ninguém, nem mesmo a própria Sandra Bullock consegue arrancar esses sentimentos de nós.
Outro ponto que me incomodou demais em Bird Box foi o elenco, completamente e totalmente desnecessário! E olha que temos ótimos nomes, mas nenhum faz diferença, sendo que todos foram jogados lá para unicamente morrerem, como se por algum motivo isso fosse nos impressionar. Temos a Sarah Paulson, uma ótima atriz que nos entregou uma atuação estupenda em "12 Anos de Escravidão", mas aqui ela é totalmente mal aproveitada, totalmente aleatória, sem falar que o tempo de tela dela foi o que mais me impressionou. O grande John Malkovich é outro que chega a ser cômico a sua participação em Bird Box, sem necessidade nenhuma, outro completamente mal aproveitado. Assim como a Jacki Weaver, o Lil Rel Howery, a Danielle Macdonald e até o rapper americano Machine Gun Kelly, todos mal aproveitados e mal escritos por culpa do péssimo roteiro. Talvez o único que conseguiu levar seu personagem mais adiante, criando até um certo vínculo com a Sandra Bullock, foi o ator Trevante Rhodes (Moonlight: Sob a Luz do Luar), mas também não podemos esperar grandes coisas.
Sandra Bullock está bastante esforçada no filme, podemos ver o quanto ela se doa para a sua personagem, em até certo ponto fica muito interessante, ela consegue nos entregar uma boa atuação. Contracenar com crianças de 5 anos e em grande parte do tempo com os olhos vendados não deve ser fácil, ainda mais tendo que tomar uma postura mais rígida e mais dura em algumas cenas. Como a própria Sandra Bullock destacou em entrevistas em sua recente passagem pelo Brasil, colocando a sua própria experiência como mãe de duas crianças pequenas. Na minha opinião Sandra Bullock entrega um bom trabalho, nada fora do comum, ou surpreendente, algo que já não tenhamos visto, mas é a única que ainda se salva. Sem falar nas duas crianças fofas, que sim, por elas criamos empatia e torcemos o tempo todo.
Mais uma vez eu me decepciono com um filme da Susanne Bier, acho que criei expectativas demais e no final o que sobrou não foi o resultado esperado. Sem falar que o próprio final do filme é outro ponto controverso, não gostei da forma tão otimista e amorosa como foi entregue - tantas mortes pra nada?! [22/12/2018]
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⚠ TEM SPOILERS DO LIVRO E DO FILME ⚠
Bem, na época em que escrevi este texto acima eu não tinha lido o livro e toda minha opinião foi unicamente baseada no filme.
Revendo o filme hoje e já ter lido o livro, minha opinião mudou em partes:
Sobre o livro:
É impressionante como a história é boa, é bem narrada, é muito envolvente, com uma leitura gostosa, fluida, que te prende em cada página aguçando a sua vontade de ir cada vez mais além. Naturalmente eu já conhecia a história (ou a forma como ela foi adaptada), mas nem por isso a própria história soa desinteressante. Muito pelo contrário, o mistério está muito bem presente, assim como o suspense, o medo, a agonia, a angustia, pois sofremos juntos da Malorie tudo que ela passa e enfrenta em sua verdadeira jornada em busca de sobrevivência em um mudo caótico e totalmente desconhecido.
Sobre a adaptação cinematográfica:
O filme obviamente é adaptado do livro de Josh Malerman, tem ali a sua essência, a sua ideia, a sua premissa, porém o filme segue por um outro caminho, modificando grande parte da história em relação ao livro.
Muita coisa (muita mesmo) do livro foi deixado de fora, o que naturalmente sempre acontece na maioria das adaptações. Porém, o que me incomodou é que o filme usa muito a sua liberdade criativa e modifica pontos cruciais da história em relação ao livro. Nesse ponto eu discordo veementemente dos responsáveis pela adaptação, porque uma coisa é você usar a sua liberdade criativa e modificar alguns pontos durante a história, outra coisa é você mudar a trajetória da história, de alguns personagens, retirar personagens que no livro é extremamente importante no contexto, e foi tudo isso que aconteceu aqui.
O personagem Dom, que no livro é extremamente importante na virada da história em relação ao Gary (Tom Hollander), no filme ele simplesmente não existe, o Gary tem as suas próprias atitudes e decisões. Aqui eu já considero um erro grotesco na adaptação. O caso do personagem Douglas (John Malkovich), que no filme ele está vivo o tempo todo dentro da casa, tirando assim o grande impacto que a sua história teria sobre os sobreviventes que ali estavam, já que no livro ele já estava morto e tinha toda uma história por trás. O Gary mesmo é totalmente diferente do livro, seu personagem no filme não faz o menor sentido, pois ficou faltando a explicação do porque ele agia daquela forma, já que no livro isso tudo é muito bem explicado.
A parte final em que o Tom (Trevante Rhodes) sobrevive e segue com a Malorie e as crianças não existe no livro, ele é morto na casa junto com os outros. Esta parte foi umas das várias mudanças em relação ao livro, porém aqui eu já achei interessante, pois deu mais coragem e ambição para a Malorie seguir acreditando na possível sobrevivência com as crianças.
Outro ponto:
No meu texto acima eu tinha mencionado o elenco estrelado que foram mal utilizados e jogados na casa unicamente para morrer. Até então eu não sabia que grande parte das suas trajetórias são tiradas do livro, portanto eles realmente estão ali unicamente para morrerem mesmo. Agora o que eu acho desnecessário, é o fato de tentarem comprar o nosso interesse com nomes famosos dentro do cenário hollywoodiano, onde se encaixa até a própria Sandra Bullock. Mas ok né, isso já é costumeiro quando se trata de vender um material cinematográfico até então desconhecido.
No geral eu prefiro a forma como a história é contada no livro, até por obviamente ser mais detalhada e abrangente. Por sinal, a história só é muito boa porque é muito bem contada em cada página. Onde eu acho um acerto a forma como foi diversificada ambas às histórias mesclando passado e presente. O livro também testa o poder da sua fé, da sua crença e da sua ambição pela sobrevivência. Além de levantar vários questionamentos durante toda a leitura; questionamentos esses como: durante toda a minha leitura eu ficava pensando naquela odisseia da Malorie. Será que valia realmente todo aquele sacrifício para se manter vivo em um mundo em que você sabe que nunca mais será o mesmo? Até que ponto conseguimos manter a nossa mente saudável, lúcida, para não entrarmos em um estado de loucura e perda da sanidade? No que se apegaríamos? Em quem acreditaríamos? Ainda existe um Deus?
E aqui eu já acho um grande acerto tanto do livro quanto do filme, em não revelar o que aconteceu e quem são as criaturas, pois tudo envolto em nosso imaginário soa ainda mais temível e desconfortante.
A parte final do filme, em que a Malorie se perde das crianças na floresta e que tem aquela voz pedindo para as crianças tirarem a venda, também não existe no livro. Porém, eu achei uma parte bem feita de acordo com todo o contexto da história do filme (não do livro). Nessa cena a Malorie expressa todo o seu desespero de mãe e faz um belo discurso motivacional de sobrevivência para vida baseado no que ela e as próprias crianças viveram ao lado do Tom. Também gostei dessa mudança.
Considerações finais do livro:
O livro é excelente, tem uma história muito boa, muito bem contada, que nos faz sentir na pele toda a trajetória de sobrevivência da Malorie e suas crianças. Sem falar que a história no livro é muito mais pesada, com cenas muito mais impactantes e sufocantes. Posso destacar a cena do parto da Malorie e da Olympia, que é extremamente agonizante, daquelas que incomoda, que você chega a parar por um momento a leitura para respirar. Todos os acontecimentos durante e após esta cena são muito tristes e dolorosos.
Considerações finais do filme:
Hoje eu mudei bastante a minha opinião em relação ao que eu escrevi no texto de 2018 acima. Hoje, após ter lido o livro, eu não considero o filme como essa tragédia toda que eu havia considerado. Por mais que a adaptação seja muito falha e erre bastante em suas mudanças, eu acho que no geral o filme conseguiu contar a história do livro, conseguiu entregar a proposta do livro, conseguiu transmitir um pouco do suspense, do mistério e do terror do livro.
Dessa forma, antes eu considerava este filme como horrível, hoje eu já o considero como bom e aceitável dentro da sua proposta.
[22/12/2018]⭐⭐
[03/05/2024] ⭐⭐⭐
A Sociedade da Neve
4.2 790 Assista AgoraA Sociedade da Neve (Inglês: Society of the Snow / Espanhol: La Sociedad de la Nieve) 2023
"A Sociedade da Neve" é dirigido por JA Bayona e baseado no livro de mesmo nome de Pablo Vierci de 2009, que detalha a verdadeira história do trágico acontecimento da seleção uruguaia de Rugby.
Em 13 de outubro de 1972, o Voo 571 da Força Aérea Uruguaia, fretado por um time uruguaio de futebol de Rugby e seus torcedores para levá-los a um jogo em Santiago, no Chile, cai em uma geleira no coração da Cordilheira dos Andes. Dos 45 passageiros a bordo, 29 sobreviveram ao acidente inicial, embora mais morressem devido a ferimentos, doenças e uma avalanche nas semanas seguintes. Presos num dos ambientes mais inacessíveis e hostis do planeta, os sobreviventes são obrigados a recorrer ao canibalismo de sobrevivência daqueles que já morreram para se manterem vivos. No entanto, em vez de se voltarem uns contra os outros, os sobreviventes recorrem ao trabalho cooperativo em equipe que aprenderam através do rugby e da fé espiritual, para escapar das montanhas.
O diretor espanhol JA Bayona, que recentemente dirigiu episódios da série "O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder", ficou conhecido cinematograficamente pelos seus dois primeiros trabalhos: "O Orfanato" (2007), um bom filme espanhol que mistura elementos de fantasia e terror, e "O Impossível" (2012), um drama baseado em uma história real comovente, tocante e profundo. Dessa vez Bayona traz "A Sociedade da Neve", uma produção espanhola original Netflix, que conta com um elenco que na sua grande maioria é composto por atores novatos argentinos e uruguaios. Um ponto muito curioso, é o fato do autor uruguaio Pablo Vierci conhecer alguns dos 16 sobreviventes reais do caso, o que o motivou ainda mais para escrever o livro documentando os relatos ocorridos.
Ao longo dos anos esta história real do trágico voo 571 já foi adaptada em outras produções, como "Sobreviventes dos Andes" (1976), "Vivos" (1993) e "I Am Alive: Surviving the Andes Plane Crash" (2010). Em "A Sociedade da Neve", Bayona optou por relatar os acontecimentos fazendo uma mescla como um documentário inserido em um filme. Tanto que toda a equipe de produção gravaram mais de 100 horas de entrevistas com todos os sobreviventes ainda vivos. Por outro lado, os atores do longa tiveram contato direto com os sobreviventes e as famílias das vítimas. A produção teve todo um estudo sobre o local do acidente, realizando parte das filmagens exatamente no local.
"A Sociedade da Neve" se destaca pela excelente direção de Bayona, que soube extrair os detalhes mais minuciosos e profundos do caso e nos passar com uma veracidade impecável. Sem falar que todo o seu trabalho de câmeras é muito bem executado, onde ele sempre buscava o foco nos rostos e nas expressões do elenco em cena, aliado com os mais variados diálogos e monólogos, que nos dava a dimensão e a profundidade daqueles acontecimentos. O trabalho de maquiagem é completamente absurdo e corrobora com toda a grandeza da direção, já que ao longo da trama somos impactados pela degradação física dos personagens, o que vai de encontro com uma aparência desgastada, maltratada, judiada, onde todos ali iam definhando com o passar do tempo, e tudo que víamos acontecer era grande parte por méritos da direção de maquiagem e dos efeitos especiais. E com um destaque muito justo para David Martí e Montse Ribé, maquiadores de efeitos especiais vencedores do Oscar por "O Labirinto do Fauno" (2006). Juntos eles criaram próteses de cadáveres, cortes, feridas, tudo que nos dava a dimensão e a proporção do que estava ocorrendo com cada um presente naquele local.
Aliado com todas essas qualidades técnicas que eu já destaquei, temos uma fotografia que é absurda, com uma qualidade extremamente profissional e que destacava em cada cena apresentada. O interessante aqui é o fato da fotografia fazer um contraponto entre o colorido e o cinza; sendo o colorido destacando os momentos de competividade do time, onde podíamos notar um sentimento de felicidade e esperança nos rostos de cada um. Por outro lado temos o cinza, que se destaca justamente a partir do momento da queda do avião, onde transcendia o sofrimento e o limite da fé, e mais uma vez de esperança. A direção de arte também merece ser enaltecida, pois é a partir dela que temos aqueles gigantescos cenários de neves, onde nos abalava profundamente quando a câmera ia se distanciando e íamos tomando conhecimento do local em que eles estavam. A trilha sonora é bem pontual com cada cenário e cada acontecimento, sempre diversificando a melodia de acordo com a situação que o grupo estava enfrentando. A trilha sonora é a grande responsável em unir ali lado a lado a fé e o desespero.
