A última cena não significa que Veneno foi solto nem que Muñeco não foi castrado.
Ela funciona de maneira simbólica/subjetiva, quase como uma imagem mental. O diretor constrói o filme com lembranças, imagens subjetivas e momentos que não devem ser lidos necessariamente como continuidade cronológica literal. Inclusive há análises destacando que o filme abre e fecha com imagens semelhantes, transformando a estrada e o deserto em uma espécie de ciclo.
Minha leitura daquela última imagem é: Muñeco continua carregando Veneno consigo, mesmo separado dele. Não é “ah, Veneno escapou da prisão e voltou para o caminhão”. É a materialização do vínculo que ficou.
Isso combina perfeitamente com o arco dos dois. No começo, Muñeco diz basicamente: “não me meta em problemas”. No fim, ele sacrifica literalmente o próprio corpo para salvar o garoto.
E tem uma ironia brutal nisso: durante o filme inteiro, sexo, pênis, virilidade e masculinidade são usados como símbolos de poder naquele universo de caminhoneiros. Muñeco finalmente aceita seu afeto/desejo por Veneno justamente quando acaba sendo punido pela mutilação do órgão que simbolizava aquela masculinidade.
Por isso o final é tão cruel: Veneno permanece fisicamente inteiro, mas preso; Muñeco permanece livre, mas mutilado. Os dois se salvam parcialmente e, ao mesmo tempo, perdem a possibilidade de continuar juntos.
E aquela dança ao som de “Los Caminos de la Vida” pouco antes já anuncia tudo. O próprio David Pablos chamou a sequência de “baile da morte”, uma espécie de momento de paz antes da catástrofe.
Assim, o final é deliberadamente ambíguo, mas poético.
Sim, tenho minhas críticas em razão da ausência de demonstração das habilidades de sobrevivência e sim, tenho um ranço enorme de alguns participantes da equipe "Charlie", mas a série é viciante pra c*****
O final em si, com a ideia do ciclo de Samsara, foi bom e fez sentido dentro da proposta da série. O problema é que o episódio final força demais a barra: tem tanta situação implausível, tanta conveniência de roteiro e tanta coisa inverossímil acontecendo em sequência que a experiência acaba azedando. A conclusão conceitual é boa, mas a execução foi tão capenga que derrubou muito a nota da série.
Na obra "A Gaia Ciência" (1882), Friedrich Nietzsche apresenta uma das passagens mais impactantes da filosofia moderna: o parágrafo do homem louco. Na cena, um homem acende uma lanterna em pleno dia e corre ao mercado gritando "Onde está Deus?". Quando as pessoas riem dele, o louco responde: "Eu vou lhes dizer! Nós o matamos - você e eu. Somos todos seus assassinos. Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos quando desatamos esta terra de seu sol?". Percebendo que chegou cedo demais, ele conclui: "Meu tempo ainda não chegou. Este tremendo acontecimento ainda está a caminho."
Este documentário captura precisamente o dilema antevisto pelo filósofo alemão. Durante séculos, assistimos a revoluções que prometiam libertar a humanidade da tutela religiosa - derrubaram reis ungidos por Deus, criaram sociedades laicas onde o poder nasceria do povo. Mas o que o filme revela, com uma clareza perturbadora, é que não basta "matar Deus" sem saber o que colocar no lugar.
A câmera nos mostra como, paradoxalmente, as revoluções contemporâneas parecem seguir o caminho oposto: em vez de secularização, testemunhamos o ressurgimento de messianismos políticos, cultos de personalidade e fundamentalismos ideológicos. A estrutura da fé permaneceu intacta, apenas mudou de altar - do divino para o Estado, do sagrado para o mercado, da transcendência para o algoritmo.
O que torna este documentário particularmente poderoso é como ele revela a arrogância por trás da crença iluminista de que a racionalidade automaticamente libertaria a humanidade da religião. Em vez disso, assistimos ao surgimento de novas formas de idolatria: influenciadores digitais como profetas, partidos políticos como igrejas, teorias conspiratórias como liturgias.
