Tendo assistido Sexta-Feira 13 alguns dias depois de Halloween, meu primeiro pensamento foi "Quem é Michael Myers perto de uma mulher de meia idade em busca de vingança pela morte do filho?".
Há algo de Psicose às avessas aqui: enquanto Norman Bates "encarnava" a mãe morta ao lidar com suas vítimas, Pamela Voorhees faz o mesmo com o menino Jason.
Assim como em Halloween, a história acontece sob uma aura de moralismo. Sexo, Strip Monopoly, álcool, maconha. Os jovens em Crystal Lake agem fora da norma dos bons costumes e vão sendo eliminados um a um. Até mesmo Annie, a cozinheira que nem chegou ao acampamento, cometeu o pecado de fazer pouco caso do conselho de um adulto, o motorista de caminhão – diga-se de passagem descrito como um "American original" – que disse a ela para se demitir.
Fiquei impressionado de ver como as mortes são gráficas, até mesmo para os padrões de hoje: machadada na testa, flecha no pescoço por baixo da cama, o rapaz pregado à porta da cabana e, claro, a cabeça decepada no final.
Que noite de Halloween é essa sem casas decoradas e crianças na rua pedindo doce? Não fosse por umas três abóboras aqui e ali, o título original poderia ser "A Noite do Terror" mesmo, porque nem perceberíamos que era Halloween.
Dito isso, a trilha é realmente incrível, ponto alto do filme. E as aparições de Michael Myers, sondando a protagonista, são bem arrepiantes.
Recentemente ouvi falar sobre a questão moralista dos slashers, e Halloween é um bom exemplo:
a garota "certinha", estudiosa e que não transa com ninguém durante o filme, é a que sobrevive no final, enquanto os outros jovens são "punidos" pelo assassino.
A velha ladainha de que a humanidade está destruindo o planeta, porque é egoísta, bélica, insensível.
O que destrói o planeta é o modo de produção capitalista e a busca desenfreada por lucro. Tire o poder das mãos do 1% mais rico e o planeta pode ser salvo.
Mas, como disse Mark Fisher, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Reassistindo depois de muitos anos, vejo como isso aqui é uma mistura de Caçadores de Emoção com Velocidade Máxima (diga-se de passagem, os dois estrelados pelo Keanu Reeves).
Esse é o tipo de filme que, durante a sessão, me causa uma impressão meio neutra: nem acho muito bom, nem muito ruim. Vou só acompanhando pra ver no que vai dar. Ao desligar a TV, minha nota seria um 3/5. Mas, conforme vou digerindo a coisa, a nota vai caindo. Quanto mais penso em 10 Cloverfield Lane, pior ele fica!
a tensãozinha mequetrefe da primeira tentativa de fuga – ter que abrir trocentos cadeados enquanto o bicho-papão avança em câmera lenta; o "help" escrito no vidro; a personagem tendo a maior dificuldade pra escapar de um cara e, logo em seguida, destruindo uma nave alienígena orgânica (?) como se não fosse nada, usando um coquetel molotov que surge providencialmente ali. Enfim, poucas qualidades desse filme resistem a um dia depois de ter assistido.
Vale dizer que só fui conhecer Cloverfield: Monstro agora em 2025 e achei maravilhoso! Tremenda maluquice essa sequência estar com a nota mais alta do que o primeiro.
Reassisti Em Busca do Ouro depois de alguns anos e continua um ótimo filme! Meu DVD vem com duas versões: a original, muda, com a trilha sonora de 1925; e um relançamento posterior, com adição de uma narração em off na voz do própria Chaplin, além de efeitos sonoros e trilha diferente – vale dizer que a narração não só vai contando a história, como também reproduz os diálogos dos personagens. Dei play na versão relançada, mas logo desisti. Fica muito estranho ver uma obra concebida sem som com o acréscimo da narração. O diretor precisa falar rápido demais para acompanhar o ritmo, fazendo com que a leitura das legendas atrapalhe a apreciação das imagens. Sem contar que os recursos narrativos próprios do cinema mudo – como a atuação exagerada, concebida para driblar a ausência do som – deixam de fazer sentido, gerando redundância.
Nos extras do DVD há também um mini documentário que, entre outras, traz a informação de que o primeiro ato foi inspirado em um acontecimento real: uma expedição ficou presa no meio do nada, por conta de uma nevasca e, sem ter o que comer, o grupo foi obrigado a recorrer a seus cachorros, posteriormente a suas vestimentas de couro e, por fim, aos cadáveres dos companheiros mortos. Chaplin pegou essa notícia e a transformou, com leveza e humor, nas engraçadas sequências dos dois mineradores na cabana – incluindo a maravilhosa transmutação do protagonista em frango.
O enredo amoroso é bem familiar: temos um casal super popular, com algumas atitudes um tanto babacas, que vive entre briguinhas e reconciliações. A garota, a fim de provocar ciúmes no outro, flerta com o pretendente mais improvável do lugar, o mais "loser". Ela, então, finge que gosta do bobalhão, brinca com os sentimentos dele, faz chacota do pobre coitado para divertimento de sua turma e, no final, os dois acabam juntos. É uma trama típica de comédia romântica adolescente dos anos 1990/2000, tornando Em Busca do Ouro precursor de todos esses filmes, já na década de 1920.
A Dança dos Pãezinhos, embora não seja criação do diretor (Roscoe Fatty Arbuckle já a havia executado em The Rough House, de 1917), entra para o rol de cenas icônicas de Charles Chaplin.
Outro elemento não original, mas que rendeu bons momentos aqui, é a ideia da cabana que se desloca no espaço, levada pelo vento. Para quem conhece a história de O Mágico de Oz, isso não é novidade.
Agora, para não dizer que tudo são flores, algo que me incomodou nessa revisita a The Gold Rush (e que tinha passado despercebido da primeira vez) é o modo como é negado à personagem feminina principal qualquer poder de escolha.
Voltando à comparação com as comédias românticas adolescentes, uma diferença fundamental de roteiro é que, aqui, o protagonista nunca chega a descobrir que foi feito de trouxa por sua amada. Sendo assim, baseado no bilhete que recebe por engano – originalmente endereçado a Jack –, o Minerador Solitário passa a acreditar que Georgia corresponde a seu amor. Embora a moça se mostre arrependida de ter zombado dele e, no final, já no navio, se ofereça para pagar sua passagem, sem saber que ele enriqueceu, em momento algum a vemos demonstrar qualquer sentimento para além da compaixão. Nada no filme nos diz que ela se apaixonou por aquele homenzinho peculiar. A partir do reencontro dos dois, Georgia apenas se deixa levar, demonstrando, em seu rosto, nem compreender muito bem o que se passa. Seu destino está além de seu desejo, pois ela, ali, deixa de ser um indivíduo, com vontade própria, e se transforma em um prêmio para o protagonista – que, além da fortuna possibilitada pela descoberta do ouro, ganha também a mão da donzela.
