Apesar de ser contra analisar um filme puramente na emoção, a percepção sobre 'Ghosted' não mudou mesmo após respirar calma e profundamente, pois é como diz o ditado: para ser ruim, tem que melhorar muito. Absolutamente tudo na obra parece artificial, do enredo às atuações, passando por efeitos especiais tenebrosos e trilha sonora pop sem nenhuma conexão com as cenas. Ainda, o Dexter Fletcher está completamente perdido na direção e por um momento pensei que o agente do Chris Evans tinha se equivocado em escolher um papel do "velho testamento" nessa altura de sua carreira, mas, quando subiram os créditos e ele apareceu como produtor, só resta concluir que não pensa em expandir seus horizontes e prefere se manter na zona de conforto (apesar de ter tentado dar alguma dinâmica ao seu personagem). Para piorar, inexiste química com a Ana de Armas, que já é uma atriz limitada por natureza e não convence nas cenas de ação. Enfim, é um filme ruim em tudo que propõe e nem os cameos são capazes de trazer algum entretenimento.
'Sentimental Value' é um filme que exige atenção aos detalhes e às nuances dos personagens e da narrativa, podendo ser monótono ou profundo a depender da conexão do público com a história. As atuações são obviamente o destaque (minha preferida é a da Inga Lilleaas), apesar de parecem estar na zona de conforto do fantástico elenco, mas é a direção, o ritmo e os enquadramentos do Joachim Trier que tornam a obra tão intimista e especial diante da vastidão de propostas cinematográficas semelhantes.
Aliás, para um filme tão focado puramente em trama pessoal, curiosamente não há, à exceção da Rachel (Elle Fanning), evolução dos personagens, especialmente da protagonista, a qual tem sua vida conduzida por desejos alheios do início ao fim, por isso gostaria de mais intensidade nos diálogos e um desfecho mais audacioso. De todo modo, é uma sublime representação do cinema norueguês.
Visceral, esse foi o adjetivo que me veio à mente após sair de uma das sessões mais impactantes da minha vida. Sou apaixonado pela tecnicidade e autenticidade da Chloé Zhao, mas essa adaptação primorosa de 'Hamnet' excedeu e muito todas as expectativas possíveis. Poderia passar horas dissertando sobre o casting e atuações impecáveis, a linda fotografia com vívido contraste entre cores vibrantes e opacas, o roteiro excepcional, o figurino formidável, a trilha sonora magistral etc., todavia, o ato final envolvendo a peça homônima basta como representação da essência da obra e a carga emocional que ela transmite. As únicas críticas "negativas" são a abstração do misticismo que cerca a Agnes e a maquiagem (no caso, a falta dela) que não reflete visualmente nos protagonistas a passagem do tempo e o peso da paternidade. Não obstante, esse é, com toda a certeza, o melhor filme do ano.
É muito difícil compreender toda a magia de 'Blue Moon' sem conhecer todas as referências a uma época longínqua do cinema e do teatro estadunidense, ainda mais por envolver a vida de um escritor que possivelmente não seja tão conhecido pela audiência, e pelo "monólogo" relativamente denso e extenso.
Contudo, a parceria Linklater-Hawke já demonstrou repetidamente como as conversas podem ser o ponto central de um filme e de sua narrativa sem precisar de suporte. Nesse sentido, por um momento pensei no quão simples seria filmar essa obra, mas a sutileza do Linklater em deixar que os personagens conduzam a própria história sempre será algo de imensa admiração, assim como a capacidade do Ethan Hawke em abordar uma variedade de temas de maneira contínua e poética.
Não é exatamente memorável, mas inegavelmente tem um estilo único de cinebiografia ao tentar resumir uma vida em uma noite, e também tem valor para quem prefere algo mais intimista e boêmio.
O estilo excêntrico, as críticas/sátiras inteligentes, a trilha sonora estridente, os momentos de desconforto recorrente, a coloração saturada e o apelo à fantasia são características tão marcantes e inconfundíveis do Yorgos Lanthimos que, em verdade, seria surpreendente se o filme tivesse um desfecho diferente. Ainda que sua filmografia não seja exatamente do meu gosto, é realmente um privilégio acompanhar essa parceria do diretor grego com uma atriz tão brilhante como a Emma Stone, a qual consegue canalizar como ninguém a visão artística do "Salvador Dalí do Cinema".
Sobre o enredo, enquanto o Teddy é bastante verossímil enquanto conspiracionista (Jesse Plemons talvez no melhor papel de sua carreira), há nítidas controvérsias envolvendo a Michelle, considerando seu elevado duplo status social e os perigos do sequestro (a exemplo de sua segurança e decisões). As metáforas e paralelos com a realidade, por sua vez, são bem construídos, mas, no geral, resta a curiosidade em saber como seria a releitura ocidental caso o Lanthimos não se autolimitasse pelo respeito à obra original sul coreana e abraçasse integralmente o surrealismo narrativo pelo qual é conhecido.
Um filme visualmente belíssimo, com diálogos profundos e uma narrativa fluida que tenta carregar consigo toda a carga emocional derivada não só da busca do protagonista pelo seu propósito, mas também pelos impactos ambientais e profissionais das construções ferroviárias. Todavia, não consegui criar uma conexão com 'Train Dreams', talvez pela performance apática do Joel Edgerton e pelas cenas lentas de melancolia e isolamento civilizatório, ainda que a trilha sonora tenha sido bem inserida em cada contexto e que, no geral, reconheça que a simplicidade poética da obra mereça ser exaltada.
