Filme na média, bom design de produção, figurino e trilha sonora. Encapsula bem os anos 2000, nostálgico para quem passou a infância/adolescência nessa época.
O roteiro (sem filtro nenhum) envelheceu mal e é agravado com atuações que não convencem. A sensação é que o filme podia ter sido muito mais do que foi, mas diverte no que consegue entregar.
Muita câmera na mão e pessimismo, "Tudo Sobre Lily Chou-Chou" se torna emblemático no que é (ou no que tenta ser).
Gosto muito do cinema que se permite não ser polido, aqui o filme abraça o caos e a captação ruidosa de imagem. Um prato cheio para quem aprecia a estética da filmadora portátil, o segmento em Okinawa é um mergulho no trauma através dos quadros.
O filme é excessivo na exposição do comportamento disfuncional dos jovens, sem trazer uma clareza narrativa para as conexões, isso gera uma frieza involuntária no espectador. O chat de adoração à Lily é a forma que compreendemos as motivações e crises internas daquela sociedade juvenil, mas tudo é muito abstrato, nesse sentido que o filme se perde.
Talvez seja uma escolha da direção: trabalhar os extremos sem recuar. O desfecho
Lars von Trier é o cineasta da dor, dividindo a realeza com Michael Haneke.
Quando digo dor, não é apenas a exposição gráfica do sofrimento, é a elaboração escrita, vivida, calculada do que é sofrer. Em "A Casa que Jack Construiu", há um tormento mórbido no assassino desnorteado com os próprios rastros. Perdido na contradição de querer mostrar seus crimes e viver fugindo.
A estética da câmera na mão faz o espectador ser voyeur da violência extrema, o olho que espia. É isso que Trier sempre fez, aqui ele grita isso para o mundo (como se já não soubéssemos). A própria escalação da Uma Thurman
reafirma a devoção do diretor ao cinema extremo, quase como uma religião.
O filme é excessivo, as vezes tenso e as vezes tedioso. Cheio de contradições e insuficiências: a viagem do cruel Jack com Virgílio (na travessia de Caronte) é pintada com a beleza de uma tela, e isso é Lars von Trier em essência.
Uma das metáforas que Guillermo del Toro joga na cara do espectador. Ainda que não seja sutil, funciona bem. A Medusa, forjada nos quereres e vaidades dos deuses, torna-se uma ferramenta de destruição, condenada na agonia de causar morte.
O Adão e o conhecimento
A Criatura, em seu mais simbólico ato (e, novamente, pouco sutil por parte da direção) lê o Gênesis bíblico. A aquisição do conhecimento e da linguagem — o fruto proibido — é também sofrimento: pois entende o que representa ser acorrentado pelo seu próprio criador.
Ainda que não seja o roteiro mais enxuto, há boas intenções aqui. O design de produção está longe de ser o melhor do diretor, CGI excessivo e muita estilística Netflix. Creio que cumpre a homenagem ao legado de Mary Shelley, uma perspectiva nova (e, merecidamente, gótica) desse clássico.
Adilson Barros está a cara do Harry Dean Stanton — de "Paris, Texas" — aqui.
Essa comédia tem um texto bem legal, criativo. Bebeu da fonte de Guimarães Rosa, trouxe aquela "neossintaxe" do português que é sempre reconfortante de assistir. Até os sotaques (que não decidem de onde são) trazem mais ludicidade para o material.
Minha ressalva fica com alguns direcionamentos de roteiro. O clímax não segurou bem o filme (que já é curto), senti que precisava impactar.
As alegorias da inocência do amor simples e da obsessão pela carne são interessantes,
Não sou de comparar o material base com a adaptação. Mas a adaptação de Sandman tem uma diferenciação que chama atenção, Jamie Childs não tem a estética (quase megalomaníaca) de finalizar arcos e personagens da mesma forma de Neil Gaiman. Na série, o silêncio é valorizado até em meio ao caos e ruína.
Nos quadrinhos, Loki é agredido por Coríntio e é colocado — em pura agonia — de volta à sua condenação torturante, sendo envenenado repetidamente por uma serpente. Na série, o fim desse personagem e até humorístico, de tão sucinto.
A própria caracterização dos personagens da adaptação foge do animalesco ou abstrato de Gaiman. Não há a figura endiabrada de Puck e Loki, não há a palidez branca e radiante de Morfeu, o corpo totalmente machucado de Desespero ou os pais dos perpétuos como figuras envoltas e constituintes de pura matéria cósmica. Nas entrevistas com elenco, foi revelado que diferentes testes de caracterização aconteceram para firmar como seria Morfeu (se seria mais antropomórfico ou mais abstrato), e, consequentemente, estabelecer o próprio tom da série.
Pessoalmente, queria a Delírio mais expansiva, colorida e surreal. O Destino mais fiel aos quadrinhos também me impactaria mais. Todavia, deixo meu elogio à modificação impecável que deram à Lucienne, deixaram essa personagem tão multifacetada.
Ressalto essas diferenças não para diminuir uma ou outra obra, mas para entender a mudança de nuance como algo positivo, necessária para uma série. A escolha de focar em Morfeu durante toda a trama e utilizar os acontecimentos secundários como força motriz para o grande desfecho é muito charmosa, e rendeu duas das cenas mais belas que já vi em seriados:
A cena em que as mãos do Adam são suavemente colocadas em foco (e a protagonista se joga sobre elas) já nos prepara para a sua obsessão sombria com membros humanos. Talvez o olho preguiçoso de May fosse a grande razão da atração pelas partes do corpo perfeitas, é a busca pela beleza que nunca enxergou em si.
A boneca (perturbadora, por sinal) é sempre retratada nos cantos, quase como uma observadora e testemunha dos passos de May.
