É possível que o maior charme do “Cinema do Desconforto” resida no grau de inesquecibilidade de algumas obras, muitas vezes capazes de alcançar a tal “experiência visceral” por meio da suspensão de convenções morais e da exploração das crueldades mais intrínsecas ao ser humano.
Lars von Trier, Gaspar Noé, Cronenberg e Haneke, por exemplo, costumam provocar essas reações ao se utilizarem de diferentes técnicas e narrativas que desafiam o espectador a lidar com as piores perturbações propostas em tela, prendendo-nos a uma teia de náuseas e incredulidade.
O que, para uns, soa como mau gosto ou sadismo recreativo descartável, para outros alimenta justamente aquele sentimento de “eu nunca mais vou esquecer essa porra desse filme”, o que me leva a crer que a proposta da direção foi mais do que acertada.
Em Dogville (2003), por exemplo, um filme que está longe de ser dos mais pesados dentro desse estilo inquietante, a maneira com que o dinamarquês problemático consegue transformar aquela vila muito engraçada, que não tinha teto nem nada, em um instrumento poderoso para escancarar nossas hipocrisias, imoralidades e desprezibilidades, é, de fato, inesquecível.
Não me lembro de ter visto nada capaz de dosar tanto desconforto e fascínio, por quase três horas, de maneira tão sublime, ainda mais ao se utilizar de um negacionismo cenográfico que desmonta o nosso ideal de comunidade e obriga o espectador a aguçar a própria criatividade na busca por empatia e reflexões éticas.
Se, por alguns minutos, aquele contexto capenga pode soar esquisito e até certo ponto insuficiente, conforme a progressão dos nove capítulos vai nos revestindo com a podridão abissal do ser humano, só nos resta imergir na proposta e lidar com os diferentes ecos que o filme deixa reverberando (por dias) dentro da nossa cabeça.
Não haveria maneira melhor de alcançar esse objetivo que não fosse lambuzando o texto em alegorias óbvias (mas nem um pouco gratuitas) sobre redenção e castigo, escancarando a hipocrisia de uma moral cristã que parece montada para justificar as piores violências ao invés de contê-las.
Se a protagonista Grace (Nicole Kidman) emerge na trama munida de uma graça divina, quase como uma Jesus Cristo pós-moderna, capaz de perdoar e se manter em esperança indiscriminada, a vida em comunidade só revela o quanto essa compaixão pode ser corrompida.
Se Lars von Trier buscou colocar uma lente de aumento sobre a sociedade americana por meio do véu da parábola religiosa, o revestimento político da sua crítica acabou por ecoar de maneira ainda mais latente ao escancarar um contraponto no personagem sereno de Tom (Paul Bettany), que se enxerga justo enquanto explora, subjuga e se compadece apenas quando já não há nada a perder.
É como se o filme questionasse, do início ao fim, se você é capaz de manter a empatia mesmo que ela deixe de ser confortável. Você é?
Já não me recordo de qual foi a última vez em que parei para assistir a um trailer de maneira não forçada e esse exercício de abandono é fundamental para que a essência narrativa de algumas obras não seja transviada antes mesmo de sentar para assistir ao filme, afinal, as dezenas e mais dezenas de páginas e perfis de cinema que eu acompanho, já fazem o papel de vender lançamentos com o slogan apelativo que mais convier no momento.
No gênero do terror, por exemplo, de três em três meses somos contaminados com o vírus do “filme mais assustador do ano” e o que deveria alimentar o interesse em assistir a uma nova obra que seja capaz de despertar diferentes sensações de desconforto, explorando variadas reações emocionais através de seus elementos característicos, acaba por plantar a sementinha da decepção iminente.
Com Weapons (2025), para mim, não foi muito diferente...
Se, por um lado, as inúmeras alegorias sobre bullying, ciclo do abuso, massacre escolar, estigmatização dos professores e normalização da violência servem como importantes combustíveis para a inflamação do mistério, eu entendo que o roteiro não se preocupou em conectar a maioria dos pontos, nos fazendo racionalizar demais em momentos inoportunos, o que é péssimo dentro de uma experiência que deveria estar envolta de medo, angústia e curiosidade.
Vejam só, eu não estou dizendo que filme de terror precisa mastigar tudo pro espectador (muito pelo contrário) e detesto aquela receitinha de sempre que coloca tudo na conta de uma seita oculta/vilão macabro no final e acaba com a nossa sensação de "medo do medo".
Acontece que o novo longa do diretor Zach Cregger, cuja premissa parece bastante interessante e é bem estruturada dentro da estilística narrativa dividida em capítulos guiados pelos principais personagens (todos muito bem interpretados, diga-se de passagem), a todo momento fez com que eu me pegasse pensando:
- É sério que nenhuma câmera de segurança flagrou as DEZESSETE crianças entrando numa casa central do bairro?
- Não tem um filho da puta pra achar esquisito o sumiço dos pais responsáveis pela única criança até então sobrevivente naquela sala de aula?
- Por que diabos a polícia não revistou casa por casa procurando por algum indício nos famosos porões americanos?
- Com quase duas dezenas de crianças desaparecidas e uma vivendo a sua rotina normal, não houve o interesse de um veículo de mídia para angariar maiores informações sobre aquela família?
- Uma casa toda envelopada de jornal não chamou a atenção de ninguém da vizinhança?
- É normal que a única criança sobrevivente passe a ir e voltar caminhando sozinha da escola, depois de sumiços chocantes e inexplicáveis, sem causar estranhamento ao moradores do bairro?
Enfim, né...
Foi por essas e outras que a atmosfera de tensão acabou indo pro beleléu na minha experiência, de modo que já me parecia claro um desfecho clássico depois de tantas pontas soltas em meio as tais alegorias que pareciam um prato cheio para o uso do sobrenatural e da exploração do medo psicológico. Só pareciam.
Acabou que eu, um mero inocente aguardando por uma grande reviravolta que justificasse a transformação daquelas crianças num protótipo de Naruto (a corridinha é igual, rs) no início daquela fatídica madrugada, fui agraciado com a prima do Longlegs fazendo mandinga e controlando a saciação do capeta sem maiores aprofundamentos, tal como em tantos e tantos outros filminhos do gênero.
No mais, achei as cenas de gore bem feitinhas, não caí em quase nenhum sustinho, fiquei mais brochado com as pontas soltas do que angustiado com os mistérios, ri horrores com a vingança dos amigos do Dennis o Pimentinha e não assisti a absolutamente nada de inovador em mais um medianíssimo “filme de terror mais assustador do ano”.
Se uma vez Renato Russo afirmou ter feito questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, “Adolescence” (2025) não precisou fazer esforço algum para inclinar o espectador a um processo muito perspicaz de negação da realidade, como se, por algum motivo implícito, nossos olhos estivessem trapaceando, afinal, tem muita coisa nessa vida que a gente simplesmente não quer acreditar.
A maneira com que a minissérie tinge esse pressuposto, instaurando um nó na nossa garganta e imprimindo a atmosfera de tensão sem que uma mísera pista falsa ou reviravolta trapaceira seja colocada em tela, é imprescindível ao resultado excelente ao término dos 230 minutos.
Somado a isso, o bom e velho “plano sequência”, tantas vezes utilizado como firula ou mero apego a estética, tem papel fundamental na narrativa, nos obrigando a encarrar diferentes tipo de clausura, seja na delegacia, na escola, no reformatório ou mesmo no cotidiano devastado de uma família destroçada por uma tragédia, sem que possamos nos dar ao luxo de nos distrair. É como se a câmera urgisse num apelo a claustrofobia causada pela dor de cada consequência.