A Sony foi certeira ao criar uma animação que dialoga com a atual geração (enredo curto, direto e descomplicado) e com o atual contexto global de ascendência da cultura sul-coreana. Mais do que apenas furar a bolha, 'KPop Demon Hunters' é, talvez, a animação mais bem-sucedida da história do Cinema, tamanha a forma como transcendeu o streaming e conquistou diversos públicos, inclusive os que têm resistência a musicais e ao próprio estilo musical do longa.
Outros grandes acertos foram o aproveitamento da qualidade gráfica que consolidou o Aranhaverso e a real incorporação das músicas para contar as histórias dos personagens, não sua utilização como um mero acessório, o que tornou a narrativa bastante dinâmica. Ainda, a trilha sonora em si é incrivelmente contagiante, a dublagem é excelente e o entretenimento é despretensiosamente cativante.
'O Agente Secreto' é interessante e envolvente, mas faltou uma certa polidez de roteiro e montagem para que a fluidez da narrativa não fosse tão afetada por inserções desnecessárias (ex.: investigação científica paralela atual e conto da "perna cabeluda") e pela vagueza do próprio enredo, tornando o filme excessivamente longo e sujeito a questionamentos quanto às escolhas do protagonista (principalmente no contexto de perigo em que se encontrava), do financiamento da sua fuga e, especialmente, do frustrante arco final:
a retratação da morte do Armando em uma mera página de jornal foi de uma covardia sem tamanho e pareceu ignorar propositadamente as informações repassadas pela Elza, a tendência do protagonista em buscar um abrigo seguro com urgência, e as consequências da morte do Bobbi até mesmo para o Augusto. Além disso, o encerramento com o Fernando não transmite qualquer tipo de emoção e, sinceramente, não traz nenhuma contribuição
Como aspectos muito positivos, vale mencionar as críticas sociais (ex.: repressão, corrupção e corporativismo militar e defesa da educação pública), a ambientação, a retratação da cultura pernambucana, o elenco no geral e, claro, o reconhecimento internacional da impecável atuação do Wagner Moura que fala por si só (Tânia Maria também estava ótima). Quanto ao Kleber Mendonça Filho, a análise é divisiva em termos de direção e roteiro, mas merece os créditos por uma obra que ficará para sempre marcada na história do cinema brasileiro.
Curiosamente, assisti a 'Sinners' sem me recordar de que envolvia temática sobrenatural e estava completamente fascinado pela narrativa dramática de segregação racial. Porém, a partir da aparição dos vampiros o roteiro falha em tentar conciliar tantas coisas distintas simultaneamente e, por consequência, a qualidade infelizmente decai, talvez por uma falta de experiência específica do Ryan Coogler. Tirando esse importante aspecto, é um filme excepcional em absolutamente toda a parte técnica, principalmente elenco e trilha sonora, e mostra que ainda vale o investimento em criatividade.
'Marty Supreme' é um excelente exemplo de como um exímio ator consegue elevar praticamente qualquer obra na base do puro talento. A história em si não é das mais interessantes e é surreal demais para uma "biografia", além de que a própria equipe de produção escanteou a parte esportiva (que, de fato, não é o foco), mas a atuação vibrante do Timothée Chalamet supre os pormenores e reflete com maestria a personalidade caótica, ambiciosa, arrogante, intensa e mirabolante do Marty Mauser/Reisman, se valendo também da direção igualmente vibrante do Josh Safdie.
Outros aspectos dignos de serem exaltados são a espetacular montagem, a narrativa asfixiante, a fotografia e a trilha sonora que se amolda perfeitamente às cenas. É um filme único, excêntrico e que possivelmente pavimentou o caminho do Chalamet até a estatueta dourada.
Imediatamente ao terminar de assistir a 'One Battle After Another' resta a sensação de ser um filme concebido para ser merecida e altamente premiado devido à excelente produção, direção, elenco (destaque para Teyana Taylor, Benicio Del Toro e Sean Penn), fotografia e edições. O ritmo frenético pode ser divisivo, mas resultou em uma imersão narrativa bastante prazerosa.
Por outro lado, ao analisá-lo com mais calma, também resta a sensação de ser pretensioso demais. Não há aprofundamento na construção dos personagens, a revolução é retratada superficialmente e o roteiro é repleto de inconsistências e conveniências:
revolucionários selecionadamente capturados, outros que surgem aleatoriamente para facilitar a jornada do Bob Ferguson, salto temporal que não condiz com as épocas e tecnologias retratadas, ações sem respaldo de uma motivação clara, perseguições inverossímeis etc.
É chocante a vista grossa de parte dos críticos quanto ao enredo falho para cultuar a figura do Paul Thomas Anderson, especialmente o final frustrante e clichê. Adaptações sempre devem respeitar o material original, mas ajustes criativos são bem-vindos quando pertinentes, ainda mais quando o projeto está nas mãos de um diretor reconhecidamente engenhoso.
Enfim, a obra faz jus aos louros que está colhendo e colherá, embora devesse ser avaliada de forma mais justa.
Cada lançamento de Avatar é um evento global imperdível que resgata e valoriza a clássica experiência cinematográfica dentro das salas de cinema, mas, apesar de 'Fire and Ash' ser um primor visual e sonoro como seus antecessores, igualmente sofre com a falta de criatividade da história. Basicamente o James Cameron estendeu 1h de roteiro em outras 8h a partir de reciclagens que, em um certo momento, são muito cansativas, e que fazem a franquia se sustentar, sem nenhum pudor, pela parte técnica e pelas poucas boas atuações (Zoe Zaldana, Sam Worthington e Oona Chaplin).
É muito provável que tenhamos os filmes 4 e 5, dado o imenso sucesso de bilheteria, mas seria preferível que o Cameron focasse na construção narrativa tanto quanto nas tecnologias empregadas na construção do mundo de Pandora.