O homem da lanterna de Nietzsche não era um ateu militante, mas um visionário trágico que percebia as trevas que viriam com a morte de Deus. Este filme nos coloca na mesma posição desconfortável: somos nós os loucos que enxergam o vazio, ou aqueles que riem, ainda anestesiados pela ilusão de que matamos os velhos deuses sem criar novos ídolos?
Esse é realmente um filme atemporal e, paradoxalmente ou não, muito atual, em tempos de IAs avançadíssimas. Talvez um dia cheguemos à era da consciêncIA.
"Perfect Days" é um filme tocante, silencioso e profundamente reflexivo, dirigido magistralmente por Wim Wenders. A obra encanta pela maneira delicada como explora o conceito filosófico do contentamento, um estado de espírito raramente valorizado em nossa frenética vida moderna.
O protagonista, Hirayama, é um exemplo belíssimo da simplicidade e da valorização das pequenas alegrias cotidianas, encontrando satisfação em gestos mínimos como fotografar copas de árvores, escutar fitas cassete antigas, ou limpar meticulosamente banheiros públicos.
O filme brilha especialmente ao mostrar que a felicidade não reside em grandes eventos ou riquezas materiais, mas sim em momentos singelos, cheios de significado e beleza sutil. Hirayama cultiva um estoicismo inspirador, aceitando calmamente as adversidades e encontrando paz interior mesmo diante de imprevistos. Sua rotina, longe de ser enfadonha, revela-se plena de pequenas descobertas e prazeres genuínos.
Wenders apresenta com sensibilidade o contraste entre a vida simples e satisfeita do protagonista e o descontentamento generalizado das pessoas ao seu redor, fazendo-nos refletir sobre nossas próprias escolhas e o verdadeiro sentido de felicidade.
"Perfect Days" é mais que um filme; é uma profunda meditação sobre a importância de apreciar cada instante da vida, valorizando aquilo que temos ao invés de desejar aquilo que nos falta. Uma verdadeira obra-prima sobre a beleza da simplicidade e a profundidade dos pequenos momentos.
O protagonista, Hirayama, vive uma rotina simples e repetitiva. Mas Perfect Days mostra como ele encontra beleza e sentido justamente nas pequenas coisas passageiras: uma folha caindo, um sorriso, um jogo da velha em um papel esquecido. O komorebi sintetiza essa filosofia: "viver o agora com presença, porque cada agora é precioso".
O que foi aquela luta da Beth com o Jamie? Ridiculamente inverossímil. Além de tudo, querer fazer crer que tudo já fazia parte de um plano previamente imaginado pela Beth... Tem dó! Fraquíssimo.
Tenho dificuldades para gostar de musicais. Acho difícil encaixar isso na trama (e com esse filme não foi diferente). No entanto, o roteiro é tão original que compensou essa característica negativa. As atuações, sobretudo de Zoe Saldana e (principalmente) de Karla Sofía Gascón estão excepcionais!
No Caminho
3.5 27 Assista AgoraVisceral!
Para quem não entendeu o final, minha leitura:
A última cena não significa que Veneno foi solto nem que Muñeco não foi castrado.
Ela funciona de maneira simbólica/subjetiva, quase como uma imagem mental. O diretor constrói o filme com lembranças, imagens subjetivas e momentos que não devem ser lidos necessariamente como continuidade cronológica literal. Inclusive há análises destacando que o filme abre e fecha com imagens semelhantes, transformando a estrada e o deserto em uma espécie de ciclo.
Minha leitura daquela última imagem é: Muñeco continua carregando Veneno consigo, mesmo separado dele. Não é “ah, Veneno escapou da prisão e voltou para o caminhão”. É a materialização do vínculo que ficou.
Isso combina perfeitamente com o arco dos dois. No começo, Muñeco diz basicamente: “não me meta em problemas”. No fim, ele sacrifica literalmente o próprio corpo para salvar o garoto.
E tem uma ironia brutal nisso: durante o filme inteiro, sexo, pênis, virilidade e masculinidade são usados como símbolos de poder naquele universo de caminhoneiros. Muñeco finalmente aceita seu afeto/desejo por Veneno justamente quando acaba sendo punido pela mutilação do órgão que simbolizava aquela masculinidade.
Por isso o final é tão cruel: Veneno permanece fisicamente inteiro, mas preso; Muñeco permanece livre, mas mutilado. Os dois se salvam parcialmente e, ao mesmo tempo, perdem a possibilidade de continuar juntos.
