as pessoas sendo controladas pelo que a ciência conseguiu conquistar e sofrendo lavagens cerebrais a todo momento pela indústria da moda, por telas e mais telas, por conversas fúteis, bombas calóricas, nao tendo relacionamento pessoalmente apenas virtualmente, desaprendendo a andar, sem contar a sedentarização e a preguiça constante... tirando a incapacidade óssea provocada pela baixa gravidade no espaço. o mundo de wall-e representa uma distopia. ele traz certa semelhança com elysium, onde a humanidade consome todos os recursos naturais da terra, e busca conforto material em outras coordenadas do espaço, o que configura um típico comportamento nosso: viver em um ambiente, sujá-lo, destruí-lo e, não arcando com nossas responsabilidades, indo habitar outro ambiente. trágico. triste. triste porque muitas das características do filme também têm certas similaridades com o nosso presente, uma época em que as pessoas (sobre)vivem em função de telas seja no computador, no tablet, na televisão, no celular, deixando de viver o que de fato importa (toda a aventura de wall-e e eva acaba unindo duas pessoas que reparam na beleza do universo e do local no qual eles vivem. são os que conseguem despertar do "sonho", da ilusão, e aqui até platão poderia ser citado, bem como na cena que o capitão finalmente descobre que a sua condição de fato sempre foi uma farsa hahahaha hilário. irônico. somos capitães de nossas naves? acho que não).
tava com esse filme no computador há semanas, e sempre ocorre o mesmo: os filmes que mais demoro a ver são os que mais amo. wall-e entrou pra um dos meus favoritos por conseguir retratar coisas tão importantes, fundamentais, atuais e (in)visíveis no nosso mundo: a nossa relação com as máquinas, o nosso estado de inércia constante, a desumanização (e reumanização no final do filme, recontando a história da humanidade em conjunto com a "roboticidade" <333), a criação e destruição de valores (até porque se um anel de diamante não significou nada para uma máquina e significa algo para nós é claramente um respaldo ao fato de que nós atribuimos valores às coisas ao nosso entorno e portanto somos responsáveis por isso, devendo arcar com as consequências que tomamos em função de certas escolhas desnecessarias e futeis), a poluição que causamos, a restauração da vida que por vezes tentamos fazer, um aperto de mão, um choque elétrico, uma palavra, amor.
continuo acreditando fortemente que só sendo muito bobinho pra ver um filme desse e achar que a Terra com os humanos é um local adequado pra ser feliz. mas como sempre, temos o poder de torná-lo adequado ao bem-estar, coisas boas e sentimentos frutíferos pelas nossas atitudes e ações. wall-e e eva são inesquecíveis. <3
filme sobre família, conflitos e religião, mas sobretudo a respeito de responsabilidades! maravilhoso. a ultima cena é de cortar o coração. consegue traduzir brevemente todo o efeito de uma separação. :(
"bem, esse é o problema. nós pensamos que vivemos nos tempos modernos, protegidos em nossas casas, com os alarmes e os nossos carros modernos. mas é a eterna batalha. o diabo fará tudo para nos fazer esquecer que ele existe. é mais fácil cair em sua armadilha quando você não suspeitar de sua existência. você acredita que o diabo é uma entidade real...".
isso é dito em algum momento na TV e resume toda a ideia do filme, ao meu ver: ondas de medo que são alimentadas por instituições como a religião e a mídia, e apavoram os indivíduos, que se subordinam rápida e subjetivamente a tais ideias, e o papel de diversas instâncias científicas (o psicólogo usando a regressão em conjunto com o detetive usando o raciocínio para descobrirem as verdades necessárias.) na interpretação e na tranquilização desse medo generalizado, bem como na busca da verdade. A sociedade é tão banhada pelas ideias latentes do "bem versus mal" cristão que acaba preferindo acreditar nas propagandas domesticadoras de cultos satânicos do que botar a cabeça pra funcionar, como o próprio psicólogo fala algumas vezes.
uma coisa que me desperta a curiosidade é: se a gente não tem manifestações físicas evidentes e recorrentes da existência de deus, porque esperar manifestações físicas evidentes e recorrentes da existência do diabo? penso eu que se a gente coloca culpa no diabo de todo o mal que existe ao nosso redor, em nossas vidas e nas vidas dos outros, damos mais valor ao poder do diabo do que ao poder de deus, não? e pior, acabamos desvalorizando completamente o nosso livre-arbítrio, porque nos colocamos na condição de fantoches. bem interessante pensar sobre isso.
enfim, ainda atrelado a tais questões vem a nutrição do ego, reproduzida pelo detetive que se acha melhor que todos os demais policiais (bem expresso no diálogo final com o pai da menina) e o amor deste pai arrependido pela estrutura familiar. temas bem interessantes. de fato, acreditamos que o diabo é uma entidade real, mas na verdade nós somos o próprio mal; ele existe, como afirma o reverendo, mas em nós, por sermos capazes de fazer escolhas.
"Pela primeira vez, Grenouille soube não ter um cheiro próprio. Percebeu que em toda a sua vida fora um ninguém para toda a gente. Sentia agora o medo do seu próprio esquecimento. Era como se não existisse. Ao primeiro raiar do dia seguinte, Grenouille formara um novo plano, o de continuar a viagem até Grasse e lá mostrar ao mundo não só a sua existência, não só que era alguém, mas que era excepcional. E tomada a decisão, foi como se os deuses finalmente lhe começassem a sorrir."
Sócrates foi julgado por ser um despertador/perturbador mental e preferiu a morte pois julgou o desconhecido preferível ao não desenvolvimento de suas habilidades. Hoje é tido como um mestre. Einstein foi tido como sonhador medíocre e caso perdido por muitos. Hoje suas ideias são atestadas universalmente, inclusive admiradas. Darwin era considerado um garoto comum. Hoje é um nome célebre no meio científico. Quantos que foram inicialmente menosprezados e que são conhecidos, e infelizmente (e, na minha opinião, pior) não são conhecidos? É típico ver na história quão rejeitados, pelo menos a princípio, puderam ser o pensamento e a existência de grandes seres humanos. Pensei nisso quando passei a prestar atenção no filme.
Existe uma grande diferença entre aqueles que nada são e querem muito e aqueles que nada têm e são muito. É dentro destes últimos que se encaixa o personagem principal desse filme perfumadíssimo, que só não foi rejeitado e esquecido devido ao seu choro peculiar em uma atmosfera de enxofre.
É incrível que todos os personagens que acompanham a vida desse jovem acabam se dando mal quando o perdem. Parece que os episódios que seguem na vida dessas pessoas ocorrem pelo fato de quererem tirar vantagem encima da inocência de uma pessoa que praticamente não sabe falar, apenas sentir. Que ser humano é este? Maravilhoso. Que seres humanos são aqueles? Frívolos. Aqueles que não aceitam a insignificância da sua existência para outros, que não ouvem e se deblateram perante a voz de sua própria consciência, que veem o próximo como objeto e mero instrumento de troca, que não conseguem conviver com o silêncio de sua solidão parece que são os mesmos que mais costumam sofrer. Morrem da forma mais ridícula, talvez.
Esse filme é lindo. Ele traz à tona um sentido à existência humana, que é construída por nós mesmos; cria um ambiente desejante por mistério e mostra a beleza que a humanidade pode alcançar, a sensibilidade que ela pode mostrar, e a esperteza que ela pode atingir. Além de levantar pontos filosóficos (a busca de um sentido através dos sentidos e a natureza da beleza humana, por exemplo), ele desperta questões morais, práticas, culturais, históricas, religiosas e econômicas. É uma aula de tudo. Uma aula de poesia, inclusive.
Grenouille volta para o berço depois de alcançar a liberdade de um julgamento, o que não necessariamente implica no alcance de sua liberdade, pois "só uma coisa havia que o perfume não podia fazer: transformá-lo em alguém capaz de amar e de ser amado, como todos". Triste, porém profundo. Doloroso, porém belo. Grenouille é visto como a personificação de um anjo por ele conseguir manipular as pessoas com o seu perfume, e levar a sensação de paraíso para elas, mesmo quando estas pessoas aparentam não merecer felicidade, mesmo quando o anjo é considerado um demônio, um insignificante por estas pessoas.
Doze frascos de perfume todos podem ter, mas o décimo terceiro frasco é relíquia, é singular, é o que garante a unicidade e a riqueza de poucos. É por meio desse último frasco (que guarda as gotas mais inebriantes) que é garantido o cheiro mais intensamente cobiçado de muitos, mas que poucos tiveram, têm e terão.
Difícil ser alguém e ninguém ao mesmo tempo. E significar nada para todos. As únicas duas pessoas que veem Jamie são as que notaram a morte dele. Ele despertou o medo em Grace, mas despertou a curiosidade e a amizade de Adam. "Assassino" e "Tristeza" são palavras que chocam profundamente um indivíduo que só queria experimentar "Amor". O desejo de desaparecer é evidente nesse filme. Desaparecer de um mundo rodeado pela passividade, pela maldade e pelo egoísmo de tantas pessoas. Filme simples, triste, lindo.
