Somos apresentados à garota apenas na última cena. Para mim, essa escolha, reflete a maneira como a mãe "deixa" de enxergar a criança durante toda a história e apenas "se dá conta" de olhar e vê-la no ápice do desespero.
Todas as cenas com zoom extremado no rosto da personagem principal é mais uma ferramenta de imersão na angústia da protagonista. Subtexto muito importante, tratando de solidão e culpa materna. Há uma pressão social para que a mãe seja imaculada em todos os sentidos. Linda não consegue administrar todos esses padrões e está constantemente perturbada pelo perfeccionismo e pela falta de controle. A doença da filha, da qual ela quer se livrar, a todo custo, é um sintoma disso. Ela tenta ser uma boa mãe, apesar de se perder nas próprias demandas. O "buraco" no teto, por sua vez, além de ser um problema doméstico, que, em condições "normais" de temperatura e pressão seria facilmente solicionado
(vide a resolução prática do problema quando o marido aparece)
, vira um encargo completamente dificultoso, porque Linda já está sobrecarregada. Quando os problemas se acumulam, as dificuldades resolutivas se ampliam, porque a saída mais fácil, ou mais tranquila, pode sair do campo de visão.
Uma viagem de dois primos ao passado da avó. Como um roteiro aparentemente simples pode criar um filme tão difícil? São camadas coletivas - externas - e pessoais - subjetivas - para se debater.
O cenário e background proposital de uma viagem à Polônia, ao holocausto. O que poderia ser mais doloroso do que isso? A verdadeira dor - histórica e latente - em contraste com as dores pessoais de dois homens nascidos e criados em uma realidade "confortável".
Em outra camada, o amor entre dois homens - difícil de ver representado no cinema - de personalidades completamente opostas, mas que se reconhecem por um passado comum (não apenas da avó, mas da convivência da infância). Mesmo assim, há um choque, um estranhamento, um desconforto: pessoas amadurecem, mudam...
Benji cresceu, mas não se adaptou. Seu primo cresceu, e se conformou ao mundo: fez carreira, casou-se, tem família.
Um traçou o esperado, convalescendo ao seu perfil introspectivo. O outro, extrovertido, impulsivo, não consegue se conformar ao que o mundo exige dele.
Ao fim e ao cabo, um é capaz de ensinar o outro, e até mesmo de provocar certa inveja, porque o que falta em um, sobra no seu par.
Amar quem se é e entender suas limitações é tão difícil quanto ser desafiado por elas.
Esqueça a ideia de que esse filme fala da busca pelo par ideal, ou de homens imaturos, relacionamentos tóxicos e machismo. Claro, todos são elementos indispensáveis da construção da narrativa e, na realidade, existem como problema social. No entanto, Anora, sem explicitar a intenção, vem mexer, com mais profundidade, em um único ponto: as dores e marcas da prostituição.
Anora não conhece outro tipo de afeto sem ser o pago. Por isso não vejo "maldade" no seu interesse por Vanya. Há interesse econômico? Sim. Mas, para ela, é como se fosse o único possível a ser traduzido em amor. Não é como se ela soubesse que existe outro tipo de afeto.
Para Ani há apenas o sexo, a diversão e o amor comprado. Pela primeira vez ela se vê "amada" de um jeito um pouco mais especial. Ainda que, desde o início, seja mais do que perceptível para o espectador que Vanya é apenas um menino fanfarrão e irresponsável. Anora romantiza Vanya. E vê esperança na relação. É por isso que é quase impossível julgá-la por algum "interesse econômico" subjacente à relação. É por isso que somos capazes de nos afeiçoar a ela.
E toda essa premissa é confirmada quando ao final do filme ela tenta, de todas as formas, que Vanya a trate bem, independentemente de bens -
a cena em que os capangas russos invadem a casa e tentam impedir Vanya e Ani de saírem é uma tragédia cômica perfeita. O caos em sua forma mais absurda. Que cena maravilhosa!!!
O mal tira férias, passeia de caiaque, tem animais de estimação, ama a natureza, tem sonhos, sonambulismo, come, passa por problemas familiares e apaga as luzes da casa ao anoitecer para dormir. Somos habituados a ver retratos da 2ª Guerra sempre no tom dramático: um grande personagem, uma grande história. Zona de Interesse não entrega isso; o filme entrega rotina. O dia a dia de uma família nazista. É impossível sentir qualquer tipo de empatia por qualquer personagem, até mesmo as crianças, que nada mais são do que produtos daquele ambiente.
