Em um determinado momento de “Sideral”, curta escrito e dirigido por Carlos Segundo, o marido olha para a esposa e pergunta se tá tudo bem com ela. A resposta vem seca: “estou cansada”.
O cansaço que a mulher se refere é o que advém de uma rotina que outras mulheres conhecem bem: aquela que envolve o equilíbrio do emprego com o cuidado com a casa, com os filhos e com o marido - que, por sua vez, é um parceiro que não oferece a ajuda e o apoio que ela precisa.
O seu silêncio atravessa outras tantas mulheres que compartilham dessa mesma realidade.
O olhar sobre o drama particular dessa família é o eixo narrativo que dá a liga a “Sideral”, um curta que se passa num momento de efervescência científica na cidade de Natal. A Barreira do Inferno, unidade pertencente à Força Aérea Brasileira, é o local de onde será lançado o primeiro foguete brasileiro tripulado.
“Sideral” concorreu à Palma de Ouro da 74ª edição do Festival de Cannes e foi selecionado na lista preliminar da categoria de Melhor Curta-Metragem no Oscar 2023.
A obra é dirigida e escrita por Carlos Segundo, cineasta e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Assistir a "Fartura", curta de Yasmin Thayná, é reviver memórias da minha infância, em que a família toda se reunia para celebrar/comemorar momentos especiais nos ambientes caseiros. Neste sentido, chama a atenção no curta a maneira como a diretora trabalha com os símbolos que remetem ao sentido de comemoração: a comida (farta), a música, a religião, a família, a decoração, as bebidas. Tudo reforçando o sentido do Aprender, do Fazer e do Memorar - os capítulos que integram essa história. Um filme marcado pelo afeto que nos faz sentir.
"Esta Não é a Sua Vida". Afirmações absurdas, mistura de ficção com realidade. O que seria real? O que seria ficção? Jorge Furtado faz um filme que elabora uma visão interessante sobre a vida, a monotonia da vida, as escolhas que fazemos, o rumo que tomamos. Um filme repleto de simplicidade e de um senso de humor único.
A alternância entre as imagens que mostram a perspectiva de quem Kadu é, como pessoa, com as que retratam a sua atuação como um dos líderes da Ocupação Vitória, na passeata que eles realizaram/promoveram. Curta documental de estética crua, condizente com a realidade que quer mostrar.
O curta-metragem “E Depois?”, dirigido e co-escrito por Misan Harriman, é um lembrete a todos nós de como, na vida, tudo acontece em uma questão de segundos. Sejam as tragédias pessoais, sejam os encontros fortuitos do dia a dia, sejam os momentos de apreensão, sejam as alegrias, sejam aqueles gatilhos que mexem com a gente a ponto de transbordar tudo aquilo que estava guardado dentro de nós.
Baseado em fatos reais, o curta-metragem de animação “The Flying Sailor”, dirigido e escrito por Amanda Forbis e Wendy Tilby, conta a história de um marinheiro atingido pela Explosão de Halifax, em 06 de dezembro de 1917.
O desastre ocorreu quando um navio de carga francês carregado com explosivos colidiu com um outro navio, causando a morte de 2.000 pessoas e deixando outras 9.000 feridas.
O curta-metragem enfoca um marinheiro em particular vítima da tragédia. Ao longo dos 8 minutos do vídeo, acompanhamos, de uma forma bastante poética, a jornada dele após tão difícil acontecimento, enquanto ele vê flashes de sua vida passando diante de seus olhos.
Assistir a “The Flying Sailor” nos causa a inevitável sensação de questionamento: “no que você pensaria enquanto fazia uma viagem parecida?”.
O curta-metragem de animação “My Year of Dicks”, dirigido por Sara Gunnarsdóttir, tendo como base as memórias de Pamela Ribon, relata a busca de Pam, a personagem principal, pela perda da virgindade, aos 15 anos, na cidade de Houston.
Dividido em cinco capítulos, cada uma das partes do curta enfoca um tipo masculino com o qual Pam cruza em seu caminho. Cada um desses encontros acaba servindo também como propósito para discutir a descoberta da sexualidade, a amizade, as dúvidas sobre os relacionamentos e, por quê não, a falta de maturidade dela diante da situação que ela tanto busca resolver.
Embora não traga nada de novo em relação à discussão desse assunto (que é abordado com bastante frequência pelo cinema), “My Year of Dicks” acaba chamando a atenção pela forma descontraída e bem humorada como trata o seu tema principal.
O curta-metragem “Le Pupille”, dirigido e co-escrito por Alice Rohrwacher, se passa num internato católico dirigido a meninas, num período de sacrifícios e de uma grande guerra. A trama se passa nos dias que antecedem o Natal, quase como uma crônica da rotina do local.
Por isso mesmo, “Le Pupille” tem algumas figuras bastante caricatas deste tipo de realidade: a madre superiora rígida, as crianças aventureiras e rebeldes, as freiras que são mais empáticas com as crianças e os visitantes que mexem com o imaginário do internato são algumas delas.
Porém, o que chama mesmo a atenção em “Le Pupille” é a forma como o curta brinca com as convenções, principalmente com aquilo que a plateia espera ao assistir a uma obra como essa. Ao se permitir ter esse tom irônico, “Le Pupille” nos mostra que, na realidade, a vida é um produto do grande acaso do destino. Podemos até querer planejá-la ou querer tomar as rédeas do jogo, mas a vida está sempre pronta para nos surpreender. E temos que estar abertos ao inesperado.
“O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo”. São estes seres, com características distintas e particularidades próprias, que se unem no curta de animação dirigido por Peter Baynton e Charlie Mackesy (autor do livro que inspirou o curta). A obra segue a amizade improvável que surge entre eles, enquanto os animais ajudam o menino na busca por um lar.
Mas, afinal o que é um lar? A primeira ideia que passa na nossa mente é a de casa, o local onde encontramos segurança e nos abrigamos diariamente. Porém, existe um ditado norte-americano que casa muito bem com a ideia de lar que o curta nos apresenta: “home is where the heart is” (“lar é onde o seu coração está”).