Tenho um carinho imenso pela franquia ‘Now You See Me’, mas, apesar de ter ciência dos limites criativos da temática, não imaginava que a magia se esgotaria tão rapidamente. O roteiro é fraquíssimo, a edição é apressada, a direção é confusa, as atuações são superficiais, os efeitos especiais deixam a desejar e o novo trio de “Cavaleiros” é completamente desinteressante.
Em recente entrevista o Jesse Eisenberg mencionou o quanto gosta do projeto, mas, infelizmente, nem o Daniel J. Atlas consegue fazer um truque tão incrível a ponto de salvar os rumos da produção.
Tenho um carinho especial por Quarteto Fantástico desde a infância e por muitos anos esperei por um filme que fizesse jus ao que a primeira família representa para mim e para a Marvel. Nesse sentido, 'The Fantastic Four: First Steps' tem muitos méritos, especialmente em termos visuais e narrativos. O elenco é praticamente perfeito (com destaque absoluto para a Vanessa Kirby, impecável em todos os aspectos), à exceção do Pedro Pascal, que nem de perto conseguiu impersonificar o brilhantismo e liderança do Reed Richards (uma pena terem "descartado" o John Krasinski em 'Doctor Strange').
Por outro lado, me surpreendeu uma obra dessa magnitude ser tão excessivamente concisa e pecar no desenvolvimento dos personagens, seja isoladamente ou em conjunto. Há, sim, várias sutilezas e detalhes nas entrelinhas (a exemplo da maternidade que conectou a motivação da Sue Storm e da Shallah-Bal), mas não houve aprofundamento acerca da dinâmica familiar e da imponência do Galactus, de modo que pareceu mais uma continuação do que algo propriamente originário.
Enfim, foram muito bonitas e merecidas as homenagens ao Jack Kirby e é visível o cuidado que o Matt Shakman teve na produção e direção. No entanto, o filme poderia ter entregue um pouco mais com uma duração um pouco maior.
Torci muito para que esse recomeço da DC fosse espetacular como pode ser, mas tão grande quanto a expectativa foi a decepção. O enredo proposto pelo James Gunn é inteligente, mas o roteiro é tão pobre e o filme como um todo é tão acelerado que a humanização do Superman ficou em segundo plano. Claramente há uma limitação dele, enquanto roteirista, em contar uma história mais sóbria e sem apelações óbvias. Por outro lado, sua direção continua com destacado dinamismo e o elenco é muito bom (sim, o Cavill faz falta, mas o Corenswet incorporou perfeitamente ambos os lados do personagem), pena que o Nicholas Hoult foi subaproveitado em um Lex Luthor histérico e sem brilho. Espero que a sequência alcance todo o potencial que o herói merece.
* O tema do Superman do John Williams é, possivelmente, o mais legal dentre os dos heróis; ** Que uniforme tenebroso; *** Harém, James Gunn, sério mesmo?
'The Final Reckoning' é uma grande homenagem de ~3h aos ~30 anos da franquia e apresenta todos os aspectos que fizeram os fãs se apaixonarem pelo trabalho do Tom Cruise: a ação e a política são intensas, as cenas/coreografias foram muito bem filmadas, o suspense se manteve presente a todo instante e o elenco de apoio participa de forma ativa na resolução dos desafios.
O roteiro não é perfeito e, claro, está repleto de conveniências, mas o Ethan foi concebido para ser um agente tão extraordinário que em determinado ponto ficou complicado manter um certo realismo quanto à missão, por isso é possível relevar certos aspectos de seus feitos (embora o ator seja, de fato, excepcional) e de uma adversária tão imponente como a Entidade. O Christopher McQuarrie merece reconhecimento pela direção envolvente e apenas fica a lamentação pelo Lorne Balfe não ter produzido a trilha sonora.
Nos resta o agradecimento pela dedicação e esmero do Tom Cruise com a franquia Missão Impossível, que será lembrada por muitos (inclusive por mim) como a melhor dentre todas as de Ação.
A Marvel até então tinha feito um bom trabalho na transição do Capitão América (especialmente na série) e é compreensível essa tentativa de humanizá-lo para ser uma fonte "real" de inspiração para o público, contudo, o roteiro de 'Brave New World' peca muito ao não desenvolver a relação do Sam Wilson com os civis e da sua afirmação como um novo herói. Pelo contrário, é um protagonista que sofre para se destacar no próprio filme, transmitir alguma imponência e se desvincular da antiga alcunha, o que só piora com a adição de um coadjuvante com basicamente a mesma função, do monumental desperdício do Hulk Vermelho, das coreografias medíocres e de um final broxante.
O triste é que a trama possivelmente teria funcionado se mantida um nível mais simples, de geopolítica factível na busca pelo adamantium, e que demonstrasse a importância do Capitão América em termos de liderança na diplomacia global. É um filme que não tive a mínima vontade de assistir no cinema e que me faz questionar se o Anthony Mackie tem capacidade de sustentar a franquia.
É um pouco estranho ver a Anne Hathaway em uma produção desse tipo, mas ela deixou seu talento, beleza e experiência em cena. O enredo desperta curiosidade e navega bem pelas repercussões de um relacionamento com uma substancial diferença de idade, porém, a protagonista é bastante imatura e faltou uma conclusão mais assertiva e que mostrasse os passos seguintes do casal na nova fase de vida. Vale a pena em um dia tedioso.
Esse pequeno recorte da vida do Bob Dylan é bastante chamativo e interessante, conseguindo dimensionar sua trajetória, genialidade, personalidade e significância para a música Folk, muito por causa da direção precisa do James Mangold e de um excelente elenco (honestamente, já não tenho mais adjetivos para descrever o talento do Timothée Chalamet. É impressionante sua dedicação e atenção aos detalhes em cada performance, e poucos atores conseguem dominar completamente suas cenas em um nível tão exigente e versátil).
