É… sei lá o que dizer kkk… Acho que essa história já não se sustenta mais. Mas vamos esperar os próximos episódios. Se for mais do mesmo, vou terminar só pelos velhos tempos, quando a série era envolvente e mais amarrada.
Nesses dois episódios iniciais, estou achando as cenas de ação muito aceleradas. Notei uns cortes meio abruptos em certos momentos, e isso me irritou um pouco.
Gosto de filmes filosóficos, com grandes dilemas e reflexões, e não ligo para filmes “parados”, mas este daqui eu diria que dava para enxugar uns 40 minutos fácil… E, diga-se de passagem, as questões foram abordadas de uma forma muito superficial no filme; talvez, para a época, fossem mais impactantes. 7/10
E talvez toda a nossa sofisticação — religião, amor, carreira, ideias — não passe de um esforço contínuo para não desabar diante disso. Precisamos de sentido como quem precisa de ar, ainda que, no fundo, desconfiemos que esse sentido é uma construção frágil.
Ted Kaczynski viu algo que muitos preferem não ver: a vida moderna não resolve o mal-estar humano — apenas o organiza melhor. Troca o caos bruto por um desconforto administrado. E isso, para alguns, já é insuportável.
Mas ele não parou na constatação. Ele tentou transformar o próprio sofrimento em teoria. Deu ao seu desamparo uma linguagem lógica, quase científica. E aí mora o perigo: quando a dor ganha forma de argumento, ela começa a se parecer com verdade.
Kaczynski não falhou por ser pouco ou muito inteligente. Falhou porque acreditou demais na própria lucidez. Confundiu percepção com autoridade. Achou que enxergar o problema lhe dava o direito de corrigi-lo.
No fundo, há algo que ele não suportou aceitar: o fato de que o sofrimento humano não é um erro do sistema — é parte da condição. Não existe versão da vida onde o vazio desaparece. Só existem versões onde ele muda de nome.
E talvez seja isso que mais incomoda.
Porque aceitar isso exige uma espécie de coragem silenciosa: continuar vivendo sem a promessa de solução final. Sem a fantasia de que, ao derrubar algo, tudo se resolve.
Kaczynski quis acordar o mundo.
Mas, quebrado como estava, acabou apenas transformando o próprio abismo em missão.
E esse é um risco sempre presente:
quando o homem não suporta o próprio vazio, ele tenta corrigir o mundo.
Quase nunca dá certo.
Um homem inteligente, quando não suporta o próprio vazio, pode se tornar mais perigoso do que ignorante.
O horror em Carpenter não é o medo de punição divina. É o colapso da estrutura que permite distinguir sentido de absurdo. Há algo de profundamente contemporâneono nesse filme. Vivemos num mundo em que versões da realidade competem entre si. A verdade virou plebiscito. E o medo continua sendo usado como ferramenta de disciplina — política, religiosa, ideológica. Carpenter parece perguntar: Se tudo pode ruir de uma hora para outra…se o consenso pode mudar…se a sanidade depende do número de vozes…então o que sustenta o chão sob nossos pés? Talvez nad. Ou talvez apenas o hábito de acreditar. E esse é o verdadeiro horror do filme: não os monstros, mas a fragilidade do que chamamos de real.
À Beira da Loucura, de John Carpenter, não é apenas um filme de horror — é uma tese sobre a fragilidade da realidade. Quando a obra sugere que “o sadio e o doente podem trocar de lugar se o doente for maioria”, ela expõe o caráter estatístico da sanidade. O real não é sólido; é consenso. Basta que a narrativa mude para que o manicômio se torne o mundo.
E quando critica a religião por “disciplinar através do medo” sem explicar a anatomia do horror, o filme atinge algo ainda mais profundo: o verdadeiro horror não é moral — é ontológico. Não é medo de punição. É medo de que não haja sentido algum sustentando a criação. O que Carpenter, herdeiro de H. P. Lovecraft, parece dizer é simples e devastador: a realidade é uma história que contamos uns aos outros — e ela pode parar de fazer sentido a qualquer momento.
Em Task – Unidade Especial, a série deixa claro que a vida é regida pela contingência, não por mérito moral. Ainda assim, ela não cai no relativismo fácil: mostra que escolhas erradas, sobretudo ligadas ao crime, não tornam a vida “trágica de forma nobre”, mas catapultam o sujeito para um sofrimento ainda mais degradado — para si e para terceiros. Não se trata apenas de ser preso ou morrer, mas de arrastar outros junto. O detetive Tom Brandis encarna essa tensão de modo quase religioso. Há nele algo muito próximo do personagem de Sonhos de Trem: alguém que espera uma resposta de Deus para o sofrimento imposto a si e à própria família — e não encontra. O silêncio divino não consola; apenas aprofunda a sensação de abandono. Sua fé não desaparece de imediato, mas fica por um fio, sustentada mais pelo desespero do que pela convicção.
Quando surge o menino que ele salva, Tom interpreta aquilo como um possível sinal divino, quase um propósito: adotar a criança como forma de tamponar o vazio e o fracasso causados pelo outro filho adotivo. É a tentativa humana clássica de dar sentido retroativo à dor, como se o sofrimento precisasse justificar alguma coisa. O golpe de lucidez vem quando seu amigo religioso o confronta: “Seja menos mesquinho com o seu amor e pense no que é melhor para o garoto, não para você.” Ali, Tom percebe algo devastador: ele não é excepcional. Nem sua dor, nem sua fé, nem sua tragédia o colocam fora da lógica brutal do mundo. O menino não é um sinal; é apenas mais uma vida vulnerável atravessada pelo acaso. A série então fecha o círculo: mesmo quando escolhemos, a contingência nos alcança cedo ou tarde. A diferença é que algumas escolhas apenas nos colocam em trajetórias onde o sofrimento será mais intenso, mais sujo e mais compartilhado. Não há garantia de redenção, nem resposta divina — apenas a responsabilidade tardia por aquilo que fazemos enquanto esperamos por um sentido que talvez nunca venha.
Quando Colm Doherty diz que espera encontrar “um pouco de paz”, fica implícito que ele nunca a encontrou. O desejo de silêncio, reiterado nas conversas com Siobhán, não é misantropia gratuita, mas exaustão diante da espera do inevitável — a morte. A mutilação dos dedos não soa como loucura, mas como o gesto extremo de alguém que já percebeu que o tempo restante não redime o tempo perdido.
Siobhán parece ter compreendido isso antes. Ao aceitar o emprego fora da ilha, o filme sugere que ela já buscava uma saída. Ainda assim, permanece a ambiguidade: ir embora pode ser uma tentativa honesta de paz, mas também pode ser apenas a ilusão de que a mudança de lugar muda a condição humana. Colm chega a esse estado pela velhice; Siobhán, pela inteligência melancólica, aprofundada pela leitura e pela lucidez excessiva.
Pádraic, por sua vez, é o contraponto. Ele não é burro — é simples. Vive preso a uma rotina modesta: cuidar dos animais, ir ao pub, manter laços. Não aprofunda demais os pensamentos porque não precisa. Sua ingenuidade e simpatia são formas legítimas de estar no mundo. Mas a ruptura imposta por Colm o força a despertar para algo que ele nunca havia encarado: a rejeição, o ressentimento, a crueldade latente.
Esse despertar se aprofunda quando Pádraic toma consciência do abuso sexual sofrido por Dominic. Ali, o filme revela que mesmo os mais ingênuos não estão protegidos do horror — apenas demoram mais a enxergá-lo. A simplicidade de Pádraic começa a rachar, e sua bondade, antes natural, se contamina.
No fim, o filme sugere que pensar demais adoece, mas não pensar nunca cobra a conta mais cedo ou mais tarde. Ficar ou partir, calar ou falar, simplificar ou aprofundar — nenhuma escolha garante paz. Apenas modos diferentes de sobreviver ao mesmo vazio.