Falando sobre o filme:
Temos aqui um dos filmes dramáticos de sobrevivência que mais me impactou nos últimos anos. O diretor Bayona já conseguiu este mesmo feito com "O Impossível", que foi um filme que me deixou profundamente impactado, entristecido, chateado, comovido, que me deixou uma semana pensando e refletindo sobre tudo que eu havia presenciado. Em "A Sociedade da Neve" Bayona põe em pauta novamente o poder da fé, da esperança, da motivação, da luta pela sobrevivência, da crença, da determinação, da coragem, fazendo um contraponto com o desespero, a agonia, a desolação, a crueldade, a tristeza, a comoção, nos despertando os mais profundos sentimentos de compaixão, empatia, carinho, amor pelo próximo, nos fazendo sentir na pele a dor excessiva da extremidade enfrentada por cada um dos sobreviventes.
"A Sociedade da Neve" é aquele típico caso do filme documentário que você já conhece a história, já sabe como tudo terminou, já que houve sobreviventes, mas mesmo assim você se impressiona, pois o nível de adrenalina é muito alto de acordo com cada acontecimento. Eu não conhecia a história real à fundo, só tinha ouvido alguns relatos a respeito do caso, e o filme conseguiu me deixar muito mal, mexeu muito com meus sentimentos, me despertou um profundo sentimento de tristeza, compaixão, agonia, tensão, dor, por presenciar cenas tão cruéis, tão deploráveis, tão bárbaras, tão brutais, tão excessivas, com uma extremidade dolorida, daquelas que parte o seu coração e te faz refletir por dias.
O longa-metragem trabalha muito bem a mente humana e seus extremos quando exigida, pois estamos diante de um cenário completamente inóspito, cruel, sem qualquer possibilidade de sobrevivência, e ao longo dos dias eles vão sendo confrontados com as consequências desse local, que é o frio, a fome, a sede, o medo da morte, o desespero pela sobrevivência e a agonia pelo resgate. Nesse ponto temos um estudo sobre o poder da fé, da esperança, da misericórdia, a crença em um Deus, os limites do corpo humano. Até que ponto o seu corpo pode suportar a fome, a sede e o frio? Até que ponto você consegue manter a sua mente saudável e lúcida para não mergulhar na loucura e no extremismo? Quais os limites que você consegue enfrentar para se manter vivo na esperança por sobrevivência? Até que ponto você consegue pensar sobre a prática do canibalismo para se manter vivo e resistente? Já que seu corpo vai acabar exigindo esses nutrientes para sobreviver. São perguntas que em todos os momentos estão vagando pela mente de cada um ali, na medida que nós espectadores também estamos nos fazendo essas mesmas perguntas se nós estivéssemos diante daquela situação.
Todos esses sentimentos citados são despertados a partir da composição de cenas absurdamente bem feitas e bem elaboradas. Pois as cenas de "A Sociedade da Neve" foram feitas com um alto nível de qualidade, onde nos proporcionava sentir a dor, o desespero e a agonia de tal acontecimento.
- Vou começar citando a cena da queda do avião, que pra mim já é uma das grandes cenas de todo o filme. A partir do momento em que o avião se choca com a montanha de gelo, onde temos o impacto com o bico do avião, que logo ele vai se destroçando e rompendo o solo em uma altíssima velocidade. Nessa cena eu fiquei em choque e boquiaberto, ao observar aquele impacto dos restos do avião com a neve, fazendo uma pressão para frente onde o impacto vinha de trás para frente fazendo as pessoas serem esmagadas uma pelas outras com os bancos do avião.
- Temos aquela cena em que os sobreviventes vão retirando os corpos de dentro dos restos do avião, e ao lado da tela vai aparecendo o nome e a idade de cada um.
- A cena em que eles discutem a possibilidade da prática do canibalismo, que por si só já é uma cena controversa e reflexiva, de acordo com a crença de cada um, é claro. Especificamente nessa cena temos um dos melhores diálogos de todo o filme, quando o grupo discute sobre praticar o canibalismo ou não, já que ali era um caso de extremismo pela sobrevivência. Muitos ali tinham a dificuldade em aceitar a prática pela falta da liberação do dono do corpo, onde mais tarde temos a cena onde cada um diz liberar o seu corpo para alimentar os sobreviventes - que cena pesada e incomoda!
- Outra cena que me impactou bastante, foi a cena da tempestade de neve, onde soterrou todos os sobreviventes, obrigando eles a passarem 4 dias soterrados pela neve - outra cena absurda!
- E não posso deixar de mencionar aquela cena onde eles conseguem fazer funcionar um rádio, quando eles tem a notícia que as buscas pelos os sobreviventes do desastre foram encerradas. É uma cena impressionante, que dilacera o seu coração, pois você vê aquelas pessoas entrando em um estado de completa loucura e desespero - mais uma cena que me deu um nó na garganta.
Sobre o elenco:
O elenco de "A Sociedade da Neve" é muito bom, muito competente, onde cada um entregou atuações certeiras, condizentes com o personagem e as situações, mesmo que em grande maioria o elenco era composto por novatos.
Os maiores destaques foram Enzo Vogrincic Roldán que fez o Numa Turcatti, Matías Recalt que fez o Roberto Canessa e o Agustín Pardella que fez o Nando Parrado.
Nem preciso destacar todo o elenco, pois cada um fez muito bem a sua parte, onde contribuíram muito bem com a representação daquele momento desesperador e aterrorizante.
"A Sociedade da Neve" ganhou 12 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor no Prêmio Goya. No Oscar, foi indicado para Melhor Longa-Metragem Internacional, representando a Espanha, e Melhor Maquiagem e Penteado.
O longa alcançou a lista dos 10 melhores filmes não ingleses da Netflix, sendo que nos primeiros dias, teve 51 milhões de visualizações no streaming.
No Rotten Tomatoes, 90% das 151 resenhas dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,8/10. Já no Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 72 em 100, com base em 33 críticos.
Por fim: "A Sociedade da Neve" é um belíssimo trabalho de JA Bayona, que traz uma habilidade técnica magistral para apoiar sua história de tragédia da vida real. É um filme triste, tocante, profundo, desconfortante, incomodo, comovente, que vai mexer com a sua mente e principalmente com o seu coração. Mas por outro lado é também um filme muito reflexivo, preponderante, contundente, importante, que nos exemplifica o poder da fé, da força, da resistência, da perseverança, da esperança, do equilíbrio da mente, da busca incansável pela sobrevivência, que nos mostra que basicamente não somos nada diante de situações extremas e desoladoras.
[16/03/2024]
Segredos de um Escândalo
3.4 401 Assista AgoraSegredos de um Escândalo (May December) 2023
"Segredos de um Escândalo" (ou "Maio Dezembro", sinceramente não entendi essa versão brasileira do título) é dirigido por Todd Haynes ("Longe do Paraíso", de 2002) a partir de um roteiro de Samy Burch, baseado em uma história de Burch e Alex Mechanik. A Netflix adquiriu os direitos de distribuição na América do Norte. O longa é estrelado por Natalie Portman como uma atriz que viaja para conhecer e estudar a vida da polêmica Gracie (Julianne Moore) que ela interpretará em um filme.
De acordo com as minhas pesquisas:
O filme é inspirado no caso real sobre a vida de Mary Kay Letourneau, uma mulher de 36 anos que aliciou e estuprou um pré-adolescente de apenas 13 anos em 1996. Na época, ela era professora de Vili Fualaau, e o caso resultou na prisão de Mary, que ficou seis anos na cadeia. Quando Mary conheceu Vili, ele era apenas uma criança e ela já era casada com quatro filhos, além de ser uma professora conceituada. Mary dizia que tudo começou porque ele a perseguia, e ela teria apenas consentido com o caso. No início, a relação foi mantida em segredo, até que tudo veio à tona. Em meio a todo o escândalo, nenhum dos envolvidos tratou a relação como um crime, nem a abusadora e nem a vítima. Em entrevistas para a televisão, o casal protagonizava declarações bizarras, principalmente Mary, quando eram questionados por repórteres sobre a diferença de idade. Mary nunca assumiu que cometeu um crime, tanto que permaneceu em uma relação com Vili e eles chegaram a se casar. O casamento durou 12 anos, com o divórcio acontecendo em 2017, e juntos eles tiveram duas filhas. Mary morreu em 2020 aos 58 anos.
Sobre o filme:
"Segredos de um Escândalo" traz uma história chocante e muito interessante, e desperta ainda mais a nossa curiosidade quando descobrimos que tudo foi baseado em uma bizarra história real. Logo vamos entendendo toda a história e encaixando cada personagem nela. É interessante notar que o escândalo real acontece nos anos 90, mas no filme estamos praticamente duas décadas depois, ali por volta do ano de 2015. Partindo desse ponto, temos atualmente a Gracie Atherton-Yoo que hoje é casada com Joe Yoo (Charles Melton), com quem ela formou uma família e tiveram 3 filhos.
Pode parecer bizarro, mas Gracie foi condenada por estupro de vulnerável e ainda formou uma família com a vítima. Dito isto, Gracie hoje vive sua vida com esposo e filhos, e preferiu se afastar da mídia em um modo geral. Dessa forma Gracie opta por aceitar receber em sua casa a atriz Elizabeth Berry, que se prepara para encarar um dos papéis mais desafiadores de sua carreira. A partir daí, Elizabeth passa a analisar cada passo da vida da Gracie, fazendo um verdadeiro estudo de personagem, de características, de sentimentos, mergulhando naquela relação entre Gracie e Joe, se inteirando cada vez mais daquele romance midiático. Logo toda essa convivência entre Elizabeth, Gracie e Joe começa a reviver segredos obscuros de uma passado traumático na vida do casal, expondo seus limites, ultrapassando seus limites, expondo verdades que até então estavam guardadas, ou de certa forma até ignoradas no âmbito familiar.
Um ponto muito curioso e até questionável, é exatamente a forma como o roteiro aborda (vagamente) toda história real, que é justamente a partir da chegada e da interação de Elizabeth com aquela família. Ou seja, não temos uma abordagem dos fatos ocorridos a partir de todo o escândalo, não temos um resumo sobre a história no passado, como tudo aconteceu. A produção do filme não chegou a consultar o Vili Fualaau sobre os fatos ocorridos, o que acabou sendo preenchido com uma ficção baseada em relatos. Eu acredito que esta foi uma escolha de roteiro, usando uma certa liberdade criativa dos fatos e optando por deixar de fora todo esse contexto polêmico, até por se tratar de um crime sexual envolvendo um menor de idade. Eu entendo toda essa escolha de roteiro, até para o filme de Todd Haynes se manter fora de polêmicas, mas confesso que eu fiquei curioso em como seria uma abordagem a partir desse ponto na história.
"Segredos de um Escândalo" opta por ir na contramão de todas as polêmicas do início do relacionamento, e focar especialmente na obsessão da figura da Elizabeth dentro daquele contexto que ela se encontra no momento. De fato é um roteiro que abrange o estupro estatutário, o envolvimento das pessoas no caso, em como elas vivem atualmente, mas especificamente é um filme sobre a obsessão humana, e sobre obsessão ninguém é melhor do que a talentosíssima Natalie Portman. Natalie venceu o Oscar justamente pela sua obsessão, pelo seu perfeccionismo, pela sua busca incessante pela perfeição na pele da bailarina Nina, em "Cisne Negro" (2010). Dessa forma temos uma Natalie na pele da Elizabeth Berry que tem uma obsessão pela aquela mulher (ou pela sua história), que busca trabalhar e absorver cada vez mais as características da personagem que ela vai interpretar naquele filme independente, fazendo um verdadeiro laboratório, ficando perto daquela família, entrevistando cada membro daquela família, além de sempre se manter perto da Gracie, sempre observando como é a sua relação com o Joe. Temos aqui uma boa metaficção.
