Numa determinada manhã, minha filha de 7 anos olhou para mim e perguntou: “Mamãe, por que os adolescentes não brincam? E, quando vira adulto, volta a brincar?”. Eu disse a ela que era porque, quando a gente se torna adulto, começa a entender a importância de manter vivo o nosso lado infantil e, então, passamos a brincar novamente com os nossos filhos, sobrinhos e com os filhos de nossos amigos.
Minha filha não sabia ao certo, mas, naquele momento, estava começando a aprender sobre as diferenças geracionais e sobre as barreiras que passamos a desenvolver à medida em que vamos crescendo e amadurecendo.
De certa maneira, os filmes da série de animação “Toy Story” também se adaptam às transformações ocorridas ao longo dos anos e relacionadas ao universo no qual as histórias desses longas se passam. Dessa forma, no filme “Toy Story 5”, animação dirigida por Andrew Stanton e McKenna Harris, os brinquedos lidam com a difícil concorrência dos dispositivos eletrônicos.
No contexto em que a história se passa, o Lilypad, um tablet com diversos aplicativos interativos e jogos, é o objeto de desejo da criançada. A protagonista da história, a menina Bonnie (dublada por Scarlett Spears, na versão original) não se atrai muito por esse tipo de dispositivo, até perceber que, para ser aceita por outras crianças de sua idade e estabelecer novas amizades, ela precisa ter um desses. E é assim que ela acaba deixando os seus brinquedos de lado.
No contexto em que a história se passa, o Lilypad, um tablet com diversos aplicativos interativos e jogos, é o objeto de desejo da criançada. A protagonista da história, a menina Bonnie (dublada por Scarlett Spears, na versão original), não se atrai muito por esse tipo de dispositivo, até perceber que, para ser aceita por outras crianças de sua idade e estabelecer novas amizades, precisa ter um desses. E é assim que ela acaba deixando os seus brinquedos de lado.
Também é importante lembrarmos que não é só Bonnie que prefere brincar com os dispositivos eletrônicos. Essa é uma realidade para grande parte das crianças que vivem a infância atualmente. A discussão que “Toy Story 5” estabelece, portanto, é aquela que coloca em questão o uso desses dispositivos, especialmente quando pensamos que a brincadeira raiz - para usar uma gíria bastante conhecida por nós, brasileiros - estimula a imaginação e o desenvolvimento de habilidades psíquicas, motoras e sociais, entre tantos outros benefícios.
Embora não tenha o mesmo lado emocionante de outros longas da série, “Toy Story 5” consegue transmitir sua mensagem de uma forma bastante assertiva, principalmente ao dialogar sobre as transições entre gerações, sobre a história que existe por trás de todos aqueles brinquedos e, sobretudo, quando toca em todos nós. Afinal, somos - e fomos - crianças que se transformaram, e ainda irão se transformar, em adultos que sabem muito bem o que significa essa transição: o momento em que os brinquedos começam a não fazer sentido para aquilo que estamos vivendo.
“O Agente Secreto”, filme dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho, se passa em 1977, no Recife, numa época cheia de pirraça - uma alusão direta à ditadura militar, naquela época sob o governo do General Ernesto Geisel, quando houve um endurecimento no autoritarismo em nosso país. O longa acompanha o retorno de Marcelo (Wagner Moura, indicado ao Oscar 2026 de Melhor Ator) à cidade do Recife. A princípio, a sensação que temos é a de que ele deseja recomeçar a sua vida. Aos poucos, vamos perceber que, na realidade, Marcelo está ali por outros motivos.
É aqui, então, que entra o cerne por trás do que assistiremos em “O Agente Secreto”. Todo o filme permeia o conceito de memória. Principalmente aquele relacionado às memórias individual e coletiva. Marcelo está em Recife e tem pressa. A pressa dele é justificada pela necessidade de manter a sua história e a de sua esposa (Alice Carvalho) vivas - num momento em que muitos resistiram. A pressa dele é por causa do filho Fernando, que representa o futuro e o recomeço que ele espera ter.
A memória tem um importante papel de preservação. E os sinais estão ao nosso redor, em “O Agente Secreto”. Seja nas histórias individuais de cada um dos personagens, seja nas gravações das interações de Marcelo com diversas pessoas, seja na retomada do tempo passado da trama, seja no tempo presente da história e, até mesmo, no esquecimento que o tempo traz. Afinal de contas, para a memória, tão importante quanto lembrar é também esquecer.
Talvez, por isso, o filme de Kleber Mendonça Filho seja tão singular. Ao trazer uma história com um cunho de localidade, inserida na cultura e nos causos recifenses, “O Agente Secreto” se transforma em um lugar de memória, em suas dimensões material, simbólica e funcional. É um filme caótico, no melhor sentido que essa palavra pode ter; ao mesmo tempo em que carrega toda a dor que essa época teve.
A animação “Davi: Nasce um Rei”, dirigida por Phil Cunningham e Brent Dawes), como o próprio título deixa subentendido, conta a história de um dos personagens mais conhecidos da Bíblia Sagrada: Davi, que foi ungido por Jesus como o segundo Rei de Israel.
O filme acompanha os momentos mais importantes da vida de Davi (dublado por Brandon Engman e Phil Wickham). Primeiro, quando ele era um jovem pastor e músico e foi ungido pelo profeta Samuel como rei de Israel. Segundo, quando ele, convocado pelo Rei Saul, acaba enfrentando e ferindo mortalmente Golias, o guerreiro do exército filisteu. Terceiro, quando sua relação com Jônatas, filho de Saul, é forjada. Quarto, quando ele passa a ser perseguido pelo Rei Saul e, após a morte deste, se torna o rei da tribo de Judá, momento que antecede a sua consagração final como Rei de Israel.
Em comum nessa trajetória, temos a confiança profunda de Davi na bondade de Deus, na sua justiça e, principalmente, no seu amor por todos nós.
“Davi: Nasce um Rei” é uma animação de elementos tradicionais, com uma ótima história, com músicas muito bonitas (destaque para a linda “Shalom”) e com o relato da trajetória de um verdadeiro herói. Um filme que é um verdadeiro acerto - para o público adulto e para o infantil.
Assistir a “Avatar: Fogo e Cinzas”, filme dirigido e co-escrito por James Cameron, é uma experiência de dèjà-vu. Explico: no terceiro longa da série, a trama principal se mantém - o fato de que Quaritch (Stephen Lang) segue na sua caçada em busca da família de Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldaña).
Seguindo a linha da abordagem dos quatro elementos da natureza, em “Avatar: Fogo e Cinzas”, o diretor James Cameron trabalha com o fogo - representado pela tribo Ash, que é liderada por Varang (Oona Chaplin) - para retratar mais um capítulo em que os Na’vi têm que lidar com a iminência do perigo.
Mais uma vez, podemos identificar diversos filmes dentro de “Avatar: Fogo e Cinzas”: o que mostra a família Sully tendo que lidar com uma perda - e com consequentes decisões - difíceis, a que mostra os bastidores da cruzada de Quaritch - com o apoio e a estrutura do governo norte-americano, a que mostra o surgimento e a aproximação de Quaritch do povo Ash e o que mostra, por fim, mais um embate entre Quaritch e Sully.
Também, mais uma vez, estamos diante de um filme que é um verdadeiro espetáculo visual. Não há dúvida da competência de James Cameron em entregar um longa totalmente alinhado com o que há de mais moderno em termos da tecnologia do cinema. Uma pena que, para que isso aconteça, ele sacrifique por completo o roteiro - que continua a ser o maior dos problemas dessa série.
O protagonista de “Um Senhor Estagiário”, filme dirigido e escrito por Nancy Meyers, é Ben Whittaker (Robert De Niro), um senhor de 70 anos, aposentado e viúvo, que está com muito tempo livre. Ele sabe que há um vazio na sua vida que precisa ser preenchido. A oportunidade aparece quando ele decide se candidatar ao Programa de Contratação de Estagiários Sêniores de uma empresa de vendas on-line em ascensão no mercado.
Como um dos selecionados pelo Programa, Ben é designado para trabalhar como assistente da CEO da empresa, Jules Ostin (Anne Hathaway). “Um Senhor Estagiário”, portanto, coloca o seu foco no relacionamento que se estabelece entre Ben e Jules, com destaque para alguns temas interessantes, relacionados ao conflito de gerações no ambiente de trabalho e à afirmação e a pressão que a mulher sofre quando ocupa uma posição de destaque profissional e também precisa dar conta das demandas advindas de sua vida familiar (como mãe e como esposa).
Neste sentido, Ben Whittaker é um homem analógico no mundo digital, que chama a atenção pelo seu caráter observador, o que faz com que ele enxergue os seus colegas em todas as suas vulnerabilidades, passando a atuar quase como um mentor, alguém que ajuda todos eles a crescerem.
Já Jules Ostin é alguém que sofre uma pressão sobrecomum. Para ela, nunca será o suficiente. Ela pode ser a mulher mais bem-sucedida do mundo; mas, se isso não vier acompanhado do casamento perfeito e da maternidade plena, ela nunca se sentirá completa. Se fosse Ben, por exemplo, em seu lugar, ele nunca sofreria esse tipo de pressão.
“Um Senhor Estagiário” lida com essas questões de uma forma leve e divertida. No decorrer do filme, vemos personagens que têm que se reinventar constantemente, que têm que lidar com as cobranças da vida adulta e com as mudanças para as quais, muitas vezes, não estamos preparados. É uma obra que segue atual e, suspeito, permanecerá assim por um bom tempo!
O Censo 2024 revelou o crescimento da religião evangélica no país. Atualmente, no Brasil, os evangélicos representam 26,9% da nossa população - um aumento de 5,2 pontos percentuais comparado com o Censo 2010.
O documentário “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido e co-escrito por Petra Costa, tem como objetivo principal investigar o aumento do controle exercido por lideranças evangélicas sobre a política brasileira.
Da mesma forma que houve um aumento expressivo da população evangélica no Brasil, podemos perceber o crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional, bem como a ampliação dos evangélicos eleitos para cargos de chefia de governo, em todas as suas esferas.
Para tanto, Petra Costa estuda, em seu documentário, a ascensão do governo Bolsonaro. Para a diretora, foi neste momento em que tivemos a instauração de uma teocracia no Brasil - um sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado no poder religioso, pela representação do governante como a própria entidade, como se ele tivesse sido ungido para o poder.
Em sua tese, Petra dialoga com autoridades políticas, com autoridades religiosas (notadamente o Pastor Silas Malafaia - ele mesmo um vértice importante para a ascensão da extrema direita no Brasil) e com evangélicos, de forma a tentar compreender como este fenômeno se instaurou em nosso país.
