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  • Daniel Corcino

    0. Preâmbulo: A incontrolabilidade no cinema de Lynne Ramsay

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    Só recentemente fui conferir a filmografia dessa cineasta e algo me chamou a atenção: um elemento central das histórias que decide contar é a ausência de controle do ser humano sobre sua própria vida (e a dos outros). Há sempre algo de irrefreável (nos âmbitos público e privado) que marca definitiva e tragicamente as existências. Tal inspiração vem de sua visão psicanalítica de mundo. Seu olhar é complexo e não se limita apenas à análise individualizante ou familiar, uma vez que também realiza análises culturais sensíveis. As desigualdades e violências físicas e simbólicas da sociedade ocidental (liberal, individual, machista, massificado pelo consumo) se entrelaçam e afetam subjetividades “desencaixadas” desde a infância. A ênfase em aspectos subjetivos ou objetivos na correlação psique-sociedade varia de acordo com cada trabalho da Lynne e, nesse filme, o lado mais social fica um pouco mais sobressalente, mesmo que em direta ligação com as vivências do protagonista.


    1. Prematuridade
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    Dado esse panorama breve, vou destacar alguns símbolos e características que fazem dessa obra um feito excelente e memorável. Uma escolha ousada e incomum presente nesse filme vem já de seus primeiros 5 minutos, que dizem muito sobre o longa. Começamos a acompanhar um momento de inocência infantil poeticamente mostrado em câmera lenta, que é bruscamente brecado pela violência materna. Quando começamos a se aproximar e acompanhar a história daquele menino (que supomos ser o protagonista), ele morre a partir de uma brincadeira que se desenlaça em violência fatal. Essa era a sua infância: ingenuidade e violências, par que se repete até se transformar em tragédia.

    Essa morte prematura serve de introdução interessante à história, revelando-se também como uma brevíssima e bem realizada síntese da vida do seu “assassino”, James. Afinal, acompanhamos nos minutos seguintes seu cotidiano permeado de intempéries, mas também de rastros de leveza e afetividade, numa espécie de afirmação da vida até onde ainda era possível. Contudo, o peso da culpa e da desesperança diante da realidade (áspera) o vence. Portanto, a prematuridade existe simultaneamente enquanto forma e conteúdo em Ratcatcher.


    2. Calçado, descalço
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    A montagem do filme dá uma ênfase aos pés (e calçados) das personagens. É essa parte do corpo que precisa de especial atenção para não pisar em ratoeiras, lixo, nem molhar os pés quando próximo ao canal poluído. Ademais, James recebe um calçado da mãe do falecido menino como realização de presente póstumo (não cabe, ele usa outro tamanho) e seu pai o presenteia com o mesmo item (também não se serve aos seus pés). No primeiro caso, ele até usa e se machuca, de maneira que o mesmo risca seu calçado novo para repetir simbolicamente a violência que ele infringiu ao garoto afogado. Aliás, o protagonista até quase perde o próprio sapato quando entra na água pútrida após o acidente. Assim, a obra passa por meio dessa metáfora a visão de sua não adequabilidade às relações sociais com esses adultos.

    Nesse sentido, ele recebe essa proteção material do calçado ocasionalmente, mas ele continua desprotegido a nível psicológico, visto que sem suporte emocional em meio a sua angústia (ele sequer aprendeu a compartilhar sua dor). Efetivamente, ele recebe carinho de sua mãe em apenas 3 momentos: quando ela descobre que seu filho continua vivo; quando penteia seu cabelo para retirar seus piolhos; e quando ela simula um ambiente agradável em sua casa para os assistentes sociais e resolve dançar. E do pai, nada de positivo (só sapatos inadequados). O afeto materno quase nunca surge como ato deliberado e do pai, apenas desamores. Logo, James precisa andar descalço nesses momentos mais insólitos - só encontra algum suporte maior na recém-amiga/namorada, relação que também se esfacela precocemente pela interrupção brutal do grupo de adolescentes. Todavia, com exceção desse grupo, as pessoas não são retratadas de modo unilateral, é como se os adultos se formassem pelos encontros e desencontros de suas ausências simbólicas (e materiais); ninguém ali parece ser maniqueistamente mau (mérito às atuações), embora certas ações complicadas prejudiquem diretamente seus familiares e conhecidos.