"Segredos de um Escândalo" é aquele típico True Crime, que traz uma análise sobre como a mídia pode distorcer os fatos ocorridos, ou até a percepção das pessoas sobre si mesma, ou sobre as pessoas envolvidas no caso. O longa de Todd Haynes bebe bastante da fonte dos True Crime dos anos 90 (até por ser um desejo do próprio diretor). É interessante perceber que a Gracie e o Joe viviam uma vida longe da mídia, longe das polêmicas que ela causou, como se estivessem presos em seus mundos, dentro da sua bolha, sem a percepção sobre o que aquela relação poderia representar em uma visão geral de alguém de fora. E nesse ponto o roteiro cresce e ganha mais fôlego, ao desenvolver a chegada da Elizabeth e em como a sua presença começa a abalar a estrutura daquela relação, em como ela faz com que o casal comece a pensar fora da bolha do relacionamento. Já pelo lado da Elizabeth, ela passa a se envolver cada vez mais, mergulhar cada vez mais naquele ambiente hostil, onde ela própria passa a carregar o peso e a pressão que a sua jornada exige, o que acaba a levando por um outro caminho diferente.
Nesse ponto do filme temos um grande estudo de personagem, pois a Elizabeth passa a incorporar a Gracie de uma forma assustadora, misturando suas emoções reais com uma interpretação intensa e repleta de camadas, onde ela busca incessantemente a perfeição, e passa a se vestir igual a Gracie, a se portar igual a Gracie, a falar igual a Gracie, e na medida que elas vão se conhecendo melhor vamos se aprofundando cada vez mais em duas mentes distintas que acabam se conectando estranhamente. Elizabeth passa a ficar tão obcecada em viver a vida da Gracie e ser parecida cada vez mais com essa personalidade, que ela acaba mergulhando profundamente em viver e sentir tudo em sua volta com a cabeça da própria Gracie, isso incluindo em ser um clone da Gracie, em tomar pra si a vida da Gracie, o relacionamento familiar, o envolvimento com os filhos, e até chegar em seu marido. Nesse ponto é interessante acompanhar essa aproximação entre a Elizabeth e o Joe, pois ambos tem idades parecidas mas com mentes completamente distintas, e a partir dessa aproximação que a Elizabeth dá a sua maior cartada em incorporar a Gracie, que é seduzindo seu marido e até transando com ele.
E aqui eu preciso destacar o elenco de "Segredos de um Escândalo", especificamente o trio composto por Natalie Portman, Julianne Moore e Charles Melton. Pois temos aqui aquele típico caso do filme que se segura unicamente e exclusivamente pela atuação de seu elenco.
Como já mencionei anteriormente, a Natalie Portman ("Thor: Amor e Trovão") foi a escolha perfeita para viver a Elizabeth Berry, justamente pela sua obsessão e perfeccionismo na personagem. Natalie faz uma personagem carregada, cheia de camadas, de nuances, que aos pouco vai mergulhando naquela vida paralela e desvendando segredos, traumas do passado de Gracie, e vai cada vez mais entrando em uma zona perigosa e expondo a sua dualidade. No fim, a Elizabeth acaba se perdendo na personagem da Gracie, onde ela acaba se tornando aquela sedutora que ela tanto queria interpretar. Temos algumas cenas onde a Natalie dá um show de atuação: Como aquela cena onde ela discursa na escola sobre sexo com a turma, porém de uma forma um tanto quanto exagerada. Aquela outra cena onde ela acaba desabafando sobre toda a sua trajetória, seus arrependimentos, diante de uma quebra da quarta parede. Belíssima atuação da Natalie Portman!
Já a Julianne Moore ("A Mulher na Janela") faz aquela mulher que vive em um conto de fadas, em uma fantasia criada pela sua cabeça, em mundo onde ela criou e acha que todos ao seu redor gostam dela, se importam com ela, praticamente vivendo uma vida ilusória. Por outro lado a Gracie faz a linha da coitadinha, da ingênua, de tentar convencer as pessoas ao seu redor que ela é aquela pessoa pura, inocente, confiável, quando na verdade ela é detestável, desprezável, traiçoeira, manipulável, maquiavélica, verdadeiramente uma predadora preparando seu terreno para o ataque. Julianne Moore dá um verdadeiro show de atuação, e nos conquista com uma interpretação forte, arrojada, compenetrada, onde ela foca nos trejeitos, em sua expressões, em suas falas, em seu modo de agir, de se portar, com toda a certeza ela estudou profundamente a personagem.
Charles Melton (da série "Riverdale") faz um contraponto muito interessante entre a Natalie e a Julianne. Melton pra mim faz a atuação mais difícil e complicada de todo o filme, pois inicialmente ele nos passa a sensação de estar perdido dentro daquele mundo, daquela relação com a Gracie, onde ela se vê o tempo todo como uma dependente dele, com ele assumindo todo o papel daquela relação, como pai e marido. A partir daí (e principalmente da chegada da Elizabeth) começamos a perceber que o Joe começa a expor suas insatisfações, suas inseguranças, suas frustrações, e começa a perceber tudo em sua volta, como uma forma de despertar daquela relação, daquela vida. E nesse ponto é muito interessante acompanharmos o despertar de Joe, quando ele se dá conta que sempre foi a vítima naquela relação, que ele sofreu abuso daquela predadora sexual, que ele era imaturo e foi manipulado pela Gracie, que ele perdeu grande parte da sua vida, principalmente da sua juventude, tendo que assumir papeis que não lhe cabiam naquele momento. E toda essa desconstrução e descaracterização vai ocorrendo com o Joe quando ele vai percebendo que teve sua vida privada dos seus desejos próprios, que teve sua adolescência podada por aquela mulher que o fez passar por uma grande pressão psicológica, que ele foi uma vítima dela e viveu em uma prisão dentro de uma vida ilusória.
Posso afirmar que Charles Melton tem o melhor personagem e entrega a melhor atuação dentro do filme.
Agora eu preciso deixar registrado a minha indignação com o Oscar em esnobar essas três impecáveis atuações. Apesar que vindo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, podemos esperar qualquer tipo de absurdo e de injustiça.
Outro ponto muito interessante no longa e que precisa ser mencionado, é a forma como os acontecimentos tomam proporções diferentes de acordo com a respectiva época em que ocorreu. Digo isso pelo fato desse caso, que obviamente se tivesse acontecido hoje em dia tomaria uma proporção absurda e seria recebido totalmente diferente daquela época. Pois nos anos 90 a mídia em si encarava o caso como um caso de amor infeliz, que não deu certo, que fracassou, onde a própria Mary não era vista como uma abusadora, sendo encarada apenas como uma aventura amorosa. E mais absurdo ainda é a própria família do Vili afirmar que ele era muito maduro para sua idade, que eles eram muito apaixonados, encarando o caso como normal. A Mary com 36 anos e o Vili com 13, e ainda tinha pessoas que encarava este relacionamento como normal - é realmente uma coisa inexplicavelmente absurda!
Outro ponto que me faz pensar: e se fosse ao contrário, como reagiria as pessoas? Se ele tivesse 36 anos e ela 13. Fica ai o questionamento.
Falando das partes técnicas:
É preciso destacar a excelente direção de Todd Haynes, onde ele exerce um trabalho de câmera impecável, traçando um paralelo entre os acontecimentos em cena com um close fechado nas expressões dos atores/atrizes. É muito interessante analisar a forma como o diretor usar os takes e os ângulos mais fechados em vários momentos de diálogos, para nos dar a dimensão daquela cena, daquele acontecimento, daquela descoberta; como na cena onde a Elizabeth conversa com a Gracie no banheiro, e a cena com o Joel fumando droga com seu filho no telhado. São duas cenas que traz esse trabalho de câmera que eu destaquei, com ênfase nos closes mais fechados justamente para nos revelar aquela descoberta, tanto pelo lado da Elizabeth, quanto pelo lado do Joe.
A trilha sonora do filme é potente, é eficaz nos momentos mais oportunos da trama, onde ela dita o ritmo da cena, do acontecimento que está sendo narrado, nos fazendo mergulhar cada vez mais naquela história. Uma boa trilha sonora de Marcelo Zarvos e Michel Legrand. A fotografia de Christopher Blauvelt também tem o seu merecido destaque. Assim como todo o trabalho da direção de arte, da edição, da montagem e da cenografia. Tecnicamente o filme é muito bem feito!
"Segredos de um Escândalo" foi lançado em cinemas selecionados dos EUA, antes de ser transmitido na Netflix nos EUA e Canadá. O filme foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. Também foi exibido como "Filme da Noite de Abertura" no Festival de Cinema de Nova York de 2023. O longa ficou em décimo lugar na lista dos 50 melhores filmes de 2023 da Sight and Sound, entre 363 filmes indicados por 106 participantes britânicos e internacionais. Também foi escolhido pelo American Film Institute como um dos dez melhores filmes de 2023. No Rotten Tomatoes, 90% das 300 resenhas dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,8/10. Já no Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 86 em 100, com base em 53 críticos.
O longa-metragem de Todd Haynes recebeu quatro indicações no Globo de Ouro e apenas uma indicação de Melhor Roteiro Original no Oscar. Alguns críticos opinaram que houve uma omissão de indicações de atuação no Oscar, apesar de ter sido indicado em outras associações de premiação importantes. EJ Dickson da Rolling Stone citou o padrão da Academia de excluir atores de ascendência asiática e sua falta de reconhecimento a artistas com menos de 40 anos como as razões pelas quais Charles Melton não foi indicado. Foi como eu já mencionei anteriormente, sobre a grande esnobada por parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Por fim, "Segredos de um Escândalo" se destaca por analisar um caso real bastante bizarro, cujo roteiro se destaca por explorar as consequências e as polêmicas desse escândalo na vida daquele improvável casal. É um filme que consegue fazer uma linha entre o drama e o romance misturando sentimentos e emoções de todas as pessoas envolvidas na trama. Mas por outro lado é preciso mencionar que algumas partes da história soa confusa, bagunçada, displicente, onde o elenco e suas atuações são basicamente o que segura todo o filme.
[10/03/2024]
Pobres Criaturas
4.1 1,3K Assista AgoraPobres Criaturas (Poor Things) 2023
"Pobres Criaturas" é dirigido por Yorgos Lanthimos e escrito por Tony McNamara. Baseado no romance de 1992 de Alasdair Gray, o enredo segue Bella Baxter (Emma Stone), uma jovem que ganha vida através de um transplante de cérebro e embarca em uma odisseia de autodescoberta.
Yorgos Lanthimos é um cineasta marcado pela sua excentricidade, extravagância, filosofia, eloquência, por construir obras fora do trivial, do convencional, onde muita das vezes flerta com o bizarro, com o complexo, com o místico, com a profundidade de personagens, com um estudo de personagens. Dentro dessas características as suas obras que mais se sobressaem são "O Lagosta" (2015), "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) e "A Favorita" (2018).
Em "Pobres Criaturas", Yorgos atinge o ápice do bizarro, do estranho, do místico, criando uma releitura do clássico Frankenstein que reflete além dos limites éticos e morais da ciência, da fragilidade do ser humano como um todo (principalmente a fragilidade masculina), da imagem feminina em uma sociedade patriarcal, e principalmente uma abordagem e uma percepção de um mundo imoral, injusto, alheio à várias vertentes de uma posição de criação e criador. A obra de Yorgos pode ser classificada como um "Frankestein sexualizado", ou uma espécie de "Frankenstein do século XXI", que acompanha o fascínio e a autodescoberta da protagonista, aliado à um contexto que subverte a lógica dos fatos que ela própria vai se descobrindo e vivenciando com o avanço na trama.
A excelente direção de Yorgos é aliada com um ótimo roteiro de Tony McNamara (roteirista de "A Favorita"), onde juntos eles constroem uma obra fora do convencional, onde uma das suas principais característica é a estranheza, a forma como o roteiro é livre de amarras, de rótulos, por justamente não seguir um caminho convencional e cruzar uma linha entre a comédia, o drama, o mistério e até um improvável romance. Nesse ponto o roteiro de Tony se sobressai e salta aos nossos olhos, pois a forma como ele consegue dosar pequenas pitadas de uma comédia sombria, com uma comédia dramática surrealista, com um toque de humor negro, misturando a sátira, o sarcasmo, sendo provocativo, desconfortável, incisivo, criando uma linha que cruza o místico, a ficção científica, a fantasia, a fábula, com uma visão profunda, onde ainda assim consegue nos divertir, nos impactar, com um roteiro que consegue se manifestar na mesma proporção que entretém.
"Pobres Criaturas" é um dos melhores filmes que eu já assisti nos últimos anos em questão de desenvolvimento de roteiro, de personagem, de estrutura narrativa, de conseguir construir um personagem e desenvolvê-lo na medida certa, fazendo um belíssimo estudo de suas principais características. Temos aqui a construção e o desenvolvimento de Bella Baxter, onde o roteiro aborda principalmente a sua autodescoberta, o seu autoconhecimento, o seu amadurecimento, a sua profundidade, a perda da sua inocência, o seu desejo pela liberdade e pelo conhecimento da vida. Sem dúvida é uma visão singela e peculiar sobre uma jornada de emancipação feminina, uma viagem excêntrica sobre o descobrimento e a liberdade feminina.