Uma mãe que se recusa a deixar seu lar construído com um grande jardim separado apenas por um muro dos gritos dos judeus de Auschwitz; um pai tão cego pela obediência hierárquica e motor da engrenagem nazista, que se torna atônito.
O filme é uma fórmula nova para mostrar que o mal não se reconhece como mal, apenas se convence da própria razão e banaliza o outro ser humano, que, pra ele, sequer é humano. O terror é absoluto para quem assiste.
"[...] a writer is more of a menace to an unsuspecting public than a party hack." (Um roteirista é mais ameaçador do que um partido para um público desavisado).
O homem invisível possibilita o suspense intrincado à ficção, mas prescinde da ficção científica extremamente visual. É um roteiro que funcionaria com ou sem a ideia da invisibilidade como ciência - já que poderia ser um elemento meramente sobrenatural - e isso é bastante interessante. De imediato a premissa do filme já atrai: o espectador o assiste a partir do spoiler. Se nas cenas iniciais há certo embaraço pois não conseguimos decifrar de imediato as boas ou más intenções da personagem Cecília, nas cenas seguintes logo colocamos a consciência no lugar e deciframos que se trata de um relacionamento abusivo. No entanto, como já apontado, sabemos desde o início que Adrian se tornará invisível, e desde o anúncio de seu suposto suicídio já temos em mãos o desenrolar dos acontecimentos. Mesmo com essa informação, o filme consegue sustentar a curiosidade e aflição durante a continuidade da trama. Percebam: durante esses períodos do filme nos quais a personagem ainda não se deu conta da invisibilidade, não há qualquer necessidade de efeitos extremamente rebuscados, pois a narrativa e o suspense sustentam por si só. Então, o substrato é um tema científico, mas a montagem é totalmente autossustentável e o terror é psicologicamente produzido.
E me permito debruçar sobre essa metáfora do filme. Fiquei detida ao pensamento de como a história da alimentação e das formas de se alimentar refletem muito nossa organização social, desde os primórdios. Pensando que chefes tribais podiam ter para si garantidas as melhores porções de comida, que a “aristocracia” pré-medieval aprendeu a realizar grandes banquetes regados a exageros, tendo na abundância sinônimo de riqueza, e que a “aristocracia” pós-medieval começou a prezar pelo requinte das refeições. Hoje, ainda que superadas algumas tradições, continuamos pertencendo a uma sociedade que mata pela fome e reserva a fartura e o requinte para os níveis acima. Ainda que exista alimento em quantidade suficiente para todos os estratos, o egoísmo humano e seu individualismo reforçado pelo sistema capitalista normalmente nutrem no homem médio uma visão indiferente sobre a comunhão de insumos e afastam a visão cósmica de sociedade no real sentido de comunidade. E aqueles que levam o “livro” para o poço, em vez de meios de defesa e sobrevivência mais apurados – como facas e cordas – devem lidar com o peso da injustiça social, a não ser que, ousados o suficiente, arrisquem-se ao martírio da luta pelo bem-estar social. Talvez, se o filme tivesse se preocupado em trabalhar mais esse núcleo, as explicações continuariam em aberto, mas com uma direção um pouco menos atribulada do que se sentiu ao final.
Se me fiz bem entender, a juventude tem algo de primordial na ideia e na necessidade do ineditismo, ou do perfeccionismo plástico das imagens. Por outro lado, a maturidade traz consigo uma liberdade e uma ousadia no estilo de direção e de edição. Ela produz um desapego formal que traz resultado, pois acaba sendo uma consequência de uma vida toda de direção na qual se aperfeiçoa, não a forma e o fundo, mas a personalidade de se fazer o cinema. João Moreira Salles representa essa questão escolhendo takes com sutileza narrativa bastante profunda, cenas simbólicas e aguçadas.
