É possível que o maior charme do “Cinema do Desconforto” resida no grau de inesquecibilidade de algumas obras, muitas vezes capazes de alcançar a tal “experiência visceral” por meio da suspensão de convenções morais e da exploração das crueldades mais intrínsecas ao ser humano.
Lars von Trier, Gaspar Noé, Cronenberg e Haneke, por exemplo, costumam provocar essas reações ao se utilizarem de diferentes técnicas e narrativas que desafiam o espectador a lidar com as piores perturbações propostas em tela, prendendo-nos a uma teia de náuseas e incredulidade.
O que, para uns, soa como mau gosto ou sadismo recreativo descartável, para outros alimenta justamente aquele sentimento de “eu nunca mais vou esquecer essa porra desse filme”, o que me leva a crer que a proposta da direção foi mais do que acertada.
Em Dogville (2003), por exemplo, um filme que está longe de ser dos mais pesados dentro desse estilo inquietante, a maneira com que o dinamarquês problemático consegue transformar aquela vila muito engraçada, que não tinha teto nem nada, em um instrumento poderoso para escancarar nossas hipocrisias, imoralidades e desprezibilidades, é, de fato, inesquecível.
Não me lembro de ter visto nada capaz de dosar tanto desconforto e fascínio, por quase três horas, de maneira tão sublime, ainda mais ao se utilizar de um negacionismo cenográfico que desmonta o nosso ideal de comunidade e obriga o espectador a aguçar a própria criatividade na busca por empatia e reflexões éticas.
Se, por alguns minutos, aquele contexto capenga pode soar esquisito e até certo ponto insuficiente, conforme a progressão dos nove capítulos vai nos revestindo com a podridão abissal do ser humano, só nos resta imergir na proposta e lidar com os diferentes ecos que o filme deixa reverberando (por dias) dentro da nossa cabeça.
Não haveria maneira melhor de alcançar esse objetivo que não fosse lambuzando o texto em alegorias óbvias (mas nem um pouco gratuitas) sobre redenção e castigo, escancarando a hipocrisia de uma moral cristã que parece montada para justificar as piores violências ao invés de contê-las.
Se a protagonista Grace (Nicole Kidman) emerge na trama munida de uma graça divina, quase como uma Jesus Cristo pós-moderna, capaz de perdoar e se manter em esperança indiscriminada, a vida em comunidade só revela o quanto essa compaixão pode ser corrompida.
Se Lars von Trier buscou colocar uma lente de aumento sobre a sociedade americana por meio do véu da parábola religiosa, o revestimento político da sua crítica acabou por ecoar de maneira ainda mais latente ao escancarar um contraponto no personagem sereno de Tom (Paul Bettany), que se enxerga justo enquanto explora, subjuga e se compadece apenas quando já não há nada a perder.
É como se o filme questionasse, do início ao fim, se você é capaz de manter a empatia mesmo que ela deixe de ser confortável. Você é?
Já não me recordo de qual foi a última vez em que parei para assistir a um trailer de maneira não forçada e esse exercício de abandono é fundamental para que a essência narrativa de algumas obras não seja transviada antes mesmo de sentar para assistir ao filme, afinal, as dezenas e mais dezenas de páginas e perfis de cinema que eu acompanho, já fazem o papel de vender lançamentos com o slogan apelativo que mais convier no momento.
No gênero do terror, por exemplo, de três em três meses somos contaminados com o vírus do “filme mais assustador do ano” e o que deveria alimentar o interesse em assistir a uma nova obra que seja capaz de despertar diferentes sensações de desconforto, explorando variadas reações emocionais através de seus elementos característicos, acaba por plantar a sementinha da decepção iminente.
Com Weapons (2025), para mim, não foi muito diferente...
Se, por um lado, as inúmeras alegorias sobre bullying, ciclo do abuso, massacre escolar, estigmatização dos professores e normalização da violência servem como importantes combustíveis para a inflamação do mistério, eu entendo que o roteiro não se preocupou em conectar a maioria dos pontos, nos fazendo racionalizar demais em momentos inoportunos, o que é péssimo dentro de uma experiência que deveria estar envolta de medo, angústia e curiosidade.
Vejam só, eu não estou dizendo que filme de terror precisa mastigar tudo pro espectador (muito pelo contrário) e detesto aquela receitinha de sempre que coloca tudo na conta de uma seita oculta/vilão macabro no final e acaba com a nossa sensação de "medo do medo".
Acontece que o novo longa do diretor Zach Cregger, cuja premissa parece bastante interessante e é bem estruturada dentro da estilística narrativa dividida em capítulos guiados pelos principais personagens (todos muito bem interpretados, diga-se de passagem), a todo momento fez com que eu me pegasse pensando:
- É sério que nenhuma câmera de segurança flagrou as DEZESSETE crianças entrando numa casa central do bairro?
- Não tem um filho da puta pra achar esquisito o sumiço dos pais responsáveis pela única criança até então sobrevivente naquela sala de aula?
- Por que diabos a polícia não revistou casa por casa procurando por algum indício nos famosos porões americanos?
- Com quase duas dezenas de crianças desaparecidas e uma vivendo a sua rotina normal, não houve o interesse de um veículo de mídia para angariar maiores informações sobre aquela família?
- Uma casa toda envelopada de jornal não chamou a atenção de ninguém da vizinhança?
- É normal que a única criança sobrevivente passe a ir e voltar caminhando sozinha da escola, depois de sumiços chocantes e inexplicáveis, sem causar estranhamento ao moradores do bairro?
Enfim, né...
Foi por essas e outras que a atmosfera de tensão acabou indo pro beleléu na minha experiência, de modo que já me parecia claro um desfecho clássico depois de tantas pontas soltas em meio as tais alegorias que pareciam um prato cheio para o uso do sobrenatural e da exploração do medo psicológico. Só pareciam.
Acabou que eu, um mero inocente aguardando por uma grande reviravolta que justificasse a transformação daquelas crianças num protótipo de Naruto (a corridinha é igual, rs) no início daquela fatídica madrugada, fui agraciado com a prima do Longlegs fazendo mandinga e controlando a saciação do capeta sem maiores aprofundamentos, tal como em tantos e tantos outros filminhos do gênero.
No mais, achei as cenas de gore bem feitinhas, não caí em quase nenhum sustinho, fiquei mais brochado com as pontas soltas do que angustiado com os mistérios, ri horrores com a vingança dos amigos do Dennis o Pimentinha e não assisti a absolutamente nada de inovador em mais um medianíssimo “filme de terror mais assustador do ano”.
Sob o lugar de fala de quem, num passado não tão distante, poderia ser considerado um grande entusiasta da arte de emendar um rolé duvidoso no outro, garanto que “Victoria” consegue traduzir a premissa de seu subtítulo “One city. One night. One take.” de uma maneira tão vivaz que o seu plano sequência (de incríveis cento e trinta e oito minutos) se desprende do estigma de firula técnica e passa a ter importância crucial para amplificar a sensação de urgência e falta de controle dos personagens, como se fôssemos meros voyeurs nos deliciando com aquelas quedas livres emocionais em tempo real.
Sem um pingo de tédio do início ao fim, a tomada contínua, sem cortes, pincelando a crueza das ruas de Berlim, potencializa a nossa curiosidade/tensão a medida em que cada escolha duvidosa vai sendo tomada pelos personagens. Ainda que a protagonista possa parecer burra, sonsa e influenciável nos primeiros atos, a câmera reflete justamente a sua busca por conexão, estampando o estado de vulnerabilidade emocional causado pela solidão e ausência de perspectiva, causador máximo da sua entrega a situações perigosas em nome da necessidade de se sentir viva e conectada a alguma coisa, mesmo que de maneira efêmera, caótica, irresponsável, imoral ou fora do status quo.
Não à toa, a jornada da personagem principal, calcada na busca por migalhas de afeto, toma forma em uma madrugada intensamente bizarra e, até certo ponto, divertidíssima, mas parece fadada ao retorno a um estado quase que inevitável de solidão, reforçando a ideia de que, por mais que seja possível mergulhar em momentos inesquecíveis de adrenalina e preenchimento de vazio existencial, a ruptura com certas angústias e circunstâncias acaba sendo de uma complexidade incomensurável, mas não precisamos nos culpar por isso.