A trilha sonora, claro, é impecável, e a fotografia também se sobressai, mas o roteiro poderia ter focado um pouco mais na conexão do artista com suas composições, especialmente as letras.
Uma animação bastante bonitinha e charmosa, impossível não ser conquistado pela fofura dos personagens, e além de o estilo artístico curiosamente lembra o de videogame (talvez tenha tido uma interessante inspiração no sucesso de 'Stray'), é possível notar que houve muito estudo sobre as características de cada espécie e muito cuidado com a fluidez de seus movimentos.
O diretor Gints Zilbalodis conseguiu realizar a difícil missão de dar vida à história sem qualquer diálogo, e com certeza é possível extrair algumas interpretações diferentes sobre as respectivas jornadas dos animais, mas falta uma certa profundidade narrativa.
A maior conquista de 'Ainda Estou Aqui' certamente foi a de resgatar o sentimento de orgulho dos fãs brasileiros que há muito não era destacado nos grandes veículos de comunicação, além de ser uma obra que acima de tudo valoriza o Cinema e ressalta a importância de nunca esquecermos nosso passado.
O talento do Walter Salles é notório, mas nesse filme ele se supera com uma narrativa praticamente impecável e controle absoluto de cada elemento que a compõe, dos mais nítidos aos mais sutis, e embora o destaque merecido seja a Fernanda Torres, o elenco como um todo é realmente muito bom.
Senti falta de maior contextualização sobre o Rubens Paiva, considerando que ele é a peça-chave que desencadeia toda a angústia da família, e também sobre a ruptura com a ditadura militar que acarretou na redemocratização. Outrossim, infelizmente a qualidade sonora não acompanhou os demais quesitos técnicos, mas nada disso é relevante perto do acolhimento nacional e internacional talvez sem precedentes.
Duas palavras definem ‘Anora’: provocante e ousado. E não apenas pela sensualidade da protagonista, mas também por apresentar uma proposta diferente que exige um olhar crítico além do óbvio.
É um filme que soube explorar de forma extraordinária diversos temas interligados: o contraste entre classes sociais, a humanização dos "capangas", a fragilidade e consequências das escolhas dos personagens, o realismo que cerca esse mundo controverso etc., e ao contrário do que aparenta para alguns, essa não é uma obra que se limita a cenas de sexo, mas se vale sim delas (e sem pudor ou romantização) para demonstrar como uma jovem stripper sabe usar seu corpo para alcançar seus objetivos (note-se como a protagonista busca evitar que o herdeiro russo se distraia com outras coisas, a exemplo de vídeo-games, com medo de perder seu valor), por isso não há apresentação formal de seu passado, pois nada importa além da versão de si mesma que está vivendo naquele momento.
Mikey Madison brilha com uma atuação intensa, sedutora, alucinante e repleta de camadas, o que é ainda mais fascinante considerando sua fama de pessoa tímida e reservada. Com certeza terá uma longa e premiada carreira se souber escolher bem seus trabalhos.
Por outro lado, Sean Baker merece muitos aplausos pela condução do filme que ele próprio roteirizou, refletindo sua criatividade e competência em contar histórias, e esta em particular será lembrada por bastante tempo.
A atmosfera de tensão que a produção de 'Conclave' conseguiu criar em um local e processo seletivo que se imagina serem revestidos de pacificidade é simplesmente incrível, o que se soma à imponência dos ambientes, das vestes, dos sons e das cores (um pecado que a fotografia não tenha sido indicada ao Oscar).
Outrossim, esse é um dos melhores elencos de todos os tempos, liderado por um dos atores mais completos de todos os tempos, e cada cena é capaz de comprovar o domínio dos atores e atrizes sobre seus personagens, cada qual com suas próprias características.
A história é bastante interessante mesmo que o conclave não tenha tanta aparente complexidade, apenas fez falta um desenvolvimento mais aprofundado dos principais cardeais para entender a extensão de suas respectivas influências políticas, já que a principal temática do filme é a votação de escolha da figura religiosa mais poderosa da Igreja Católica.
Sei que os ânimos estão exaltados e o público brasileiro está buscando cada mínimo detalhe para criticar o filme devido à rivalidade com 'Ainda Estou Aqui', mas é preciso reconhecer os méritos e a importância da representatividade de 'Emilia Pérez'.
Este é o musical em língua não inglesa mais bem sucedido da história, o qual conta com ótimas atuações da Zoe Saldaña e da Karla Sofía Gascón (primeira atriz trans tão premiada), direção competente do Jacques Audiard e trilha sonora envolvente em sua maioria. Outro ponto positivo é que os arcos da narrativa estão bem delineados de acordo com a transformação da protagonista, embora as transições entre eles sejam relativamente ruins e o roteiro seja bastante problemático na conexão entre os personagens e na finalização da trama.
Talvez a maior surpresa seja a quantidade de indicações às categorias técnicas nas premiações, pois o filme não tem nada de extraordinário nesse sentido.
Ghosted: Sem Resposta
2.8 111Apesar de ser contra analisar um filme puramente na emoção, a percepção sobre 'Ghosted' não mudou mesmo após respirar calma e profundamente, pois é como diz o ditado: para ser ruim, tem que melhorar muito. Absolutamente tudo na obra parece artificial, do enredo às atuações, passando por efeitos especiais tenebrosos e trilha sonora pop sem nenhuma conexão com as cenas.
