O filme aspira à grande do brutalismo, ao mesmo tempo em que tenta nos sensibilizar com a trama de um imigrante sobrevivente da segunda guerra.
A lição parece ser duas: somos duros e resistimos num lugar em que não nos querem lá. A solução, me parece, é a tese sionista, que judeus precisam de uma terra, Israel. Isso, inclusive, é dito literalmente numa frase que não digo por spoiler.
Mas o problema nem é esse: o filme é tão frio quanto o concreto do brutalismo. Ele tenta esquentar, mas vira uma sucessão de imagens bonitas, mas que causam pouco.
Acabei de assistir Nosferatu e o sentimento é ambíguo de ter visto um filme que gostei demais e ainda assim saber que ele me lembra muito outros.
Talvez essa seja a grande qualidade desse Nosferatu : ele se insere na tradição de filmes que se baseiam na obra de Bram Stoker, se mantém bastante fiel ao miolo da história e, ainda assim, mesmo nos dando uma sensação de Dejavu, consegue nos encantar em suas características próprias.
Confesso que esse horror me gera quase uma vertigem e fico ali, preso na história, não com medo, mas fascinado pelo mistério do mundo. Gosto do lado mais gore e gosto da narrativa ter mais velocidade.
Em tempos de genocídio palestino, fiquei com a impressão que o filme foi certeiro ao tratar o Holocausto. Nos personagens dos primos, temos duas expressões muito marcantes da identidade judaica.
De um lado, uma em que os efeitos do trauma geracional se expressam no corpo da personagem a todo instante - até de forma a atrapalhar os demais - chamando o tempo todo o mundo para a consciência de tudo que eles viveram. Não lembrar o tempo todo é, assim, esquecer pra sempre.
Do outro, um personagem que mostra uma certa frieza em relação ao passado, numa tentativa de reconhecer os sofrimentos, mas tentar dar um passo a frente e viver, quase na máxima de "eles sofreram, nós não precisamos sofrer".
A Real Pain, ou seja, a verdadeira dor, me parece ser justamente viver essa tensão como marca identitária inescapável.
Como ser, ao mesmo tempo, UM e OUTRO, oscilar entre essas duas personalidades, lembrar e esquecer ao mesmo tempo, sofrer e superar. Essa é a verdadeira dor.
Assisti durante uma viagem de avião porque acho que é a única forma de eu assistir esse filme, mas me surpreendi positivamente. É um grande dramalhão novelesco no nível Sidney Sheldon, talvez com menos reviravoltas, mas é doce, gentil, bonito e retrata com delicadeza e cuidado a questão do amor se transformando em violência doméstica.
Os atores estão bem e a trama é conduzida com a calma que o tema necessita para não cair em chavões e clichês. Não li o livro porque não é um gênero que me interessa, mas a adaptação fez um bom filme!
Um dos melhores docs biográficos que já vi. É especial a forma como ele nos conta vida e obra de Caymmi: a partir das minúcias ditas por ele, em uma especial em uma entrevista em 1998, quando ele já tinha mais de 80 anos.
A partir dali saem temas como a relação com o mar, as composições, a boemia, o amor às mulheres do Rio de Janeiro, as canções, os encontros e as histórias.
E desses detalhes, as grandes questões do compositor vão aparecendo entrecortada por depoimento dos filhos Nana, Dori e Danilo, e nomes como Caetano e Gil.
Acho interessante sempre que uma obra une o ancestral com o artificial. Afinal de contas, eu nunca acho que essas coisas estão tão distantes assim, pois estamos sempre fundando uma segunda natureza.
Nesse caso, temos uma historinha lindinha, fofa, que dificilmente deixa de fazer você se emocionar.
Gladiador (2024) é um excelente filme é épico, mas em mundo que não é mais épico
Pouco se pode dizer do que o filme é. Basicamente, ele é um épico clássico, com trilha sonora potente e cenas de batalha emocionantes. O roteiro também é perfeito para fazer com que tenhamos a plena sensação de que estamos tanto nos calabouços de Roma quanto no Coliseu iluminado pelo prazer da violência.
O único problema é que o mundo já não é mais como era nos anos 2000 quando o primeiro filme foi lançado. Agora, nosso pensamento, sustentado tanto pelo avanço das críticas sociais quanto pela evolução tecnológica, não aceita mais uma história única, linear com uma premissa que vai deixando sofrimento e mortes para trás.