A ausência de desfechos claros e reconfortantes ou mesmo a omissão de certas respostas que podem ser projetadas durante o filme, mantém essa sensação de circularidade muito elevada, tornando a trama ainda mais visceral, já que traduz muito bem a complexidade nua da vida real, principalmente naqueles momentos em que nos tornamos “espectadores de nós mesmos”, sem qualquer garantia de resolução.
E, no fim, a vida costuma ser assim mesmo para alguns: sem redenção ou propósito. Sem lar. Que nem no início.
Ainda que o roteiro fomente a sugestão óbvia de que o romance será o carro-chefe, a trama se desentrelaça entre um drama bem atuado e uma espécie de suspense implícito nas nossas próprias expectativas, equilibrando o espectador entre as nuances daquele vulcão de desejos erupcionados (?) em tela e as suas possíveis consequências em um mundo real repleto de inconveniências.
A intensidade sensual do filme ganha um charme bastante original ao se entrelaçar com a exuberância da geografia amazônica, criando paralelos muito maiores do que uma simples alegoria ilustrativa. A constante beleza natural da fotografia, alternando entre a mata densa e, sobretudo, à vazão sufocante das águas extensas do Amazonas, servem de canhão para projetar a força da presença de Anaíra e potencializar o seu impacto sobre os três irmãos.
Quase como uma armadilha, “O Rio do Desejo” retrata de uma maneira muito singular o caráter incontrolável da mistura heterogênea entre amor e desejo, mesmo que os clichês impeçam o filme de alcançar um grau de maior complexidade, muito por conta da maneira como o personagem “Dalmo” foi exposto em tela, beirando o mau gosto por inúmeras vezes.
Enfim, um belo filme que poderia ser, ao meu ver, uma obra ainda mais especial, não fossem os desajustes entre texto e mise-en-scène. Me peguei lembrando de "Cidade Baixa" (2005) por diversas vezes, antes mesmo de descobrir que Sérgio Machado dirigiu ambos os filmes. Tá explicado!
Não é segredo pra absolutamente ninguém que a curiosidade em torno do que choca e o interesse pelas profundezas da mente humana, acaba transformando as angústias e os conflitos do processo penal em uma ferramenta extremamente sedutora quando o assunto é o engajamento popular, seja na porta do tribunal ou de frente pra Netflix.
Ora bolas, então por quê não revisitarmos um dos crimes mais chocantes do nosso passado recente, reciclando os tradicionais elementos de espetacularização do papel de juízes, promotores, delegados e advogados, super aproveitando essa eterna fonte de entretenimento chamada Isabella Nardoni?
Se "True Crime" é gênero, comer carne revirada e monetizar de tempos em tempos são os ossos do ofício... Não sejamos hipócritas...
Pois bem. Estendendo o comentário para um contexto estritamente audiovisual, o "documentário" se demonstra mais preguiçoso do que o próprio promotor do caso, se recusando a trazer novos elementos à tela, promovendo a dúvida de uma maneira extremamente simplista, omitindo uma série de informações reveladas em inúmeras outras obras (vide "Investigação Criminal", de 2012), se debruçando na já tradicional "rinha de operadores do Direito", enquanto destila ~mea culpa~ através de meias verdades confrontantes.
"Isabella: O Caso Nardoni" estreou na Netflix com o pretexto perfeito para chocar novamente, refrescar a curiosidade das pessoas e tentar desmontar alguns estereótipos criados em torno de um julgamento que entrou no imaginário do público a ponto de fazer com que quase todo mundo se interessasse pelo seu desfecho.
Acontece que nem pra fazer uma minissérie montada em três ou quatro episódios, mesmo que contextualizando apenas a evolução gradual do caso, a plataforma serviu, entregando um serviço porco, raso, clichê e absolutamente desinteressante.
Ou seja, exatamente o que eu esperava: sensacionalismo barato.
Até mesmo a chance de dar mais voz a uma mãe que perdeu a sua filha tão precocemente, de uma das maneiras mais inacreditáveis da história do país, foi jogada no lixo, já que a edição claramente estava mais interessada em revisitar o caos causado pela imprensa e projetar aquela reconstituição em 3d esdrúxula que mais parece ter atrapalhado do que ajudado no desfecho do julgamento.
Tudo o que envolve esse caso é de uma tristeza sem fim...
Primeiramente, que alguém dê um pescotapa no zé ruela que traduziu esse título para "Emboscada". Se a ideia era sintetizar o "La Bella Gente" original em um substantivo feminino qualquer, que batizassem a obra de "Hipocrisia" ou qualquer merda parecida.
No mais, embora o filminho seja meio cansado e a evolução do roteiro não empolgue tanto em diversos momentos, o recorte de tantas caricaturas que compõem uma parcela bem significativa da minha bolha me agradou. São elas:
A coroa gata ~white savior~ que só consegue se saciar enquanto tem o seu ego caridoso debruçado em alguma filantropia impulsiva;
O coroa progressista e gente boa que não tem coragem e personalidade suficientes para deixar de ceder o tempo inteiro;
O protótipo de playboy infiel, com currículo preenchido no exterior e look alternativo, que consegue se travestir de bonzinho até transar com a gata da vez;
O casal de primos ricos, mesquinhos, xenófobos e preconceituosos, que sequer tentam disfarçar o seu horror ao que está de fora da sua "classe".
Em meio a essa salada, a protagonista, sequestrada num lar com tão pouca dignidade, se vê obrigada a retomar o seu passado de dor, na expectativa de que algum resquício de ar livre seja novamente inalado.
A sensação foi de que a Nadja achou melhor viver como uma puta livre do que subservir aquela ~bela gente~ escrota e hipócrita.
O que, sem sombra de dúvidas, eleva o patamar de "Y Tu Mamá También", é a falsa sensação de que o filme não vai ultrapassar a barreira de um road movie clichê e pseudo-tesudo, até se provar um filme que faz ode ao pessimismo, sendo concluído numa linha diametralmente oposta.
Embora o roteiro finja se construir em cima desse nhenhenhem de carpe diem, como se fosse possível tacar o foda-se para viver se deliciando com as diferentes etapas da vida, os últimos minutos pulverizam essa abobrinha e nos saciam com a invalidação do apelo projetado, escancarando, justamente, os nossos cercadinhos.
Mais do que as fodas desprotegidas e as dezenas de tragos compartilhados, a obra não se sustenta num mero retrato de aventura e liberdade, mas sim da realidade. Não à toa, a viagem que se apresenta como o início para eles, também se revela como um final para ela.
E como é inegável a beleza presente no impulso, as masturbações, as discussões infantilizadas, os diálogos sexuais, as lágrimas compulsivas e, principalmente, a maneira como cada um se mostra inapto para lidar com o seu oceano de sentimentos, agregam valor a ideia de que "la vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar".
Somos mares intensos, infinitos e extremamente complexos.
Um filme perfeito no propósito de reiterar que algumas lembranças precisam ficar guardadas no fundo do baú, sem que deixemos elas saírem de lá, sob o risco de estragarmos uma bela memória afetiva.
Até a última cena, eu estava decidido a avaliar o filme com 3 estrelas. Vi a moto voltando. Temi pela ocupação da garupa. Pensei em dar 2 estrelas em face de um desfecho tão borracha fraca. Não tinha ninguém na garupa. Ufa!!! 3,5 estrelas pela potência do alívio. Às vezes a única solução é sair em busca de si. O efeito de um "amor" em forma de bengala dura menos que o de um paracetamol genérico. Precisar partir é muito mais forte do que precisar ficar. A vida tende a mostrar que a banda toca assim... Um filme singelo, de estética apurada e bastante reflexão. Cinema Nacional <3
"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme sensível, sincero, que consegue se desprender dos clichês para fortalecer a simbiose entre os três personagens principais, sendo capaz de nos afastar de estereótipos e fortalecer a sua narrativa bem construída, embora opte por não desembaralhar muito bem algumas questões de abuso infantil.