Filme lindo. Não apenas pela fotografia e pelos efeitos, mas pelo brilhantismo do contexto. Embora seja bem previsível (como boa parte dos grandes filmes vistos nas grandes telas dos grandes cinemas), tem uma carga teórico-reflexiva maravilhosa, apontando questões como o imperialismo, o embate cultural e a consciência ambiental. Engana-se quem acha que os Avatares diferem-se de nós, seres humanos. Pelo contrário, acredito que não somos nem os coloridos Na'vi nem os humanos robotizados, somos seres híbridos, obras cujas vontades oscilam ao sabor de um suspiro. Temos, em parte, consciência de que nada mais somos do que extensão da natureza, que dependemos dela para sobrevivência, que elas nos empresta os frutos, a energia citada no filme, para em seguida pegar de volta. Mas temos também uma parte negra, que nos propulsiona à degradação da Mãe que nos protege. Somos filhos ingratos também! Sedentos por terra, lucro e poder, orquestramos o imperialismo que promoveu tanta miséria, como as guerras que a humanidade vivenciou no século passado. Outra questão colocada pelo filme: a responsabilidade que temos pelas nossas ações. Devemos assumir nossos medos, nossas angústias, nossa verdadeira força e nossos desejos mais profundos para que as nossas escolhas atraiam sempre o que de melhor podemos receber. É uma mensagem linda que o filme passa. Bem como filmes do tipo Onde Vivem os Monstros e Labirinto do Fauno, Avatar é um filme que serve de aprendizado não apenas para as crianças, mas para adultos em geral.
Amor é fogo que arde sem se ver. Sente-se, mas é impossível defini-lo. "Amor é vida. Amor é luz" nada mais significam do que metáforas, predicativos criados com a intenção de intensificar qualquer emoção ou alegria no passado, presente ou futuro. É uma ferida que doi e não se sente, um paradoxo letal, que galvaniza a alma, o corpo, a mente ao mesmo tempo que corrompe todos os nossos sistemas vitais. É um contentamento descontente, inflama e arrefece, atraindo olhares estritamente subjetivos, repelindo aplausos subjetivamente estritos. É dor que desatina sem doer.
Num universo colorido, de múltiplas possibilidades e consequentemente múltiplas dificuldades, não é possível fugir dos prazeres e infortúnios, das alegrias e tristezas, da saúde e da doença que o amor e o ódio pode nos causar. Somos frutos de um universo maniqueísta, onde do tudo e do nada brota o que da nossa mente não escapa.
Incrível como tudo que não apresenta um conceito definitivo nos persegue incondicionalmente: deus, liberdade, morte, amor. Talvez todos estejam intrinsecamente concatenados de forma a proporcionar o que nos é de mais familiar.
Dor é reflexo de uma vida com amor. Indolência é reflexo de uma vida sem amor. Qual é mais apetecível?
Um filme é uma pintura de diferentes caracteres da nossa vida, e Amor é sem dúvidas um deles. Interessantíssima a abordagem que o filme faz sobre a concepção de um relacionamento em específico, mas que acaba se encaixando em exemplos bem gerais, com tudo o que deles advém: monogamia e parceiros vários, filhos, rotina, pesadelos, gaiolas, segredos, saudades. É impossível assistir a esse filme e não contemplá-lo como uma fonte de tristeza. Pensar em amar é começar a sofrer, e sofrer nos entristece, nos mata, nos conduz ao que, em muitos casos, mais tememos. Assim como a vida, um relacionamento começa com uma cena intensa de sexo, perpassa por todos os obstáculos que o mundo nos oferece (as drogas do dia-a-dia, a obscuridade das influências, os mistérios do enclausuramento), e finda em um laço rígido e tênue, numa feliz infelicidade.
Em diálogos com todos que conheço, em suas palavras enxergo relacionamento como instrumento de posse, e não como ferramenta de construção, e isso é o que me faz ver o "voltar-se para si", para o interior, como algo tão luminoso. É triste e desgastante viver numa sociedade que explora, industrializa, rotula, comercializa o casamento e o relacionamento de modo geral como uma das propostas máximas de vida. Mais triste e desgastante ainda é a existência de uma sociedade que desconsidera a busca de deus em comportamento cotidiano, da liberdade em pensamentos variáveis e do amor em sentimentos fundamentais, que passa a viver de planos e expectativas rasas, esquecendo-se do principal: a manutenção da saúde e cultivo das faculdades.
"Amor" é exploração do que a vida nessa sociedade acaba nos proporcionando: a transformação do outro em objeto de posse; a exotificação do outro, bem como sua representação como apetrecho ideal de reconciliação; trepadas delirantes e amoletos fotográficos que guardamos como segredos para acreditarmos que um dia já fomos felizes por causa do que nem paramos para admirar. Lindo filme.
Queria ter lido o livro antes de assisti-lo, mas lerei mesmo assim. Um tapa na cara naquilo que costumam rotular como "casal perfeito" e "amor verdadeiro", esse filme mostra quão controlada e superficial pode ser a convivência de um casal durante uma relação "afetiva", que no caso é o casamento. A maravilhosa vida de aparências ganha força com essa garota, de fato, exemplar. E é ótima a exposição que os meios de comunicação transborda quando quer ganhar audiência, polemizar e manipular informações. Amei e sei que reverei várias vezes.
"Um: matemática é a linguagem da natureza. Dois: tudo ao nosso redor pode ser representado e entendido através de números. Três: se representarmos graficamente os números de qualquer sistema, os padrões surgem". Notas pesadas, porém pertinentes.
O filme cita a relação de Pitágoras com a matemática, e a importância que esta tinha para o gênio. E tal importância nunca foi deixada de lado. Na ciência moderna, a matemática tem papel central, por exemplo, comportando-se como um instrumento simples de uma rigorosa investigação da natureza. Derivou daí as lógicas do "conhecer é quantificar" e "conhecer é dividir", pois o mundo é complicado e a mente humana não é apta a compreendê-lo. Max aparece neste filme e acredita sim na possibilidade não apenas de entender o universo de modo geral, mas entendê-lo através de padrões matemáticos. Baseada em tal crença, debruça-se nas investigações.
Assim como "pi" é um número difícil, acredito que impossível, de ser assimilado, enquanto filme não muda muita coisa. Por ficar claro que é impossível entendê-lo assistindo apenas uma vez, acaba se transformando num filme maravilhoso. Algumas impressões são bem consistentes, como o desenvolvimento frenético que assola Requiém para um sonho e Cisne Negro, por exemplo; a importância de símbolos (números, representações) para a religião (o verdadeiro nome de deus tem 216 letras, o que aparenta ser humanamente inconcebível, ou seja, o homem nunca poderá conhecer ou entender qualquer que seja o Deus, uma vez que a existência dele é regida por outros padrões, que o homem não é capaz de traduzir) e para a economia (o entendimento do padrão de mecanismo do sistema financeiro é equivalente à visualização de deus, o que não pode ser alcançado ou cair em mãos erradas), bem como o desejo de controle de tais símbolos para vontades pontuais; o delírio impetuoso do personagem causado pela força da sua vontade; o conflito entre a obstinação jovial e a desesperança da senilidade etc. Muitas informações podem ser obtidas no filme, e, embora o cerne ainda permaneça turvo, de uma coisa é certa: "a vida não é só matemática". Amei.
Embora previsível, é gostoso de assistir. Quis vê-lo quando li a sinopse e me lembrei de Ferrugem e Osso. Uma história de superação, de reavaliação de objetivos, propósitos e sobretudo de si mesmo. É um filme sobre competição ("o que vamos fazer senão competir uns com os outros?") e, portanto, sobre a vida padronizada que temos. O que insere um tom mágico a esse filme são, sem dúvidas, os diálogos traçados entre o personagem principal, Dan, e o velho Sócrates, cujo nome também me atraiu para assistir ao filme. Muitas mensagens bonitas, metáforas não tão inteligentes porém interessantes e questionamentos pertinentes permeiam as diversas mudanças que o filme injeta no personagem e traz para todos aqueles que assistem a essa obra. E o que pode melhor representar uma mudança que um acidente (metáfora que sempre me agradou nos filmes de superação) que nos tira o que mais amamos?
Um atleta que acredita ter o mundo girando ao seu redor, que pensa saber tudo e que fala mais que pensa transforma-se num indivíduo que enxerga ser parte de um todo, que não sabe nada e que pensa mais do que fala. O Sócrates é a estaca que lhe abre a percepção, e dissolve toda a tensão em seu interior. Com um diálogo bem excitante, o velho toca na ferida do novo a ponto de perguntar-lhe se este é feliz e, mais agudamente, se ele saberia o que fazer caso não obtivesse êxito em suas metas. Sem dúvidas, um tapa na cara desse não é aceito por ninguém tão facilmente, principalmente por quem digere informações em meio a emoções.