O aprisionamento da boneca e o temor de deixá-la escapar é uma alegoria perfeita para simbolizar a própria repressão vivida pela protagonista. A boneca é a voz materna sinalizando um olho defeituoso que deve ser refém do uso do óculos. Interessante ver que a mãe de May oferece uma amiga artificial, a boneca, mas em nenhum momento do filme ela exerce esse papel de amiga para a própria filha.
Sou professor, e é claro que essa obra está no meu repertório. Na verdade, dificilmente eu entrego uma turma sem analisarmos Ilha das Flores. O que me espanta atualmente é a quantidade de turmas de Ensino Médio em que os alunos nunca assistiram o documentário. Lembro que no meu Fundamental, assistia uma vez por ano, pelo menos.
Jorge Furtado entrega uma simbiose de texto, imagem e sociedade. A cadeia dos mais complexos problemas sociais é pacientemente destrinchada, em uma irônica aproximação entre o que é trivial com o que é chocante. Esse material atravessa gerações, porque toca no âmago de tudo que é fatal na história: a desumanização do ser em função de sua posição social. Nós falhamos e continuaremos assim.
O famoso "jumpscare" do homem sombrio na primeira parte do filme estabelece uma tensão que está sempre à frente do espectador.
A câmera de Lynch é inteligente, intencional, irretocável. O cenário e as paredes são foco constante, explorados com vagareza e mistério. Há uma grande tensão em entender o que há atrás das paredes, das portas, das janelas, da caixa... O filme escancara o terror dos recalques do inconsciente com imagens. A fotografia onírica em "blur" é uma escolha estética tão acertada, isso é sonhar: a fantasia pode ser bela, destrutiva, ressentida, fragmentada, pode representar tudo e nada também.
Muito me marcou o movimento suave da câmera enquadrando Naomi Watts e Laura Harring dividindo um telefone, quase como um espelho em que são escancaradas as projeções, as comparações.
Seja na ânsia de Naomi pela fama e amor correspondido, ou na necessidade de Laura de impor grandeza (cena do jantar), em que entendemos que a fama, muitas vezes, pode ser o atropelamento do ego para com o mundo externo.
Meu primeiro cadastro e movimentação para trazer o cinema hindu devocional antigo aqui para o Filmow.
Encontrei esse cinema por interesse na religião hindu e toda a imagética relacionada. Cada vez mais busco experiências visuais em filmes, imagens e cores que contam histórias. E nada se compara a capacidade da Índia de retratar a sua crença da forma mais onírica e surreal possível.
Este filme eu nem achei legenda em inglês, não entendi os diálogos, mas as imagens e as músicas guiam a experiência. Na verdade, prefiro me contentar com elas. É um filme majoritariamente em preto e branco, com uns lapsos de cor. Não sei se foi uma limitação de equipamento ou uma escolha estética, ou os dois ao mesmo tempo. Independente, é um charme muito particular!
Descobri que as músicas desse filme são "hits" indianos, esse deve ser um famoso filme de infância dos indianos. Sem dúvidas, Bollywood tem um passado muito bem lapidado e com uma estética singular, milenar, ancestral.
Para quem está com muitas expectativas, é interessante assistir sabendo que "A Substância" é um filme extremamente derivado. Fica a juizo do espectador decidir se isso é um ponto fraco ou forte. Particularmente, amei esse combinado de referências.
Vamos destrinchá-las: a diretora recria a famosa alegoria da estética, da busca e do vício pela perfeição. Podemos citar "Perfect Blue", "Demônio de Neon", o cinema de Aronofsky, e, enxergo até um pouco da protagonista apática e grotesca de "A Professora de Piano" aqui. Elizabeth Sparkle é a protagonista constantemente vítima do sistema ageista, mas que, ao mesmo tempo, atrai forte repulsa do público pelas suas respostas inexpressivas frente à vida.
Outro lado da trama é a revitalização fortíssima do gênero "body horror" (terror que parte da exibição inescrupulosa do corpo). O que o remake de "Suspiria" flertou, "A Substância" escancarou.
Em uma grande fantasia genética, Elizabeth Sparkle/Sue cria uma aberração monstruosa de si mesma, à la Dr. Frankenstein. O banho de sangue do final filtra o público que realmente embarca nesse tipo de cinema.
Aqui, com temáticas atualizadas e interessantes para a geração atual.
É o filme inicial da franquia, que, apesar da estrutura simples, já rende reflexões interessantíssimas. Sobretudo para quem acompanha o fênomeno que Pokémon é hoje na cultura pop. O prelúdio com o Mewtwo é irretocável, direto e tocante. Depois que os protagonistas clássicos aparecem na tela, o filme volta para o lugar comum e esperado.
Ainda coube nesse roteiro uma espécie de "mea culpa" da franquia de Pokémon, ao retratar a violência e degradação do que pode ser a batalha Pokémon (na qual toda série se pauta). Talvez uma forma de se armar contra as polêmicas da época de apologia aos maus tratos contra os animais, colocando as batalhas em um patamar de esporte. Futuramente, os outros filmes da franquia trariam mais questões em pauta (as ambientais principalmente).
Revisitei esse clássico da infância, lembrava de algumas cenas, mas agora fui interessado em entender melhor o universo e, principalmente, o "Xenomorph", que é um primor de design, tanto no filme quanto nas artes de conceito para o filme.
O filme já inicia com uma cena muito bela do contraste entre os corredores claustrofóbicos da nave com o dormitório quase celestial da tripulação. Essa é a beleza e contradição do "Xenomorph": uma perfeição genética que se alimenta e se defende das formas mais brutais possíveis. Alien ensina com maestria que a iminência do monstro pode ser mais assustadora que o monstro em si.
Ainda tenho umas ressalvas quanto ao filme. A tripulação da nave não segura no carisma para mim, queria ter torcido mais por eles. Com exceção da Ripley, que rouba cada segundo para ela.