Se desde a primeira cena o garoto “Jamie Miller” é apresentado como principal suspeito e nos recusamos a aceitar esta premissa, muito disso se deve ao trabalho espetacular de Owen Cooper que, de acordo com o que encontrei, fez a sua estreia como ator dando vida a esse personagem. Em cada um dos quatro episódios, o prodígio entrega, através de Miller, diferentes nuances de uma personalidade complexa, exercendo múltiplas ferramentas de manipulação, sem que caiamos no caricato ou desistamos de tentar destrinchar aquele psicopatinha. Muito pelo contrário... Kevin (Precisamos Falar Sobre Kevin – 2011) bateria palmas de pé.
Ao invés de entregar um “true-crime” enlatado convencional, “Adolescence” (2025) se mostra totalmente desinteressada em transmitir saciedade com relação aos desfechos processuais do caso. Em mais um tremendo acerto, a câmera se concentra em passear pelos meandros reais de um crime bárbaro, aproveitando os contextos de escola, família e psicologia para pincelar questões ainda mais relevantes dentro do nosso contexto atual de overdose de dopamina.
Também me chamou a atenção a maneira sutil com que cada personagem exercita os seus defeitos, quase sempre influenciados por uma referência masculina “pior”. É o pai que apanhava, mas não espanca (e também não se expressa). É o filho que assassina, mas não estupra (como se fosse uma nobre qualidade). É o sujeito que se compadece com o assassino e oferece ajuda (como se tudo não passasse de um reality show). É a criançada que ri da colega esfaqueada e se usa disso para fazer bullying (como se a crueldade do ato já não pudesse chocar).
Enfim, os olhares tortos, o carro pichado, a histeria coletiva, as tentativas empacadas de “seguir adiante”, os olhos quase sempre afogados em lágrimas presas, a busca por motivos, a busca por respostas, a culpa, a mentira, a negação, tudo é passado sem nenhum tipo de conveniência. Somos arremessados em um buraco desde a primeira cena e é assim que teremos que lidar até o final, reféns do impacto emocional de cada escolha podre. E o buraco parece ser mais do que profundo: geracional.
Sob o lugar de fala de quem, num passado não tão distante, poderia ser considerado um grande entusiasta da arte de emendar um rolé duvidoso no outro, garanto que “Victoria” consegue traduzir a premissa de seu subtítulo “One city. One night. One take.” de uma maneira tão vivaz que o seu plano sequência (de incríveis cento e trinta e oito minutos) se desprende do estigma de firula técnica e passa a ter importância crucial para amplificar a sensação de urgência e falta de controle dos personagens, como se fôssemos meros voyeurs nos deliciando com aquelas quedas livres emocionais em tempo real.
Sem um pingo de tédio do início ao fim, a tomada contínua, sem cortes, pincelando a crueza das ruas de Berlim, potencializa a nossa curiosidade/tensão a medida em que cada escolha duvidosa vai sendo tomada pelos personagens. Ainda que a protagonista possa parecer burra, sonsa e influenciável nos primeiros atos, a câmera reflete justamente a sua busca por conexão, estampando o estado de vulnerabilidade emocional causado pela solidão e ausência de perspectiva, causador máximo da sua entrega a situações perigosas em nome da necessidade de se sentir viva e conectada a alguma coisa, mesmo que de maneira efêmera, caótica, irresponsável, imoral ou fora do status quo.
Não à toa, a jornada da personagem principal, calcada na busca por migalhas de afeto, toma forma em uma madrugada intensamente bizarra e, até certo ponto, divertidíssima, mas parece fadada ao retorno a um estado quase que inevitável de solidão, reforçando a ideia de que, por mais que seja possível mergulhar em momentos inesquecíveis de adrenalina e preenchimento de vazio existencial, a ruptura com certas angústias e circunstâncias acaba sendo de uma complexidade incomensurável, mas não precisamos nos culpar por isso.
A ausência de desfechos claros e reconfortantes ou mesmo a omissão de certas respostas que podem ser projetadas durante o filme, mantém essa sensação de circularidade muito elevada, tornando a trama ainda mais visceral, já que traduz muito bem a complexidade nua da vida real, principalmente naqueles momentos em que nos tornamos “espectadores de nós mesmos”, sem qualquer garantia de resolução.
E, no fim, a vida costuma ser assim mesmo para alguns: sem redenção ou propósito. Sem lar. Que nem no início.
O ponto de unanimidade nessa série é a trilha sonora maravilhosa:
1. Acabou Chorare - Novos Baianos 2. After Life - Arcade Fire 3. Amor Perfeito - Roberto Carlos 4. O Bobo - Cícero 5. Cama e Mesa - Roberto Carlos 6. Chão de Giz - Zé Ramalho 7. A Cidade - Chico Science & Nação Zumbi 8. Crua - Otto 9. Dona da Minha Cabeça - Geraldo Azevedo 10. Gente Aberta - Erasmo Carlos 11. Hallelujah - Rufus Wainwright 12. Hoje, Amanhã e Depois - Nação Zumbi 13. Meu Esquema - Mundo Livre S/A 14. O Que Será (A Flor da Pele) - Milton Nascimento & Chico Buarque 15. Pedaço de Mim - Zizi Possi & Chico Buarque 16. Pense em Mim - Johnny Hooker & Eduardo Queiroz 17. Revelação - Fagner 18. Risoflora - Elba Ramalho 19. Último Romance - Los Hermanos 20. Vamos Fugir - Gilberto Gil 21. Você Ainda Pensa? - Johnny Hooker
Ainda que o roteiro fomente a sugestão óbvia de que o romance será o carro-chefe, a trama se desentrelaça entre um drama bem atuado e uma espécie de suspense implícito nas nossas próprias expectativas, equilibrando o espectador entre as nuances daquele vulcão de desejos erupcionados (?) em tela e as suas possíveis consequências em um mundo real repleto de inconveniências.
A intensidade sensual do filme ganha um charme bastante original ao se entrelaçar com a exuberância da geografia amazônica, criando paralelos muito maiores do que uma simples alegoria ilustrativa. A constante beleza natural da fotografia, alternando entre a mata densa e, sobretudo, à vazão sufocante das águas extensas do Amazonas, servem de canhão para projetar a força da presença de Anaíra e potencializar o seu impacto sobre os três irmãos.
Quase como uma armadilha, “O Rio do Desejo” retrata de uma maneira muito singular o caráter incontrolável da mistura heterogênea entre amor e desejo, mesmo que os clichês impeçam o filme de alcançar um grau de maior complexidade, muito por conta da maneira como o personagem “Dalmo” foi exposto em tela, beirando o mau gosto por inúmeras vezes.
Enfim, um belo filme que poderia ser, ao meu ver, uma obra ainda mais especial, não fossem os desajustes entre texto e mise-en-scène. Me peguei lembrando de "Cidade Baixa" (2005) por diversas vezes, antes mesmo de descobrir que Sérgio Machado dirigiu ambos os filmes. Tá explicado!
Não é segredo pra absolutamente ninguém que a curiosidade em torno do que choca e o interesse pelas profundezas da mente humana, acaba transformando as angústias e os conflitos do processo penal em uma ferramenta extremamente sedutora quando o assunto é o engajamento popular, seja na porta do tribunal ou de frente pra Netflix.
Ora bolas, então por quê não revisitarmos um dos crimes mais chocantes do nosso passado recente, reciclando os tradicionais elementos de espetacularização do papel de juízes, promotores, delegados e advogados, super aproveitando essa eterna fonte de entretenimento chamada Isabella Nardoni?
Se "True Crime" é gênero, comer carne revirada e monetizar de tempos em tempos são os ossos do ofício... Não sejamos hipócritas...
Pois bem. Estendendo o comentário para um contexto estritamente audiovisual, o "documentário" se demonstra mais preguiçoso do que o próprio promotor do caso, se recusando a trazer novos elementos à tela, promovendo a dúvida de uma maneira extremamente simplista, omitindo uma série de informações reveladas em inúmeras outras obras (vide "Investigação Criminal", de 2012), se debruçando na já tradicional "rinha de operadores do Direito", enquanto destila ~mea culpa~ através de meias verdades confrontantes.