O filme bate em vários pontos, em diversos momentos, o que às vezes chega a ser um pouco exaustivo, mas vale a pena. De início, as indagações enchem os olhos e incitam pensamento; depois, chegam as mudanças. O cheio encara o vazio, o singular encara a existência da pluralidade de possibilidades, e que, para qualquer escolha, haverá uma responsabilidade. Escolher ou não escolher sempre serão escolhas e sempre seremos responsáveis por elas. Aceitar tal realidade faz de nós guerreiros, pois é difícil dar de cara com o sol quando tudo o que vimos até então foram sombras.
É interessante também uma parte do filme onde vários pensamentos são reproduzidos pelo atleta ao nível de transformação, falando sobre raízes do medo, a existência de controle na teoria do caos, e até mesmo uma das mais potentes frases do filme: "as pessoas pessoas que tem dificuldades em amar, geralmente são as que mais precisam" (frase que revela que muito do que foi pensado foi superficialmente articulado, a ponto de ser descartado(?) pelo velho. Talvez ele não tenha descartado, talvez sua apatia fosse apenas um estímulo para o maior aprofundamento do jovem, enfim). Até o momento que ele chega a conclusão de que "há sempre algo acontecendo"; que "não há momentos ordinários".
Os atletas estão sempre correndo, o velho mecânico está sempre tranquilo. Um ponto latente nesse filme é a pressa que nos perturba: somos bombardeados por uma enxurrada de informações, medos, desejos, instrumentos, bloqueios, abraços e flechadas 24 horas por dia; estamos sempre correndo, com um destino incerto, e acabamos entrando na nebulosidade que é essa realidade entediante que nos atormenta ao longo do dia. Nunca apreciamos o momento. Nunca prestamos atenção nos pequenos detalhes que edificam cada momento do nosso dia. Nosso olhar não se volta para as ondas e quer enxergar a maré. A atenção em um ponto naufraga e traz à tona a desatenção na reta. E assim somos transformados em robôs famigerados por um fim que nem sabemos o que é, onde é, como é ou se é. A única certeza que temos é que um dos fins indubitáveis é a morte, e por isso retiramos o caráter felicidade que ela pode apresentar, pois ela nos tira o que nos faz feliz. Mas será que a vida realmente é uma caixinha de felicidade? Será que a morte é triste? "A morte não é triste, triste é a maioria das pessoas que não vive".
Temos poder enquanto vivos por termos a capacidade de conhecer sempre mais e de nos transformarmos cada vez mais. Mas também há poder além da vida, enquanto mortos, enquanto idas criaturas, quando temos a convicção de que tivemos a capacidade de transformar alguém através do questionamento e, por isso, sermos lembrados. Sócrates representa o poder além da vida de Daniel ao conseguir transformá-lo para uma vida que ele pode transformar, mesmo não a compreendendo. A reavaliação de si próprio não destrói a essência, fortalece-a! Sabendo que "nada fica igual para sempre", todos podemos nos modificarmos e sermos felizes pois esta é uma possibilidade. Basta estamos aptos para a jornada.
Pesadíssimo! Precisei parar em algumas cenas para respirar. Algumas cenas legitimam o pavor que o receptor da mensagem mais evidente do filme pode vir a ter: fuja dos sonhos que possam vir a ser delírios! De início, no verão, tudo se parece colorido, a felicidade, o amor, o espírito fraternal e o bem-estar, perante os outros e consigo próprio, pairam no ar. O sonho de dois jovens parece ter tudo para dar certo; a distância da solidão aparenta ser verdadeira e a vontade de aparecer na televisão é bem possível. Infelizmente, tão logo se percebe que os meios utilizados para manutenção ou alcance de tais desejos rapidamente serão os responsáveis pelos distúrbios pessoais de cada personagem.
Se Harry, juntamente com Tyrone, deposita toda sua esperança de obter lucro perpetuamente através do narcotráfico, é no outono que tudo passa a despencar. No inverno, só agravamentos e o choque de realidade, mesclados com danos ao corpo, isolamento e racismo. Se, no verão, Sara recebe um telefonema que a deixa desesperadamente alucinada em relação a aparecer na televisão, levando-a a buscar meios de se encaixar no vestido, ou melhor dizendo, nos padrões socialmente desejáveis, é no outono que sua condição psicológica entrará em declínio, e é no inverno que ela se transformará num boneco de gelo, com apenas uma reação perante o universo que a cerca (a última cena na qual ela aparece é aterradora!). Se no verão Marion sente-se bem no relacionamento com Harry, desfrutando dos prazeres de não pertencer ao convívio familiar, no outono o seu vício recrudesce e no inverno ela se vê inteiramente fora de si. Aliás, se é que no final ela consegue ter alguma perspectiva de si. Na minha visão, só dois indivíduos tem noção do estado a que chegaram.
O que se pode tirar desse filme espetacular é uma lição de vida: tudo em demasia, tem suas consequências. O comércio de drogas ilícitas e o desserviço da mídia ao introjetar o "sonho americano" são diretamente pontuados no filme. O que leva uma pessoa a levar em consideração a palavra e a receita de um médico que nem olha na sua cara? O que leva uma pessoa a continuar se medicando com algo que está visivelmente lhe fazendo mal? O que leva uma pessoa a arriscar seu corpo para buscar mais conforto temporário? Sonhos persistente e abusivamente alimentados talvez seja uma resposta pertinente.
Não enxergar um objeto específico de vida, ou viver a mercê de objetivos efêmeros, pode causar um confronto não muito amigável com o vazio que delineia a nossa existência. Muitos vivem bem porque têm metas traçadas e esforçam-se para atingi-las, embora não percebam claramente, de tão cristalizadas que tais metas estão pelo meio social no qual estamos inseridos. Mas o filme traz à superfície questões cotidianas, como a solidão de uma senhora que viu o marido e o filho partir, uma mulher que não se sente preenchida pelo que seus pais podem oferecer, um homem que perdeu a pessoa que mais amava e outro homem que vive em busca de se sentir bem e realizar algum propósito. São características peculiares e comuns a muitos indivíduos dessa tão agradável modernidade líquida. Indivíduos que se sentem solitários ou que não tem nenhuma perspectiva são jarras disponíveis a qualquer tipo de líquido, seja ele um suco de maçã ou ácido clorídrico, por exemplo.
Esse filme é genial e perturbador, mostrando que o louvor exasperado a sonhos nem sempre é tão saudável como aparenta ser.
A história de um homem que pensa em ter se transformado num deus, e de uma máquina que acredita em se transformar num ser humano, somada à uma dimensão psicológica, resultou num belíssimo filme. Amei.
Filme delicado, porém incisivo. Traz à superfície um questionamento pertinente ao o conhecimento científico no mundo contemporâneo: será que a ciência de fato constitui uma verdade universal e absoluta? Diante de um mundo que se renova a cada dia, será que o autoritarismo científico, com suas leis, teorias etc., podem nunca ser submetidas à dúvida? Cientistas especializados se posicionam como detentores desta tal verdade imutável e acabam deslegitimando a história de um amigo. A história do homem da terra é surreal, ao passo que o pressuposto da infalibilidade do conhecimento científico é real, aparenta ser intangível. E é violento, pois inferioriza e marginaliza qualquer conhecimento que não passe pelo crivo do método científico. Os intelectuais são tão prepotentes e arrogantes a ponto de encaixarem uma pessoa com a qual conviveram por dez anos em uma posição de louco, por mais que todas as informações dadas tenham sentido, e façam sentido. Tanto que todos quase deixam seus queixos caírem ao chão ao fim da história! Lembrei uma colocação de Boaventura de Sousa Santos, quando ele cita que a ciência moderna acaba transformando o cientista em um ignorante especializado e o indivíduo comum em um ignorante generalizado. É por aí.
“Estamos fracassando. Fracassamos. Fracasso no sentido de que deixamos todo mundo na mão, incluindo nós mesmos”.
Melancólico, existencial, profundo, subjetivo, provocante e questionador: qual a nossa real missão nesse mundo representado pelo caos; até onde somos capazes de ser apáticos perante a intensidade da dor alheia; e qual o sentido e a orientação de nossas vidas? Um dos melhores filmes que já assisti.
Não é um filme de sexo, mas um filme sobre o sexo. Sobre a vergonha (daí o título do filme) que uma pessoa sente em ser viciada na prática sexual de maneira tão agressiva, encontrando na mesma uma fixação “nojenta, inconsolável e invasiva”, como bem coloca o chefe, numa reunião. O “sexo por sexo” é posto como alicerce do filme, desde o momento inicial do filme, quando Brandon, o personagem principal da trama, acorda despido e pensativo, até a última cena.