O documentário termina com o ocaso do governo Bolsonaro, os atos antidemocráticos de 2023, em que os admiradores do ex-Presidente, influenciados pelo quê ou por quem, tentaram efetuar um Golpe de Estado em nosso país.
Interessante perceber que, para Petra, a visão sobre o conceito de apocalipse não inclui o seu comum significado como “o fim do mundo”. A diretora se agarra ao significado grego que a palavra possui: descobrir ou revelar algo que estava oculto.
Com “Apocalipse nos Trópicos”, o que Petra Costa nos revela é que o adversário tem armas poderosas em prol de seus próprios interesses. O que precisamos entender é que a estrutura milimetricamente calculada de Brasília representa algo que nos foi revelado no pós 08 de janeiro de 2023: aquelas instituições, travestidas de instrumentos de poder, são responsáveis pela garantia de nossos direitos e daquilo no qual a nossa frágil democracia está construída.
Este é um documentário que estreia num timing perfeito, para nos relembrar de tudo isso.
Se tem uma coisa que está bem definida em “Elio”, animação dirigida por Adrian Molina, Madeline Sharafian e Domee Shi, é a construção da personagem principal. Elio (dublado por Yonas Kibreab na versão original) é um menino que se agarra ao desejo de descobrir o que existe em outros planetas como uma forma de superar a morte de seus pais.
No seu afã de estabelecer uma comunicação com seres de outros planetas, o que Elio acaba não percebendo é que isso se torna uma obsessão tão grande que afeta o seu relacionamento com a tia, a Major Olga Solís (dublada por Zoe Saldaña na versão original), que assume a função de ser sua cuidadora. Existe uma distância entre eles, um abismo no diálogo entre os dois.
“Elio” aborda o que acontece com o garoto quando o seu desejo mais profundo se torna realidade. Quando ele desembarca no Comuniverso (um planeta que acolhe as diversas formas de vidas inteligentes das mais diferentes galáxias), assumindo o posto de embaixador do Planeta Terra, Elio vivencia o seu sonho e se sente livre para ser o menino que ele sempre quis ser.
O curioso, na jornada de Elio, é que ele, ao encontrar com os seres que habitam o Comuniverso, acaba sendo jogado a uma conversação consigo mesmo. Ao aprender sobre si, sobre a força que ele possui, sobre a verdade que ele carrega dentro dele mesmo, Elio se liberta das amarras que ele colocou sob seus ombros. Isso está representado pela frase mais bela da animação quando Elio ouve o seguinte: “Ser único, muitas vezes, pode parecer solitário. Mas você nunca estará só”.
Se abrir para o mundo e para o que ele tem a oferecer a nós: esse é o maior aprendizado que levamos de “Elio”.
Toda a essência do que está por trás do filme “Lilo & Stitch”, dirigido por Dean Fleischer Camp, está no aprendizado do sentido do que, verdadeiramente, se constitui uma família.
Neste sentido, a história é centrada nas irmãs Lilo (Maia Kealoha) e Nani (Sydney Agugong), que estão se reerguendo após a perda dos pais. Como é costumeiro na cultura norte-americana, elas vêm sendo acompanhadas, nesse período de adaptação, por uma assistente social. A depender de como as coisas se desenrolem, pode ser que as irmãs sejam separadas e Lilo encaminhada a um lar adotivo.
Aqui, é importante um adendo para falarmos sobre essa personagem. Lilo é uma menina solitária, que tem dificuldade em fazer amigos. Ao encontrar o “cachorro” alienígena Stitch (dublado por Chris Sanders, na versão original), desenvolve com ele uma amizade honesta. Lilo se sente acolhida, amada e livre para ser ela mesma. E isso se reflete na forma como ela passa a se portar diante do mundo e dos obstáculos que ela enfrenta.
Assim, retornamos para a essência de “Lilo & Stitch” enquanto filme. Uma das suas frases memoráveis é aquela que diz: “Ohana significa família, e família significa que ninguém é deixado para trás”. Mais do que isso, o que Lilo e Nani aprendem é que o verdadeiro sentido de família é compreender que ela está fundada no apoio, no amor, na compreensão e no sacrifício.
Indicado ao Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional, “A Semente do Fruto Sagrado”, longa dirigido e escrito por Mohammad Rasoulof, tem como pano de fundo protestos políticos a nível nacional que aconteceram em Teerã, capital do Irã que vive sob a égide de um governo representante da República Islâmica.
A história enfoca como esses acontecimentos acabam afetando a vida de uma família - formada pelo pai Iman (Missagh Zareh), pela mãe Najmeh (Soheila Golestani) e pelas filhas adolescentes Sana (Setareh Maleki) e Rezvan (Mahsa Rostami).
Iman ascendeu profissionalmente recentemente, passando a ocupar a posição de Investigador, que antecede, justamente, a sua maior ambição profissional: ser juiz de instrução do Tribunal Revolucionário do Teerã.
O diretor e roteirista Mohammad Rasoulof nos leva à intimidade desta família, na forma como a violência os atinge proximamente e, principalmente, com a preocupação da mãe com a posição que seu marido exerce, em meio a tanta turbulência a nível nacional.
Quando a arma de Iman some misteriosamente, a desconfiança e a paranoia dele levam a repressão para dentro de seu próprio lar. Ao ver seu projeto pessoal e de poder ameaçado, Iman se torna capaz de trazer limitações e proibições para o seio de sua própria casa.
“A Semente do Fruto Sagrado” acaba sendo uma importante crônica sobre como, num país que tem como marca a opressão às mulheres, muitas vezes, é por meio das mãos femininas que as mudanças que se fazem necessárias são implementadas. O que ocorre na casa de Iman é somente um reflexo da efervescência que se via nas ruas de Teerã.
Tal qual Noé que, diante de um dilúvio, embarcou em uma arca com sua família e com diversos animais, com o objetivo de se salvarem; a jornada do gato que protagoniza a animação “Flow”, dirigida por Gints Zilbalodis, também um conto de sobrevivência diante de um desastre natural.
Após uma grande enchente, um solitário gato tem que encontrar formas para sobreviver. Ele encontra abrigo em um barco que, na medida em que a trama vai se desenvolvendo, passa a ser povoado por diversas espécies. Nesta jornada, os animais que ali convivem aprendem, não só a coexistirem entre si, apesar de suas diferenças; como também entram em contato com sentimentos como a esperança, o altruísmo, a coragem e a abnegação a partir do instante em que vivenciam diversos desafios e se adaptam a um mundo desconhecido.
Assistir a “Flow” é uma experiência interessantíssima. Estamos diante de uma animação que não possui diálogos, protagonizada por espécies de animais que se comunicam entre si usando a sua própria linguagem, trejeitos e características. Apesar disso, conseguimos mergulhar profundamente neste universo, vivenciando as experiências com estas personagens, aproveitando cada cenário que eles desbravam.
“Com toda honestidade e sinceridade, pode-se afirmar que não desejo nada além de liberdade, justiça e igualdade: vida, liberdade e a busca da felicidade para todas as pessoas. Minha primeira preocupação, é claro, é com o grupo ao qual pertenço, os afro-americanos, pois nós, mais do que qualquer outro, somos privados desses direitos inalienáveis. Acredito que a verdadeira prática do islamismo pode remover o câncer do racismo dos corações e almas dos americanos brancos”.
Ativista dos direitos humanos, ministro muçulmano, Malcolm X foi um grande defensor do nacionalismo negro nos Estados Unidos, numa época em que os negros sofriam agressões e desrespeitos em todos os lados. A sua história nos é contada no épico autobiográfico “Malcolm X”, dirigido e co-escrito por Spike Lee.
No filme, Lee cobre as diversas fases da vida de Malcolm: os anos iniciais como um ladrão/vigarista das ruas; a sua prisão e a sua consequente transformação pessoal, quando ele entra em contato com a Nação do Islã (grupo político e religioso, que tem como propósito a melhoria da condição econômica, social e espiritual nos negros nos Estados Unidos); a sua ascensão como figura mais importante - e de referência, ao lado de Elijah Muhammad - da Nação do Islã; a sua ruptura com a Nação, a viagem à Meca e a fundação da Organização para a Unidade Afro-Americana; até o seu assassinato em 21 de fevereiro de 1965.
Figura magnética, consciente, inteligente e extremamente eficaz na forma como se comunicava, chamava a atenção em Malcolm X não só a sua liderança nata, como também o fato de que os ideais que ele defendia terem ressonância até os dias atuais. Denzel Washington está brilhante, em uma atuação indicada ao Oscar 1993 de Melhor Ator.
“Malcolm X” é uma obra grandiosa de Spike Lee, principalmente na forma como ele conseguiu nos retratar que as esperanças, os sonhos e as lutas de Malcolm em prol dos negros norte-americanos seguem atuais. É um filme sobre a profundidade das questões raciais, com reflexões importantíssimas sobre esse tema.
Um dos ballets mais populares de todos os tempos rende aquele que é o momento mais emocionante do filme “Os Quebra-Nozes”, dirigido por David Gordon Green. Quando os quatro irmãos Kicklighter fazem a encenação de uma versão livre da história musicalizada por Tchaikovsky, aquele instante representa não só a conexão deles com a memória dos pais recém-falecidos. Aqueles segundos marcam também a confirmação do entendimento da missão que o tio Mike (Ben Stiller) tem com estes meninos.
Quando o filme inicia, Mike está chegando na casa da irmã para assumir o papel de tutor dos sobrinhos enquanto a assistente social (Linda Cardellini) não encontra o lar adotivo que irá receber as crianças. A tarefa de descobrir novos pais para os meninos Kicklighter se revela muito complicada, não só por causa da personalidade marcante deles, mas também porque existe o desejo de não separá-los.
Para Mike, assumir a guarda dos sobrinhos é uma possibilidade inexistente. Ele se sente confortável com sua vida de solteiro, com a sua dedicação exclusiva ao trabalho e não vê a hora de retornar ao local de onde veio.
“Os Quebra-Nozes”, portanto, é um filme que captura justamente o vínculo que se forma entre esse tio estranho (no sentido de que Mike era alguém que não fazia parte da vida familiar dos Kicklighters) e quatro meninos que passam pelo momento mais vulnerável que alguém pode imaginar vivenciar.
Não dá para negar que estamos diante de um filme totalmente clichê. Mas o grande charme por trás de “Os Quebra-Nozes” é pegar a plateia pelo coração. Impossível não se emocionar com essa história!