A primeira aparição do Alien é icônica, nada mais visceral que uma criatura rompendo um estômago. Entretanto, a criatura em si ficou amadora, a produção poderia ter colocado mais capricho ali.
Também achei os jump scare cansativos, repetitivos. Toda hora aquele gatinho aparecia sem propósito nenhum.
Na parte da animação, percebi segmentos bem fluidos e outros truncados. Mas, no geral, há um trabalho de design muito caprichado, criaturinhas inspiradas na cultura hippie/boho, com direito a Minimoy maconheiro e um vilão à la Voldemort. Surpreso com a Madonna envolvida nesse projeto, acho que a Selenia não tem muito a ver com ela.
A história é infanto-juvenil e não tem medo de ser boba. Incomoda quem vê depois de anos, mas impressiona pela construção de mitologia. Experiência aceitável, vou procurar as sequências.
American Horror Story nunca foi um primor narrativo, reassistir as primeiras temporadas hoje em dia torna a percepção pior. Ainda assim, no meio dos furos de roteiro e decisões forçadas podia se perceber um traço legal de autoria, busca por originalidade e uma estética diferente do que normalmente aparece na TV. Hoje em dia a série se perdeu totalmente, e até se desvincula cada vez mais do seu autor original (Ryan Murphy).
Dei uma chance para Delicate por conta do "hype" do elenco e na esperança de ver um respiro do baixo astral que foram as últimas temporadas. Mas, novamente, o que se aproveita de divertido é mínimo perto da grande porção tediosa contida nesse roteiro. Os últimos episódios foram curtos e corridos e me fizeram ter a certeza de que tudo que eu assisti foi um conjunto de nada com nada. Para não dizer que foi totalmente tenebroso: as referência ao Bebê de Rosemary e todo esse terror de maternidade são interessantes, mas se pensarmos bem, são ideias derivadas de um livro que já existe (Delicate) e que, provavelmente, executa a ideia muito melhor.
Infelizmente, o que se aproveita de legal desse material são as imagens promocionais, teasers e a abertura, que sempre será icônica.
Seria um alerta de tendência para o cinema essa mistura de esporte com homoerotismo, vide a estreia colada de "Rivais" e "Love Lies Bleeding"? Queria assistir (e escrever sobre) os dois juntos, mas "Rivais" foi melhor circulado na minha região.
O filme é episódico (no melhor sentido possível): uma partida de tênis em que os sets são costurados por flashbacks dos envolvidos, formando uma teia de conexões, amores frustrados e atração. O trio principal protagoniza quase tudo aqui e sustenta os dramas com primor.
O esporte é a culminância do desejo, da frustração, do ímpeto humano. Tudo que não se dá conta na vida pessoal (as faltas e os excessos) são articulados na linguagem do tênis: na força que se rebate a bola, nos grunhidos de cansaço, na posição em que ocupa na quadra. O tênis é uma dança de pares rivais.
Destaque para a câmera subjetiva, que assumia os personagens no dinamismo da partida de tênis. As bolas em direção à câmera adicionaram um nível de realismo muito impressionante.
Minha crítica maior fica na parte do homoerotismo, parece que o filme não decidiu bem a direção que iria levar a tensão entre o Patrick e o Art.
É preciso selecionar entre texto ou subtexto, o filme escolheu (corajosamente) montar uma cena erótica entre os dois, no início, para depois retrai-los de um jeito totalmente anticlimático. A cena que eles se reencontram na sauna poderia ser muito mais do que foi.
Na tentativa recorrente dos anos 90 e 2000 de emplacar a protagonista feminina de ação perfeita (Aeon Flux, Ultravioleta, Bayonetta, Resident Evil, etc), Barb Wire foi a grande mãe (ao lado da Tank Girl, discutivelmente).
Ainda que feita para o olhar masculino, Barb Wire foi ganhando novas significações com o passar dos anos. De uma sensualidade caricata que transmite poder, da silhueta perfeita intacta na distopia. É quase um paralelo poético com a carreira da atriz Pamela Anderson, que hoje em dia atrai simpatia pela postura bem resolvida para com as polêmicas de sua vida e das suas personagens.
Eu, como fã do gênero, aprecio Barb Wire pelo o que ele é: um trash divertido, que ajudou a transformar Pamela Anderson em uma potência midiática.
Em pleno 2024, um CGI como o do Aang voando deveria ser considerado criminoso. Aliás, a série toda é um compilado de incertezas, ainda mais para quem consumiu o material original. Eu não esperava fidelidade quadro por quadro, mas gostaria do impacto dramático preservado em certas decisões.
Por exemplo: a ligação do Aang com o mundo espiritual, que poderia ser menos premeditada e controlada; O primeiro episódio, que é uma exposição narrativa muito excessiva e vazia de toda a mágica do storytelling.
Visualmente tem altos e baixos, gostei da recriação dos cenários. Quanto às dobras dos elementos: fogo e ar canalizaram bem os espíritos de destruição e leveza (respectivamente). A dobra de pedra poderia impactar mais os ambientes e os tapas da dobra de água não convenceram em alguns momentos.
O casting foi muito bem resolvido, a maioria dos atores se parece com o material original. Há uma mudança brusca em algumas personalidades em prol da "adultização" do roteiro, que eu até compreendo.
Esperava as lendas sendo narradas de uma forma mais mitológica, também. Faltou apelo visual. No mais, a experiência foi divertida. Só não vai ser a experiência definitiva para o fã da animação.
Um filme em que a premissa principal gira em torno do descobrimento sexual de uma mulher com o cérebro infantil é, de fato, controversa. Pode-se argumentar que, dentro do próprio material escrito, o diretor justifica um desenvolvimento excessivo desse cérebro. Eu já acredito que não há pretensão moral ao retratar os personagens dessa forma.