A história se passa na Era Vitoriana, onde temos aquela jovem que estava grávida e cometeu suicídio ao pular de uma ponte. Ao ser resgatada pelo médico cientista Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe), ela tem o seu cérebro removido e trocado pelo cérebro ainda em desenvolvimento de seu filho que estava em gestação. Ou seja, Bella tem o corpo de uma mulher que já não existe mais. E aqui entra um ponto muito interessante do roteiro, que é justamente o desenvolvimento de Bella onde ela é praticamente uma criança. Ou seja, Bella age como uma pessoa com problemas mentais, como um corpo de adulto com uma mente de uma criança, com atitudes de criança, com comportamentos de uma criança, como se o corpo dela não estivesse sincronizado corretamente com o seu cérebro (segundo as explicações do próprio Dr. Godwin). Dessa forma Bella precisa aprender tudo do princípio, como andar, falar, comer, ter um comportamento, respeitar e obedecer regras impostas pelo Dr. Godwin. E a figura do Dr. Godwin a princípio é vista por Bella como o seu criador, o seu pai, o seu Deus (como ela mesmo se portava perante ele sempre o chamando de "God").
A partir desse ponto acompanhamos a jornada de Bella Baxter sem nenhuma bagagem emocional, social, sentimental, sem nenhuma experiência em como é a vida fora dos domínios do Dr. Godwin. Ou seja, ali era o nascimento de uma criatura que se mostrava monstruosa (aparentemente), com uma casca cheia de camadas de um ser puro, singelo, meigo e encantador.
Um ponto muito interessante de roteiro e produção é a forma como toda a filmagem é projetada e transplantada para a tela. Logo uma escolha em representar o começo da história da Bella Baxter com uma filmagem em preto e branco em takes mais profundos, que nos dimensionava através da sua fragilidade, vulnerabilidade, inexperiência, enquanto ela ainda era uma criança em desenvolvimento, se autoconhecendo e se autodescobrindo. É interessante notar como a Bella vai se desenvolvendo com o passar do tempo, cujo a chegada do excêntrico advogado Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo) traz uma verdadeira mudança na vida de Bella Baxter. Pois o convite que ele faz para ela era justamente o que ela estava mais esperando naquele momento; se aventurar pelo mundo embarcando em uma odisseia surrealista de autodescoberta e libertação. A partir desse ponto já temos a mudança para uma filmagem colorida, como se a Bella ganhasse vida, ganhasse cores, onde simbolizava a libertação de Bella das garras do Dr. Godwin. Mas por outro lado ela estava prestes a conhecer um outro tipo de prisão.
Yorgos Lanthimos condensa as fases da vida de Bella Baxter com uma exploração da sexualidade da personagem, que era algo que ela também autodescobriu. E nesse ponto é muito curioso observar que a Bella deu vários saltos na composição das fases de sua vida, o que obviamente vai limitá-la de conhecer o seu corpo e os seus próprios desejos sexuais, onde naturalmente ela vai despertar seus desejos infinitos sem o conhecimento e o discernimento ditado pela própria sociedade perante essa nova descoberta em sua vida. Dessa forma Bella Baxter mergulha em seus desejos e sensações físicas, despertando cada vez mais a sua curiosidade em relação ao ato sexual, que de certa forma é também o seu autoconhecimento e o seu autodescobrimento.
Se analisarmos friamente, todas as cenas de sexo sem pudor não são cenas gratuitas e em vão, pois tudo parte de novas etapas da sua evolução, seu conhecimento, sua curiosidade, uma forma de explorar a sua mente, o seu corpo, e deixar de ser apenas uma criação desprovida de inteligência e ganância para uma forma de aceitação própria a partir dos seus próprios desconfortos. Não vejo que o filme romantiza a prostituição, também não vejo como um desrespeito com a pauta da mensagem feminina. Acredito que a obra projeta tudo dentro de um aspecto por uma outra perspectiva, com uma ótica própria feminina sobre como seria a liberdade sexual. Acredito que tudo foi projetado de forma poética e filosófica.
Mas isso não quer dizer que não seja uma pauta polêmica dentro do roteiro.
O que seria de "Pobres Criaturas" sem a presença de Emma Stone?
Emma já foi uma das queridinhas de Hollywood, já ganhou o Oscar pelo seu papel no badalado "La La Land" (2016), além de acumular várias indicações e vários prêmios em outros festivais de premiações cinematográficas. Emma Stone já fez vários trabalhos soberbos, fenomenais, com personagens fortes e representativos; como a própria Mia de "La La Land", a Cruella de Vil de "Cruella" (2021), e a Abigail Hill de "A Favorita". Até o momento a sua personagem de "A Favorita" era a minha preferida de toda a sua carreira, além de considerar que ela merecia mais o Oscar por esta personagem do que por "La La Land". Porém, nesse momento a Bella Baxter acaba de se tornar a minha personagem preferida da Emma, além de também considerar que é a sua maior e melhor atuação de toda a carreira até o momento.
Emma Stone incorpora com muita grandeza e muita maestria a Bella Baxter, pois o filme precisava ser sustentado por uma atriz que conseguisse transparecer o crescimento da personagem em sintonia com o desenvolvimento do roteiro, e ela consegue fazer essa tarefa de forma absurdamente impecável e perfeita. Emma constrói sua atuação pautada junto com o desenvolvimento de sua personagem, que vai desde a ingenuidade inicial, a inexperiência, indo desde aquela criança, passando pela uma espécie de crescimento, até florescer suas reflexões melancólicas de uma vida adulta. Emma está segura, está convincente, está arrojada, exibindo uma interpretação rica em expressões corporais, em linguagem corporal, com seus trejeitos, com seu gestual, com um timing cômico na medida certa.
É impossível não se apaixonar pelo brilhantismo de Emma Stone em "Pobres Criaturas", pois ela consegue dosar muito bem cada cena com o que o roteiro estava pedindo naquele momento, onde ela nos passava uma personagem vulnerável e inexperiente, logo após ela estava em um processo de amadurecimento, de desconstrução, de descaracterização, se tornando idealista, utópica, indo em uma linha de evolução física e mental a partir dos seus prazeres sexuais sem moralismo e culpa.
Emma evolui em um nível altíssimo de patamar de personagem lendária e icônica dentro do cenário cinematográfico. Pois obviamente a Bella Baxter ficará marcada e estigmatizada pela sua monstruosa e irretocável interpretação. E aqui eu preciso confessar que a minha torcida para a estatueta de Melhor Atriz está completamente com a Lily Gladstone, pela sua excelente personagem em "Killers of the Flower Moon", que me cativou profundamente. Mas eu preciso registrar aqui que este Oscar obrigatoriamente precisa ser da Emma Stone, como forma de justiça por uma atuação em uma personagem que ficará marcada na história do cinema.
O mestre Willem Dafoe é uma enciclopédia cinematográfica na arte de atuar. É realmente impressionante o nível de qualidade das suas performances. Em "Pobres Criaturas" Dafoe é aquele médico inteligente, um cientista brilhante, uma espécie de pai com uma extrema proteção com sua filha, ou um criador com um cuidado excessivo com sua criação, onde ele a mantinha sempre aprisionada e longe do mundo lá fora. Dafoe traz a veia daquele cientista complexo, ingênuo, egoísta, maldoso, arrogante, mesquinho, sempre exibindo a sua extrema obsessão pela sua criação. Uma atuação impecável do mestre Dafoe!
Já o Mark Ruffalo é o melhor personagem em cena, ficando atrás somente da Emma Stone, é claro. Mark faz um advogado meticuloso, sedutor, maquiavélico, uma figura cafajeste, prepotente, que só queria se aproveitar da Bella, tanto fisicamente como mentalmente. Mas com o passar do tempo vamos conhecendo à fundo o seu personagem e descobrimos quão fútil, raso e vazio que ele sempre foi. Excelente trabalho de Mark Ruffalo, o que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.
Completando o elenco ainda tivemos o Ramy Youssef (conhecido pelas séries "Ramy" e "Mr. Robot"), que fez o Max McCandles, o noivo da Bella. Um personagem bastante interessante, que tinha suas nuances e suas camadas. Christopher Abbott ("Ao Cair da Noite"), que fez o Alfie Blessington, o marido de Victoria Blessington, a mulher que era dona do corpo atual da personagem. Um ser completamente asqueroso e odiável, que mantinha a sua esposa como parte de sua propriedade, se exibindo como o seu dono, o seu controlador, praticamente o seu carrasco. O seu final é muito bom, quando a Bella transplanta o cérebro do bode para ele. E encerrando com a Margaret Qualley (da série "The Leftovers"), que fez a Felicity, o novo experimento científico do Dr. Godwin. E é interessante observar aquela conversa entre o Dr. Godwin e o Max McCandles, quando o Max acha que o Dr. está sendo muito cruel com sua nova criação, mas o Dr. afirma que cometeu um erro com a Bella, em permitir que os sentimentos nela se desenvolvessem. Dessa forma a Felicity é praticamente uma criação como um dos seus inúmeros animais - bizarro!
Outro ponto que engrandece ainda mais o nível da obra de Yorgos Lanthimos, são todas as suas qualidades técnicas.
Este é o primeiro filme de Yorgos com uma trilha sonora original de um compositor. Todos os seus filmes anteriores usaram apenas músicas existentes. E aqui temos uma trilha sonora do compositor Jerskin Fendrix (um músico pop que fez sua estreia em um longa-metragem) que impregnou em minha mente, chegando a me deixar desconfortável, com aquele som estridente, com toques finos, penetrantes, sendo repetitivo na maioria das vezes, o que fatalmente era proposital, já que esta era a real intenção da trilha sonora. A cinematografia é absurdamente perfeita, onde temos uma fotografia de Robbie Ryan (diretor de fotografia de "A Favorita") que acompanha com muita eloquência cada cena, sendo extravagante na hora certa e compondo muito bem cada tomada de cena. O mesmo vale para a direção de arte, que abusa de cenários grandiosos, bem montados, com figurinos extremamente marcantes, o que encaixa perfeitamente com toda realidade excêntrica e extravagante da história. O longa-metragem é muito bem roteirizado, possui uma direção impecável, muito bem montado, com uma excelente edição, um ótima cenografia e uma perfeita ambientação.
"Pobres Criaturas" ganhou o Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. No Globo de Ouro, o filme recebeu sete indicações e ganhou Melhor Filme - Musical ou Comédia e Melhor Atriz - Filme Musical ou Comédia por Emma Stone. No Critics' Choice Awards, o longa recebeu treze indicações, vencendo como Melhor Atriz. Ainda recebeu onze indicações no BAFTA, e onze indicações no Oscar, sendo elas: Figurino, Edição, Maquiagem, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de Arte, Roteiro Adaptado, Direção, Ator Coadjuvante, Atriz e, claro, Melhor Filme.
"Pobres Criaturas" já arrecadou US$ 33,1 milhões nos Estados Unidos e Canadá, e US$ 68,8 milhões em outros territórios, totalizando US$ 101,8 milhões em todo o mundo.
Encerro afirmando que Yorgos Lanthimos traz aqui o seu melhor filme de toda a sua carreira, e muito pela sua ousadia, competência, inteligência, relevância, que junto de Tony McNamara nos entrega uma belíssima obra de arte em forma de cinema, uma obra-prima do cinema moderno, que soube quebrar estereótipos, quebrar barreiras, descontruir o imaginário popular com uma obra que navega com bastante propriedade na comédia, no drama, na fantasia, na ficção científica e no romance.
Sem nenhuma dúvida, "Pobres Criaturas" com o passar do tempo entrará para a história do cinema, para a lista de filmes lendários e icônicos, onde virará um verdadeiro clássico cult amado por inúmeros cinéfilos.
"Pobres Criaturas" é uma obra fascinante, colossal, eloquente, apoteótica, excêntrica, extravagante, perturbadora, desconfortável, provocativa, onde emprega uma narrativa poética e filosófica com um texto sobre os preceitos da vida em relação ao autoconhecimento, a autodescoberta, a aceitação, a redenção, a desconstrução e a descaracterização enquanto ser humano. Bella Baxter é uma personagem que ficará marcada como uma mente feminina que foi criada, explorada, diversificada, retomada, ao mergulhar no amadurecimento e em todo o descobrimento e liberdade feminina. Sem falar que ainda temos aquela lição que toda a sua trajetória nos dá através da sua evolução e crescimento, onde ela própria clama por igualdade e libertação sem aquele olhar moralista e ético sempre presentes na sociedade em geral.
"Pobres Criaturas" é uma obra-prima que respira cinema em um nível poético, filosófico, categórico e incisivo!