“Blitz”, filme dirigido e escrito por Steve McQueen, se passa durante a II Guerra Mundial, porém, ao invés de centrar-se no conflito em si, aborda uma trama que tem ênfase na rotina dos habitantes comuns das cidades atingidas pela guerra, mais precisamente, na relação entre uma mãe e seu filho.
O título do filme faz referência à palavra blitzkrieg, que é uma tática militar que consiste na realização de ataques rápidos e coordenados, com o objetivo de desmobilizar e derrotar os inimigos. Na Inglaterra, país no qual o filme se passa, como uma forma de tentar resguardar as crianças dos perigos dos bombardeios, as mães embarcavam seus filhos em trens que partiam rumo ao interior do país, onde eles eram abrigados por outras famílias, encontrando um pouco de paz em meio ao caos de uma grande guerra.
É justamente essa a decisão que Rita (Saoirse Ronan) toma. Porém, George (Elliott Heffernan), seu filho de 9 anos, não está satisfeito com o ato de sua mãe. “Blitz”, portanto, se divide em duas linhas narrativas: a que segue George em sua jornada de volta a casa após ele pular do trem no qual foi colocado pela mãe e a que retrata Rita em sua angustiosa busca pelo paradeiro do seu filho.
Embora encontre espaço para tratar de temas muito importantes, como as tensões racial e trabalhista presentes na Inglaterra naquele período, a resistência encontrada nos abrigos da cidade e o envolvimento dos cidadãos como um todo num conflito tão complexo quanto a II Guerra Mundial; a verdade é que “Blitz” é um filme que acaba desperdiçando o seu potencial justamente por causa do desenvolvimento do seu roteiro, que é bastante irregular.
Uma casa isolada numa montanha de localização remota no interior da França, onde vive o casal formado pela escritora Sandra Voyter (Sandra Hüller, indicada ao Oscar 2024 de Melhor Atriz), seu marido Samuel Maleski (Samuel Theis) e seu filho deficiente visual Daniel (Milo Machado-Graner). Este é o local em que, numa manhã de inverno, Samuel é encontrado morto, em circunstâncias misteriosas.
O filme “Anatomia de uma Queda”, dirigido e co-escrito por Justine Triet, como o próprio título deixa subentendido, se dedica a dissecar a morte de Daniel, principalmente quando se passa na sala de tribunal em que Sandra, indiciada pela morte do marido, é julgada. Ao longo do julgamento, vemos a intimidade do relacionamento pessoal e familiar de Sandra, Samuel e Daniel ser exposta em seus mínimos detalhes, com o objetivo justamente de desvendar o que aconteceu: Samuel foi assassinado pela esposa ou cometeu suicídio?
Neste sentido, o ponto mais importante de “Anatomia de uma Queda” é ver os acontecimentos se desenrolarem pelo olhar e pelo ponto de vista de Daniel, o filho único e testemunha ocular dos fatos que assistimos serem descortinados. Colocado na posição de ver seus pais em todas as suas maiores vulnerabilidades, Daniel se encontra na difícil posição de ser aquele que pode decretar o destino de sua mãe. A montanha russa de emoções que ele vivencia é equivalente a que iremos sentir assistindo ao filme.
Indicado a cinco Oscars 2024, “Anatomia de uma Queda” acabou vencendo na categoria que é o seu maior ponto principal: a de roteiro original. A história escrita por Justine Triet e Arthur Harari é um quebra-cabeça interessante, cujas peças vão sendo reveladas para nós da plateia no momento certo. O que move o filme é a busca pela verdade. O curioso é que, ao finalizarmos a sessão, não temos certeza se estamos diante dela.
“Anatomia de uma Queda” é uma jornada intensa, que nos tira da zona de conforto enquanto espectadores e que, ao final de tudo, nos revela o alívio que advém não da descoberta da verdade, e sim de ter se visto livre de um enorme peso que causava a tormenta - e isso pode ser compreendido por diversos prismas.
As características mais marcantes de Moana (dublada na versão original por Auli’i Cravalho) são a sua curiosidade e a sua coragem. Foram elas que a levaram a desbravar o que tinha além do oceano em “Moana: Um Mar de Aventuras”. Serão elas que a levarão a sair em busca dos povos que habitam os mares em “Moana 2”, animação dirigida por David G. Derrick Jr., Jason Hand e Dana Ledoux Miller, que dá sequência à história da personagem e sua construção como a heroína do povo de Motunui.
O interessante na continuação, no entanto, é que Moana é incentivada pelos seus ancestrais a dividir o protagonismo com seus conterrâneos, deixando que, assim como ocorreu com ela no primeiro filme, cada um possa construir a sua própria história e descobrir aquilo que faz deles seres únicos e inspiradores.
Uma pena, no entanto, que “Moana 2” tente repetir a receita que fez de “Moana: Um Mar de Aventuras” o grande sucesso que foi. A continuação parece uma colagem do primeiro filme, repetindo a construção narrativa e também tentando replicar os grandes momentos musicais sem, diga-se de passagem, conseguir alcançar o mesmo resultado.
O Advento é o tempo de preparação para a chegada do Natal. Ele inicia no dia 01 de dezembro, finalizando no dia 24 do mesmo mês. Também marca o início do novo ano litúrgico para a religião Católica, ao mesmo tempo em que é a linha temporal na qual se passa o filme “O Feitiço do Natal”, dirigido por Bradley Walsh.
Nesta comédia romântica, o roteiro escrito por Amyn Kaderali é centrado na fotógrafa Abby Sutton (Kat Graham), que está num daqueles momentos que são verdadeiras encruzilhadas na nossa vida: deveria ela ir em busca dos seus sonhos ou seguir a sua vida, buscando a estabilidade?
No meio de uma movimentada temporada natalina, ela ganha de presente de seu avô (Ron Cephas Jones) um calendário do advento que se revela ser um objeto mágico. A cada dia, a cada novo objeto temático do Natal que ele descortina, há a previsão do futuro próximo, ajudando-a a solidificar aquilo que ela espera de sua vida.
Se tem uma coisa que “O Feitiço do Natal” nos relembra é que tudo na nossa vida é uma questão de perspectiva. A forma como encaramos os desafios ou como enxergamos as oportunidades vai de acordo com a nossa visão, com o nosso entendimento, naquele momento em particular. O que o filme nos mostra também é que muitas vezes acabamos cegos para o que está cristalino diante dos nossos olhos e isso nos impede de enxergar muitos caminhos importantes que devemos seguir/encarar/enfrentar/viver.
Uma das poucas certezas que a gente tem quando se depara com Charlie (Brendan Fraser, vencedor do Oscar 2023 de Melhor Ator), a personagem principal de “A Baleia”, filme dirigido por Darren Aronofsky, é a de que ele desistiu de viver. Isolado do mundo, com relacionamentos sociais restritos e convivendo com o sobrepeso, Charlie passa seus dias esperando pelo momento em que vai morrer.
O roteiro escrito por Samuel D. Hunter (com base na peça de sua autoria) acompanha justamente a última semana de vida de Charlie, em que ele toma algumas decisões importantes: a principal delas é a tentativa de reconexão com a filha Ellie (Sadie Sink), a quem ele abandonou após se divorciar da esposa (Samantha Morton).
Por meio do retrato da rotina de um homem solitário e que perdeu o prazer de viver; através do recorte de seus relacionamentos pessoais, com gente que transita, temporariamente, em sua vida; temos a tentativa de um estudo da personalidade de Charlie, ao mesmo tempo em que o filme propõe a compreensão do por quê, talvez, ele tenha desistido de viver.
Os traumas de Charlie, as dores que ele carrega consigo, a sua falta de amor próprio, a culpa que ele sente e a fé inabalável dele na bondade do ser humano são características que ficam palpáveis em cada cena. A sua resignação com seu destino também - o que reflete, por sua vez, o caráter autodestrutivo que Charlie possui.
“A Baleia” é um filme que faz um estudo competente de um personagem, principalmente na maneira como dialoga com suas referências, em especial com a obra “Moby Dick”, de Herman Melville. A dor e a delícia de ser Charlie estão diretamente relacionadas ao fato de que a personagem decidiu se entregar ao caminho da verdade, em todas as esferas de sua existência.
“Ainda Estou Aqui”, filme dirigido por Walter Salles, é uma obra sobre a ditadura militar brasileira, sobre as vítimas desse regime e sobre o impacto da perda dessas pessoas sobre as suas famílias. Porém, acima de tudo, é um longa sobre uma mulher que descobre a sua força em meio ao maior revés que sofreu em vida.
Baseado no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” conta a história de Eunice Paiva (Fernanda Torres), que foi alçada ao posto de arrimo de família quando, em 1971, o seu marido, o engenheiro civil e ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) foi levado de dentro da residência da família para nunca mais retornar.
Chama a atenção durante o filme o fato de que Eunice (ela própria também levada para os porões da ditadura, onde permaneceu por 11 dias) não se vitimiza. Numa época em que as famílias e as pessoas eram obrigadas a se silenciar diante dos acontecimentos, ela tomou a sua dor e a utilizou como força para sua transformação pessoal. Eunice se mudou com a família para uma nova cidade, se formou em Direito aos 48 anos, se tornou uma referência no Direito Indígena e na luta dos familiares das vítimas da ditadura, e conseguiu obter, na justiça, o reconhecimento do destino de seu marido.
A história de Eunice nos é contada pelo diretor Walter Salles num filme repleto de sutilezas. Do contraste entre a alegria do início do longa, com a presença da música, da festa e dos sorrisos; para o vazio do silêncio que se segue após o desaparecimento e assassinato de Rubens Paiva. Discrição essa que é adotada pela família Paiva, que não pode comentar e nem vivenciar seu luto. Eles resistem. A imagem de uma Eunice, já idosa (interpretada por Fernanda Montenegro), serena, presa em seus próprios pensamentos, com um olhar que grita a dor de quem nunca pôde vivenciá-la em público é a imagem que fica em mim e que eu carrego comigo desde que assisti a “Ainda Estou Aqui”.
Dentre as inúmeras funções que o cinema pode desempenhar está a do resgate da memória, por meio das representações que pode fazer. Daí a importância de “Ainda Estou Aqui”. Num paralelo com o título do filme, as Eunices que resistem ainda estão aqui; os Marcelos que revisitam suas próprias histórias ainda estão aqui; aqueles que defendem o indefensável ainda estão aqui; aqueles que fizeram atos crueis e criminosos ainda estão aqui. É preciso lembrar sempre, tocar na ferida. Ao lembrarmos, somos rememorados daquilo que não devemos repetir.