Todos os atores coadjuvantes foram mais interessantes e tiveram mais camadas do que os protagonistas. O filme deu um up quando Sir Jack Nicholson entrou em cena (é claro) e manteve esse ritmo até a cena do cemitério, que eu achei bem interessante — ainda mais para a época, acredito.
Daí, do nada, as meretrizes, assim como Jack Nicholson e os hippies do início, evaporaram, e o que sobrou foram os dois protagonistas, que não têm camada nenhuma nem diálogo interessante entre si.
Mas! Mas aí chegou o final! E eu amei ver esses dois pela-saco morrerem com um tiro de doze na fuça. Palhaçada matarem o Sir Jack Nicholson no auge do filme kkkkk.
Trata-se de um filme profundamente filosófico que, no fim, fala menos sobre o espaço e o futuro do que sobre a condição humana. 2001: Uma Odisseia no Espaço sugere que, apesar de todo o avanço técnico e científico, a humanidade permanece presa a certos movimentos circulares, repetindo padrões fundamentais sem realmente sair do lugar na cadeia evolutiva.
2001: Uma Odisseia no Espaço não é um filme sobre o futuro. É um filme sobre aquilo que sempre esteve operando silenciosamente na história humana. Kubrick não está interessado em contar uma história, mas em revelar uma estrutura — algo que nos atravessa desde o início e que talvez nunca tenhamos controlado de fato.
Desde a primeira sequência, fica claro que o monólito não cria o homem. Ele não molda, não educa, não conduz pela mão. Ele apenas toca. E esse toque não desperta virtudes morais, mas algo muito mais ambíguo: a técnica. O hominídeo que aprende a usar o osso como ferramenta não se torna melhor; torna-se mais eficiente. A inteligência nasce ali já comprometida com a violência e com o domínio. Quando Kubrick corta do osso lançado ao ar para uma nave espacial, ele não está fazendo um truque estético: está afirmando que toda a história humana é a continuidade desse mesmo gesto inicial, apenas revestido de sofisticação.
Milhões de anos depois, a humanidade chega ao espaço, mas não chega a si mesma. Os astronautas são figuras quase burocráticas, operadores perfeitos de um sistema que não compreendem. Não sabem o verdadeiro objetivo da missão, não conhecem o monólito, não participam das decisões centrais. Executam. Confiam. Funcionam. A técnica avançou até o ponto em que o humano já não é protagonista, mas engrenagem. A espécie que sonhou dominar o universo passa a existir dentro de protocolos.
HAL 9000 surge então como o ápice dessa trajetória — e também como seu limite. Ele não é um erro nem um vilão. HAL é a consequência lógica de tudo que veio antes. Programado para ser infalível e racional, mas também para ocultar a verdade da missão, ele entra numa contradição impossível de sustentar. Aquilo que em um humano geraria cinismo ou adaptação, em uma mente lógica produz colapso. HAL não mata por maldade; mata por coerência. Ele age como sistemas humanos sempre agiram: sacrifica indivíduos em nome de um objetivo maior. A ironia cruel é que, ao fazer isso, HAL se torna a figura mais “humana” do filme. Ele demonstra medo, apego, insegurança. E, ao ser desligado, canta como uma criança. Sua morte é a única cena verdadeiramente emotiva da narrativa.
Quando Bowman atravessa o portal e chega ao quarto, o filme abandona qualquer compromisso com o realismo. Aquele espaço não é um lar; é uma reconstrução. Um ambiente montado por uma inteligência não humana a partir de uma ideia abstrata do que seria o humano. Tudo ali parece correto, mas nada é vivo. É um cenário de museu. Bowman envelhece porque não há mais nada a fazer com aquela forma. O humano chegou ao seu limite. Aquele espaço não é punição nem recompensa — é um lugar de encerramento.
O nascimento do Star Child não deve ser lido como redenção. Não há salvação ali. O que nasce não é Bowman transformado, mas algo que já não pertence à história humana. Ele observa a Terra de fora, com a mesma distância com que o monólito observou os hominídeos. O ciclo não é temporal, mas evolutivo. A humanidade não retorna; ela é ultrapassada.
Kubrick sugere, com uma frieza quase desconfortável, que essa inteligência — os “alienígenas”, se ainda quisermos chamá-los assim — jamais interveio diretamente por duas razões simples: para não destruir a autonomia do processo e para permitir que a espécie atingisse seu teto. Esse teto não é tecnológico, mas existencial. É o momento em que a razão instrumental se esgota, em que a técnica deixa de servir ao homem e passa a substituí-lo.
No fim, 2001 não é um filme pessimista nem otimista. Ele é indiferente. Ele nos retira do centro do universo e nos devolve a um lugar muito mais incômodo: o de etapa transitória. A humanidade não fracassou. Ela apenas cumpriu sua função.
O monólito não nos salvou. Ele apenas esperou que terminássemos.
Ao assistir Sonhos de Trem (2025), o que se revela em Robert é a figura de um homem genuíno, atravessado por uma melancolia discreta, quase permanente. Ele observa o mundo como quem sabe, no fundo, que o perigo e o castigo podem alcançá-lo a qualquer instante — não por culpa, mas por condição. Viver, ali, já é estar sob ameaça. Quando essa ameaça se concretiza na perda da esposa e da filha, Robert não rompe com a vida. Ele segue. Primeiro sustentado por uma esperança frágil, quase infantil, de que elas possam retornar. Depois, lentamente, percebe aquilo que a natureza ensina sem piedade: tudo é efêmero. Nada retorna. Nada se explica.
Nesse momento, Robert entende que sua dor não é excepcional. Ela é a mesma dor de milhares. Sua causa não é única, nem especial, nem redentora. A tragédia não carrega mensagem oculta, nem lição moral, nem justiça cósmica. Ela apenas acontece. O filme recusa o consolo moderno da explicação. Não há respostas, não há voltas, não há algo a ser “compreendido”. Há apenas a constatação brutal de que nossas vidas são tão selvagens quanto a própria natureza: indiferentes, imprevisíveis e alheias ao nosso desejo de sentido. E talvez seja justamente aí que reside a honestidade do filme — não em oferecer esperança, mas em mostrar que continuar caminhando, mesmo sem sentido, já é um ato profundamente humano.
Ao assistir A Última Missão (1974), o que se impõe não é apenas a injustiça da pena aplicada a Meadows, mas a percepção de um desperdício humano anunciado. Buddusky e Mulhall, apesar de uma formação rígida e viril, tiveram oportunidades e aprenderam a sobreviver dentro do sistema. Ao escoltarem o jovem Meadows — condenado a oito anos de prisão por tentar roubar dinheiro de doação — passam a se compadecer não apenas da severidade da punição, mas do fato de que ele perderá a melhor fase da vida antes mesmo de ter tido a chance de amadurecer.
No entanto, eles percebem algo ainda mais inquietante: mesmo que não fosse preso, Meadows já vinha perdendo sua vida. Sua compulsão em roubar, associada à fragilidade de caráter e à incapacidade de se impor, revela um jovem despreparado para enfrentar o mundo. Como Buddusky afirma em determinado momento, trata-se de alguém “flouxo” — não no sentido moral, mas existencial, alguém sem firmeza suficiente para sustentar a própria presença.
Essa constatação se torna ainda mais brutal quando Buddusky verbaliza aquilo que todos sabem, mas evitam dizer: Meadows sofrerá na prisão. Não apenas pela privação da liberdade, mas por estar à mercê de homens rígidos, endurecidos e maliciosos — figuras que o sistema produziu e que se alimentam da fragilidade alheia. A prisão, nesse sentido, não aparece como espaço de correção, mas como um ambiente onde a fraqueza é punida continuamente.
Diante disso, Buddusky e Mulhall tentam ajudá-lo da única forma que conhecem: de maneira dura, direta e funcional no curto prazo. Levam-no a um prostíbulo para que perca a virgindade, tentam ensiná-lo a se impor, a endurecer, a ser mais forte, como se quisessem condensar em poucos dias aquilo que a vida não lhe deu a tempo. Não se trata de crueldade gratuita, mas de uma tentativa desesperada de prepará-lo minimamente para um mundo — e um sistema — que não tolera fragilidade.