Ainda, o Dexter Fletcher está completamente perdido na direção e por um momento pensei que o agente do Chris Evans tinha se equivocado em escolher um papel do "velho testamento" nessa altura de sua carreira, mas, quando subiram os créditos e ele apareceu como produtor, só resta concluir que não pensa em expandir seus horizontes e prefere se manter na zona de conforto (apesar de ter tentado dar alguma dinâmica ao seu personagem). Para piorar, inexiste química com a Ana de Armas, que já é uma atriz limitada por natureza e não convence nas cenas de ação.
Enfim, é um filme ruim em tudo que propõe e nem os cameos são capazes de trazer algum entretenimento.
Valor Sentimental
3.9 368 Assista Agora'Sentimental Value' é um filme que exige atenção aos detalhes e às nuances dos personagens e da narrativa, podendo ser monótono ou profundo a depender da conexão do público com a história. As atuações são obviamente o destaque (minha preferida é a da Inga Lilleaas), apesar de parecem estar na zona de conforto do fantástico elenco, mas é a direção, o ritmo e os enquadramentos do Joachim Trier que tornam a obra tão intimista e especial diante da vastidão de propostas cinematográficas semelhantes.
Aliás, para um filme tão focado puramente em trama pessoal, curiosamente não há, à exceção da Rachel (Elle Fanning), evolução dos personagens, especialmente da protagonista, a qual tem sua vida conduzida por desejos alheios do início ao fim, por isso gostaria de mais intensidade nos diálogos e um desfecho mais audacioso. De todo modo, é uma sublime representação do cinema norueguês.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.2 409 Assista AgoraVisceral, esse foi o adjetivo que me veio à mente após sair de uma das sessões mais impactantes da minha vida.
Sou apaixonado pela tecnicidade e autenticidade da Chloé Zhao, mas essa adaptação primorosa de 'Hamnet' excedeu e muito todas as expectativas possíveis. Poderia passar horas dissertando sobre o casting e atuações impecáveis, a linda fotografia com vívido contraste entre cores vibrantes e opacas, o roteiro excepcional, o figurino formidável, a trilha sonora magistral etc., todavia, o ato final envolvendo a peça homônima basta como representação da essência da obra e a carga emocional que ela transmite.
As únicas críticas "negativas" são a abstração do misticismo que cerca a Agnes e a maquiagem (no caso, a falta dela) que não reflete visualmente nos protagonistas a passagem do tempo e o peso da paternidade. Não obstante, esse é, com toda a certeza, o melhor filme do ano.
Blue Moon: Música e Solidão
3.0 82 Assista AgoraÉ muito difícil compreender toda a magia de 'Blue Moon' sem conhecer todas as referências a uma época longínqua do cinema e do teatro estadunidense, ainda mais por envolver a vida de um escritor que possivelmente não seja tão conhecido pela audiência, e pelo "monólogo" relativamente denso e extenso.
Contudo, a parceria Linklater-Hawke já demonstrou repetidamente como as conversas podem ser o ponto central de um filme e de sua narrativa sem precisar de suporte. Nesse sentido, por um momento pensei no quão simples seria filmar essa obra, mas a sutileza do Linklater em deixar que os personagens conduzam a própria história sempre será algo de imensa admiração, assim como a capacidade do Ethan Hawke em abordar uma variedade de temas de maneira contínua e poética.
Não é exatamente memorável, mas inegavelmente tem um estilo único de cinebiografia ao tentar resumir uma vida em uma noite, e também tem valor para quem prefere algo mais intimista e boêmio.
Bugonia
3.6 430 Assista AgoraO estilo excêntrico, as críticas/sátiras inteligentes, a trilha sonora estridente, os momentos de desconforto recorrente, a coloração saturada e o apelo à fantasia são características tão marcantes e inconfundíveis do Yorgos Lanthimos que, em verdade, seria surpreendente se o filme tivesse um desfecho diferente. Ainda que sua filmografia não seja exatamente do meu gosto, é realmente um privilégio acompanhar essa parceria do diretor grego com uma atriz tão brilhante como a Emma Stone, a qual consegue canalizar como ninguém a visão artística do "Salvador Dalí do Cinema".
Sobre o enredo, enquanto o Teddy é bastante verossímil enquanto conspiracionista (Jesse Plemons talvez no melhor papel de sua carreira), há nítidas controvérsias envolvendo a Michelle, considerando seu elevado duplo status social e os perigos do sequestro (a exemplo de sua segurança e decisões). As metáforas e paralelos com a realidade, por sua vez, são bem construídos, mas, no geral, resta a curiosidade em saber como seria a releitura ocidental caso o Lanthimos não se autolimitasse pelo respeito à obra original sul coreana e abraçasse integralmente o surrealismo narrativo pelo qual é conhecido.
Sonhos de Trem
3.7 342 Assista AgoraUm filme visualmente belíssimo, com diálogos profundos e uma narrativa fluida que tenta carregar consigo toda a carga emocional derivada não só da busca do protagonista pelo seu propósito, mas também pelos impactos ambientais e profissionais das construções ferroviárias. Todavia, não consegui criar uma conexão com 'Train Dreams', talvez pela performance apática do Joel Edgerton e pelas cenas lentas de melancolia e isolamento civilizatório, ainda que a trilha sonora tenha sido bem inserida em cada contexto e que, no geral, reconheça que a simplicidade poética da obra mereça ser exaltada.
Guerreiras do K-Pop
3.7 212 Assista AgoraA Sony foi certeira ao criar uma animação que dialoga com a atual geração (enredo curto, direto e descomplicado) e com o atual contexto global de ascendência da cultura sul-coreana. Mais do que apenas furar a bolha, 'KPop Demon Hunters' é, talvez, a animação mais bem-sucedida da história do Cinema, tamanha a forma como transcendeu o streaming e conquistou diversos públicos, inclusive os que têm resistência a musicais e ao próprio estilo musical do longa.