Por meio dessas reflexões, compreendo as pobres criaturas do título não apenas como as quimeras deformadas e vítimas do Dr. God. As pobres criaturas são os dominados pela ignorância, é o intelectualismo (que vive apenas como discurso) acima da pobreza de Alexandria. É a obsessão cientifíca que não se deixa fruir a vida e as emoções. É a fixação sexual que termina em frustração, por aí vai..
Todas essas criaturas não se deixam observar Bella como o que ela é: uma esponja do mundo, inocente e incapaz de exercer distinção.
É uma cena de crime muito simplória que seria solucionada facilmente na perícia policial. Para uma melhor imersão é necessário ignorar a parte forense e apreciar a discussão filosófica (que muito me encanta): tratando-se de justiça, não há verdade, há, sim, narrativas dominantes.
E, dito isso, entre Sandra e Samuel, Sandra se mostra uma exímia narradora, no inglês e até no francês arranhado. Tudo que Samuel deixou no pós-morte foi um quebra-cabeças nebuloso e conspiratório.
Fazia tempo que não assistia um anime tão fraco. Personagens com design genérico e desinteressante. A comédia auto-consciente de apocalipse zumbi é muito batida, e aqui ainda é acompanhada de um humor meio sexista (que não tem graça nenhuma). Vão assistir "Highschool of the dead", que é mais escrachado e mais bem resolvido.
Kinnporsche é uma montanha-russa que me fisgou de um jeito que poucas séries conseguiram. Entretanto, é importante assistir entendendo que o dorama é derivado do fenômeno dos "dark romance", logo, cai em muitas escolhas duvidosas e relacionamentos tóxicos e violentos.
Minha crítica maior fica para as pontas soltas, que poderiam ser revividas nas próximas temporadas, mas que, por razões de bastidores, talvez nunca aconteçam.
E faltou explorar o passado e os traumas do Pete, para que o estocolmo criado com o Vegas não aparentasse ser algo tão arbitrário e absurdo.
Quase todos os personagens são cativantes, se for para apontar alguém que me incomodou, diria o Porschay. O ator é muito desafinado e tentaram vender ele como talentoso, não desceu. Vale destacar o crescimento do Tankhum durante o dorama, começou como um personagem detestável (mas com uma inocência engraçada) e terminou se mostrando uma figura muito intuitiva e carinhosa (dos seus modos). Achei legal saber que ele foi a figura materna para os seus irmãos mais novos, faz muito sentido.
Bayonetta já está na categoria de ícone da cultura pop, a personagem por si só é um combinado muito bem sucedido de referências inusitadas. Uma espécie de "Barb Wire" ocultista, que protagoniza uma versão feminina e sexy da aventura de Dante em "Devil May Cry". O corpo de supermodelo, a atitude performática e os óculos de grau desenham a excêntrica (e grandiosa) Bayonetta. Nesse sentido, tudo que é derivado desse universo já me ganha gratuitamente.
O anime me surpreendeu em certos aspectos, algumas liberdades criativas frente ao material original me agradaram mais aqui do que no jogo. Por exemplo: o prólogo na catedral com o piano de fundo, uma sacada belíssima.
Fiquei com medo da animação ser muito estática e truncada, mas as cenas tiveram bom dinamismo. Narrativamente, é caótico (tal como o jogo), entretanto, aqui no anime o tempo curto da obra prejudica ainda mais, quem assistir esse material sem contato prévio com Bayonetta ficará confuso.
O saldo é positivo, mas com certeza deixou vontade de assistir uma produção melhor amarrada, mais longa e narrativamente controlada do universo de Bayonetta. Creio que isso ainda é possível, considerando a abrangência da franquia.
A mise-en-scène mais potente do cinema. Cada micro-expressão da personagem Erika é um mergulho em sua complexidade psicossexual. Esse filme merece ser estudado com uma lupa.
Quando o rosto da protagonista, de sofrimento fatalista, não está em foco, o que vemos é o corpo masculino de Walter invadindo Erika, ocupando o seu íntimo mais reprimido e dolorido. Esta cena, que poderia ser passional, confunde-se facilmente com o cenário de um ataque, agressão. A mesma excitação voyeur de Erika, que a faz urinar no cinema drive-in, repete-se na crueldade concretizada contra sua aluna de piano.
Não há prazer sem dor aqui, Erika é tão acostumada a se punir, que causar dor também lhe traz familiaridade, prazer.
Os tons sóbrios e modestos das primeiras cenas encontram, gradativamente, manchas de sangue e sujeira. A força erudita da música clássica transforma-se em horror materializado, o Haneke, acima de tudo, soube como pintar essa tela.
Houve uma Vez Dois Verões
3.4 216Filme na média, bom design de produção, figurino e trilha sonora. Encapsula bem os anos 2000, nostálgico para quem passou a infância/adolescência nessa época.
O roteiro (sem filtro nenhum) envelheceu mal e é agravado com atuações que não convencem. A sensação é que o filme podia ter sido muito mais do que foi, mas diverte no que consegue entregar.
Tudo Sobre Lily Chou-Chou
4.1 66 Assista AgoraMuita câmera na mão e pessimismo, "Tudo Sobre Lily Chou-Chou" se torna emblemático no que é (ou no que tenta ser).
Gosto muito do cinema que se permite não ser polido, aqui o filme abraça o caos e a captação ruidosa de imagem. Um prato cheio para quem aprecia a estética da filmadora portátil, o segmento em Okinawa é um mergulho no trauma através dos quadros.
O filme é excessivo na exposição do comportamento disfuncional dos jovens, sem trazer uma clareza narrativa para as conexões, isso gera uma frieza involuntária no espectador. O chat de adoração à Lily é a forma que compreendemos as motivações e crises internas daquela sociedade juvenil, mas tudo é muito abstrato, nesse sentido que o filme se perde.