O que “O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo” nos mostra é justamente isso: a ideia do lar ligado ao amor, aqui representado pelas figuras que nós amamos. O menino irá se sentir seguro ao lado de quem está com ele nos momentos mais difíceis. E aqui está uma das belezas do curta: nos mostrar que o amor vai além das nossas diferenças, vai além da pele que vestimos, vai além daquilo que representamos.
Produzido por J.J. Abrams e com produção executiva do ator Woody Harrelson, “O Menino, a Toupeira. a Raposa e o Cavalo” está indicado ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Curta de Animação. Como se pode perceber pela nossa resenha crítica, o curta possui uma bonita mensagem, transmitida para nós por meio de diálogos que carregam em si frases de efeito que potencializam a sua temática principal.
A protagonista do curta de animação “A Sabiá Sabiazinha”, dirigido por Daniel Ojari e Michael Please, é uma passarinha que foi criada por uma família de ratos camundongos. Sentindo-se deslocada, com o desejo de aceitação e de autoafirmação, a jornada de Robin é em busca de provar que ela pode ser uma ratinha ágil e que causa orgulho para os seus semelhantes.
Só que o interessante do caminho que Robin percorre é que ela, ao tentar se adequar à realidade que ela já conhece, acaba se descobrindo de verdade, como a passarinha que é.
O fato de “A Sabiá Sabiazinha” se passar no período natalino, em que temos, naturalmente, esse senso de renovação, faz com que a mensagem do filme se torne ainda mais especial.
Nos seus 22 minutos, o documentário de curta-metragem “Três Canções para Benazir”, dirigido por Elizabeth Mirzaei e Gulistan Mirzaei, aborda o relacionamento entre Shaista e Benazir, dois jovens afegãos, desde o momento em que há o cortejamento, até o instante em que a família que o casal forma se concretiza, com o nascimento de seus dois filhos.
O propósito do documentário é nos mostrar os desafios que Shaista tem como provedor da casa, principalmente a sua ambição em proporcionar à família uma vida melhor. O caminho que ele enxerga (o do alistamento no exército de seu país) tem implicações para todos eles, nos lembrando de que as escolhas e as responsabilidades da vida adulta não são para qualquer um e, cada um de nós, temos nossas batalhas íntimas a travar.
Um curta-metragem como “Perdoai-nos as Nossas Ofensas”, dirigido por Ashley Eakin, nunca perde a sua urgência, pois o tema que ele retrata é daqueles que merece sempre a nossa lembrança - e vigilância.
Ao longo dos seus 14 minutos de duração, acompanharemos a história de um menino portador de deficiência física, que vive na Alemanha do regime nazista. Sua mãe é professora e, na medida em que a trama se desenvolve, ficamos com aquela incômoda sensação de que algo ruim está por vir.
O que assistimos em “Perdoai-nos as Nossas Ofensas” foi o resultado de um plano implementado pelo regime nazista, que ganhou o nome de Aktion T4. Por meio dele, médicos autorizaram o assassinato de milhares de pessoas consideradas “incuravelmente doentes”.
Nos créditos finais do curta-metragem, eles mencionam alguns números: 300.000 portadores de deficiência (dentre eles, muitas crianças) foram mortos, enquanto 400.000 foram esterilizados. Além disso, incluem mais um dado histórico: o de que o Aktion T4 desenvolveu a tecnologia de câmaras de gás utilizadas no campo de concentração da II Guerra Mundial.
Estas histórias não podem e não devem ser esquecidas.
O curta-metragem "Napo", dirigido e co-escrito por Gustavo Ribeiro, é uma obra sobre memórias - mais precisamente sobre como elas são construídas.
O roteiro escrito por Ribeiro e Gabriela Antonia Rosa nos coloca diante de um senhor idoso que, devido ao agravamento de sua doença, precisa se mudar para a casa de sua filha. Em meio a esse movimento, o seu neto encontra uma forma de se conectar com o avô por meio da recriação, em desenho, das suas fotos de família.
Por sua vez, ao vivenciar suas memórias por meio da visão do neto, o senhor idoso se conecta também consigo mesmo e com a sua história.
Enquanto eu assisti a "Napo", me veio instantaneamente à mente, obras como "Up - Altas Aventuras", filme dirigido por Pete Docter e Bob Peterson. Está claro que o diretor Gustavo Ribeiro bebe muito na fonte do tipo de animação que é feita pela Pixar. E o resultado que vemos em tela é tão emocionante quanto os objetos de inspiração do diretor.
"Napo" é um curta-metragem também sobre conexão, e nisso a obra é extremamente bem-sucedida conosco.
Este curta-metragem é uma daquelas obras que será necessário assistir várias vezes, de forma a podermos absorver cada ideia apresentada. Por meio de uma grande pirâmide, vemos diversos momentos da humanidade serem representados - relacionados à revolução industrial, à religião, à violência, às relações políticas e sociais. Uma obra engenhosa e interessante!
“Genius Loci” é um curta-metragem francês de animação, que possui cores vibrantes e um uso muito bom da trilha sonora. O problema maior dele está no roteiro, que é confuso. O que eu consegui absorver é que o curta retrata a confusão íntima dos pensamentos dos personagens. A partir de determinadas situações que eles vivem, a confusão de pensamentos fica mais evidente.
Revisitar o passado nem sempre é fácil. Doi, machuca. Mas, às vezes, é necessário. O curta-metragem "Colette", dirigido e escrito por Anthony Giacchino, nos relata uma história desse tipo. Colette Marin-Catherine e Lucie Foble irão voltar ao passado, porém por motivos diferentes.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Colette foi integrante da Resistência Francesa contra o regime nazista de Adolf Hitler. Seu irmão, Jean Pierre, foi morto num dos campos de concentração mantidos pelo regime. Pelo período de 74 anos, Colette se recusou a pôr os pés na Alemanha. Porém, quando Lucie, uma estudante de História, entra na sua vida com o propósito de contar a história do seu irmão, Colette repensa a sua decisão.