São Paulo: a locomotiva que move o Brasil. Seu combustível: brutal exploração da classe operária, corrupção, acordos fraudulentos, apropriação de dinheiro público pela burguesia industrial emergente e alienação da classe média.
Obra-prima do cinema nacional! E que montagem sofisticada! Demorei um pouco para me situar na história, confundi personagens, achei que Hilda fosse Luciana, me perdi na cronologia. Senti um pouco da confusão caótica da metrópole, com seu ritmo frenético de desenvolvimento a todo custo. A forma conduzindo o sentido. Lindo de se ver!
Carlos é um personagem muito peculiar. Um cara amargo, ranzinza, péssima companhia para se ter por perto. Chatão de galochas completo! Reclama de todos ao seu redor, trata todo mundo mal. Um nojo de pessoa. Ainda assim, é a figura com mais sensibilidade diante da falta de sentido daquela vidinha medíocre pequeno-burguesa. Ainda que não consiga por em palavras o que sente, ele sabe que há em seu peito uma angústia profunda e permanente.
No final, assim como a criança de foge de casa por ter levado bronca, mas volta antes de anoitecer, o protagonista empreende uma fuga que não dura mais do que 24 horas. E sem grandes consequências. O casamento pode ser retomado, já que Luciana conhece o traste com quem se casou, mas preza pela fachada de família modelo. O carro roubado, se descoberto, pode ser tomado como um capricho de playboy, ao invés de, necessariamente, um crime (aposto que Arturo, acionando sua rede de influências, não teria grande dificuldade em conseguir livrá-lo da cadeia).
O adeus de Carlos é mera rebeldia passageira. Válvula de escape de seu espírito conformista. Passada a adrenalina, tudo volta a seu lugar.
Afinal, a Locomotiva São Paulo S/A não pode parar.
Pegue a frase “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, tire toda a sua poesia e deixe apenas a informação. O resultado é o título do filme em inglês: “Waiting for the Carnival”.
É triste ver uma sociedade inteira completamente seduzida pelo canto da sereia do empreendedorismo. Vendem a essas pessoas a ideia de trabalhar por conta, em alguns casos na própria casa, sem ter que obedecer a patrão, bater ponto ou cumprir horário fixo, podendo produzir o quanto quiser por dia. Ser um trabalhador autônomo. Livre para decidir como quer trabalhar.
Vendem isso e entregam altos níveis de precarização. A ausência de patrão vem acompanhada da ausência de qualquer direito trabalhista. Os que trabalham em casa tem que arcar com os custos de energia elétrica e manutenção dos equipamentos. Podem decidir seus horários e o quanto querem produzir por dia, mas, seguindo a lógica de “quanto mais se produz, mais se ganha”, dedicam 14/15/16 horas por dia para poder tirar seu sustento. Ainda assim, para muita gente, não é o suficiente para bancar alguns dias de lazer durante o carnaval. Lazer esse não só desejado, mas justificadamente necessário, para que não enlouqueçam em uma vida em que só se trabalha e nunca se aproveita.
E quem pode culpá-los por defenderem esse modelo? Em uma sociedade que traz ainda tão latente em seu imaginário a herança da escravidão, normalizamos a ideia de que aqueles que empregam detêm plenos poderes sobre os empregados. Quem nunca sofreu algum tipo de humilhação no trabalho? Quem nunca ouviu elogios sobre algum patrão por este não fazer mais do que sua obrigação: ser uma pessoa minimamente decente e respeitosa? Junte-se a isso a influência dos coaches de empreendedorismo e o resultado é um solo fértil para a agenda neoliberal fincar raízes.
Gostei de como o diretor se abstém de formular conclusões sobre o que os entrevistados falam, deixando a cargo dos espectadores perceber a violenta contradição daquele regime de trabalho tão desumano.
O documentário apenas perde um pouco de sua força ao optar por um enfoque exagerado em Léo – mesmo sendo uma figura bem interessante, não consegui enxergá-lo como protagonista da história recente de Toritama.
O episódio mais fraco dessa temporada. A história é até interessante e o final, especialmente, achei bem bonito. Mas todo o desenrolar é mequetrefe: a ideia da refilmagem mudando apenas uma pessoa no elenco; a atriz que vai aceitando participar de um negócio desconhecido sem nem questionar ou pedir apoio ao agente; o amadorismo forçado da equipe de "filmagem".
A história é interessante, e a cena do assassinato ficou muito boa, com a câmera tremendo, em sintonia com o estado de espírito do personagem principal. Mas, assim como em Bête Noire, a conclusão foi fraca.
Tenho crush na Cristin Milioti desde a série do Pinguim. Aqui, ela continua maravilhosa, e esse uniforme ficou muito estiloso. O final vira Divertida Mente, rs.
Em seu segundo longa-metragem, Chaplin decide não fazer parte do elenco – e deixa isso bem claro para o público por meio de uma inusitada mensagem logo no início do filme, acrescentando, ainda, que se trata de seu primeiro drama sério (me pergunto se, na época, algum desavisado chegou a pedir o dinheiro do ingresso de volta, alegando que tinha ido ao cinema não só para ver seu ator favorito na tela, como também para vê-lo fazendo comédia).
O enredo é simples: Marie e Jean, dois jovens apaixonados, decidem sair de casa e se mudar para a cidade grande a fim de se casarem e constituírem família longe da desaprovação de seus pais. Um acontecimento trágico impede o rapaz de se encontrar com a moça, e esta, desiludida, resolve ir embora sozinha. Um ano depois eles se reencontram, vivendo vidas completamente diferentes da que viviam (ela, sobretudo), e o antigo amor dá sinais de querer voltar a florescer.
De início, algo que enfraquece um pouco a história é a passagem do tempo entre o primeiro e o segundo ato. Afinal, doze meses parecem pouco para a transformação de Marie, de moça pobre com apenas a roupa do corpo para concubina do solteiro mais rico de Paris, ao mesmo tempo em que esse período não me parece longo o bastante para dar o peso necessário ao reencontro dela com Jean.
Casamento ou Luxo tem vários pontos interessantes, para além dos encontros e desencontros dos personagens principais.
Há uma inversão de papeis sociais entre Marie e Jean: nas cenas iniciais, vemos que a casa dela é bem mais modesta que a dele; já em Paris, enquanto a jovem vive em um apartamento luxuoso – inclusive com empregadas –, o rapaz mora em um espaço pequeno e humilde – onde não consegue encontrar um guardanapo sequer que não esteja furado. Não fica claro por que o pai de Jean desaprovava o casamento, mas a diferença de classe entre as duas famílias poderia ser o motivo. Posteriormente, quando Marie ressurge visivelmente em situação financeira confortável, o que entra em cena, por parte da mãe, é o moralismo: a velha rejeita o relacionamento do filho por não considerar sua amada digna dele.
Na agitação das festas dos habitantes endinheirados da capital francesa um pequeno detalhe chama a atenção: uma bela mulher é lentamente despida do longo tecido branco que envolve seu corpo, para divertimento de uma plateia que bebe, ri e aplaude. Entre as moças do grupo, vemos uma ajeitar um monóculo no rosto para admirar melhor a modelo, e seu rosto transparece inegável desejo pela outra. Um lampejo de representatividade lésbica no cinema da década de 1920? Me parece que sim.