Outros grandes acertos foram o aproveitamento da qualidade gráfica que consolidou o Aranhaverso e a real incorporação das músicas para contar as histórias dos personagens, não sua utilização como um mero acessório, o que tornou a narrativa bastante dinâmica. Ainda, a trilha sonora em si é incrivelmente contagiante, a dublagem é excelente e o entretenimento é despretensiosamente cativante.
O Agente Secreto
3.9 1,0K Assista Agora'O Agente Secreto' é interessante e envolvente, mas faltou uma certa polidez de roteiro e montagem para que a fluidez da narrativa não fosse tão afetada por inserções desnecessárias (ex.: investigação científica paralela atual e conto da "perna cabeluda") e pela vagueza do próprio enredo, tornando o filme excessivamente longo e sujeito a questionamentos quanto às escolhas do protagonista (principalmente no contexto de perigo em que se encontrava), do financiamento da sua fuga e, especialmente, do frustrante arco final:
a retratação da morte do Armando em uma mera página de jornal foi de uma covardia sem tamanho e pareceu ignorar propositadamente as informações repassadas pela Elza, a tendência do protagonista em buscar um abrigo seguro com urgência, e as consequências da morte do Bobbi até mesmo para o Augusto. Além disso, o encerramento com o Fernando não transmite qualquer tipo de emoção e, sinceramente, não traz nenhuma contribuição
Como aspectos muito positivos, vale mencionar as críticas sociais (ex.: repressão, corrupção e corporativismo militar e defesa da educação pública), a ambientação, a retratação da cultura pernambucana, o elenco no geral e, claro, o reconhecimento internacional da impecável atuação do Wagner Moura que fala por si só (Tânia Maria também estava ótima). Quanto ao Kleber Mendonça Filho, a análise é divisiva em termos de direção e roteiro, mas merece os créditos por uma obra que ficará para sempre marcada na história do cinema brasileiro.
Pecadores
4.0 1,2K Assista AgoraCuriosamente, assisti a 'Sinners' sem me recordar de que envolvia temática sobrenatural e estava completamente fascinado pela narrativa dramática de segregação racial. Porém, a partir da aparição dos vampiros o roteiro falha em tentar conciliar tantas coisas distintas simultaneamente e, por consequência, a qualidade infelizmente decai, talvez por uma falta de experiência específica do Ryan Coogler. Tirando esse importante aspecto, é um filme excepcional em absolutamente toda a parte técnica, principalmente elenco e trilha sonora, e mostra que ainda vale o investimento em criatividade.
Marty Supreme
3.7 317 Assista Agora'Marty Supreme' é um excelente exemplo de como um exímio ator consegue elevar praticamente qualquer obra na base do puro talento. A história em si não é das mais interessantes e é surreal demais para uma "biografia", além de que a própria equipe de produção escanteou a parte esportiva (que, de fato, não é o foco), mas a atuação vibrante do Timothée Chalamet supre os pormenores e reflete com maestria a personalidade caótica, ambiciosa, arrogante, intensa e mirabolante do Marty Mauser/Reisman, se valendo também da direção igualmente vibrante do Josh Safdie.
Outros aspectos dignos de serem exaltados são a espetacular montagem, a narrativa asfixiante, a fotografia e a trilha sonora que se amolda perfeitamente às cenas. É um filme único, excêntrico e que possivelmente pavimentou o caminho do Chalamet até a estatueta dourada.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 654 Assista AgoraImediatamente ao terminar de assistir a 'One Battle After Another' resta a sensação de ser um filme concebido para ser merecida e altamente premiado devido à excelente produção, direção, elenco (destaque para Teyana Taylor, Benicio Del Toro e Sean Penn), fotografia e edições. O ritmo frenético pode ser divisivo, mas resultou em uma imersão narrativa bastante prazerosa.
Por outro lado, ao analisá-lo com mais calma, também resta a sensação de ser pretensioso demais. Não há aprofundamento na construção dos personagens, a revolução é retratada superficialmente e o roteiro é repleto de inconsistências e conveniências:
revolucionários selecionadamente capturados, outros que surgem aleatoriamente para facilitar a jornada do Bob Ferguson, salto temporal que não condiz com as épocas e tecnologias retratadas, ações sem respaldo de uma motivação clara, perseguições inverossímeis etc.
É chocante a vista grossa de parte dos críticos quanto ao enredo falho para cultuar a figura do Paul Thomas Anderson, especialmente o final frustrante e clichê. Adaptações sempre devem respeitar o material original, mas ajustes criativos são bem-vindos quando pertinentes, ainda mais quando o projeto está nas mãos de um diretor reconhecidamente engenhoso.
Enfim, a obra faz jus aos louros que está colhendo e colherá, embora devesse ser avaliada de forma mais justa.
Avatar: Fogo e Cinzas
3.5 279 Assista AgoraCada lançamento de Avatar é um evento global imperdível que resgata e valoriza a clássica experiência cinematográfica dentro das salas de cinema, mas, apesar de 'Fire and Ash' ser um primor visual e sonoro como seus antecessores, igualmente sofre com a falta de criatividade da história. Basicamente o James Cameron estendeu 1h de roteiro em outras 8h a partir de reciclagens que, em um certo momento, são muito cansativas, e que fazem a franquia se sustentar, sem nenhum pudor, pela parte técnica e pelas poucas boas atuações (Zoe Zaldana, Sam Worthington e Oona Chaplin).
É muito provável que tenhamos os filmes 4 e 5, dado o imenso sucesso de bilheteria, mas seria preferível que o Cameron focasse na construção narrativa tanto quanto nas tecnologias empregadas na construção do mundo de Pandora.