Não se trata de cenas de sexo despropositadas. O vício é retratado de forma bastante melancólica e negativa. Desenvolve-se, desta forma, mostrando o cotidiano de um homem que tem seu apartamento aconchegante, seu trabalho fixo e sua estabilidade financeira, que o permite frequentar bons locais, mas que, mesmo em meio a aspectos tão bem quistos por qualquer um, uma vida estável, só consegue encontrar prazer no silêncio de sua privacidade e na inércia de sua fraqueza. A alegria e vontade de conhecer pessoas de seu colega e chefe não o entusiasmam suficientemente para almejar a vida social. A sua irmã, que inicialmente se mostra também animada, não o deixa à vontade para curtir o que lhe convém, e logo passa a ser vista como um obstáculo, impedindo o irmão de aproveitar sua vida íntima.
O vício em sexo que consome Brandon o corrompe ao longo do filme de tal forma que ele não consegue estabelecer conexões sociais com mais ninguém, nem com sua própria irmã. O final do filme esclarece tal perspectiva ao mostrá-lo isolado, desolado, sobretudo cansado. Conforme avançamos no cotidiano de Brandon, notamos o aumento de sua angústia em conviver com sua irmã. Discussões e uma relação quase incestuosa refletem uma infância nada saudável, o que pode ser levado em consideração ao ouvirmos da bela Sissy “não somos pessoas más, só vinhemos de um lugar ruim”, no exato momento em que seu irmão transa com duas mulheres simultaneamente. Possivelmente a convivência com seus pais não fora tão boa, mas nenhuma informação a respeito é relatada em momento algum. Fica a reflexão por parte do espectador.
Em um certo momento, vemos Brandon tentar controlar o seu “vírus”, assumindo-se vitorioso ao conseguir sair com uma mulher com a qual manteve, finalmente, um diálogo tranquilo, embora que pouco consolidado. No entanto, o mesmo vírus volta a mostrar o controle sobre o psicológico do personagem. A cena do motel prova com um momento constrangedor para ambos, porém mais arrebatador para Brandon. Mais perto do término, por fim, percebemos a falta de bom senso que ele apresenta, ao se deixar levar pelo avanço da sua condição, pela proliferação do desejo de querer sexo apenas por básico desejo: seja na cena do bar com a namorada de um outro rapaz, seja na boate gay onde ele acaba beijando e recebendo sexo oral de outro homem.
Shame, além das cenas de sexo, capta o drama da vivência dos personagens, algo que McQueen faz sutilmente. Daí resulta as inúmeras cenas estáticas, centradas nas expressões de Brandon e dos que se estabelecem em seu entorno. Vê-se, portanto, mediante a vergonha de uma pessoa, a exploração do corpo e comportamento de uma maneira bem interessante neste filme.
Emocionante! Não consegui não chorar acompanhando o sofrimento de Ludovic, expresso no silêncio e nos breves imperativos que conseguia impor ainda na infância. Filme colorido, concreto e abordado de forma sensível, sem deixar de ser realista, Minha Vida em Cor-de-Rosa retrata, sobretudo, o preconceito sofrido por uma pessoa transexual que se inicia desde criança e a falta de aceitação perante o não cumprimento aos padrões estipulados. O padrão: a heternormatividade. E Ludovic é prova incontestável da triste realidade discriminatória, violenta, ao ouvir risadas, ao ser observado de soslaio por todos ao seu redor e, o pior, ao ter sua identidade de gênero constantemente deslegitimada.
Embora tente se adequar aos paradigmas socialmente impostos, como brincar de carrinho, brincar de guerra com seus irmãos e até pegar em partes íntimas, Ludo não consegue se ver como menino em nennhum momento do filme, e a sua infelicidade é visivelmente exposta de maneira tocante. Impossível assistir à forma como seus pais lhe tratam desde o início do distúrbio familiar até os penúltimos minutos do filme, onde, finalmente, consegue visualizar que não é o único a passar pelo mesmo dilema de não se encaixar em quadrados perfeitos ditados pelos seus pais, pelos seus vizinhos, pelo diretor da sua escola e pelos seus colegas.
É linda a capacidade de o filme não deixar totalmente explícito o decorrer da história de Ludo, como será seu convívio além da infância, na escola e em ambientes que poderá vir a conhecer. Imagina-se que não será nada fácil, mas que com o amor incondicional de sua família, todas as barreiras serão ultrapassadas. Ludovic, enfim, é e sempre terá em Pam a fonte de suas inspirações, e sempre será perfeito em seu modo de ser, tendo ou não um X a mais.
O tipo de filme que te torna invasivo, querendo compreender o âmago, os pensamentos, os sentimentos, as dúvidas e certezas, a mente, de modo geral, do personagem. James, o sósia de Simon, não aparece de forma a confrontá-lo na sua vida pessoal e no seu trabalho. Ele surge com ímpeto na tentativa de aniquilar a passividade, a timidez e a detestável tranquilidade de Simon. Um “amigo”. O comportamento do sósia é, no entanto, visto como uma atitude negativa, o que acaba levando ao confronto. Ou seja, o confronto é efeito de se olhar no espelho. É estranho, é bizarro o fato de ninguém perceber a sua semelhança com o sósia por causa da sua invisibilidade inquestionável perante a todos, em todo os locais, em todos os momentos. Ele passa despercebido a ponto de nem parecer gente.
“Não posso ver o tipo de homem que quero ser em relação ao homem que sou. Eu sei que estou fazendo isso, mas sou incapaz de fazer o que precisa ser feito”, começa Simon numa reflexão interessantíssima, no momento que volta para casa, sentado no trem de frente para o seu alter ego. É nesta sua segunda personalidade que ele, inconscientemente, consegue se enxergar (ou consegue ver o que gostaria de ser), embora continue demonstrando fortes sinais de inércia. Como o próprio menciona, “sou como o Pinóquio: um menino de madeira, não um menino verdadeiro”. A madeira o impede de realizar movimentos mais “descolados”.
Todo esse aspecto existencial cunha um filme com uma fotografia gostosa, uma falta de dinamismo até certo ponto apreciável e uma narrativa intrigante. A temática te puxa por conseguir ser obscura na medida certa, não permitindo que sua atenção seja desviada. A não ser, claro, que diálogos mais consistentes, com menor caráter reflexivo e menos prioridade psicológica e menos drama, talvez até uma dose ainda menor de suspense, sejam requisitos que façam mais a sua praia.
A partir do momento que o “você não existe mais. Você não está no sistema” é proferido, torna-se perceptível a interrogação que se instala no cérebro de Simon, a ponto de conduzi-lo a trilhos que podem não ser os mais viáveis. Por fim, O Duplo finalmente consegue semear a semente da discórdia, mas contempla também o objetivo de transformar a vida de seu “original”, seja para um lado positivo, ou negativo (se é que ambos os personagens não são originais em seus contextos, em seus mundos e quartos alugados). Provar que, independentemente da natureza, de ser um boneco de madeira ou uma cobra, e das intensidades das ações executada, qualquer um é uma pessoa, que fundamentalmente existe, talvez seja uma das principais tarefas do filme.
Ácido, inteligente e absolutamente coerente: o Discreto Charme da Burguesia é um retrato fiel e legítimo da hipocrisia que se esconde, ou tenta se esconder, por detrás das cortinas de um teatro onde os atos não foram ensaiados.
É ensejando a crítica aos valores e comportamentos da burguesia que o filme se desenrola. Nota-se como a “classe dominante” consegue não se importar com os que não teve a “educação adequada” em várias cenas. O padre tem seu título eclesiástico deslegitimado e esquecido por aparecer em vestimentas não concernentes à sua posição; a despreocupação dos que sentam para jantar em relação à realidade ao seu entorno; a indiferença dos anfitriões em relação a devaneios e sonhos alheios: todas essas passagens provam o caráter hipócrita e de descaso daqueles que só se importam com o que lhes diz respeito, como um belo e delicioso jantar com seus amigos. Uma possível batalha ocorre praticamente nos jardins da residência de dois dos personagens e, mesmo assim, todos permanecem na mesa. A religião é posta sutilmente como um auxílio, como de fato o é, mas também é criticada ao longo do filme. A não concessão do perdão ao próximo pelo próprio padre é sinal de um contrassenso religioso.
Um ótimo filme que preza a perspicácia, a ironia e, sobretudo, a discrição.