De maneira geral “Adoráveis Mulheres” se constrói como uma bela pintura renascentista. Um filme que toma a sétima arte como mãe de todas as outras – ou herdeira de todas as outras? E ambienta essa estética, principalmente, nos seus planos abertos. Os movimentos de direção das atrizes são teatrais e ensaiados, uma verdadeira emoção dançante que culmina em verdadeiros quadros pintados a mão. Vê-se essa tendência em cenas como a da mãe que traz para perto de si todas as filhas num abraço, e nos encontros das personagens em jardins. A escolha dos figurinos dão o toque essencial para a composição das cenas. Há essa identidade rebuscada entre a narrativa, o espaço e o tempo em que se cultiva a história. De forma complementar apresentam-se corriqueiramente cenas nas quais há velocidade contrastada: uma personagem que corre e confronta o movimento da cidade, a dança ritmada de um salão de festas e os olhares mais lentos trocados entre personagens.
Do lado brasileiro, a força natural da população de Bacurau. Em livre interpretação, o psicotrópico é apenas o placebo trópico. Temos ali uma força que se desgarra de muito mais do que uma droga ou uma planta alucinógena. A força placebo da erva é na realidade a manifestação da força de conjunto da comunidade. Aquilo que os une é a seca, a dificuldade, é o efetivo sentimento de pertencimento. Tanto o é, que Lunga, ainda que seja o destaque representativo da liderança, insurge bem menos como líder do que possivelmente se imagina. Ele aparece como homenagem ao cangaço, para dar o golpe final e o toque de "crueza". Na realidade, quem sem defende majoritariamente é uma comunidade nua segurando em armas rústicas. Nua de água, de roupas, de urbanidade, mas investida de comunhão.
E afinal, soterrar o vilão sob sua terra é oferecer à natureza o adubo sobre o qual aquela comunidade continuará crescendo: os resquícios e detritos da própria luta incansável. Afinal, desde que o Brasil indígena sucumbiu, não há como não concordar que a guerra nunca acabou. E ela fica mais agressiva e palpável quando vista numa tela de cinema.
Impossível avaliar com estrelas esse filme. O significado e a importância e a época em que foi criado são impossíveis de serem ressignificados em uma nota.
ATENÇÃO, MUITOS SPOILERS: A aurora do homem é além de um único momento. A cada era temos em vista o que se considera inovação: a descoberta das ferramentas pelos primatas, o uso tecnológico para atividades espaciais. Conforme as teorias que vi por aí, o monólito surge em sociedades nas quais essas auroras ocorrem. No entanto, também acho importante considerar que o monólito poderia surgir em qualquer sociedade na qual o FIM esteja se aproximando. A cada descoberta, os seres mantêm-se em uma linha tênue entre o começo de uma nova era e o próprio fim, através de atitudes de auto-extermínio. Isso é representado pelo primata que atenta contra outro de sua própria espécie; ou o ser humano que luta contra algo que ele mesmo criara, a tecnologia. Tudo o que há entre o desconhecido e a descoberta contêm um risco inimaginável, e é sobre o risco que Kubrick se debruça. Importante ressaltar a viagem que a personagem faz no espaço-tempo, evidenciada ao final, nas cenas memoráveis e puramente visuais. Isso me trouxe por vezes a sensação de não saber identificar se o início do filme seria realmente o começo de tudo na Terra ou o depois de tudo, depois da destruição, um recomeço em algum outro planeta no qual a sociedade se reconstrói sobre os mesmos patamares da terrestre. O surgimento do feto está, no fim, para representar uma gama de possibilidades. Um clássico é um clássico, por não perder a temporalidade. Portanto, a maestria deste insurge nas inovações técnicas - tanto de formas de produção do filme, como de previsões para uma nova era da sociedade trazidas no interior da história - as quais, imagino, representaram para os espectadores do final dos anos 1960 uma revolução cinematográfica e tecnológica. Além disso, a atualidade do filme se mostra pois vivenciamos uma época na qual discute-se os limites da tecnologia e o quanto somos influenciados e/ou dependentes dela e como ela poderá representar, com o passar dos anos, tanto nossa evolução como a completa dominação de nossa raça por mecanismos de auto destruição. É isto, Kubrick esteve com a câmera erguida a frente do seu tempo, a frente do nosso tempo, e com os pés tocando o solo presente.