O curta acompanha, portanto, a visita que Colette e Lucie fazem ao campo de concentração Mittelbau-Dora, que foi onde Jean Pierre foi mantido prisioneiro e, consequentemente, morto. Colette revisita o passado para reencontrar a memória do seu irmão (e todas as velhas feridas que a dor de sua perda a causam). Lucie acredita que estudar o passado é necessário para que evitemos que os mesmos erros sejam cometidos no presente.
Esta dualidade é um dos elementos mais poderosos em "Colette". Embora as duas tenham propósitos diferentes, nunca podemos nos esquecer da questão humana. Entrar num campo de concentração não deve ser fácil. A empatia, conexão e trocas entre Colette e Lucie nos ensinam tanto quanto os terrores do que elas querem nos advertir.
No início do curta-metragem "A Concerto is a Conversation", dirigido por Kris Bowers e Ben Proudfoot, o pianista e compositor Bowers (cujos trabalhos podem ser vistos nas trilhas sonoras de obras como "Green Book: O Guia", "Olhos que Condenam" e "Bridgerton", somente para citar algumas) define o que é um concerto: uma conversa entre a orquestra e o solista.
De uma certa forma, o que iremos assistir durante o curta-metragem é a um concerto: uma conversa entre Kris e seu avô Horace, que saiu de uma origem humilde na Flórida e superou as barreiras existentes naquela época - notadamente, o racismo -, para conseguir ter uma trajetória de sucesso, não só como homem de família, mas também como empresário, dono de uma rede de lavanderias.
"A Concerto is a Conversation" não deixa de ser, então, um tributo para pessoas como Horace, que desbravaram caminhos tortuosos para que Kris, por exemplo, tivesse a oportunidade de ver um de seus concertos serem encenados no Walt Disney Concert Hall. O senso de gratidão está presente em cada cena do curta.
E o legal nessa história toda é que a gente sabe que o legado continuará: Horace veio primeiro e Kris, agora, pavimenta o caminho para que futuras gerações possam explorar e viver os seus próprios momentos.
O curta-metragem “Feeling Through”, dirigido e escrito por Doug Roland, se passa durante uma madrugada, em que um jovem chamado Tereek (Steven Prescod) ajuda um homem chamado Artie (Robert Tarango), portador de deficiência auditiva e visual, a atravessar a rua e pegar um ônibus pra chegar em casa.
Na interação que ocorre entre as duas personagens, a mensagem do curta nos é passada. Para tanto, precisamos compreender a história prévia do jovem, que está passando um momento delicado. Ele não tem um local para dormir (dependendo da ajuda de amigos) e não tem também como prover seu sustento.
Ao entrar em contato com Artie (o ator que o interpreta também é portador de deficiência visual e auditiva na vida real), o que Tereek vai aprender acaba sendo também um lembrete para todos nós: às vezes, enxergamos os nossos problemas como limitadores, porém, quando a gente vê pessoas como Artie, que superam a cada dia diversas barreiras, a gente percebe o quanto os nossos problemas são pequenos.
Tereek não será mais o mesmo após o encontro com Artie. Ele estará pronto para se colocar no mundo com mais empatia. Que aprendamos o mesmo! ☺️
Hollywood já nos ensinou que, em filmes que possuem o recurso narrativo do loop temporal, quando você modifica o curso dos acontecimentos, os efeitos podem ser irreversíveis. Não é isso que ocorre durante o curta-metragem "Dois Estranhos", dirigido por Travon Free (também autor do roteiro) e Martin Desmond Roe. Nele, um jovem cartunista chamado Carter (Joey Bada$$) está preso na mesma manhã, e não importa o que ele faça, o seu destino será o mesmo.
A sensação de inquietação e de desespero de Carter com o seu desfecho é o que move ele a cada novo despertar. Por falar no término do protagonista, vivenciar tudo aquilo novamente, e de formas diversas, só nos mostra que o racismo do qual Carter é vítima é um mal enraizado na nossa sociedade. As atitudes do policial Merk (Andrew Howard) são um reflexo de séculos de pré-conceitos e de preconceitos.
"Dois Estranhos" é um filme que, nos seus 30 minutos de duração, possui uma mensagem muito forte, de crítica social contra o racismo e contra a truculência da abordagem policial quando se depara com um jovem negro como Carter.
Carter só queria chegar em casa para ver seu cachorro. George Floyd só tinha ido ao supermercado. Latasha só queria comprar um suco de laranja. São histórias, nomes, vítimas que se repetem. A urgência da mensagem de "Dois Estranhos" é para que pessoas como eles não sejam esquecidas. Eles devem ser lembrados por todos nós.
Eu não sei quanto a vocês, mas eu já tentei montar um Cubo Mágico (também conhecido como Cubo de Rubik), que é um daqueles quebra-cabeças tridimensional, e nunca consegui. E, sinceramente, nem sei se tenho a paciência e a concentração lógica necessárias para isso. O documentário de curta-metragem "Magos do Cubo", dirigido por Sue Kim, acompanha a história de dois mestres nesse tipo de modalidade.
Feliks Zemdegs, que, atualmente, tem 25 anos, foi o primeiro grande nome da modalidade, detentor de vários recordes mundiais com o Cubo Mágico, e duas vezes campeão mundial da categoria. Já Max Park, que, atualmente, tem 19 anos, pode ser considerado como o sucessor de Feliks: também detentor de vários recordes mundiais e vencedor de 297 eventos da modalidade mundo afora, mas ainda com o título mundial a ser conquistado.
"Magos do Cubo" nos insere dentro de um universo diferente (o das competições de Cubo Mágico), enfocando essas duas figuras que, apesar de compartilharem o amor pela categoria e o incentivo de amigos e familiares, são muito diferentes um do outro. Feliks enxerga a competição como uma forma de diversão e de poder compartilhar aquilo que ele mais gosta de fazer com outras pessoas que pensam do mesmo jeito que ele. Para Max, que foi diagnosticado com autismo severo ainda na infância, as competições são uma forma que ele - e sua família - encontraram para que ele trabalhasse as suas habilidades sociais e cognitivas.