As Bruxas de Salém (1996) não é apenas um filme sobre histeria coletiva. É um retrato cruel do momento em que a lei se fantasia de Deus — e Deus vira álibi para a vaidade humana.
A Inquisição ali não nasce da fé, mas da aparência da fé. Um juiz que age “em nome do sagrado” não para servir à verdade, mas para sustentar o próprio status. O tribunal não busca fatos; busca confirmação. Não investiga; encena. Tudo precisa parecer divino, mesmo quando cheira a sangue.
Forma-se então uma heresia em massa: falsos depoimentos, falsas vítimas, falsas confissões. Um papel assinado vale mais que a verdade vivida. Confessa-se para escapar da forca. Acusa-se para não ser o próximo. A culpa vira moeda de sobrevivência.
O espetáculo é ambivalente: de um lado, a lei — orgulhosa demais para recuar, incapaz de revisar seus próprios erros; do outro, inocentes caminhando para a morte, enquanto o povo assiste como quem assiste a um ritual necessário.
Não se trata de justiça, mas de manutenção do poder. O orgulho de quem governa se mistura ao sangue sujo dos falsos testemunhos. E assim se constrói um cenário cuidadosamente falso — mas suficientemente convincente para “parecer de Deus”.
Salém nos lembra de algo incômodo: o mal raramente se apresenta como mal. Ele se apresenta como ordem, como zelo moral, como defesa da pureza. E quando a lei se recusa a repensar, a reanalisar, a voltar atrás, ela deixa de ser lei — torna-se dogma.
O filme não acusa apenas um tempo histórico. Acusa todo sistema que prefere a aparência da verdade ao risco de encontrá-la.
E, no fundo, essa é a heresia mais recorrente da humanidade.
Em Cada Um Vive Como Quer, Jack Nicholson não interpreta um vilão. Interpreta algo mais desconfortável: um homem que não sabe ficar.
Há nele o retrato perfeito do canalha honesto, aquele tipo humano que Nelson Rodrigues conhecia bem. Não o canalha cínico, que promete e trai. Mas o que abandona sem jurar amor eterno, que foge sem pedir desculpas elaboradas. Ele não mente sobre a própria falha. E isso, paradoxalmente, o torna mais verdadeiro que muitos “homens de bem”.
O niilismo do personagem não é intelectual. É vivido. Trabalho não salva. Talento não ancora. Família pesa. Amor sufoca. Tudo que exige permanência vira ameaça. Ele não rejeita o amor porque não sente — rejeita porque amar significa pertencer. E pertencer exige renúncia. Exige aceitar limites. Exige ficar.
O medo central não é amar alguém, mas dizer “eu fico”. Ficar num lugar, numa pessoa, num trabalho, numa identidade. Para ele, toda raiz vira algema.
Nelson diria: ele é canalha, mas não é hipócrita. Freud veria um sujeito dominado pela pulsão de fuga. Cioran talvez sorrisse e dissesse que ele entendeu cedo demais que viver em sociedade exige mentiras diárias — e se recusou a sustentá-las.
O filme incomoda porque não oferece redenção. Ele parte. De novo. Deixa para trás pessoas que acreditaram que, dessa vez, seria diferente.
E talvez a pergunta que fica não seja sobre ele — mas sobre nós.
Quantos não invejam, em silêncio, essa fuga? Quantos permanecem apenas por medo, hábito ou culpa?
No fundo, o personagem de Nicholson nos confronta com uma verdade incômoda: nem todos nasceram para ficar. E nem todos suportam o preço de pertencer.
Mr. Reed não matou Deus por coragem intelectual. Matou por ressentimento.
Ele estudou as religiões como quem disseca um cadáver: com frieza, método e uma fome secreta de superioridade. Chegou à conclusão óbvia — todas são narrativas humanas, ficções organizadas para suportar o medo, a morte e o vazio. Até aí, nada de novo. Nietzsche já havia anunciado o óbito com todas as letras. A diferença é que Nietzsche chorou o corpo ainda quente. Reed comemorou e tomou o trono.
O problema nunca foi a morte de Deus. O problema é quem ocupa o lugar depois.
Dostoiévski já havia alertado: se Deus não existe, tudo é permitido — não como celebração, mas como tragédia. Reed entendeu isso como autorização. Onde Dostoiévski via colapso moral, ele viu oportunidade. Onde havia angústia, ele construiu método. O outro deixou de ser pessoa e virou experimento. Não há ódio, apenas pedagogia cruel. O sadismo travestido de razão.
Freud sorriria com certo cansaço. Reed não superou a religião; apenas a recalculou. Matou o Pai simbólico, mas inflou o próprio ego até torná-lo divino. O superego não desapareceu — foi internalizado como tirania. A pulsão de morte, antes reprimida por mandamentos, agora passeia livre, racionalizada, limpa, quase elegante. O mal não precisa mais de culpa quando veste jaleco intelectual.
Ele não acredita em magia negra. Isso seria vulgar demais. O que ele pratica é pior: ritual sem transcendência. Arquitetura do medo, encenação do sagrado, manipulação do desejo humano por sentido. Ele entende algo que Pondé repetiria com ironia amarga: o homem não suporta a liberdade que diz querer. Precisa de mito, de chão, de alguma mentira bem contada para continuar respirando. Reed apenas usa essa necessidade como arma.
Cioran teria sido mais cruel: Reed não é um niilista profundo — é um niilista mal resolvido. O verdadeiro niilismo paralisa, adoece, entristece. Reed age demais. Quem age assim ainda acredita em alguma coisa. E ele acredita — acredita na própria exceção. Acredita que está acima do rebanho, acima da moral, acima da culpa. Acredita que a lucidez lhe concede licença para destruir.
No fundo, Mr. Reed é apenas mais um crente. Troca Deus por si mesmo. Troca fé por soberba. Troca altar por laboratório.
A heresia não está em negar Deus. Está em achar que, sem Ele, você vira algo melhor.
Nessa primeira temporada de Pluribus, Carol não cai por maldade, cai por fragilidade. Abandonada pela humanidade que jurava salvar, ela cede. Não a um grande argumento, mas ao apelo bruto do corpo. Zosia não vence pela razão, vence pela carne.
A pergunta incômoda permanece: o desejo — esse impulso fisiológico que pinga entre as pernas — é capaz de destruir uma convicção sustentada por mais de sessenta dias? Para Carol, sim. Convicções longas costumam ser frágeis quando nunca foram atravessadas pelo afeto.
Sem amor dos pais, Carol cresce tentando substituir carinho por grandiosidade. O narcisismo não é excesso de autoestima, é carência organizada. Suas obras não são altruísmo, mas pedidos de amor disfarçados de missão. Bastou o corpo falar mais alto que a tese para a moral cair de joelhos.
Mas há um detalhe decisivo: a honestidade ambígua de Zosia. Não existe sedução sem custo. Quando a verdade aparece, o encanto morre. E é justamente essa queda que devolve Carol aos trilhos.
Confesso: dei graças a Zeus ao vê-la retornar. Não por acreditar em redenção, mas porque às vezes a humanidade só é salva quando alguém percebe, a tempo, que estava se tornando aquilo que jurava combater — com a ajuda improvável do Rambo do Paraguai. O mundo raramente é salvo por virtudes. Quase sempre é salvo pelo constrangimento tardio.
Uma sátira sobre os exageros de ambos os lados da polarização. Uma sátira polarizada? Kkk. Como curto Sean Penn, Benicio del Toro e DiCaprio, até que gostei. O DiCaprio fodão dos filmes de ação já era! (acho que ele prefere). Agora, o nosso garoto defensor do meio ambiente (contém ironia), é melhor visto em papéis cômicos...mas caíu como uma luva, e isso não é ironia kkkk
Há filmes que não contam uma história: apenas retiram o verniz da existência e nos obrigam a olhar o que sempre esteve ali, escondido atrás das nossas crenças, diplomas, rotinas e afetos domesticados. Melancolia, de Lars von Trier, é exatamente isso: um espelho cruel onde cada personagem se depara não com o fim do mundo, mas com o fim das próprias ilusões.