"Isabella: O Caso Nardoni" estreou na Netflix com o pretexto perfeito para chocar novamente, refrescar a curiosidade das pessoas e tentar desmontar alguns estereótipos criados em torno de um julgamento que entrou no imaginário do público a ponto de fazer com que quase todo mundo se interessasse pelo seu desfecho.
Acontece que nem pra fazer uma minissérie montada em três ou quatro episódios, mesmo que contextualizando apenas a evolução gradual do caso, a plataforma serviu, entregando um serviço porco, raso, clichê e absolutamente desinteressante.
Ou seja, exatamente o que eu esperava: sensacionalismo barato.
Até mesmo a chance de dar mais voz a uma mãe que perdeu a sua filha tão precocemente, de uma das maneiras mais inacreditáveis da história do país, foi jogada no lixo, já que a edição claramente estava mais interessada em revisitar o caos causado pela imprensa e projetar aquela reconstituição em 3d esdrúxula que mais parece ter atrapalhado do que ajudado no desfecho do julgamento.
Tudo o que envolve esse caso é de uma tristeza sem fim...
Com menos de 10 minutos, somos apresentados a versão teen do pitboy de condomínio. Entre aulas de judô e brigas despropositadas, o fascínio de Rogério pelos ~jogos violentos~ surge como a cereja do bolo na construção do primeiro personagem detestável da série. Ladainha de tiozão.
2) SÉRGIO INSTRUTOR DE TIRO
No segundo episódio, Cibele, que havia comprado (por impulso) uma arma de seu vizinho miliciano para "proteger" a sua família, surge praticando tiros junto a Sérgio enquanto ele sussurra palavras de motivação e "tira uma casquinha" da pobre mãe desamparada. Sexualização péssima.
3) AMÂNCIO DAS CASAS BAHIA
Chegando ao tragicômico terceiro episódio, é possível identificar o interesse de Amâncio, o bundão, em Mila, a vulnerável, mas fascinante mesmo é a percepção de que um vendedor das Casas Bahia tem passe livre no trabalho e consegue manter a sua família num condomínio na Barra.
4) TIRO ACIDENTAL
Mas como o dramalhão não pode parar, que tal o teen que sofre bullying furtar a arma da mãe, pra ameaçar o bullynador, enquanto o seu pai inicia um caso extraconjugal com a genitora do valentão? O tiro acidental acabou sendo igualmente previsível e constrangedor. Uma salada só.
5) CASOS DE FAMÍLIA
A essa altura, comecei a achar que a aceitação da série e a chuva de elogios tivesse calcada em seu caráter satírico. A cena da "audiência de conciliação" entre as famílias, orquestrada pelo vizinho miliciano, só poderia ser uma espécie de piada velada.. Impossível levar a sério.
6) ESPELHO ÍNTIMO
Pausa dramática para a cena do "encontro com o feminino" que dispensa maiores comentários. Estética de gosto, no mínimo, duvidosíssimo. Coitada da Mila.
7) COBRANÇA PÓS TRAIÇÃO/ESTUPRO
Superada a cena final do episódio 4, em que a direção opta por apelar ao invés de transmitir uma sugestão mais inteligente, chegamos a um dos piores diálogos da trama. A postura patética de Amâncio é tão pouco crível que a aversão pelo personagem se volta contra a obra. Tosco!
8) XIXI NA PIZZA
Nesse momento aqui eu me contorci de tanta vergonha alheia que também aproveitei pra tirar a água do joelho. Era o melhor a se fazer.
9) RIVAIS NO COUNTER-STRIKE
Instantes depois, chegamos ao tão sonhado encontro de titãs entre Marcinho e Rogério. Como criatividade é o que não falta em tela, que tal uma partidinha de algum jogo de tiro enquanto as mães de família buscam uma conciliação pra lá de forçada? Patético do patético.
10) TATUAGEM DE BANDIDO
Nesse frame aqui eu só registro em ata a minha boladeza. Estigmatização de tatuagem em julho de 2023? Faça-me o favor...
11) PRIMEIRO BASEADO
Confesso que no episódio 6, exatamente na metade da série, o ritmo melhora e a familiarização com a infinidade de subtramas nos leva a focar no desenvolvimento dos atos, mas essa cena do primeiro baseado... Minha nossa senhora... O que foi que esse menino fumou?
12) FLAGRA NA VARANDA
Já essa cena aqui, que embora tenha funcionado como um dos gatilhos mais eficazes de toda a temporada, é projetada de uma maneira tão caricata que acaba contaminando todo o restante do episódio com aquela clássica sensação de "ah, não me diga, Wando". No limite do óbvio.
13) CACHORRO VAMPIRO
Confesso que o Lulu da Pomerânia tomando suco de groselha causou uma vergonha boa. Uma coisa meio tarantinesca. Ri genuinamente.
14) CACHORRO NO VENTILADOR
E mal sabia ele que o feitiço iria virar contra o feiticeiro...
15) DELEGADO RENDIDO
Nos instantes finais do 8º episódio, ainda restou tempo para nos deliciarmos com um adolescente desarmando um delegado de polícia, dentro de uma unidade repleta de agentes, sem que um mísero disparo fosse efetuado. Fiquemos com a esperança de que a vida realmente imite a arte...
16) MC MARCINHO
Confesso que não sei se cochilei em algum momento, mas quando Marcinho surgiu, absolutamente do nada, trajado de "MC Vergonha Alheia" e prontinho pra arrebentar no ~baile barrense~ com seu batom vermelho, eu perdi de vez as esperanças. Qualquer coisa poderia acontecer.
17) GLORY HOLE
No antepenúltimo episódio, o clímax do constrangimento ficou por conta de um "glory hole" de dedos, na vez de Cibele se reconectar com a sua feminilidade. Mais um momento bastante exótico.
18) BOLSA DE MILHÕES
Na reta final, Rogério se revelou o adolescente menos curioso da história da humanidade e acabou, de uma vez por todas, com o resquício de paciência deste espectador.
19) ASSALTO EMO
Mas ainda haveria tempo pra que integrantes da banda Simple Plan roubassem algo em torno de quarenta mil reais de Lorraine e Marcinho (que estavam armados) numa passarela do subúrbio carioca.
20) O MILAGRE
Por fim, o GRANDE PLOT, mastigado até o último milésimo de segundo, cuspido pra prender o grande público em mais alguns meses de espera até o lançamento da segunda temporada. Suco da preguiça.
Primeiramente, que alguém dê um pescotapa no zé ruela que traduziu esse título para "Emboscada". Se a ideia era sintetizar o "La Bella Gente" original em um substantivo feminino qualquer, que batizassem a obra de "Hipocrisia" ou qualquer merda parecida.
No mais, embora o filminho seja meio cansado e a evolução do roteiro não empolgue tanto em diversos momentos, o recorte de tantas caricaturas que compõem uma parcela bem significativa da minha bolha me agradou. São elas:
A coroa gata ~white savior~ que só consegue se saciar enquanto tem o seu ego caridoso debruçado em alguma filantropia impulsiva;
O coroa progressista e gente boa que não tem coragem e personalidade suficientes para deixar de ceder o tempo inteiro;
O protótipo de playboy infiel, com currículo preenchido no exterior e look alternativo, que consegue se travestir de bonzinho até transar com a gata da vez;
O casal de primos ricos, mesquinhos, xenófobos e preconceituosos, que sequer tentam disfarçar o seu horror ao que está de fora da sua "classe".
Em meio a essa salada, a protagonista, sequestrada num lar com tão pouca dignidade, se vê obrigada a retomar o seu passado de dor, na expectativa de que algum resquício de ar livre seja novamente inalado.
A sensação foi de que a Nadja achou melhor viver como uma puta livre do que subservir aquela ~bela gente~ escrota e hipócrita.
O que, sem sombra de dúvidas, eleva o patamar de "Y Tu Mamá También", é a falsa sensação de que o filme não vai ultrapassar a barreira de um road movie clichê e pseudo-tesudo, até se provar um filme que faz ode ao pessimismo, sendo concluído numa linha diametralmente oposta.