Bem menos sutis são as expressões faciais da massagista que atende Marie em seu apartamento enquanto esta fofoca com suas “amigas”. Sendo obrigada a presenciar a falsidade com que as moças se tratam e ouvir sobre o mundinho de jantares e roupas bonitas em que elas vivem, sua única reação possível é a desaprovação no olhar. E o rosto da mulher, mostrado em sucessivos closes, confere ao drama sério de Chaplin um de seus melhores momentos (inclusive, um dos poucos momentos cômicos).
O namorado/mantenedor da protagonista, o ricaço Pierre, com sua personalidade meio cafajeste-simpático, é uma das figuras mais interessantes do filme. Ao descobrir que sua teúda e manteúda está, supostamente, tendo um caso com outro homem, ele não se mostra ciumento ou possessivo – o que, infelizmente, não seria estranho para os dias de hoje, quem dirá para aquela época. Mas não, ele apenas acha graça e ainda aconselha a moça a ter cuidado com quem se envolve.
Pierre ainda é usado para exemplificar duas visões possíveis sobre o matrimônio.
Por uma manchete de jornal ficamos sabendo que ele está noivo de uma jovem rica, e que o enlace representa a união das duas maiores fortunas do país. Tal fato, de maneira alguma, o impede de ter amantes. Casar-se, para ele, significa apenas consolidar uma relação de negócios. Em outra ocasião, quando Marie diz que quer romper com o namorado para se unir a Jean, aquele a chama até a janela e lhe dá uma amostra do que isso significa para quem não é abastado como ele – mostra-lhe uma família que passa na rua lá embaixo: o marido, carrancudo, andando apressado na frente; a espoca, com a infelicidade estampada no rosto, vem logo atrás, esforçando-se para manter as crianças junto se si. O filme, assim, parece querer apresentar o casamento como uma instituição falida. A burguesia se casa para perpetuar fortunas e manter aparências. A classe trabalhadora o faz para sobreviver. Em nenhum dos casos há felicidade, apenas conveniência.
Uma das cenas mais bem construídas da obra é a do suicídio de Jean, após ser rejeitado por Marie e humilhado por Pierre. O ímpeto inicial de tirar a vida do rival (ou, talvez, da moça, senão de ambos) transforma-se em desejo de morrer. E, na antessala de um restaurante, que delimita até onde ele pode chegar não sendo membro ou convidado da classe alta – sala esta que, ainda que seja apenas um cômodo preliminar, é grande o bastante para fazê-lo parecer tão pequeno e impotente –, o rapaz atira em si mesmo, tombando ao lado de uma bela e indiferente estátua.
Após a morte de Jean e, passado algum tempo, vemos o desfecho do filme com Marie reconciliada com a mãe de seu antigo amor, ambas dividindo uma casa no interior do país e cuidando de crianças órfãs – aparentemente adotadas por elas. É um final que, se por um lado é conservador ao nos dizer que a protagonista só encontra a verdadeira felicidade quando abandona sua vida de luxo e concubinato e abraça a maternidade, por outro é um tanto fora da curva, ao colocar a heroína criando seus filhos não com um homem, mas com outra mulher (aqui, é preciso dizer, sem qualquer aceno aparente à representatividade lésbica, como dito anteriormente sobre a garota com o binóculo).
Algumas curiosidades: * Chaplin situou sua história em Paris para não melindrar os brios puritanos dos espectadores estadunidenses com toda a representação de boemia e relações extraconjugais presentes na obra. Mesmo assim, Casamento ou Luxo não foi muito bem recebido, nem pela crítica nem pelo público. * Por uma escolha estratégica do diretor, todas as cenas foram filmadas na mesma ordem em que aparecem no filme. E ainda que isso tenha encarecido o projeto, vale lembrar que ele era um dos donos da empresa responsável pela produção.
Quem é Sergio Leone perto de Erico Rassi? Quem é Clint Eastwood perto de Rodger Rogério?
Brincadeiras ufanistas à parte, que filmaço é Oeste Outra Vez!
Em um mundo sem mulheres, os homens são todos patéticos. Tratam-se com cortesia, mas não conseguem falar sobre o que sentem. Empunham armas, mas erram o alvo. Apontam o taco, mas não acertam a bola. Só a cachaça é que vai certeira da garrafa para o copo e deste para a goela.
Na aridez da paisagem e dos corações, onde as mulheres são desejadas, mas nunca alcançadas, só o que resta a esses homens é a companhia deles mesmos, com sua cordialidade vazia e sua violência sem sentido.
Nem sempre é uma boa ideia revisitar nossos filmes favoritos da adolescência. A gente corre o risco de vê-los perder o encanto.
Evil Dead continua um filme interessante. É bem legal ver os lugares inusitados onde Sam Raimi posiciona sua câmera para criar as cenas. Os efeitos práticos, inclusive com stop-motion – coisa que eu não lembrava –, merecem todo o crédito.
O roteiro abraça de forma muito honesta um descompromisso total com o estabelecimento de regras sobre como os demônios operam: a namorada de Ash é possuída a partir do lápis enfiado no pé, enquanto ele mesmo é ferido várias vezes e de várias maneiras e nada acontece; a velocidade com que os personagens se transformam varia de acordo com a conveniência, assim como o uso que fazem de sua superforça.
Mas, no geral, o clássico cult de 1981 já não me empolga mais como antigamente.
(diga-se de passagem, no auge dos meus 15/16 anos eu sentia medo real de algumas cenas – em especial da versão endemoniada da Linda sentada no chão se balançado e falando com voz de criança)
Para além de eu ter achado bem menos divertido do que costumava achar, o desencanto se dá também pela percepção que tenho hoje em dia do sexismo latente no filme. A cena do estupro na floresta é bem difícil de defender. Hoje percebo o quanto ela é fetichizada e feita, ao que parece, com o único propósito de excitar o olhar masculino. Difícil sustentar o argumento de que foi um artifício usado na trama como forma de explorar uma das possíveis nuances do horror. Vale lembrar que Scott também sai sozinho lá fora e, assim como Cheryl, é atacado pelas árvores, voltando depois pra cabana todo machucado. Alguém vai dizer que ele também foi violentado? Claro que não!
Outro ponto que me incomodou nessa reassistida foi a quantidade de vezes em que Ash é mostrado batendo em Linda. E ainda que na história aquele ser já não seja mais sua namorada, o que vemos em tela é, de forma gráfica, um homem agredindo uma mulher, em uma encenação que não teve o cuidado de se fazer um pouco mais sutil a fim de amenizar o resultado final.
Essas críticas não me fazem abominar o filme; tenho consciência de que estou colocando um olhar de 2025 sobre uma obra com mais de quatro décadas de existência, produzida em outro momento histórico, com outra visão de mundo. Mas por não conseguir (e nem querer) relevar essas questões, The Evil Dead simplesmente perdeu pontos comigo.