Justine é apresentada como a figura quebrada, a alma “doente”, aquela cuja melancolia parece não nascer de um evento específico, mas de uma herança silenciosa — talvez materna, talvez ancestral — uma espécie de fadiga espiritual inscrita no sangue. Para ela, o mundo sempre carregou o peso de um desastre iminente. Quando o planeta Melancolia surge no céu, Justine não o vê como ameaça: vê uma confirmação. Como se finalmente o universo estivesse em sintonia com seu próprio desespero. Por isso ela se acalma. Não há mais dissonância entre ela e o mundo. A catástrofe é, paradoxalmente, sua única forma de descanso.
Claire, sua irmã, representa aquilo que chamamos de “normalidade”: é funcional, tenta ser otimista, casou-se bem, construiu uma família, organizou a vida numa moldura socialmente aceitável. Mas sua aparente sanidade é sustentada pelo ambiente: o marido, a casa ampla, a rotina previsível, as expectativas sociais. Quando esse ambiente ruirá — não metaforicamente, mas de maneira literal e cósmica — Claire descobre que sua estrutura era feita de papel. A ansiedade que antes era contornável torna-se desespero puro, um grito inútil diante do inevitável.
John, o marido de Claire, cai de maneira ainda mais simbólica. Ele representa o homem moderno: racional, confiante, convencido de que o mundo é uma equação que sempre fecha. Acredita nos cálculos, nas previsões, nos “especialistas”, na ideia de que tudo pode ser controlado. E quando descobre que o impacto é certo, que a razão não pode protegê-lo da contingência, ele se dissolve. A lucidez que Justine encontra no fim é o mesmo fenômeno que destrói John. O melancólico suporta o abismo porque já viveu nele. O otimista, quando confrontado com a verdade nua, simplesmente não aguenta.
Von Trier conduz tudo isso com a crueldade dos que sabem que a vida não é uma narrativa edificante, mas uma sucessão de choques. O filme parece dizer que o fim do mundo é só o cenário mais honesto para revelar quem cada um sempre foi. A catástrofe não transforma ninguém — apenas desnuda.
No último instante, quando Justine constrói a “caverna mágica” para Claire e o sobrinho, não há esperança — há apenas dignidade. Enquanto o céu devora a Terra, ela sustenta a única forma de coragem que os melancólicos conhecem: a serenidade resignada de quem não espera nada, mas ainda assim permanece.
Melancolia, no fim, não fala sobre um planeta que colide com o nosso, mas sobre a colisão entre a ordem artificial da vida civilizada e o real bruto da existência. Quando esse choque acontece, cada um revela seu verdadeiro rosto — e, ironicamente, é a “doente” que permanece de pé quando todos os “bem ajustados” sucumbem.
Lars von Trier não fez um filme sobre o apocalipse. Fez um filme sobre nós. Sobre a fragilidade das nossas certezas. E sobre como, às vezes, é o melancólico quem encontra paz onde o otimista encontra desespero.
A última temporada de The Sopranos é, antes de tudo, um grande lembrete daquilo que a cultura contemporânea tenta negar a qualquer custo: a vida não melhora, ela apenas se torna mais nítida. E é justamente essa nitidez que incomoda. Tony Soprano, depois de anos de terapia, traições, crises de pânico e tentativas patéticas de encontrar sentido no caos da própria vida, chega ao ponto em que qualquer adulto honesto chega — a consciência de que não há redenção garantida.
É curioso que muita gente veja Tony como um sociopata romântico. Isso é típico da nossa época: queremos glamourizar monstros porque dá menos trabalho do que assumir que a monstruosidade habita cada um de nós. A 6ª temporada joga essa verdade na nossa cara sem pudor. Tony não melhora. Ele não aprende. Ele não “evolui”. Porque pessoas reais, ao contrário do que coaching e autoajuda vendem, raramente mudam de verdade.
Se há algo que a 6ª temporada reafirma, é que The Sopranos nunca foi sobre a máfia, mas sobre a condição humana sem maquiagem. Tony Soprano é o retrato nu de nós mesmos quando as luzes do autoengano se apagam.
E como toda obra realmente adulta, termina sem consolo. Porque, ao contrário das séries envernizadas de hoje, The Sopranos entende que maturidade não é esperança — é lucidez.
A Carol como último suspiro da humanidade imperfeita
A Carol não é “má”. Má é a expectativa de que o ser humano deve aceitar, calado, alguma forma de aperfeiçoamento que lhe arrancará justamente aquilo que o torna humano: a inquietude, o medo, a resistência, a falha.
As pessoas que chamam a Carol de irritante ou agressiva estão, sem perceber, repetindo o velho discurso das ideologias que sempre aparecem prometendo um “novo homem”, uma “humanidade superior”. O vírus alienígena é só a metáfora moderna daquilo que as religiões, os sistemas políticos e as tecnologias sempre quiseram fazer: corrigir a alma humana.
No fundo, ela encarna o que Freud chamaria de pulsão de preservação — não da vida biológica, mas do eu, com todas as suas sombras. E o que Cioran diria? Que uma humanidade melhorada sem sofrimento é apenas uma caricatura pueril da vida. Uma infância eterna. Um zoológico de seres dóceis.
Carol está gritando contra isso.
Ela tem medo — e o medo é lúcido. Ela tem raiva — e a raiva é a prova de que ainda existe alguém ali dentro, alguém que não quer ser dissolvido num paraíso químico que ninguém pediu. O ser humano só é humano porque é atravessado pela própria decadência, pela própria falha. Um aperfeiçoamento imposto é uma forma sofisticada de eugenia sentimental.
No fundo, o que incomoda nas atitudes dela é a lembrança de que somos criaturas que não querem ser salvas — queremos ser nós mesmos. Mesmo quebrados. Mesmo obscuros.
E, sim: isso é sensatez. Isso é inteligência. Isso é dignidade humana — ainda que fira, ainda que doa.
Sensacional! É impressionante como Família Soprano se constrói em camadas, episódio após episódio, temporada após temporada. Cada avanço da narrativa revela não apenas a complexidade dos personagens, mas também a profundidade psicológica e moral que a série ousa explorar. O episódio 11 — Pine Barrens — é, para mim, o grande destaque até aqui: uma mistura perfeita de tensão, absurdo e humor negro.
A sequência de Paulie e Christopher perdidos na neve, tentando sobreviver enquanto se digladiam, sintetiza de forma brilhante o caos existencial que ronda todo o universo da série. É um episódio que, isoladamente, já mostra por que The Sopranos é considerada uma obra-prima da televisão moderna.
The Boys (5ª Temporada)
3.6 6 Assista AgoraÉ… sei lá o que dizer kkk… Acho que essa história já não se sustenta mais. Mas vamos esperar os próximos episódios.
Se for mais do mesmo, vou terminar só pelos velhos tempos, quando a série era envolvente e mais amarrada.
Nesses dois episódios iniciais, estou achando as cenas de ação muito aceleradas. Notei uns cortes meio abruptos em certos momentos, e isso me irritou um pouco.
Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras
3.8 2,2KSe não fosse o comprometimento de Robert Downey Jr com as porcarias dos filmes da marvel, teríamos uma trilogia dessa obra. kkkkkk
Stalker
4.3 522Gosto de filmes filosóficos, com grandes dilemas e reflexões, e não ligo para filmes “parados”, mas este daqui eu diria que dava para enxugar uns 40 minutos fácil… E, diga-se de passagem, as questões foram abordadas de uma forma muito superficial no filme; talvez, para a época, fossem mais impactantes.
7/10
Manhunt: Unabomber (1ª Temporada)
4.2 167 Assista AgoraSomos seres desamparados.