Claramente é um filme com pouquíssimas possibilidades de plot. Gente, a ambientação é um tribunal do Júri. Um tribunal pressupõe um processo criminal inteiro pra chegar até o julgamento, e isso nos limita possibilidades de um plot DENTRO da ideia do filme, que é ser passado INTEIRAMENTE no tribunal. Não é nada lógico , por exemplo, o menino trazer uma revelação bombástica sobre quem foi o assassino, porque disso decorreriam entraves jurídicos ALÉM do tribunal, os quais o filme não deseja mostrar; nem seria ideal, apostar em um assassino absolutamente estranho às provas colhidas até então, porque, afinal, um processo inteiro já havia sido instruído. Enfim, seria quase impossível amarrar o final do filme sem atropelar a ideia central de um JULGAMENTO. Entendem como as possibilidades são limitadas para dar o tom necessário de realidade? O bacana é que, ainda sim, a obra consegue sair fora da casinha porque
dá um jeito de mostrar ao espectador a verdade, sem deixá-la ser exposta através da ambientação do filme - o próprio júri,
. E, melhor: de uma forma muito mais interessante do que uma mera revelação bombástica durante o julgamento. O mérito maior, afinal, consiste em conciliar: uma ambientação praticamente inteira dentro de um tribunal e nenhuma margem para o tédio.
Tudo o que Bergman criou tinha inspiração ou representava sua vida - passado e até futuro (Morangos Silvestres). Cara, ele fez UM TANTO de filme ABSOLUTAMENTE diverso e conseguiu se retratar por várias perspectivas e formatos em TODOS. Se por um lado isso é genial, por outro é mais um traço da sua personalidade egoísta. Definitivamente ele dá a alma na obra, o que faz a gente engolir algumas coisas a seco porque não dá pra afastar o artista da obra DE FORMA ALGUMA e como pessoa ele não foi exemplo, digamos.
GENTE, não confiem na sinopse, ela é MUITO problemática. Após assistir o filme, pude perceber que ele não romantiza, mas retrata a verdadeira faceta de um abusador : MANIPULADOR; e a de uma menina/mulher ABSOLUTAMENTE marcada pelo trauma do abuso, e que se tornou uma adulta conflituosa consigo. Por vezes ela parece acreditar na fala manipuladora do abusador, outras vezes é tomada por ódio, parece querer vingança. É nítido , e isso é exposto em uma das cenas, como a família foi negligente com relação ao trauma dela. Ela joga na cara da mãe: "Vocês só queria abafar tudo o que aconteceu" . A provavel e notável falta de um acompanhamento psicológico gerou MUITAS questões conflituosas nela (inclusive um descontrole sexual - vide o choro após se relacionar com o colega de trabalho do abusador). Vocês estão dizendo que o filme romantiza o abuso, porque é exatamente essa a CRÍTICA que ele quer mostrar: a capacidade de um abusador em conquistar a vítima e convence-la de que tudo FOI amor; enquanto, do outro lado, temos uma vítima TRAUMATIZADA e, obviamente, sujeita, ainda, apesar de tudo o que passou, à fala do abusador.
se o objetivo foi exaltar a exposição e suas consequências, falhou, porque, ao meu ver, isso ficou em segundo plano perto de outros acontecimentos do filme que foram bem mais explorados
Seu Ruben, às vezes menos é mais, não precisava de tanto tempo pra vários acontecimentos desconexos.
É um filme muito sensível, os takes são minimalistas e precisos, enfoca MUITO as amenidades (sol batendo no rosto, jeito do caminhar; ...). Mas me pareceu que o roteiro se perde entre o começo, o meio e o fim, tornando o ritmo arrastado. A história dá uma alavancada nos momentos finais, mas a cena final, precisamente, declina. Por mim, poderia ter acabado, tranquilamente, na cena em que
A Aldeia dos Amaldiçoados
3.8 137 Assista AgoraHey, teacher, leave us kids alone
All in all, you're just another brick in the wall
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
3.6 188 Assista AgoraUm dos elementos desse filme que mais me chama atenção é a ausência da imagem da filha.
Somos apresentados à garota apenas na última cena. Para mim, essa escolha, reflete a maneira como a mãe "deixa" de enxergar a criança durante toda a história e apenas "se dá conta" de olhar e vê-la no ápice do desespero.
Todas as cenas com zoom extremado no rosto da personagem principal é mais uma ferramenta de imersão na angústia da protagonista.
Subtexto muito importante, tratando de solidão e culpa materna. Há uma pressão social para que a mãe seja imaculada em todos os sentidos. Linda não consegue administrar todos esses padrões e está constantemente perturbada pelo perfeccionismo e pela falta de controle. A doença da filha, da qual ela quer se livrar, a todo custo, é um sintoma disso. Ela tenta ser uma boa mãe, apesar de se perder nas próprias demandas.