Talvez seja uma escolha da direção: trabalhar os extremos sem recuar. O desfecho
— da overdose do Éter, em que percebemos que nem a Lily (a arte mais bem fruida) pode salvar aqueles personagens —
A Casa Que Jack Construiu
3.5 808 Assista AgoraLars von Trier é o cineasta da dor, dividindo a realeza com Michael Haneke.
Quando digo dor, não é apenas a exposição gráfica do sofrimento, é a elaboração escrita, vivida, calculada do que é sofrer. Em "A Casa que Jack Construiu", há um tormento mórbido no assassino desnorteado com os próprios rastros. Perdido na contradição de querer mostrar seus crimes e viver fugindo.
A estética da câmera na mão faz o espectador ser voyeur da violência extrema, o olho que espia. É isso que Trier sempre fez, aqui ele grita isso para o mundo (como se já não soubéssemos). A própria escalação da Uma Thurman
— apenas para morrer de forma estúpida —
O filme é excessivo, as vezes tenso e as vezes tedioso. Cheio de contradições e insuficiências: a viagem do cruel Jack com Virgílio (na travessia de Caronte) é pintada com a beleza de uma tela, e isso é Lars von Trier em essência.
Frankenstein
3.7 600 Assista AgoraA Medusa de Victor
Uma das metáforas que Guillermo del Toro joga na cara do espectador. Ainda que não seja sutil, funciona bem. A Medusa, forjada nos quereres e vaidades dos deuses, torna-se uma ferramenta de destruição, condenada na agonia de causar morte.
O Adão e o conhecimento
A Criatura, em seu mais simbólico ato (e, novamente, pouco sutil por parte da direção) lê o Gênesis bíblico. A aquisição do conhecimento e da linguagem — o fruto proibido — é também sofrimento: pois entende o que representa ser acorrentado pelo seu próprio criador.
Ainda que não seja o roteiro mais enxuto, há boas intenções aqui. O design de produção está longe de ser o melhor do diretor, CGI excessivo e muita estilística Netflix. Creio que cumpre a homenagem ao legado de Mary Shelley, uma perspectiva nova (e, merecidamente, gótica) desse clássico.
A Marvada Carne
3.6 115 Assista AgoraAdilson Barros está a cara do Harry Dean Stanton — de "Paris, Texas" — aqui.
Essa comédia tem um texto bem legal, criativo. Bebeu da fonte de Guimarães Rosa, trouxe aquela "neossintaxe" do português que é sempre reconfortante de assistir. Até os sotaques (que não decidem de onde são) trazem mais ludicidade para o material.
Minha ressalva fica com alguns direcionamentos de roteiro. O clímax não segurou bem o filme (que já é curto), senti que precisava impactar.
As alegorias da inocência do amor simples e da obsessão pela carne são interessantes,
mas a passagem para o êxodo rural não alcança a eficácia da ironia pretendida.
Sandman (2ª Temporada)
3.9 126 Assista AgoraNão sou de comparar o material base com a adaptação. Mas a adaptação de Sandman tem uma diferenciação que chama atenção, Jamie Childs não tem a estética (quase megalomaníaca) de finalizar arcos e personagens da mesma forma de Neil Gaiman. Na série, o silêncio é valorizado até em meio ao caos e ruína.
Nos quadrinhos, Loki é agredido por Coríntio e é colocado — em pura agonia — de volta à sua condenação torturante, sendo envenenado repetidamente por uma serpente. Na série, o fim desse personagem e até humorístico, de tão sucinto.
A própria caracterização dos personagens da adaptação foge do animalesco ou abstrato de Gaiman. Não há a figura endiabrada de Puck e Loki, não há a palidez branca e radiante de Morfeu, o corpo totalmente machucado de Desespero ou os pais dos perpétuos como figuras envoltas e constituintes de pura matéria cósmica. Nas entrevistas com elenco, foi revelado que diferentes testes de caracterização aconteceram para firmar como seria Morfeu (se seria mais antropomórfico ou mais abstrato), e, consequentemente, estabelecer o próprio tom da série.
Pessoalmente, queria a Delírio mais expansiva, colorida e surreal. O Destino mais fiel aos quadrinhos também me impactaria mais. Todavia, deixo meu elogio à modificação impecável que deram à Lucienne, deixaram essa personagem tão multifacetada.
Ressalto essas diferenças não para diminuir uma ou outra obra, mas para entender a mudança de nuance como algo positivo, necessária para uma série. A escolha de focar em Morfeu durante toda a trama e utilizar os acontecimentos secundários como força motriz para o grande desfecho é muito charmosa, e rendeu duas das cenas mais belas que já vi em seriados:
O toque suave da Morte em seu irmão, o silêncio e a beleza de entender que para tudo há finitude e há renascimento.
O corpo de Morfeu sendo, simbolicamente, transformado em estrela, brilhando em outros horizontes.
May: Obsessão Assassina
3.2 285 Assista AgoraA dor de uma mulher preterida é escancarada em forma de terror psicológico.
Desde o início, May tem um jogo de câmera muito sugestivo e inteligente.
A cena em que as mãos do Adam são suavemente colocadas em foco (e a protagonista se joga sobre elas) já nos prepara para a sua obsessão sombria com membros humanos. Talvez o olho preguiçoso de May fosse a grande razão da atração pelas partes do corpo perfeitas, é a busca pela beleza que nunca enxergou em si.
A boneca (perturbadora, por sinal) é sempre retratada nos cantos, quase como uma observadora e testemunha dos passos de May.
O aprisionamento da boneca e o temor de deixá-la escapar é uma alegoria perfeita para simbolizar a própria repressão vivida pela protagonista. A boneca é a voz materna sinalizando um olho defeituoso que deve ser refém do uso do óculos. Interessante ver que a mãe de May oferece uma amiga artificial, a boneca, mas em nenhum momento do filme ela exerce esse papel de amiga para a própria filha.