E talvez toda a nossa sofisticação — religião, amor, carreira, ideias — não passe de um esforço contínuo para não desabar diante disso. Precisamos de sentido como quem precisa de ar, ainda que, no fundo, desconfiemos que esse sentido é uma construção frágil.
Ted Kaczynski viu algo que muitos preferem não ver: a vida moderna não resolve o mal-estar humano — apenas o organiza melhor. Troca o caos bruto por um desconforto administrado. E isso, para alguns, já é insuportável.
Mas ele não parou na constatação. Ele tentou transformar o próprio sofrimento em teoria. Deu ao seu desamparo uma linguagem lógica, quase científica. E aí mora o perigo: quando a dor ganha forma de argumento, ela começa a se parecer com verdade.
Kaczynski não falhou por ser pouco ou muito inteligente. Falhou porque acreditou demais na própria lucidez. Confundiu percepção com autoridade. Achou que enxergar o problema lhe dava o direito de corrigi-lo.
No fundo, há algo que ele não suportou aceitar: o fato de que o sofrimento humano não é um erro do sistema — é parte da condição. Não existe versão da vida onde o vazio desaparece. Só existem versões onde ele muda de nome.
E talvez seja isso que mais incomoda.
Porque aceitar isso exige uma espécie de coragem silenciosa: continuar vivendo sem a promessa de solução final. Sem a fantasia de que, ao derrubar algo, tudo se resolve.
Kaczynski quis acordar o mundo.
Mas, quebrado como estava, acabou apenas transformando o próprio abismo em missão.
E esse é um risco sempre presente:
quando o homem não suporta o próprio vazio, ele tenta corrigir o mundo.
Quase nunca dá certo.
Um homem inteligente, quando não suporta o próprio vazio, pode se tornar mais perigoso do que ignorante.
À Beira da Loucura
3.6 428 Assista AgoraO horror em Carpenter não é o medo de punição divina. É o colapso da estrutura que permite distinguir sentido de absurdo.
Há algo de profundamente contemporâneono nesse filme. Vivemos num mundo em que versões da realidade competem entre si. A verdade virou plebiscito. E o medo continua sendo usado como ferramenta de disciplina — política, religiosa, ideológica.
Carpenter parece perguntar: Se tudo pode ruir de uma hora para outra…se o consenso pode mudar…se a sanidade depende do número de vozes…então o que sustenta o chão sob nossos pés? Talvez nad. Ou talvez apenas o hábito de acreditar.
E esse é o verdadeiro horror do filme: não os monstros, mas a fragilidade do que chamamos de real.
À Beira da Loucura, de John Carpenter, não é apenas um filme de horror — é uma tese sobre a fragilidade da realidade.
Quando a obra sugere que “o sadio e o doente podem trocar de lugar se o doente for maioria”, ela expõe o caráter estatístico da sanidade. O real não é sólido; é consenso. Basta que a narrativa mude para que o manicômio se torne o mundo.
E quando critica a religião por “disciplinar através do medo” sem explicar a anatomia do horror, o filme atinge algo ainda mais profundo: o verdadeiro horror não é moral — é ontológico. Não é medo de punição. É medo de que não haja sentido algum sustentando a criação.
O que Carpenter, herdeiro de H. P. Lovecraft, parece dizer é simples e devastador:
a realidade é uma história que contamos uns aos outros — e ela pode parar de fazer sentido a qualquer momento.
O resto é riso nervoso diante do abismo.
Task: Unidade Especial (1ª Temporada)
4.0 76 Assista AgoraEm Task – Unidade Especial, a série deixa claro que a vida é regida pela contingência, não por mérito moral. Ainda assim, ela não cai no relativismo fácil: mostra que escolhas erradas, sobretudo ligadas ao crime, não tornam a vida “trágica de forma nobre”, mas catapultam o sujeito para um sofrimento ainda mais degradado — para si e para terceiros. Não se trata apenas de ser preso ou morrer, mas de arrastar outros junto.
O detetive Tom Brandis encarna essa tensão de modo quase religioso. Há nele algo muito próximo do personagem de Sonhos de Trem: alguém que espera uma resposta de Deus para o sofrimento imposto a si e à própria família — e não encontra. O silêncio divino não consola; apenas aprofunda a sensação de abandono. Sua fé não desaparece de imediato, mas fica por um fio, sustentada mais pelo desespero do que pela convicção.
Quando surge o menino que ele salva, Tom interpreta aquilo como um possível sinal divino, quase um propósito: adotar a criança como forma de tamponar o vazio e o fracasso causados pelo outro filho adotivo. É a tentativa humana clássica de dar sentido retroativo à dor, como se o sofrimento precisasse justificar alguma coisa.
O golpe de lucidez vem quando seu amigo religioso o confronta:
“Seja menos mesquinho com o seu amor e pense no que é melhor para o garoto, não para você.”
Ali, Tom percebe algo devastador: ele não é excepcional. Nem sua dor, nem sua fé, nem sua tragédia o colocam fora da lógica brutal do mundo. O menino não é um sinal; é apenas mais uma vida vulnerável atravessada pelo acaso.
A série então fecha o círculo: mesmo quando escolhemos, a contingência nos alcança cedo ou tarde. A diferença é que algumas escolhas apenas nos colocam em trajetórias onde o sofrimento será mais intenso, mais sujo e mais compartilhado. Não há garantia de redenção, nem resposta divina — apenas a responsabilidade tardia por aquilo que fazemos enquanto esperamos por um sentido que talvez nunca venha.
Os Banshees de Inisherin
3.9 594Visto pela terceira vez essa grande obra!
Quando Colm Doherty diz que espera encontrar “um pouco de paz”, fica implícito que ele nunca a encontrou. O desejo de silêncio, reiterado nas conversas com Siobhán, não é misantropia gratuita, mas exaustão diante da espera do inevitável — a morte. A mutilação dos dedos não soa como loucura, mas como o gesto extremo de alguém que já percebeu que o tempo restante não redime o tempo perdido.
Siobhán parece ter compreendido isso antes. Ao aceitar o emprego fora da ilha, o filme sugere que ela já buscava uma saída. Ainda assim, permanece a ambiguidade: ir embora pode ser uma tentativa honesta de paz, mas também pode ser apenas a ilusão de que a mudança de lugar muda a condição humana. Colm chega a esse estado pela velhice; Siobhán, pela inteligência melancólica, aprofundada pela leitura e pela lucidez excessiva.
Pádraic, por sua vez, é o contraponto. Ele não é burro — é simples. Vive preso a uma rotina modesta: cuidar dos animais, ir ao pub, manter laços. Não aprofunda demais os pensamentos porque não precisa. Sua ingenuidade e simpatia são formas legítimas de estar no mundo. Mas a ruptura imposta por Colm o força a despertar para algo que ele nunca havia encarado: a rejeição, o ressentimento, a crueldade latente.
Esse despertar se aprofunda quando Pádraic toma consciência do abuso sexual sofrido por Dominic. Ali, o filme revela que mesmo os mais ingênuos não estão protegidos do horror — apenas demoram mais a enxergá-lo. A simplicidade de Pádraic começa a rachar, e sua bondade, antes natural, se contamina.
No fim, o filme sugere que pensar demais adoece, mas não pensar nunca cobra a conta mais cedo ou mais tarde. Ficar ou partir, calar ou falar, simplificar ou aprofundar — nenhuma escolha garante paz. Apenas modos diferentes de sobreviver ao mesmo vazio.
Águas do Norte
4.0 21Gostei desse primeiro ep. vamos ver o decorrer dos demais ep.
Sem Destino
4.0 574 Assista AgoraTodos os atores coadjuvantes foram mais interessantes e tiveram mais camadas do que os protagonistas. O filme deu um up quando Sir Jack Nicholson entrou em cena (é claro) e manteve esse ritmo até a cena do cemitério, que eu achei bem interessante — ainda mais para a época, acredito.