Embora o roteiro finja se construir em cima desse nhenhenhem de carpe diem, como se fosse possível tacar o foda-se para viver se deliciando com as diferentes etapas da vida, os últimos minutos pulverizam essa abobrinha e nos saciam com a invalidação do apelo projetado, escancarando, justamente, os nossos cercadinhos.
Mais do que as fodas desprotegidas e as dezenas de tragos compartilhados, a obra não se sustenta num mero retrato de aventura e liberdade, mas sim da realidade. Não à toa, a viagem que se apresenta como o início para eles, também se revela como um final para ela.
E como é inegável a beleza presente no impulso, as masturbações, as discussões infantilizadas, os diálogos sexuais, as lágrimas compulsivas e, principalmente, a maneira como cada um se mostra inapto para lidar com o seu oceano de sentimentos, agregam valor a ideia de que "la vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar".
Somos mares intensos, infinitos e extremamente complexos.
Um filme perfeito no propósito de reiterar que algumas lembranças precisam ficar guardadas no fundo do baú, sem que deixemos elas saírem de lá, sob o risco de estragarmos uma bela memória afetiva.
Até a última cena, eu estava decidido a avaliar o filme com 3 estrelas. Vi a moto voltando. Temi pela ocupação da garupa. Pensei em dar 2 estrelas em face de um desfecho tão borracha fraca. Não tinha ninguém na garupa. Ufa!!! 3,5 estrelas pela potência do alívio. Às vezes a única solução é sair em busca de si. O efeito de um "amor" em forma de bengala dura menos que o de um paracetamol genérico. Precisar partir é muito mais forte do que precisar ficar. A vida tende a mostrar que a banda toca assim... Um filme singelo, de estética apurada e bastante reflexão. Cinema Nacional <3
"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme sensível, sincero, que consegue se desprender dos clichês para fortalecer a simbiose entre os três personagens principais, sendo capaz de nos afastar de estereótipos e fortalecer a sua narrativa bem construída, embora opte por não desembaralhar muito bem algumas questões de abuso infantil.
Imagino que assistir a esse filme lá no fim de 2012, justamente no meu primeiro ano de faculdade, teria produzido algumas sensações mais latentes, potencializando o "se sentir infinito" com relação as perspectivas de futuro. No entanto, esse "afastar" do tempo me permitiu enxergar as várias facetas da juventude de um lugar diferente, meio silencioso. Uma espécie de nostalgia despropositada.
Sabe aquela história de que a vida não é boa e nem má, apenas os dois ao mesmo tempo?! Então, o filme me levou para esse lugar, como quando colocamos a cabeça no travesseiro após um dia bem vivido: tendo plena consciência de um emaranhado de situações merdas nas quais estamos inseridos, mas ainda insistindo na ideia de que amanhã há de ser outro dia.
Como adolescente bobalhão e fã de "American Pie" que fui, fico aguardando por uma reunion do elenco, daqui a uns vinte anos, com todo mundo gordo, calvo, aposentado e divorciado, refletindo sobre os ~dias de luta dias de glória~ de outrora, com direito a passeio pelo túnel e novas juras de amor incumpríveis.
Bong Joon-ho transforma um lagartão comedor de gente num belo condutor de dramas familiares, medo, ansiedade, frustação, esperança, lealdade, direcionando a nossa atenção para uma família desleixadona e disfuncional, enquanto esmurra o ocidente através de críticas muito bem fundamentadas.
A cena do protagonista implorando para se fazer ouvido pelo laboratorista americano, por exemplo, se reproduz como uma alegoria à relação do cinema não-ocidental e a incapacidade dessa indústria ser verdadeiramente consumida para além de seu raio.
Não à toa, o próprio diretor do filme é um dos maiores, senão o maior, responsável por essa ruptura, ao varrer o Oscar 2019 com o apogeu de "Parasita".
As mudanças de tom estranhas e aleatórias, flertando entre o chocante e o hilariante, também são marcas registradas que muito me agradam. Alguns frames frios também são muito bem inseridosdurante esses momentos de transição.
A distância de 2023 para 2006, ano do lançamento de "O Hospedeiro", foi o meu maior desafio no processo de digestão...
Há 17 anos, certamente eu teria considerado um filme muito acima da média. Em maio de 2023, eu consigo compreender o seu valor, mas seria forçado dizer que a experiência me gerou tanto impacto, depois de já ter consumido tanta coisa mais evoluída no gênero.
No fim das contas, são duas horas que valem muito como estudo da obra desse gênio coreano!
Não acho que sobrecarregar um roteiro com dezenas de alegorias criticando a sociedade do espetáculo torne um filme bom. Até consegui distrair a minha cabeça brincando de pescar referências com a decadência da elite e a hipocrisia da classe média, mas achei zero genial. Overrated.
Curti demais assistir ao "Guerra da Tapioca" na TV aberta, no horário nobre da Globo, imediatamente após o campeão de audiência "Jogo da Discórdia" do Big Brother Brasil, ainda que isso só escancare a nossa inversão de prioridades, rs.
Embora eu desconhecesse o filme (tal qual a maioria dos atores envolvidos), a obra que é uma produção 100% cearense protagonizada por Samya de Lavor e inteiramente gravada em Fortaleza, me fisgou por acaso, ainda nos instantes iniciais, tamanho carisma da trilha forrozenta.
Dirigido por Luciana Vieira e Wislan Esmeraldo, os trinta minutos de tela revelam um texto irreverente e atuações bem envolventes que retratam a vida popular local. É arte independente, de pouco orçamento, produção tupiniquim e puro suco do Nordeste!
Em algumas camadas, me lembrei bastante da saudosa "A Grande Família". A propósito, eu zero me incomodaria de assistir a algum tipo de continuação da trama em formato de minissérie... Fica a dica.
Ainda que Aronofsky não encabece a minha lista de diretores favoritos, é inegável a sua imensa habilidade de penetrar no íntimo dos personagens destrinchados em tela, escancarando suas obsessões e tragédias pessoais, sem a realização de muitas concessões aparentes. Foi assim em "Requiem for a Dream", foi assim em "Black Swan", foi assim em "Mother!" e é assim em "The Whale".
Justamente por esse "foda-se" que o diretor faz questão de implementar como uma de suas características principais, que uma análise mais simplista da sua obra pode acabar gerando um efeito contrário no âmago de quem assiste, como se ele, de certo modo, buscasse menosprezar seus próprios personagens, utilizando-se de certa crueldade e mera reprodução de clichês para gerar entretenimento cult às custas de temáticas sensíveis.
Não posso concordar com isso...
Os diferentes tipos de dependência química dos personagens de "Réquiem para um Sonho", o perfeccionismo obsessivo da bailarina de "Cisne Negro" e as alegorias ocultas de "Mãe!", desta vez, tomaram a forma da obesidade mórbida munida pelos efeitos da depressão e da compulsão alimentar, temáticas tão atuais.
Os diferentes níveis de ódio e desprezo para com o protagonista, não se resumem a sua condição física. Embora o fato de o personagem ter obesidade mórbida seja importante para a trama, ela é apenas uma consequência de diferentes processos banhados em estágios profundos de tristeza.
Charlie chegou a um nível depressivo tão irreversível que ele come para se afogar e passa a olhar pro relógio em contagem regressiva. A divisão do roteiro em dias da semana gera exatamente essa sensação claustrofóbica.
Embora a minha namorada tenha comentado que a repulsa pelo personagem, assim como os seus trejeitos caricatos ao manejar e se deleitar com um balde de frango frito soe gordofóbico, não seria justamente essa a mera representação da gordofobia na obra?
