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Últimas opiniões enviadas

  • Mateus Rameh

    ROMA é daqueles filmes que conseguem pegar um recorte íntimo e específico que, ao mesmo tempo, mostram como se dão as relações em nossa sociedade. Esse relato extremamente pessoal do diretor e roteirista Alfonso Cuarón ficou comigo desde que o assisti há um mês e, por isso, decidi reassisti-lo. Essa é uma viagem rica que vale a pena ser refeita.
    Alfonso Cuarón sabe o quão complexas são as relações aqui desenvolvidas e, para mostrá-las, toma decisões particulares que não agradarão a maior parte do público. O jogo de câmera suave e paciente é que deixa surgir a densidade temática e narrativa, fazendo a estória e os ambientes respirarem por conta própria. Seria muito fácil optar por planos mais curtos e colocar a câmera mais perto, mas isso a tornaria uma intrusa: as sutilezas que o filme evidencia se perderiam completamente. Cuarón imprime aqui essas dinâmicas, cabe a nós lê-las.
    É nessa leitura que reside o impacto do filme: a partir de corriqueiras e acertivas linhas de diálogo, a dinâmica das relações de classe vai se desenhando para o espectador. Apesar daquela família gostar de Cleo, ela ainda é só a empregada e está ali para trabalhar. Yalitza Aparicio transmite com perfeição a subjugação de sua personagem, em nenhum momento fica a impressão de que ela nunca havia atuado. Sua personagem está sempre à mercê do que a rodeia e nunca lhe é permitido tomar as rédeas da própria vida ou ter voz sobre ela. Cleo segura o peso do mundo e, mesmo calada com a fala suprimida, ela se firma e vai seguindo a vida. Ela nos traz o significado da resiliência feminina junto à Sra. Sofia (Marina de Tavira) - personagem que é muito bem interpretada e que poderia facilmente cair na vilanização usual, o que, felizmente, não acontece. Foram mais que merecidas as indicações de melhor atriz e atriz coadjuvante no Oscar.
    Há, ainda, um trabalho interessante à base de contrastes para delinear as mensagens do filme. A insensibilidade dos membros da família e seu tratamento agressivo uns com os outros, algo que é evidenciado pela forma como as crianças se comportam. Elas aprendem pelas referências que têm e aqueles adultos não são figuras exatamente exemplares. Enquanto isso, na maior parte do tempo, a afabilidade vem da parte de Cleo, que bota as crianças para dormir e trata-as carinhosamente. Temos a realidade de um bairro mais pobre e outro de classe média; em um mesmo plano um casamento acabado e outro que começa, etc. No meio de tudo isso ainda há pinceladas do conturbado momento pelo qual o México passava na década de 70, que nos contextualizam e se entrelaçam narrativa e tematicamente com a estória principal.
    Cleo começa o filme limpando o chão e termina lavando roupas. Apesar dos acontecimentos pesados pelos quais ela passa, nada muda e a ela continuará relegada a função de servir a família. Ela ascende escada a cima em direção ao céu mas a perpetuação das mulheres nesses papéis faz com que ela nunca possa alçar vôo da forma que gostaria. Assim passa a vida de Cleo. E os aviões passam.
    ROMA é o melhor filme de 2018. Há muito mais nele do que escrito aqui. Vejam-no.

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  • Mateus Rameh

    Yorgos Lanthimos cada vez mais demonstra sua astúcia no estudo de personagens e das relações humanas a partir do estilo singular desenvolvido em cada narrativa. Aqui, a história na corte inglesa do século XVIII traz à tona temas como inveja, dor, elitismo, poder, serventia, manipulação, tudo envolto em um complexo jogo de xadrez entre personagens complexas e brilhantemente desenvolvidas.
    Os arcos de Abigail (Emma Stone) e Sarah (Rachel Weisz) são inversos mas mutuamente propulsores e precisaram do talento dessas atrizes para serem concretizados na tela: elas têm presença e entregam a complexidade que o roteiro pede. Emma Stone mostra sua versatilidade interpretando um papel diferente daquele pelo qual ganhou o Oscar em La La Land, livrando-a de um possível estigma que surgiria se suas atuações seguintes àquele trabalho fossem similares a ele. Ela dá vida a uma engenhosa e determinada mulher, que sabe aproveitar as brechas que lhe são dadas. Rachel Weisz é imponente e a representação máxima, nesse longa, de uma insensibilidade que permeia as estórias de Lanthimos: a personagem é o maior expoente do impiedoso tratamento dos mais poderosos para os súditos. Olivia Colman (a rainha) cumpre uma tarefa difícil: não deixar caricata uma personagem que está sempre gritando. Felizmente, ela encontra o tom perfeito para nos apresentar uma mulher escandalosa por perceber que não tem tanta influência em sua própria corte, sendo sua fragilidade psicológica um reflexo da física e vice-versa. Suas atuações são favorecidas, ainda, pela montagem e direção, que sabem a hora de cortar e aproximar a câmera para fazer surgir tons irônicos e cômicos. Se qualquer uma das três levar um Oscar, será merecidíssimo.
    A fotografia do filme também merece destaque, agregando à estranheza característica do diretor: muito uso do contra plongee (câmera baixa apontada para cima) e de planos muito abertos, com distorção das bordas em diferentes graus, chegando ao efeito da lente Olho de Peixe. Esses recursos não são usados gratuitamente: o primeiro é uma forma de nos colocar abaixo de pessoas da realeza, fazendo-nos sentir menores que aqueles personagens, que era como a população da época os enxegava; o segundo reflete o interior dos personagens e suas moralidades deturpadas e questionáveis. Além disso, realçam a grandeza das ambientações e o detalhado design de produção, deixando-nos apreciar a beleza das composições cênicas em contraste com as ações dos que ali transitam. Certos planos desse filme poderiam ser emoldurados.
    A montagem e a trilha sonora também são coerentemente usados para a imersão do espectador e o desenvolvimento de uma linguagem própria. Os cortes secos transitando entre diferentes ambientes no início do filme causam um pequeno estranhamento e dão, de cara, o tom que precisamos para poder nos adaptar a essa estória e conseguir acompanhà-la. Uso de cross fades para enfatizar a dor e o desalento da rainha Anne. Tudo acompanhado por uma trilha que se utiliza de repetições de notas que marcam o desenrolar de planos de várias pessoas, conferindo peso e um ar robusto às sequências do longa. Contudo, infelizmente, ele não é perfeito: há uma repetição na metade, principalmente de um desejo de Sarah com impostos e da estrutura de sua troca de farpas com Abigail. Por um curto período, o filme, que estava se mostrando ágil em sua progressão, estagna e esse momento fez pesar para mim a duração de 2 horas.
    "A Favorita" é uma obra riquíssima de um diretor notável com uma mente peculiar que nos proporciona filmes igualmente únicos. As sensações incômodas pelas quais ele nos faz passar serão motivo de desgosto de parte do público, mas, se você se permitir senti-las, verá que esse longa ficam com você e cresce com o passar do tempo. Filme extremamente conciso que alinha sua parte técnica às temáticas que quer contar. Definitivamente deve ser visto no cinema.