Imagino que assistir a esse filme lá no fim de 2012, justamente no meu primeiro ano de faculdade, teria produzido algumas sensações mais latentes, potencializando o "se sentir infinito" com relação as perspectivas de futuro. No entanto, esse "afastar" do tempo me permitiu enxergar as várias facetas da juventude de um lugar diferente, meio silencioso. Uma espécie de nostalgia despropositada.
Sabe aquela história de que a vida não é boa e nem má, apenas os dois ao mesmo tempo?! Então, o filme me levou para esse lugar, como quando colocamos a cabeça no travesseiro após um dia bem vivido: tendo plena consciência de um emaranhado de situações merdas nas quais estamos inseridos, mas ainda insistindo na ideia de que amanhã há de ser outro dia.
Como adolescente bobalhão e fã de "American Pie" que fui, fico aguardando por uma reunion do elenco, daqui a uns vinte anos, com todo mundo gordo, calvo, aposentado e divorciado, refletindo sobre os ~dias de luta dias de glória~ de outrora, com direito a passeio pelo túnel e novas juras de amor incumpríveis.
Bong Joon-ho transforma um lagartão comedor de gente num belo condutor de dramas familiares, medo, ansiedade, frustação, esperança, lealdade, direcionando a nossa atenção para uma família desleixadona e disfuncional, enquanto esmurra o ocidente através de críticas muito bem fundamentadas.
A cena do protagonista implorando para se fazer ouvido pelo laboratorista americano, por exemplo, se reproduz como uma alegoria à relação do cinema não-ocidental e a incapacidade dessa indústria ser verdadeiramente consumida para além de seu raio.
Não à toa, o próprio diretor do filme é um dos maiores, senão o maior, responsável por essa ruptura, ao varrer o Oscar 2019 com o apogeu de "Parasita".
As mudanças de tom estranhas e aleatórias, flertando entre o chocante e o hilariante, também são marcas registradas que muito me agradam. Alguns frames frios também são muito bem inseridosdurante esses momentos de transição.
A distância de 2023 para 2006, ano do lançamento de "O Hospedeiro", foi o meu maior desafio no processo de digestão...
Há 17 anos, certamente eu teria considerado um filme muito acima da média. Em maio de 2023, eu consigo compreender o seu valor, mas seria forçado dizer que a experiência me gerou tanto impacto, depois de já ter consumido tanta coisa mais evoluída no gênero.
No fim das contas, são duas horas que valem muito como estudo da obra desse gênio coreano!
Não acho que sobrecarregar um roteiro com dezenas de alegorias criticando a sociedade do espetáculo torne um filme bom. Até consegui distrair a minha cabeça brincando de pescar referências com a decadência da elite e a hipocrisia da classe média, mas achei zero genial. Overrated.
Ainda que Aronofsky não encabece a minha lista de diretores favoritos, é inegável a sua imensa habilidade de penetrar no íntimo dos personagens destrinchados em tela, escancarando suas obsessões e tragédias pessoais, sem a realização de muitas concessões aparentes. Foi assim em "Requiem for a Dream", foi assim em "Black Swan", foi assim em "Mother!" e é assim em "The Whale".
Justamente por esse "foda-se" que o diretor faz questão de implementar como uma de suas características principais, que uma análise mais simplista da sua obra pode acabar gerando um efeito contrário no âmago de quem assiste, como se ele, de certo modo, buscasse menosprezar seus próprios personagens, utilizando-se de certa crueldade e mera reprodução de clichês para gerar entretenimento cult às custas de temáticas sensíveis.
Não posso concordar com isso...
Os diferentes tipos de dependência química dos personagens de "Réquiem para um Sonho", o perfeccionismo obsessivo da bailarina de "Cisne Negro" e as alegorias ocultas de "Mãe!", desta vez, tomaram a forma da obesidade mórbida munida pelos efeitos da depressão e da compulsão alimentar, temáticas tão atuais.
Os diferentes níveis de ódio e desprezo para com o protagonista, não se resumem a sua condição física. Embora o fato de o personagem ter obesidade mórbida seja importante para a trama, ela é apenas uma consequência de diferentes processos banhados em estágios profundos de tristeza.
Charlie chegou a um nível depressivo tão irreversível que ele come para se afogar e passa a olhar pro relógio em contagem regressiva. A divisão do roteiro em dias da semana gera exatamente essa sensação claustrofóbica.
Embora a minha namorada tenha comentado que a repulsa pelo personagem, assim como os seus trejeitos caricatos ao manejar e se deleitar com um balde de frango frito soe gordofóbico, não seria justamente essa a mera representação da gordofobia na obra?
Ora, senão temos a seguinte sequência narrativa: um casal incompatível gera uma menina revoltada com o distanciamento do pai, que encontrou em uma relação homoafetiva a sua grande paixão, mas perdeu o seu companheiro por conta da intolerância da igreja, entrando num estágio de luto profundo, até desenvolver uma trágica condição de compulsão alimentar e resignação com a morte iminente, momento no qual resolve "correr atrás do tempo perdido", ao menos por alguns instantes.
Agora me diga: como é que uma pessoa depressiva e solitária, com extrema dificuldade de locomoção, pesando mais de duzentos quilos e, literalmente, comendo para morrer, deveria ser retratada em tela?
Sentando-se à mesa em horários determinados, fazendo questão de seguir a etiqueta em suas refeições? Se alimentando com comidas não processadas, bem preparadas e ricas em nutrientes? Sem limpar a mãozona suja de gordura na camisa enquanto traveste a sua dor com quilos e mais quilos de fast food? Dando trinta e quatro mastigadas enquanto saboreia cada uma de suas coxas de frango?
Talvez essa tal gordofobia esteja mais enraizada nos olhos do espectador do que de fato nas nuances da trama em si...
Entendo que a contratação de um ator "supersize" pudesse amenizar esse tipo de discussão, mas trabalhemos com o que temos.
E o que também temos é um trabalho técnico impecável capaz de caracterizar o antigo "George o Rei da Floresta" em um personagem esteticamente impactante e ainda mais complexo internamente, credenciando Brendan Fraser à disputa e eventual conquista da cobiçada estatueta de Melhor Ator.
Essa complexidade é o que a primeira cena do filme busca mostrar, nos empurrando para dentro da telinha preta de uma câmera letárgica e atrelada a um laptop que mais parece ser o único respiro de um filme ambientado em uma única câmara, mas que não perde para a monotonia.
Agradeçam a Deus por eu não ter lido "Moby Dick".
Do contrário, eu poderia ficar por mais umas duas mil palavras falando abobrinhas por aqui.
Ah, e nada como um final nos brindando com o alívio de um protagonista que se divide entre otimismo e saída de cena como duas faces da mesma moeda. Não à toa, o único raio de sol que passa pelo buraco da porta daquele apartamento, em quase duas horas de filme, é praticamente na mesma hora de sair do cinema.
Se encontrar o equilíbrio entre as nossas próprias escolhas pode acabar sendo uma tarefa enlouquecedora, esse filme serve de trampolim para algumas reflexões sobre o tal "sentido da existência humana", então nada mais justo do que navegarmos por tudo quanto é gênero ~ao mesmo tempo~.
É de ficar sem gps entre um contexto surrealista de ficção científica e os momentos de humor nonsense com pitadas de Bruce Lee e Jackie Chan. Um filme de Kung Fu que também é drama e romance, se utilizando de elementos do gore para ilustrar o suspense que a própria ansiedade das protagonistas já nos sugere.
Em meio ao caos, fica fácil degustar sabores diferentes e até mesmo perder a noção de qual é a linha central do roteiro, sem deixar de se compadecer com cada processo depreciativo escancarado em tela.
A abordagem "piroca das ideias" também é a chave para tornar o filme acessível para quem só está disposto a se distrair, se entreter, sem deixar de se valer da sua complexidade para atrair outro tipo de telespectador.
Em meio a infinitas possibilidades, arranjar maneiras de se entregar à "finitude" da vida para suportar os buracos em que nós mesmos nos enfiamos, surge como alternativa a uma saída de cena bebendo da fonte da depressão.
Um filme maluco, poderoso e de estética inovadora.