Ora, senão temos a seguinte sequência narrativa: um casal incompatível gera uma menina revoltada com o distanciamento do pai, que encontrou em uma relação homoafetiva a sua grande paixão, mas perdeu o seu companheiro por conta da intolerância da igreja, entrando num estágio de luto profundo, até desenvolver uma trágica condição de compulsão alimentar e resignação com a morte iminente, momento no qual resolve "correr atrás do tempo perdido", ao menos por alguns instantes.
Agora me diga: como é que uma pessoa depressiva e solitária, com extrema dificuldade de locomoção, pesando mais de duzentos quilos e, literalmente, comendo para morrer, deveria ser retratada em tela?
Sentando-se à mesa em horários determinados, fazendo questão de seguir a etiqueta em suas refeições? Se alimentando com comidas não processadas, bem preparadas e ricas em nutrientes? Sem limpar a mãozona suja de gordura na camisa enquanto traveste a sua dor com quilos e mais quilos de fast food? Dando trinta e quatro mastigadas enquanto saboreia cada uma de suas coxas de frango?
Talvez essa tal gordofobia esteja mais enraizada nos olhos do espectador do que de fato nas nuances da trama em si...
Entendo que a contratação de um ator "supersize" pudesse amenizar esse tipo de discussão, mas trabalhemos com o que temos.
E o que também temos é um trabalho técnico impecável capaz de caracterizar o antigo "George o Rei da Floresta" em um personagem esteticamente impactante e ainda mais complexo internamente, credenciando Brendan Fraser à disputa e eventual conquista da cobiçada estatueta de Melhor Ator.
Essa complexidade é o que a primeira cena do filme busca mostrar, nos empurrando para dentro da telinha preta de uma câmera letárgica e atrelada a um laptop que mais parece ser o único respiro de um filme ambientado em uma única câmara, mas que não perde para a monotonia.
Agradeçam a Deus por eu não ter lido "Moby Dick".
Do contrário, eu poderia ficar por mais umas duas mil palavras falando abobrinhas por aqui.
Ah, e nada como um final nos brindando com o alívio de um protagonista que se divide entre otimismo e saída de cena como duas faces da mesma moeda. Não à toa, o único raio de sol que passa pelo buraco da porta daquele apartamento, em quase duas horas de filme, é praticamente na mesma hora de sair do cinema.
Com todo respeito, quem gostou dessa série deve ter parado de prestar atenção nela enquanto ia sendo consumido pelos mais profundos sentimentos de tristeza e inconformismo nutridos pela própria magnitude da tragédia em si.
Porque eu não sei o que foi pior...
O gauchês extremamente forçado, caminhando na linha tênue do "insuportável" com o "vergonha alheia"?
Os defeitos especiais à lá "Linha Direta"?
A evolução do roteiro que divide a obra esdruxulamente em "noite da tragédia" vs "tribunais infrutíferos", sem entregar mais nada?
A péssima tentativa de humanização de determinados personagens, sem que fôssemos suficientemente inseridos na vida pessoal de cada um deles?
Alguns diálogos mais rasos que uma poça de xixi?
O clamor por "justiça" empacotado por sentimentos clichês de apelo social e vingança jurídica?
As falsas simetrias e informações incongruentes sobre uma infinidade de contextos técnicos?
Se encontrar o equilíbrio entre as nossas próprias escolhas pode acabar sendo uma tarefa enlouquecedora, esse filme serve de trampolim para algumas reflexões sobre o tal "sentido da existência humana", então nada mais justo do que navegarmos por tudo quanto é gênero ~ao mesmo tempo~.
É de ficar sem gps entre um contexto surrealista de ficção científica e os momentos de humor nonsense com pitadas de Bruce Lee e Jackie Chan. Um filme de Kung Fu que também é drama e romance, se utilizando de elementos do gore para ilustrar o suspense que a própria ansiedade das protagonistas já nos sugere.
Em meio ao caos, fica fácil degustar sabores diferentes e até mesmo perder a noção de qual é a linha central do roteiro, sem deixar de se compadecer com cada processo depreciativo escancarado em tela.
A abordagem "piroca das ideias" também é a chave para tornar o filme acessível para quem só está disposto a se distrair, se entreter, sem deixar de se valer da sua complexidade para atrair outro tipo de telespectador.
Em meio a infinitas possibilidades, arranjar maneiras de se entregar à "finitude" da vida para suportar os buracos em que nós mesmos nos enfiamos, surge como alternativa a uma saída de cena bebendo da fonte da depressão.
Um filme maluco, poderoso e de estética inovadora.
Muito vem sendo falado sobre a sensibilidade dessa série, da sua qualidade acima da média em inúmeros aspectos, da potência dos personagens, do plano sequência inacreditável do penúltimo episódio, dos inúmeros abraços que os diálogos são capazes de nos dar, mas eu confesso que demorei horas tentando aceitar que o ator protagonista não se tratava de Rob Schneider, do filme ANIMAL (2001). Isso pode ter prejudicado a minha experiência.
Dogville
4.3 2,0K Assista AgoraÉ possível que o maior charme do “Cinema do Desconforto” resida no grau de inesquecibilidade de algumas obras, muitas vezes capazes de alcançar a tal “experiência visceral” por meio da suspensão de convenções morais e da exploração das crueldades mais intrínsecas ao ser humano.
Lars von Trier, Gaspar Noé, Cronenberg e Haneke, por exemplo, costumam provocar essas reações ao se utilizarem de diferentes técnicas e narrativas que desafiam o espectador a lidar com as piores perturbações propostas em tela, prendendo-nos a uma teia de náuseas e incredulidade.
O que, para uns, soa como mau gosto ou sadismo recreativo descartável, para outros alimenta justamente aquele sentimento de “eu nunca mais vou esquecer essa porra desse filme”, o que me leva a crer que a proposta da direção foi mais do que acertada.
Em Dogville (2003), por exemplo, um filme que está longe de ser dos mais pesados dentro desse estilo inquietante, a maneira com que o dinamarquês problemático consegue transformar aquela vila muito engraçada, que não tinha teto nem nada, em um instrumento poderoso para escancarar nossas hipocrisias, imoralidades e desprezibilidades, é, de fato, inesquecível.
Não me lembro de ter visto nada capaz de dosar tanto desconforto e fascínio, por quase três horas, de maneira tão sublime, ainda mais ao se utilizar de um negacionismo cenográfico que desmonta o nosso ideal de comunidade e obriga o espectador a aguçar a própria criatividade na busca por empatia e reflexões éticas.
Se, por alguns minutos, aquele contexto capenga pode soar esquisito e até certo ponto insuficiente, conforme a progressão dos nove capítulos vai nos revestindo com a podridão abissal do ser humano, só nos resta imergir na proposta e lidar com os diferentes ecos que o filme deixa reverberando (por dias) dentro da nossa cabeça.
Não haveria maneira melhor de alcançar esse objetivo que não fosse lambuzando o texto em alegorias óbvias (mas nem um pouco gratuitas) sobre redenção e castigo, escancarando a hipocrisia de uma moral cristã que parece montada para justificar as piores violências ao invés de contê-las.
Se a protagonista Grace (Nicole Kidman) emerge na trama munida de uma graça divina, quase como uma Jesus Cristo pós-moderna, capaz de perdoar e se manter em esperança indiscriminada, a vida em comunidade só revela o quanto essa compaixão pode ser corrompida.
Se Lars von Trier buscou colocar uma lente de aumento sobre a sociedade americana por meio do véu da parábola religiosa, o revestimento político da sua crítica acabou por ecoar de maneira ainda mais latente ao escancarar um contraponto no personagem sereno de Tom (Paul Bettany), que se enxerga justo enquanto explora, subjuga e se compadece apenas quando já não há nada a perder.
É como se o filme questionasse, do início ao fim, se você é capaz de manter a empatia mesmo que ela deixe de ser confortável. Você é?
Um dos filmes mais fodas que eu vi na minha vida.