Basta ver os comentários aqui que você consegue perceber um gostinho de amargo que muitas vezes não se sabe explicar. É o tempo. O tempo é implacável para quem conta histórias. Hoje, a história dos vencedores continua vencendo, mas não cosegue mais silenciar e ignorar a história dos vencidos.
Não existe paz, apenas momentos sem guerra. Esta é a lição de Gladiador I e II.
Acredito que a coisa mais importante para pensar O Auto da Compadecida 2 é entender a importância da figura de Chicó.
Chicó é o narrador, poeta, contador de histórias e mentiroso que move o filme através da memória do primeiro com as novas ações do segundo.
Chicó é uma espécie de maestro que compõe o jogo complexo, mas riquíssimo, que advém da literatura de cordel: a tarefa de reduplicação narrativa que torna este filme uma espécie de paródia recontada do primeiro.
Assim, o mais fascinante da história não é ver esses personagens fazendo outras coisas além do que eles já fizeram, nem tampouco inventando novos destinos para eles.
O jogo está em observar eles se tornarem parte das teias da narrativa cristalizada por Chicó, o narrador perfeito, e repetirem tudo outra vez e mais uma vez.
O filme, então, se torna aquilo que ele é em essência: um auto. O que acontece é a celebração do auto enquanto gênero que se alimenta de outras histórias.
Neste caso, Chicó passa a comandar um “auto dentro do auto”, em que o filme nada mais é que o Auto da Compadecida 1 contando por Chicó no Auto da Compadecida 2.
Um filme que segue a tradição de adaptar peças teatrais relativas a questões raciais. Depois de Fences e A Voz Suprema do Blues, Piano de Família se volta pra uma disputa familiar em relação a um piano aque retrata a história dessa família.
Ancestralidade tem, mas não necessariamente como celebração, mas de forma complexa entre a identidade e a maldição familiar.
A obra tem uma barriga ali pelo meio, até porque filmes baseados em peças possuem uma claustrofobia dos uso de poucos espaços que, se passar do ponto, cansam um cadinho.
É um jogo entre aprofundar a claustrofobia sem cansar quem assiste. No caso, a coisa quase se desfaz, mas retorna triunfal pro final.
Um filme afetivo pra quem foi fã da dupla e um documento de uma época pra quem não conhecia. Recorta classe revendo uma época em que não havia a consciência que temos hoje.
O filme não é ótimo, mas é um belo registro da história de uma grande dupla de artistas do Brasil.
O melhor do filme é a estrutura de documentário que impede a obra de virar um dramalhão. Com recursos cômicos e a eventual quebra da quarta parede, Eu,Tonya fica muito mais forte e pesado.
Parece que o Villeneuve quer tratar de questões demais (colonialismo, uso de recursos naturais, fé cega e uso da guerra como manipulação política) e não dá conta de fazer isso num filme que precisa ser também para o grande público.
Além disso, é IMPOSSÍVEL me convencer que o Timothée Chalamet, com aquela carinha de estadunidense universitário, vai se tornar o messias de um povo de areia com traços árabes.
Sem contar que também é difícil imaginar que a Zendaya quase larga seu povo para ficar ao lado dele que tem um traço de herói fraco como Frodo ou Harry Potter. Mas, nesse caso, não é pra ser.
Não sei se é porque não gosto muito, mas tenho dificuldade imensa de entender a divisão de povos e línguas e famílias e isso me distrai virando só um filme de batalhas e tiros a distância em naves pouco verossímeis.
Ps: por que raios os filmes estão tão pouco coloridos e tão escuros? (Eu sei o porquê, mas por que desse por quê?)
Assisti hoje Wicked e queria trazer aqui uma reflexão que fica escancarada no filme: a releitura de vilões pelo cinema.
Durante muito tempo, ser vilão de cinema, em especial infantil, significava, na maioria das vezes, ser uma velha, uma gorda, um corcunda, um cara sem mão que usa um gancho ou simplesmente uma mulher que era "madrasta". E isso era normal, mãe guarde isso.
Walter Benjamin, filósofo alemão do começo do século XX, dizia que a história sempre foi contada pela perspectiva dos vencedores. Veja bem, se narrar a história é adotar um ponto de vista, uma vez que não existe história neutra, os heróis, os mocinhos, são apenas pessoas que, ao vencerem, tiveram o poder de narrar suas vidas.
Ao contar uma história, ocultamos dezenas de outras. A história da Cinderela, por exemplo, não conta sobre os sofrimentos da solidão da "irmãs" dela.
Contra isso, Walter Benjamin dizia que precisamos "contar a história a contrapelo", ou seja, inverter a lógica e contar a história da perspectiva dos perdedores. E é isso que o cinema tem feito e fica evidente em Wicked.