Rastros de um Sequestro
3.8 598 Assista AgoraQUE FILME LINDO QUE FILME LINDO QUE FILME LINDO QUE FILME LINDO QUE FILME LINDO QUE FILME LINDO
WALL·E
4.3 2,9K Assista Agoraas pessoas sendo controladas pelo que a ciência conseguiu conquistar e sofrendo lavagens cerebrais a todo momento pela indústria da moda, por telas e mais telas, por conversas fúteis, bombas calóricas, nao tendo relacionamento pessoalmente apenas virtualmente, desaprendendo a andar, sem contar a sedentarização e a preguiça constante... tirando a incapacidade óssea provocada pela baixa gravidade no espaço. o mundo de wall-e representa uma distopia. ele traz certa semelhança com elysium, onde a humanidade consome todos os recursos naturais da terra, e busca conforto material em outras coordenadas do espaço, o que configura um típico comportamento nosso: viver em um ambiente, sujá-lo, destruí-lo e, não arcando com nossas responsabilidades, indo habitar outro ambiente. trágico. triste. triste porque muitas das características do filme também têm certas similaridades com o nosso presente, uma época em que as pessoas (sobre)vivem em função de telas seja no computador, no tablet, na televisão, no celular, deixando de viver o que de fato importa (toda a aventura de wall-e e eva acaba unindo duas pessoas que reparam na beleza do universo e do local no qual eles vivem. são os que conseguem despertar do "sonho", da ilusão, e aqui até platão poderia ser citado, bem como na cena que o capitão finalmente descobre que a sua condição de fato sempre foi uma farsa hahahaha hilário. irônico. somos capitães de nossas naves? acho que não).
tava com esse filme no computador há semanas, e sempre ocorre o mesmo: os filmes que mais demoro a ver são os que mais amo. wall-e entrou pra um dos meus favoritos por conseguir retratar coisas tão importantes, fundamentais, atuais e (in)visíveis no nosso mundo: a nossa relação com as máquinas, o nosso estado de inércia constante, a desumanização (e reumanização no final do filme, recontando a história da humanidade em conjunto com a "roboticidade" <333), a criação e destruição de valores (até porque se um anel de diamante não significou nada para uma máquina e significa algo para nós é claramente um respaldo ao fato de que nós atribuimos valores às coisas ao nosso entorno e portanto somos responsáveis por isso, devendo arcar com as consequências que tomamos em função de certas escolhas desnecessarias e futeis), a poluição que causamos, a restauração da vida que por vezes tentamos fazer, um aperto de mão, um choque elétrico, uma palavra, amor.
continuo acreditando fortemente que só sendo muito bobinho pra ver um filme desse e achar que a Terra com os humanos é um local adequado pra ser feliz. mas como sempre, temos o poder de torná-lo adequado ao bem-estar, coisas boas e sentimentos frutíferos pelas nossas atitudes e ações. wall-e e eva são inesquecíveis. <3
Mar Adentro
4.2 608lindo filme. para quem gostou desse filme, recomendo "o escafandro e a borboleta". maravilhoso.
A Separação
4.2 732 Assista Agorafilme sobre família, conflitos e religião, mas sobretudo a respeito de responsabilidades! maravilhoso. a ultima cena é de cortar o coração. consegue traduzir brevemente todo o efeito de uma separação. :(
Regressão
2.8 535 Assista Agora"bem, esse é o problema. nós pensamos que vivemos nos tempos modernos, protegidos em nossas casas, com os alarmes e os nossos carros modernos. mas é a eterna batalha. o diabo fará tudo para nos fazer esquecer que ele existe. é mais fácil cair em sua armadilha quando você não suspeitar de sua existência. você acredita que o diabo é uma entidade real...".
isso é dito em algum momento na TV e resume toda a ideia do filme, ao meu ver: ondas de medo que são alimentadas por instituições como a religião e a mídia, e apavoram os indivíduos, que se subordinam rápida e subjetivamente a tais ideias, e o papel de diversas instâncias científicas (o psicólogo usando a regressão em conjunto com o detetive usando o raciocínio para descobrirem as verdades necessárias.) na interpretação e na tranquilização desse medo generalizado, bem como na busca da verdade. A sociedade é tão banhada pelas ideias latentes do "bem versus mal" cristão que acaba preferindo acreditar nas propagandas domesticadoras de cultos satânicos do que botar a cabeça pra funcionar, como o próprio psicólogo fala algumas vezes.
uma coisa que me desperta a curiosidade é: se a gente não tem manifestações físicas evidentes e recorrentes da existência de deus, porque esperar manifestações físicas evidentes e recorrentes da existência do diabo? penso eu que se a gente coloca culpa no diabo de todo o mal que existe ao nosso redor, em nossas vidas e nas vidas dos outros, damos mais valor ao poder do diabo do que ao poder de deus, não? e pior, acabamos desvalorizando completamente o nosso livre-arbítrio, porque nos colocamos na condição de fantoches. bem interessante pensar sobre isso.
enfim, ainda atrelado a tais questões vem a nutrição do ego, reproduzida pelo detetive que se acha melhor que todos os demais policiais (bem expresso no diálogo final com o pai da menina) e o amor deste pai arrependido pela estrutura familiar. temas bem interessantes. de fato, acreditamos que o diabo é uma entidade real, mas na verdade nós somos o próprio mal; ele existe, como afirma o reverendo, mas em nós, por sermos capazes de fazer escolhas.
O Escafandro e a Borboleta
4.2 1,1K"Minha imaginação e minha memória são os únicos meios que me permitem sair do meu escafandro." Devastador.
Perfume: A História de um Assassino
4.0 2,2K Assista Agora"Pela primeira vez, Grenouille soube não ter um cheiro próprio. Percebeu que em toda a sua vida fora um ninguém para toda a gente. Sentia agora o medo do seu próprio esquecimento. Era como se não existisse. Ao primeiro raiar do dia seguinte, Grenouille formara um novo plano, o de continuar a viagem até Grasse e lá mostrar ao mundo não só a sua existência, não só que era alguém, mas que era excepcional. E tomada a decisão, foi como se os deuses finalmente lhe começassem a sorrir."
Sócrates foi julgado por ser um despertador/perturbador mental e preferiu a morte pois julgou o desconhecido preferível ao não desenvolvimento de suas habilidades. Hoje é tido como um mestre. Einstein foi tido como sonhador medíocre e caso perdido por muitos. Hoje suas ideias são atestadas universalmente, inclusive admiradas. Darwin era considerado um garoto comum. Hoje é um nome célebre no meio científico. Quantos que foram inicialmente menosprezados e que são conhecidos, e infelizmente (e, na minha opinião, pior) não são conhecidos? É típico ver na história quão rejeitados, pelo menos a princípio, puderam ser o pensamento e a existência de grandes seres humanos. Pensei nisso quando passei a prestar atenção no filme.
Existe uma grande diferença entre aqueles que nada são e querem muito e aqueles que nada têm e são muito. É dentro destes últimos que se encaixa o personagem principal desse filme perfumadíssimo, que só não foi rejeitado e esquecido devido ao seu choro peculiar em uma atmosfera de enxofre.
É incrível que todos os personagens que acompanham a vida desse jovem acabam se dando mal quando o perdem. Parece que os episódios que seguem na vida dessas pessoas ocorrem pelo fato de quererem tirar vantagem encima da inocência de uma pessoa que praticamente não sabe falar, apenas sentir. Que ser humano é este? Maravilhoso. Que seres humanos são aqueles? Frívolos. Aqueles que não aceitam a insignificância da sua existência para outros, que não ouvem e se deblateram perante a voz de sua própria consciência, que veem o próximo como objeto e mero instrumento de troca, que não conseguem conviver com o silêncio de sua solidão parece que são os mesmos que mais costumam sofrer. Morrem da forma mais ridícula, talvez.
Esse filme é lindo. Ele traz à tona um sentido à existência humana, que é construída por nós mesmos; cria um ambiente desejante por mistério e mostra a beleza que a humanidade pode alcançar, a sensibilidade que ela pode mostrar, e a esperteza que ela pode atingir. Além de levantar pontos filosóficos (a busca de um sentido através dos sentidos e a natureza da beleza humana, por exemplo), ele desperta questões morais, práticas, culturais, históricas, religiosas e econômicas. É uma aula de tudo. Uma aula de poesia, inclusive.
Grenouille volta para o berço depois de alcançar a liberdade de um julgamento, o que não necessariamente implica no alcance de sua liberdade, pois "só uma coisa havia que o perfume não podia fazer: transformá-lo em alguém capaz de amar e de ser amado, como todos". Triste, porém profundo. Doloroso, porém belo. Grenouille é visto como a personificação de um anjo por ele conseguir manipular as pessoas com o seu perfume, e levar a sensação de paraíso para elas, mesmo quando estas pessoas aparentam não merecer felicidade, mesmo quando o anjo é considerado um demônio, um insignificante por estas pessoas.
Doze frascos de perfume todos podem ter, mas o décimo terceiro frasco é relíquia, é singular, é o que garante a unicidade e a riqueza de poucos. É por meio desse último frasco (que guarda as gotas mais inebriantes) que é garantido o cheiro mais intensamente cobiçado de muitos, mas que poucos tiveram, têm e terão.
Jamie Marks Está Morto
3.0 35Difícil ser alguém e ninguém ao mesmo tempo. E significar nada para todos. As únicas duas pessoas que veem Jamie são as que notaram a morte dele. Ele despertou o medo em Grace, mas despertou a curiosidade e a amizade de Adam. "Assassino" e "Tristeza" são palavras que chocam profundamente um indivíduo que só queria experimentar "Amor". O desejo de desaparecer é evidente nesse filme. Desaparecer de um mundo rodeado pela passividade, pela maldade e pelo egoísmo de tantas pessoas. Filme simples, triste, lindo.