Ilha das Flores
4.5 1,0KSou professor, e é claro que essa obra está no meu repertório. Na verdade, dificilmente eu entrego uma turma sem analisarmos Ilha das Flores. O que me espanta atualmente é a quantidade de turmas de Ensino Médio em que os alunos nunca assistiram o documentário. Lembro que no meu Fundamental, assistia uma vez por ano, pelo menos.
Jorge Furtado entrega uma simbiose de texto, imagem e sociedade. A cadeia dos mais complexos problemas sociais é pacientemente destrinchada, em uma irônica aproximação entre o que é trivial com o que é chocante. Esse material atravessa gerações, porque toca no âmago de tudo que é fatal na história: a desumanização do ser em função de sua posição social. Nós falhamos e continuaremos assim.
Cidade dos Sonhos
4.1 1,8K Assista AgoraCidade dos Sonhos é uma das experiências máximas de cinema imersivo.
O famoso "jumpscare" do homem sombrio na primeira parte do filme estabelece uma tensão que está sempre à frente do espectador.
A câmera de Lynch é inteligente, intencional, irretocável. O cenário e as paredes são foco constante, explorados com vagareza e mistério. Há uma grande tensão em entender o que há atrás das paredes, das portas, das janelas, da caixa... O filme escancara o terror dos recalques do inconsciente com imagens. A fotografia onírica em "blur" é uma escolha estética tão acertada, isso é sonhar: a fantasia pode ser bela, destrutiva, ressentida, fragmentada, pode representar tudo e nada também.
Muito me marcou o movimento suave da câmera enquadrando Naomi Watts e Laura Harring dividindo um telefone, quase como um espelho em que são escancaradas as projeções, as comparações.
Seja na ânsia de Naomi pela fama e amor correspondido, ou na necessidade de Laura de impor grandeza (cena do jantar), em que entendemos que a fama, muitas vezes, pode ser o atropelamento do ego para com o mundo externo.
Shree Ganesh
4.0 1Meu primeiro cadastro e movimentação para trazer o cinema hindu devocional antigo aqui para o Filmow.
Encontrei esse cinema por interesse na religião hindu e toda a imagética relacionada. Cada vez mais busco experiências visuais em filmes, imagens e cores que contam histórias. E nada se compara a capacidade da Índia de retratar a sua crença da forma mais onírica e surreal possível.
Este filme eu nem achei legenda em inglês, não entendi os diálogos, mas as imagens e as músicas guiam a experiência. Na verdade, prefiro me contentar com elas. É um filme majoritariamente em preto e branco, com uns lapsos de cor. Não sei se foi uma limitação de equipamento ou uma escolha estética, ou os dois ao mesmo tempo. Independente, é um charme muito particular!
Descobri que as músicas desse filme são "hits" indianos, esse deve ser um famoso filme de infância dos indianos. Sem dúvidas, Bollywood tem um passado muito bem lapidado e com uma estética singular, milenar, ancestral.
https://youtu.be/Vr_yMbPIctU?si=y5N9gD9oRr1pnHY9
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraPara quem está com muitas expectativas, é interessante assistir sabendo que "A Substância" é um filme extremamente derivado. Fica a juizo do espectador decidir se isso é um ponto fraco ou forte. Particularmente, amei esse combinado de referências.
Vamos destrinchá-las: a diretora recria a famosa alegoria da estética, da busca e do vício pela perfeição. Podemos citar "Perfect Blue", "Demônio de Neon", o cinema de Aronofsky, e, enxergo até um pouco da protagonista apática e grotesca de "A Professora de Piano" aqui. Elizabeth Sparkle é a protagonista constantemente vítima do sistema ageista, mas que, ao mesmo tempo, atrai forte repulsa do público pelas suas respostas inexpressivas frente à vida.
Outro lado da trama é a revitalização fortíssima do gênero "body horror" (terror que parte da exibição inescrupulosa do corpo). O que o remake de "Suspiria" flertou, "A Substância" escancarou.
Zoom's desconfortáveis, fluidos corporais, corpos deformados e despedaçados, barulhos desconcertantes.
Em uma grande fantasia genética, Elizabeth Sparkle/Sue cria uma aberração monstruosa de si mesma, à la Dr. Frankenstein. O banho de sangue do final filtra o público que realmente embarca nesse tipo de cinema.
O filme dispensou algumas explicações basilares (o que é, minimamente, organização que fez "A Substância"?).
Pokémon, O Filme 1: Mewtwo vs Mew
3.7 670 Assista AgoraÉ o filme inicial da franquia, que, apesar da estrutura simples, já rende reflexões interessantíssimas. Sobretudo para quem acompanha o fênomeno que Pokémon é hoje na cultura pop. O prelúdio com o Mewtwo é irretocável, direto e tocante. Depois que os protagonistas clássicos aparecem na tela, o filme volta para o lugar comum e esperado.
Ainda coube nesse roteiro uma espécie de "mea culpa" da franquia de Pokémon, ao retratar a violência e degradação do que pode ser a batalha Pokémon (na qual toda série se pauta). Talvez uma forma de se armar contra as polêmicas da época de apologia aos maus tratos contra os animais, colocando as batalhas em um patamar de esporte. Futuramente, os outros filmes da franquia trariam mais questões em pauta (as ambientais principalmente).
Alien: O Oitavo Passageiro
4.1 1,4K Assista AgoraRevisitei esse clássico da infância, lembrava de algumas cenas, mas agora fui interessado em entender melhor o universo e, principalmente, o "Xenomorph", que é um primor de design, tanto no filme quanto nas artes de conceito para o filme.