No filme, Elphaba é alguém que detém um poder que ninguém tem e visa subverter a ordem estabelecida por Oz de que o controle social se dá através da busca de um inimigo que, no caso, eram os animais.
Como uma pessoa que nasceu diferente, ela entende o que é sofrer por isso e sai em defesa das demais minorias que ficam ocultadas pelo mundo solar de Galinda e pela ordem social do governo de Oz.
A lição que fica é interessante: ao contar a história ao contrário, somos obrigados a ponderar razões para além do bem do mal, como diria Nietzsche, e fica muito difícil dizer que a história tem um caminho claro.
Não tem. E Wicked conta isso muito bem. A história é sempre um lugar em disputa.
Nessa versão, os camponeses estão sendo oprimidos pelos reis e generais. Um dia, um sábio ancião preso numa cela onde está proibido se comer constrói um boneco feito de arroz.
Após sua morte, sua filha deixa cair uma gota de sangue no boneco e ele ganha vida. Comendo metais da região, ele começa a ganhar tamanho e se transforma num monstro imenso.
A partir daí, Pulgasari se torna uma espécie de vingador dos oprimidos camponeses na luta por libertação do povo contra a opressão dos poderosos.
O filme tem muitas histórias dentro dele numa espécie de fluxo contínuo. A estrutura é assim: você tá vendo uma história e, de repente, uma coisa ou personagem aparece pra, na cena seguinte, por contaminação, ele virar o protagonista. E essa estrutura vai se repetindo...
Uma baita crítica ao nossos costumes modernos e contemporâneos. Destaco aqui a cena mais forte: uma inversão entre na lógica de como usamos os espaços. O banheiro é coletivo para conversas e o jantar é íntimo e pessoal. Assista abaixo!
Ou seja: nunca normalize nenhuma prática, estranhe tudo e mantenha vivo o "fantasma da liberdade" que assombra o mundo capitalista e conservador.
Basicamente, duas jovens assumem uma filosofia: "se o mundo está depravado, vamos ser depravadas também". E aí elas saem por aí comendo e bebendo coisas, tendo relacionamentos, dançando na "hora errada".
Diante de um mundo que explode coisas em guerras (o que aparece logo na cena inicial), os erros "morais" das duas são os reprováveis...e não esses outros.
A frase que marca é: "este filme é dedicado para aqueles que se indignam com algumas saladas pisoteadas".
Um detalhe: as duas atrizes, Jitka Cerhová e Ivana Karbanová, são lindas de se olhar. Beleza, carisma, alegria e potência.
Aguardei bastante por esse filme pela sinopse que me chamou atenção. Um grande ator mirim com uma grande história que mostra de um lado a pobreza acachapante do capitalismo do pós-guerra. Diante de mundo devastado, pelo menos um espaço possível de criação de novas gerações pela emancipação pelo afeto e pela educação.
Assisti finalmente Megalópolis (2024) e confesso que não consigo entender as pessoas que não gostaram, principalmente especialistas em cinema.
O filme é uma verdadeira celebração da arte sem limites, sem bordas nenhuma. A narrativa é épica e cheia de dilemas éticos e morais (que muitos chamaram de "shakesperianos), com humor rasgado, cafona, infantil, mas livre. A palavra é essa: a impressão é de que com Megalópolis o cinema voltou a ser livre.
Esteticamente, Coppola deu uma verdadeira aula de cinema mostrando que tecnologia digital NÃO SIGNIFICA fazer filmes chapados, sem cores, e fundos foscos. A tecnologia, assim, não é para reduzir custos e oferecer um resultado preguiçoso.
Ao contrário, é possível inventar através de uma exposição absurda de luzes que se atravessam em seus cenários monumentais que lembram um pouco o cinema mudo.
Por fim, penso na filosofia do Paul Virilio que diz que a modernidade é composta pela aceleração do tempo, enquanto o mundo contemporâneo é o da "perspectivas do tempo real". Nele, o tempo acelera TANTO que simplesmente pára: ubiquidade e tudo em todo lugar ao mesmo tempo.
Megalópolis é materialização disso: Coppola incorpora a megalomania colonialista estadunidense e transforma em uma utopia de acolhimento para todos. O sonho americano não é mais individual. Ser grande é ser para todo mundo, remetendo ao famoso trem que recebe qualquer um no "América", de Kafka.
Um filme GENIAL que entra com certeza pro meu top da vida!
5 coisas que achei de "Coringa: Delírio a Dois (2024)!