Truque de Mestre: O 3º Ato
3.0 143 Assista AgoraTenho um carinho imenso pela franquia ‘Now You See Me’, mas, apesar de ter ciência dos limites criativos da temática, não imaginava que a magia se esgotaria tão rapidamente. O roteiro é fraquíssimo, a edição é apressada, a direção é confusa, as atuações são superficiais, os efeitos especiais deixam a desejar e o novo trio de “Cavaleiros” é completamente desinteressante.
Em recente entrevista o Jesse Eisenberg mencionou o quanto gosta do projeto, mas, infelizmente, nem o Daniel J. Atlas consegue fazer um truque tão incrível a ponto de salvar os rumos da produção.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
3.4 544 Assista AgoraTenho um carinho especial por Quarteto Fantástico desde a infância e por muitos anos esperei por um filme que fizesse jus ao que a primeira família representa para mim e para a Marvel. Nesse sentido, 'The Fantastic Four: First Steps' tem muitos méritos, especialmente em termos visuais e narrativos. O elenco é praticamente perfeito (com destaque absoluto para a Vanessa Kirby, impecável em todos os aspectos), à exceção do Pedro Pascal, que nem de perto conseguiu impersonificar o brilhantismo e liderança do Reed Richards (uma pena terem "descartado" o John Krasinski em 'Doctor Strange').
Por outro lado, me surpreendeu uma obra dessa magnitude ser tão excessivamente concisa e pecar no desenvolvimento dos personagens, seja isoladamente ou em conjunto. Há, sim, várias sutilezas e detalhes nas entrelinhas (a exemplo da maternidade que conectou a motivação da Sue Storm e da Shallah-Bal), mas não houve aprofundamento acerca da dinâmica familiar e da imponência do Galactus, de modo que pareceu mais uma continuação do que algo propriamente originário.
Enfim, foram muito bonitas e merecidas as homenagens ao Jack Kirby e é visível o cuidado que o Matt Shakman teve na produção e direção. No entanto, o filme poderia ter entregue um pouco mais com uma duração um pouco maior.
Superman
3.6 918 Assista AgoraTorci muito para que esse recomeço da DC fosse espetacular como pode ser, mas tão grande quanto a expectativa foi a decepção. O enredo proposto pelo James Gunn é inteligente, mas o roteiro é tão pobre e o filme como um todo é tão acelerado que a humanização do Superman ficou em segundo plano. Claramente há uma limitação dele, enquanto roteirista, em contar uma história mais sóbria e sem apelações óbvias. Por outro lado, sua direção continua com destacado dinamismo e o elenco é muito bom (sim, o Cavill faz falta, mas o Corenswet incorporou perfeitamente ambos os lados do personagem), pena que o Nicholas Hoult foi subaproveitado em um Lex Luthor histérico e sem brilho. Espero que a sequência alcance todo o potencial que o herói merece.
* O tema do Superman do John Williams é, possivelmente, o mais legal dentre os dos heróis;
** Que uniforme tenebroso;
*** Harém, James Gunn, sério mesmo?
Missão: Impossível - O Acerto Final
3.6 261 Assista Agora'The Final Reckoning' é uma grande homenagem de ~3h aos ~30 anos da franquia e apresenta todos os aspectos que fizeram os fãs se apaixonarem pelo trabalho do Tom Cruise: a ação e a política são intensas, as cenas/coreografias foram muito bem filmadas, o suspense se manteve presente a todo instante e o elenco de apoio participa de forma ativa na resolução dos desafios.
O roteiro não é perfeito e, claro, está repleto de conveniências, mas o Ethan foi concebido para ser um agente tão extraordinário que em determinado ponto ficou complicado manter um certo realismo quanto à missão, por isso é possível relevar certos aspectos de seus feitos (embora o ator seja, de fato, excepcional) e de uma adversária tão imponente como a Entidade. O Christopher McQuarrie merece reconhecimento pela direção envolvente e apenas fica a lamentação pelo Lorne Balfe não ter produzido a trilha sonora.
Nos resta o agradecimento pela dedicação e esmero do Tom Cruise com a franquia Missão Impossível, que será lembrada por muitos (inclusive por mim) como a melhor dentre todas as de Ação.
Capitão América: Admirável Mundo Novo
2.7 378A Marvel até então tinha feito um bom trabalho na transição do Capitão América (especialmente na série) e é compreensível essa tentativa de humanizá-lo para ser uma fonte "real" de inspiração para o público, contudo, o roteiro de 'Brave New World' peca muito ao não desenvolver a relação do Sam Wilson com os civis e da sua afirmação como um novo herói. Pelo contrário, é um protagonista que sofre para se destacar no próprio filme, transmitir alguma imponência e se desvincular da antiga alcunha, o que só piora com a adição de um coadjuvante com basicamente a mesma função, do monumental desperdício do Hulk Vermelho, das coreografias medíocres e de um final broxante.
O triste é que a trama possivelmente teria funcionado se mantida um nível mais simples, de geopolítica factível na busca pelo adamantium, e que demonstrasse a importância do Capitão América em termos de liderança na diplomacia global. É um filme que não tive a mínima vontade de assistir no cinema e que me faz questionar se o Anthony Mackie tem capacidade de sustentar a franquia.
Uma Ideia de Você
3.2 403 Assista AgoraÉ um pouco estranho ver a Anne Hathaway em uma produção desse tipo, mas ela deixou seu talento, beleza e experiência em cena. O enredo desperta curiosidade e navega bem pelas repercussões de um relacionamento com uma substancial diferença de idade, porém, a protagonista é bastante imatura e faltou uma conclusão mais assertiva e que mostrasse os passos seguintes do casal na nova fase de vida. Vale a pena em um dia tedioso.