Enquanto eu assistia “A Substância”, filme dirigido e escrito por Coralie Fargeat, me lembrei muito do conceito de grotesco. Normalmente, esta é uma palavra ligada ao sentido do que é bizarro e/ou extravagante. Porém, na realidade, este é um termo que, principalmente durante a era Renascentista, encontrou seu cerne no retrato da natureza mutante dos corpos, admitindo as formas consideradas monstruosas como manifestações exuberantes da força criadora.
Ou seja, existe muito do grotesco no relato da história da atriz Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma figura pública da televisão norte-americana, popularizada em um programa que retrata sua rotina de exercícios. Assim como muitas outras personalidades do mundo do entretenimento, Elizabeth sofreu com a passagem do tempo, com o fato de ser considerada “velha” e é uma questão de tempo até ela ser demitida e substituída por alguém mais jovem, que possa atrair uma nova audiência.
É aqui que entra “A Substância” que o título do filme se refere. Ela é um tratamento médico experimental que promete uma versão melhor de você mesma. É assim que Elizabeth dá vida a Sue (Margaret Qualley). As duas são uma extensão da outra e existe um equilíbrio entre elas que deve ser respeitado.
Como respeitar esse equilíbrio num mundo de vaidades, de ambição, de ciúme, de invejae de competição excessiva? Por meio do retrato da relação “médico x monstro” que se estabelece entre Elizabeth e Sue, “A Experiência” destila a sua crítica a um mundo que exige de nós a perfeição em todos os nossos campos de atuação.
O grotesco, em “A Substância”, está na forma como o corpo feminino é retratado, na maneira como a comida é mostrada, em como essas mulheres se submetem aos maiores absurdos devido a um ponto de vista e a um mundo dominado por homens, no banho de sangue que escancara a hipocrisia de uma sociedade preocupada com as aparências, e, principalmente, na compreensão definitiva de que a sua melhor versão, no caso de Elizabeth, na verdade, é uma aberração sem controle!
No final, uma pergunta deixa a reflexão: vale a pena se sujeitar a tudo isso para prolongar os seus cinco minutos de fama?
A expressão “We Live in Time”, título original do filme dirigido por John Crowley, significa “vivemos no tempo”. Ela representa muito bem o relacionamento principal que é abordado pelo longa: o que envolve a chef Almut (Florence Pugh) e o profissional de TI Tobias (Andrew Garfield).
Os dois, apesar de serem bem diferentes um do outro em termos de personalidade, acabam se conhecendo (num encontro pra lá de inusitado), se apaixonando e vivendo um namoro/parceria/casamento que dura uma década.
Chama a atenção, inclusive, em “Todo Tempo que Temos” (o título traduzido no Brasil), a forma como este relacionamento é construído. Com base em concessões, em compreender a necessidade do outro e, principalmente, no respeito às escolhas que são feitas ao longo dessa caminhada.
Como o filme tem uma tendência ao melodramático, um dos grandes acertos do diretor John Crowley é dirigir esta história com sensibilidade, entendendo que a vivência de uma relação é composta de momentos que são a pura definição da felicidade e de instantes em que nem sempre estaremos felizes. E tá tudo bem!
O outro grande acerto de “Todo Tempo que Temos” foi a escalação da dupla Florence Pugh e Andrew Garfield, que passam credibilidade em tela como o casal principal, representando bem a montanha russa de sentimentos que é se entregar ao amor correndo os riscos de ser arrebatado pela impermanência de nossas vidas.
Foi em 1928 que Walt Disney, com o apoio do animador Ub Iwerks, criou a personagem que daria a ele o sucesso que ele tanto almejava: o Mickey Mouse. O filme “Walt Antes do Mickey”, dirigido por Khoa Le, aborda a trajetória do produtor, cineasta e diretor antes dele ter a maior ideia de sua vida.
A história de “Walt Antes do Mickey” se passa entre os anos de 1919 e 1928, período em que Walt Disney pavimentou o seu caminho como o grande empreendedor no qual ele se transformou. Um homem de visão, que, com muita persistência e coragem, foi construindo a sua carreira produzindo pequenas séries de desenhos animados, que evoluíram para filmes de animação - sempre se destacando pelo uso inovador das técnicas disponíveis naquele momento.
Entretanto, o que “Walt Antes do Mickey” nos mostra é que foram os diversos revezes pelos quais passou que fizeram com que Walt Disney (interpretado por Thomas Ian Nicholas) soubesse encarar e superar seus próprios fracassos. Mais do que a sua resiliência, o que chama a atenção na sua história é a fidelidade que Disney tinha ao que ele acreditava ser o correto e, principalmente, aos seus. Ter pessoas de sua confiança ao seu redor foi fundamental para que Walt prosperasse.
É importante observar, no entanto, que uma história tão rica nos é apresentada em um filme que tem, claramente, uma produção mais modesta - fato que, em nenhum momento prejudica o resultado final da obra. O mais importante aqui é a mensagem que “Walt Antes do Mickey” quer nos passar e que está relacionada a seguirmos os nossos sonhos, independente dos obstáculos que encontramos em nossos caminhos. Pode parecer difícil, mas com persistência e determinação, um dia, você pode chegar lá!
Acredita-se que, pouco antes de sua morte, no dia 23 de setembro de 1939, o psicanalista Sigmund Freud teve um encontro com um professor da Universidade de Oxford, que fica localizada na Inglaterra - país em que Freud residia. Até hoje, a identidade desse professor é desconhecida.
Para a peça de Mark St. Germain, que dá base ao filme “A Última Sessão de Freud”, dirigido por Matt Brown, este encontro foi com o professor e escritor C.S. Lewis e teve como assunto principal o livro “O Regresso do Peregrino”, que foi publicado por ele após a sua conversão ao cristianismo e que é inspirado, por sua vez, pelo livro “O Peregrino”, de John Bunyan.
Ao longo de um dia de conversas, que são retratadas no decorrer do filme, vemos Freud e Lewis discutindo sobre a religião, a sexualidade, os relacionamentos humanos e o amor. O roteiro ainda adentra nas vidas pessoais das suas personagens principais, abordando duas relações complexas: a de Freud (interpretado por Anthony Hopkins) com sua filha Anna (Liv Lisa Fries) e a de Lewis (interpretado por Matthew Goode) com a mãe de seu melhor amigo, que foi vitimado na I Guerra Mundial.
Por ser baseado em uma peça teatral, “A Última Sessão de Freud” encontra a sua força nos diálogos que são travados entre as personagens. Nesse sentido, o filme tem seu ponto alto no duelo de atuações entre Anthony Hopkins e Matthew Goode, ambos excelentes como dois homens de convicções fortes e que tentam, a todo custo, fazer com que um ao outro saiam de suas zonas de conforto.
O interessante é que, no diálogo entre eles, não existe espaço para o que é certo e nem para o que é considerado errado. E, na medida em que eles vão se abrindo, podemos adentrar um pouco mais nas mentes de duas personalidades célebres e que deixaram contribuições importantes em seus respectivos campos de atuação.
No mês em que se é celebrado o Setembro Amarelo, o filme “Meu Casulo de Drywall”, dirigido e escrito por Caroline Fioratti, que estreia amanhã, nos cinemas brasileiros, aborda a temática da saúde mental por meio de sua personagem principal, a jovem Virgínia (Bella Piero), que, na noite de comemoração do seu aniversário de 17 anos, comete suicídio devido a uma overdose de medicamentos controlados.
De forma a tentar compreender o que levou Virgínia a cometer tal ato, o filme alterna uma linha narrativa que perpassa o passado e o presente para analisar de que maneira a morte da adolescente vai influenciar o futuro daqueles que eram mais próximos dela e, por consequência, foram afetados de maneira mais forte pela sua morte.
“Meu Casulo de Drywall” se passa num condomínio de luxo, dentro do segmento da classe média alta. Ao longo do aniversário de Virgínia, são revelados os problemas que me parecem afligir boa parte da juventude atual: a falta de identificação e a distância para com os pais, a vivência de relacionamentos abusivos, a instabilidade emocional, a superficialidade e as mentiras.
Por mais simples que possa parecer, a experiência de assistir a “Meu Casulo de Drywall” transparece algo que é nítido: o quanto o fato de estarmos absorvidos pelos nossos próprios problemas nos leva a não enxergar as dores de quem está próximo de nós, nos impedindo de oferecer a ajuda que ele(a) precisa.
Uma pena, no entanto, que uma temática tão importante se perca em um filme que tem problemas na sua narrativa e, principalmente, na forma como se propõe a apresentar a jornada de Virgínia, de sua mãe, de seu namorado, de sua melhor amiga e de um amigo próximo, agora, distante.
“Todos nós fazemos escolhas na vida. O difícil é viver com elas”. O filme “As Palavras”, dirigido e co-escrito por Brian Klugman e Lee Sternthal, nos coloca diante de um protagonista que tem que lidar, justamente, com as consequências de sua escolha.
Rory Jansen (Bradley Cooper) é um aspirante a escritor, que trabalha em uma editora. Seu sonho de ter um livro próprio publicado é alcançado quando um de seus manuscritos, chamado “The Tear Window”, é lançado. A obra se transforma num sucesso instantâneo, alçando o nome de Rory para a fama e para a glória como escritor.
Só que tem um detalhe importante: Rory não é o autor do livro. Ele encontrou o manuscrito em uma pasta adquirida numa loja de antiguidades. O seu sucesso, portanto, é consequência de uma grande mentira. Assim, “As Palavras” nos mostra como Rory lida com o seu segredo obscuro, principalmente a partir do momento em que ele é confrontado com a verdade por trás do que ele fez.
“As Palavras” é um filme que tem um recurso narrativo muito interessante, baseado na metalinguagem. A história de Rory Jansen, na realidade, é a trama de um livro escrito por Clay Hammond (Dennis Quaid). As linhas ficcionais e narrativas vão se entrecruzando, até o ponto em que não temos a plena certeza se o que assistimos realmente aconteceu. Uma pena que um recurso estilístico dessa natureza seja desperdiçado com a subtrama que coloca Clay em um flerte desnecessário com uma fã jovem (Olivia Wilde) - a qual não acrescenta em nada à história principal do filme.
Toy Story 5
3.9 185Numa determinada manhã, minha filha de 7 anos olhou para mim e perguntou: “Mamãe, por que os adolescentes não brincam? E, quando vira adulto, volta a brincar?”. Eu disse a ela que era porque, quando a gente se torna adulto, começa a entender a importância de manter vivo o nosso lado infantil e, então, passamos a brincar novamente com os nossos filhos, sobrinhos e com os filhos de nossos amigos.
Minha filha não sabia ao certo, mas, naquele momento, estava começando a aprender sobre as diferenças geracionais e sobre as barreiras que passamos a desenvolver à medida em que vamos crescendo e amadurecendo.