Embora o conflito entre um povo preto e um povo indígena possa soar extremamente problemático, a sensibilidade do roteiro na hora de lidar com as fases do luto e ressignificar a história (depois de uma perda tão traumática), teve muita força enquanto eu assistia ao filme. A premissa de "proteger a criança" (na verdade, uma jovem adulta) também parece rasa e superficial, mas, no final das contas, eu caguei para todos os defeitos e me despedi da sala do cinema com um sorriso no rosto. As diferentes camadas que foram capazes de unir um filme de ação e fantasia com dramas pessoais fortes e discussões sociais latentes, nos entregaram uma belíssima homenagem a Chadwick Boseman, que deve ter ficado feliz da vida na companhia de seus ancestrais ♥
Quem tá dizendo que o filme é fraco é chato pra caralho.
Embora, em 2022, o tema seja extremamente batido e muito pouco solucionado, precisamos levar em consideração a principal crítica de um filme lançado há mais de duas décadas: enquanto o pai berra à esmo que o filho precisa ser dopado por remédios tarja preta e a mãe mastiga um cigarro atrás do outro, um jovem é lobotomizado por conta de meia dúzia de baseados e uma rebeldia juvenil trivial.
É incrível como a força das nossas estruturas fracassadas, banhadas em preconceito e conservadorismo inadequado, consegue se manter exercendo o controle sobre a vida das pessoas, a ponto de transformar um comportamento mais do que banal em um verdadeiro ~bicho de sete cabeças~
A verdade é nua e crua: o ar novelesco à lá Manoel Carlos é apenas uma alegoria para as letrinhas que subirão no final, assinadas por Eduardo Galeano. E foda-se esse spoiler suspensório. A maior parte do roteiro é um holograma para mães que perderam seus filhos e os filhos dos outros. É sobre mulheres que se fuderam sozinhas durante a guerra e fica a seu critério ilustrar em que guerra. É sobre dor e sofrimento velado em comunhão. O pior é que ainda deu pra sentir esperança no final... Almodóvar é muito pica!
Acompanhar o lindo romance protagonizado por Carla Diaz e Arthur Picoli de Conduru vale mais a pena do que parar pra assistir a essas duas aberrações de oitenta e poucos minutos. Aguardando pelo derradeiro filme III da trágica sequência: "O Baseado Que Matou Meus Pais". Como diria Marcelo Dourado, "Que filme ruim, velho! Mudou o meu conceito de horrível".
Demorei uma vida pra assistir, mas adorei a bifurcação inversa da historinha tragicômica que vai se abraçando. João Miguel muito bem! Os momentos de Ratatouille in Carandiru são ótimos também. Gostei dos efeitos sonoros da contínua mastigação de boca aberta, mas achei que a trilha sonora deixou um pouco a desejar. Também poderia ter menos cenas caricatas e destilar menos preconceitos cansados, mas, definitivamente, vale a pena.
O novo longa dirigido por Taylor Sheridan (Sicário: Terra de Ninguém) e estrelado por Angelina Jolie (Garota Interrompida), entrou no circuito brasileiro de cinemas na última quinta-feira (27) e, muito provavelmente, vai agradar aquele tipo de espectador que só está interessado em distrair a cabeça e acompanhar um joguinho de gato e rato por pouco mais de 1h30min.
É o famoso filme de Tela Quente.
Eu estaria mentindo se dissesse que Aqueles Que Me Desejam a Morte é o tipo de obra que normalmente me atrairia, mas eu me peguei sendo puxado para a história conforme ela avançava, mesmo sem que houvesse qualquer complexidade nos momentos de transição, muito por conta do efeito catalisador da floresta em chamas que passou a ter um efeito de bomba-relógio.
Logo de cara, somos apresentados ao perito contador Owen Casserly (Jake Weber), responsável por desvendar algum tipo de esquema obscuro envolvendo magnatas e pessoas influentes do governo, e a seu filho Conner (Finn Little), que rapidamente despontam como alvos de uma busca implacável por parte dos agentes Jack (Aidan Gillen) e Patrick (Nicholas Hoult), que farão de tudo para silenciar a família e preservar o bom andamento dos negócios.
Quando uma abrupta amostra de eventos deixa claro para Owen que ele e o seu filho serão os próximos na lista de execuções, o jeito foi partir para o acampamento de seu cunhado Ethan Sawyer (Jon Bernthal), uma importante figura policial da região, para tentar se proteger e manter a maior distância possível dos inimigos.
No entanto, evidentemente alguma coisa teria que sair do planejado…
Ao vagar sozinho pela floresta isolada, depois de uma traumática experiência de tiroteio, o pequeno Conner acaba sucumbindo à proteção de uma bombeira paraquedista chamada Hannah Faber (Angelina Jolie), que havia sido remanejada para uma torre de incêndio erguida no local depois que um desastroso erro durante uma missão no passado passou a atormentá-la de maneira incessante.
De certa forma, a sutileza na construção da personagem de Angelina Jolie com alguns flashbacks do incidente pretérito e os efeitos sobre a sua personalidade repleta de angústia e rebeldia, foi informativa o suficiente para nos dar o incentivo de que precisávamos até admitir o porquê de sua personagem reagir a determinadas situações do jeito que ela reagia. Ao meu ver, esse nó ficou bem amarrado.
Talvez o ingrediente mais interessante no quesito roteiro seja justamente o fato de que o filme está carregado de pessoas traumatizadas e com pouco trato para lidar com os seus demônios e com os demônios alheios. A única alternativa acaba sendo buscar forças no que resta de resiliência em quem está ao lado e isso é traduzido em uma química convincente entre Angelina e o ator mirim. Se para um estava ruim, para o outro estava pior.
E a partir daí é questão de tempo para que as coisas comecem a se desenrolar de maneira pouco surpreendente. O filme soa bem montado para a ação, mas ignora a profundidade dos personagens. A lindíssima localização arborizada onde grande parte da trama está situada acaba sendo subutilizada no aspecto do novo incêndio florestal, que vem à tona esdruxulamente.
Além dos lampejos iniciais e da boa troca entre os protagonistas (muito por conta do trabalho super decente e natural entregue pelo jovem Finn Little), o filme de fato perdeu a oportunidade de dar sequência a alguns atos preparatórios que acabaram sendo acelerados demais. Se alguém descobrir qual era o segredo mantido por Owen, me avise.
Em compensação, seria injusto deixar de pontuar que os efeitos de Aqueles Que Me Desejam a Morte são bem feitos e que o uso acertado do som é capaz de inserir o espectador no meio do fogo. Enquanto a paisagem é lambida pelas chamas, é possível ouvir limpamente o barulho do fogo estalando ao redor da cena, o que é uma ótima maneira de trazer o público para o cenário caótico.
Provavelmente se você não assistir ao filme em uma boa sala de cinema, esse tipo de sensação poderá ser comprometida (mas se puder, fique em casa).
No mais, embora o roteiro parta de uma premissa simplória e o desfecho não seja tão empolgante, esse é um daqueles filmes que não vai acabar com o dia de ninguém. Se você estiver emotivo, dá até pra dar uma lacrimejada. Se resolveu assistir só por causa da beiça da Angelina, também dá pra sair satisfeito.
Ignore as conveniências do filme (e da vida), mas não se esqueça que onde há fumaça, há fogo.
Confira essa e outras críticas minhas via @metafictions_
Dogville
4.3 2,0K Assista AgoraÉ possível que o maior charme do “Cinema do Desconforto” resida no grau de inesquecibilidade de algumas obras, muitas vezes capazes de alcançar a tal “experiência visceral” por meio da suspensão de convenções morais e da exploração das crueldades mais intrínsecas ao ser humano.
Lars von Trier, Gaspar Noé, Cronenberg e Haneke, por exemplo, costumam provocar essas reações ao se utilizarem de diferentes técnicas e narrativas que desafiam o espectador a lidar com as piores perturbações propostas em tela, prendendo-nos a uma teia de náuseas e incredulidade.
O que, para uns, soa como mau gosto ou sadismo recreativo descartável, para outros alimenta justamente aquele sentimento de “eu nunca mais vou esquecer essa porra desse filme”, o que me leva a crer que a proposta da direção foi mais do que acertada.