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  • Mateus Rameh

    "Nasce Uma Estrela" é a quarta versão da mesma história e a única que conferi. impressionantemente, esse é o primeiro trabalho de Bradley Cooper na direção e o primeiro de Lady Gaga no papel principal.
    O filme é uma montanha russa de emoções: é eletrizante, hipnotizante, apaixonante, chocante, revoltante, emocionante... Tudo isso a partir de uma direção afiadíssima que acerta com precisão os momentos de fazer a câmera passear e os momentos de segurá-la, permitindo que os atores façam o show. Em todas as sequências musicais, Cooper coloca o espectador dentro da cena, fazendo-o sentir a energia do palco. Esses passeios vão tecendo a atração do casal ao mesmo tempo que fazem vir à tona a intensidade artística desses personagens: ambos possuem fervor criativo e o filme tem consciência disso, mas não os glorifica em momento nenhum. Vai na direção contrária, humanizando-os e e mostrando as diversas facetas de suas personalidades - que são complexas e densas sem se tornar distoantes umas das outras. Este é um roteiro riquíssimo, com falas e diálogos poéticos que contribuem para que conheçamos as mentes artísticas, impactando-nos em cheio assim que são ditos.
    Para conferir verdade e timing a esses diálogos, tornando-os certeiros, foi necessário um talentoso elenco. Lady Gaga carrega o filme e mostra sua capacidade como atriz: sua presença, tanto em cena quanto no palco, e sua intensidade - da qual ela sabe a dosagem em cada cena - saem do fundo da alma dela e atingem o fundo da alma do espectador a cada canto entoado por sua potente voz. Bradley Cooper também dá um show, surpreendendo pela afinação e beleza vocal ao cantar. Seu personagem é introspectivo, cascudo, e ele o interpreta muito bem com a voz grave e os gestos de um corpo mais encurvado, mostrando que aquele homem carrega muita coisa dentro de si. Destaque também para Dave Chappelle e Sam Elliot, que são importantìssimos em pontos chave da história e para a construção da personalidade de Jack. Há falas memoráveis ditas por cada um desses atores.
    Tanto as melodias e harmonias das músicas quanto suas letras são muito boas e ficam com você por dias, mesmo após a sessão. As letras dizem muito sobre os personagens e sobre as mensagens que o filme passa. O amor de Ally e Jack é genuíno, a relação é singela e toma caminhos surpreendentes: há muitas brigas, mas o perdão também encontra seu espaço nessa narrativa. Mostrar isso no século XXI é importantíssimo pois esses são tempos em que essa prática é esquecida e, em seu lugar, são colocados a vingança ou o desprezo. Há também um forte comentário sobre a indústria musical e sua crueldade: ela quer excluir a individualidade do artista para enlatá-lo e deixá-lo palatável pra venda, o que faz com que as músicas passem a ter pouco ou nenhum conteúdo, nada a dizer.
    O filme tem muito a dizer, ainda, sobre egoísmo, o fazer artístico, vícios, fama, paternidade... Em suma, uma obra primorosa e extremamente envolvente. Contudo, não chega à perfeição: há um uso exagerado de planos e contra-planos, o que torna certos enquadramentos repetitivos e, consequentemente, atrapalha o andamento do longa. Fora isso, excepcional.
    "Nasce Uma Estrela" é um dos melhores filmes de 2018 e certamente receberá indicações no Oscar. Seu final revela um novo significado para o título e eterniza a história no coração de quem assistiu. Não percam!

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  • Elegante
    Elegante

    Massa Mateus, fico feliz que curta meu trabalho. Também gosto muito da página de vocês e o curta ficou excelente! Parabéns!

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