1- O filme é um sucesso e um fracasso: ele fracassa quando tenta afastar a ideia de um Coringa "fascista", mas ele sucede em irritar os fãs que queriam um Coringa "fascista".
2- O filme entende que a reação do público é parte do filme. Então, o Coringa não atiça só o povo de Gotham, mas também a gente: nossa reação também é parte do filme. E ver o povo odiando é sintomático do que estamos vivemos.
3- A gente quer que o Coringa seja um filme SOBRE um doido, não um filme DE um doido. A obra mistura as duas coisas: a estrutura acompanha a mente e a loucura de Arthur e isso incomoda quem quer uma narrativa linear sobre a mente de um sujeito perturbado.
4- As canções realmente atrapalham. Apesar de darem sentido ao todo, não são boas o suficiente pra gente querer ouvir e ainda interrompem a narrativa. É bonito, mas chato.
5- A tese parece ser: Coringa não é uma pessoa, mas uma IDEIA que se sobrepõe à pessoa de Arthur Fleck. Então, quando ele não quiser mais ser quem é, ele será dispensado e trocado por outro...e outro...O Coringa é qualquer um.
Acabei de assistir "A Substância" (2024), de Coralie Fargeat, estrelado por Demie Moore e Margaret Qualley!
O filme é absolutamente fascinante. É uma espécie de Dorian Gray contemporâneo com recorte de gênero, misturado com pitadas de Kubrick e Frankenstein.
Acredito que entramos numa "segunda onda" nas obras com temática sobre mulheres e críticas feministas. Isso porque o ponto de partida de A Substância é absolutamente a perspectiva de mulheres. Veja:
A pressão estética, o mercado do envelhecimento, da saúde e do bem estar, culto a imagem, a perda do valor de uma mulher que envelhece e a troca sempre por uma mais jovem.
Porém , o melhor é que no filme, todos esses debates ganham um caráter também universal que conversam com a história da arte, literatura e do cinema.
A religião é parte importante da vida de Chiara e Alfredo. Ela reza junto a um oratório cuja presença é determinada por um rodízio entre os vizinhos. Quando Chiara fala de Budismo e da possibilidade de reencarnação num animal, Alfredo fica louco de raiva e a acusa de não respeitar o primeiro mandamento. A filha Bea acredita que a religião está cegando o bom juízo dos pais – mas ela pode ser, sem desejo de imbuir duplo sentido, a salvação.
Coringa segue parecendo uma personalidade à parte, uma sombra, muito coerente e inteligente, psicopata e sanguinário, mas eu torço por ele (?). Ah, claro Arlequina, quase ia me esquecendo, ou Lee, Gaga dá a vida a uma Arlequina oposta a que conhecemos. De primeira bem psicótica e obsessiva, mas acaba se revelando manipuladora e “má influência” para Arthur. Não sei lidar com esse fato. Os muitos números musicais que preenchem a obra são fruto do campo da alucinação.
A Tristeza, em exibição na sessão Midnight Madness do Festival do Rio, não tem tais aspirações e, apesar de apresentar um comentário direto sobre diversas questões encaradas pela humanidade durante a pandemia de COVID-19, seu interesse é muito mais direto: mostrar cenas de violência absurda. Na jornada do par de protagonistas, o casal Jim (Berant Zhu) e Kat (Regina Lei) se deparam com um sem-fim de atrocidades cometidas pelos infectados, de óleo quente na cara a braços quebrados, e até o uso, digamos, inventivo, de uma cavidade ocular.
O Brutalista
3.6 307 Assista AgoraO filme aspira à grande do brutalismo, ao mesmo tempo em que tenta nos sensibilizar com a trama de um imigrante sobrevivente da segunda guerra.
A lição parece ser duas: somos duros e resistimos num lugar em que não nos querem lá. A solução, me parece, é a tese sionista, que judeus precisam de uma terra, Israel. Isso, inclusive, é dito literalmente numa frase que não digo por spoiler.
Mas o problema nem é esse: o filme é tão frio quanto o concreto do brutalismo. Ele tenta esquentar, mas vira uma sucessão de imagens bonitas, mas que causam pouco.
Na lista do Oscar, parece ficar pra trás.
Nosferatu
3.6 937 Assista AgoraAcabei de assistir Nosferatu e o sentimento é ambíguo de ter visto um filme que gostei demais e ainda assim saber que ele me lembra muito outros.