[01/03/2024]
Zona de Interesse
3.6 704 Assista AgoraZona de Interesse (The Zone of Interest) 2023
"Zona de Interesse" é escrito e dirigido por Jonathan Glazer, sendo baseado no romance de 2014 de Martin Amis. O longa-metragem é uma produção da A24, com uma coprodução entre o Reino Unido e a Polônia. O filme é estrelado por Christian Friedel e Sandra Hüller como o comandante nazista alemão Rudolf Höss e sua esposa Hedwig, onde acompanhamos aquela família que leva a vida tranquilamente em uma nova casa bem ao lado do campo de concentração de Auschwitz.
Jonathan Glazer (diretor dos excelentes "Reencarnação", de 2004, e "Sob a Pele", de 2013) constrói um dos melhores filmes do ano passado e de toda a sua carreira. "Zona de Interesse" é mais uma obra que nos leva diretamente ao momento mais trágico e perverso da história da humanidade, o assombroso e desolador Holocausto. Ao longo de toda a história cinematográfica já tivemos vários filmes que estão relacionados e fazem diversas abordagens sobre o Holocausto; como é o caso de obras impecáveis e irretocáveis como "O Menino do Pijama Listrado" (2008), "A Vida é Bela" (1997) e "A Lista de Schindler"(1993), que são os meus três filmes preferidos sobre o tema.
A principal diferença dos três filmes citados para a obra de Glazer está exatamente na forma como o roteiro é construído e abordado ao longo de toda a história. Ou seja, nesses filmes somos impactados pela barbárie e pela violência explicita dos acontecimentos que assolavam os campos de concentração, onde nos despertava revolta, tristeza, comoção, empatia, e principalmente a dor e o nó na garganta de imaginar como foi terrível aquele momento na vida de cada um presente naquele local. Já a obra de Glazer vai na contramão por ser justamente um filme que mostra a sua Zona de Interesse, os seus ideais, as suas propostas, as suas regras, onde somos confrontados com um roteiro que apresenta uma experiência perturbadora porém sobre uma perspectiva distinta se comparado exatamente com os três filmes citados.
"Zona de Interesse" é uma experiência seca, crua, amarga, densa, cinza, incomoda, perturbadora, desoladora, que nos impacta e nos obriga a sairmos da nossa zona de conforto e presenciarmos um nível trágico e bizarro de falta de empatia, de amor com o próximo, de conivência, complacência e cumplicidade com tudo que estava acontecendo ao redor daquela família logo atrás dos muros de sua casa. Jonathan Glazer conseguiu elaborar um roteiro que me deixou chocado, pensativo, reflexivo, se destacando como um dos filmes mais difíceis que eu já assisti nos últimos anos. Temos aqui aquela típica obra que mexe com a nossa consciência, com o nosso imaginário, que ao término do filme você continua com ele na cabeça e pensando em tudo que presenciou por dias, tentando entender o quão detestável e desprezível é a raça humana.
Os maior acerto da obra de Jonathan Glazer é exatamente a forma como ele planeja deixar o espectador perturbado e incomodado com a forma que a história vai acontecendo ao longo das suas 1h 45min. Ou seja, já iniciamos com uma tela completamente escura e somente com uma música estridente de fundo, e ficamos nessa cena por quase 4 minutos. Ali você já sente o peso da obra, logo a intenção é realmente nos incomodar e nos tirar da nossa zona de conforto. Logo após esta cena já temos um corte para uma cena com uma família feliz se deliciando com um banho de rio. A partir daí o que fica mais notável e se sobressai em toda produção de "Zona de Interesse" é exatamente o trabalho impecável da edição e mixagem de som. Pois o som é a cereja do bolo do roteiro de Jonathan Glazer, sendo o som o responsável em nos aproximar dos terríveis acontecimentos logo após o muro da casa, no campo de concentração de Auschwitz.
E aqui eu preciso dar todos os créditos para o belíssimo roteiro de Glazer e forma como ele atua durante toda a história. Que é apostando diretamente no místico, no imaginário, no lúdico, fazendo um contraponto da vida feliz daquela família durante o seu dia a dia, em contrapartida com a desolação e a crueldade de tudo que estava acontecendo à uns 100 metros dali. É nesse ponto que a obra de Glazer se torna avassaladora, por nos impactar de forma sutil porém extremamente incomoda e perturbadora, e sem o uso de cenas que pudessem exemplificar tudo que estava acontecendo logo adiante. Tudo é construído a partir do nosso imaginário com o poder dos sons desesperador de gritos, torturas, tiros, sirenes e choros de crianças. A opção de Glazer por não mostrar nada que estava acontecendo nos deixa ainda mais incomodados e pensativos, pois quando não temos a imagem tudo em nossa mente fica em um grau ainda mais trágico e perturbador. Ainda mais pegando a pauta que o som corrobora ainda mais para toda a nossa tragédia mental, pois na medida que aquela família levava a sua vida normal, nós estávamos sendo torturados por um som inquietante que ficava constantemente com um grave mais agudo e sempre tomado por choros de crianças de fundo.
"Zona de Interesse" é uma obra extremamente desconfortável, inquietante, com uma atmosfera pesadíssima, que nos exemplifica de forma auditiva em como de uma lado tínhamos vidas e do outro as vidas eram tiradas. Que nos mostra em como de um lado estavam os sonhos e do outro simplesmente a morte. Quando não temos a retratação visual dos horrores, o que fica é exatamente os gritos desesperador vindo dos campos de concentração. E chega a ser bizarro a forma como temos cenas da família feliz de um lado e a crueldade do outro, e tudo acontecendo exatamente ao mesmo tempo. Logo temos aquela cena onde reproduz um jardim completamente florido, colorido, onde teoricamente poderia simbolizar a alegria, a vida, a liberdade, mas logo toda essa plenitude é confundida com o choro e os gritos de horrores.
O que me deixa extremamente triste e desconfortável, é observar a inocência das crianças ao brincarem alegremente na piscina com um muro lado a lado com o terror, e sem a devida proporção e dimensão que tudo aquilo significava. Esta cena me remete diretamente ao filme "O Menino do Pijama Listrado", onde também tínhamos a inocência de uma criança em contraponto com toda crueldade e desolação dos campos de concentração, onde confronta um dos maiores sofrimentos da história da humanidade com a pureza e a inocência de uma criança.
Christian Friedel (da série "Babylon Berlin") e Sandra Hüller (indicada ao Oscar por "Anatomia de uma Queda") estão divinamente bem em seus respectivos personagens.
Christian é a personificação daquela linha de comandante nazista alemão seco, duro, introspectivo, que se porta como silencioso, metódico e letal. Rudolf era aquele ser que só se importava com a sua tarefa, que era ser o melhor comandante, e isso ele fazia com muito empenho. Era como almoçar em sua casa ao lado de sua família e logo após atravessar o muro e exterminar as pessoas, como se tudo isso fosse o emprego mais normal do mundo.
Já a Sandra traz aquela mulher que tem os seus interesses voltados para a sua família e seu marido, que só se preocupa em ter tudo que quiser independente da forma que o seu marido consiga. Hedwig é também uma mulher que se mostra completamente indiferente de tudo que está acontecendo ao seu redor, além de também exibir a sua apatia e o seu preconceito em relação à todos aqueles acontecimentos.
Tanto o Christian Friedel como a Sandra Hüller entregam uma atuação muito bem acertada, e muito bem condizente com toda a proposta do roteiro para o intuito dos seus personagens.
Tecnicamente a obra é soberba!
A trilha sonora de Mica Levi (compositora da trilha sonora de "Jack", de 2016) é esplendorosa, contundente, extremamente incisiva em cena após cena, onde ditava com muita coesão cada ritmo que impregnava em nossa mente. O mesmo vale para o designer de som Johnnie Burn, que junto com a própria Mica, compuseram a música e os efeitos sonoros do filme.
A fotografia de Łukasz Zal ("Guerra Fria", de 2018) é outro ponto extremamente importante no longa, pois a partir dela que tínhamos aquela dimensão do feliz e triste ali lado a lado separados apenas por um muro. Sem falar que a cinematografia é muito bem estruturada no filme. Assim como a direção de arte, que compôs minunciosamente cada detalhe dos cenários, tanto na casa da família quanto no lado dos campos de extermínios.
"Zona de Interesse" foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2023, onde ganhou o Grand Prix, o Cannes Soundtrack Award e o Prêmio FIPRESCI. O longa ainda ganhou 3 BAFTAs (incluindo Filme não na Língua Inglesa ), e foi indicado a 5 Oscars (incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Jonathan Glazer) e 3 Globos de Ouro.
O longa-metragem foi muito bem em sua semana de estreia nas bilheterias, onde arrecadou US$ 124 mil em quatro cinemas. Após suas cinco indicações ao Oscar, o filme expandiu de 215 cinemas para 333 em sua sétima semana de lançamento e arrecadou US$ 1,08 milhão, um aumento de 141% em relação ao fim de semana anterior, e um total acumulado de US$ 3 milhões.
Um dos maiores diretores de todos os tempos, o renomado cineasta Steven Spielberg elogiou "Zona de Interesse", chamando-o de o melhor filme sobre o Holocausto já feito desde seu próprio "A Lista de Schindler". E já aproveito a ocasião para informar que eu considero "A Lista de Schindler" como o melhor filme de toda carreira cinematográfica do Spielberg, e também como um dos melhores filmes sobre o tema de todos os tempos.
Jonathan Glazer cria uma obra categórica, crucial, terminante, contundente, que nos exibe um choque de realidade quando nos mostra que aquele casal alemão que viviam suas vidas normais podem ser comparados a nós mesmo em nosso dia a dia, quando estamos sendo omissos e cúmplices com crueldades, e principalmente com pessoas que são coniventes com esses atos. Esta é uma das maiores falhas do ser humano, a cumplicidade, a omissão, a conivência, a banalização do mal, quando o que está acontecendo é com os nossos vizinhos e não com nós. Ou seja, este é o ponto crucial em comparação com o genocídio do Holocausto com relação aquela família, onde todos viviam suas vidas normalmente como se nada estivesse acontecendo, desde que não aconteça com eles, é claro! Este é o comparativo com a nossa realidade atual; o mal pode existir ao seu lado, a crueldade pode existir ao seu lado, desde que você não sofra, os outros ao seu redor pouco importa.
Por fim: "Zona de Interesse" é uma obra grandiosa, necessária e extremamente importante. Que nos conscientiza principalmente sobre a banalidade do mal, que nos exemplifica em como o ser humano é horrendo, repugnante, odioso, perverso, mesquinho, em como existem pessoas que compactuam com a crueldade, que naturaliza todos e qualquer acontecimento ao seu redor, a partir do momento que estão sendo cúmplices de brutalidades imperdoáveis.
"Zona de Interesse" é também uma obra extremamente difícil, desconfortável, incômoda, pesada, que vai te tirar da sua zona de conforto, vai te fazer pensar e refletir à respeito dos valores da sua vida e a forma como você está atuando nela a partir das suas atitudes. Jonathan Glazer entrega um excelente estudo de personagem, cheio de subjetividades, com uma demonstração bizarra do lado mais sombrio e mórbido da humanidade.
[28/02/2024]
Ficção Americana
3.8 424American Fiction - 2023
"American Fiction" é escrito e dirigido por Cord Jefferson (roteirista da série "The Good Place"), em sua estreia na direção de um longa-metragem. O filme baseado no romance "Erasure" de Percival Everett, de 2001, segue um professor romancista frustrado que escreve uma sátira bizarra de livros "negros" estereotipados, apenas para ser confundida pela elite liberal com literatura séria e publicada com altas vendas e críticas.
É fato que entre as inúmeras listas de filmes dessa temporada de premiações cinematográficas, "American Fiction" surge como um provável azarão, e muito por ser uma aposta da produtora, do próprio diretor Cord Jefferson, em um contexto que está diretamente inserido na sátira, na crítica social e ainda exibindo uma boa carga de drama.
É muito interessante acompanhar a história de Thellonious Ellison (Jeffrey Wright), que é mais conhecido como Monk. Um professor que se mostra esgotado, frustrado, indo ao seu limite, e muito por estar em um momento da sua vida onde parece que suas história e suas aulas dentro de um contexto mais racista, de certa forma tem ofendido os seus alunos, que na grande maioria são brancos. E o mais curioso é o fato de cada vez mais os seus romances e suas histórias terem sido rejeitado pelo público, especificamente falando sobre a forma como o entretenimento norte-americano é consumido naquele momento, uma vez que a grande maioria aidna prefira aqueles romances clichês cheio de estereótipos. Dentro de todo esse contexto, Monk decide usar um pseudônimo para fazer exatamente o que ele é contra, que é escrever o que o público quer consumir, já que seu último romance não foi bem aceito exatamente por não conter as famosas histórias negras com estereótipos negros.