O "buraco" no teto, por sua vez, além de ser um problema doméstico, que, em condições "normais" de temperatura e pressão seria facilmente solicionado
(vide a resolução prática do problema quando o marido aparece)
Quando os problemas se acumulam, as dificuldades resolutivas se ampliam, porque a saída mais fácil, ou mais tranquila, pode sair do campo de visão.
A Verdadeira Dor
3.5 234 Assista AgoraUma viagem de dois primos ao passado da avó. Como um roteiro aparentemente simples pode criar um filme tão difícil?
São camadas coletivas - externas - e pessoais - subjetivas - para se debater.
O cenário e background proposital de uma viagem à Polônia, ao holocausto. O que poderia ser mais doloroso do que isso? A verdadeira dor - histórica e latente - em contraste com as dores pessoais de dois homens nascidos e criados em uma realidade "confortável".
Em outra camada, o amor entre dois homens - difícil de ver representado no cinema - de personalidades completamente opostas, mas que se reconhecem por um passado comum (não apenas da avó, mas da convivência da infância). Mesmo assim, há um choque, um estranhamento, um desconforto: pessoas amadurecem, mudam...
Benji cresceu, mas não se adaptou. Seu primo cresceu, e se conformou ao mundo: fez carreira, casou-se, tem família.
Um traçou o esperado, convalescendo ao seu perfil introspectivo. O outro, extrovertido, impulsivo, não consegue se conformar ao que o mundo exige dele.
Ao fim e ao cabo, um é capaz de ensinar o outro, e até mesmo de provocar certa inveja, porque o que falta em um, sobra no seu par.
Amar quem se é e entender suas limitações é tão difícil quanto ser desafiado por elas.
Anora
3.4 1,2K Assista AgoraEsqueça a ideia de que esse filme fala da busca pelo par ideal, ou de homens imaturos, relacionamentos tóxicos e machismo. Claro, todos são elementos indispensáveis da construção da narrativa e, na realidade, existem como problema social. No entanto, Anora, sem explicitar a intenção, vem mexer, com mais profundidade, em um único ponto: as dores e marcas da prostituição.
Anora não conhece outro tipo de afeto sem ser o pago. Por isso não vejo "maldade" no seu interesse por Vanya. Há interesse econômico? Sim. Mas, para ela, é como se fosse o único possível a ser traduzido em amor. Não é como se ela soubesse que existe outro tipo de afeto.
Para Ani há apenas o sexo, a diversão e o amor comprado. Pela primeira vez ela se vê "amada" de um jeito um pouco mais especial. Ainda que, desde o início, seja mais do que perceptível para o espectador que Vanya é apenas um menino fanfarrão e irresponsável. Anora romantiza Vanya. E vê esperança na relação. É por isso que é quase impossível julgá-la por algum "interesse econômico" subjacente à relação. É por isso que somos capazes de nos afeiçoar a ela.
E toda essa premissa é confirmada quando ao final do filme ela tenta, de todas as formas, que Vanya a trate bem, independentemente de bens -
veja como é significativo o momento em que ela "devolve" os bens materiais à mãe do ex-marido.
E acredito que só fui capaz de perceber a temática mais relevante do filme na cena final:
a recusa do beijo, o choro, e a necessidade de um abraço mostram que, o tempo todo, ela nunca soube ser amada.
Adendo:
a cena em que os capangas russos invadem a casa e tentam impedir Vanya e Ani de saírem é uma tragédia cômica perfeita. O caos em sua forma mais absurda. Que cena maravilhosa!!!
Zona de Interesse
3.6 698 Assista AgoraO mal tira férias, passeia de caiaque, tem animais de estimação, ama a natureza, tem sonhos, sonambulismo, come, passa por problemas familiares e apaga as luzes da casa ao anoitecer para dormir.
Somos habituados a ver retratos da 2ª Guerra sempre no tom dramático: um grande personagem, uma grande história. Zona de Interesse não entrega isso; o filme entrega rotina. O dia a dia de uma família nazista. É impossível sentir qualquer tipo de empatia por qualquer personagem, até mesmo as crianças, que nada mais são do que produtos daquele ambiente.
Uma mãe que se recusa a deixar seu lar construído com um grande jardim separado apenas por um muro dos gritos dos judeus de Auschwitz; um pai tão cego pela obediência hierárquica e motor da engrenagem nazista, que se torna atônito.