Um dos elementos mais bacanas em "Magos do Cubo" é que o documentário nos mostra que, ao contrário do que qualquer um de nós pudéssemos esperar, não existe rivalidade entre Feliks e Max. Pelo contrário, existe o orgulho pelas conquistas um do outro e, principalmente, o incentivo, a parceria e a amizade. Max enxerga Feliks como seu grande ídolo. Feliks, por sua vez, pensa em Max como o futuro e como a continuidade de seus feitos.
Quando foi assassinada, no dia 16 de março de 1991, Latasha Harlins tinha 15 anos. O motivo da sua morte não poderia ter sido mais fútil: a dona de uma loja de conveniência atirou diversas vezes contra ela por suspeitar que ela estaria roubando um suco de laranja. Latasha caiu com o dinheiro - menos de 4 dólares - para pagar o suco nas suas mãos.
Além de ter sido uma vítima da intolerância, da violência e do preconceito, a memória de Latasha ainda foi manchada pelo julgamento de sua assassina - a qual foi condenada a 5 anos de liberdade condicional, 400 horas de serviço comunitário e restituição de 500 dólares e das despesas do funeral.
Foram os assassinatos de Latasha e do motorista negro Rodney King que foram fundamentais para os Distúrbios de Los Angeles, que ocorreram em 29 de abril de 1992, e que foram caracterizados por milhares de pessoas se revoltando contra as consequências dos júris de ambos os crimes, num conflito que ocasionou saques, assaltos, incêndios, assassinatos, dentre tantos outros danos materiais.
O documentário de curta-metragem "Uma Canção para Latasha", dirigido por Sophia Nahli Allison, reúne depoimentos da prima e da melhor amiga de Latasha, com o objetivo de contar a história dela de uma forma intimista; e também de nos reforçar como o acontecimento trágico que os envolveu fez com que estas pessoas transformassem o luto em LUTA. É uma obra curta (somente 18 minutos), mas muito emblemática de tudo o que crimes como o que atingem pessoas como Latasha representam na nossa sociedade.
Quem ama o cinema sabe que, muitas vezes, desenvolvemos uma relação especial - seja com um ator, com uma atriz, com um filme que nos marcou. Isso acontece também em outras searas artísticas, como a música, a pintura, o teatro, dentre outros.
O documentário de curta-metragem "O Que Sophia Loren Faria?", dirigido por Ross Kauffman, retrata uma situação deste tipo. Nancy Vincenza Kulik, uma avó de origem ítalo-americana que reside em Nova Jersey, cresceu assistindo aos filmes do seu país e, na medida em que sua vida foi evoluindo, ela passou a se inspirar naquela que era uma das maiores estrelas do cinema italiano: Sophia Loren.
O interessante no documentário é que ele faz um paralelo entre as duas mulheres. Nancy e Sophia, apesar de todas as diferenças que as separam, têm em comum entre si os conflitos que unem muitas mulheres e que estão relacionados à carreira, ao amor, à maternidade e às perdas. Ao final, fica uma certeza: da mesma forma que Nancy se perguntava o que Sophia faria diante dos desafios da vida; não seria surpresa nenhuma se a pergunta fosse contrária. Tanto uma, como outra, são mulheres admiráveis!
A ideia de que "a grama do vizinho sempre é mais verde" é algo que foi potencializado nos últimos anos, principalmente com as redes sociais. A vida do outro sempre parece mais interessante, mais viva, mais agitada do que a sua própria. Quando, na verdade, a gente não sabe do que se passa verdadeiramente entre as quatro paredes dos apartamentos; ou por trás da tela do smartphone.
A mensagem por trás de "A Janela dos Vizinhos", curta vencedor do Oscar 2020 da categoria, passa por três caminhos. O primeiro deles é: seja grato pelo que você tem - mesmo que a rotina seja difícil ou extenuante. O segundo deles é: viva intensamente cada momento. O terceiro deles é: nada é aquilo que parece ser e nem tudo é a perfeição que aparenta ser. Todo mundo, independente do seu estágio de vida, tem problemas a lidar. A diferença é que existem pessoas que disfarçam isso melhor que os outros.
Assim como outro curta-metragem recente produzido pela Netflix ("Se Algo Acontecer... Te Amo", de Will McCormack e Michael Govier), "Canvas", curta dirigido e escrito por Frank E. Abney III, também aborda a dor da perda de um ente querido e amado e sobre como a vivência do luto nos deixa paralisados, a ponto de nos tirar o gosto pelas coisas que mais amamos fazer na vida.
No caso de "Canvas", os seus 9 minutos de duração acompanham um senhor idoso que passou pela perda recente da esposa e que, em decorrência disso, não consegue mais recuperar a sua paixão pela pintura. O curta repete as situações que ele vive, na companhia da neta, para enfatizar o fato de que mesmo, com todo o apoio e amor ao seu redor, ele sempre acaba esbarrando na falta de inspiração para pintar novamente.
O acontecimento mais importante de "Canvas" ocorre quando o personagem central se reconecta consigo mesmo e reencontra o mundo colorido que existe à sua volta, pronto para ser criado e traduzido nas telas em branco de seu cavalete.
"Canvas" pode não ter o mesmo impacto dilarecente de "Se Algo Acontecer... Te Amo", mas vale pela abordagem de uma perspectiva diferente sobre o luto.
Sideral
3.9 25 Assista AgoraEm um determinado momento de “Sideral”, curta escrito e dirigido por Carlos Segundo, o marido olha para a esposa e pergunta se tá tudo bem com ela. A resposta vem seca: “estou cansada”.
O cansaço que a mulher se refere é o que advém de uma rotina que outras mulheres conhecem bem: aquela que envolve o equilíbrio do emprego com o cuidado com a casa, com os filhos e com o marido - que, por sua vez, é um parceiro que não oferece a ajuda e o apoio que ela precisa.