Por último, outra velha lembrança que tenho da adolescência é de ver a apresentadora de um programa de TV de filmes de terror (provavelmente o Cine Sinistro da Band) anunciando a próxima atração pelo título brasileiro "A Morte do Demônio" e explicando que esse nome não fazia sentido, já que o demônio, no final, termina bem vivo. Era spoiler na cara do espectador... e ninguém ligava.
Não me lembro quando foi a última vez que assisti a um filme tão ruim quanto este lixão atômico chamado Emilia Pérez.
Tudo é da mais baixa qualidade. Os números musicais são terríveis, ninguém canta minimamente afinado e as letras das músicas parecem ter sido escritas por inteligência artificial. Tremendo mau gosto na cena da clínica em Bangkok. O espanhol falado pelo elenco é sofrível e isso deixa as atuações ainda mais porcas. O enredo é dos mais mequetrefes. Dei risada em vários momentos no cinema e vale lembrar que o filme não se propõe a ser cômico.
As 13 indicações dessa bomba ao Oscar são um ultraje! Não é possível! Um dia ainda vai ser revelado que esse foi o maior caso de corrupção da história da indústria cinematográfica.
Um choque de cultura para nós, brasileiros. É de se admirar, em muitos aspectos, o modo como a sociedade japonesa se mostra ordenadamente organizada para os nossos olhos ocidentais. Entretanto, sabendo que o país lida constantemente com altos índices de adoecimento mental e, no limite, suicídios, fica difícil não questionar se toda essa rigidez e pressão sobre os alunos são realmente necessárias.
Difícil defender uma relação escolar em que o professor faz uma criança de 7 ou 8 anos chorar.
Assisti pelo site do The New York Times: (está com legendas em inglês) https://www.nytimes.com/video/opinion/100000009295681/instruments-of-a-beating-heart.html?playlistId=video/op-docs
Lembro que citei esse filme em um trabalho da faculdade de Letras. Precisávamos escrever um texto sobre a legalização das drogas, argumentando contra ou a favor.
Meu ponto foi que o único problema que o consumo necessariamente provoca é a deterioração da saúde do usuário – e isso é entre ele e seu próprio corpo. Qualquer dano secundário que o usuário possa causar à sociedade é hipotético: ele pode se tornar violento, pode cometer crimes, pode negligenciar outras pessoas que dependem de si, mas também pode não fazer nada disso e viver sua vida sem atrapalhar ninguém.
Assim, a punição (proibição) antes de qualquer mal ser causado seria equiparável – guardadas, obviamente, as devidas proporções – às prisões que acontecem no filme por crimes ainda não praticados.
A avaliação do professor foi apenas sobre nosso desempenho argumentativo, sem entrar no mérito da validade de nossos argumentos. No final, tirei uma boa nota.
O Menino e a Garça se torna outro filme depois deste documentário.
Minha leitura inicial era que o autor se colocava na história por meio da figura do tio-trisavô: um idoso, responsável pelo vasto universo que criou, vivendo o dilema de não ter alguém para quem deixar o legado de sua criação (e no caldeirão dessa interpretação eu misturava a relação conturbada de Miyazaki com seu filho também cineasta).
Aí descubro que o gênio da animação japonesa se vê, na verdade, como Mahito, o protagonista adolescente, e que o tio-trisavô faz referência a seu falecido amigo/mentor/rival Isao Takahata, o Pak-san. E outras ligações biográficas vêm como bônus: o produtor Toshio Suzuki é retratado como a garça do título e a colorista Michiyo Yasuda, a quem o diretor chama de Yacchin, serve de inspiração para a personagem Kiriko – na história, inclusive, quando Mahito e a versão jovem de Kiriko se separam, o menino pergunta se eles ainda irão se encontrar de novo; sabendo que Yacchin faleceu durante a produção do longa, a cena adquire um tremendo peso emocional.
O luto, aliás, permeia todo o processo de confecção do filme. Amigos e companheiros de profissão vão morrendo um após o outro, tornando o trabalho de Miyazaki cada vez mais pesado e doloroso, levando-o a buscar refúgio da dureza do mundo real em seus infinitos mundos imaginários.
Vale destacar o esmero na montagem do documentário.
O tempo todo, a edição pega algum momento trivial do dia a dia ou alguma frase dita ao acaso pelos entrevistados e faz paralelos visuais com as produções do Studio Ghibli. Seja uma caminhada às margens de um curso d’água ou a afirmação de Suzuki de que o diretor se alimenta da energia das pessoas ao seu redor para poder criar, tudo se conecta com cenas dos filmes.
Indicado para qualquer um que goste não só de O Menino e a Garça, mas das obras em geral do grande Hayao Miyazaki.
Fiquemos na torcida para que o velhinho ainda tenha fôlego para, pelo menos, mais um filme. Uma mente tão brilhante não deveria ter que se sujeitar ao mesmo tempo de vida que nós, meros mortais.
Não é a melhor das comédias estreladas por Leslie Nielsen, mas tem alguns bons momentos engraçados, como na cena da dança. Fica bem mais divertido se você já tiver assistido o Drácula de 1931, estrelado por Bela Lugosi, pois "Morto mas Feliz" é uma paródia daquele – inclusive com cenas idênticas. (eu, no caso, fiz a ordem inversa)
Vale destacar o final, o jeito como Drácula é derrotado, que achei bem criativo – ao contrário do final do original que, diga-se de passagem, é bem ruinzinho.
Sexta-Feira 13
3.4 831 Assista AgoraTendo assistido Sexta-Feira 13 alguns dias depois de Halloween, meu primeiro pensamento foi "Quem é Michael Myers perto de uma mulher de meia idade em busca de vingança pela morte do filho?".
Há algo de Psicose às avessas aqui: enquanto Norman Bates "encarnava" a mãe morta ao lidar com suas vítimas, Pamela Voorhees faz o mesmo com o menino Jason.
Assim como em Halloween, a história acontece sob uma aura de moralismo. Sexo, Strip Monopoly, álcool, maconha. Os jovens em Crystal Lake agem fora da norma dos bons costumes e vão sendo eliminados um a um. Até mesmo Annie, a cozinheira que nem chegou ao acampamento, cometeu o pecado de fazer pouco caso do conselho de um adulto, o motorista de caminhão – diga-se de passagem descrito como um "American original" – que disse a ela para se demitir.
Fiquei impressionado de ver como as mortes são gráficas, até mesmo para os padrões de hoje: machadada na testa, flecha no pescoço por baixo da cama, o rapaz pregado à porta da cabana e, claro, a cabeça decepada no final.
Halloween: A Noite do Terror
3.7 1,2K Assista AgoraQue noite de Halloween é essa sem casas decoradas e crianças na rua pedindo doce? Não fosse por umas três abóboras aqui e ali, o título original poderia ser "A Noite do Terror" mesmo, porque nem perceberíamos que era Halloween.
Dito isso, a trilha é realmente incrível, ponto alto do filme. E as aparições de Michael Myers, sondando a protagonista, são bem arrepiantes.