Please Hold
3.6 37"O processo" de Kafka versão 2.0
Mank
3.2 461 Assista Agora"[...] a writer is more of a menace to an unsuspecting public than a party hack." (Um roteirista é mais ameaçador do que um partido para um público desavisado).
O Homem Invisível
3.8 2,0K Assista AgoraO homem invisível possibilita o suspense intrincado à ficção, mas prescinde da ficção científica extremamente visual. É um roteiro que funcionaria com ou sem a ideia da invisibilidade como ciência - já que poderia ser um elemento meramente sobrenatural - e isso é bastante interessante. De imediato a premissa do filme já atrai: o espectador o assiste a partir do spoiler. Se nas cenas iniciais há certo embaraço pois não conseguimos decifrar de imediato as boas ou más intenções da personagem Cecília, nas cenas seguintes logo colocamos a consciência no lugar e deciframos que se trata de um relacionamento abusivo. No entanto, como já apontado, sabemos desde o início que Adrian se tornará invisível, e desde o anúncio de seu suposto suicídio já temos em mãos o desenrolar dos acontecimentos. Mesmo com essa informação, o filme consegue sustentar a curiosidade e aflição durante a continuidade da trama. Percebam: durante esses períodos do filme nos quais a personagem ainda não se deu conta da invisibilidade, não há qualquer necessidade de efeitos extremamente rebuscados, pois a narrativa e o suspense sustentam por si só. Então, o substrato é um tema científico, mas a montagem é totalmente autossustentável e o terror é psicologicamente produzido.
O Poço
3.7 2,1K Assista AgoraSe algo me reteve nesse filme, principalmente pela originalidade, é a ideia do banquete.
E me permito debruçar sobre essa metáfora do filme. Fiquei detida ao pensamento de como a história da alimentação e das formas de se alimentar refletem muito nossa organização social, desde os primórdios. Pensando que chefes tribais podiam ter para si garantidas as melhores porções de comida, que a “aristocracia” pré-medieval aprendeu a realizar grandes banquetes regados a exageros, tendo na abundância sinônimo de riqueza, e que a “aristocracia” pós-medieval começou a prezar pelo requinte das refeições. Hoje, ainda que superadas algumas tradições, continuamos pertencendo a uma sociedade que mata pela fome e reserva a fartura e o requinte para os níveis acima. Ainda que exista alimento em quantidade suficiente para todos os estratos, o egoísmo humano e seu individualismo reforçado pelo sistema capitalista normalmente nutrem no homem médio uma visão indiferente sobre a comunhão de insumos e afastam a visão cósmica de sociedade no real sentido de comunidade. E aqueles que levam o “livro” para o poço, em vez de meios de defesa e sobrevivência mais apurados – como facas e cordas – devem lidar com o peso da injustiça social, a não ser que, ousados o suficiente, arrisquem-se ao martírio da luta pelo bem-estar social. Talvez, se o filme tivesse se preocupado em trabalhar mais esse núcleo, as explicações continuariam em aberto, mas com uma direção um pouco menos atribulada do que se sentiu ao final.
Santiago
4.1 135Se me fiz bem entender, a juventude tem algo de primordial na ideia e na necessidade do ineditismo, ou do perfeccionismo plástico das imagens. Por outro lado, a maturidade traz consigo uma liberdade e uma ousadia no estilo de direção e de edição. Ela produz um desapego formal que traz resultado, pois acaba sendo uma consequência de uma vida toda de direção na qual se aperfeiçoa, não a forma e o fundo, mas a personalidade de se fazer o cinema. João Moreira Salles representa essa questão escolhendo takes com sutileza narrativa bastante profunda, cenas simbólicas e aguçadas.
Adoráveis Mulheres
4.0 992 Assista AgoraDe maneira geral “Adoráveis Mulheres” se constrói como uma bela pintura renascentista. Um filme que toma a sétima arte como mãe de todas as outras – ou herdeira de todas as outras? E ambienta essa estética, principalmente, nos seus planos abertos. Os movimentos de direção das atrizes são teatrais e ensaiados, uma verdadeira emoção dançante que culmina em verdadeiros quadros pintados a mão. Vê-se essa tendência em cenas como a da mãe que traz para perto de si todas as filhas num abraço, e nos encontros das personagens em jardins.