Em Dogville (2003), por exemplo, um filme que está longe de ser dos mais pesados dentro desse estilo inquietante, a maneira com que o dinamarquês problemático consegue transformar aquela vila muito engraçada, que não tinha teto nem nada, em um instrumento poderoso para escancarar nossas hipocrisias, imoralidades e desprezibilidades, é, de fato, inesquecível.
Não me lembro de ter visto nada capaz de dosar tanto desconforto e fascínio, por quase três horas, de maneira tão sublime, ainda mais ao se utilizar de um negacionismo cenográfico que desmonta o nosso ideal de comunidade e obriga o espectador a aguçar a própria criatividade na busca por empatia e reflexões éticas.
Se, por alguns minutos, aquele contexto capenga pode soar esquisito e até certo ponto insuficiente, conforme a progressão dos nove capítulos vai nos revestindo com a podridão abissal do ser humano, só nos resta imergir na proposta e lidar com os diferentes ecos que o filme deixa reverberando (por dias) dentro da nossa cabeça.
Não haveria maneira melhor de alcançar esse objetivo que não fosse lambuzando o texto em alegorias óbvias (mas nem um pouco gratuitas) sobre redenção e castigo, escancarando a hipocrisia de uma moral cristã que parece montada para justificar as piores violências ao invés de contê-las.
Se a protagonista Grace (Nicole Kidman) emerge na trama munida de uma graça divina, quase como uma Jesus Cristo pós-moderna, capaz de perdoar e se manter em esperança indiscriminada, a vida em comunidade só revela o quanto essa compaixão pode ser corrompida.
Se Lars von Trier buscou colocar uma lente de aumento sobre a sociedade americana por meio do véu da parábola religiosa, o revestimento político da sua crítica acabou por ecoar de maneira ainda mais latente ao escancarar um contraponto no personagem sereno de Tom (Paul Bettany), que se enxerga justo enquanto explora, subjuga e se compadece apenas quando já não há nada a perder.
É como se o filme questionasse, do início ao fim, se você é capaz de manter a empatia mesmo que ela deixe de ser confortável. Você é?
Um dos filmes mais fodas que eu vi na minha vida.
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A Hora do Mal
3.7 1,0K Assista AgoraJá não me recordo de qual foi a última vez em que parei para assistir a um trailer de maneira não forçada e esse exercício de abandono é fundamental para que a essência narrativa de algumas obras não seja transviada antes mesmo de sentar para assistir ao filme, afinal, as dezenas e mais dezenas de páginas e perfis de cinema que eu acompanho, já fazem o papel de vender lançamentos com o slogan apelativo que mais convier no momento.
No gênero do terror, por exemplo, de três em três meses somos contaminados com o vírus do “filme mais assustador do ano” e o que deveria alimentar o interesse em assistir a uma nova obra que seja capaz de despertar diferentes sensações de desconforto, explorando variadas reações emocionais através de seus elementos característicos, acaba por plantar a sementinha da decepção iminente.
Com Weapons (2025), para mim, não foi muito diferente...
Se, por um lado, as inúmeras alegorias sobre bullying, ciclo do abuso, massacre escolar, estigmatização dos professores e normalização da violência servem como importantes combustíveis para a inflamação do mistério, eu entendo que o roteiro não se preocupou em conectar a maioria dos pontos, nos fazendo racionalizar demais em momentos inoportunos, o que é péssimo dentro de uma experiência que deveria estar envolta de medo, angústia e curiosidade.
Vejam só, eu não estou dizendo que filme de terror precisa mastigar tudo pro espectador (muito pelo contrário) e detesto aquela receitinha de sempre que coloca tudo na conta de uma seita oculta/vilão macabro no final e acaba com a nossa sensação de "medo do medo".
Acontece que o novo longa do diretor Zach Cregger, cuja premissa parece bastante interessante e é bem estruturada dentro da estilística narrativa dividida em capítulos guiados pelos principais personagens (todos muito bem interpretados, diga-se de passagem), a todo momento fez com que eu me pegasse pensando:
- É sério que nenhuma câmera de segurança flagrou as DEZESSETE crianças entrando numa casa central do bairro?
- Não tem um filho da puta pra achar esquisito o sumiço dos pais responsáveis pela única criança até então sobrevivente naquela sala de aula?
- Por que diabos a polícia não revistou casa por casa procurando por algum indício nos famosos porões americanos?
- Com quase duas dezenas de crianças desaparecidas e uma vivendo a sua rotina normal, não houve o interesse de um veículo de mídia para angariar maiores informações sobre aquela família?
- Uma casa toda envelopada de jornal não chamou a atenção de ninguém da vizinhança?
- É normal que a única criança sobrevivente passe a ir e voltar caminhando sozinha da escola, depois de sumiços chocantes e inexplicáveis, sem causar estranhamento ao moradores do bairro?
Enfim, né...
Foi por essas e outras que a atmosfera de tensão acabou indo pro beleléu na minha experiência, de modo que já me parecia claro um desfecho clássico depois de tantas pontas soltas em meio as tais alegorias que pareciam um prato cheio para o uso do sobrenatural e da exploração do medo psicológico. Só pareciam.
Acabou que eu, um mero inocente aguardando por uma grande reviravolta que justificasse a transformação daquelas crianças num protótipo de Naruto (a corridinha é igual, rs) no início daquela fatídica madrugada, fui agraciado com a prima do Longlegs fazendo mandinga e controlando a saciação do capeta sem maiores aprofundamentos, tal como em tantos e tantos outros filminhos do gênero.
No mais, achei as cenas de gore bem feitinhas, não caí em quase nenhum sustinho, fiquei mais brochado com as pontas soltas do que angustiado com os mistérios, ri horrores com a vingança dos amigos do Dennis o Pimentinha e não assisti a absolutamente nada de inovador em mais um medianíssimo “filme de terror mais assustador do ano”.
A bruxonilda Gladys tinha muito mais potencial.
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Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraO Pelé é a Fernanda Montenegro do futebol.
*Fernanda Torres
Victoria
3.8 254 Assista Agoraletterboxd.com/caioeshenriques
Sob o lugar de fala de quem, num passado não tão distante, poderia ser considerado um grande entusiasta da arte de emendar um rolé duvidoso no outro, garanto que “Victoria” consegue traduzir a premissa de seu subtítulo “One city. One night. One take.” de uma maneira tão vivaz que o seu plano sequência (de incríveis cento e trinta e oito minutos) se desprende do estigma de firula técnica e passa a ter importância crucial para amplificar a sensação de urgência e falta de controle dos personagens, como se fôssemos meros voyeurs nos deliciando com aquelas quedas livres emocionais em tempo real.
Sem um pingo de tédio do início ao fim, a tomada contínua, sem cortes, pincelando a crueza das ruas de Berlim, potencializa a nossa curiosidade/tensão a medida em que cada escolha duvidosa vai sendo tomada pelos personagens. Ainda que a protagonista possa parecer burra, sonsa e influenciável nos primeiros atos, a câmera reflete justamente a sua busca por conexão, estampando o estado de vulnerabilidade emocional causado pela solidão e ausência de perspectiva, causador máximo da sua entrega a situações perigosas em nome da necessidade de se sentir viva e conectada a alguma coisa, mesmo que de maneira efêmera, caótica, irresponsável, imoral ou fora do status quo.
Não à toa, a jornada da personagem principal, calcada na busca por migalhas de afeto, toma forma em uma madrugada intensamente bizarra e, até certo ponto, divertidíssima, mas parece fadada ao retorno a um estado quase que inevitável de solidão, reforçando a ideia de que, por mais que seja possível mergulhar em momentos inesquecíveis de adrenalina e preenchimento de vazio existencial, a ruptura com certas angústias e circunstâncias acaba sendo de uma complexidade incomensurável, mas não precisamos nos culpar por isso.
A ausência de desfechos claros e reconfortantes ou mesmo a omissão de certas respostas que podem ser projetadas durante o filme, mantém essa sensação de circularidade muito elevada, tornando a trama ainda mais visceral, já que traduz muito bem a complexidade nua da vida real, principalmente naqueles momentos em que nos tornamos “espectadores de nós mesmos”, sem qualquer garantia de resolução.
E, no fim, a vida costuma ser assim mesmo para alguns: sem redenção ou propósito. Sem lar. Que nem no início.