O filme já inicia com uma cena muito bela do contraste entre os corredores claustrofóbicos da nave com o dormitório quase celestial da tripulação. Essa é a beleza e contradição do "Xenomorph": uma perfeição genética que se alimenta e se defende das formas mais brutais possíveis. Alien ensina com maestria que a iminência do monstro pode ser mais assustadora que o monstro em si.
Ainda tenho umas ressalvas quanto ao filme. A tripulação da nave não segura no carisma para mim, queria ter torcido mais por eles. Com exceção da Ripley, que rouba cada segundo para ela.
A primeira aparição do Alien é icônica, nada mais visceral que uma criatura rompendo um estômago. Entretanto, a criatura em si ficou amadora, a produção poderia ter colocado mais capricho ali.
Arthur e os Minimoys
3.2 125 Assista AgoraNa parte da animação, percebi segmentos bem fluidos e outros truncados. Mas, no geral, há um trabalho de design muito caprichado, criaturinhas inspiradas na cultura hippie/boho, com direito a Minimoy maconheiro e um vilão à la Voldemort. Surpreso com a Madonna envolvida nesse projeto, acho que a Selenia não tem muito a ver com ela.
A história é infanto-juvenil e não tem medo de ser boba. Incomoda quem vê depois de anos, mas impressiona pela construção de mitologia. Experiência aceitável, vou procurar as sequências.
American Horror Story: Delicate (12ª Temporada)
2.5 103American Horror Story nunca foi um primor narrativo, reassistir as primeiras temporadas hoje em dia torna a percepção pior. Ainda assim, no meio dos furos de roteiro e decisões forçadas podia se perceber um traço legal de autoria, busca por originalidade e uma estética diferente do que normalmente aparece na TV. Hoje em dia a série se perdeu totalmente, e até se desvincula cada vez mais do seu autor original (Ryan Murphy).
Dei uma chance para Delicate por conta do "hype" do elenco e na esperança de ver um respiro do baixo astral que foram as últimas temporadas. Mas, novamente, o que se aproveita de divertido é mínimo perto da grande porção tediosa contida nesse roteiro. Os últimos episódios foram curtos e corridos e me fizeram ter a certeza de que tudo que eu assisti foi um conjunto de nada com nada. Para não dizer que foi totalmente tenebroso: as referência ao Bebê de Rosemary e todo esse terror de maternidade são interessantes, mas se pensarmos bem, são ideias derivadas de um livro que já existe (Delicate) e que, provavelmente, executa a ideia muito melhor.
Infelizmente, o que se aproveita de legal desse material são as imagens promocionais, teasers e a abertura, que sempre será icônica.
Rivais
3.6 577 Assista AgoraSeria um alerta de tendência para o cinema essa mistura de esporte com homoerotismo, vide a estreia colada de "Rivais" e "Love Lies Bleeding"? Queria assistir (e escrever sobre) os dois juntos, mas "Rivais" foi melhor circulado na minha região.
O filme é episódico (no melhor sentido possível): uma partida de tênis em que os sets são costurados por flashbacks dos envolvidos, formando uma teia de conexões, amores frustrados e atração. O trio principal protagoniza quase tudo aqui e sustenta os dramas com primor.
O esporte é a culminância do desejo, da frustração, do ímpeto humano. Tudo que não se dá conta na vida pessoal (as faltas e os excessos) são articulados na linguagem do tênis: na força que se rebate a bola, nos grunhidos de cansaço, na posição em que ocupa na quadra. O tênis é uma dança de pares rivais.
Destaque para a câmera subjetiva, que assumia os personagens no dinamismo da partida de tênis. As bolas em direção à câmera adicionaram um nível de realismo muito impressionante.
Minha crítica maior fica na parte do homoerotismo, parece que o filme não decidiu bem a direção que iria levar a tensão entre o Patrick e o Art.
É preciso selecionar entre texto ou subtexto, o filme escolheu (corajosamente) montar uma cena erótica entre os dois, no início, para depois retrai-los de um jeito totalmente anticlimático. A cena que eles se reencontram na sauna poderia ser muito mais do que foi.
Barb Wire: A Justiceira
2.1 28Na tentativa recorrente dos anos 90 e 2000 de emplacar a protagonista feminina de ação perfeita (Aeon Flux, Ultravioleta, Bayonetta, Resident Evil, etc), Barb Wire foi a grande mãe (ao lado da Tank Girl, discutivelmente).
Ainda que feita para o olhar masculino, Barb Wire foi ganhando novas significações com o passar dos anos. De uma sensualidade caricata que transmite poder, da silhueta perfeita intacta na distopia. É quase um paralelo poético com a carreira da atriz Pamela Anderson, que hoje em dia atrai simpatia pela postura bem resolvida para com as polêmicas de sua vida e das suas personagens.
Eu, como fã do gênero, aprecio Barb Wire pelo o que ele é: um trash divertido, que ajudou a transformar Pamela Anderson em uma potência midiática.
Avatar: O Último Mestre do Ar (1ª Temporada)
3.8 168 Assista AgoraEm pleno 2024, um CGI como o do Aang voando deveria ser considerado criminoso. Aliás, a série toda é um compilado de incertezas, ainda mais para quem consumiu o material original. Eu não esperava fidelidade quadro por quadro, mas gostaria do impacto dramático preservado em certas decisões.
Por exemplo: a ligação do Aang com o mundo espiritual, que poderia ser menos premeditada e controlada; O primeiro episódio, que é uma exposição narrativa muito excessiva e vazia de toda a mágica do storytelling.
Visualmente tem altos e baixos, gostei da recriação dos cenários. Quanto às dobras dos elementos: fogo e ar canalizaram bem os espíritos de destruição e leveza (respectivamente). A dobra de pedra poderia impactar mais os ambientes e os tapas da dobra de água não convenceram em alguns momentos.