De certa maneira, os filmes da série de animação “Toy Story” também se adaptam às transformações ocorridas ao longo dos anos e relacionadas ao universo no qual as histórias desses longas se passam. Dessa forma, no filme “Toy Story 5”, animação dirigida por Andrew Stanton e McKenna Harris, os brinquedos lidam com a difícil concorrência dos dispositivos eletrônicos.
No contexto em que a história se passa, o Lilypad, um tablet com diversos aplicativos interativos e jogos, é o objeto de desejo da criançada. A protagonista da história, a menina Bonnie (dublada por Scarlett Spears, na versão original) não se atrai muito por esse tipo de dispositivo, até perceber que, para ser aceita por outras crianças de sua idade e estabelecer novas amizades, ela precisa ter um desses. E é assim que ela acaba deixando os seus brinquedos de lado.
No contexto em que a história se passa, o Lilypad, um tablet com diversos aplicativos interativos e jogos, é o objeto de desejo da criançada. A protagonista da história, a menina Bonnie (dublada por Scarlett Spears, na versão original), não se atrai muito por esse tipo de dispositivo, até perceber que, para ser aceita por outras crianças de sua idade e estabelecer novas amizades, precisa ter um desses. E é assim que ela acaba deixando os seus brinquedos de lado.
Também é importante lembrarmos que não é só Bonnie que prefere brincar com os dispositivos eletrônicos. Essa é uma realidade para grande parte das crianças que vivem a infância atualmente. A discussão que “Toy Story 5” estabelece, portanto, é aquela que coloca em questão o uso desses dispositivos, especialmente quando pensamos que a brincadeira raiz - para usar uma gíria bastante conhecida por nós, brasileiros - estimula a imaginação e o desenvolvimento de habilidades psíquicas, motoras e sociais, entre tantos outros benefícios.
Embora não tenha o mesmo lado emocionante de outros longas da série, “Toy Story 5” consegue transmitir sua mensagem de uma forma bastante assertiva, principalmente ao dialogar sobre as transições entre gerações, sobre a história que existe por trás de todos aqueles brinquedos e, sobretudo, quando toca em todos nós. Afinal, somos - e fomos - crianças que se transformaram, e ainda irão se transformar, em adultos que sabem muito bem o que significa essa transição: o momento em que os brinquedos começam a não fazer sentido para aquilo que estamos vivendo.
O Agente Secreto
3.9 1,1K Assista Agora“O Agente Secreto”, filme dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho, se passa em 1977, no Recife, numa época cheia de pirraça - uma alusão direta à ditadura militar, naquela época sob o governo do General Ernesto Geisel, quando houve um endurecimento no autoritarismo em nosso país. O longa acompanha o retorno de Marcelo (Wagner Moura, indicado ao Oscar 2026 de Melhor Ator) à cidade do Recife. A princípio, a sensação que temos é a de que ele deseja recomeçar a sua vida. Aos poucos, vamos perceber que, na realidade, Marcelo está ali por outros motivos.
É aqui, então, que entra o cerne por trás do que assistiremos em “O Agente Secreto”. Todo o filme permeia o conceito de memória. Principalmente aquele relacionado às memórias individual e coletiva. Marcelo está em Recife e tem pressa. A pressa dele é justificada pela necessidade de manter a sua história e a de sua esposa (Alice Carvalho) vivas - num momento em que muitos resistiram. A pressa dele é por causa do filho Fernando, que representa o futuro e o recomeço que ele espera ter.
A memória tem um importante papel de preservação. E os sinais estão ao nosso redor, em “O Agente Secreto”. Seja nas histórias individuais de cada um dos personagens, seja nas gravações das interações de Marcelo com diversas pessoas, seja na retomada do tempo passado da trama, seja no tempo presente da história e, até mesmo, no esquecimento que o tempo traz. Afinal de contas, para a memória, tão importante quanto lembrar é também esquecer.
Talvez, por isso, o filme de Kleber Mendonça Filho seja tão singular. Ao trazer uma história com um cunho de localidade, inserida na cultura e nos causos recifenses, “O Agente Secreto” se transforma em um lugar de memória, em suas dimensões material, simbólica e funcional. É um filme caótico, no melhor sentido que essa palavra pode ter; ao mesmo tempo em que carrega toda a dor que essa época teve.
Davi: Nasce um Rei
3.4 18 Assista AgoraA animação “Davi: Nasce um Rei”, dirigida por Phil Cunningham e Brent Dawes), como o próprio título deixa subentendido, conta a história de um dos personagens mais conhecidos da Bíblia Sagrada: Davi, que foi ungido por Jesus como o segundo Rei de Israel.
O filme acompanha os momentos mais importantes da vida de Davi (dublado por Brandon Engman e Phil Wickham). Primeiro, quando ele era um jovem pastor e músico e foi ungido pelo profeta Samuel como rei de Israel. Segundo, quando ele, convocado pelo Rei Saul, acaba enfrentando e ferindo mortalmente Golias, o guerreiro do exército filisteu. Terceiro, quando sua relação com Jônatas, filho de Saul, é forjada. Quarto, quando ele passa a ser perseguido pelo Rei Saul e, após a morte deste, se torna o rei da tribo de Judá, momento que antecede a sua consagração final como Rei de Israel.
Em comum nessa trajetória, temos a confiança profunda de Davi na bondade de Deus, na sua justiça e, principalmente, no seu amor por todos nós.
“Davi: Nasce um Rei” é uma animação de elementos tradicionais, com uma ótima história, com músicas muito bonitas (destaque para a linda “Shalom”) e com o relato da trajetória de um verdadeiro herói. Um filme que é um verdadeiro acerto - para o público adulto e para o infantil.
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 355 Assista AgoraAssistir a “Avatar: Fogo e Cinzas”, filme dirigido e co-escrito por James Cameron, é uma experiência de dèjà-vu. Explico: no terceiro longa da série, a trama principal se mantém - o fato de que Quaritch (Stephen Lang) segue na sua caçada em busca da família de Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldaña).
Seguindo a linha da abordagem dos quatro elementos da natureza, em “Avatar: Fogo e Cinzas”, o diretor James Cameron trabalha com o fogo - representado pela tribo Ash, que é liderada por Varang (Oona Chaplin) - para retratar mais um capítulo em que os Na’vi têm que lidar com a iminência do perigo.
Mais uma vez, podemos identificar diversos filmes dentro de “Avatar: Fogo e Cinzas”: o que mostra a família Sully tendo que lidar com uma perda - e com consequentes decisões - difíceis, a que mostra os bastidores da cruzada de Quaritch - com o apoio e a estrutura do governo norte-americano, a que mostra o surgimento e a aproximação de Quaritch do povo Ash e o que mostra, por fim, mais um embate entre Quaritch e Sully.
Também, mais uma vez, estamos diante de um filme que é um verdadeiro espetáculo visual. Não há dúvida da competência de James Cameron em entregar um longa totalmente alinhado com o que há de mais moderno em termos da tecnologia do cinema. Uma pena que, para que isso aconteça, ele sacrifique por completo o roteiro - que continua a ser o maior dos problemas dessa série.
Um Senhor Estagiário
3.9 1,2K Assista AgoraO protagonista de “Um Senhor Estagiário”, filme dirigido e escrito por Nancy Meyers, é Ben Whittaker (Robert De Niro), um senhor de 70 anos, aposentado e viúvo, que está com muito tempo livre. Ele sabe que há um vazio na sua vida que precisa ser preenchido. A oportunidade aparece quando ele decide se candidatar ao Programa de Contratação de Estagiários Sêniores de uma empresa de vendas on-line em ascensão no mercado.
Como um dos selecionados pelo Programa, Ben é designado para trabalhar como assistente da CEO da empresa, Jules Ostin (Anne Hathaway). “Um Senhor Estagiário”, portanto, coloca o seu foco no relacionamento que se estabelece entre Ben e Jules, com destaque para alguns temas interessantes, relacionados ao conflito de gerações no ambiente de trabalho e à afirmação e a pressão que a mulher sofre quando ocupa uma posição de destaque profissional e também precisa dar conta das demandas advindas de sua vida familiar (como mãe e como esposa).
Neste sentido, Ben Whittaker é um homem analógico no mundo digital, que chama a atenção pelo seu caráter observador, o que faz com que ele enxergue os seus colegas em todas as suas vulnerabilidades, passando a atuar quase como um mentor, alguém que ajuda todos eles a crescerem.
Já Jules Ostin é alguém que sofre uma pressão sobrecomum. Para ela, nunca será o suficiente. Ela pode ser a mulher mais bem-sucedida do mundo; mas, se isso não vier acompanhado do casamento perfeito e da maternidade plena, ela nunca se sentirá completa. Se fosse Ben, por exemplo, em seu lugar, ele nunca sofreria esse tipo de pressão.
“Um Senhor Estagiário” lida com essas questões de uma forma leve e divertida. No decorrer do filme, vemos personagens que têm que se reinventar constantemente, que têm que lidar com as cobranças da vida adulta e com as mudanças para as quais, muitas vezes, não estamos preparados. É uma obra que segue atual e, suspeito, permanecerá assim por um bom tempo!
Apocalipse nos Trópicos
3.8 189 Assista AgoraO Censo 2024 revelou o crescimento da religião evangélica no país. Atualmente, no Brasil, os evangélicos representam 26,9% da nossa população - um aumento de 5,2 pontos percentuais comparado com o Censo 2010.
O documentário “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido e co-escrito por Petra Costa, tem como objetivo principal investigar o aumento do controle exercido por lideranças evangélicas sobre a política brasileira.
Da mesma forma que houve um aumento expressivo da população evangélica no Brasil, podemos perceber o crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional, bem como a ampliação dos evangélicos eleitos para cargos de chefia de governo, em todas as suas esferas.
Para tanto, Petra Costa estuda, em seu documentário, a ascensão do governo Bolsonaro. Para a diretora, foi neste momento em que tivemos a instauração de uma teocracia no Brasil - um sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado no poder religioso, pela representação do governante como a própria entidade, como se ele tivesse sido ungido para o poder.
Em sua tese, Petra dialoga com autoridades políticas, com autoridades religiosas (notadamente o Pastor Silas Malafaia - ele mesmo um vértice importante para a ascensão da extrema direita no Brasil) e com evangélicos, de forma a tentar compreender como este fenômeno se instaurou em nosso país.
O documentário termina com o ocaso do governo Bolsonaro, os atos antidemocráticos de 2023, em que os admiradores do ex-Presidente, influenciados pelo quê ou por quem, tentaram efetuar um Golpe de Estado em nosso país.