Partindo dessa premissa, "American Fiction" é bastante funcional, bem trabalhado, ousado, audacioso, construtivo, sarcástico. Funcionando diretamente com um texto que traz uma pauta inserida em uma sátira social incisiva, poderosa, com um humor mais ácido, sendo irônico, provocativo e ainda misturando uma boa dose de uma comédia ágil e perspicaz. Porém, por outro lado aidna temos uma adição de um drama familiar, que é básico, mas de certa forma até contribui com a trama. Todavia todo esse contexto acaba ganhando mais espaço até do que deveria, e sendo assim acaba pesando e tomando grande parte do desenvolvimento que estava voltado para os conflitos pessoais do Monk e toda sátira que permeava a história.
Cord Jefferson faz uma estreia muito segura e bastante competente, e aidna sendo muito bem blindado por um ótimo elenco.
Jeffrey Wright (que também está em "Rustin") é a verdadeira cereja do bolo. Jeffrey traz um personagem cheio de camadas, que está vivendo um confusão pessoal, com seus conflitos pessoais, suas decisões pessoais e seu drama pessoal. Logo ele mostra uma atuação segura, centrada, arrojada, que anda em uma linha até mais sutil e plena.
Sterling K. Brown ("This is Us ") é um poço de carisma que contribui diretamente com seu personagem Cliff Ellison, o irmão de Monk. Podemos notar que Sterling entrega uma atuação que é pautada principalmente no irreverente, no cômico, exibindo seus trejeitos, sua faceta, seu gestual, com uma presença de cena bastante intensa.
Tracee Ellis Ross ("Black-ish") vive Lisa Ellison, a irmã de Monk. Assim como o Sterling, Tracee é simpática, carismática, com uma veia cômica na medida certa, com muita personalidade, com muita dinâmica, sendo uma engrenagem muito necessária na história.
Posso afirmar que o trio formado por Jeffrey, Sterling e Tracee tem muita harmonia, uma boa química, um relacionamento interessante, que se destaca principalmente nas cenas com uma alta dose de diálogos entre eles.
Completando o elenco ainda tivemos o ótimo John Ortiz ("Vem Dançar"), que faz Arthur, o agente do Monk. Um personagem muito hilário que rendeu boas cenas. E Issa Rae (também esteve em "Barbie") como a escritora Sintara Golden, que também rendeu ótimas cenas.
Tecnicamente "American Fiction" está bem decente.
A trilha sonora de Laura Karpman (compositora da trilha sonora de "As Marvels") é bem dinâmica e dita bem o ritmo do filme.
A fotografia de Cristina Dunlap é bem desenvolvida e chega a se destacar em diversas cenas (principalmente dentro do drama familiar da história).
O longa ainda conta com uma boa direção de arte. Uma boa montagem. Uma boa edição. Um bom roteiro digno de uma boa adaptação.
"American Fiction" recebeu cinco indicações no Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator (Jeffrey Wright) e Melhor Ator Coadjuvante (Sterling K. Brown). Também teve duas indicações no Globo de Ouro, e ganhou Melhor Roteiro Adaptado no Critics Choice Awards e ganhou o People's Choice Award.
O longa-metragem arrecadou US$ 229.000 em sete cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média por local de US$ 32.400. Após suas cinco indicações ao Oscar, o filme expandiu de 852 cinemas para 1.702 em sua 7ª semana de lançamento e arrecadou US$ 2,9 milhões, um aumento de 65% em relação ao fim de semana anterior, e um total acumulado de US$ 11,8 milhões.
Por fim, "American Fiction" é um bom filme que soube implementar bem um texto inserido em uma sátira social, com uma boa dose de um humor ácido, irreverente, provocativo, trazendo uma crítica direta à sociedade atual, ao politicamente correto, à indústria midiática, ao racismo e seus estereótipos, e aidna construindo uma narrativa familiar com um material nitidamente humorístico e perspicaz.
[24/02/2024]
NYAD
3.7 171NYAD - 2023
"Nyad" é uma produção original Netflix, dirigido por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin (diretores de "De Volta ao Espaço", de 2022), e escrito por Julia Cox (roteirista do curta-metragem "The Haircut", de 2014). O filme é baseado no livro de memórias de Diana Nyad de 2015, "Find a Way".
Quase todos os anos temos produções sobre a história de uma personalidade norte-americana. Dessa vez estamos falando sobre "Nyad", o filme biográfico sobre a nadadora Diana Nyad. Diana ganhou um grande destaque em 1970, ao ser reconhecida como a principal nadadora de longa distância do mundo. Diana competia principalmente em mar aberto, onde realizou conquistas como o recorde de natação ao redor da ilha de Manhattan, e o percurso de 164 km de Bimini, Bahamas, até a Flórida, em 27 horas, em 1979.
Diana dedicou grande parte da sua vida esportiva ao seu sonho de fazer um percurso nadando de Cuba até a Flórida. Diana fez cincos tentativas ao longo de sua vida, iniciando em 1978, depois de 33 anos ela volta a fazer mais duas tentativas em agosto e setembro de 2011, em 2012 ela faz uma nova tentativa, conseguindo realizar a sua missão de vida em 2 de setembro de 2013. Diana fez o percurso de Havana até Key West aos 64 anos, percorrendo uma distância de 177 km em 52 horas e 54 minutos, nadando em mar aberto sem a utilização de uma gaiola protetora (que geralmente é usado para evitar ataques de tubarões). Atualmente, aos 74 anos, Diana dedica grande parte de sua vida como escritora, jornalista, radialista esportiva, linguista e palestrante motivacional.
Temos aqui um exemplo a ser seguido, um feito heroico, um ato de coragem, fé, força, crença, motivação, determinação e superação. A própria Diana conta em seu livro todos os limites que ela se submeteu a enfrentar; como o limite do seu próprio corpo, da sua mente, em se manter firme com sua perseverança ao enfrentar os maiores desafios como o medo, a pressão psicológica, as falhas, os erros, o desânimo, as consequências e os perigos em alto mar. Diana nos mostra uma grande lição de vida ao nos imergir em seu filme biográfico motivacional, onde seu principal feito é transformar a superação em competência para vencer, para seguir em frente, para manter principalmente a sua coragem e o seu empenho em busca dos seus sonhos.
Sem nenhuma dúvida o filme nos serve principalmente como uma palestra motivacional, ao nos mostrar um ato intenso e inspirador à bordo de uma aventura emocionante, comovente, desafiadora, expondo principalmente uma luta contra o preconceito de idade e a importância de nunca desistir. O longa nos inspira e reforça que não existe idade para se correr atrás dos sonhos. Como a própria Nyad (que equivale a "Ninfa do Mar" na mitologia grega) enfatiza que quis marcar o seu feito na história e deixar um legado, que tenha se espalhado para uma grande população com a esperança e a força da fé.
"Nyad" inicia nos mostrando filmagens e relatos reais da vida da Diana. Depois temos uma bela passagem de gerações ao som da belíssima "The Sound of Silence", de Simon & Garfunkel. Logo após somos confrontados por aquele diálogo entre a Diana (Annette Bening) e a sua inseparável amiga Bonnie Stoll (Jodie Foster), onde ela afirma que vai realizar a prova de Cuba até a Flórida, cuja a própria Bonnie diz: "você não conseguiu com 28 anos, vai conseguir com 60". Diana responde: "não acredito em limitações impostas." E Diana ainda afirma que agora ela tem a mente que ela precisa para realizar a travessia, que era isso que lhe faltava quando era jovem, o equilíbrio da mente. Bonnie continua confrontando a Diana ao dizer que ela pode ter a mente que precisa mas não tem o corpo. Aproveitando a oportunidade, Diana revela para Bonnie que ela será a sua treinadora.
O longa-metragem transcorre bem com a passagem das cenas e de cada relato. Por mais que temos uma história de superação e todo o seu drama, a história flui de forma leve, dinâmica, com uma dose cômica na medida certa, com diálogos fortes e bastante envolventes. O roteiro acerta bem ao realizar uma mescla entre as cenas reais da Diana nadando ainda jovem, comparando com as cenas do filme com uma Diana já na casa dos 60 anos. A cena que a Diana dá palestras sobre as dificuldades da natação em mar aberto, é muito boa. Outro acerto do roteiro é exatamente nas cenas em que a Diana está tentando realizar o seu percurso, quando temos a Diana do filme nadando enquanto aparecem alguns flashbacks de sua infância, e algumas filmagens reais da competição da época. Não sei até que ponto é real ou não, mas também temos todo o drama que a Diana enfrentou com seu antigo treinador. Outra cena muito boa, é aquele discurso motivacional que a Bonnie faz para a Diana, quando ela esta perto de completar o percurso e está chegando no seu limite físico e mental. A cena final também é muito boa, quando a Bonnie evita tocar na Diana para ajudá-la, e fica incentivando para ela conseguir forças para sair para fora da água com os dois tornozelos, para que assim pudesse então completar a prova.
O que seria desse filme sem as presenças ilustres de Annette Bening e Jodie Foster. É inquestionável que as duas carregam completamente o filme nas costas, onde ouso a dizer que sem elas este filme sequer teria existido e teria sido reconhecido principalmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Primeiramente falando da Jodie Foster (eterna Clarice Starling em "O Silêncio dos Inocentes"): Jodie incorporou aquela esposa e amiga inseparável, mentora, tutora, conselheira, que de alguma forma tentou tirar aquela ideia que parecia absurda da cabeça da Diana, até pela sua idade, mais de 60 anos. Mas o incrível é a química das duas, tanto que a amiga que a aconselha a desistir por motivos óbvios, é a mesma amiga que dá o incentivo, a fé, a coragem e a força que Diana precisava para se manter firme, estando sempre ao seu lado até a conclusão da missão. Belíssimo trabalho da Jodie Foster.
Já Annette Bening (eterna Carolyn Burnham em "Beleza Americana") é a estrela, a protagonista, a personagem-título, o centro das atenções. Annette estudou a personagem, personificou a personagem, analisou cada detalhe, cada oportunidade de se manter cada vez mais fiel com a personalidade verdadeira da Diana Nyad. Sem dúvidas é uma grande atuação, um grande trabalho, onde ela conseguiu acertar no timing perfeito, se manter coerente com cada acontecimento, com uma interpretação forte, verdadeira, carregada dramaticamente e ainda mesclando os momentos mais cômicos. Annette e Jodie estiveram o tempo todo em perfeita sintonia, harmonia, com uma excelente química, onde nos passava ainda mais veracidade acerca daquela forte amizade e comprometimento. Annette Bening entregou uma performance em alto nível de entrega, com a mesma gana e o mesmo desejo de vencer da verdadeira Diana Nyad.
Ambas foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.
Agora um ponto que eu jamais poderia deixar de mencionar: a controversa história real por trás do filme.
Todo mundo que assistir "Nyad" poderá naturalmente se perguntar o porque que este feito histórico não entrou para o Guinness World Records. Pois o normal seria a Diana Nyad entrar para o Guinnes como a primeira mulher a realizar o trajeto sem o suporte de uma gaiola anti-tubarão. Existe uma grande polêmica que é liderado pela "Associação Mundial de Nadadores em Mar Aberto", que se recusa a validar o recorde. A associação chegou a soltar uma nota (durante o lançamento do filme) que seria essencial assistir o longa-metragem com o total discernimento dos fatos em questão, para que assim todos tivessem em mente as discrepâncias em torno da prova e consequentemente do percurso realizado pela Diana.
A polêmica ocorre porque segundo os órgãos responsáveis, Diana não esteve dentro de todos os protocolos estabelecidos para uma ultramaratona em mar aberto. Ainda se discutem que o recorde da nadadora não foi registrado e nem acompanhado por uma equipe responsável pela avaliação e concretização do percurso. Outro ponto que é discutido, é o fato da própria Diana afirmar que seu recorde foi realizado sem interferências e assistências para ajudá-la no percurso, quando na verdade afirmam que ela utilizou uma roupa especial. Mais uma polêmica sobre o caso, é o fato de afirmarem que grande parte do trajeto (mais ou menos um total de 9 horas) não ter sido completamente acompanhado e consequentemente filmado. E o mais bizarro e polêmico, é o fato de considerarem que em determinados trechos do percurso, segundo os dados do GPS, ela ter conseguido uma aceleração consideravelmente suspeita pela sua forma e velocidade costumeira de nadar, o que julgam que ela possa ter recebido uma ajuda de algum tipo de objeto ou veículo. O lado de defesa da Diana afirma que esta polêmica aceleração ocorreu porque ela teve um impulso de uma correnteza específica do golfo, mesmo sem provas concretas. Diante de todas essas polêmicas e acusações, o recorde de Diana Nyad até hoje foi negado pela associação, o que sempre a impediu de ser reconhecida no Guinness World Records.