Via @caioeshenriques on #Letterboxd
https://letterboxd.com/caioeshenriques/film/dogville/
A Hora do Mal
3.7 1,0K Assista AgoraJá não me recordo de qual foi a última vez em que parei para assistir a um trailer de maneira não forçada e esse exercício de abandono é fundamental para que a essência narrativa de algumas obras não seja transviada antes mesmo de sentar para assistir ao filme, afinal, as dezenas e mais dezenas de páginas e perfis de cinema que eu acompanho, já fazem o papel de vender lançamentos com o slogan apelativo que mais convier no momento.
No gênero do terror, por exemplo, de três em três meses somos contaminados com o vírus do “filme mais assustador do ano” e o que deveria alimentar o interesse em assistir a uma nova obra que seja capaz de despertar diferentes sensações de desconforto, explorando variadas reações emocionais através de seus elementos característicos, acaba por plantar a sementinha da decepção iminente.
Com Weapons (2025), para mim, não foi muito diferente...
Se, por um lado, as inúmeras alegorias sobre bullying, ciclo do abuso, massacre escolar, estigmatização dos professores e normalização da violência servem como importantes combustíveis para a inflamação do mistério, eu entendo que o roteiro não se preocupou em conectar a maioria dos pontos, nos fazendo racionalizar demais em momentos inoportunos, o que é péssimo dentro de uma experiência que deveria estar envolta de medo, angústia e curiosidade.
Vejam só, eu não estou dizendo que filme de terror precisa mastigar tudo pro espectador (muito pelo contrário) e detesto aquela receitinha de sempre que coloca tudo na conta de uma seita oculta/vilão macabro no final e acaba com a nossa sensação de "medo do medo".
Acontece que o novo longa do diretor Zach Cregger, cuja premissa parece bastante interessante e é bem estruturada dentro da estilística narrativa dividida em capítulos guiados pelos principais personagens (todos muito bem interpretados, diga-se de passagem), a todo momento fez com que eu me pegasse pensando:
- É sério que nenhuma câmera de segurança flagrou as DEZESSETE crianças entrando numa casa central do bairro?
- Não tem um filho da puta pra achar esquisito o sumiço dos pais responsáveis pela única criança até então sobrevivente naquela sala de aula?
- Por que diabos a polícia não revistou casa por casa procurando por algum indício nos famosos porões americanos?
- Com quase duas dezenas de crianças desaparecidas e uma vivendo a sua rotina normal, não houve o interesse de um veículo de mídia para angariar maiores informações sobre aquela família?
- Uma casa toda envelopada de jornal não chamou a atenção de ninguém da vizinhança?
- É normal que a única criança sobrevivente passe a ir e voltar caminhando sozinha da escola, depois de sumiços chocantes e inexplicáveis, sem causar estranhamento ao moradores do bairro?
Enfim, né...
Foi por essas e outras que a atmosfera de tensão acabou indo pro beleléu na minha experiência, de modo que já me parecia claro um desfecho clássico depois de tantas pontas soltas em meio as tais alegorias que pareciam um prato cheio para o uso do sobrenatural e da exploração do medo psicológico. Só pareciam.
Acabou que eu, um mero inocente aguardando por uma grande reviravolta que justificasse a transformação daquelas crianças num protótipo de Naruto (a corridinha é igual, rs) no início daquela fatídica madrugada, fui agraciado com a prima do Longlegs fazendo mandinga e controlando a saciação do capeta sem maiores aprofundamentos, tal como em tantos e tantos outros filminhos do gênero.
No mais, achei as cenas de gore bem feitinhas, não caí em quase nenhum sustinho, fiquei mais brochado com as pontas soltas do que angustiado com os mistérios, ri horrores com a vingança dos amigos do Dennis o Pimentinha e não assisti a absolutamente nada de inovador em mais um medianíssimo “filme de terror mais assustador do ano”.
A bruxonilda Gladys tinha muito mais potencial.
Via @caioeshenriques on #Letterboxd
https://letterboxd.com/caioeshenriques/film/weapons-2025/
Adolescência
4.0 611Se uma vez Renato Russo afirmou ter feito questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, “Adolescence” (2025) não precisou fazer esforço algum para inclinar o espectador a um processo muito perspicaz de negação da realidade, como se, por algum motivo implícito, nossos olhos estivessem trapaceando, afinal, tem muita coisa nessa vida que a gente simplesmente não quer acreditar.
A maneira com que a minissérie tinge esse pressuposto, instaurando um nó na nossa garganta e imprimindo a atmosfera de tensão sem que uma mísera pista falsa ou reviravolta trapaceira seja colocada em tela, é imprescindível ao resultado excelente ao término dos 230 minutos.
Somado a isso, o bom e velho “plano sequência”, tantas vezes utilizado como firula ou mero apego a estética, tem papel fundamental na narrativa, nos obrigando a encarrar diferentes tipo de clausura, seja na delegacia, na escola, no reformatório ou mesmo no cotidiano devastado de uma família destroçada por uma tragédia, sem que possamos nos dar ao luxo de nos distrair. É como se a câmera urgisse num apelo a claustrofobia causada pela dor de cada consequência.
Se desde a primeira cena o garoto “Jamie Miller” é apresentado como principal suspeito e nos recusamos a aceitar esta premissa, muito disso se deve ao trabalho espetacular de Owen Cooper que, de acordo com o que encontrei, fez a sua estreia como ator dando vida a esse personagem. Em cada um dos quatro episódios, o prodígio entrega, através de Miller, diferentes nuances de uma personalidade complexa, exercendo múltiplas ferramentas de manipulação, sem que caiamos no caricato ou desistamos de tentar destrinchar aquele psicopatinha. Muito pelo contrário... Kevin (Precisamos Falar Sobre Kevin – 2011) bateria palmas de pé.
Ao invés de entregar um “true-crime” enlatado convencional, “Adolescence” (2025) se mostra totalmente desinteressada em transmitir saciedade com relação aos desfechos processuais do caso. Em mais um tremendo acerto, a câmera se concentra em passear pelos meandros reais de um crime bárbaro, aproveitando os contextos de escola, família e psicologia para pincelar questões ainda mais relevantes dentro do nosso contexto atual de overdose de dopamina.
Também me chamou a atenção a maneira sutil com que cada personagem exercita os seus defeitos, quase sempre influenciados por uma referência masculina “pior”. É o pai que apanhava, mas não espanca (e também não se expressa). É o filho que assassina, mas não estupra (como se fosse uma nobre qualidade). É o sujeito que se compadece com o assassino e oferece ajuda (como se tudo não passasse de um reality show). É a criançada que ri da colega esfaqueada e se usa disso para fazer bullying (como se a crueldade do ato já não pudesse chocar).
Enfim, os olhares tortos, o carro pichado, a histeria coletiva, as tentativas empacadas de “seguir adiante”, os olhos quase sempre afogados em lágrimas presas, a busca por motivos, a busca por respostas, a culpa, a mentira, a negação, tudo é passado sem nenhum tipo de conveniência. Somos arremessados em um buraco desde a primeira cena e é assim que teremos que lidar até o final, reféns do impacto emocional de cada escolha podre. E o buraco parece ser mais do que profundo: geracional.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraO Pelé é a Fernanda Montenegro do futebol.
*Fernanda Torres
Victoria
3.8 254 Assista Agoraletterboxd.com/caioeshenriques
Sob o lugar de fala de quem, num passado não tão distante, poderia ser considerado um grande entusiasta da arte de emendar um rolé duvidoso no outro, garanto que “Victoria” consegue traduzir a premissa de seu subtítulo “One city. One night. One take.” de uma maneira tão vivaz que o seu plano sequência (de incríveis cento e trinta e oito minutos) se desprende do estigma de firula técnica e passa a ter importância crucial para amplificar a sensação de urgência e falta de controle dos personagens, como se fôssemos meros voyeurs nos deliciando com aquelas quedas livres emocionais em tempo real.