Recentemente ouvi falar sobre a questão moralista dos slashers, e Halloween é um bom exemplo:
a garota "certinha", estudiosa e que não transa com ninguém durante o filme, é a que sobrevive no final, enquanto os outros jovens são "punidos" pelo assassino.
Dezesseis Facadas
3.2 460Pânico encontra De Volta Para o Futuro.
O Justiceiro: Uma Última Morte
3.5 117 Assista AgoraUma vibe assim meio John Wick.
Bugonia
3.6 558 Assista AgoraA velha ladainha de que a humanidade está destruindo o planeta, porque é egoísta, bélica, insensível.
O que destrói o planeta é o modo de produção capitalista e a busca desenfreada por lucro. Tire o poder das mãos do 1% mais rico e o planeta pode ser salvo.
Mas, como disse Mark Fisher, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio
3.2 685 Assista AgoraQue roteiro terrível, jesuzamado!
+Velozes +Furiosos
3.1 524 Assista AgoraO primeiro é bem ruinzinho, mas esse aqui é tão deplorável que faz o primeiro parecer ótimo.
Velozes e Furiosos
3.4 651 Assista AgoraReassistindo depois de muitos anos, vejo como isso aqui é uma mistura de Caçadores de Emoção com Velocidade Máxima (diga-se de passagem, os dois estrelados pelo Keanu Reeves).
Extermínio: A Evolução
3.1 574 Assista Agora23 anos depois do primeiro filme, Boyle e Garland, e isso é tudo que vocês conseguiram nos entregar?
Rua Cloverfield, 10
3.5 2,0KEsse é o tipo de filme que, durante a sessão, me causa uma impressão meio neutra: nem acho muito bom, nem muito ruim. Vou só acompanhando pra ver no que vai dar.
Ao desligar a TV, minha nota seria um 3/5. Mas, conforme vou digerindo a coisa, a nota vai caindo. Quanto mais penso em 10 Cloverfield Lane, pior ele fica!
História cheia de clichê:
a tensãozinha mequetrefe da primeira tentativa de fuga – ter que abrir trocentos cadeados enquanto o bicho-papão avança em câmera lenta; o "help" escrito no vidro; a personagem tendo a maior dificuldade pra escapar de um cara e, logo em seguida, destruindo uma nave alienígena orgânica (?) como se não fosse nada, usando um coquetel molotov que surge providencialmente ali. Enfim, poucas qualidades desse filme resistem a um dia depois de ter assistido.
Vale dizer que só fui conhecer Cloverfield: Monstro agora em 2025 e achei maravilhoso! Tremenda maluquice essa sequência estar com a nota mais alta do que o primeiro.
O Eternauta (1ª Temporada)
3.7 168 Assista AgoraEstava gostando bastante até
surgirem os bichos. Aí, pra mim, perde muito da seriedade e da tensão que os primeiros episódios vinham apresentando.
No geral, mais gostei do que desgostei. Agora é esperar a próxima temporada.
Em Busca do Ouro
4.4 288 Assista AgoraReassisti Em Busca do Ouro depois de alguns anos e continua um ótimo filme!
Meu DVD vem com duas versões: a original, muda, com a trilha sonora de 1925; e um relançamento posterior, com adição de uma narração em off na voz do própria Chaplin, além de efeitos sonoros e trilha diferente – vale dizer que a narração não só vai contando a história, como também reproduz os diálogos dos personagens.
Dei play na versão relançada, mas logo desisti. Fica muito estranho ver uma obra concebida sem som com o acréscimo da narração. O diretor precisa falar rápido demais para acompanhar o ritmo, fazendo com que a leitura das legendas atrapalhe a apreciação das imagens. Sem contar que os recursos narrativos próprios do cinema mudo – como a atuação exagerada, concebida para driblar a ausência do som – deixam de fazer sentido, gerando redundância.
Nos extras do DVD há também um mini documentário que, entre outras, traz a informação de que o primeiro ato foi inspirado em um acontecimento real: uma expedição ficou presa no meio do nada, por conta de uma nevasca e, sem ter o que comer, o grupo foi obrigado a recorrer a seus cachorros, posteriormente a suas vestimentas de couro e, por fim, aos cadáveres dos companheiros mortos.
Chaplin pegou essa notícia e a transformou, com leveza e humor, nas engraçadas sequências dos dois mineradores na cabana – incluindo a maravilhosa transmutação do protagonista em frango.
O enredo amoroso é bem familiar: temos um casal super popular, com algumas atitudes um tanto babacas, que vive entre briguinhas e reconciliações. A garota, a fim de provocar ciúmes no outro, flerta com o pretendente mais improvável do lugar, o mais "loser". Ela, então, finge que gosta do bobalhão, brinca com os sentimentos dele, faz chacota do pobre coitado para divertimento de sua turma e, no final, os dois acabam juntos. É uma trama típica de comédia romântica adolescente dos anos 1990/2000, tornando Em Busca do Ouro precursor de todos esses filmes, já na década de 1920.
A Dança dos Pãezinhos, embora não seja criação do diretor (Roscoe Fatty Arbuckle já a havia executado em The Rough House, de 1917), entra para o rol de cenas icônicas de Charles Chaplin.
Outro elemento não original, mas que rendeu bons momentos aqui, é a ideia da cabana que se desloca no espaço, levada pelo vento. Para quem conhece a história de O Mágico de Oz, isso não é novidade.
Agora, para não dizer que tudo são flores, algo que me incomodou nessa revisita a The Gold Rush (e que tinha passado despercebido da primeira vez) é o modo como é negado à personagem feminina principal qualquer poder de escolha.
Voltando à comparação com as comédias românticas adolescentes, uma diferença fundamental de roteiro é que, aqui, o protagonista nunca chega a descobrir que foi feito de trouxa por sua amada. Sendo assim, baseado no bilhete que recebe por engano – originalmente endereçado a Jack –, o Minerador Solitário passa a acreditar que Georgia corresponde a seu amor.
Embora a moça se mostre arrependida de ter zombado dele e, no final, já no navio, se ofereça para pagar sua passagem, sem saber que ele enriqueceu, em momento algum a vemos demonstrar qualquer sentimento para além da compaixão. Nada no filme nos diz que ela se apaixonou por aquele homenzinho peculiar. A partir do reencontro dos dois, Georgia apenas se deixa levar, demonstrando, em seu rosto, nem compreender muito bem o que se passa. Seu destino está além de seu desejo, pois ela, ali, deixa de ser um indivíduo, com vontade própria, e se transforma em um prêmio para o protagonista – que, além da fortuna possibilitada pela descoberta do ouro, ganha também a mão da donzela.
São Paulo Sociedade Anônima
4.2 215São Paulo: a locomotiva que move o Brasil.
Seu combustível: brutal exploração da classe operária, corrupção, acordos fraudulentos, apropriação de dinheiro público pela burguesia industrial emergente e alienação da classe média.