O Rio do Desejo
3.4 55Ainda que o roteiro fomente a sugestão óbvia de que o romance será o carro-chefe, a trama se desentrelaça entre um drama bem atuado e uma espécie de suspense implícito nas nossas próprias expectativas, equilibrando o espectador entre as nuances daquele vulcão de desejos erupcionados (?) em tela e as suas possíveis consequências em um mundo real repleto de inconveniências.
A intensidade sensual do filme ganha um charme bastante original ao se entrelaçar com a exuberância da geografia amazônica, criando paralelos muito maiores do que uma simples alegoria ilustrativa. A constante beleza natural da fotografia, alternando entre a mata densa e, sobretudo, à vazão sufocante das águas extensas do Amazonas, servem de canhão para projetar a força da presença de Anaíra e potencializar o seu impacto sobre os três irmãos.
Quase como uma armadilha, “O Rio do Desejo” retrata de uma maneira muito singular o caráter incontrolável da mistura heterogênea entre amor e desejo, mesmo que os clichês impeçam o filme de alcançar um grau de maior complexidade, muito por conta da maneira como o personagem “Dalmo” foi exposto em tela, beirando o mau gosto por inúmeras vezes.
(e não me refiro à cena de autoflagelo).
Enfim, um belo filme que poderia ser, ao meu ver, uma obra ainda mais especial, não fossem os desajustes entre texto e mise-en-scène. Me peguei lembrando de "Cidade Baixa" (2005) por diversas vezes, antes mesmo de descobrir que Sérgio Machado dirigiu ambos os filmes. Tá explicado!
O Mundo Depois de Nós
3.2 990 Assista AgoraÉ tão chato, mas tão chato, que eu preferia ter assistindo a um episódio de Friends.
Isabella: O Caso Nardoni
3.1 144Não é segredo pra absolutamente ninguém que a curiosidade em torno do que choca e o interesse pelas profundezas da mente humana, acaba transformando as angústias e os conflitos do processo penal em uma ferramenta extremamente sedutora quando o assunto é o engajamento popular, seja na porta do tribunal ou de frente pra Netflix.
Ora bolas, então por quê não revisitarmos um dos crimes mais chocantes do nosso passado recente, reciclando os tradicionais elementos de espetacularização do papel de juízes, promotores, delegados e advogados, super aproveitando essa eterna fonte de entretenimento chamada Isabella Nardoni?
Se "True Crime" é gênero, comer carne revirada e monetizar de tempos em tempos são os ossos do ofício... Não sejamos hipócritas...
Pois bem. Estendendo o comentário para um contexto estritamente audiovisual, o "documentário" se demonstra mais preguiçoso do que o próprio promotor do caso, se recusando a trazer novos elementos à tela, promovendo a dúvida de uma maneira extremamente simplista, omitindo uma série de informações reveladas em inúmeras outras obras (vide "Investigação Criminal", de 2012), se debruçando na já tradicional "rinha de operadores do Direito", enquanto destila ~mea culpa~ através de meias verdades confrontantes.
"Isabella: O Caso Nardoni" estreou na Netflix com o pretexto perfeito para chocar novamente, refrescar a curiosidade das pessoas e tentar desmontar alguns estereótipos criados em torno de um julgamento que entrou no imaginário do público a ponto de fazer com que quase todo mundo se interessasse pelo seu desfecho.
Acontece que nem pra fazer uma minissérie montada em três ou quatro episódios, mesmo que contextualizando apenas a evolução gradual do caso, a plataforma serviu, entregando um serviço porco, raso, clichê e absolutamente desinteressante.
Ou seja, exatamente o que eu esperava: sensacionalismo barato.
Até mesmo a chance de dar mais voz a uma mãe que perdeu a sua filha tão precocemente, de uma das maneiras mais inacreditáveis da história do país, foi jogada no lixo, já que a edição claramente estava mais interessada em revisitar o caos causado pela imprensa e projetar aquela reconstituição em 3d esdrúxula que mais parece ter atrapalhado do que ajudado no desfecho do julgamento.
Tudo o que envolve esse caso é de uma tristeza sem fim...
Emboscada
3.2 28 Assista AgoraPrimeiramente, que alguém dê um pescotapa no zé ruela que traduziu esse título para "Emboscada". Se a ideia era sintetizar o "La Bella Gente" original em um substantivo feminino qualquer, que batizassem a obra de "Hipocrisia" ou qualquer merda parecida.
No mais, embora o filminho seja meio cansado e a evolução do roteiro não empolgue tanto em diversos momentos, o recorte de tantas caricaturas que compõem uma parcela bem significativa da minha bolha me agradou. São elas:
A coroa gata ~white savior~ que só consegue se saciar enquanto tem o seu ego caridoso debruçado em alguma filantropia impulsiva;
O coroa progressista e gente boa que não tem coragem e personalidade suficientes para deixar de ceder o tempo inteiro;
O protótipo de playboy infiel, com currículo preenchido no exterior e look alternativo, que consegue se travestir de bonzinho até transar com a gata da vez;
O casal de primos ricos, mesquinhos, xenófobos e preconceituosos, que sequer tentam disfarçar o seu horror ao que está de fora da sua "classe".
Em meio a essa salada, a protagonista, sequestrada num lar com tão pouca dignidade, se vê obrigada a retomar o seu passado de dor, na expectativa de que algum resquício de ar livre seja novamente inalado.
A sensação foi de que a Nadja achou melhor viver como uma puta livre do que subservir aquela ~bela gente~ escrota e hipócrita.
E está certíssima.
E Sua Mãe Também
4.0 539 Assista AgoraO que, sem sombra de dúvidas, eleva o patamar de "Y Tu Mamá También", é a falsa sensação de que o filme não vai ultrapassar a barreira de um road movie clichê e pseudo-tesudo, até se provar um filme que faz ode ao pessimismo, sendo concluído numa linha diametralmente oposta.
Embora o roteiro finja se construir em cima desse nhenhenhem de carpe diem, como se fosse possível tacar o foda-se para viver se deliciando com as diferentes etapas da vida, os últimos minutos pulverizam essa abobrinha e nos saciam com a invalidação do apelo projetado, escancarando, justamente, os nossos cercadinhos.
Mais do que as fodas desprotegidas e as dezenas de tragos compartilhados, a obra não se sustenta num mero retrato de aventura e liberdade, mas sim da realidade. Não à toa, a viagem que se apresenta como o início para eles, também se revela como um final para ela.
E como é inegável a beleza presente no impulso, as masturbações, as discussões infantilizadas, os diálogos sexuais, as lágrimas compulsivas e, principalmente, a maneira como cada um se mostra inapto para lidar com o seu oceano de sentimentos, agregam valor a ideia de que "la vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar".
Somos mares intensos, infinitos e extremamente complexos.
Metal Lords
3.5 313 Assista AgoraMetal é compromisso!
Melhor Trilha Sonora desde "Escola do Rock".
Teria cancha para ser exaustivamente reprisado na "Sessão da Tarde" se o gosto musical dessa geração não fosse tão pouco apurado.
Legalzinho demais!
Power Rangers: Agora e Sempre
3.0 124 Assista AgoraUm filme perfeito no propósito de reiterar que algumas lembranças precisam ficar guardadas no fundo do baú, sem que deixemos elas saírem de lá, sob o risco de estragarmos uma bela memória afetiva.
O Céu de Suely
3.9 484 Assista AgoraSpoiler:
Até a última cena, eu estava decidido a avaliar o filme com 3 estrelas. Vi a moto voltando. Temi pela ocupação da garupa. Pensei em dar 2 estrelas em face de um desfecho tão borracha fraca. Não tinha ninguém na garupa. Ufa!!! 3,5 estrelas pela potência do alívio. Às vezes a única solução é sair em busca de si. O efeito de um "amor" em forma de bengala dura menos que o de um paracetamol genérico. Precisar partir é muito mais forte do que precisar ficar. A vida tende a mostrar que a banda toca assim... Um filme singelo, de estética apurada e bastante reflexão. Cinema Nacional <3
As Vantagens de Ser Invisível
4.2 6,9K Assista Agora"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme sensível, sincero, que consegue se desprender dos clichês para fortalecer a simbiose entre os três personagens principais, sendo capaz de nos afastar de estereótipos e fortalecer a sua narrativa bem construída, embora opte por não desembaralhar muito bem algumas questões de abuso infantil.