Sem um pingo de tédio do início ao fim, a tomada contínua, sem cortes, pincelando a crueza das ruas de Berlim, potencializa a nossa curiosidade/tensão a medida em que cada escolha duvidosa vai sendo tomada pelos personagens. Ainda que a protagonista possa parecer burra, sonsa e influenciável nos primeiros atos, a câmera reflete justamente a sua busca por conexão, estampando o estado de vulnerabilidade emocional causado pela solidão e ausência de perspectiva, causador máximo da sua entrega a situações perigosas em nome da necessidade de se sentir viva e conectada a alguma coisa, mesmo que de maneira efêmera, caótica, irresponsável, imoral ou fora do status quo.
Não à toa, a jornada da personagem principal, calcada na busca por migalhas de afeto, toma forma em uma madrugada intensamente bizarra e, até certo ponto, divertidíssima, mas parece fadada ao retorno a um estado quase que inevitável de solidão, reforçando a ideia de que, por mais que seja possível mergulhar em momentos inesquecíveis de adrenalina e preenchimento de vazio existencial, a ruptura com certas angústias e circunstâncias acaba sendo de uma complexidade incomensurável, mas não precisamos nos culpar por isso.
A ausência de desfechos claros e reconfortantes ou mesmo a omissão de certas respostas que podem ser projetadas durante o filme, mantém essa sensação de circularidade muito elevada, tornando a trama ainda mais visceral, já que traduz muito bem a complexidade nua da vida real, principalmente naqueles momentos em que nos tornamos “espectadores de nós mesmos”, sem qualquer garantia de resolução.
E, no fim, a vida costuma ser assim mesmo para alguns: sem redenção ou propósito. Sem lar. Que nem no início.
Justiça (1ª Temporada)
4.3 330O ponto de unanimidade nessa série é a trilha sonora maravilhosa:
1. Acabou Chorare - Novos Baianos
2. After Life - Arcade Fire
3. Amor Perfeito - Roberto Carlos
4. O Bobo - Cícero
5. Cama e Mesa - Roberto Carlos
6. Chão de Giz - Zé Ramalho
7. A Cidade - Chico Science & Nação Zumbi
8. Crua - Otto
9. Dona da Minha Cabeça - Geraldo Azevedo
10. Gente Aberta - Erasmo Carlos
11. Hallelujah - Rufus Wainwright
12. Hoje, Amanhã e Depois - Nação Zumbi
13. Meu Esquema - Mundo Livre S/A
14. O Que Será (A Flor da Pele) - Milton Nascimento & Chico Buarque
15. Pedaço de Mim - Zizi Possi & Chico Buarque
16. Pense em Mim - Johnny Hooker & Eduardo Queiroz
17. Revelação - Fagner
18. Risoflora - Elba Ramalho
19. Último Romance - Los Hermanos
20. Vamos Fugir - Gilberto Gil
21. Você Ainda Pensa? - Johnny Hooker
O Rio do Desejo
3.4 55Ainda que o roteiro fomente a sugestão óbvia de que o romance será o carro-chefe, a trama se desentrelaça entre um drama bem atuado e uma espécie de suspense implícito nas nossas próprias expectativas, equilibrando o espectador entre as nuances daquele vulcão de desejos erupcionados (?) em tela e as suas possíveis consequências em um mundo real repleto de inconveniências.
A intensidade sensual do filme ganha um charme bastante original ao se entrelaçar com a exuberância da geografia amazônica, criando paralelos muito maiores do que uma simples alegoria ilustrativa. A constante beleza natural da fotografia, alternando entre a mata densa e, sobretudo, à vazão sufocante das águas extensas do Amazonas, servem de canhão para projetar a força da presença de Anaíra e potencializar o seu impacto sobre os três irmãos.
Quase como uma armadilha, “O Rio do Desejo” retrata de uma maneira muito singular o caráter incontrolável da mistura heterogênea entre amor e desejo, mesmo que os clichês impeçam o filme de alcançar um grau de maior complexidade, muito por conta da maneira como o personagem “Dalmo” foi exposto em tela, beirando o mau gosto por inúmeras vezes.
(e não me refiro à cena de autoflagelo).
Enfim, um belo filme que poderia ser, ao meu ver, uma obra ainda mais especial, não fossem os desajustes entre texto e mise-en-scène. Me peguei lembrando de "Cidade Baixa" (2005) por diversas vezes, antes mesmo de descobrir que Sérgio Machado dirigiu ambos os filmes. Tá explicado!
O Mundo Depois de Nós
3.2 990 Assista AgoraÉ tão chato, mas tão chato, que eu preferia ter assistindo a um episódio de Friends.
Isabella: O Caso Nardoni
3.1 144Não é segredo pra absolutamente ninguém que a curiosidade em torno do que choca e o interesse pelas profundezas da mente humana, acaba transformando as angústias e os conflitos do processo penal em uma ferramenta extremamente sedutora quando o assunto é o engajamento popular, seja na porta do tribunal ou de frente pra Netflix.
Ora bolas, então por quê não revisitarmos um dos crimes mais chocantes do nosso passado recente, reciclando os tradicionais elementos de espetacularização do papel de juízes, promotores, delegados e advogados, super aproveitando essa eterna fonte de entretenimento chamada Isabella Nardoni?
Se "True Crime" é gênero, comer carne revirada e monetizar de tempos em tempos são os ossos do ofício... Não sejamos hipócritas...
Pois bem. Estendendo o comentário para um contexto estritamente audiovisual, o "documentário" se demonstra mais preguiçoso do que o próprio promotor do caso, se recusando a trazer novos elementos à tela, promovendo a dúvida de uma maneira extremamente simplista, omitindo uma série de informações reveladas em inúmeras outras obras (vide "Investigação Criminal", de 2012), se debruçando na já tradicional "rinha de operadores do Direito", enquanto destila ~mea culpa~ através de meias verdades confrontantes.
"Isabella: O Caso Nardoni" estreou na Netflix com o pretexto perfeito para chocar novamente, refrescar a curiosidade das pessoas e tentar desmontar alguns estereótipos criados em torno de um julgamento que entrou no imaginário do público a ponto de fazer com que quase todo mundo se interessasse pelo seu desfecho.
Acontece que nem pra fazer uma minissérie montada em três ou quatro episódios, mesmo que contextualizando apenas a evolução gradual do caso, a plataforma serviu, entregando um serviço porco, raso, clichê e absolutamente desinteressante.
Ou seja, exatamente o que eu esperava: sensacionalismo barato.
Até mesmo a chance de dar mais voz a uma mãe que perdeu a sua filha tão precocemente, de uma das maneiras mais inacreditáveis da história do país, foi jogada no lixo, já que a edição claramente estava mais interessada em revisitar o caos causado pela imprensa e projetar aquela reconstituição em 3d esdrúxula que mais parece ter atrapalhado do que ajudado no desfecho do julgamento.
Tudo o que envolve esse caso é de uma tristeza sem fim...
Os Outros (1ª Temporada)
4.0 282Com todo respeito a ~legião de fãs~ aqui presentes, separei os 20 momentos em que eu quase desmaiei de tanta vergonha alheia com a série "Os Outros".
Thread disponibilizada com os frames das cenas via @caioeshenriques no Twitter.
Alguém precisava te dizer a verdade! Contém spoilers:
1) MARCINHO GAMER
Com menos de 10 minutos, somos apresentados a versão teen do pitboy de condomínio. Entre aulas de judô e brigas despropositadas, o fascínio de Rogério pelos ~jogos violentos~ surge como a cereja do bolo na construção do primeiro personagem detestável da série. Ladainha de tiozão.
2) SÉRGIO INSTRUTOR DE TIRO
No segundo episódio, Cibele, que havia comprado (por impulso) uma arma de seu vizinho miliciano para "proteger" a sua família, surge praticando tiros junto a Sérgio enquanto ele sussurra palavras de motivação e "tira uma casquinha" da pobre mãe desamparada. Sexualização péssima.