A escolha dos figurinos dão o toque essencial para a composição das cenas. Há essa identidade rebuscada entre a narrativa, o espaço e o tempo em que se cultiva a história. De forma complementar apresentam-se corriqueiramente cenas nas quais há velocidade contrastada: uma personagem que corre e confronta o movimento da cidade, a dança ritmada de um salão de festas e os olhares mais lentos trocados entre personagens.
Bacurau
4.3 2,8K Assista AgoraDo lado brasileiro, a força natural da população de Bacurau. Em livre interpretação, o psicotrópico é apenas o placebo trópico. Temos ali uma força que se desgarra de muito mais do que uma droga ou uma planta alucinógena. A força placebo da erva é na realidade a manifestação da força de conjunto da comunidade. Aquilo que os une é a seca, a dificuldade, é o efetivo sentimento de pertencimento. Tanto o é, que Lunga, ainda que seja o destaque representativo da liderança, insurge bem menos como líder do que possivelmente se imagina. Ele aparece como homenagem ao cangaço, para dar o golpe final e o toque de "crueza". Na realidade, quem sem defende majoritariamente é uma comunidade nua segurando em armas rústicas. Nua de água, de roupas, de urbanidade, mas investida de comunhão.
E afinal, soterrar o vilão sob sua terra é oferecer à natureza o adubo sobre o qual aquela comunidade continuará crescendo: os resquícios e detritos da própria luta incansável. Afinal, desde que o Brasil indígena sucumbiu, não há como não concordar que a guerra nunca acabou. E ela fica mais agressiva e palpável quando vista numa tela de cinema.
Cléo das 5 às 7
4.2 221 Assista AgoraO estado do não-saber e da angústia por vezes é pior do que o da certeza. A conformação é mais facilmente encontrada por meio dessa última.
Fragmentos da Vida
3.8 9 Assista AgoraImpossível avaliar com estrelas esse filme. O significado e a importância e a época em que foi criado são impossíveis de serem ressignificados em uma nota.
2001: Uma Odisseia no Espaço
4.2 2,4K Assista AgoraATENÇÃO, MUITOS SPOILERS:
A aurora do homem é além de um único momento. A cada era temos em vista o que se considera inovação: a descoberta das ferramentas pelos primatas, o uso tecnológico para atividades espaciais. Conforme as teorias que vi por aí, o monólito surge em sociedades nas quais essas auroras ocorrem. No entanto, também acho importante considerar que o monólito poderia surgir em qualquer sociedade na qual o FIM esteja se aproximando. A cada descoberta, os seres mantêm-se em uma linha tênue entre o começo de uma nova era e o próprio fim, através de atitudes de auto-extermínio. Isso é representado pelo primata que atenta contra outro de sua própria espécie; ou o ser humano que luta contra algo que ele mesmo criara, a tecnologia. Tudo o que há entre o desconhecido e a descoberta contêm um risco inimaginável, e é sobre o risco que Kubrick se debruça.
Importante ressaltar a viagem que a personagem faz no espaço-tempo, evidenciada ao final, nas cenas memoráveis e puramente visuais. Isso me trouxe por vezes a sensação de não saber identificar se o início do filme seria realmente o começo de tudo na Terra ou o depois de tudo, depois da destruição, um recomeço em algum outro planeta no qual a sociedade se reconstrói sobre os mesmos patamares da terrestre. O surgimento do feto está, no fim, para representar uma gama de possibilidades.
Um clássico é um clássico, por não perder a temporalidade. Portanto, a maestria deste insurge nas inovações técnicas - tanto de formas de produção do filme, como de previsões para uma nova era da sociedade trazidas no interior da história - as quais, imagino, representaram para os espectadores do final dos anos 1960 uma revolução cinematográfica e tecnológica. Além disso, a atualidade do filme se mostra pois vivenciamos uma época na qual discute-se os limites da tecnologia e o quanto somos influenciados e/ou dependentes dela e como ela poderá representar, com o passar dos anos, tanto nossa evolução como a completa dominação de nossa raça por mecanismos de auto destruição.
É isto, Kubrick esteve com a câmera erguida a frente do seu tempo, a frente do nosso tempo, e com os pés tocando o solo presente.
Versões de um Crime
3.2 430 Assista AgoraClaramente é um filme com pouquíssimas possibilidades de plot.
Gente, a ambientação é um tribunal do Júri. Um tribunal pressupõe um processo criminal inteiro pra chegar até o julgamento, e isso nos limita possibilidades de um plot DENTRO da ideia do filme, que é ser passado INTEIRAMENTE no tribunal.