Talvez essa seja a grande qualidade desse Nosferatu : ele se insere na tradição de filmes que se baseiam na obra de Bram Stoker, se mantém bastante fiel ao miolo da história e, ainda assim, mesmo nos dando uma sensação de Dejavu, consegue nos encantar em suas características próprias.
Confesso que esse horror me gera quase uma vertigem e fico ali, preso na história, não com medo, mas fascinado pelo mistério do mundo. Gosto do lado mais gore e gosto da narrativa ter mais velocidade.
Um ótimo filme!
A Verdadeira Dor
3.5 234 Assista AgoraEm tempos de genocídio palestino, fiquei com a impressão que o filme foi certeiro ao tratar o Holocausto. Nos personagens dos primos, temos duas expressões muito marcantes da identidade judaica.
De um lado, uma em que os efeitos do trauma geracional se expressam no corpo da personagem a todo instante - até de forma a atrapalhar os demais - chamando o tempo todo o mundo para a consciência de tudo que eles viveram. Não lembrar o tempo todo é, assim, esquecer pra sempre.
Do outro, um personagem que mostra uma certa frieza em relação ao passado, numa tentativa de reconhecer os sofrimentos, mas tentar dar um passo a frente e viver, quase na máxima de "eles sofreram, nós não precisamos sofrer".
A Real Pain, ou seja, a verdadeira dor, me parece ser justamente viver essa tensão como marca identitária inescapável.
Como ser, ao mesmo tempo, UM e OUTRO, oscilar entre essas duas personalidades, lembrar e esquecer ao mesmo tempo, sofrer e superar. Essa é a verdadeira dor.
É Assim Que Acaba
3.2 394 Assista AgoraAssisti durante uma viagem de avião porque acho que é a única forma de eu assistir esse filme, mas me surpreendi positivamente. É um grande dramalhão novelesco no nível Sidney Sheldon, talvez com menos reviravoltas, mas é doce, gentil, bonito e retrata com delicadeza e cuidado a questão do amor se transformando em violência doméstica.
Os atores estão bem e a trama é conduzida com a calma que o tema necessita para não cair em chavões e clichês. Não li o livro porque não é um gênero que me interessa, mas a adaptação fez um bom filme!
Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos
3.9 4Um dos melhores docs biográficos que já vi. É especial a forma como ele nos conta vida e obra de Caymmi: a partir das minúcias ditas por ele, em uma especial em uma entrevista em 1998, quando ele já tinha mais de 80 anos.
A partir dali saem temas como a relação com o mar, as composições, a boemia, o amor às mulheres do Rio de Janeiro, as canções, os encontros e as histórias.
E desses detalhes, as grandes questões do compositor vão aparecendo entrecortada por depoimento dos filhos Nana, Dori e Danilo, e nomes como Caetano e Gil.
Robô Selvagem
4.3 561Acho interessante sempre que uma obra une o ancestral com o artificial. Afinal de contas, eu nunca acho que essas coisas estão tão distantes assim, pois estamos sempre fundando uma segunda natureza.
Nesse caso, temos uma historinha lindinha, fofa, que dificilmente deixa de fazer você se emocionar.
Assista e indique para uma criança assistir!
Gladiador II
3.3 572 Assista AgoraGladiador (2024) é um excelente filme é épico, mas em mundo que não é mais épico
Pouco se pode dizer do que o filme é. Basicamente, ele é um épico clássico, com trilha sonora potente e cenas de batalha emocionantes. O roteiro também é perfeito para fazer com que tenhamos a plena sensação de que estamos tanto nos calabouços de Roma quanto no Coliseu iluminado pelo prazer da violência.
O único problema é que o mundo já não é mais como era nos anos 2000 quando o primeiro filme foi lançado. Agora, nosso pensamento, sustentado tanto pelo avanço das críticas sociais quanto pela evolução tecnológica, não aceita mais uma história única, linear com uma premissa que vai deixando sofrimento e mortes para trás.
Basta ver os comentários aqui que você consegue perceber um gostinho de amargo que muitas vezes não se sabe explicar. É o tempo. O tempo é implacável para quem conta histórias. Hoje, a história dos vencedores continua vencendo, mas não cosegue mais silenciar e ignorar a história dos vencidos.
Não existe paz, apenas momentos sem guerra. Esta é a lição de Gladiador I e II.
O Auto da Compadecida 2
3.0 444 Assista AgoraAcredito que a coisa mais importante para pensar O Auto da Compadecida 2 é entender a importância da figura de Chicó.
Chicó é o narrador, poeta, contador de histórias e mentiroso que move o filme através da memória do primeiro com as novas ações do segundo.