Obra-prima do cinema nacional! E que montagem sofisticada! Demorei um pouco para me situar na história, confundi personagens, achei que Hilda fosse Luciana, me perdi na cronologia. Senti um pouco da confusão caótica da metrópole, com seu ritmo frenético de desenvolvimento a todo custo. A forma conduzindo o sentido. Lindo de se ver!
Carlos é um personagem muito peculiar. Um cara amargo, ranzinza, péssima companhia para se ter por perto. Chatão de galochas completo! Reclama de todos ao seu redor, trata todo mundo mal. Um nojo de pessoa. Ainda assim, é a figura com mais sensibilidade diante da falta de sentido daquela vidinha medíocre pequeno-burguesa. Ainda que não consiga por em palavras o que sente, ele sabe que há em seu peito uma angústia profunda e permanente.
No final, assim como a criança de foge de casa por ter levado bronca, mas volta antes de anoitecer, o protagonista empreende uma fuga que não dura mais do que 24 horas. E sem grandes consequências. O casamento pode ser retomado, já que Luciana conhece o traste com quem se casou, mas preza pela fachada de família modelo. O carro roubado, se descoberto, pode ser tomado como um capricho de playboy, ao invés de, necessariamente, um crime (aposto que Arturo, acionando sua rede de influências, não teria grande dificuldade em conseguir livrá-lo da cadeia).
O adeus de Carlos é mera rebeldia passageira. Válvula de escape de seu espírito conformista. Passada a adrenalina, tudo volta a seu lugar.
Afinal, a Locomotiva São Paulo S/A não pode parar.
Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar
4.3 215Pegue a frase “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, tire toda a sua poesia e deixe apenas a informação. O resultado é o título do filme em inglês: “Waiting for the Carnival”.
É triste ver uma sociedade inteira completamente seduzida pelo canto da sereia do empreendedorismo. Vendem a essas pessoas a ideia de trabalhar por conta, em alguns casos na própria casa, sem ter que obedecer a patrão, bater ponto ou cumprir horário fixo, podendo produzir o quanto quiser por dia. Ser um trabalhador autônomo. Livre para decidir como quer trabalhar.
Vendem isso e entregam altos níveis de precarização. A ausência de patrão vem acompanhada da ausência de qualquer direito trabalhista. Os que trabalham em casa tem que arcar com os custos de energia elétrica e manutenção dos equipamentos. Podem decidir seus horários e o quanto querem produzir por dia, mas, seguindo a lógica de “quanto mais se produz, mais se ganha”, dedicam 14/15/16 horas por dia para poder tirar seu sustento. Ainda assim, para muita gente, não é o suficiente para bancar alguns dias de lazer durante o carnaval. Lazer esse não só desejado, mas justificadamente necessário, para que não enlouqueçam em uma vida em que só se trabalha e nunca se aproveita.
E quem pode culpá-los por defenderem esse modelo? Em uma sociedade que traz ainda tão latente em seu imaginário a herança da escravidão, normalizamos a ideia de que aqueles que empregam detêm plenos poderes sobre os empregados. Quem nunca sofreu algum tipo de humilhação no trabalho? Quem nunca ouviu elogios sobre algum patrão por este não fazer mais do que sua obrigação: ser uma pessoa minimamente decente e respeitosa? Junte-se a isso a influência dos coaches de empreendedorismo e o resultado é um solo fértil para a agenda neoliberal fincar raízes.
Gostei de como o diretor se abstém de formular conclusões sobre o que os entrevistados falam, deixando a cargo dos espectadores perceber a violenta contradição daquele regime de trabalho tão desumano.
O documentário apenas perde um pouco de sua força ao optar por um enfoque exagerado em Léo – mesmo sendo uma figura bem interessante, não consegui enxergá-lo como protagonista da história recente de Toritama.
Black Mirror (7ª Temporada)
3.8 335 Assista AgoraCommon People: 5 / 5
Capitalismo tardio + tecnologia avançada + degradação por sobrevivência. Black Mirror na veia!
Bête Noire: 3,5 / 5
O episódio vai construindo um suspense bem legal, mas a conclusão é meio xoxa (com um "quê" de lei da atração).
Hotel Reviere: 2,5 / 5
O episódio mais fraco dessa temporada. A história é até interessante e o final, especialmente, achei bem bonito. Mas todo o desenrolar é mequetrefe: a ideia da refilmagem mudando apenas uma pessoa no elenco; a atriz que vai aceitando participar de um negócio desconhecido sem nem questionar ou pedir apoio ao agente; o amadorismo forçado da equipe de "filmagem".
Plaything: 3 / 5
A história é interessante, e a cena do assassinato ficou muito boa, com a câmera tremendo, em sintonia com o estado de espírito do personagem principal. Mas, assim como em Bête Noire, a conclusão foi fraca.
Eulogy: 4 / 5
O negócio do bilhetinho guardado durante décadas foi meio forçado, mas no geral é um episódio muito bom – e triste.
USS Callister: Into Infinity: 4,5 / 5
Tenho crush na Cristin Milioti desde a série do Pinguim. Aqui, ela continua maravilhosa, e esse uniforme ficou muito estiloso. O final vira Divertida Mente, rs.
Casamento ou Luxo?
3.9 33 Assista AgoraEm seu segundo longa-metragem, Chaplin decide não fazer parte do elenco – e deixa isso bem claro para o público por meio de uma inusitada mensagem logo no início do filme, acrescentando, ainda, que se trata de seu primeiro drama sério (me pergunto se, na época, algum desavisado chegou a pedir o dinheiro do ingresso de volta, alegando que tinha ido ao cinema não só para ver seu ator favorito na tela, como também para vê-lo fazendo comédia).
O enredo é simples: Marie e Jean, dois jovens apaixonados, decidem sair de casa e se mudar para a cidade grande a fim de se casarem e constituírem família longe da desaprovação de seus pais. Um acontecimento trágico impede o rapaz de se encontrar com a moça, e esta, desiludida, resolve ir embora sozinha. Um ano depois eles se reencontram, vivendo vidas completamente diferentes da que viviam (ela, sobretudo), e o antigo amor dá sinais de querer voltar a florescer.
De início, algo que enfraquece um pouco a história é a passagem do tempo entre o primeiro e o segundo ato. Afinal, doze meses parecem pouco para a transformação de Marie, de moça pobre com apenas a roupa do corpo para concubina do solteiro mais rico de Paris, ao mesmo tempo em que esse período não me parece longo o bastante para dar o peso necessário ao reencontro dela com Jean.
Casamento ou Luxo tem vários pontos interessantes, para além dos encontros e desencontros dos personagens principais.
Há uma inversão de papeis sociais entre Marie e Jean: nas cenas iniciais, vemos que a casa dela é bem mais modesta que a dele; já em Paris, enquanto a jovem vive em um apartamento luxuoso – inclusive com empregadas –, o rapaz mora em um espaço pequeno e humilde – onde não consegue encontrar um guardanapo sequer que não esteja furado.