O seu silêncio atravessa outras tantas mulheres que compartilham dessa mesma realidade.
O olhar sobre o drama particular dessa família é o eixo narrativo que dá a liga a “Sideral”, um curta que se passa num momento de efervescência científica na cidade de Natal. A Barreira do Inferno, unidade pertencente à Força Aérea Brasileira, é o local de onde será lançado o primeiro foguete brasileiro tripulado.
“Sideral” concorreu à Palma de Ouro da 74ª edição do Festival de Cannes e foi selecionado na lista preliminar da categoria de Melhor Curta-Metragem no Oscar 2023.
A obra é dirigida e escrita por Carlos Segundo, cineasta e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Fartura
4.2 4Assistir a "Fartura", curta de Yasmin Thayná, é reviver memórias da minha infância, em que a família toda se reunia para celebrar/comemorar momentos especiais nos ambientes caseiros. Neste sentido, chama a atenção no curta a maneira como a diretora trabalha com os símbolos que remetem ao sentido de comemoração: a comida (farta), a música, a religião, a família, a decoração, as bebidas. Tudo reforçando o sentido do Aprender, do Fazer e do Memorar - os capítulos que integram essa história. Um filme marcado pelo afeto que nos faz sentir.
Esta Não é a Sua Vida
4.0 31"Esta Não é a Sua Vida". Afirmações absurdas, mistura de ficção com realidade. O que seria real? O que seria ficção? Jorge Furtado faz um filme que elabora uma visão interessante sobre a vida, a monotonia da vida, as escolhas que fazemos, o rumo que tomamos. Um filme repleto de simplicidade e de um senso de humor único.
Na Missão, com Kadu
4.2 3A alternância entre as imagens que mostram a perspectiva de quem Kadu é, como pessoa, com as que retratam a sua atuação como um dos líderes da Ocupação Vitória, na passeata que eles realizaram/promoveram. Curta documental de estética crua, condizente com a realidade que quer mostrar.
E Depois?
3.2 76 Assista AgoraO curta-metragem “E Depois?”, dirigido e co-escrito por Misan Harriman, é um lembrete a todos nós de como, na vida, tudo acontece em uma questão de segundos. Sejam as tragédias pessoais, sejam os encontros fortuitos do dia a dia, sejam os momentos de apreensão, sejam as alegrias, sejam aqueles gatilhos que mexem com a gente a ponto de transbordar tudo aquilo que estava guardado dentro de nós.
The Flying Sailor
2.8 38Baseado em fatos reais, o curta-metragem de animação “The Flying Sailor”, dirigido e escrito por Amanda Forbis e Wendy Tilby, conta a história de um marinheiro atingido pela Explosão de Halifax, em 06 de dezembro de 1917.
O desastre ocorreu quando um navio de carga francês carregado com explosivos colidiu com um outro navio, causando a morte de 2.000 pessoas e deixando outras 9.000 feridas.
O curta-metragem enfoca um marinheiro em particular vítima da tragédia. Ao longo dos 8 minutos do vídeo, acompanhamos, de uma forma bastante poética, a jornada dele após tão difícil acontecimento, enquanto ele vê flashes de sua vida passando diante de seus olhos.
Assistir a “The Flying Sailor” nos causa a inevitável sensação de questionamento: “no que você pensaria enquanto fazia uma viagem parecida?”.
My Year of Dicks
3.3 35O curta-metragem de animação “My Year of Dicks”, dirigido por Sara Gunnarsdóttir, tendo como base as memórias de Pamela Ribon, relata a busca de Pam, a personagem principal, pela perda da virgindade, aos 15 anos, na cidade de Houston.
Dividido em cinco capítulos, cada uma das partes do curta enfoca um tipo masculino com o qual Pam cruza em seu caminho. Cada um desses encontros acaba servindo também como propósito para discutir a descoberta da sexualidade, a amizade, as dúvidas sobre os relacionamentos e, por quê não, a falta de maturidade dela diante da situação que ela tanto busca resolver.
Embora não traga nada de novo em relação à discussão desse assunto (que é abordado com bastante frequência pelo cinema), “My Year of Dicks” acaba chamando a atenção pela forma descontraída e bem humorada como trata o seu tema principal.
Le Pupille
3.5 45O curta-metragem “Le Pupille”, dirigido e co-escrito por Alice Rohrwacher, se passa num internato católico dirigido a meninas, num período de sacrifícios e de uma grande guerra. A trama se passa nos dias que antecedem o Natal, quase como uma crônica da rotina do local.
Por isso mesmo, “Le Pupille” tem algumas figuras bastante caricatas deste tipo de realidade: a madre superiora rígida, as crianças aventureiras e rebeldes, as freiras que são mais empáticas com as crianças e os visitantes que mexem com o imaginário do internato são algumas delas.
Porém, o que chama mesmo a atenção em “Le Pupille” é a forma como o curta brinca com as convenções, principalmente com aquilo que a plateia espera ao assistir a uma obra como essa. Ao se permitir ter esse tom irônico, “Le Pupille” nos mostra que, na realidade, a vida é um produto do grande acaso do destino. Podemos até querer planejá-la ou querer tomar as rédeas do jogo, mas a vida está sempre pronta para nos surpreender. E temos que estar abertos ao inesperado.
O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo
4.0 157 Assista Agora“O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo”. São estes seres, com características distintas e particularidades próprias, que se unem no curta de animação dirigido por Peter Baynton e Charlie Mackesy (autor do livro que inspirou o curta). A obra segue a amizade improvável que surge entre eles, enquanto os animais ajudam o menino na busca por um lar.
Mas, afinal o que é um lar? A primeira ideia que passa na nossa mente é a de casa, o local onde encontramos segurança e nos abrigamos diariamente. Porém, existe um ditado norte-americano que casa muito bem com a ideia de lar que o curta nos apresenta: “home is where the heart is” (“lar é onde o seu coração está”).