E aquela dança ao som de “Los Caminos de la Vida” pouco antes já anuncia tudo. O próprio David Pablos chamou a sequência de “baile da morte”, uma espécie de momento de paz antes da catástrofe.
Assim, o final é deliberadamente ambíguo, mas poético.
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
3.9 104Todo filme com polvo me emociona! São realmente criaturas de inteligência superior.
Mestres do Universo
3.2 457 Assista AgoraEsperava mais drama e menos comédia
Sobreviventes: Na Selva (1ª Temporada)
3.7 13 Assista AgoraSim, tenho minhas críticas em razão da ausência de demonstração das habilidades de sobrevivência e sim, tenho um ranço enorme de alguns participantes da equipe "Charlie", mas a série é viciante pra c*****
Euphoria (3ª Temporada)
2.9 196 Assista AgoraEssa foi a temporada mais pesada e sombria, mas também a mais densa. A série fechou com chave de ouro
(fiquei chocado com a morte da Rue)
O Diabo Veste Prada 2
3.3 424 Assista AgoraFilme horroroso. Jamais deveria ter existido!
Treta (2ª Temporada)
3.4 66 Assista AgoraO final em si, com a ideia do ciclo de Samsara, foi bom e fez sentido dentro da proposta da série. O problema é que o episódio final força demais a barra: tem tanta situação implausível, tanta conveniência de roteiro e tanta coisa inverossímil acontecendo em sequência que a experiência acaba azedando. A conclusão conceitual é boa, mas a execução foi tão capenga que derrubou muito a nota da série.
Pssica
3.8 73 Assista AgoraCai muito de ritmo e qualidade. É uma série decrescente, em que o melhor está no início
Apocalipse nos Trópicos
3.8 189 Assista AgoraNa obra "A Gaia Ciência" (1882), Friedrich Nietzsche apresenta uma das passagens mais impactantes da filosofia moderna: o parágrafo do homem louco. Na cena, um homem acende uma lanterna em pleno dia e corre ao mercado gritando "Onde está Deus?". Quando as pessoas riem dele, o louco responde: "Eu vou lhes dizer! Nós o matamos - você e eu. Somos todos seus assassinos. Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos quando desatamos esta terra de seu sol?". Percebendo que chegou cedo demais, ele conclui: "Meu tempo ainda não chegou. Este tremendo acontecimento ainda está a caminho."
Este documentário captura precisamente o dilema antevisto pelo filósofo alemão. Durante séculos, assistimos a revoluções que prometiam libertar a humanidade da tutela religiosa - derrubaram reis ungidos por Deus, criaram sociedades laicas onde o poder nasceria do povo. Mas o que o filme revela, com uma clareza perturbadora, é que não basta "matar Deus" sem saber o que colocar no lugar.
A câmera nos mostra como, paradoxalmente, as revoluções contemporâneas parecem seguir o caminho oposto: em vez de secularização, testemunhamos o ressurgimento de messianismos políticos, cultos de personalidade e fundamentalismos ideológicos. A estrutura da fé permaneceu intacta, apenas mudou de altar - do divino para o Estado, do sagrado para o mercado, da transcendência para o algoritmo.
O que torna este documentário particularmente poderoso é como ele revela a arrogância por trás da crença iluminista de que a racionalidade automaticamente libertaria a humanidade da religião. Em vez disso, assistimos ao surgimento de novas formas de idolatria: influenciadores digitais como profetas, partidos políticos como igrejas, teorias conspiratórias como liturgias.
O homem da lanterna de Nietzsche não era um ateu militante, mas um visionário trágico que percebia as trevas que viriam com a morte de Deus. Este filme nos coloca na mesma posição desconfortável: somos nós os loucos que enxergam o vazio, ou aqueles que riem, ainda anestesiados pela ilusão de que matamos os velhos deuses sem criar novos ídolos?
Homem com H
4.2 533 Assista AgoraMuito bom. De rir, curtir e chorar
(só não gostei da dublagem)
The Last of Us (2ª Temporada)
3.5 463 Assista AgoraMuitos recursos de "Deus ex machina" nessa temporada, lamentavelmente, o que faz perder a força da verossimilhança do roteiro.