Avatar
3.6 4,5K Assista AgoraFilme lindo. Não apenas pela fotografia e pelos efeitos, mas pelo brilhantismo do contexto. Embora seja bem previsível (como boa parte dos grandes filmes vistos nas grandes telas dos grandes cinemas), tem uma carga teórico-reflexiva maravilhosa, apontando questões como o imperialismo, o embate cultural e a consciência ambiental. Engana-se quem acha que os Avatares diferem-se de nós, seres humanos. Pelo contrário, acredito que não somos nem os coloridos Na'vi nem os humanos robotizados, somos seres híbridos, obras cujas vontades oscilam ao sabor de um suspiro. Temos, em parte, consciência de que nada mais somos do que extensão da natureza, que dependemos dela para sobrevivência, que elas nos empresta os frutos, a energia citada no filme, para em seguida pegar de volta. Mas temos também uma parte negra, que nos propulsiona à degradação da Mãe que nos protege. Somos filhos ingratos também! Sedentos por terra, lucro e poder, orquestramos o imperialismo que promoveu tanta miséria, como as guerras que a humanidade vivenciou no século passado. Outra questão colocada pelo filme: a responsabilidade que temos pelas nossas ações. Devemos assumir nossos medos, nossas angústias, nossa verdadeira força e nossos desejos mais profundos para que as nossas escolhas atraiam sempre o que de melhor podemos receber. É uma mensagem linda que o filme passa. Bem como filmes do tipo Onde Vivem os Monstros e Labirinto do Fauno, Avatar é um filme que serve de aprendizado não apenas para as crianças, mas para adultos em geral.
Drive
3.9 3,5KApaixonado pelo Ryan. :(
Love
3.5 881 Assista Agora"Amor é vida. Amor é luz"
Amor é fogo que arde sem se ver. Sente-se, mas é impossível defini-lo. "Amor é vida. Amor é luz" nada mais significam do que metáforas, predicativos criados com a intenção de intensificar qualquer emoção ou alegria no passado, presente ou futuro. É uma ferida que doi e não se sente, um paradoxo letal, que galvaniza a alma, o corpo, a mente ao mesmo tempo que corrompe todos os nossos sistemas vitais. É um contentamento descontente, inflama e arrefece, atraindo olhares estritamente subjetivos, repelindo aplausos subjetivamente estritos. É dor que desatina sem doer.
Num universo colorido, de múltiplas possibilidades e consequentemente múltiplas dificuldades, não é possível fugir dos prazeres e infortúnios, das alegrias e tristezas, da saúde e da doença que o amor e o ódio pode nos causar. Somos frutos de um universo maniqueísta, onde do tudo e do nada brota o que da nossa mente não escapa.
Incrível como tudo que não apresenta um conceito definitivo nos persegue incondicionalmente: deus, liberdade, morte, amor. Talvez todos estejam intrinsecamente concatenados de forma a proporcionar o que nos é de mais familiar.
Dor é reflexo de uma vida com amor. Indolência é reflexo de uma vida sem amor. Qual é mais apetecível?
Um filme é uma pintura de diferentes caracteres da nossa vida, e Amor é sem dúvidas um deles. Interessantíssima a abordagem que o filme faz sobre a concepção de um relacionamento em específico, mas que acaba se encaixando em exemplos bem gerais, com tudo o que deles advém: monogamia e parceiros vários, filhos, rotina, pesadelos,
gaiolas, segredos, saudades. É impossível assistir a esse filme e não contemplá-lo como uma fonte de tristeza. Pensar em amar é começar a sofrer, e sofrer nos entristece, nos mata, nos conduz ao que, em muitos casos, mais tememos. Assim como a vida, um relacionamento começa com uma cena intensa de sexo, perpassa por todos os obstáculos que o mundo nos oferece (as drogas do dia-a-dia, a obscuridade das influências, os mistérios do enclausuramento), e finda em um laço rígido e tênue, numa feliz infelicidade.
Em diálogos com todos que conheço, em suas palavras enxergo relacionamento como instrumento de posse, e não como ferramenta de construção, e isso é o que me faz ver o "voltar-se para si", para o interior, como algo tão luminoso. É triste e desgastante viver numa sociedade que explora, industrializa, rotula, comercializa o casamento e o relacionamento de modo geral como uma das propostas máximas de vida. Mais triste e desgastante ainda é a existência de uma sociedade que desconsidera a busca de deus em comportamento cotidiano, da liberdade em pensamentos variáveis e do amor em sentimentos fundamentais, que passa a viver de planos e expectativas rasas, esquecendo-se do principal: a manutenção da saúde e cultivo das faculdades.
"Amor" é exploração do que a vida nessa sociedade acaba nos proporcionando: a transformação do outro em objeto de posse; a exotificação do outro, bem como sua representação como apetrecho ideal de reconciliação; trepadas delirantes e amoletos fotográficos que guardamos como segredos para acreditarmos que um dia já fomos felizes por causa do que nem paramos para admirar. Lindo filme.
Garota Exemplar
4.2 5,0K Assista AgoraQueria ter lido o livro antes de assisti-lo, mas lerei mesmo assim. Um tapa na cara naquilo que costumam rotular como "casal perfeito" e "amor verdadeiro", esse filme mostra quão controlada e superficial pode ser a convivência de um casal durante uma relação "afetiva", que no caso é o casamento. A maravilhosa vida de aparências ganha força com essa garota, de fato, exemplar. E é ótima a exposição que os meios de comunicação transborda quando quer ganhar audiência, polemizar e manipular informações. Amei e sei que reverei várias vezes.
Pi
3.8 770 Assista Agora"Um: matemática é a linguagem da natureza. Dois: tudo ao nosso redor pode ser representado e entendido através de números. Três: se representarmos graficamente os números de qualquer sistema, os padrões surgem". Notas pesadas, porém pertinentes.
O filme cita a relação de Pitágoras com a matemática, e a importância que esta tinha para o gênio. E tal importância nunca foi deixada de lado. Na ciência moderna, a matemática tem papel central, por exemplo, comportando-se como um instrumento simples de uma rigorosa investigação da natureza. Derivou daí as lógicas do "conhecer é quantificar" e "conhecer é dividir", pois o mundo é complicado e a mente humana não é apta a compreendê-lo. Max aparece neste filme e acredita sim na possibilidade não apenas de entender o universo de modo geral, mas entendê-lo através de padrões matemáticos. Baseada em tal crença, debruça-se nas investigações.
Assim como "pi" é um número difícil, acredito que impossível, de ser assimilado, enquanto filme não muda muita coisa. Por ficar claro que é impossível entendê-lo assistindo apenas uma vez, acaba se transformando num filme maravilhoso. Algumas impressões são bem consistentes, como o desenvolvimento frenético que assola Requiém para um sonho e Cisne Negro, por exemplo; a importância de símbolos (números, representações) para a religião (o verdadeiro nome de deus tem 216 letras, o que aparenta ser humanamente inconcebível, ou seja, o homem nunca poderá conhecer ou entender qualquer que seja o Deus, uma vez que a existência dele é regida por outros padrões, que o homem não é capaz de traduzir) e para a economia (o entendimento do padrão de mecanismo do sistema financeiro é equivalente à visualização de deus, o que não pode ser alcançado ou cair em mãos erradas), bem como o desejo de controle de tais símbolos para vontades pontuais; o delírio impetuoso do personagem causado pela força da sua vontade; o conflito entre a obstinação jovial e a desesperança da senilidade etc. Muitas informações podem ser obtidas no filme, e, embora o cerne ainda permaneça turvo, de uma coisa é certa: "a vida não é só matemática". Amei.
Poder Além da Vida
3.8 349 Assista AgoraEmbora previsível, é gostoso de assistir. Quis vê-lo quando li a sinopse e me lembrei de Ferrugem e Osso. Uma história de superação, de reavaliação de objetivos, propósitos e sobretudo de si mesmo. É um filme sobre competição ("o que vamos fazer senão competir uns com os outros?") e, portanto, sobre a vida padronizada que temos. O que insere um tom mágico a esse filme são, sem dúvidas, os diálogos traçados entre o personagem principal, Dan, e o velho Sócrates, cujo nome também me atraiu para assistir ao filme. Muitas mensagens bonitas, metáforas não tão inteligentes porém interessantes e questionamentos pertinentes permeiam as diversas mudanças que o filme injeta no personagem e traz para todos aqueles que assistem a essa obra. E o que pode melhor representar uma mudança que um acidente (metáfora que sempre me agradou nos filmes de superação) que nos tira o que mais amamos?
Um atleta que acredita ter o mundo girando ao seu redor, que pensa saber tudo e que fala mais que pensa transforma-se num indivíduo que enxerga ser parte de um todo, que não sabe nada e que pensa mais do que fala. O Sócrates é a estaca que lhe abre a percepção, e dissolve toda a tensão em seu interior. Com um diálogo bem excitante, o velho toca na ferida do novo a ponto de perguntar-lhe se este é feliz e, mais agudamente, se ele saberia o que fazer caso não obtivesse êxito em suas metas. Sem dúvidas, um tapa na cara desse não é aceito por ninguém tão facilmente, principalmente por quem digere informações em meio a emoções.