O que “O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo” nos mostra é justamente isso: a ideia do lar ligado ao amor, aqui representado pelas figuras que nós amamos. O menino irá se sentir seguro ao lado de quem está com ele nos momentos mais difíceis. E aqui está uma das belezas do curta: nos mostrar que o amor vai além das nossas diferenças, vai além da pele que vestimos, vai além daquilo que representamos.
Produzido por J.J. Abrams e com produção executiva do ator Woody Harrelson, “O Menino, a Toupeira. a Raposa e o Cavalo” está indicado ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Curta de Animação. Como se pode perceber pela nossa resenha crítica, o curta possui uma bonita mensagem, transmitida para nós por meio de diálogos que carregam em si frases de efeito que potencializam a sua temática principal.
A Sabiá Sabiazinha
3.5 70 Assista AgoraA protagonista do curta de animação “A Sabiá Sabiazinha”, dirigido por Daniel Ojari e Michael Please, é uma passarinha que foi criada por uma família de ratos camundongos. Sentindo-se deslocada, com o desejo de aceitação e de autoafirmação, a jornada de Robin é em busca de provar que ela pode ser uma ratinha ágil e que causa orgulho para os seus semelhantes.
Só que o interessante do caminho que Robin percorre é que ela, ao tentar se adequar à realidade que ela já conhece, acaba se descobrindo de verdade, como a passarinha que é.
O fato de “A Sabiá Sabiazinha” se passar no período natalino, em que temos, naturalmente, esse senso de renovação, faz com que a mensagem do filme se torne ainda mais especial.
Três Canções para Benazir
3.2 50 Assista AgoraNos seus 22 minutos, o documentário de curta-metragem “Três Canções para Benazir”, dirigido por Elizabeth Mirzaei e Gulistan Mirzaei, aborda o relacionamento entre Shaista e Benazir, dois jovens afegãos, desde o momento em que há o cortejamento, até o instante em que a família que o casal forma se concretiza, com o nascimento de seus dois filhos.
O propósito do documentário é nos mostrar os desafios que Shaista tem como provedor da casa, principalmente a sua ambição em proporcionar à família uma vida melhor. O caminho que ele enxerga (o do alistamento no exército de seu país) tem implicações para todos eles, nos lembrando de que as escolhas e as responsabilidades da vida adulta não são para qualquer um e, cada um de nós, temos nossas batalhas íntimas a travar.
Perdoai-nos as Nossas Ofensas
3.6 47 Assista AgoraUm curta-metragem como “Perdoai-nos as Nossas Ofensas”, dirigido por Ashley Eakin, nunca perde a sua urgência, pois o tema que ele retrata é daqueles que merece sempre a nossa lembrança - e vigilância.
Ao longo dos seus 14 minutos de duração, acompanharemos a história de um menino portador de deficiência física, que vive na Alemanha do regime nazista. Sua mãe é professora e, na medida em que a trama se desenvolve, ficamos com aquela incômoda sensação de que algo ruim está por vir.
O que assistimos em “Perdoai-nos as Nossas Ofensas” foi o resultado de um plano implementado pelo regime nazista, que ganhou o nome de Aktion T4. Por meio dele, médicos autorizaram o assassinato de milhares de pessoas consideradas “incuravelmente doentes”.
Nos créditos finais do curta-metragem, eles mencionam alguns números: 300.000 portadores de deficiência (dentre eles, muitas crianças) foram mortos, enquanto 400.000 foram esterilizados. Além disso, incluem mais um dado histórico: o de que o Aktion T4 desenvolveu a tecnologia de câmaras de gás utilizadas no campo de concentração da II Guerra Mundial.
Estas histórias não podem e não devem ser esquecidas.
Napo
4.0 10O curta-metragem "Napo", dirigido e co-escrito por Gustavo Ribeiro, é uma obra sobre memórias - mais precisamente sobre como elas são construídas.
O roteiro escrito por Ribeiro e Gabriela Antonia Rosa nos coloca diante de um senhor idoso que, devido ao agravamento de sua doença, precisa se mudar para a casa de sua filha. Em meio a esse movimento, o seu neto encontra uma forma de se conectar com o avô por meio da recriação, em desenho, das suas fotos de família.
Por sua vez, ao vivenciar suas memórias por meio da visão do neto, o senhor idoso se conecta também consigo mesmo e com a sua história.
Enquanto eu assisti a "Napo", me veio instantaneamente à mente, obras como "Up - Altas Aventuras", filme dirigido por Pete Docter e Bob Peterson. Está claro que o diretor Gustavo Ribeiro bebe muito na fonte do tipo de animação que é feita pela Pixar. E o resultado que vemos em tela é tão emocionante quanto os objetos de inspiração do diretor.
"Napo" é um curta-metragem também sobre conexão, e nisso a obra é extremamente bem-sucedida conosco.
Opera
3.8 55Este curta-metragem é uma daquelas obras que será necessário assistir várias vezes, de forma a podermos absorver cada ideia apresentada. Por meio de uma grande pirâmide, vemos diversos momentos da humanidade serem representados - relacionados à revolução industrial, à religião, à violência, às relações políticas e sociais. Uma obra engenhosa e interessante!
Genius Loci
3.1 55“Genius Loci” é um curta-metragem francês de animação, que possui cores vibrantes e um uso muito bom da trilha sonora. O problema maior dele está no roteiro, que é confuso. O que eu consegui absorver é que o curta retrata a confusão íntima dos pensamentos dos personagens. A partir de determinadas situações que eles vivem, a confusão de pensamentos fica mais evidente.
Colette
3.7 34 Assista AgoraRevisitar o passado nem sempre é fácil. Doi, machuca. Mas, às vezes, é necessário. O curta-metragem "Colette", dirigido e escrito por Anthony Giacchino, nos relata uma história desse tipo. Colette Marin-Catherine e Lucie Foble irão voltar ao passado, porém por motivos diferentes.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Colette foi integrante da Resistência Francesa contra o regime nazista de Adolf Hitler. Seu irmão, Jean Pierre, foi morto num dos campos de concentração mantidos pelo regime. Pelo período de 74 anos, Colette se recusou a pôr os pés na Alemanha. Porém, quando Lucie, uma estudante de História, entra na sua vida com o propósito de contar a história do seu irmão, Colette repensa a sua decisão.