Não fica claro por que o pai de Jean desaprovava o casamento, mas a diferença de classe entre as duas famílias poderia ser o motivo. Posteriormente, quando Marie ressurge visivelmente em situação financeira confortável, o que entra em cena, por parte da mãe, é o moralismo: a velha rejeita o relacionamento do filho por não considerar sua amada digna dele.
Na agitação das festas dos habitantes endinheirados da capital francesa um pequeno detalhe chama a atenção: uma bela mulher é lentamente despida do longo tecido branco que envolve seu corpo, para divertimento de uma plateia que bebe, ri e aplaude. Entre as moças do grupo, vemos uma ajeitar um monóculo no rosto para admirar melhor a modelo, e seu rosto transparece inegável desejo pela outra. Um lampejo de representatividade lésbica no cinema da década de 1920? Me parece que sim.
Bem menos sutis são as expressões faciais da massagista que atende Marie em seu apartamento enquanto esta fofoca com suas “amigas”. Sendo obrigada a presenciar a falsidade com que as moças se tratam e ouvir sobre o mundinho de jantares e roupas bonitas em que elas vivem, sua única reação possível é a desaprovação no olhar. E o rosto da mulher, mostrado em sucessivos closes, confere ao drama sério de Chaplin um de seus melhores momentos (inclusive, um dos poucos momentos cômicos).
O namorado/mantenedor da protagonista, o ricaço Pierre, com sua personalidade meio cafajeste-simpático, é uma das figuras mais interessantes do filme. Ao descobrir que sua teúda e manteúda está, supostamente, tendo um caso com outro homem, ele não se mostra ciumento ou possessivo – o que, infelizmente, não seria estranho para os dias de hoje, quem dirá para aquela época. Mas não, ele apenas acha graça e ainda aconselha a moça a ter cuidado com quem se envolve.
Pierre ainda é usado para exemplificar duas visões possíveis sobre o matrimônio.
Por uma manchete de jornal ficamos sabendo que ele está noivo de uma jovem rica, e que o enlace representa a união das duas maiores fortunas do país. Tal fato, de maneira alguma, o impede de ter amantes. Casar-se, para ele, significa apenas consolidar uma relação de negócios.
Em outra ocasião, quando Marie diz que quer romper com o namorado para se unir a Jean, aquele a chama até a janela e lhe dá uma amostra do que isso significa para quem não é abastado como ele – mostra-lhe uma família que passa na rua lá embaixo: o marido, carrancudo, andando apressado na frente; a espoca, com a infelicidade estampada no rosto, vem logo atrás, esforçando-se para manter as crianças junto se si.
O filme, assim, parece querer apresentar o casamento como uma instituição falida. A burguesia se casa para perpetuar fortunas e manter aparências. A classe trabalhadora o faz para sobreviver. Em nenhum dos casos há felicidade, apenas conveniência.
Uma das cenas mais bem construídas da obra é a do suicídio de Jean, após ser rejeitado por Marie e humilhado por Pierre. O ímpeto inicial de tirar a vida do rival (ou, talvez, da moça, senão de ambos) transforma-se em desejo de morrer. E, na antessala de um restaurante, que delimita até onde ele pode chegar não sendo membro ou convidado da classe alta – sala esta que, ainda que seja apenas um cômodo preliminar, é grande o bastante para fazê-lo parecer tão pequeno e impotente –, o rapaz atira em si mesmo, tombando ao lado de uma bela e indiferente estátua.
Após a morte de Jean e, passado algum tempo, vemos o desfecho do filme com Marie reconciliada com a mãe de seu antigo amor, ambas dividindo uma casa no interior do país e cuidando de crianças órfãs – aparentemente adotadas por elas.
É um final que, se por um lado é conservador ao nos dizer que a protagonista só encontra a verdadeira felicidade quando abandona sua vida de luxo e concubinato e abraça a maternidade, por outro é um tanto fora da curva, ao colocar a heroína criando seus filhos não com um homem, mas com outra mulher (aqui, é preciso dizer, sem qualquer aceno aparente à representatividade lésbica, como dito anteriormente sobre a garota com o binóculo).
Algumas curiosidades:
* Chaplin situou sua história em Paris para não melindrar os brios puritanos dos espectadores estadunidenses com toda a representação de boemia e relações extraconjugais presentes na obra. Mesmo assim, Casamento ou Luxo não foi muito bem recebido, nem pela crítica nem pelo público.
* Por uma escolha estratégica do diretor, todas as cenas foram filmadas na mesma ordem em que aparecem no filme. E ainda que isso tenha encarecido o projeto, vale lembrar que ele era um dos donos da empresa responsável pela produção.
Oeste Outra Vez
3.7 106 Assista AgoraQuem é Sergio Leone perto de Erico Rassi?
Quem é Clint Eastwood perto de Rodger Rogério?
Brincadeiras ufanistas à parte, que filmaço é Oeste Outra Vez!
Em um mundo sem mulheres, os homens são todos patéticos.
Tratam-se com cortesia, mas não conseguem falar sobre o que sentem. Empunham armas, mas erram o alvo. Apontam o taco, mas não acertam a bola. Só a cachaça é que vai certeira da garrafa para o copo e deste para a goela.
Na aridez da paisagem e dos corações, onde as mulheres são desejadas, mas nunca alcançadas, só o que resta a esses homens é a companhia deles mesmos, com sua cordialidade vazia e sua violência sem sentido.
Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio
3.7 1,5K Assista AgoraNem sempre é uma boa ideia revisitar nossos filmes favoritos da adolescência. A gente corre o risco de vê-los perder o encanto.
Evil Dead continua um filme interessante. É bem legal ver os lugares inusitados onde Sam Raimi posiciona sua câmera para criar as cenas. Os efeitos práticos, inclusive com stop-motion – coisa que eu não lembrava –, merecem todo o crédito.
O roteiro abraça de forma muito honesta um descompromisso total com o estabelecimento de regras sobre como os demônios operam: a namorada de Ash é possuída a partir do lápis enfiado no pé, enquanto ele mesmo é ferido várias vezes e de várias maneiras e nada acontece; a velocidade com que os personagens se transformam varia de acordo com a conveniência, assim como o uso que fazem de sua superforça.
Mas, no geral, o clássico cult de 1981 já não me empolga mais como antigamente.
(diga-se de passagem, no auge dos meus 15/16 anos eu sentia medo real de algumas cenas – em especial da versão endemoniada da Linda sentada no chão se balançado e falando com voz de criança)
Para além de eu ter achado bem menos divertido do que costumava achar, o desencanto se dá também pela percepção que tenho hoje em dia do sexismo latente no filme. A cena do estupro na floresta é bem difícil de defender. Hoje percebo o quanto ela é fetichizada e feita, ao que parece, com o único propósito de excitar o olhar masculino.
Difícil sustentar o argumento de que foi um artifício usado na trama como forma de explorar uma das possíveis nuances do horror. Vale lembrar que Scott também sai sozinho lá fora e, assim como Cheryl, é atacado pelas árvores, voltando depois pra cabana todo machucado. Alguém vai dizer que ele também foi violentado? Claro que não!