O filme bate em vários pontos, em diversos momentos, o que às vezes chega a ser um pouco exaustivo, mas vale a pena. De início, as indagações enchem os olhos e incitam pensamento; depois, chegam as mudanças. O cheio encara o vazio, o singular encara a existência da pluralidade de possibilidades, e que, para qualquer escolha, haverá uma responsabilidade. Escolher ou não escolher sempre serão escolhas e sempre seremos responsáveis por elas. Aceitar tal realidade faz de nós guerreiros, pois é difícil dar de cara com o sol quando tudo o que vimos até então foram sombras.
É interessante também uma parte do filme onde vários pensamentos são reproduzidos pelo atleta ao nível de transformação, falando sobre raízes do medo, a existência de controle na teoria do caos, e até mesmo uma das mais potentes frases do filme: "as pessoas pessoas que tem dificuldades em amar, geralmente são as que mais precisam" (frase que revela que muito do que foi pensado foi superficialmente articulado, a ponto de ser descartado(?) pelo velho. Talvez ele não tenha descartado, talvez sua apatia fosse apenas um estímulo para o maior aprofundamento do jovem, enfim). Até o momento que ele chega a conclusão de que "há sempre algo acontecendo"; que "não há momentos ordinários".
Os atletas estão sempre correndo, o velho mecânico está sempre tranquilo. Um ponto latente nesse filme é a pressa que nos perturba: somos bombardeados por uma enxurrada de informações, medos, desejos, instrumentos, bloqueios, abraços e flechadas 24 horas por dia; estamos sempre correndo, com um destino incerto, e acabamos entrando na nebulosidade que é essa realidade entediante que nos atormenta ao longo do dia. Nunca apreciamos o momento. Nunca prestamos atenção nos pequenos detalhes que edificam cada momento do nosso dia. Nosso olhar não se volta para as ondas e quer enxergar a maré. A atenção em um ponto naufraga e traz à tona a desatenção na reta. E assim somos transformados em robôs famigerados por um fim que nem sabemos o que é, onde é, como é ou se é. A única certeza que temos é que um dos fins indubitáveis é a morte, e por isso retiramos o caráter felicidade que ela pode apresentar, pois ela nos tira o que nos faz feliz. Mas será que a vida realmente é uma caixinha de felicidade? Será que a morte é triste? "A morte não é triste, triste é a maioria das pessoas que não vive".
Temos poder enquanto vivos por termos a capacidade de conhecer sempre mais e de nos transformarmos cada vez mais. Mas também há poder além da vida, enquanto mortos, enquanto idas criaturas, quando temos a convicção de que tivemos a capacidade de transformar alguém através do questionamento e, por isso, sermos lembrados. Sócrates representa o poder além da vida de Daniel ao conseguir transformá-lo para uma vida que ele pode transformar, mesmo não a compreendendo. A reavaliação de si próprio não destrói a essência, fortalece-a! Sabendo que "nada fica igual para sempre", todos podemos nos modificarmos e sermos felizes pois esta é uma possibilidade. Basta estamos aptos para a jornada.
Réquiem para um Sonho
4.3 4,4K Assista AgoraPesadíssimo! Precisei parar em algumas cenas para respirar. Algumas cenas legitimam o pavor que o receptor da mensagem mais evidente do filme pode vir a ter: fuja dos sonhos que possam vir a ser delírios! De início, no verão, tudo se parece colorido, a felicidade, o amor, o espírito fraternal e o bem-estar, perante os outros e consigo próprio, pairam no ar. O sonho de dois jovens parece ter tudo para dar certo; a distância da solidão aparenta ser verdadeira e a vontade de aparecer na televisão é bem possível. Infelizmente, tão logo se percebe que os meios utilizados para manutenção ou alcance de tais desejos rapidamente serão os responsáveis pelos distúrbios pessoais de cada personagem.
Se Harry, juntamente com Tyrone, deposita toda sua esperança de obter lucro perpetuamente através do narcotráfico, é no outono que tudo passa a despencar. No inverno, só agravamentos e o choque de realidade, mesclados com danos ao corpo, isolamento e racismo. Se, no verão, Sara recebe um telefonema que a deixa desesperadamente alucinada em relação a aparecer na televisão, levando-a a buscar meios de se encaixar no vestido, ou melhor dizendo, nos padrões socialmente desejáveis, é no outono que sua condição psicológica entrará em declínio, e é no inverno que ela se transformará num boneco de gelo, com apenas uma reação perante o universo que a cerca (a última cena na qual ela aparece é aterradora!). Se no verão Marion sente-se bem no relacionamento com Harry, desfrutando dos prazeres de não pertencer ao convívio familiar, no outono o seu vício recrudesce e no inverno ela se vê inteiramente fora de si. Aliás, se é que no final ela consegue ter alguma perspectiva de si. Na minha visão, só dois indivíduos tem noção do estado a que chegaram.
O que se pode tirar desse filme espetacular é uma lição de vida: tudo em demasia, tem suas consequências. O comércio de drogas ilícitas e o desserviço da mídia ao introjetar o "sonho americano" são diretamente pontuados no filme. O que leva uma pessoa a levar em consideração a palavra e a receita de um médico que nem olha na sua cara? O que leva uma pessoa a continuar se medicando com algo que está visivelmente lhe fazendo mal? O que leva uma pessoa a arriscar seu corpo para buscar mais conforto temporário? Sonhos persistente e abusivamente alimentados talvez seja uma resposta pertinente.
Não enxergar um objeto específico de vida, ou viver a mercê de objetivos efêmeros, pode causar um confronto não muito amigável com o vazio que delineia a nossa existência. Muitos vivem bem porque têm metas traçadas e esforçam-se para atingi-las, embora não percebam claramente, de tão cristalizadas que tais metas estão pelo meio social no qual estamos inseridos. Mas o filme traz à superfície questões cotidianas, como a solidão de uma senhora que viu o marido e o filho partir, uma mulher que não se sente preenchida pelo que seus pais podem oferecer, um homem que perdeu a pessoa que mais amava e outro homem que vive em busca de se sentir bem e realizar algum propósito. São características peculiares e comuns a muitos indivíduos dessa tão agradável modernidade líquida. Indivíduos que se sentem solitários ou que não tem nenhuma perspectiva são jarras disponíveis a qualquer tipo de líquido, seja ele um suco de maçã ou ácido clorídrico, por exemplo.
Esse filme é genial e perturbador, mostrando que o louvor exasperado a sonhos nem sempre é tão saudável como aparenta ser.
De Olhos Bem Fechados
3.8 1,6K Assista AgoraMasculino e feminino. Massas e elite. Sonho e realidade. Expresso e oculto. Sexo e contenção. Vida e morte. Que filme!!!!!!!!
Ex Machina: Instinto Artificial
3.9 2,0K Assista AgoraA história de um homem que pensa em ter se transformado num deus, e de uma máquina que acredita em se transformar num ser humano, somada à uma dimensão psicológica, resultou num belíssimo filme. Amei.
O Homem da Terra
4.0 463 Assista AgoraFilme delicado, porém incisivo. Traz à superfície um questionamento pertinente ao o conhecimento científico no mundo contemporâneo: será que a ciência de fato constitui uma verdade universal e absoluta? Diante de um mundo que se renova a cada dia, será que o autoritarismo científico, com suas leis, teorias etc., podem nunca ser submetidas à dúvida? Cientistas especializados se posicionam como detentores desta tal verdade imutável e acabam deslegitimando a história de um amigo. A história do homem da terra é surreal, ao passo que o pressuposto da infalibilidade do conhecimento científico é real, aparenta ser intangível. E é violento, pois inferioriza e marginaliza qualquer conhecimento que não passe pelo crivo do método científico. Os intelectuais são tão prepotentes e arrogantes a ponto de encaixarem uma pessoa com a qual conviveram por dez anos em uma posição de louco, por mais que todas as informações dadas tenham sentido, e façam sentido. Tanto que todos quase deixam seus queixos caírem ao chão ao fim da história! Lembrei uma colocação de Boaventura de Sousa Santos, quando ele cita que a ciência moderna acaba transformando o cientista em um ignorante especializado e o indivíduo comum em um ignorante generalizado. É por aí.
O Substituto
4.3 1,7K“Estamos fracassando. Fracassamos. Fracasso no sentido de que deixamos todo mundo na mão, incluindo nós mesmos”.
Melancólico, existencial, profundo, subjetivo, provocante e questionador: qual a nossa real missão nesse mundo representado pelo caos; até onde somos capazes de ser apáticos perante a intensidade da dor alheia; e qual o sentido e a orientação de nossas vidas? Um dos melhores filmes que já assisti.
Uma Mulher Casada
4.1 49 Assista Agora“Não se pode ir muito longe no amor; (...) Você beija alguém, acaricia, mas esta à margem disso. É como uma casa em que nunca entrou”.