O curta acompanha, portanto, a visita que Colette e Lucie fazem ao campo de concentração Mittelbau-Dora, que foi onde Jean Pierre foi mantido prisioneiro e, consequentemente, morto. Colette revisita o passado para reencontrar a memória do seu irmão (e todas as velhas feridas que a dor de sua perda a causam). Lucie acredita que estudar o passado é necessário para que evitemos que os mesmos erros sejam cometidos no presente.
Esta dualidade é um dos elementos mais poderosos em "Colette". Embora as duas tenham propósitos diferentes, nunca podemos nos esquecer da questão humana. Entrar num campo de concentração não deve ser fácil. A empatia, conexão e trocas entre Colette e Lucie nos ensinam tanto quanto os terrores do que elas querem nos advertir.
A Concerto Is a Conversation
3.6 29No início do curta-metragem "A Concerto is a Conversation", dirigido por Kris Bowers e Ben Proudfoot, o pianista e compositor Bowers (cujos trabalhos podem ser vistos nas trilhas sonoras de obras como "Green Book: O Guia", "Olhos que Condenam" e "Bridgerton", somente para citar algumas) define o que é um concerto: uma conversa entre a orquestra e o solista.
De uma certa forma, o que iremos assistir durante o curta-metragem é a um concerto: uma conversa entre Kris e seu avô Horace, que saiu de uma origem humilde na Flórida e superou as barreiras existentes naquela época - notadamente, o racismo -, para conseguir ter uma trajetória de sucesso, não só como homem de família, mas também como empresário, dono de uma rede de lavanderias.
"A Concerto is a Conversation" não deixa de ser, então, um tributo para pessoas como Horace, que desbravaram caminhos tortuosos para que Kris, por exemplo, tivesse a oportunidade de ver um de seus concertos serem encenados no Walt Disney Concert Hall. O senso de gratidão está presente em cada cena do curta.
E o legal nessa história toda é que a gente sabe que o legado continuará: Horace veio primeiro e Kris, agora, pavimenta o caminho para que futuras gerações possam explorar e viver os seus próprios momentos.
Feeling Through
3.9 56O curta-metragem “Feeling Through”, dirigido e escrito por Doug Roland, se passa durante uma madrugada, em que um jovem chamado Tereek (Steven Prescod) ajuda um homem chamado Artie (Robert Tarango), portador de deficiência auditiva e visual, a atravessar a rua e pegar um ônibus pra chegar em casa.
Na interação que ocorre entre as duas personagens, a mensagem do curta nos é passada. Para tanto, precisamos compreender a história prévia do jovem, que está passando um momento delicado. Ele não tem um local para dormir (dependendo da ajuda de amigos) e não tem também como prover seu sustento.
Ao entrar em contato com Artie (o ator que o interpreta também é portador de deficiência visual e auditiva na vida real), o que Tereek vai aprender acaba sendo também um lembrete para todos nós: às vezes, enxergamos os nossos problemas como limitadores, porém, quando a gente vê pessoas como Artie, que superam a cada dia diversas barreiras, a gente percebe o quanto os nossos problemas são pequenos.
Tereek não será mais o mesmo após o encontro com Artie. Ele estará pronto para se colocar no mundo com mais empatia. Que aprendamos o mesmo! ☺️
Dois Estranhos
4.2 293 Assista AgoraHollywood já nos ensinou que, em filmes que possuem o recurso narrativo do loop temporal, quando você modifica o curso dos acontecimentos, os efeitos podem ser irreversíveis. Não é isso que ocorre durante o curta-metragem "Dois Estranhos", dirigido por Travon Free (também autor do roteiro) e Martin Desmond Roe. Nele, um jovem cartunista chamado Carter (Joey Bada$$) está preso na mesma manhã, e não importa o que ele faça, o seu destino será o mesmo.
A sensação de inquietação e de desespero de Carter com o seu desfecho é o que move ele a cada novo despertar. Por falar no término do protagonista, vivenciar tudo aquilo novamente, e de formas diversas, só nos mostra que o racismo do qual Carter é vítima é um mal enraizado na nossa sociedade. As atitudes do policial Merk (Andrew Howard) são um reflexo de séculos de pré-conceitos e de preconceitos.
"Dois Estranhos" é um filme que, nos seus 30 minutos de duração, possui uma mensagem muito forte, de crítica social contra o racismo e contra a truculência da abordagem policial quando se depara com um jovem negro como Carter.
Carter só queria chegar em casa para ver seu cachorro. George Floyd só tinha ido ao supermercado. Latasha só queria comprar um suco de laranja. São histórias, nomes, vítimas que se repetem. A urgência da mensagem de "Dois Estranhos" é para que pessoas como eles não sejam esquecidas. Eles devem ser lembrados por todos nós.
Magos do Cubo
3.8 14Eu não sei quanto a vocês, mas eu já tentei montar um Cubo Mágico (também conhecido como Cubo de Rubik), que é um daqueles quebra-cabeças tridimensional, e nunca consegui. E, sinceramente, nem sei se tenho a paciência e a concentração lógica necessárias para isso. O documentário de curta-metragem "Magos do Cubo", dirigido por Sue Kim, acompanha a história de dois mestres nesse tipo de modalidade.
Feliks Zemdegs, que, atualmente, tem 25 anos, foi o primeiro grande nome da modalidade, detentor de vários recordes mundiais com o Cubo Mágico, e duas vezes campeão mundial da categoria. Já Max Park, que, atualmente, tem 19 anos, pode ser considerado como o sucessor de Feliks: também detentor de vários recordes mundiais e vencedor de 297 eventos da modalidade mundo afora, mas ainda com o título mundial a ser conquistado.