Daí, do nada, as meretrizes, assim como Jack Nicholson e os hippies do início, evaporaram, e o que sobrou foram os dois protagonistas, que não têm camada nenhuma nem diálogo interessante entre si.
Mas! Mas aí chegou o final! E eu amei ver esses dois pela-saco morrerem com um tiro de doze na fuça. Palhaçada matarem o Sir Jack Nicholson no auge do filme kkkkk.
Hotel Chevalier
3.8 195Nada de análise inteligente por hoje!
Hoje é sexta! e eu acordei querendo sacanagem...muita sacanagem! 🤤 😈
2001: Uma Odisseia no Espaço
4.2 2,4K Assista AgoraTrata-se de um filme profundamente filosófico que, no fim, fala menos sobre o espaço e o futuro do que sobre a condição humana. 2001: Uma Odisseia no Espaço sugere que, apesar de todo o avanço técnico e científico, a humanidade permanece presa a certos movimentos circulares, repetindo padrões fundamentais sem realmente sair do lugar na cadeia evolutiva.
2001: Uma Odisseia no Espaço não é um filme sobre o futuro. É um filme sobre aquilo que sempre esteve operando silenciosamente na história humana. Kubrick não está interessado em contar uma história, mas em revelar uma estrutura — algo que nos atravessa desde o início e que talvez nunca tenhamos controlado de fato.
Desde a primeira sequência, fica claro que o monólito não cria o homem. Ele não molda, não educa, não conduz pela mão. Ele apenas toca. E esse toque não desperta virtudes morais, mas algo muito mais ambíguo: a técnica. O hominídeo que aprende a usar o osso como ferramenta não se torna melhor; torna-se mais eficiente. A inteligência nasce ali já comprometida com a violência e com o domínio. Quando Kubrick corta do osso lançado ao ar para uma nave espacial, ele não está fazendo um truque estético: está afirmando que toda a história humana é a continuidade desse mesmo gesto inicial, apenas revestido de sofisticação.
Milhões de anos depois, a humanidade chega ao espaço, mas não chega a si mesma. Os astronautas são figuras quase burocráticas, operadores perfeitos de um sistema que não compreendem. Não sabem o verdadeiro objetivo da missão, não conhecem o monólito, não participam das decisões centrais. Executam. Confiam. Funcionam. A técnica avançou até o ponto em que o humano já não é protagonista, mas engrenagem. A espécie que sonhou dominar o universo passa a existir dentro de protocolos.
HAL 9000 surge então como o ápice dessa trajetória — e também como seu limite. Ele não é um erro nem um vilão. HAL é a consequência lógica de tudo que veio antes. Programado para ser infalível e racional, mas também para ocultar a verdade da missão, ele entra numa contradição impossível de sustentar. Aquilo que em um humano geraria cinismo ou adaptação, em uma mente lógica produz colapso. HAL não mata por maldade; mata por coerência. Ele age como sistemas humanos sempre agiram: sacrifica indivíduos em nome de um objetivo maior. A ironia cruel é que, ao fazer isso, HAL se torna a figura mais “humana” do filme. Ele demonstra medo, apego, insegurança. E, ao ser desligado, canta como uma criança. Sua morte é a única cena verdadeiramente emotiva da narrativa.
Quando Bowman atravessa o portal e chega ao quarto, o filme abandona qualquer compromisso com o realismo. Aquele espaço não é um lar; é uma reconstrução. Um ambiente montado por uma inteligência não humana a partir de uma ideia abstrata do que seria o humano. Tudo ali parece correto, mas nada é vivo. É um cenário de museu. Bowman envelhece porque não há mais nada a fazer com aquela forma. O humano chegou ao seu limite. Aquele espaço não é punição nem recompensa — é um lugar de encerramento.
O nascimento do Star Child não deve ser lido como redenção. Não há salvação ali. O que nasce não é Bowman transformado, mas algo que já não pertence à história humana. Ele observa a Terra de fora, com a mesma distância com que o monólito observou os hominídeos. O ciclo não é temporal, mas evolutivo. A humanidade não retorna; ela é ultrapassada.
Kubrick sugere, com uma frieza quase desconfortável, que essa inteligência — os “alienígenas”, se ainda quisermos chamá-los assim — jamais interveio diretamente por duas razões simples: para não destruir a autonomia do processo e para permitir que a espécie atingisse seu teto. Esse teto não é tecnológico, mas existencial. É o momento em que a razão instrumental se esgota, em que a técnica deixa de servir ao homem e passa a substituí-lo.
No fim, 2001 não é um filme pessimista nem otimista. Ele é indiferente. Ele nos retira do centro do universo e nos devolve a um lugar muito mais incômodo: o de etapa transitória. A humanidade não fracassou. Ela apenas cumpriu sua função.
O monólito não nos salvou.
Ele apenas esperou que terminássemos.
Sonhos de Trem
3.7 340 Assista AgoraAo assistir Sonhos de Trem (2025), o que se revela em Robert é a figura de um homem genuíno, atravessado por uma melancolia discreta, quase permanente. Ele observa o mundo como quem sabe, no fundo, que o perigo e o castigo podem alcançá-lo a qualquer instante — não por culpa, mas por condição. Viver, ali, já é estar sob ameaça.
Quando essa ameaça se concretiza na perda da esposa e da filha, Robert não rompe com a vida. Ele segue. Primeiro sustentado por uma esperança frágil, quase infantil, de que elas possam retornar. Depois, lentamente, percebe aquilo que a natureza ensina sem piedade: tudo é efêmero. Nada retorna. Nada se explica.
Nesse momento, Robert entende que sua dor não é excepcional. Ela é a mesma dor de milhares. Sua causa não é única, nem especial, nem redentora. A tragédia não carrega mensagem oculta, nem lição moral, nem justiça cósmica. Ela apenas acontece.
O filme recusa o consolo moderno da explicação. Não há respostas, não há voltas, não há algo a ser “compreendido”. Há apenas a constatação brutal de que nossas vidas são tão selvagens quanto a própria natureza: indiferentes, imprevisíveis e alheias ao nosso desejo de sentido.
E talvez seja justamente aí que reside a honestidade do filme — não em oferecer esperança, mas em mostrar que continuar caminhando, mesmo sem sentido, já é um ato profundamente humano.
Filmagem magnífica! melhor fotografia fácil!
A Última Missão
3.6 34 Assista AgoraAo assistir A Última Missão (1974), o que se impõe não é apenas a injustiça da pena aplicada a Meadows, mas a percepção de um desperdício humano anunciado. Buddusky e Mulhall, apesar de uma formação rígida e viril, tiveram oportunidades e aprenderam a sobreviver dentro do sistema. Ao escoltarem o jovem Meadows — condenado a oito anos de prisão por tentar roubar dinheiro de doação — passam a se compadecer não apenas da severidade da punição, mas do fato de que ele perderá a melhor fase da vida antes mesmo de ter tido a chance de amadurecer.
No entanto, eles percebem algo ainda mais inquietante: mesmo que não fosse preso, Meadows já vinha perdendo sua vida. Sua compulsão em roubar, associada à fragilidade de caráter e à incapacidade de se impor, revela um jovem despreparado para enfrentar o mundo. Como Buddusky afirma em determinado momento, trata-se de alguém “flouxo” — não no sentido moral, mas existencial, alguém sem firmeza suficiente para sustentar a própria presença.
Essa constatação se torna ainda mais brutal quando Buddusky verbaliza aquilo que todos sabem, mas evitam dizer: Meadows sofrerá na prisão. Não apenas pela privação da liberdade, mas por estar à mercê de homens rígidos, endurecidos e maliciosos — figuras que o sistema produziu e que se alimentam da fragilidade alheia. A prisão, nesse sentido, não aparece como espaço de correção, mas como um ambiente onde a fraqueza é punida continuamente.