O casting foi muito bem resolvido, a maioria dos atores se parece com o material original. Há uma mudança brusca em algumas personalidades em prol da "adultização" do roteiro, que eu até compreendo.
Esperava as lendas sendo narradas de uma forma mais mitológica, também. Faltou apelo visual. No mais, a experiência foi divertida. Só não vai ser a experiência definitiva para o fã da animação.
Pobres Criaturas
4.1 1,3K Assista AgoraUm filme em que a premissa principal gira em torno do descobrimento sexual de uma mulher com o cérebro infantil é, de fato, controversa. Pode-se argumentar que, dentro do próprio material escrito, o diretor justifica um desenvolvimento excessivo desse cérebro. Eu já acredito que não há pretensão moral ao retratar os personagens dessa forma.
Por meio dessas reflexões, compreendo as pobres criaturas do título não apenas como as quimeras deformadas e vítimas do Dr. God. As pobres criaturas são os dominados pela ignorância, é o intelectualismo (que vive apenas como discurso) acima da pobreza de Alexandria. É a obsessão cientifíca que não se deixa fruir a vida e as emoções. É a fixação sexual que termina em frustração, por aí vai..
Todas essas criaturas não se deixam observar Bella como o que ela é: uma esponja do mundo, inocente e incapaz de exercer distinção.
Exposta aos prazeres do outro, Bella se tornou uma figura próxima daquilo que mais a aprisionou: uma doutora sem escrúpulos.
Anatomia de uma Queda
4.0 977 Assista AgoraÉ uma cena de crime muito simplória que seria solucionada facilmente na perícia policial. Para uma melhor imersão é necessário ignorar a parte forense e apreciar a discussão filosófica (que muito me encanta): tratando-se de justiça, não há verdade, há, sim, narrativas dominantes.
E, dito isso, entre Sandra e Samuel, Sandra se mostra uma exímia narradora, no inglês e até no francês arranhado. Tudo que Samuel deixou no pós-morte foi um quebra-cabeças nebuloso e conspiratório.
Zom 100: Bucket List of The Dead
3.6 37 Assista AgoraFazia tempo que não assistia um anime tão fraco. Personagens com design genérico e desinteressante. A comédia auto-consciente de apocalipse zumbi é muito batida, e aqui ainda é acompanhada de um humor meio sexista (que não tem graça nenhuma). Vão assistir "Highschool of the dead", que é mais escrachado e mais bem resolvido.
KinnPorsche
4.1 37Kinnporsche é uma montanha-russa que me fisgou de um jeito que poucas séries conseguiram. Entretanto, é importante assistir entendendo que o dorama é derivado do fenômeno dos "dark romance", logo, cai em muitas escolhas duvidosas e relacionamentos tóxicos e violentos.
Minha crítica maior fica para as pontas soltas, que poderiam ser revividas nas próximas temporadas, mas que, por razões de bastidores, talvez nunca aconteçam.
Queria entender melhor o porquê da frieza do Kim e tamanho interesse (mascarado) nos esquemas de seu pai, seria alguma experiência da infância?
E faltou explorar o passado e os traumas do Pete, para que o estocolmo criado com o Vegas não aparentasse ser algo tão arbitrário e absurdo.
Quase todos os personagens são cativantes, se for para apontar alguém que me incomodou, diria o Porschay. O ator é muito desafinado e tentaram vender ele como talentoso, não desceu. Vale destacar o crescimento do Tankhum durante o dorama, começou como um personagem detestável (mas com uma inocência engraçada) e terminou se mostrando uma figura muito intuitiva e carinhosa (dos seus modos). Achei legal saber que ele foi a figura materna para os seus irmãos mais novos, faz muito sentido.
Bayonetta: Destino Sangrento
3.2 59 Assista AgoraBayonetta já está na categoria de ícone da cultura pop, a personagem por si só é um combinado muito bem sucedido de referências inusitadas. Uma espécie de "Barb Wire" ocultista, que protagoniza uma versão feminina e sexy da aventura de Dante em "Devil May Cry". O corpo de supermodelo, a atitude performática e os óculos de grau desenham a excêntrica (e grandiosa) Bayonetta. Nesse sentido, tudo que é derivado desse universo já me ganha gratuitamente.
O anime me surpreendeu em certos aspectos, algumas liberdades criativas frente ao material original me agradaram mais aqui do que no jogo. Por exemplo: o prólogo na catedral com o piano de fundo, uma sacada belíssima.
Fiquei com medo da animação ser muito estática e truncada, mas as cenas tiveram bom dinamismo. Narrativamente, é caótico (tal como o jogo), entretanto, aqui no anime o tempo curto da obra prejudica ainda mais, quem assistir esse material sem contato prévio com Bayonetta ficará confuso.
O saldo é positivo, mas com certeza deixou vontade de assistir uma produção melhor amarrada, mais longa e narrativamente controlada do universo de Bayonetta. Creio que isso ainda é possível, considerando a abrangência da franquia.
A Professora de Piano
4.0 728 Assista AgoraA mise-en-scène mais potente do cinema. Cada micro-expressão da personagem Erika é um mergulho em sua complexidade psicossexual. Esse filme merece ser estudado com uma lupa.
Quando o rosto da protagonista, de sofrimento fatalista, não está em foco, o que vemos é o corpo masculino de Walter invadindo Erika, ocupando o seu íntimo mais reprimido e dolorido. Esta cena, que poderia ser passional, confunde-se facilmente com o cenário de um ataque, agressão. A mesma excitação voyeur de Erika, que a faz urinar no cinema drive-in, repete-se na crueldade concretizada contra sua aluna de piano.
Os tons sóbrios e modestos das primeiras cenas encontram, gradativamente, manchas de sangue e sujeira. A força erudita da música clássica transforma-se em horror materializado, o Haneke, acima de tudo, soube como pintar essa tela.