Em entrevistas sobre o caso, a própria Diana diz: "Talvez eu tenha tido muita arrogância, tipo, 'Não preciso provar isso a ninguém.' Esse é o meu mal".
Dizem que existe uma Teoria da conspiração sobre a carreira esportiva de Diana Nyad, que mostra ela envolvida em várias polêmicas ao longo da sua trajetória como nadadora profissional. Vamos aos casos:
Jornais e órgãos relevantes do meio esportivo afirmam que Diana sempre mentiu (ou exagerou) em suas conquistas. Tem o caso em que ela afirmou ter sido a primeira mulher a nadar ao redor da ilha de Manhattan, em 1975, sendo que a primeira, na verdade, foi Ida
Elionsky, em 1916, ela foi considerada como a sétima. Dizem que a própria Diana mais tarde se arrependeu dessa afirmação.
Outro caso que afirma que Diana já havia mentido sobre seu histórico de natação. Ela afirmou ter ficado em sexto lugar nas seletivas olímpicas de 1968, às quais nunca compareceu. Todas essas questões de certa forma corrobora para uma perda de credibilidade das conquistas da Diana quanto ao ser reconhecida no Guinness World Records.
Todas essas polêmicas foi perguntado para a direção do filme, que responderam que o filme não era sobre o recorde em si, mas sobre a história de coragem, superação física e mental de uma mulher com mais de 60 anos, que percebeu que sua vida ainda não tinha chegado ao fim, e que ela ainda poderia deixar o seu legado ao realizar o seu grande sonho de vida, enquanto o mundo ao seu redor desacreditava dela.
Muitas pessoas saem em defesa da Diana Nyad, ao rejeitarem o seu feito, afirmando como resposta sexista a uma mulher poderosa. Ainda afirmam que não reconhecem toda a trajetória da nadadora porque grande parte da população ainda é anti-mulheres, anti-LGBTQIAPN+, pelo fato de ser um recorde em que uma mulher supera os homens competitivamente falando. Atletas como Gertrude Ederle, Greta Andersen, Shelley Taylor-Smith e Cindy Nicholas foram celebradas pela comunidade da natação por superar os homens em resistência e velocidade. É realmente uma grande polêmica!
Outro ponto que desvalida o filme e perde relevância para muitas pessoas, é o fato da produção apresentar algumas discrepâncias em decorrência da história original. Muitos dizem (incluindo a tal crítica especializada), que o filme simplifica todo o percurso da Diana mostrando apenas uma embarcação que acompanhava o trajeto dela durante o percurso, sendo que na história real ela foi acompanhada por várias embarcações e uma grande tripulação. Ou seja, dentro desse contexto parece que o filme realmente diminuiu o feito dela.
Outro caso, ai eu já não sei até que ponto as cenas são reais ou não, mas fato é que a produção cinematográfica sempre gosta de dramatizar um pouco mais a história para gerar engajamento e comover o espectador. Mas também muitas pessoas envolvidas diretamente com a Diana Nyad afirma que o longa dramatiza eventos que não aconteceram como foi visto; que o caso das cenas do encontro com um tubarão e com a água-viva. Já eu achei um tanto quanto exagerada e fictícia algumas daquelas representações de como se vive em Cuba e todo o trajeto livre e fácil para o local.
"Nyad" teve o reconhecimento em alguns festivais de premiações, consequentemente recebendo indicações, entre elas de Melhor Atriz (Annette Bening) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster) no Oscar, no Globo de Ouro e no Screen Actors Guild Awards.
No mais, "Nyad" é um bom filme biográfico de mais uma personalidade norte-americana. O longa nos mostra que sonhos não tem idade e nem limites, que nos exemplifica acerca do poder da fé, da coragem, da perseverança, da motivação, da determinação e principalmente da superação tanto física quanto mental. Confesso que eu vou me abster em comentar sobre as inúmeras polêmicas, tanto da carreira profissional quanto do filme da Diana Nyad, até porque eu não tenho um vasto conhecimento dos casos. Até que ponto é verdade ou não, isso não vem ao caso, o que me resta é reconhecer o grande feito heroico, o grande recorde e o grande legado motivacional que esta mulher deixou marcado na história do esporte e principalmente da vida.
Encerro citando as três frases que a Diana Nyad fala ao término de sua missão:
1 - Nunca desistam!
2 - Nunca é tarde para ir atrás dos sonhos!
3 - Você vai precisar de uma equipe!
[02/02/2024]
Vidas Passadas
4.1 963 Assista Agora⚠ TEM SPOILERS ⚠
Vidas Passadas (Past Lives) 2023
"Vidas Passadas" é uma produção da A24, escrito e dirigido por Celine Song em sua estreia na direção de um longa-metragem. A história segue dois amigos de infância ao longo de 24 anos enquanto eles contemplam a natureza de seu relacionamento à medida que se distanciam, vivendo vidas distantes e diferentes.
Apesar de "Vidas Passadas" não ser uma biografia real da diretora Celine Song, temos aqui um enredo que é semiautobiográfico e inspirado em acontecimentos reais de sua vida. Pois de acordo com as minhas pesquisas, o longa se baseia na trajetória da cineasta, soando como uma obra muito intimista e de grande valor sentimental para ela. Celine é nascida na Coréia do Sul, e migrou-se para o Canadá com sua família quando tinha 12 anos, justamente deixando para trás o seu primeiro grande amor. Celine viveu em Nova York, se casou, e depois de muito tempo ela reencontra o seu primeiro amor pela internet, e depois de mais algum tempo eles se reencontram pessoalmente.
Quem aqui nunca teve uma amor de infância e depois foram separados pela vida, mas que até hoje ainda se lembra desse primeiro amor?
Dentro desse contexto que "Vidas Passadas" é desenvolvido e criado para nos confrontar com escolhas, com decisões, com atitudes, traçando uma linha que nos propõe se impactar com um amor que transcende a idade, o tempo e a distância. Celine Song cria um cenário para nos faze pensar e nos questionar sobre nossas próprias escolhas, quando essas escolhas impacta em nosso percurso de vida, quando essas escolhas nos confronta com amores interrompidos ou até perdidos. É muito claro toda a reflexão que o longa nos obriga a fazer durante todo o trajeto que vamos fazendo junto da protagonista Nora (Greta Lee).
Eu já vou iniciar destacando o excelente roteiro da Celine Song. Pois a forma como ela idealizou e realizou toda a história é de uma genialidade absurda, nem parecia que era sua estreia no cinema (roteiro digno de Oscar). Por ser uma história autoral, íntima e bastante sentimental, Celine comanda todo o desenvolvimento de forma sútil, sensível, sensorial, empregando um olhar mais contemplativo, mais poético (inicialmente), mais humano, que vai nos envolvendo pela sua leveza e vai nos amarrando cada vez mais naquela história. O maior acerto do roteiro é justamente um desenvolvimento mais lento, mais introspectivo, mais reflexivo, sem exagerar, sem acelerar, sem forçar, sem pesar a mão em cima do melodrama. Pois a história vai tomando forma aos poucos, vai criando um ambiente que nos cativa pela sua profundidade e pela sua delicadeza nos temas abordados.
O início da história já é bastante singelo ao nos apresentar para a inocência de duas crianças que eram inseparáveis amigos de infância. Ali eles já tinham criado seus eternos laços de amor e amizade. E aqui o roteiro já nos puxa para fazermos uma grande reflexão; afinal de contas a jovem Na Young (Seung Ah Moon) e o jovem Hae Sung (Seung Min Yim) estavam se separando não por suas próprias escolhas e sim por fatos familiares. Dessa forma nos questionamos o poder que escolhas tem em mudar nossa vida, sendo que essas escolhas será determinante para o nosso destino, em definitivo ou não.
Depois desse início temos uma passagem de tempo, 12 anos, onde o Hae Sung (Teo Yoo) já está adulto, já foi para a guerra, porém jamais se esqueceu da Nora. Dessa forma ele busca encontrar ela pela internet (Facebook) e eles conseguem ter um contato depois de todos esses anos através de uma videochamada no Skype. Nora tinha saído do Canadá e estava morando em Nova York, onde ela já era uma escritora. Hae Sung estava na universidade e pretendia estudar na China para aprender mandarim. Como cada um tinha diferentes projetos de vida naquele momento, não conseguiram se encontrar pessoalmente, o que fez com que Nora decidisse se afastar dele naquele momento e focar em sua vida profissional.
Temos mais um salto no tempo, mais 12 anos, quando Nora é informada pelo próprio Hae Sung que ele iria para Nova York tirar férias e queria se reencontrar com ela. Nessa altura da trama temos um ponto muito importante, que é justamente a definição da palavra "In-Yun", que na Coréia tem um significado como destino. Os coreanos acreditam em conexões humanas quando duas pessoas se esbarram em algum momento da vida. Algo como se essas duas pessoas que se esbarraram já tivessem se encontrado anteriormente em uma espécie de vidas passadas. Sendo assim, Nora acaba conhecendo (ou se esbarrando) com Arthur (John Magaro), durante sua residência em Nova York. Nora está casada com Arthur há 7 anos e ele conhece toda a sua história de infância envolvendo Hae Sung. Já Hae Sung, que está indo ao encontro de Nora, também sabe que ela está casada.
Celine Song é magnífica ao explorar sentimentos, emoções, surpresas, ao confrontar os dois maiores amores da vida da Nora ali lado a lado. E o fato curioso é justamente o relacionamento entre Nora e Arthur, que é uma base sólida de um casamento que é feito com honestidade e confiança. Sendo assim, Arthur compreende e entende sobre seu amor de infância e o que aquela presença pode significar para ele. E aqui o roteiro de Celine Song cresce ainda mais, ao tomar uma proporção que vai explorar os três personagens, que vai impactar e confrontar Arthur pela presença de Hae Sung, já que o Arthur é uma pessoa confiante e compreensiva, mas ele entende todos os riscos que ele está correndo com aquele reencontro.
Este é o ponto alto do roteiro de Celine Song, exatamente este confronto, esta rivalidade, que poderia existir ou não. E aqui já nos pegamos na indecisão de qual lado defender, ou simpatizarmos, já que no lado do Arthur, ele é o atual amor de Nora, que sim, sente ciúmes, sente insegurança, mais que não se deixa abalar visivelmente, já que internamente ele se sente como um intruso naquele momento, por estar no meio de um vínculo muito forte, que transcende os limites de tempo e espaço. Exatamente como ele se refere à Nora, que se sente como o marido branco americano malvado que está interferindo com o destino. E aqui eu preciso destacar aquela cena em que a Nora leva o Hae Sung para conhecer o Arthur. É uma situação extremamente embaraçosa e constrangedora (até para nós espectadores). E ainda tem aquela outra cena no restaurante, em que Hae Sung e Nora conversam em coreano (idioma que o Arthur não dominava) sobre o passado e suas decisões, enquanto o Arthur fica completamente escanteado no assunto e no lado da mesa.
Já pelo lado do Hae Sung, é fato que ele nunca esqueceu a Nora, que ele sempre amou ela incondicionalmente, que de alguma forma ele estava buscando respostas quando viajou para reencontrá-la em Nova York. Nesse ponto os três personagens da história se pegam fazendo perguntas que nós nos fazemos no dia a dia. Pois temos costumes de nos questionarmos sobre como seria se nós tivéssemos feito outras escolhas. Estaríamos fazendo certo? Estaríamos fazendo errado? Como seria minha vida se eu tivesse mudado minha escolha no passado sobre tal questão? Este é o ponto em que o roteiro de Celine Song é extremamente reflexivo. Um ponto que também me remete à um excelente livro de profunda reflexão sobre as escolhas que fazemos em nossas vidas - "A Biblioteca da Meia-Noite" - do autor Matt Haig.
O elenco de "Vidas Passadas" passa veracidade em todas as cenas!
Greta Lee ("The Morning Show") é o centro das atenções. Ela constrói uma personagem forte, empenhada, destemida, que precisa fazer escolhas em sua vida, que certas escolhas faz com que ela viva em um dilema.
Teo Yoo ("Love To Hate You") faz aquele contraponto acertado com a Greta, trazendo uma bela química ao contracenarem juntos. Teo mostra uma bela veia para encarar dramas, para se apresentar com um personagem mais introspectivo, mais fechado, para também expor os seus dilemas.
Já o John Magaro ("Orange Is the New Black") surpreende positivamente ao apresentar um personagem que pode ser encarado como o forasteiro daquela história de primeiro amor, que está confiante em sua esposa e seu casamento, que ainda assim encara os riscos daquela paixão reacender.