Chicó é uma espécie de maestro que compõe o jogo complexo, mas riquíssimo, que advém da literatura de cordel: a tarefa de reduplicação narrativa que torna este filme uma espécie de paródia recontada do primeiro.
Assim, o mais fascinante da história não é ver esses personagens fazendo outras coisas além do que eles já fizeram, nem tampouco inventando novos destinos para eles.
O jogo está em observar eles se tornarem parte das teias da narrativa cristalizada por Chicó, o narrador perfeito, e repetirem tudo outra vez e mais uma vez.
O filme, então, se torna aquilo que ele é em essência: um auto. O que acontece é a celebração do auto enquanto gênero que se alimenta de outras histórias.
Neste caso, Chicó passa a comandar um “auto dentro do auto”, em que o filme nada mais é que o Auto da Compadecida 1 contando por Chicó no Auto da Compadecida 2.
Leia mais:
https://tinyurl.com/mrv2f9nu
Piano de Família
3.0 32Um filme que segue a tradição de adaptar peças teatrais relativas a questões raciais. Depois de Fences e A Voz Suprema do Blues, Piano de Família se volta pra uma disputa familiar em relação a um piano aque retrata a história dessa família.
Ancestralidade tem, mas não necessariamente como celebração, mas de forma complexa entre a identidade e a maldição familiar.
A obra tem uma barriga ali pelo meio, até porque filmes baseados em peças possuem uma claustrofobia dos uso de poucos espaços que, se passar do ponto, cansam um cadinho.
É um jogo entre aprofundar a claustrofobia sem cansar quem assiste. No caso, a coisa quase se desfaz, mas retorna triunfal pro final.
Bom filme!
Nosso Sonho
3.8 223Um filme afetivo pra quem foi fã da dupla e um documento de uma época pra quem não conhecia. Recorta classe revendo uma época em que não havia a consciência que temos hoje.
O filme não é ótimo, mas é um belo registro da história de uma grande dupla de artistas do Brasil.
Eu, Tonya
4.1 1,4K Assista AgoraO melhor do filme é a estrutura de documentário que impede a obra de virar um dramalhão. Com recursos cômicos e a eventual quebra da quarta parede, Eu,Tonya fica muito mais forte e pesado.
Bom filme.
Duna: Parte Dois
4.2 858 Assista AgoraParece que o Villeneuve quer tratar de questões demais (colonialismo, uso de recursos naturais, fé cega e uso da guerra como manipulação política) e não dá conta de fazer isso num filme que precisa ser também para o grande público.
Além disso, é IMPOSSÍVEL me convencer que o Timothée Chalamet, com aquela carinha de estadunidense universitário, vai se tornar o messias de um povo de areia com traços árabes.
Sem contar que também é difícil imaginar que a Zendaya quase larga seu povo para ficar ao lado dele que tem um traço de herói fraco como Frodo ou Harry Potter. Mas, nesse caso, não é pra ser.
Não sei se é porque não gosto muito, mas tenho dificuldade imensa de entender a divisão de povos e línguas e famílias e isso me distrai virando só um filme de batalhas e tiros a distância em naves pouco verossímeis.
Ps: por que raios os filmes estão tão pouco coloridos e tão escuros? (Eu sei o porquê, mas por que desse por quê?)
Wicked
3.9 524 Assista AgoraO que Wicked tem a ver com Walter Benjamin? 😱
Assisti hoje Wicked e queria trazer aqui uma reflexão que fica escancarada no filme: a releitura de vilões pelo cinema.
Durante muito tempo, ser vilão de cinema, em especial infantil, significava, na maioria das vezes, ser uma velha, uma gorda, um corcunda, um cara sem mão que usa um gancho ou simplesmente uma mulher que era "madrasta". E isso era normal, mãe guarde isso.
Walter Benjamin, filósofo alemão do começo do século XX, dizia que a história sempre foi contada pela perspectiva dos vencedores. Veja bem, se narrar a história é adotar um ponto de vista, uma vez que não existe história neutra, os heróis, os mocinhos, são apenas pessoas que, ao vencerem, tiveram o poder de narrar suas vidas.
Ao contar uma história, ocultamos dezenas de outras. A história da Cinderela, por exemplo, não conta sobre os sofrimentos da solidão da "irmãs" dela.
Contra isso, Walter Benjamin dizia que precisamos "contar a história a contrapelo", ou seja, inverter a lógica e contar a história da perspectiva dos perdedores. E é isso que o cinema tem feito e fica evidente em Wicked.