Interessante perceber que, para Petra, a visão sobre o conceito de apocalipse não inclui o seu comum significado como “o fim do mundo”. A diretora se agarra ao significado grego que a palavra possui: descobrir ou revelar algo que estava oculto.
Com “Apocalipse nos Trópicos”, o que Petra Costa nos revela é que o adversário tem armas poderosas em prol de seus próprios interesses. O que precisamos entender é que a estrutura milimetricamente calculada de Brasília representa algo que nos foi revelado no pós 08 de janeiro de 2023: aquelas instituições, travestidas de instrumentos de poder, são responsáveis pela garantia de nossos direitos e daquilo no qual a nossa frágil democracia está construída.
Este é um documentário que estreia num timing perfeito, para nos relembrar de tudo isso.
Elio
3.3 140Se tem uma coisa que está bem definida em “Elio”, animação dirigida por Adrian Molina, Madeline Sharafian e Domee Shi, é a construção da personagem principal. Elio (dublado por Yonas Kibreab na versão original) é um menino que se agarra ao desejo de descobrir o que existe em outros planetas como uma forma de superar a morte de seus pais.
No seu afã de estabelecer uma comunicação com seres de outros planetas, o que Elio acaba não percebendo é que isso se torna uma obsessão tão grande que afeta o seu relacionamento com a tia, a Major Olga Solís (dublada por Zoe Saldaña na versão original), que assume a função de ser sua cuidadora. Existe uma distância entre eles, um abismo no diálogo entre os dois.
“Elio” aborda o que acontece com o garoto quando o seu desejo mais profundo se torna realidade. Quando ele desembarca no Comuniverso (um planeta que acolhe as diversas formas de vidas inteligentes das mais diferentes galáxias), assumindo o posto de embaixador do Planeta Terra, Elio vivencia o seu sonho e se sente livre para ser o menino que ele sempre quis ser.
O curioso, na jornada de Elio, é que ele, ao encontrar com os seres que habitam o Comuniverso, acaba sendo jogado a uma conversação consigo mesmo. Ao aprender sobre si, sobre a força que ele possui, sobre a verdade que ele carrega dentro dele mesmo, Elio se liberta das amarras que ele colocou sob seus ombros. Isso está representado pela frase mais bela da animação quando Elio ouve o seguinte: “Ser único, muitas vezes, pode parecer solitário. Mas você nunca estará só”.
Se abrir para o mundo e para o que ele tem a oferecer a nós: esse é o maior aprendizado que levamos de “Elio”.
Lilo & Stitch
3.5 250 Assista AgoraToda a essência do que está por trás do filme “Lilo & Stitch”, dirigido por Dean Fleischer Camp, está no aprendizado do sentido do que, verdadeiramente, se constitui uma família.
Neste sentido, a história é centrada nas irmãs Lilo (Maia Kealoha) e Nani (Sydney Agugong), que estão se reerguendo após a perda dos pais. Como é costumeiro na cultura norte-americana, elas vêm sendo acompanhadas, nesse período de adaptação, por uma assistente social. A depender de como as coisas se desenrolem, pode ser que as irmãs sejam separadas e Lilo encaminhada a um lar adotivo.
Aqui, é importante um adendo para falarmos sobre essa personagem. Lilo é uma menina solitária, que tem dificuldade em fazer amigos. Ao encontrar o “cachorro” alienígena Stitch (dublado por Chris Sanders, na versão original), desenvolve com ele uma amizade honesta. Lilo se sente acolhida, amada e livre para ser ela mesma. E isso se reflete na forma como ela passa a se portar diante do mundo e dos obstáculos que ela enfrenta.
Assim, retornamos para a essência de “Lilo & Stitch” enquanto filme. Uma das suas frases memoráveis é aquela que diz: “Ohana significa família, e família significa que ninguém é deixado para trás”. Mais do que isso, o que Lilo e Nani aprendem é que o verdadeiro sentido de família é compreender que ela está fundada no apoio, no amor, na compreensão e no sacrifício.
A Semente do Fruto Sagrado
3.9 160 Assista AgoraIndicado ao Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional, “A Semente do Fruto Sagrado”, longa dirigido e escrito por Mohammad Rasoulof, tem como pano de fundo protestos políticos a nível nacional que aconteceram em Teerã, capital do Irã que vive sob a égide de um governo representante da República Islâmica.
A história enfoca como esses acontecimentos acabam afetando a vida de uma família - formada pelo pai Iman (Missagh Zareh), pela mãe Najmeh (Soheila Golestani) e pelas filhas adolescentes Sana (Setareh Maleki) e Rezvan (Mahsa Rostami).
Iman ascendeu profissionalmente recentemente, passando a ocupar a posição de Investigador, que antecede, justamente, a sua maior ambição profissional: ser juiz de instrução do Tribunal Revolucionário do Teerã.
O diretor e roteirista Mohammad Rasoulof nos leva à intimidade desta família, na forma como a violência os atinge proximamente e, principalmente, com a preocupação da mãe com a posição que seu marido exerce, em meio a tanta turbulência a nível nacional.
Quando a arma de Iman some misteriosamente, a desconfiança e a paranoia dele levam a repressão para dentro de seu próprio lar. Ao ver seu projeto pessoal e de poder ameaçado, Iman se torna capaz de trazer limitações e proibições para o seio de sua própria casa.
“A Semente do Fruto Sagrado” acaba sendo uma importante crônica sobre como, num país que tem como marca a opressão às mulheres, muitas vezes, é por meio das mãos femininas que as mudanças que se fazem necessárias são implementadas. O que ocorre na casa de Iman é somente um reflexo da efervescência que se via nas ruas de Teerã.
Flow
4.2 585Tal qual Noé que, diante de um dilúvio, embarcou em uma arca com sua família e com diversos animais, com o objetivo de se salvarem; a jornada do gato que protagoniza a animação “Flow”, dirigida por Gints Zilbalodis, também um conto de sobrevivência diante de um desastre natural.
Após uma grande enchente, um solitário gato tem que encontrar formas para sobreviver. Ele encontra abrigo em um barco que, na medida em que a trama vai se desenvolvendo, passa a ser povoado por diversas espécies. Nesta jornada, os animais que ali convivem aprendem, não só a coexistirem entre si, apesar de suas diferenças; como também entram em contato com sentimentos como a esperança, o altruísmo, a coragem e a abnegação a partir do instante em que vivenciam diversos desafios e se adaptam a um mundo desconhecido.
Assistir a “Flow” é uma experiência interessantíssima. Estamos diante de uma animação que não possui diálogos, protagonizada por espécies de animais que se comunicam entre si usando a sua própria linguagem, trejeitos e características. Apesar disso, conseguimos mergulhar profundamente neste universo, vivenciando as experiências com estas personagens, aproveitando cada cenário que eles desbravam.
Malcolm X
4.1 287 Assista Agora“Com toda honestidade e sinceridade, pode-se afirmar que não desejo nada além de liberdade, justiça e igualdade: vida, liberdade e a busca da felicidade para todas as pessoas. Minha primeira preocupação, é claro, é com o grupo ao qual pertenço, os afro-americanos, pois nós, mais do que qualquer outro, somos privados desses direitos inalienáveis. Acredito que a verdadeira prática do islamismo pode remover o câncer do racismo dos corações e almas dos americanos brancos”.
Ativista dos direitos humanos, ministro muçulmano, Malcolm X foi um grande defensor do nacionalismo negro nos Estados Unidos, numa época em que os negros sofriam agressões e desrespeitos em todos os lados. A sua história nos é contada no épico autobiográfico “Malcolm X”, dirigido e co-escrito por Spike Lee.
No filme, Lee cobre as diversas fases da vida de Malcolm: os anos iniciais como um ladrão/vigarista das ruas; a sua prisão e a sua consequente transformação pessoal, quando ele entra em contato com a Nação do Islã (grupo político e religioso, que tem como propósito a melhoria da condição econômica, social e espiritual nos negros nos Estados Unidos); a sua ascensão como figura mais importante - e de referência, ao lado de Elijah Muhammad - da Nação do Islã; a sua ruptura com a Nação, a viagem à Meca e a fundação da Organização para a Unidade Afro-Americana; até o seu assassinato em 21 de fevereiro de 1965.
Figura magnética, consciente, inteligente e extremamente eficaz na forma como se comunicava, chamava a atenção em Malcolm X não só a sua liderança nata, como também o fato de que os ideais que ele defendia terem ressonância até os dias atuais. Denzel Washington está brilhante, em uma atuação indicada ao Oscar 1993 de Melhor Ator.
“Malcolm X” é uma obra grandiosa de Spike Lee, principalmente na forma como ele conseguiu nos retratar que as esperanças, os sonhos e as lutas de Malcolm em prol dos negros norte-americanos seguem atuais. É um filme sobre a profundidade das questões raciais, com reflexões importantíssimas sobre esse tema.
Os Quebra-Nozes
2.7 22 Assista AgoraUm dos ballets mais populares de todos os tempos rende aquele que é o momento mais emocionante do filme “Os Quebra-Nozes”, dirigido por David Gordon Green. Quando os quatro irmãos Kicklighter fazem a encenação de uma versão livre da história musicalizada por Tchaikovsky, aquele instante representa não só a conexão deles com a memória dos pais recém-falecidos. Aqueles segundos marcam também a confirmação do entendimento da missão que o tio Mike (Ben Stiller) tem com estes meninos.
Quando o filme inicia, Mike está chegando na casa da irmã para assumir o papel de tutor dos sobrinhos enquanto a assistente social (Linda Cardellini) não encontra o lar adotivo que irá receber as crianças. A tarefa de descobrir novos pais para os meninos Kicklighter se revela muito complicada, não só por causa da personalidade marcante deles, mas também porque existe o desejo de não separá-los.
Para Mike, assumir a guarda dos sobrinhos é uma possibilidade inexistente. Ele se sente confortável com sua vida de solteiro, com a sua dedicação exclusiva ao trabalho e não vê a hora de retornar ao local de onde veio.
“Os Quebra-Nozes”, portanto, é um filme que captura justamente o vínculo que se forma entre esse tio estranho (no sentido de que Mike era alguém que não fazia parte da vida familiar dos Kicklighters) e quatro meninos que passam pelo momento mais vulnerável que alguém pode imaginar vivenciar.
Não dá para negar que estamos diante de um filme totalmente clichê. Mas o grande charme por trás de “Os Quebra-Nozes” é pegar a plateia pelo coração. Impossível não se emocionar com essa história!