E aqui eu preciso confessar que sempre me pareceu que os asiáticos fossem pessoas frias, que não expressam totalmente seus sentimentos e suas emoções, porém esta dupla mudou meu pensamento. Nem preciso destacar individualmente a atuação de cada um, já que os três estiveram o tempo todo em uma perfeita sintonia, com uma grande exibição e um grande entrosamento. Porém, vale ressaltar um ponto que engrandeceu ainda mais a atuação de todo o elenco; que é a sutileza de uma interpretação que é carregada nos detalhes de expressões, reações, olhares, ampliando todo um gestual que casou com perfeição entre os fortes diálogos.
Um grande filme precisa se destacar nas qualidades técnicas!
A trilha sonora dos compositores Christopher Bear e Daniel Rossen tocam o fundo de nossas almas. Temos aqui composições leves, singelas, com suaves melodias de pianos, que transmitia afeto, carinho, amor, ternura, que nos deixava emocionados, principalmente naquela cena final de despedida entre a Nora e o Hae Sung (por sinal, o ponto alto filme). O diretor de fotografia Shabier Kirchner ("Lovers Rock") faz um trabalho impecável, ajustado, compondo enquadramentos que nos aproximava cada vez mais dos personagens em cena.
"Vidas Passadas" arrecadou US$ 232.266 em quatro cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média de US$ 55.066. O longa recebeu cinco indicações no Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme - Drama. No Oscar, recebeu indicações para Melhor Roteiro Original e Melhor Filme (um grande feito e um grande reconhecimento para uma diretora estreante).
Encerro afirmando que a diretora Celine Song faz a sua estreia com o pé direito, pois ela compôs um lindo roteiro autoral, intimista, de grande valor sentimental, usando como base a sua trajetória de vida. Dessa forma ela conseguiu impactar com uma história forte, verdadeira, imponente, avassaladora, que nos confrontou com o poder da aceitação e das nossas escolhas, e nos mostrou uma nova perspectiva de como encarar um amor que ficou deixado para trás. Além de uma visão que nem sempre o amor é suficiente.
[31/01/2024]
Os Rejeitados
4.0 475Os Rejeitados (The Holdovers) 2023
"Os Rejeitados" é dirigido por Alexander Payne e escrito por David Hemingson em sua estreia como roteirista de um longa-metragem. O filme se passa no ano de 1970, e é estrelado por Paul Giamatti como um professor clássico rigoroso em um internato de uma pequena cidade em Massachusetts, que é forçado a acompanhar e ser o responsável por um grupo de alunos que estão retidos durante as férias de Natal.
Alexander Payne é um cineasta conhecido por ter uma opinião forte, por impor um senso de humor ácido aliado à um contexto satírico, o que muita das vezes compõe roteiros mais afiados, com um certo nível de críticas sociais, com monólogos e todo um desenvolvimento de personagem. Alexander já tem uma grande bagagem hollywoodiana, já foi indicado ao Oscar e já venceu por "Sideways" (2004) e "Os Descendentes" (2011).
Diferentemente dos dois filmes citados, em que Alexander Payne ganha o Oscar justamente pelo seu roteiro, em "Os Rejeitados" ele conta com um roteiro inteiramente escrito pelo roteirista David Hemingson. David sempre esteve mais envolvidos com roteiros de séries, como por exemplo: "How I Met Your Mother" (2005), "American Dad"(2005) e "Whiskey Cavalier" (2019). Aqui David surpreende ao trazer um roteiro que foca principalmente no estudo de personagem, no desenvolvimento de personagem, traçando uma linha entre uma comédia natalina e um profundo drama.
"Os Rejeitados" tem um início mais voltado ao desenvolvimento das grandes películas da década de 70, funcionando como resgate nostálgico da época, emulando toda aquela época, que foi justamente uma época marcada pelos grandes protestos, os grandes conflitos e as grandes mudanças em todo território norte americano. Este cenário é o pano de fundo do desenvolvimento de toda a história, já que no início temos o grupo dos "Rejeitados" que estão sobre a tutela daquele professor, que obrigatoriamente estão com os seus sonhos trancados e sofrem uma melancolia. É interessante notar que todos do grupo sofrem de alguma forma com aquele abandono de suas famílias, com aquela situação que estão passando, por mais que eles não admitam nem para eles próprios. E aqui entra a parte que o roteiro aborda questões humanas sobre o relacionamento humano entre pais, filhos e professores.
O roteiro foca no desenvolvimento de pontos como relacionamento, isolamento, crescimento, o teor da juventude, da aceitação e da superação. De início fica bem claro toda as questões que serão abordadas ao logo da trama, porém, logo após a parte que os três alunos (Teddy Kountze, Alex Ollerman e Ye-Joon Park) vão embora de helicóptero, o filme cresce ainda mais de rendimento, muda de tom, de ritmo e passamos a acompanhar aquele relacionamento conturbado que vai tomando forma entre mentor e aprendiz. Esta segunda parte é onde o filme constrói e estabelece sentimentos de solidão, conexão, reaproximação, libertação, transformação, criando um ambiente que percorre o sentimentalismo, a dor, a perda, o luto, o trauma e o abandono.
Nesse ponto o roteiro é muito hábil e muito inteligente ao traçar uma linha que percorre sobre o trio (Paul, Tully e Mary), mostrando suas diferenças, suas personalidades, seus conflitos, seus pensamentos, suas fragilidades, suas vulnerabilidades, o que logo corrobora para cada um lidar com suas dores, seus traumas e seus sofrimentos internos. O longa consegue abordar com maestria cada um desses pontos fazendo uma dosagem perfeita entre o sentimento de nostalgia, solidão, melancolia, mas sem desandar para o melodrama forçado e aidna conseguindo mesclar tudo dentro de uma comédia dramática. O mais interessante é a forma como o filme consegue manter o equilíbrio de todos os personagens, pois cada um tinha sua dor e seu sofrimento interno, e por mais que nenhum deles quisessem estar naquele local em uma data que remete a união familiar, mas logo eles vão se reencontrando, criando um vínculo improvável, um senso de união, uma forma para que juntos pudessem encarar suas diferenças enquanto atravessavam aquelas férias natalina.
"Os Rejeitados" é aquele típico caso que você lê a sinopse e não dá nada para o filme, e justamente, temos aquela história simples porém bem desenvolvida, bem contada, bem interpretada, com um tom sensível, emocionante, libertador, que logo nos prende e nos deixa confortável aquecendo os nossos corações. De fato é muito gostoso e muito comovente acompanhar aquele nascimento daquele relacionamento improvável entre aluno e professor, aidna mais se falando de duas pessoas que a princípio se mostram totalmente diferentes, com ideias e atitudes diferentes. Porém, com o passar da história vamos conhecendo melhor cada um e entendendo melhor cada um. Como no caso do Angus Tully (Dominic Sessa), que se mostra rebelde, insatisfeito, melancólico, e justamente pela sua criação, pelo abandono de sua família. Como na cena em que ele nos conta toda a sua história e logo após ele vai ao encontro do seu pai, que está internado por sofrer de uma doença mental debilitante, esquizofrenia paranoica e demência precoce. Ali já notamos toda a sua desconstrução e descaracterização daquela personalidade que conhecemos no início.
Dominic Sessa faz a sua estreia no cinema e de cara ele já nos surpreende com uma atuação forte, arrojada, competente, de um jovem rebelde, problemático, rejeitado, revoltado com a vida, tomado por dores e traumas familiares. Porém, logo ele nos conquista e nos convence pela sua sensibilidade, pelo seu carisma, pela sua naturalidade de atuar, que realmente nos desperta empatia e passamos a sentir as suas dores.
Já o Paul Giamatti (dos clássicos "O Show de Truman" e "O Resgate do Soldado Ryan") faz aquela linha de professor carrancudo, linha dura, com um olhar rigoroso e uma postura mais arrojada, que a principio transcende os seus limites até aquela conexão imediata e problemática com o Jovem Tully. Uma atuação extremamente perfeita e muito bem apresentada de Paul Giamatti, que navega em diferentes personalidades de seu personagem, nos expondo um lado rigoroso tomado de um senso de humor sarcástico, contrapondo com um lado mais humano, mais natural e mais sensível de um professor que cria empatia e compaixão pelo seu aluno.
E aqui vale destacar a enorme química alcançada entre o Dominic Sessa e o Paul Giamatti, que juntos estiveram o tempo todo em uma perfeita harmonia, sintonia, expondo carisma, sinergia, um senso de humor, um timing para as cenas mais cômicas, mais hilárias, mais casuais, e compondo duas personalidades que juntas se reencontraram com uma enorme transformação de caráter.
Completando o belo trio de "Os Rejeitados", temos a Da'Vine Joy Randolph ("Only Murders in the Building") que interpreta a cozinheira-chefe Mary Lamb. Mary é uma mulher ressentida, trancada dentro de si, enlutada pela perda do filho na guerra, que silenciosamente explora a sua dor e o seu trauma. Porém, ela é a peça-chave que começa a costurar as emendas do roteiro em relação a improvável convivência entre Paul e Tully. No fim ela é parte fundamental do trio, que juntos exploram suas dores, a profundidade da solidão e a essência da construção daquele relacionamento. E o mais interessante é que juntos eles conseguem encontrar conforto, carinho e afeto. Belíssima atuação de Da'Vine Joy Randolph, que nos conquistou pelo seu enorme carisma e seu ótimo trabalho.
E para contextualizar a enorme química do trio, temos algumas cenas que são interpretadas como uma verdadeira libertação.
Como por exemplo: aquela cena onde os três estão ao lado de fora do restaurante, onde juntos fizeram o seu próprio "Cherries Jubilee". Esta é uma cena incrível, onde já exemplifica o poder de um relacionamento construído como uma base familiar.
Aquela cena que o Paul defende o Tully na frente do diretor, da mãe e do padrasto, afirmando que a culpa era dele, ao levá-lo naquela férias e o convencer a visitar o pai. E o Paul sacrifica o seu emprego ali para evitar que o jovem fosse para uma escola militar. É uma cena que funciona como uma lavagem na alma do Paul, afinal de contas ele estava se doando e fazendo uma coisa boa, pois no fim ele conheceu a verdadeira personalidade do Tully e viu todo o seu potencial.
E no fim temos o fechamento com chave de ouro, o ápice de toda a trama; que é justamente a despedida do Paul e o Tully, com ele dizendo que não sabia o que o Paul tinha dito para seus pais e o diretor, mas que ele não iria mais ser expulso. Eles se despedem com um forte e verdadeiro aperto de mãos, com o Paul partindo comovido e o filme acabando. Este final é apoteótico, libertador, um afago em nosso coração, em nossa alma, funcionando como uma verdadeira lição de vida, de formação de carácter, de amadurecimento, de engrandecimento e de criação do ser humano.
Destacando as partes técnicas do filme:
A trilha sonora é melodramática, mas isso não quer dizer que é ruim e nem forçado, soa como necessária para acompanhar todo o desenrolar daquela história. Tanto que no início tínhamos uma trilha sonora mais potente, dado ao momento de rebeldia do grupo, logo após a trilha é mais densa, mais pesada, mais comovente, com melodias mais agravantes diante daquele cenário. Sem falar que ainda tínhamos algumas músicas natalinas, que personificou ainda mais a proposta do filme. A cinematografia é bem apresentada, cujo funcionamento esteve em perfeita harmonia com uma base sólida da fotografia. Sem falar na direção de arte, que também colaborou em grande estilo com cenários que nos remetia à década de 1970.
"Os Rejeitados" foi eleito um dos 10 melhores filmes de 2023 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute, e recebeu muitos outros prêmios, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante (Da'Vine Joy Randolph) e Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia (Paul Giamatti). Também recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator para Paul Giamatti, Melhor Atriz Coadjuvante para Da'Vine Joy Randolph e sete indicações ao BAFTA, incluindo Melhor Filme e Diretor.
"Os Rejeitados" arrecadou US$ 211.093 em seis cinemas em seu fim de semana de estreia, uma média de US$ 35.082 por local, totalizando US$ 26 milhões no geral.
Por fim: Alexander Payne nos brinda com um excelente filme que trata de uma leitura de personagem, de amizade, de avaliação comportamental, da criação de vínculos, de relacionamentos, analisando temas como melancolia, dor, luto, perdas e recomeços. Sem dúvida o filme consegue nos imergir em uma comédia dramática natalina inserida em uma releitura acerca da solidão, do abandono, da aceitação, da redenção, que nos mostra principalmente os nossos erros, a nossa superação e a reconstrução de relacionamentos quebrados entre pais e filhos.
"Os Rejeitados" é uma grata surpresa, pois no fim eu fiquei comovido e tocado pela sua linda mensagem, que inclui valores, conceitos, empatia, bondade, sensibilidade, e principalmente uma grande lição de vida.
[28/01/2024]