No filme, Elphaba é alguém que detém um poder que ninguém tem e visa subverter a ordem estabelecida por Oz de que o controle social se dá através da busca de um inimigo que, no caso, eram os animais.
Como uma pessoa que nasceu diferente, ela entende o que é sofrer por isso e sai em defesa das demais minorias que ficam ocultadas pelo mundo solar de Galinda e pela ordem social do governo de Oz.
A lição que fica é interessante: ao contar a história ao contrário, somos obrigados a ponderar razões para além do bem do mal, como diria Nietzsche, e fica muito difícil dizer que a história tem um caminho claro.
Não tem. E Wicked conta isso muito bem. A história é sempre um lugar em disputa.
Pulgasari
2.9 26 Assista AgoraNessa versão, os camponeses estão sendo oprimidos pelos reis e generais. Um dia, um sábio ancião preso numa cela onde está proibido se comer constrói um boneco feito de arroz.
Após sua morte, sua filha deixa cair uma gota de sangue no boneco e ele ganha vida. Comendo metais da região, ele começa a ganhar tamanho e se transforma num monstro imenso.
A partir daí, Pulgasari se torna uma espécie de vingador dos oprimidos camponeses na luta por libertação do povo contra a opressão dos poderosos.
Viva o camarada comunista Pulgasari!
O Fantasma da Liberdade
4.1 112O filme tem muitas histórias dentro dele numa espécie de fluxo contínuo. A estrutura é assim: você tá vendo uma história e, de repente, uma coisa ou personagem aparece pra, na cena seguinte, por contaminação, ele virar o protagonista. E essa estrutura vai se repetindo...
Uma baita crítica ao nossos costumes modernos e contemporâneos. Destaco aqui a cena mais forte: uma inversão entre na lógica de como usamos os espaços. O banheiro é coletivo para conversas e o jantar é íntimo e pessoal. Assista abaixo!
Ou seja: nunca normalize nenhuma prática, estranhe tudo e mantenha vivo o "fantasma da liberdade" que assombra o mundo capitalista e conservador.
As Pequenas Margaridas
4.2 278Basicamente, duas jovens assumem uma filosofia: "se o mundo está depravado, vamos ser depravadas também". E aí elas saem por aí comendo e bebendo coisas, tendo relacionamentos, dançando na "hora errada".
Diante de um mundo que explode coisas em guerras (o que aparece logo na cena inicial), os erros "morais" das duas são os reprováveis...e não esses outros.
A frase que marca é: "este filme é dedicado para aqueles que se indignam com algumas saladas pisoteadas".
Um detalhe: as duas atrizes, Jitka Cerhová e Ivana Karbanová, são lindas de se olhar. Beleza, carisma, alegria e potência.
O Trem Italiano da Felicidade
3.8 39 Assista AgoraAguardei bastante por esse filme pela sinopse que me chamou atenção. Um grande ator mirim com uma grande história que mostra de um lado a pobreza acachapante do capitalismo do pós-guerra. Diante de mundo devastado, pelo menos um espaço possível de criação de novas gerações pela emancipação pelo afeto e pela educação.
Megalópolis
2.5 163 Assista AgoraAssisti finalmente Megalópolis (2024) e confesso que não consigo entender as pessoas que não gostaram, principalmente especialistas em cinema.
O filme é uma verdadeira celebração da arte sem limites, sem bordas nenhuma. A narrativa é épica e cheia de dilemas éticos e morais (que muitos chamaram de "shakesperianos), com humor rasgado, cafona, infantil, mas livre. A palavra é essa: a impressão é de que com Megalópolis o cinema voltou a ser livre.
Esteticamente, Coppola deu uma verdadeira aula de cinema mostrando que tecnologia digital NÃO SIGNIFICA fazer filmes chapados, sem cores, e fundos foscos. A tecnologia, assim, não é para reduzir custos e oferecer um resultado preguiçoso.
Ao contrário, é possível inventar através de uma exposição absurda de luzes que se atravessam em seus cenários monumentais que lembram um pouco o cinema mudo.
Por fim, penso na filosofia do Paul Virilio que diz que a modernidade é composta pela aceleração do tempo, enquanto o mundo contemporâneo é o da "perspectivas do tempo real". Nele, o tempo acelera TANTO que simplesmente pára: ubiquidade e tudo em todo lugar ao mesmo tempo.
Megalópolis é materialização disso: Coppola incorpora a megalomania colonialista estadunidense e transforma em uma utopia de acolhimento para todos. O sonho americano não é mais individual. Ser grande é ser para todo mundo, remetendo ao famoso trem que recebe qualquer um no "América", de Kafka.