Blitz
2.8 49 Assista Agora“Blitz”, filme dirigido e escrito por Steve McQueen, se passa durante a II Guerra Mundial, porém, ao invés de centrar-se no conflito em si, aborda uma trama que tem ênfase na rotina dos habitantes comuns das cidades atingidas pela guerra, mais precisamente, na relação entre uma mãe e seu filho.
O título do filme faz referência à palavra blitzkrieg, que é uma tática militar que consiste na realização de ataques rápidos e coordenados, com o objetivo de desmobilizar e derrotar os inimigos. Na Inglaterra, país no qual o filme se passa, como uma forma de tentar resguardar as crianças dos perigos dos bombardeios, as mães embarcavam seus filhos em trens que partiam rumo ao interior do país, onde eles eram abrigados por outras famílias, encontrando um pouco de paz em meio ao caos de uma grande guerra.
É justamente essa a decisão que Rita (Saoirse Ronan) toma. Porém, George (Elliott Heffernan), seu filho de 9 anos, não está satisfeito com o ato de sua mãe. “Blitz”, portanto, se divide em duas linhas narrativas: a que segue George em sua jornada de volta a casa após ele pular do trem no qual foi colocado pela mãe e a que retrata Rita em sua angustiosa busca pelo paradeiro do seu filho.
Embora encontre espaço para tratar de temas muito importantes, como as tensões racial e trabalhista presentes na Inglaterra naquele período, a resistência encontrada nos abrigos da cidade e o envolvimento dos cidadãos como um todo num conflito tão complexo quanto a II Guerra Mundial; a verdade é que “Blitz” é um filme que acaba desperdiçando o seu potencial justamente por causa do desenvolvimento do seu roteiro, que é bastante irregular.
Anatomia de uma Queda
4.0 990 Assista AgoraUma casa isolada numa montanha de localização remota no interior da França, onde vive o casal formado pela escritora Sandra Voyter (Sandra Hüller, indicada ao Oscar 2024 de Melhor Atriz), seu marido Samuel Maleski (Samuel Theis) e seu filho deficiente visual Daniel (Milo Machado-Graner). Este é o local em que, numa manhã de inverno, Samuel é encontrado morto, em circunstâncias misteriosas.
O filme “Anatomia de uma Queda”, dirigido e co-escrito por Justine Triet, como o próprio título deixa subentendido, se dedica a dissecar a morte de Daniel, principalmente quando se passa na sala de tribunal em que Sandra, indiciada pela morte do marido, é julgada. Ao longo do julgamento, vemos a intimidade do relacionamento pessoal e familiar de Sandra, Samuel e Daniel ser exposta em seus mínimos detalhes, com o objetivo justamente de desvendar o que aconteceu: Samuel foi assassinado pela esposa ou cometeu suicídio?
Neste sentido, o ponto mais importante de “Anatomia de uma Queda” é ver os acontecimentos se desenrolarem pelo olhar e pelo ponto de vista de Daniel, o filho único e testemunha ocular dos fatos que assistimos serem descortinados. Colocado na posição de ver seus pais em todas as suas maiores vulnerabilidades, Daniel se encontra na difícil posição de ser aquele que pode decretar o destino de sua mãe. A montanha russa de emoções que ele vivencia é equivalente a que iremos sentir assistindo ao filme.
Indicado a cinco Oscars 2024, “Anatomia de uma Queda” acabou vencendo na categoria que é o seu maior ponto principal: a de roteiro original. A história escrita por Justine Triet e Arthur Harari é um quebra-cabeça interessante, cujas peças vão sendo reveladas para nós da plateia no momento certo. O que move o filme é a busca pela verdade. O curioso é que, ao finalizarmos a sessão, não temos certeza se estamos diante dela.
“Anatomia de uma Queda” é uma jornada intensa, que nos tira da zona de conforto enquanto espectadores e que, ao final de tudo, nos revela o alívio que advém não da descoberta da verdade, e sim de ter se visto livre de um enorme peso que causava a tormenta - e isso pode ser compreendido por diversos prismas.
Moana 2
3.2 189 Assista AgoraAs características mais marcantes de Moana (dublada na versão original por Auli’i Cravalho) são a sua curiosidade e a sua coragem. Foram elas que a levaram a desbravar o que tinha além do oceano em “Moana: Um Mar de Aventuras”. Serão elas que a levarão a sair em busca dos povos que habitam os mares em “Moana 2”, animação dirigida por David G. Derrick Jr., Jason Hand e Dana Ledoux Miller, que dá sequência à história da personagem e sua construção como a heroína do povo de Motunui.
O interessante na continuação, no entanto, é que Moana é incentivada pelos seus ancestrais a dividir o protagonismo com seus conterrâneos, deixando que, assim como ocorreu com ela no primeiro filme, cada um possa construir a sua própria história e descobrir aquilo que faz deles seres únicos e inspiradores.
Uma pena, no entanto, que “Moana 2” tente repetir a receita que fez de “Moana: Um Mar de Aventuras” o grande sucesso que foi. A continuação parece uma colagem do primeiro filme, repetindo a construção narrativa e também tentando replicar os grandes momentos musicais sem, diga-se de passagem, conseguir alcançar o mesmo resultado.
O Feitiço do Natal
3.1 130 Assista AgoraO Advento é o tempo de preparação para a chegada do Natal. Ele inicia no dia 01 de dezembro, finalizando no dia 24 do mesmo mês. Também marca o início do novo ano litúrgico para a religião Católica, ao mesmo tempo em que é a linha temporal na qual se passa o filme “O Feitiço do Natal”, dirigido por Bradley Walsh.
Nesta comédia romântica, o roteiro escrito por Amyn Kaderali é centrado na fotógrafa Abby Sutton (Kat Graham), que está num daqueles momentos que são verdadeiras encruzilhadas na nossa vida: deveria ela ir em busca dos seus sonhos ou seguir a sua vida, buscando a estabilidade?
No meio de uma movimentada temporada natalina, ela ganha de presente de seu avô (Ron Cephas Jones) um calendário do advento que se revela ser um objeto mágico. A cada dia, a cada novo objeto temático do Natal que ele descortina, há a previsão do futuro próximo, ajudando-a a solidificar aquilo que ela espera de sua vida.
Se tem uma coisa que “O Feitiço do Natal” nos relembra é que tudo na nossa vida é uma questão de perspectiva. A forma como encaramos os desafios ou como enxergamos as oportunidades vai de acordo com a nossa visão, com o nosso entendimento, naquele momento em particular. O que o filme nos mostra também é que muitas vezes acabamos cegos para o que está cristalino diante dos nossos olhos e isso nos impede de enxergar muitos caminhos importantes que devemos seguir/encarar/enfrentar/viver.
A Baleia
4.0 1,2K Assista AgoraUma das poucas certezas que a gente tem quando se depara com Charlie (Brendan Fraser, vencedor do Oscar 2023 de Melhor Ator), a personagem principal de “A Baleia”, filme dirigido por Darren Aronofsky, é a de que ele desistiu de viver. Isolado do mundo, com relacionamentos sociais restritos e convivendo com o sobrepeso, Charlie passa seus dias esperando pelo momento em que vai morrer.
O roteiro escrito por Samuel D. Hunter (com base na peça de sua autoria) acompanha justamente a última semana de vida de Charlie, em que ele toma algumas decisões importantes: a principal delas é a tentativa de reconexão com a filha Ellie (Sadie Sink), a quem ele abandonou após se divorciar da esposa (Samantha Morton).
Por meio do retrato da rotina de um homem solitário e que perdeu o prazer de viver; através do recorte de seus relacionamentos pessoais, com gente que transita, temporariamente, em sua vida; temos a tentativa de um estudo da personalidade de Charlie, ao mesmo tempo em que o filme propõe a compreensão do por quê, talvez, ele tenha desistido de viver.
Os traumas de Charlie, as dores que ele carrega consigo, a sua falta de amor próprio, a culpa que ele sente e a fé inabalável dele na bondade do ser humano são características que ficam palpáveis em cada cena. A sua resignação com seu destino também - o que reflete, por sua vez, o caráter autodestrutivo que Charlie possui.
“A Baleia” é um filme que faz um estudo competente de um personagem, principalmente na maneira como dialoga com suas referências, em especial com a obra “Moby Dick”, de Herman Melville. A dor e a delícia de ser Charlie estão diretamente relacionadas ao fato de que a personagem decidiu se entregar ao caminho da verdade, em todas as esferas de sua existência.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista Agora“Ainda Estou Aqui”, filme dirigido por Walter Salles, é uma obra sobre a ditadura militar brasileira, sobre as vítimas desse regime e sobre o impacto da perda dessas pessoas sobre as suas famílias. Porém, acima de tudo, é um longa sobre uma mulher que descobre a sua força em meio ao maior revés que sofreu em vida.
Baseado no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” conta a história de Eunice Paiva (Fernanda Torres), que foi alçada ao posto de arrimo de família quando, em 1971, o seu marido, o engenheiro civil e ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) foi levado de dentro da residência da família para nunca mais retornar.
Chama a atenção durante o filme o fato de que Eunice (ela própria também levada para os porões da ditadura, onde permaneceu por 11 dias) não se vitimiza. Numa época em que as famílias e as pessoas eram obrigadas a se silenciar diante dos acontecimentos, ela tomou a sua dor e a utilizou como força para sua transformação pessoal. Eunice se mudou com a família para uma nova cidade, se formou em Direito aos 48 anos, se tornou uma referência no Direito Indígena e na luta dos familiares das vítimas da ditadura, e conseguiu obter, na justiça, o reconhecimento do destino de seu marido.
A história de Eunice nos é contada pelo diretor Walter Salles num filme repleto de sutilezas. Do contraste entre a alegria do início do longa, com a presença da música, da festa e dos sorrisos; para o vazio do silêncio que se segue após o desaparecimento e assassinato de Rubens Paiva. Discrição essa que é adotada pela família Paiva, que não pode comentar e nem vivenciar seu luto. Eles resistem. A imagem de uma Eunice, já idosa (interpretada por Fernanda Montenegro), serena, presa em seus próprios pensamentos, com um olhar que grita a dor de quem nunca pôde vivenciá-la em público é a imagem que fica em mim e que eu carrego comigo desde que assisti a “Ainda Estou Aqui”.
Dentre as inúmeras funções que o cinema pode desempenhar está a do resgate da memória, por meio das representações que pode fazer. Daí a importância de “Ainda Estou Aqui”. Num paralelo com o título do filme, as Eunices que resistem ainda estão aqui; os Marcelos que revisitam suas próprias histórias ainda estão aqui; aqueles que defendem o indefensável ainda estão aqui; aqueles que fizeram atos crueis e criminosos ainda estão aqui. É preciso lembrar sempre, tocar na ferida. Ao lembrarmos, somos rememorados daquilo que não devemos repetir.