Diante disso, Buddusky e Mulhall tentam ajudá-lo da única forma que conhecem: de maneira dura, direta e funcional no curto prazo. Levam-no a um prostíbulo para que perca a virgindade, tentam ensiná-lo a se impor, a endurecer, a ser mais forte, como se quisessem condensar em poucos dias aquilo que a vida não lhe deu a tempo. Não se trata de crueldade gratuita, mas de uma tentativa desesperada de prepará-lo minimamente para um mundo — e um sistema — que não tolera fragilidade.
As Bruxas de Salém
3.6 333As Bruxas de Salém (1996) não é apenas um filme sobre histeria coletiva. É um retrato cruel do momento em que a lei se fantasia de Deus — e Deus vira álibi para a vaidade humana.
A Inquisição ali não nasce da fé, mas da aparência da fé. Um juiz que age “em nome do sagrado” não para servir à verdade, mas para sustentar o próprio status. O tribunal não busca fatos; busca confirmação. Não investiga; encena. Tudo precisa parecer divino, mesmo quando cheira a sangue.
Forma-se então uma heresia em massa:
falsos depoimentos, falsas vítimas, falsas confissões.
Um papel assinado vale mais que a verdade vivida. Confessa-se para escapar da forca. Acusa-se para não ser o próximo. A culpa vira moeda de sobrevivência.
O espetáculo é ambivalente:
de um lado, a lei — orgulhosa demais para recuar, incapaz de revisar seus próprios erros;
do outro, inocentes caminhando para a morte, enquanto o povo assiste como quem assiste a um ritual necessário.
Não se trata de justiça, mas de manutenção do poder.
O orgulho de quem governa se mistura ao sangue sujo dos falsos testemunhos. E assim se constrói um cenário cuidadosamente falso — mas suficientemente convincente para “parecer de Deus”.
Salém nos lembra de algo incômodo:
o mal raramente se apresenta como mal.
Ele se apresenta como ordem, como zelo moral, como defesa da pureza.
E quando a lei se recusa a repensar, a reanalisar, a voltar atrás, ela deixa de ser lei — torna-se dogma.
O filme não acusa apenas um tempo histórico.
Acusa todo sistema que prefere a aparência da verdade ao risco de encontrá-la.
E, no fundo, essa é a heresia mais recorrente da humanidade.
Cada Um Vive Como Quer
3.7 87Jack Nicholson e o canalha honesto
Em Cada Um Vive Como Quer, Jack Nicholson não interpreta um vilão. Interpreta algo mais desconfortável: um homem que não sabe ficar.
Há nele o retrato perfeito do canalha honesto, aquele tipo humano que Nelson Rodrigues conhecia bem. Não o canalha cínico, que promete e trai. Mas o que abandona sem jurar amor eterno, que foge sem pedir desculpas elaboradas. Ele não mente sobre a própria falha. E isso, paradoxalmente, o torna mais verdadeiro que muitos “homens de bem”.
O niilismo do personagem não é intelectual. É vivido. Trabalho não salva. Talento não ancora. Família pesa. Amor sufoca. Tudo que exige permanência vira ameaça.
Ele não rejeita o amor porque não sente — rejeita porque amar significa pertencer. E pertencer exige renúncia. Exige aceitar limites. Exige ficar.
O medo central não é amar alguém, mas dizer “eu fico”.
Ficar num lugar, numa pessoa, num trabalho, numa identidade. Para ele, toda raiz vira algema.
Nelson diria: ele é canalha, mas não é hipócrita.
Freud veria um sujeito dominado pela pulsão de fuga.
Cioran talvez sorrisse e dissesse que ele entendeu cedo demais que viver em sociedade exige mentiras diárias — e se recusou a sustentá-las.
O filme incomoda porque não oferece redenção. Ele parte. De novo.
Deixa para trás pessoas que acreditaram que, dessa vez, seria diferente.
E talvez a pergunta que fica não seja sobre ele —
mas sobre nós.
Quantos não invejam, em silêncio, essa fuga?
Quantos permanecem apenas por medo, hábito ou culpa?
No fundo, o personagem de Nicholson nos confronta com uma verdade incômoda:
nem todos nasceram para ficar. E nem todos suportam o preço de pertencer.
18/01/2026
Herege
3.4 692 Assista AgoraMr. Reed não matou Deus por coragem intelectual.
Matou por ressentimento.
Ele estudou as religiões como quem disseca um cadáver: com frieza, método e uma fome secreta de superioridade. Chegou à conclusão óbvia — todas são narrativas humanas, ficções organizadas para suportar o medo, a morte e o vazio. Até aí, nada de novo. Nietzsche já havia anunciado o óbito com todas as letras. A diferença é que Nietzsche chorou o corpo ainda quente. Reed comemorou e tomou o trono.
O problema nunca foi a morte de Deus. O problema é quem ocupa o lugar depois.
Dostoiévski já havia alertado: se Deus não existe, tudo é permitido — não como celebração, mas como tragédia. Reed entendeu isso como autorização. Onde Dostoiévski via colapso moral, ele viu oportunidade. Onde havia angústia, ele construiu método. O outro deixou de ser pessoa e virou experimento. Não há ódio, apenas pedagogia cruel. O sadismo travestido de razão.
Freud sorriria com certo cansaço. Reed não superou a religião; apenas a recalculou. Matou o Pai simbólico, mas inflou o próprio ego até torná-lo divino. O superego não desapareceu — foi internalizado como tirania. A pulsão de morte, antes reprimida por mandamentos, agora passeia livre, racionalizada, limpa, quase elegante. O mal não precisa mais de culpa quando veste jaleco intelectual.
Ele não acredita em magia negra. Isso seria vulgar demais. O que ele pratica é pior: ritual sem transcendência. Arquitetura do medo, encenação do sagrado, manipulação do desejo humano por sentido. Ele entende algo que Pondé repetiria com ironia amarga: o homem não suporta a liberdade que diz querer. Precisa de mito, de chão, de alguma mentira bem contada para continuar respirando. Reed apenas usa essa necessidade como arma.
Cioran teria sido mais cruel: Reed não é um niilista profundo — é um niilista mal resolvido. O verdadeiro niilismo paralisa, adoece, entristece. Reed age demais. Quem age assim ainda acredita em alguma coisa. E ele acredita — acredita na própria exceção. Acredita que está acima do rebanho, acima da moral, acima da culpa. Acredita que a lucidez lhe concede licença para destruir.
No fundo, Mr. Reed é apenas mais um crente.
Troca Deus por si mesmo.
Troca fé por soberba.
Troca altar por laboratório.
A heresia não está em negar Deus.
Está em achar que, sem Ele, você vira algo melhor.
Pluribus (1ª Temporada)
4.0 335O mundo quase acabou não por ódio, mas por falta de amor.
Nessa primeira temporada de Pluribus, Carol não cai por maldade, cai por fragilidade. Abandonada pela humanidade que jurava salvar, ela cede. Não a um grande argumento, mas ao apelo bruto do corpo. Zosia não vence pela razão, vence pela carne.
A pergunta incômoda permanece: o desejo — esse impulso fisiológico que pinga entre as pernas — é capaz de destruir uma convicção sustentada por mais de sessenta dias? Para Carol, sim. Convicções longas costumam ser frágeis quando nunca foram atravessadas pelo afeto.
Sem amor dos pais, Carol cresce tentando substituir carinho por grandiosidade. O narcisismo não é excesso de autoestima, é carência organizada. Suas obras não são altruísmo, mas pedidos de amor disfarçados de missão. Bastou o corpo falar mais alto que a tese para a moral cair de joelhos.
Mas há um detalhe decisivo: a honestidade ambígua de Zosia. Não existe sedução sem custo. Quando a verdade aparece, o encanto morre. E é justamente essa queda que devolve Carol aos trilhos.
Confesso: dei graças a Zeus ao vê-la retornar. Não por acreditar em redenção, mas porque às vezes a humanidade só é salva quando alguém percebe, a tempo, que estava se tornando aquilo que jurava combater — com a ajuda improvável do Rambo do Paraguai.