    Além do mais, percebemos que a infância (símbolo de criatividade, singeleza, pureza, afetividade) já não tem muito espaço em meio tanto entorpecimento emocional/social, tais características só perduram em quem é considerado “anormal” ou ainda não cresceu o suficiente (como Anne Marie). Ao atingir a adolescência, os homens acumulam de modo destrutivo a violência e a hostilidade a tudo e todos. O próprio James não compreende de onde surge tanta agressividade, a qual pode até matar outrem.


    3. Ratos e TV
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    Não menos central é aquilo que vai movendo a mudança do bairro, o acúmulo do lixo devido a uma greve. Tal aspecto traz à cena a vulnerabilidade dos habitantes dali (que são “restos sociais”), de modo a aguçar criticamente toda a precariedade de possibilidades e oportunidades presente naquele local. O acúmulo de ratos surge como quociente daquela circunstância. Os adultos só conseguem pensar em matar rapidamente (aquele transmissor de doenças), os adolescentes em matá-los por entretenimento e as crianças variam na forma de tratar esse animal, mesmo que no fim eles só morram mesmo. No lastro de infância que o resta, James chega a salvar ratos e a matá-los, apesar disso ele sonha com a possibilidade irreal do rato fazer uma viagem à lua, o que se descontrói pela imagem de uma TV desfocada que o acorda. Isso é um chamado não só à realidade, mas à dureza de se desvincular dessa criatividade infantil e se voltar à violência da vida real. Assim como o calçado, a TV é um objeto repetido no longa. Sua função narrativa é destacar que, na vida adulta, é apenas pela TV que se pode escapar daquela vida; é ali também que morre qualquer sonho outro que não esteja na programação. O sonho adulto não se encontra na realidade, a imaginação é domesticada por essa mídia de massa dominante na década de 70.


    4. Som e sonhos
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    Já que comecei a falar sobre realidade x sonho, resgato agora algo muito importante à obra: o uso escasso de trilha sonora não diegética (isto é, que vem de “fora” do ambiente narrativo), o que dá um tom certeiro, pois fica mais difícil digerir tudo aquilo no “seco”. Além do sonho do rato lunático, outros momentos em que tal música com tom feliz surge é na viagem ne James ao seu outro sonho: viver numa moradia mais digna. No ônibus, na sua primeira e na sua última visita àquele ambiente, tais sons (usados à exaustão no cinema mais convencional) parecem meros delírios em contraste com o restante das cenas.

    Realço também que a sensação de não pertencimento/identidade com seu lar e sua vizinhança costuma ser bem nocivo à saúde mental. Assim, parece não haver muitos objetivos e motivações naquelas pessoas enquanto estão ali, logo o filme explora bem isso no ritmo adotado: o enredo não se enraíza em motivações e objetivos bem delimitados, mas sim ao contexto social. E, então, o longa justifica tecnicamente sua ausência de foco delimitado e linear.

    Por esse ângulo, é possível perceber que a irmã do protagonista só parece encontrar objetivo em sua vida fora dali, já o James busca num bairro distante seu ideal de vida mais feliz e digna. É possível notar que nessa outra casa, a urina escorrendo por baixo do vaso simboliza sua imediata inadequação àquele ambiente, aquilo tudo não o pertence; o seu retorno ao local fechado reforça isso. E, alimentado por diversas desesperanças, desafetos e desestruturas, ele deita triste num sofá branco que ecoa o caixão do seu amigo, anunciando seu fim submerso que se aproxima. Sem entender bem por que, causou a morte de um amigo e de seu principal sonho... E foi só no sonho que restou sua alegria.

    Algumas décadas após “Alemanha, Ano Zero”, surge um suicídio infantil fruto de outro momento sócio-político desolador, que ainda mantém reverberações do pós-Guerra. Embora me recorde diretamente do trabalho do Rossellini pela semelhança trágica,

    Ratcatcher se demonstra uma realização excepcional e original da Ramsay. Enquanto girava numa cortina cinematográfica, recebi um tapa na minha cabeça que marcou, que parece não passar.

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  • Daniel Corcino

    1. O minimalismo potente
    Um filme que consegue o máximo com o mínimo: é objetivo e simples, enquanto carrega uma força estética enorme.