Um filme GENIAL que entra com certeza pro meu top da vida!
Coringa: Delírio a Dois
2.5 924 Assista Agora5 coisas que achei de "Coringa: Delírio a Dois (2024)!
1- O filme é um sucesso e um fracasso: ele fracassa quando tenta afastar a ideia de um Coringa "fascista", mas ele sucede em irritar os fãs que queriam um Coringa "fascista".
2- O filme entende que a reação do público é parte do filme. Então, o Coringa não atiça só o povo de Gotham, mas também a gente: nossa reação também é parte do filme. E ver o povo odiando é sintomático do que estamos vivemos.
3- A gente quer que o Coringa seja um filme SOBRE um doido, não um filme DE um doido. A obra mistura as duas coisas: a estrutura acompanha a mente e a loucura de Arthur e isso incomoda quem quer uma narrativa linear sobre a mente de um sujeito perturbado.
4- As canções realmente atrapalham. Apesar de darem sentido ao todo, não são boas o suficiente pra gente querer ouvir e ainda interrompem a narrativa. É bonito, mas chato.
5- A tese parece ser: Coringa não é uma pessoa, mas uma IDEIA que se sobrepõe à pessoa de Arthur Fleck. Então, quando ele não quiser mais ser quem é, ele será dispensado e trocado por outro...e outro...O Coringa é qualquer um.
Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
3.4 588 Assista AgoraÉ bem divertido de ver, mas a gente esquece que viu assim que ele acaba
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraAcabei de assistir "A Substância" (2024), de Coralie Fargeat, estrelado por Demie Moore e Margaret Qualley!
O filme é absolutamente fascinante. É uma espécie de Dorian Gray contemporâneo com recorte de gênero, misturado com pitadas de Kubrick e Frankenstein.
Acredito que entramos numa "segunda onda" nas obras com temática sobre mulheres e críticas feministas. Isso porque o ponto de partida de A Substância é absolutamente a perspectiva de mulheres. Veja:
A pressão estética, o mercado do envelhecimento, da saúde e do bem estar, culto a imagem, a perda do valor de uma mulher que envelhece e a troca sempre por uma mais jovem.
Porém , o melhor é que no filme, todos esses debates ganham um caráter também universal que conversam com a história da arte, literatura e do cinema.
Uma preciosidade escatológica que vale assistir!
Até que a Música Pare
2.8 5 Assista AgoraA religião é parte importante da vida de Chiara e Alfredo. Ela reza junto a um oratório cuja presença é determinada por um rodízio entre os vizinhos. Quando Chiara fala de Budismo e da possibilidade de reencarnação num animal, Alfredo fica louco de raiva e a acusa de não respeitar o primeiro mandamento. A filha Bea acredita que a religião está cegando o bom juízo dos pais – mas ela pode ser, sem desejo de imbuir duplo sentido, a salvação.
https://jornalnota.com.br/2024/10/03/ate-que-a-musica-pare-lida-com-o-luto-com-respeito-a-diversidade-religiosa/
Coringa: Delírio a Dois
2.5 924 Assista AgoraCoringa segue parecendo uma personalidade à parte, uma sombra, muito coerente e inteligente, psicopata e sanguinário, mas eu torço por ele (?). Ah, claro Arlequina, quase ia me esquecendo, ou Lee, Gaga dá a vida a uma Arlequina oposta a que conhecemos. De primeira bem psicótica e obsessiva, mas acaba se revelando manipuladora e “má influência” para Arthur. Não sei lidar com esse fato. Os muitos números musicais que preenchem a obra são fruto do campo da alucinação.
https://jornalnota.com.br/2024/10/03/coringa-delirio-a-dois-2024-um-la-la-land-psicotico-com-critica-a-sociedade-do-espetaculo/
A Tristeza
3.4 263 Assista AgoraA Tristeza, em exibição na sessão Midnight Madness do Festival do Rio, não tem tais aspirações e, apesar de apresentar um comentário direto sobre diversas questões encaradas pela humanidade durante a pandemia de COVID-19, seu interesse é muito mais direto: mostrar cenas de violência absurda. Na jornada do par de protagonistas, o casal Jim (Berant Zhu) e Kat (Regina Lei) se deparam com um sem-fim de atrocidades cometidas pelos infectados, de óleo quente na cara a braços quebrados, e até o uso, digamos, inventivo, de uma cavidade ocular.
https://jornalnota.com.br/2024/10/04/a-tristeza-2021-tenta-refletir-pandemia-de-modo-violento/