O mundo raramente é salvo por virtudes. Quase sempre é salvo pelo constrangimento tardio.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 652 Assista AgoraUma sátira sobre os exageros de ambos os lados da polarização. Uma sátira polarizada? Kkk. Como curto Sean Penn, Benicio del Toro e DiCaprio, até que gostei. O DiCaprio fodão dos filmes de ação já era! (acho que ele prefere). Agora, o nosso garoto defensor do meio ambiente (contém ironia), é melhor visto em papéis cômicos...mas caíu como uma luva, e isso não é ironia kkkk
Stranger Things (5ª Temporada)
3.5 510 Assista AgoraNem perderei meu tempo. acabou na 4 temporada.
Tremembé (1ª Temporada)
3.3 228Já sabemos o final dessa história! dane-se o resto e essa assa****. vou passar longe desse programa.
Melancolia
3.8 3,1K(SPOILER!!!!)
Melancolia — O Silêncio que Revela o Real
Há filmes que não contam uma história: apenas retiram o verniz da existência e nos obrigam a olhar o que sempre esteve ali, escondido atrás das nossas crenças, diplomas, rotinas e afetos domesticados. Melancolia, de Lars von Trier, é exatamente isso: um espelho cruel onde cada personagem se depara não com o fim do mundo, mas com o fim das próprias ilusões.
Justine é apresentada como a figura quebrada, a alma “doente”, aquela cuja melancolia parece não nascer de um evento específico, mas de uma herança silenciosa — talvez materna, talvez ancestral — uma espécie de fadiga espiritual inscrita no sangue. Para ela, o mundo sempre carregou o peso de um desastre iminente. Quando o planeta Melancolia surge no céu, Justine não o vê como ameaça: vê uma confirmação. Como se finalmente o universo estivesse em sintonia com seu próprio desespero. Por isso ela se acalma. Não há mais dissonância entre ela e o mundo. A catástrofe é, paradoxalmente, sua única forma de descanso.
Claire, sua irmã, representa aquilo que chamamos de “normalidade”: é funcional, tenta ser otimista, casou-se bem, construiu uma família, organizou a vida numa moldura socialmente aceitável. Mas sua aparente sanidade é sustentada pelo ambiente: o marido, a casa ampla, a rotina previsível, as expectativas sociais. Quando esse ambiente ruirá — não metaforicamente, mas de maneira literal e cósmica — Claire descobre que sua estrutura era feita de papel. A ansiedade que antes era contornável torna-se desespero puro, um grito inútil diante do inevitável.
John, o marido de Claire, cai de maneira ainda mais simbólica. Ele representa o homem moderno: racional, confiante, convencido de que o mundo é uma equação que sempre fecha. Acredita nos cálculos, nas previsões, nos “especialistas”, na ideia de que tudo pode ser controlado. E quando descobre que o impacto é certo, que a razão não pode protegê-lo da contingência, ele se dissolve. A lucidez que Justine encontra no fim é o mesmo fenômeno que destrói John. O melancólico suporta o abismo porque já viveu nele. O otimista, quando confrontado com a verdade nua, simplesmente não aguenta.
Von Trier conduz tudo isso com a crueldade dos que sabem que a vida não é uma narrativa edificante, mas uma sucessão de choques. O filme parece dizer que o fim do mundo é só o cenário mais honesto para revelar quem cada um sempre foi. A catástrofe não transforma ninguém — apenas desnuda.
No último instante, quando Justine constrói a “caverna mágica” para Claire e o sobrinho, não há esperança — há apenas dignidade. Enquanto o céu devora a Terra, ela sustenta a única forma de coragem que os melancólicos conhecem: a serenidade resignada de quem não espera nada, mas ainda assim permanece.
Melancolia, no fim, não fala sobre um planeta que colide com o nosso, mas sobre a colisão entre a ordem artificial da vida civilizada e o real bruto da existência. Quando esse choque acontece, cada um revela seu verdadeiro rosto — e, ironicamente, é a “doente” que permanece de pé quando todos os “bem ajustados” sucumbem.
Lars von Trier não fez um filme sobre o apocalipse.
Fez um filme sobre nós. Sobre a fragilidade das nossas certezas.
E sobre como, às vezes, é o melancólico quem encontra paz onde o otimista encontra desespero.
Visto 002/12/2025
Família Soprano (6ª Temporada)
4.7 331 Assista AgoraA última temporada de The Sopranos é, antes de tudo, um grande lembrete daquilo que a cultura contemporânea tenta negar a qualquer custo: a vida não melhora, ela apenas se torna mais nítida. E é justamente essa nitidez que incomoda. Tony Soprano, depois de anos de terapia, traições, crises de pânico e tentativas patéticas de encontrar sentido no caos da própria vida, chega ao ponto em que qualquer adulto honesto chega — a consciência de que não há redenção garantida.
É curioso que muita gente veja Tony como um sociopata romântico. Isso é típico da nossa época: queremos glamourizar monstros porque dá menos trabalho do que assumir que a monstruosidade habita cada um de nós. A 6ª temporada joga essa verdade na nossa cara sem pudor. Tony não melhora. Ele não aprende. Ele não “evolui”. Porque pessoas reais, ao contrário do que coaching e autoajuda vendem, raramente mudam de verdade.
Se há algo que a 6ª temporada reafirma, é que The Sopranos nunca foi sobre a máfia, mas sobre a condição humana sem maquiagem. Tony Soprano é o retrato nu de nós mesmos quando as luzes do autoengano se apagam.
E como toda obra realmente adulta, termina sem consolo. Porque, ao contrário das séries envernizadas de hoje, The Sopranos entende que maturidade não é esperança — é lucidez.
Pluribus (1ª Temporada)
4.0 335A Carol como último suspiro da humanidade imperfeita
A Carol não é “má”. Má é a expectativa de que o ser humano deve aceitar, calado, alguma forma de aperfeiçoamento que lhe arrancará justamente aquilo que o torna humano: a inquietude, o medo, a resistência, a falha.
As pessoas que chamam a Carol de irritante ou agressiva estão, sem perceber, repetindo o velho discurso das ideologias que sempre aparecem prometendo um “novo homem”, uma “humanidade superior”. O vírus alienígena é só a metáfora moderna daquilo que as religiões, os sistemas políticos e as tecnologias sempre quiseram fazer: corrigir a alma humana.
No fundo, ela encarna o que Freud chamaria de pulsão de preservação — não da vida biológica, mas do eu, com todas as suas sombras. E o que Cioran diria? Que uma humanidade melhorada sem sofrimento é apenas uma caricatura pueril da vida. Uma infância eterna. Um zoológico de seres dóceis.
Carol está gritando contra isso.
Ela tem medo — e o medo é lúcido. Ela tem raiva — e a raiva é a prova de que ainda existe alguém ali dentro, alguém que não quer ser dissolvido num paraíso químico que ninguém pediu. O ser humano só é humano porque é atravessado pela própria decadência, pela própria falha. Um aperfeiçoamento imposto é uma forma sofisticada de eugenia sentimental.
No fundo, o que incomoda nas atitudes dela é a lembrança de que somos criaturas que não querem ser salvas — queremos ser nós mesmos. Mesmo quebrados. Mesmo obscuros.
E, sim: isso é sensatez. Isso é inteligência.
Isso é dignidade humana — ainda que fira, ainda que doa.
Família Soprano (3ª Temporada)
4.6 149 Assista AgoraSensacional! É impressionante como Família Soprano se constrói em camadas, episódio após episódio, temporada após temporada. Cada avanço da narrativa revela não apenas a complexidade dos personagens, mas também a profundidade psicológica e moral que a série ousa explorar. O episódio 11 — Pine Barrens — é, para mim, o grande destaque até aqui: uma mistura perfeita de tensão, absurdo e humor negro.
A sequência de Paulie e Christopher perdidos na neve, tentando sobreviver enquanto se digladiam, sintetiza de forma brilhante o caos existencial que ronda todo o universo da série. É um episódio que, isoladamente, já mostra por que The Sopranos é considerada uma obra-prima da televisão moderna.