"Magos do Cubo" nos insere dentro de um universo diferente (o das competições de Cubo Mágico), enfocando essas duas figuras que, apesar de compartilharem o amor pela categoria e o incentivo de amigos e familiares, são muito diferentes um do outro. Feliks enxerga a competição como uma forma de diversão e de poder compartilhar aquilo que ele mais gosta de fazer com outras pessoas que pensam do mesmo jeito que ele. Para Max, que foi diagnosticado com autismo severo ainda na infância, as competições são uma forma que ele - e sua família - encontraram para que ele trabalhasse as suas habilidades sociais e cognitivas.
Um dos elementos mais bacanas em "Magos do Cubo" é que o documentário nos mostra que, ao contrário do que qualquer um de nós pudéssemos esperar, não existe rivalidade entre Feliks e Max. Pelo contrário, existe o orgulho pelas conquistas um do outro e, principalmente, o incentivo, a parceria e a amizade. Max enxerga Feliks como seu grande ídolo. Feliks, por sua vez, pensa em Max como o futuro e como a continuidade de seus feitos.
Uma Canção para Latasha
3.9 62 Assista AgoraQuando foi assassinada, no dia 16 de março de 1991, Latasha Harlins tinha 15 anos. O motivo da sua morte não poderia ter sido mais fútil: a dona de uma loja de conveniência atirou diversas vezes contra ela por suspeitar que ela estaria roubando um suco de laranja. Latasha caiu com o dinheiro - menos de 4 dólares - para pagar o suco nas suas mãos.
Além de ter sido uma vítima da intolerância, da violência e do preconceito, a memória de Latasha ainda foi manchada pelo julgamento de sua assassina - a qual foi condenada a 5 anos de liberdade condicional, 400 horas de serviço comunitário e restituição de 500 dólares e das despesas do funeral.
Foram os assassinatos de Latasha e do motorista negro Rodney King que foram fundamentais para os Distúrbios de Los Angeles, que ocorreram em 29 de abril de 1992, e que foram caracterizados por milhares de pessoas se revoltando contra as consequências dos júris de ambos os crimes, num conflito que ocasionou saques, assaltos, incêndios, assassinatos, dentre tantos outros danos materiais.
O documentário de curta-metragem "Uma Canção para Latasha", dirigido por Sophia Nahli Allison, reúne depoimentos da prima e da melhor amiga de Latasha, com o objetivo de contar a história dela de uma forma intimista; e também de nos reforçar como o acontecimento trágico que os envolveu fez com que estas pessoas transformassem o luto em LUTA. É uma obra curta (somente 18 minutos), mas muito emblemática de tudo o que crimes como o que atingem pessoas como Latasha representam na nossa sociedade.
O Que Sophia Loren Faria?
3.5 12 Assista AgoraQuem ama o cinema sabe que, muitas vezes, desenvolvemos uma relação especial - seja com um ator, com uma atriz, com um filme que nos marcou. Isso acontece também em outras searas artísticas, como a música, a pintura, o teatro, dentre outros.
O documentário de curta-metragem "O Que Sophia Loren Faria?", dirigido por Ross Kauffman, retrata uma situação deste tipo. Nancy Vincenza Kulik, uma avó de origem ítalo-americana que reside em Nova Jersey, cresceu assistindo aos filmes do seu país e, na medida em que sua vida foi evoluindo, ela passou a se inspirar naquela que era uma das maiores estrelas do cinema italiano: Sophia Loren.
O interessante no documentário é que ele faz um paralelo entre as duas mulheres. Nancy e Sophia, apesar de todas as diferenças que as separam, têm em comum entre si os conflitos que unem muitas mulheres e que estão relacionados à carreira, ao amor, à maternidade e às perdas. Ao final, fica uma certeza: da mesma forma que Nancy se perguntava o que Sophia faria diante dos desafios da vida; não seria surpresa nenhuma se a pergunta fosse contrária. Tanto uma, como outra, são mulheres admiráveis!
A Janela dos Vizinhos
3.8 85A ideia de que "a grama do vizinho sempre é mais verde" é algo que foi potencializado nos últimos anos, principalmente com as redes sociais. A vida do outro sempre parece mais interessante, mais viva, mais agitada do que a sua própria. Quando, na verdade, a gente não sabe do que se passa verdadeiramente entre as quatro paredes dos apartamentos; ou por trás da tela do smartphone.
A mensagem por trás de "A Janela dos Vizinhos", curta vencedor do Oscar 2020 da categoria, passa por três caminhos. O primeiro deles é: seja grato pelo que você tem - mesmo que a rotina seja difícil ou extenuante. O segundo deles é: viva intensamente cada momento. O terceiro deles é: nada é aquilo que parece ser e nem tudo é a perfeição que aparenta ser. Todo mundo, independente do seu estágio de vida, tem problemas a lidar. A diferença é que existem pessoas que disfarçam isso melhor que os outros.
Canvas
3.5 71 Assista AgoraAssim como outro curta-metragem recente produzido pela Netflix ("Se Algo Acontecer... Te Amo", de Will McCormack e Michael Govier), "Canvas", curta dirigido e escrito por Frank E. Abney III, também aborda a dor da perda de um ente querido e amado e sobre como a vivência do luto nos deixa paralisados, a ponto de nos tirar o gosto pelas coisas que mais amamos fazer na vida.
No caso de "Canvas", os seus 9 minutos de duração acompanham um senhor idoso que passou pela perda recente da esposa e que, em decorrência disso, não consegue mais recuperar a sua paixão pela pintura. O curta repete as situações que ele vive, na companhia da neta, para enfatizar o fato de que mesmo, com todo o apoio e amor ao seu redor, ele sempre acaba esbarrando na falta de inspiração para pintar novamente.
O acontecimento mais importante de "Canvas" ocorre quando o personagem central se reconecta consigo mesmo e reencontra o mundo colorido que existe à sua volta, pronto para ser criado e traduzido nas telas em branco de seu cavalete.
"Canvas" pode não ter o mesmo impacto dilarecente de "Se Algo Acontecer... Te Amo", mas vale pela abordagem de uma perspectiva diferente sobre o luto.