Shame
3.6 2,0K Assista AgoraNão é um filme de sexo, mas um filme sobre o sexo. Sobre a vergonha (daí o título do filme) que uma pessoa sente em ser viciada na prática sexual de maneira tão agressiva, encontrando na mesma uma fixação “nojenta, inconsolável e invasiva”, como bem coloca o chefe, numa reunião. O “sexo por sexo” é posto como alicerce do filme, desde o momento inicial do filme, quando Brandon, o personagem principal da trama, acorda despido e pensativo, até a última cena.
Não se trata de cenas de sexo despropositadas. O vício é retratado de forma bastante melancólica e negativa. Desenvolve-se, desta forma, mostrando o cotidiano de um homem que tem seu apartamento aconchegante, seu trabalho fixo e sua estabilidade financeira, que o permite frequentar bons locais, mas que, mesmo em meio a aspectos tão bem quistos por qualquer um, uma vida estável, só consegue encontrar prazer no silêncio de sua privacidade e na inércia de sua fraqueza. A alegria e vontade de conhecer pessoas de seu colega e chefe não o entusiasmam suficientemente para almejar a vida social. A sua irmã, que inicialmente se mostra também animada, não o deixa à vontade para curtir o que lhe convém, e logo passa a ser vista como um obstáculo, impedindo o irmão de aproveitar sua vida íntima.
O vício em sexo que consome Brandon o corrompe ao longo do filme de tal forma que ele não consegue estabelecer conexões sociais com mais ninguém, nem com sua própria irmã. O final do filme esclarece tal perspectiva ao mostrá-lo isolado, desolado, sobretudo cansado. Conforme avançamos no cotidiano de Brandon, notamos o aumento de sua angústia em conviver com sua irmã. Discussões e uma relação quase incestuosa refletem uma infância nada saudável, o que pode ser levado em consideração ao ouvirmos da bela Sissy “não somos pessoas más, só vinhemos de um lugar ruim”, no exato momento em que seu irmão transa com duas mulheres simultaneamente. Possivelmente a convivência com seus pais não fora tão boa, mas nenhuma informação a respeito é relatada em momento algum. Fica a reflexão por parte do espectador.
Em um certo momento, vemos Brandon tentar controlar o seu “vírus”, assumindo-se vitorioso ao conseguir sair com uma mulher com a qual manteve, finalmente, um diálogo tranquilo, embora que pouco consolidado. No entanto, o mesmo vírus volta a mostrar o controle sobre o psicológico do personagem. A cena do motel prova com um momento constrangedor para ambos, porém mais arrebatador para Brandon. Mais perto do término, por fim, percebemos a falta de bom senso que ele apresenta, ao se deixar levar pelo avanço da sua condição, pela proliferação do desejo de querer sexo apenas por básico desejo: seja na cena do bar com a namorada de um outro rapaz, seja na boate gay onde ele acaba beijando e recebendo sexo oral de outro homem.
Shame, além das cenas de sexo, capta o drama da vivência dos personagens, algo que McQueen faz sutilmente. Daí resulta as inúmeras cenas estáticas, centradas nas expressões de Brandon e dos que se estabelecem em seu entorno. Vê-se, portanto, mediante a vergonha de uma pessoa, a exploração do corpo e comportamento de uma maneira bem interessante neste filme.
Minha Vida em Cor-de-Rosa
4.3 395Emocionante! Não consegui não chorar acompanhando o sofrimento de Ludovic, expresso no silêncio e nos breves imperativos que conseguia impor ainda na infância. Filme colorido, concreto e abordado de forma sensível, sem deixar de ser realista, Minha Vida em Cor-de-Rosa retrata, sobretudo, o preconceito sofrido por uma pessoa transexual que se inicia desde criança e a falta de aceitação perante o não cumprimento aos padrões estipulados. O padrão: a heternormatividade. E Ludovic é prova incontestável da triste realidade discriminatória, violenta, ao ouvir risadas, ao ser observado de soslaio por todos ao seu redor e, o pior, ao ter sua identidade de gênero constantemente deslegitimada.
Embora tente se adequar aos paradigmas socialmente impostos, como brincar de carrinho, brincar de guerra com seus irmãos e até pegar em partes íntimas, Ludo não consegue se ver como menino em nennhum momento do filme, e a sua infelicidade é visivelmente exposta de maneira tocante. Impossível assistir à forma como seus pais lhe tratam desde o início do distúrbio familiar até os penúltimos minutos do filme, onde, finalmente, consegue visualizar que não é o único a passar pelo mesmo dilema de não se encaixar em quadrados perfeitos ditados pelos seus pais, pelos seus vizinhos, pelo diretor da sua escola e pelos seus colegas.
É linda a capacidade de o filme não deixar totalmente explícito o decorrer da história de Ludo, como será seu convívio além da infância, na escola e em ambientes que poderá vir a conhecer. Imagina-se que não será nada fácil, mas que com o amor incondicional de sua família, todas as barreiras serão ultrapassadas. Ludovic, enfim, é e sempre terá em Pam a fonte de suas inspirações, e sempre será perfeito em seu modo de ser, tendo ou não um X a mais.
O Duplo
3.5 519 Assista AgoraO tipo de filme que te torna invasivo, querendo compreender o âmago, os pensamentos, os sentimentos, as dúvidas e certezas, a mente, de modo geral, do personagem. James, o sósia de Simon, não aparece de forma a confrontá-lo na sua vida pessoal e no seu trabalho. Ele surge com ímpeto na tentativa de aniquilar a passividade, a timidez e a detestável tranquilidade de Simon. Um “amigo”. O comportamento do sósia é, no entanto, visto como uma atitude negativa, o que acaba levando ao confronto. Ou seja, o confronto é efeito de se olhar no espelho. É estranho, é bizarro o fato de ninguém perceber a sua semelhança com o sósia por causa da sua invisibilidade inquestionável perante a todos, em todo os locais, em todos os momentos. Ele passa despercebido a ponto de nem parecer gente.
“Não posso ver o tipo de homem que quero ser em relação ao homem que sou. Eu sei que estou fazendo isso, mas sou incapaz de fazer o que precisa ser feito”, começa Simon numa reflexão interessantíssima, no momento que volta para casa, sentado no trem de frente para o seu alter ego. É nesta sua segunda personalidade que ele, inconscientemente, consegue se enxergar (ou consegue ver o que gostaria de ser), embora continue demonstrando fortes sinais de inércia. Como o próprio menciona, “sou como o Pinóquio: um menino de madeira, não um menino verdadeiro”. A madeira o impede de realizar movimentos mais “descolados”.
Todo esse aspecto existencial cunha um filme com uma fotografia gostosa, uma falta de dinamismo até certo ponto apreciável e uma narrativa intrigante. A temática te puxa por conseguir ser obscura na medida certa, não permitindo que sua atenção seja desviada. A não ser, claro, que diálogos mais consistentes, com menor caráter reflexivo e menos prioridade psicológica e menos drama, talvez até uma dose ainda menor de suspense, sejam requisitos que façam mais a sua praia.
A partir do momento que o “você não existe mais. Você não está no sistema” é proferido, torna-se perceptível a interrogação que se instala no cérebro de Simon, a ponto de conduzi-lo a trilhos que podem não ser os mais viáveis. Por fim, O Duplo finalmente consegue semear a semente da discórdia, mas contempla também o objetivo de transformar a vida de seu “original”, seja para um lado positivo, ou negativo (se é que ambos os personagens não são originais em seus contextos, em seus mundos e quartos alugados). Provar que, independentemente da natureza, de ser um boneco de madeira ou uma cobra, e das intensidades das ações executada, qualquer um é uma pessoa, que fundamentalmente existe, talvez seja uma das principais tarefas do filme.
O Discreto Charme da Burguesia
4.1 301 Assista AgoraÁcido, inteligente e absolutamente coerente: o Discreto Charme da Burguesia é um retrato fiel e legítimo da hipocrisia que se esconde, ou tenta se esconder, por detrás das cortinas de um teatro onde os atos não foram ensaiados.
É ensejando a crítica aos valores e comportamentos da burguesia que o filme se desenrola. Nota-se como a “classe dominante” consegue não se importar com os que não teve a “educação adequada” em várias cenas. O padre tem seu título eclesiástico deslegitimado e esquecido por aparecer em vestimentas não concernentes à sua posição; a despreocupação dos que sentam para jantar em relação à realidade ao seu entorno; a indiferença dos anfitriões em relação a devaneios e sonhos alheios: todas essas passagens provam o caráter hipócrita e de descaso daqueles que só se importam com o que lhes diz respeito, como um belo e delicioso jantar com seus amigos. Uma possível batalha ocorre praticamente nos jardins da residência de dois dos personagens e, mesmo assim, todos permanecem na mesa. A religião é posta sutilmente como um auxílio, como de fato o é, mas também é criticada ao longo do filme. A não concessão do perdão ao próximo pelo próprio padre é sinal de um contrassenso religioso.
Um ótimo filme que preza a perspicácia, a ironia e, sobretudo, a discrição.