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraEnquanto eu assistia “A Substância”, filme dirigido e escrito por Coralie Fargeat, me lembrei muito do conceito de grotesco. Normalmente, esta é uma palavra ligada ao sentido do que é bizarro e/ou extravagante. Porém, na realidade, este é um termo que, principalmente durante a era Renascentista, encontrou seu cerne no retrato da natureza mutante dos corpos, admitindo as formas consideradas monstruosas como manifestações exuberantes da força criadora.
Ou seja, existe muito do grotesco no relato da história da atriz Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma figura pública da televisão norte-americana, popularizada em um programa que retrata sua rotina de exercícios. Assim como muitas outras personalidades do mundo do entretenimento, Elizabeth sofreu com a passagem do tempo, com o fato de ser considerada “velha” e é uma questão de tempo até ela ser demitida e substituída por alguém mais jovem, que possa atrair uma nova audiência.
É aqui que entra “A Substância” que o título do filme se refere. Ela é um tratamento médico experimental que promete uma versão melhor de você mesma. É assim que Elizabeth dá vida a Sue (Margaret Qualley). As duas são uma extensão da outra e existe um equilíbrio entre elas que deve ser respeitado.
Como respeitar esse equilíbrio num mundo de vaidades, de ambição, de ciúme, de invejae de competição excessiva? Por meio do retrato da relação “médico x monstro” que se estabelece entre Elizabeth e Sue, “A Experiência” destila a sua crítica a um mundo que exige de nós a perfeição em todos os nossos campos de atuação.
O grotesco, em “A Substância”, está na forma como o corpo feminino é retratado, na maneira como a comida é mostrada, em como essas mulheres se submetem aos maiores absurdos devido a um ponto de vista e a um mundo dominado por homens, no banho de sangue que escancara a hipocrisia de uma sociedade preocupada com as aparências, e, principalmente, na compreensão definitiva de que a sua melhor versão, no caso de Elizabeth, na verdade, é uma aberração sem controle!
No final, uma pergunta deixa a reflexão: vale a pena se sujeitar a tudo isso para prolongar os seus cinco minutos de fama?
Todo Tempo Que Temos
3.4 177 Assista AgoraA expressão “We Live in Time”, título original do filme dirigido por John Crowley, significa “vivemos no tempo”. Ela representa muito bem o relacionamento principal que é abordado pelo longa: o que envolve a chef Almut (Florence Pugh) e o profissional de TI Tobias (Andrew Garfield).
Os dois, apesar de serem bem diferentes um do outro em termos de personalidade, acabam se conhecendo (num encontro pra lá de inusitado), se apaixonando e vivendo um namoro/parceria/casamento que dura uma década.
Chama a atenção, inclusive, em “Todo Tempo que Temos” (o título traduzido no Brasil), a forma como este relacionamento é construído. Com base em concessões, em compreender a necessidade do outro e, principalmente, no respeito às escolhas que são feitas ao longo dessa caminhada.
Como o filme tem uma tendência ao melodramático, um dos grandes acertos do diretor John Crowley é dirigir esta história com sensibilidade, entendendo que a vivência de uma relação é composta de momentos que são a pura definição da felicidade e de instantes em que nem sempre estaremos felizes. E tá tudo bem!
O outro grande acerto de “Todo Tempo que Temos” foi a escalação da dupla Florence Pugh e Andrew Garfield, que passam credibilidade em tela como o casal principal, representando bem a montanha russa de sentimentos que é se entregar ao amor correndo os riscos de ser arrebatado pela impermanência de nossas vidas.
Walt Antes do Mickey
3.2 172 Assista grátisFoi em 1928 que Walt Disney, com o apoio do animador Ub Iwerks, criou a personagem que daria a ele o sucesso que ele tanto almejava: o Mickey Mouse. O filme “Walt Antes do Mickey”, dirigido por Khoa Le, aborda a trajetória do produtor, cineasta e diretor antes dele ter a maior ideia de sua vida.
A história de “Walt Antes do Mickey” se passa entre os anos de 1919 e 1928, período em que Walt Disney pavimentou o seu caminho como o grande empreendedor no qual ele se transformou. Um homem de visão, que, com muita persistência e coragem, foi construindo a sua carreira produzindo pequenas séries de desenhos animados, que evoluíram para filmes de animação - sempre se destacando pelo uso inovador das técnicas disponíveis naquele momento.
Entretanto, o que “Walt Antes do Mickey” nos mostra é que foram os diversos revezes pelos quais passou que fizeram com que Walt Disney (interpretado por Thomas Ian Nicholas) soubesse encarar e superar seus próprios fracassos. Mais do que a sua resiliência, o que chama a atenção na sua história é a fidelidade que Disney tinha ao que ele acreditava ser o correto e, principalmente, aos seus. Ter pessoas de sua confiança ao seu redor foi fundamental para que Walt prosperasse.
É importante observar, no entanto, que uma história tão rica nos é apresentada em um filme que tem, claramente, uma produção mais modesta - fato que, em nenhum momento prejudica o resultado final da obra. O mais importante aqui é a mensagem que “Walt Antes do Mickey” quer nos passar e que está relacionada a seguirmos os nossos sonhos, independente dos obstáculos que encontramos em nossos caminhos. Pode parecer difícil, mas com persistência e determinação, um dia, você pode chegar lá!
A Última Sessão de Freud
3.1 40 Assista AgoraAcredita-se que, pouco antes de sua morte, no dia 23 de setembro de 1939, o psicanalista Sigmund Freud teve um encontro com um professor da Universidade de Oxford, que fica localizada na Inglaterra - país em que Freud residia. Até hoje, a identidade desse professor é desconhecida.
Para a peça de Mark St. Germain, que dá base ao filme “A Última Sessão de Freud”, dirigido por Matt Brown, este encontro foi com o professor e escritor C.S. Lewis e teve como assunto principal o livro “O Regresso do Peregrino”, que foi publicado por ele após a sua conversão ao cristianismo e que é inspirado, por sua vez, pelo livro “O Peregrino”, de John Bunyan.
Ao longo de um dia de conversas, que são retratadas no decorrer do filme, vemos Freud e Lewis discutindo sobre a religião, a sexualidade, os relacionamentos humanos e o amor. O roteiro ainda adentra nas vidas pessoais das suas personagens principais, abordando duas relações complexas: a de Freud (interpretado por Anthony Hopkins) com sua filha Anna (Liv Lisa Fries) e a de Lewis (interpretado por Matthew Goode) com a mãe de seu melhor amigo, que foi vitimado na I Guerra Mundial.
Por ser baseado em uma peça teatral, “A Última Sessão de Freud” encontra a sua força nos diálogos que são travados entre as personagens. Nesse sentido, o filme tem seu ponto alto no duelo de atuações entre Anthony Hopkins e Matthew Goode, ambos excelentes como dois homens de convicções fortes e que tentam, a todo custo, fazer com que um ao outro saiam de suas zonas de conforto.
O interessante é que, no diálogo entre eles, não existe espaço para o que é certo e nem para o que é considerado errado. E, na medida em que eles vão se abrindo, podemos adentrar um pouco mais nas mentes de duas personalidades célebres e que deixaram contribuições importantes em seus respectivos campos de atuação.
Meu Casulo de Drywall
3.2 6No mês em que se é celebrado o Setembro Amarelo, o filme “Meu Casulo de Drywall”, dirigido e escrito por Caroline Fioratti, que estreia amanhã, nos cinemas brasileiros, aborda a temática da saúde mental por meio de sua personagem principal, a jovem Virgínia (Bella Piero), que, na noite de comemoração do seu aniversário de 17 anos, comete suicídio devido a uma overdose de medicamentos controlados.
De forma a tentar compreender o que levou Virgínia a cometer tal ato, o filme alterna uma linha narrativa que perpassa o passado e o presente para analisar de que maneira a morte da adolescente vai influenciar o futuro daqueles que eram mais próximos dela e, por consequência, foram afetados de maneira mais forte pela sua morte.
“Meu Casulo de Drywall” se passa num condomínio de luxo, dentro do segmento da classe média alta. Ao longo do aniversário de Virgínia, são revelados os problemas que me parecem afligir boa parte da juventude atual: a falta de identificação e a distância para com os pais, a vivência de relacionamentos abusivos, a instabilidade emocional, a superficialidade e as mentiras.
Por mais simples que possa parecer, a experiência de assistir a “Meu Casulo de Drywall” transparece algo que é nítido: o quanto o fato de estarmos absorvidos pelos nossos próprios problemas nos leva a não enxergar as dores de quem está próximo de nós, nos impedindo de oferecer a ajuda que ele(a) precisa.
Uma pena, no entanto, que uma temática tão importante se perca em um filme que tem problemas na sua narrativa e, principalmente, na forma como se propõe a apresentar a jornada de Virgínia, de sua mãe, de seu namorado, de sua melhor amiga e de um amigo próximo, agora, distante.
As Palavras
3.6 669“Todos nós fazemos escolhas na vida. O difícil é viver com elas”. O filme “As Palavras”, dirigido e co-escrito por Brian Klugman e Lee Sternthal, nos coloca diante de um protagonista que tem que lidar, justamente, com as consequências de sua escolha.
Rory Jansen (Bradley Cooper) é um aspirante a escritor, que trabalha em uma editora. Seu sonho de ter um livro próprio publicado é alcançado quando um de seus manuscritos, chamado “The Tear Window”, é lançado. A obra se transforma num sucesso instantâneo, alçando o nome de Rory para a fama e para a glória como escritor.
Só que tem um detalhe importante: Rory não é o autor do livro. Ele encontrou o manuscrito em uma pasta adquirida numa loja de antiguidades. O seu sucesso, portanto, é consequência de uma grande mentira. Assim, “As Palavras” nos mostra como Rory lida com o seu segredo obscuro, principalmente a partir do momento em que ele é confrontado com a verdade por trás do que ele fez.
“As Palavras” é um filme que tem um recurso narrativo muito interessante, baseado na metalinguagem. A história de Rory Jansen, na realidade, é a trama de um livro escrito por Clay Hammond (Dennis Quaid). As linhas ficcionais e narrativas vão se entrecruzando, até o ponto em que não temos a plena certeza se o que assistimos realmente aconteceu. Uma pena que um recurso estilístico dessa natureza seja desperdiçado com a subtrama que coloca Clay em um flerte desnecessário com uma fã jovem (Olivia Wilde) - a qual não acrescenta em nada à história principal do filme.