Não é nada lógico , por exemplo, o menino trazer uma revelação bombástica sobre quem foi o assassino, porque disso decorreriam entraves jurídicos ALÉM do tribunal, os quais o filme não deseja mostrar; nem seria ideal, apostar em um assassino absolutamente estranho às provas colhidas até então, porque, afinal, um processo inteiro já havia sido instruído. Enfim, seria quase impossível amarrar o final do filme sem atropelar a ideia central de um JULGAMENTO.
Entendem como as possibilidades são limitadas para dar o tom necessário de realidade? O bacana é que, ainda sim, a obra consegue sair fora da casinha porque
dá um jeito de mostrar ao espectador a verdade, sem deixá-la ser exposta através da ambientação do filme - o próprio júri,
O mérito maior, afinal, consiste em conciliar: uma ambientação praticamente inteira dentro de um tribunal e nenhuma margem para o tédio.
Fera
4.2 89Para mim, a cena final sugere a seguinte leitura do pensamento do menino:
"Deveria ter acredito nele. Deveríamos ter escolhido seguir a raposa."
O Autor
3.3 116Inúmeras referências ao "O Inquilino"
Bergman – 100 Anos
4.0 33 Assista AgoraTudo o que Bergman criou tinha inspiração ou representava sua vida - passado e até futuro (Morangos Silvestres). Cara, ele fez UM TANTO de filme ABSOLUTAMENTE diverso e conseguiu se retratar por várias perspectivas e formatos em TODOS. Se por um lado isso é genial, por outro é mais um traço da sua personalidade egoísta. Definitivamente ele dá a alma na obra, o que faz a gente engolir algumas coisas a seco porque não dá pra afastar o artista da obra DE FORMA ALGUMA e como pessoa ele não foi exemplo, digamos.
Una
3.0 140 Assista AgoraSPOILERS
GENTE, não confiem na sinopse, ela é MUITO problemática. Após assistir o filme, pude perceber que ele não romantiza, mas retrata a verdadeira faceta de um abusador : MANIPULADOR; e a de uma menina/mulher ABSOLUTAMENTE marcada pelo trauma do abuso, e que se tornou uma adulta conflituosa consigo. Por vezes ela parece acreditar na fala manipuladora do abusador, outras vezes é tomada por ódio, parece querer vingança. É nítido , e isso é exposto em uma das cenas, como a família foi negligente com relação ao trauma dela. Ela joga na cara da mãe: "Vocês só queria abafar tudo o que aconteceu" . A provavel e notável falta de um acompanhamento psicológico gerou MUITAS questões conflituosas nela (inclusive um descontrole sexual - vide o choro após se relacionar com o colega de trabalho do abusador).
Vocês estão dizendo que o filme romantiza o abuso, porque é exatamente essa a CRÍTICA que ele quer mostrar: a capacidade de um abusador em conquistar a vítima e convence-la de que tudo FOI amor; enquanto, do outro lado, temos uma vítima TRAUMATIZADA e, obviamente, sujeita, ainda, apesar de tudo o que passou, à fala do abusador.
The Square - A Arte da Discórdia
3.6 317 Assista AgoraAchei essa sinopse meio desonesta,
se o objetivo foi exaltar a exposição e suas consequências, falhou, porque, ao meu ver, isso ficou em segundo plano perto de outros acontecimentos do filme que foram bem mais explorados
Seu Ruben, às vezes menos é mais, não precisava de tanto tempo pra vários acontecimentos desconexos.
Corpo e Alma
3.6 228 Assista AgoraÉ um filme muito sensível, os takes são minimalistas e precisos, enfoca MUITO as amenidades (sol batendo no rosto, jeito do caminhar; ...). Mas me pareceu que o roteiro se perde entre o começo, o meio e o fim, tornando o ritmo arrastado. A história dá uma alavancada nos momentos finais, mas a cena final, precisamente, declina. Por mim, poderia ter acabado, tranquilamente, na cena em que
os dois dormem.
elidir de forma MUITO aparente e consistente a síndrome de Asperger
Blade Runner 2049
4.0 1,7K Assista AgoraPor vezes para amar alguém, você tem que ser um estranho
O Destino de Uma Nação
3.7 723 Assista AgoraGary Oldman Hour, porque carregou o filme sozinho.