Imagino que assistir a esse filme lá no fim de 2012, justamente no meu primeiro ano de faculdade, teria produzido algumas sensações mais latentes, potencializando o "se sentir infinito" com relação as perspectivas de futuro. No entanto, esse "afastar" do tempo me permitiu enxergar as várias facetas da juventude de um lugar diferente, meio silencioso. Uma espécie de nostalgia despropositada.
Sabe aquela história de que a vida não é boa e nem má, apenas os dois ao mesmo tempo?! Então, o filme me levou para esse lugar, como quando colocamos a cabeça no travesseiro após um dia bem vivido: tendo plena consciência de um emaranhado de situações merdas nas quais estamos inseridos, mas ainda insistindo na ideia de que amanhã há de ser outro dia.
Como adolescente bobalhão e fã de "American Pie" que fui, fico aguardando por uma reunion do elenco, daqui a uns vinte anos, com todo mundo gordo, calvo, aposentado e divorciado, refletindo sobre os ~dias de luta dias de glória~ de outrora, com direito a passeio pelo túnel e novas juras de amor incumpríveis.
É pedir demais?
O Hospedeiro
3.6 560Bong Joon-ho transforma um lagartão comedor de gente num belo condutor de dramas familiares, medo, ansiedade, frustação, esperança, lealdade, direcionando a nossa atenção para uma família desleixadona e disfuncional, enquanto esmurra o ocidente através de críticas muito bem fundamentadas.
A cena do protagonista implorando para se fazer ouvido pelo laboratorista americano, por exemplo, se reproduz como uma alegoria à relação do cinema não-ocidental e a incapacidade dessa indústria ser verdadeiramente consumida para além de seu raio.
Não à toa, o próprio diretor do filme é um dos maiores, senão o maior, responsável por essa ruptura, ao varrer o Oscar 2019 com o apogeu de "Parasita".
As mudanças de tom estranhas e aleatórias, flertando entre o chocante e o hilariante, também são marcas registradas que muito me agradam. Alguns frames frios também são muito bem inseridosdurante esses momentos de transição.
A distância de 2023 para 2006, ano do lançamento de "O Hospedeiro", foi o meu maior desafio no processo de digestão...
Há 17 anos, certamente eu teria considerado um filme muito acima da média. Em maio de 2023, eu consigo compreender o seu valor, mas seria forçado dizer que a experiência me gerou tanto impacto, depois de já ter consumido tanta coisa mais evoluída no gênero.
No fim das contas, são duas horas que valem muito como estudo da obra desse gênio coreano!
Triângulo da Tristeza
3.6 776 Assista AgoraNão acho que sobrecarregar um roteiro com dezenas de alegorias criticando a sociedade do espetáculo torne um filme bom. Até consegui distrair a minha cabeça brincando de pescar referências com a decadência da elite e a hipocrisia da classe média, mas achei zero genial. Overrated.
A Baleia
4.0 1,2K Assista AgoraAinda que Aronofsky não encabece a minha lista de diretores favoritos, é inegável a sua imensa habilidade de penetrar no íntimo dos personagens destrinchados em tela, escancarando suas obsessões e tragédias pessoais, sem a realização de muitas concessões aparentes. Foi assim em "Requiem for a Dream", foi assim em "Black Swan", foi assim em "Mother!" e é assim em "The Whale".
Justamente por esse "foda-se" que o diretor faz questão de implementar como uma de suas características principais, que uma análise mais simplista da sua obra pode acabar gerando um efeito contrário no âmago de quem assiste, como se ele, de certo modo, buscasse menosprezar seus próprios personagens, utilizando-se de certa crueldade e mera reprodução de clichês para gerar entretenimento cult às custas de temáticas sensíveis.
Não posso concordar com isso...
Os diferentes tipos de dependência química dos personagens de "Réquiem para um Sonho", o perfeccionismo obsessivo da bailarina de "Cisne Negro" e as alegorias ocultas de "Mãe!", desta vez, tomaram a forma da obesidade mórbida munida pelos efeitos da depressão e da compulsão alimentar, temáticas tão atuais.
Os diferentes níveis de ódio e desprezo para com o protagonista, não se resumem a sua condição física. Embora o fato de o personagem ter obesidade mórbida seja importante para a trama, ela é apenas uma consequência de diferentes processos banhados em estágios profundos de tristeza.
Charlie chegou a um nível depressivo tão irreversível que ele come para se afogar e passa a olhar pro relógio em contagem regressiva. A divisão do roteiro em dias da semana gera exatamente essa sensação claustrofóbica.
Embora a minha namorada tenha comentado que a repulsa pelo personagem, assim como os seus trejeitos caricatos ao manejar e se deleitar com um balde de frango frito soe gordofóbico, não seria justamente essa a mera representação da gordofobia na obra?
Ora, senão temos a seguinte sequência narrativa: um casal incompatível gera uma menina revoltada com o distanciamento do pai, que encontrou em uma relação homoafetiva a sua grande paixão, mas perdeu o seu companheiro por conta da intolerância da igreja, entrando num estágio de luto profundo, até desenvolver uma trágica condição de compulsão alimentar e resignação com a morte iminente, momento no qual resolve "correr atrás do tempo perdido", ao menos por alguns instantes.
Agora me diga: como é que uma pessoa depressiva e solitária, com extrema dificuldade de locomoção, pesando mais de duzentos quilos e, literalmente, comendo para morrer, deveria ser retratada em tela?
Sentando-se à mesa em horários determinados, fazendo questão de seguir a etiqueta em suas refeições? Se alimentando com comidas não processadas, bem preparadas e ricas em nutrientes? Sem limpar a mãozona suja de gordura na camisa enquanto traveste a sua dor com quilos e mais quilos de fast food? Dando trinta e quatro mastigadas enquanto saboreia cada uma de suas coxas de frango?
Talvez essa tal gordofobia esteja mais enraizada nos olhos do espectador do que de fato nas nuances da trama em si...
Entendo que a contratação de um ator "supersize" pudesse amenizar esse tipo de discussão, mas trabalhemos com o que temos.
E o que também temos é um trabalho técnico impecável capaz de caracterizar o antigo "George o Rei da Floresta" em um personagem esteticamente impactante e ainda mais complexo internamente, credenciando Brendan Fraser à disputa e eventual conquista da cobiçada estatueta de Melhor Ator.
Essa complexidade é o que a primeira cena do filme busca mostrar, nos empurrando para dentro da telinha preta de uma câmera letárgica e atrelada a um laptop que mais parece ser o único respiro de um filme ambientado em uma única câmara, mas que não perde para a monotonia.
Agradeçam a Deus por eu não ter lido "Moby Dick".
Do contrário, eu poderia ficar por mais umas duas mil palavras falando abobrinhas por aqui.
Ah, e nada como um final nos brindando com o alívio de um protagonista que se divide entre otimismo e saída de cena como duas faces da mesma moeda. Não à toa, o único raio de sol que passa pelo buraco da porta daquele apartamento, em quase duas horas de filme, é praticamente na mesma hora de sair do cinema.
Nada de Novo no Front
4.0 640 Assista AgoraRigorosamente NADA DE NOVO.
Tudo em Todo O Lugar ao Mesmo Tempo
4.0 2,1K Assista AgoraSe encontrar o equilíbrio entre as nossas próprias escolhas pode acabar sendo uma tarefa enlouquecedora, esse filme serve de trampolim para algumas reflexões sobre o tal "sentido da existência humana", então nada mais justo do que navegarmos por tudo quanto é gênero ~ao mesmo tempo~.
É de ficar sem gps entre um contexto surrealista de ficção científica e os momentos de humor nonsense com pitadas de Bruce Lee e Jackie Chan. Um filme de Kung Fu que também é drama e romance, se utilizando de elementos do gore para ilustrar o suspense que a própria ansiedade das protagonistas já nos sugere.
Em meio ao caos, fica fácil degustar sabores diferentes e até mesmo perder a noção de qual é a linha central do roteiro, sem deixar de se compadecer com cada processo depreciativo escancarado em tela.