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    Com apenas 2 elementos centrais (fogo e água), cria-se uma alquimia visual e metaforicamente preciosa. As 3 cores primárias são as mesmas presentes numa chama: amarelo, vermelho e azul. Ademais, o amarelo ecoa na areia da praia e o azul, no mar. As protagonistas transitam entre essas diferentes nuances da chama e do mar que elas emanam por meio de sua relação, mas também pelos usos primorosos de fotografia e mise-en-scène (onde se inclui figurino: Marianne-vermelho, Héloïse-azul, Sophie-amarelo).
    A água e o fogo (e suas cores) se relacionam de diferentes modos. Podemos exemplificar tal mistura rica no uso das telas: num momento a tela é molhada, noutro é queimada; uma pintura da Héloïse pega fogo literalmente, já noutra pintura, ela pega fogo ao entrar no mar (representando a perspectiva apaixonada de Marianne, que a viu se despindo pela primeira vez indo ao mar). Isto é, há antagonismo e também complementaridade entre todos os recursos escolhidos e, portanto, com pouco se faz muito.
    Na verdade, o filme é assim como um todo... O roteiro é como uma orquestra bem ritmada, com diálogos econômicos e potentes, dando ao silêncio entre as protagonistas a mesma importância das trocas verbais. E tal ritmo se deve à grande relevância dada ao olhar nas atuações e à montagem (ligando o passar dos dias quase de modo imperceptível pela tríade pintora-tela-modelo), de modo que a soma das cenas vai construindo um todo muito coerente e bem executado.

    2. A arte viva, a memória viva
    Fica clara a homenagem feita, por meio da 7ª arte, às suas irmãs: a música, a pintura e a literatura. O longa explora a arte enquanto mediadora direta da construção de bons relacionamentos e na formação das memórias pessoais. Não existe hierarquia entre pintora- modelo, nem entre pessoa-obra de arte: é no contato simultâneo que a arte desabrocha e se traça enquanto algo pulsante. A literatura e a música ganham força quando mescladas com emoções e vivências. Ou seja, o filme passa a mensagem que a arte é influenciada e influencia a construção de relações pessoais potentes e cheias de sentido, pois é na correlação que a arte se revela vividamente. Aliás, a própria forma do filme reforça isso: acompanhamos quase que somente as memórias (afetivas) de Marianne, num flashback mediado pelas consequências de sua vida artística.

    3. O aborto e outros nascimentos possíveis
    Do início ao fim, a independência das mulheres é bem demonstrada de diferentes modos (mesmo no limitante contexto do século XVIII). E o aborto, experiência que é vivenciada de modo particular pela mulher, surge como símbolo-chave de tal autonomia. No longa, Sophie está determinada a realizar seu aborto e o faz com ajuda de outras mulheres. A ambiguidade profunda do bebê interagindo com ela durante o ato é memorável, assim como a ambivalência da pintura feita posteriormente sobre esse momento, que parece um aborto e um nascimento ao mesmo tempo devido à pose congelada. Destarte, é como se a arte tivesse esse poder de reavaliar/reconstruir tal memória dolorosa, de forma que algo novo nasce daquele aborto.
    Além disso, vale destacar que tudo isso ocorre no ápice da paixão entre as protagonistas, já quando elas estão separadas (já sem o contato/suporte presencial), o filho de Héloïse nasce, fruto do casamento arranjado, mas também como um “atestado” daquele novo momento que elas vivem. Mas, para resgatar que o amor delas ainda perdura, há o detalhe da página 28 do livro. Mais uma vez, a arte reavalia/reconstrói momentos passados e circunstâncias desfavoráveis, dando espaço a novos nascimentos.

    4. As mulheres
    Ainda, destaco que esse filme (majoritariamente feito por mulheres) dá uma bela aula sobre como construir personagens complexas, que representam um momento passado por uma ótica atual.

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    Por exemplo, todas as fases de uma paixão são representadas sem destacar diretamente o sexo, mas não por pudor ou censura, mas como escolha poética e política, visto que, dentro do contexto da obra, uma axila com erva se faz mais sensual do que uma cena que demonstrasse diretamente o ato da masturbação. Dessa maneira, fica difícil botar trechos desse filme no xvideos, servindo como subversão à lógica (masculina) de transformar tudo em pornografia. Então, novamente, o minimalismo de Retrato de uma Jovem em Chamas se mostra cirúrgico e original.


    Por fim, minha memória vai guardar com carinho essa obra poderosa, como uma chama que vai e volta, muda de cor, mas perdura. Afinal, o longa em si mostra que é para isso que serve a arte.

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  • Daniel Corcino

    Possui alguns méritos, mas também alguns problemas. Talvez, o principal limite dessa série seja que as 6 "catedrais" ficam localizadas em: Europa / Europa / Europa / Estados Unidos / Europa / Europa. O resto do mundo tinha muito a oferecer (e enriquecer) à proposta original, deixando os temas abordados menos repetitivos.

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  • Nenhum recado para Daniel Corcino.

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