Ela
4.2 5,8K Assista AgoraEsse é realmente um filme atemporal e, paradoxalmente ou não, muito atual, em tempos de IAs avançadíssimas. Talvez um dia cheguemos à era da consciêncIA.
Dias Perfeitos
4.2 631 Assista Agora"Perfect Days" é um filme tocante, silencioso e profundamente reflexivo, dirigido magistralmente por Wim Wenders. A obra encanta pela maneira delicada como explora o conceito filosófico do contentamento, um estado de espírito raramente valorizado em nossa frenética vida moderna.
O protagonista, Hirayama, é um exemplo belíssimo da simplicidade e da valorização das pequenas alegrias cotidianas, encontrando satisfação em gestos mínimos como fotografar copas de árvores, escutar fitas cassete antigas, ou limpar meticulosamente banheiros públicos.
O filme brilha especialmente ao mostrar que a felicidade não reside em grandes eventos ou riquezas materiais, mas sim em momentos singelos, cheios de significado e beleza sutil. Hirayama cultiva um estoicismo inspirador, aceitando calmamente as adversidades e encontrando paz interior mesmo diante de imprevistos. Sua rotina, longe de ser enfadonha, revela-se plena de pequenas descobertas e prazeres genuínos.
Wenders apresenta com sensibilidade o contraste entre a vida simples e satisfeita do protagonista e o descontentamento generalizado das pessoas ao seu redor, fazendo-nos refletir sobre nossas próprias escolhas e o verdadeiro sentido de felicidade.
"Perfect Days" é mais que um filme; é uma profunda meditação sobre a importância de apreciar cada instante da vida, valorizando aquilo que temos ao invés de desejar aquilo que nos falta. Uma verdadeira obra-prima sobre a beleza da simplicidade e a profundidade dos pequenos momentos.
Fonte: Episódio 161 de "Autoconsciente" + IA
Dias Perfeitos
4.2 631 Assista AgoraO protagonista, Hirayama, vive uma rotina simples e repetitiva. Mas Perfect Days mostra como ele encontra beleza e sentido justamente nas pequenas coisas passageiras: uma folha caindo, um sorriso, um jogo da velha em um papel esquecido. O komorebi sintetiza essa filosofia:
"viver o agora com presença, porque cada agora é precioso".
Black Mirror (7ª Temporada)
3.8 335 Assista AgoraCada vez pior, nem sei por que insisto
Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (1ª Temporada)
4.1 186 Assista AgoraIncrível, incrível, incrível. Uma minissérie para todos, mas não para qualquer um.
Wicked
3.9 526 Assista AgoraQue musical maravilhoso. E as atuações femininas estão fortíssimas!
Coringa: Delírio a Dois
2.5 924 Assista AgoraUm delírio a 5, acrescentando o meu por ter assistido, o do roteirista por ter roteirizado e o do diretor por ter dirigido.
Yellowstone (5ª Temporada - Parte 2)
3.7 41 Assista AgoraA temporada mais fraca de todas, com um final pouco verossímil, chocho, capenga, manco, anêmico, frágil e inconsistente.
O que foi aquela luta da Beth com o Jamie? Ridiculamente inverossímil. Além de tudo, querer fazer crer que tudo já fazia parte de um plano previamente imaginado pela Beth... Tem dó! Fraquíssimo.
A Pianista do Número 6: A Música Salvou a Minha …
4.4 10Alice Herz-Sommer era a sabedoria personificada.
Sebastian
3.2 27 Assista AgoraMasterpiece!
Round 6 (2ª Temporada)
3.5 419 Assista AgoraComeça ruim e vai piorando
Gladiador II
3.3 586 Assista AgoraQue filme horroroso! Muito mal feito, cheio de erros de edição, de direção e com atuações porcas e histriônicas. Não faz nem sombra ao primeiro.
Emilia Pérez
2.4 484 Assista AgoraTenho dificuldades para gostar de musicais. Acho difícil encaixar isso na trama (e com esse filme não foi diferente). No entanto, o roteiro é tão original que compensou essa característica negativa. As atuações, sobretudo de Zoe Saldana e (principalmente) de Karla Sofía Gascón estão excepcionais!