Outro ponto que me incomodou nessa reassistida foi a quantidade de vezes em que Ash é mostrado batendo em Linda. E ainda que na história aquele ser já não seja mais sua namorada, o que vemos em tela é, de forma gráfica, um homem agredindo uma mulher, em uma encenação que não teve o cuidado de se fazer um pouco mais sutil a fim de amenizar o resultado final.
Essas críticas não me fazem abominar o filme; tenho consciência de que estou colocando um olhar de 2025 sobre uma obra com mais de quatro décadas de existência, produzida em outro momento histórico, com outra visão de mundo.
Mas por não conseguir (e nem querer) relevar essas questões, The Evil Dead simplesmente perdeu pontos comigo.
Por último, outra velha lembrança que tenho da adolescência é de ver a apresentadora de um programa de TV de filmes de terror (provavelmente o Cine Sinistro da Band) anunciando a próxima atração pelo título brasileiro "A Morte do Demônio" e explicando que esse nome não fazia sentido, já que o demônio, no final, termina bem vivo.
Era spoiler na cara do espectador... e ninguém ligava.
Curiosidade: a cena em que Ash toca um espelho e este se liquefaz foi reaproveitada por Sam Raimi em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura.
A Tempestade do Século
3.9 333"Born in lust – turn to dust.
Born in sin – come on in."
"Filhos da fornicação – com o pó se vão.
Filhos do pecado – são meus convidados."
Que primor de tradução na legenda!
Emilia Pérez
2.4 484 Assista AgoraNão me lembro quando foi a última vez que assisti a um filme tão ruim quanto este lixão atômico chamado Emilia Pérez.
Tudo é da mais baixa qualidade.
Os números musicais são terríveis, ninguém canta minimamente afinado e as letras das músicas parecem ter sido escritas por inteligência artificial. Tremendo mau gosto na cena da clínica em Bangkok. O espanhol falado pelo elenco é sofrível e isso deixa as atuações ainda mais porcas.
O enredo é dos mais mequetrefes. Dei risada em vários momentos no cinema e vale lembrar que o filme não se propõe a ser cômico.
As 13 indicações dessa bomba ao Oscar são um ultraje! Não é possível!
Um dia ainda vai ser revelado que esse foi o maior caso de corrupção da história da indústria cinematográfica.
Instruments of a Beating Heart
3.6 30Um choque de cultura para nós, brasileiros.
É de se admirar, em muitos aspectos, o modo como a sociedade japonesa se mostra ordenadamente organizada para os nossos olhos ocidentais. Entretanto, sabendo que o país lida constantemente com altos índices de adoecimento mental e, no limite, suicídios, fica difícil não questionar se toda essa rigidez e pressão sobre os alunos são realmente necessárias.
Difícil defender uma relação escolar em que o professor faz uma criança de 7 ou 8 anos chorar.
Assisti pelo site do The New York Times:
(está com legendas em inglês)
https://www.nytimes.com/video/opinion/100000009295681/instruments-of-a-beating-heart.html?playlistId=video/op-docs
Minority Report: A Nova Lei
3.7 766 Assista AgoraLembro que citei esse filme em um trabalho da faculdade de Letras. Precisávamos escrever um texto sobre a legalização das drogas, argumentando contra ou a favor.
Meu ponto foi que o único problema que o consumo necessariamente provoca é a deterioração da saúde do usuário – e isso é entre ele e seu próprio corpo. Qualquer dano secundário que o usuário possa causar à sociedade é hipotético: ele pode se tornar violento, pode cometer crimes, pode negligenciar outras pessoas que dependem de si, mas também pode não fazer nada disso e viver sua vida sem atrapalhar ninguém.
Assim, a punição (proibição) antes de qualquer mal ser causado seria equiparável – guardadas, obviamente, as devidas proporções – às prisões que acontecem no filme por crimes ainda não praticados.
A avaliação do professor foi apenas sobre nosso desempenho argumentativo, sem entrar no mérito da validade de nossos argumentos. No final, tirei uma boa nota.
Hayao Miyazaki e a Garça
4.6 21 Assista AgoraO Menino e a Garça se torna outro filme depois deste documentário.
Minha leitura inicial era que o autor se colocava na história por meio da figura do tio-trisavô: um idoso, responsável pelo vasto universo que criou, vivendo o dilema de não ter alguém para quem deixar o legado de sua criação (e no caldeirão dessa interpretação eu misturava a relação conturbada de Miyazaki com seu filho também cineasta).
Aí descubro que o gênio da animação japonesa se vê, na verdade, como Mahito, o protagonista adolescente, e que o tio-trisavô faz referência a seu falecido amigo/mentor/rival Isao Takahata, o Pak-san.
E outras ligações biográficas vêm como bônus: o produtor Toshio Suzuki é retratado como a garça do título e a colorista Michiyo Yasuda, a quem o diretor chama de Yacchin, serve de inspiração para a personagem Kiriko – na história, inclusive, quando Mahito e a versão jovem de Kiriko se separam, o menino pergunta se eles ainda irão se encontrar de novo; sabendo que Yacchin faleceu durante a produção do longa, a cena adquire um tremendo peso emocional.
O luto, aliás, permeia todo o processo de confecção do filme. Amigos e companheiros de profissão vão morrendo um após o outro, tornando o trabalho de Miyazaki cada vez mais pesado e doloroso, levando-o a buscar refúgio da dureza do mundo real em seus infinitos mundos imaginários.
Vale destacar o esmero na montagem do documentário.
O tempo todo, a edição pega algum momento trivial do dia a dia ou alguma frase dita ao acaso pelos entrevistados e faz paralelos visuais com as produções do Studio Ghibli. Seja uma caminhada às margens de um curso d’água ou a afirmação de Suzuki de que o diretor se alimenta da energia das pessoas ao seu redor para poder criar, tudo se conecta com cenas dos filmes.
Indicado para qualquer um que goste não só de O Menino e a Garça, mas das obras em geral do grande Hayao Miyazaki.
Fiquemos na torcida para que o velhinho ainda tenha fôlego para, pelo menos, mais um filme. Uma mente tão brilhante não deveria ter que se sujeitar ao mesmo tempo de vida que nós, meros mortais.
Vida longa, mestre!
Por último,
não posso deixar de comentar a fofura daquelas crianças que vão ao estúdio em busca de jujubas. “Trabalhe bastante hoje!” ♥
Drácula: Morto mas Feliz
3.2 220— Children of the night. What a mess they make!
— But, Lucy, I'm British!
— So are these!
Não é a melhor das comédias estreladas por Leslie Nielsen, mas tem alguns bons momentos engraçados, como na cena da dança.
Fica bem mais divertido se você já tiver assistido o Drácula de 1931, estrelado por Bela Lugosi, pois "Morto mas Feliz" é uma paródia daquele – inclusive com cenas idênticas.
(eu, no caso, fiz a ordem inversa)
Vale destacar o final, o jeito como Drácula é derrotado, que achei bem criativo – ao contrário do final do original que, diga-se de passagem, é bem ruinzinho.