Um Completo Desconhecido
3.5 234 Assista AgoraEsse pequeno recorte da vida do Bob Dylan é bastante chamativo e interessante, conseguindo dimensionar sua trajetória, genialidade, personalidade e significância para a música Folk, muito por causa da direção precisa do James Mangold e de um excelente elenco (honestamente, já não tenho mais adjetivos para descrever o talento do Timothée Chalamet. É impressionante sua dedicação e atenção aos detalhes em cada performance, e poucos atores conseguem dominar completamente suas cenas em um nível tão exigente e versátil).
A trilha sonora, claro, é impecável, e a fotografia também se sobressai, mas o roteiro poderia ter focado um pouco mais na conexão do artista com suas composições, especialmente as letras.
Flow
4.2 576Uma animação bastante bonitinha e charmosa, impossível não ser conquistado pela fofura dos personagens, e além de o estilo artístico curiosamente lembra o de videogame (talvez tenha tido uma interessante inspiração no sucesso de 'Stray'), é possível notar que houve muito estudo sobre as características de cada espécie e muito cuidado com a fluidez de seus movimentos.
O diretor Gints Zilbalodis conseguiu realizar a difícil missão de dar vida à história sem qualquer diálogo, e com certeza é possível extrair algumas interpretações diferentes sobre as respectivas jornadas dos animais, mas falta uma certa profundidade narrativa.
Parabéns à Letônia pelo Oscar histórico.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraA maior conquista de 'Ainda Estou Aqui' certamente foi a de resgatar o sentimento de orgulho dos fãs brasileiros que há muito não era destacado nos grandes veículos de comunicação, além de ser uma obra que acima de tudo valoriza o Cinema e ressalta a importância de nunca esquecermos nosso passado.
O talento do Walter Salles é notório, mas nesse filme ele se supera com uma narrativa praticamente impecável e controle absoluto de cada elemento que a compõe, dos mais nítidos aos mais sutis, e embora o destaque merecido seja a Fernanda Torres, o elenco como um todo é realmente muito bom.
Senti falta de maior contextualização sobre o Rubens Paiva, considerando que ele é a peça-chave que desencadeia toda a angústia da família, e também sobre a ruptura com a ditadura militar que acarretou na redemocratização. Outrossim, infelizmente a qualidade sonora não acompanhou os demais quesitos técnicos, mas nada disso é relevante perto do acolhimento nacional e internacional talvez sem precedentes.
Anora
3.4 1,1K Assista AgoraDuas palavras definem ‘Anora’: provocante e ousado. E não apenas pela sensualidade da protagonista, mas também por apresentar uma proposta diferente que exige um olhar crítico além do óbvio.
É um filme que soube explorar de forma extraordinária diversos temas interligados: o contraste entre classes sociais, a humanização dos "capangas", a fragilidade e consequências das escolhas dos personagens, o realismo que cerca esse mundo controverso etc., e ao contrário do que aparenta para alguns, essa não é uma obra que se limita a cenas de sexo, mas se vale sim delas (e sem pudor ou romantização) para demonstrar como uma jovem stripper sabe usar seu corpo para alcançar seus objetivos (note-se como a protagonista busca evitar que o herdeiro russo se distraia com outras coisas, a exemplo de vídeo-games, com medo de perder seu valor), por isso não há apresentação formal de seu passado, pois nada importa além da versão de si mesma que está vivendo naquele momento.
Mikey Madison brilha com uma atuação intensa, sedutora, alucinante e repleta de camadas, o que é ainda mais fascinante considerando sua fama de pessoa tímida e reservada. Com certeza terá uma longa e premiada carreira se souber escolher bem seus trabalhos.
Por outro lado, Sean Baker merece muitos aplausos pela condução do filme que ele próprio roteirizou, refletindo sua criatividade e competência em contar histórias, e esta em particular será lembrada por bastante tempo.
Conclave
3.9 828 Assista AgoraQue filme primoroso!
A atmosfera de tensão que a produção de 'Conclave' conseguiu criar em um local e processo seletivo que se imagina serem revestidos de pacificidade é simplesmente incrível, o que se soma à imponência dos ambientes, das vestes, dos sons e das cores (um pecado que a fotografia não tenha sido indicada ao Oscar).
Outrossim, esse é um dos melhores elencos de todos os tempos, liderado por um dos atores mais completos de todos os tempos, e cada cena é capaz de comprovar o domínio dos atores e atrizes sobre seus personagens, cada qual com suas próprias características.
A história é bastante interessante mesmo que o conclave não tenha tanta aparente complexidade, apenas fez falta um desenvolvimento mais aprofundado dos principais cardeais para entender a extensão de suas respectivas influências políticas, já que a principal temática do filme é a votação de escolha da figura religiosa mais poderosa da Igreja Católica.
Emilia Pérez
2.4 483 Assista AgoraSei que os ânimos estão exaltados e o público brasileiro está buscando cada mínimo detalhe para criticar o filme devido à rivalidade com 'Ainda Estou Aqui', mas é preciso reconhecer os méritos e a importância da representatividade de 'Emilia Pérez'.
Este é o musical em língua não inglesa mais bem sucedido da história, o qual conta com ótimas atuações da Zoe Saldaña e da Karla Sofía Gascón (primeira atriz trans tão premiada), direção competente do Jacques Audiard e trilha sonora envolvente em sua maioria. Outro ponto positivo é que os arcos da narrativa estão bem delineados de acordo com a transformação da protagonista, embora as transições entre eles sejam relativamente ruins e o roteiro seja bastante problemático na conexão entre os personagens e na finalização da trama.
Talvez a maior surpresa seja a quantidade de indicações às categorias técnicas nas premiações, pois o filme não tem nada de extraordinário nesse sentido.