A abordagem "piroca das ideias" também é a chave para tornar o filme acessível para quem só está disposto a se distrair, se entreter, sem deixar de se valer da sua complexidade para atrair outro tipo de telespectador.
Em meio a infinitas possibilidades, arranjar maneiras de se entregar à "finitude" da vida para suportar os buracos em que nós mesmos nos enfiamos, surge como alternativa a uma saída de cena bebendo da fonte da depressão.
Um filme maluco, poderoso e de estética inovadora.
Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
3.5 823 Assista AgoraEmbora o conflito entre um povo preto e um povo indígena possa soar extremamente problemático, a sensibilidade do roteiro na hora de lidar com as fases do luto e ressignificar a história (depois de uma perda tão traumática), teve muita força enquanto eu assistia ao filme. A premissa de "proteger a criança" (na verdade, uma jovem adulta) também parece rasa e superficial, mas, no final das contas, eu caguei para todos os defeitos e me despedi da sala do cinema com um sorriso no rosto. As diferentes camadas que foram capazes de unir um filme de ação e fantasia com dramas pessoais fortes e discussões sociais latentes, nos entregaram uma belíssima homenagem a Chadwick Boseman, que deve ter ficado feliz da vida na companhia de seus ancestrais ♥
Quem tá dizendo que o filme é fraco é chato pra caralho.
Bicho de Sete Cabeças
4.0 1,2K Assista AgoraEmbora, em 2022, o tema seja extremamente batido e muito pouco solucionado, precisamos levar em consideração a principal crítica de um filme lançado há mais de duas décadas: enquanto o pai berra à esmo que o filho precisa ser dopado por remédios tarja preta e a mãe mastiga um cigarro atrás do outro, um jovem é lobotomizado por conta de meia dúzia de baseados e uma rebeldia juvenil trivial.
É incrível como a força das nossas estruturas fracassadas, banhadas em preconceito e conservadorismo inadequado, consegue se manter exercendo o controle sobre a vida das pessoas, a ponto de transformar um comportamento mais do que banal em um verdadeiro ~bicho de sete cabeças~
Mães Paralelas
3.7 419A verdade é nua e crua: o ar novelesco à lá Manoel Carlos é apenas uma alegoria para as letrinhas que subirão no final, assinadas por Eduardo Galeano. E foda-se esse spoiler suspensório. A maior parte do roteiro é um holograma para mães que perderam seus filhos e os filhos dos outros. É sobre mulheres que se fuderam sozinhas durante a guerra e fica a seu critério ilustrar em que guerra. É sobre dor e sofrimento velado em comunhão. O pior é que ainda deu pra sentir esperança no final... Almodóvar é muito pica!
O Menino que Matou Meus Pais
3.0 518 Assista AgoraAcompanhar o lindo romance protagonizado por Carla Diaz e Arthur Picoli de Conduru vale mais a pena do que parar pra assistir a essas duas aberrações de oitenta e poucos minutos. Aguardando pelo derradeiro filme III da trágica sequência: "O Baseado Que Matou Meus Pais". Como diria Marcelo Dourado, "Que filme ruim, velho! Mudou o meu conceito de horrível".
Estômago
4.2 1,7K Assista AgoraDemorei uma vida pra assistir, mas adorei a bifurcação inversa da historinha tragicômica que vai se abraçando. João Miguel muito bem! Os momentos de Ratatouille in Carandiru são ótimos também. Gostei dos efeitos sonoros da contínua mastigação de boca aberta, mas achei que a trilha sonora deixou um pouco a desejar. Também poderia ter menos cenas caricatas e destilar menos preconceitos cansados, mas, definitivamente, vale a pena.
Aqueles que me Desejam a Morte
2.8 270 Assista AgoraO novo longa dirigido por Taylor Sheridan (Sicário: Terra de Ninguém) e estrelado por Angelina Jolie (Garota Interrompida), entrou no circuito brasileiro de cinemas na última quinta-feira (27) e, muito provavelmente, vai agradar aquele tipo de espectador que só está interessado em distrair a cabeça e acompanhar um joguinho de gato e rato por pouco mais de 1h30min.
É o famoso filme de Tela Quente.
Eu estaria mentindo se dissesse que Aqueles Que Me Desejam a Morte é o tipo de obra que normalmente me atrairia, mas eu me peguei sendo puxado para a história conforme ela avançava, mesmo sem que houvesse qualquer complexidade nos momentos de transição, muito por conta do efeito catalisador da floresta em chamas que passou a ter um efeito de bomba-relógio.
Logo de cara, somos apresentados ao perito contador Owen Casserly (Jake Weber), responsável por desvendar algum tipo de esquema obscuro envolvendo magnatas e pessoas influentes do governo, e a seu filho Conner (Finn Little), que rapidamente despontam como alvos de uma busca implacável por parte dos agentes Jack (Aidan Gillen) e Patrick (Nicholas Hoult), que farão de tudo para silenciar a família e preservar o bom andamento dos negócios.
Quando uma abrupta amostra de eventos deixa claro para Owen que ele e o seu filho serão os próximos na lista de execuções, o jeito foi partir para o acampamento de seu cunhado Ethan Sawyer (Jon Bernthal), uma importante figura policial da região, para tentar se proteger e manter a maior distância possível dos inimigos.
No entanto, evidentemente alguma coisa teria que sair do planejado…
Ao vagar sozinho pela floresta isolada, depois de uma traumática experiência de tiroteio, o pequeno Conner acaba sucumbindo à proteção de uma bombeira paraquedista chamada Hannah Faber (Angelina Jolie), que havia sido remanejada para uma torre de incêndio erguida no local depois que um desastroso erro durante uma missão no passado passou a atormentá-la de maneira incessante.
De certa forma, a sutileza na construção da personagem de Angelina Jolie com alguns flashbacks do incidente pretérito e os efeitos sobre a sua personalidade repleta de angústia e rebeldia, foi informativa o suficiente para nos dar o incentivo de que precisávamos até admitir o porquê de sua personagem reagir a determinadas situações do jeito que ela reagia. Ao meu ver, esse nó ficou bem amarrado.
Talvez o ingrediente mais interessante no quesito roteiro seja justamente o fato de que o filme está carregado de pessoas traumatizadas e com pouco trato para lidar com os seus demônios e com os demônios alheios. A única alternativa acaba sendo buscar forças no que resta de resiliência em quem está ao lado e isso é traduzido em uma química convincente entre Angelina e o ator mirim. Se para um estava ruim, para o outro estava pior.
E a partir daí é questão de tempo para que as coisas comecem a se desenrolar de maneira pouco surpreendente. O filme soa bem montado para a ação, mas ignora a profundidade dos personagens. A lindíssima localização arborizada onde grande parte da trama está situada acaba sendo subutilizada no aspecto do novo incêndio florestal, que vem à tona esdruxulamente.
Além dos lampejos iniciais e da boa troca entre os protagonistas (muito por conta do trabalho super decente e natural entregue pelo jovem Finn Little), o filme de fato perdeu a oportunidade de dar sequência a alguns atos preparatórios que acabaram sendo acelerados demais. Se alguém descobrir qual era o segredo mantido por Owen, me avise.
Em compensação, seria injusto deixar de pontuar que os efeitos de Aqueles Que Me Desejam a Morte são bem feitos e que o uso acertado do som é capaz de inserir o espectador no meio do fogo. Enquanto a paisagem é lambida pelas chamas, é possível ouvir limpamente o barulho do fogo estalando ao redor da cena, o que é uma ótima maneira de trazer o público para o cenário caótico.
Provavelmente se você não assistir ao filme em uma boa sala de cinema, esse tipo de sensação poderá ser comprometida (mas se puder, fique em casa).
No mais, embora o roteiro parta de uma premissa simplória e o desfecho não seja tão empolgante, esse é um daqueles filmes que não vai acabar com o dia de ninguém. Se você estiver emotivo, dá até pra dar uma lacrimejada. Se resolveu assistir só por causa da beiça da Angelina, também dá pra sair satisfeito.
Ignore as conveniências do filme (e da vida), mas não se esqueça que onde há fumaça, há fogo.
Confira essa e outras críticas minhas via @metafictions_