3) AMÂNCIO DAS CASAS BAHIA
Chegando ao tragicômico terceiro episódio, é possível identificar o interesse de Amâncio, o bundão, em Mila, a vulnerável, mas fascinante mesmo é a percepção de que um vendedor das Casas Bahia tem passe livre no trabalho e consegue manter a sua família num condomínio na Barra.
4) TIRO ACIDENTAL
Mas como o dramalhão não pode parar, que tal o teen que sofre bullying furtar a arma da mãe, pra ameaçar o bullynador, enquanto o seu pai inicia um caso extraconjugal com a genitora do valentão? O tiro acidental acabou sendo igualmente previsível e constrangedor. Uma salada só.
5) CASOS DE FAMÍLIA
A essa altura, comecei a achar que a aceitação da série e a chuva de elogios tivesse calcada em seu caráter satírico. A cena da "audiência de conciliação" entre as famílias, orquestrada pelo vizinho miliciano, só poderia ser uma espécie de piada velada.. Impossível levar a sério.
6) ESPELHO ÍNTIMO
Pausa dramática para a cena do "encontro com o feminino" que dispensa maiores comentários. Estética de gosto, no mínimo, duvidosíssimo. Coitada da Mila.
7) COBRANÇA PÓS TRAIÇÃO/ESTUPRO
Superada a cena final do episódio 4, em que a direção opta por apelar ao invés de transmitir uma sugestão mais inteligente, chegamos a um dos piores diálogos da trama. A postura patética de Amâncio é tão pouco crível que a aversão pelo personagem se volta contra a obra. Tosco!
8) XIXI NA PIZZA
Nesse momento aqui eu me contorci de tanta vergonha alheia que também aproveitei pra tirar a água do joelho. Era o melhor a se fazer.
9) RIVAIS NO COUNTER-STRIKE
Instantes depois, chegamos ao tão sonhado encontro de titãs entre Marcinho e Rogério. Como criatividade é o que não falta em tela, que tal uma partidinha de algum jogo de tiro enquanto as mães de família buscam uma conciliação pra lá de forçada? Patético do patético.
10) TATUAGEM DE BANDIDO
Nesse frame aqui eu só registro em ata a minha boladeza. Estigmatização de tatuagem em julho de 2023? Faça-me o favor...
11) PRIMEIRO BASEADO
Confesso que no episódio 6, exatamente na metade da série, o ritmo melhora e a familiarização com a infinidade de subtramas nos leva a focar no desenvolvimento dos atos, mas essa cena do primeiro baseado... Minha nossa senhora... O que foi que esse menino fumou?
12) FLAGRA NA VARANDA
Já essa cena aqui, que embora tenha funcionado como um dos gatilhos mais eficazes de toda a temporada, é projetada de uma maneira tão caricata que acaba contaminando todo o restante do episódio com aquela clássica sensação de "ah, não me diga, Wando". No limite do óbvio.
13) CACHORRO VAMPIRO
Confesso que o Lulu da Pomerânia tomando suco de groselha causou uma vergonha boa. Uma coisa meio tarantinesca. Ri genuinamente.
14) CACHORRO NO VENTILADOR
E mal sabia ele que o feitiço iria virar contra o feiticeiro...
15) DELEGADO RENDIDO
Nos instantes finais do 8º episódio, ainda restou tempo para nos deliciarmos com um adolescente desarmando um delegado de polícia, dentro de uma unidade repleta de agentes, sem que um mísero disparo fosse efetuado. Fiquemos com a esperança de que a vida realmente imite a arte...
16) MC MARCINHO
Confesso que não sei se cochilei em algum momento, mas quando Marcinho surgiu, absolutamente do nada, trajado de "MC Vergonha Alheia" e prontinho pra arrebentar no ~baile barrense~ com seu batom vermelho, eu perdi de vez as esperanças. Qualquer coisa poderia acontecer.
17) GLORY HOLE
No antepenúltimo episódio, o clímax do constrangimento ficou por conta de um "glory hole" de dedos, na vez de Cibele se reconectar com a sua feminilidade. Mais um momento bastante exótico.
18) BOLSA DE MILHÕES
Na reta final, Rogério se revelou o adolescente menos curioso da história da humanidade e acabou, de uma vez por todas, com o resquício de paciência deste espectador.
19) ASSALTO EMO
Mas ainda haveria tempo pra que integrantes da banda Simple Plan roubassem algo em torno de quarenta mil reais de Lorraine e Marcinho (que estavam armados) numa passarela do subúrbio carioca.
20) O MILAGRE
Por fim, o GRANDE PLOT, mastigado até o último milésimo de segundo, cuspido pra prender o grande público em mais alguns meses de espera até o lançamento da segunda temporada. Suco da preguiça.
Concorda comigo?
Emboscada
3.2 28 Assista AgoraPrimeiramente, que alguém dê um pescotapa no zé ruela que traduziu esse título para "Emboscada". Se a ideia era sintetizar o "La Bella Gente" original em um substantivo feminino qualquer, que batizassem a obra de "Hipocrisia" ou qualquer merda parecida.
No mais, embora o filminho seja meio cansado e a evolução do roteiro não empolgue tanto em diversos momentos, o recorte de tantas caricaturas que compõem uma parcela bem significativa da minha bolha me agradou. São elas:
A coroa gata ~white savior~ que só consegue se saciar enquanto tem o seu ego caridoso debruçado em alguma filantropia impulsiva;
O coroa progressista e gente boa que não tem coragem e personalidade suficientes para deixar de ceder o tempo inteiro;
O protótipo de playboy infiel, com currículo preenchido no exterior e look alternativo, que consegue se travestir de bonzinho até transar com a gata da vez;
O casal de primos ricos, mesquinhos, xenófobos e preconceituosos, que sequer tentam disfarçar o seu horror ao que está de fora da sua "classe".
Em meio a essa salada, a protagonista, sequestrada num lar com tão pouca dignidade, se vê obrigada a retomar o seu passado de dor, na expectativa de que algum resquício de ar livre seja novamente inalado.
A sensação foi de que a Nadja achou melhor viver como uma puta livre do que subservir aquela ~bela gente~ escrota e hipócrita.
E está certíssima.
E Sua Mãe Também
4.0 539 Assista AgoraO que, sem sombra de dúvidas, eleva o patamar de "Y Tu Mamá También", é a falsa sensação de que o filme não vai ultrapassar a barreira de um road movie clichê e pseudo-tesudo, até se provar um filme que faz ode ao pessimismo, sendo concluído numa linha diametralmente oposta.
Embora o roteiro finja se construir em cima desse nhenhenhem de carpe diem, como se fosse possível tacar o foda-se para viver se deliciando com as diferentes etapas da vida, os últimos minutos pulverizam essa abobrinha e nos saciam com a invalidação do apelo projetado, escancarando, justamente, os nossos cercadinhos.
Mais do que as fodas desprotegidas e as dezenas de tragos compartilhados, a obra não se sustenta num mero retrato de aventura e liberdade, mas sim da realidade. Não à toa, a viagem que se apresenta como o início para eles, também se revela como um final para ela.
E como é inegável a beleza presente no impulso, as masturbações, as discussões infantilizadas, os diálogos sexuais, as lágrimas compulsivas e, principalmente, a maneira como cada um se mostra inapto para lidar com o seu oceano de sentimentos, agregam valor a ideia de que "la vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar".
Somos mares intensos, infinitos e extremamente complexos.
Metal Lords
3.5 313 Assista AgoraMetal é compromisso!
Melhor Trilha Sonora desde "Escola do Rock".
Teria cancha para ser exaustivamente reprisado na "Sessão da Tarde" se o gosto musical dessa geração não fosse tão pouco apurado.
Legalzinho demais!
Power Rangers: Agora e Sempre
3.0 124 Assista AgoraUm filme perfeito no propósito de reiterar que algumas lembranças precisam ficar guardadas no fundo do baú, sem que deixemos elas saírem de lá, sob o risco de estragarmos uma bela memória afetiva.
O Céu de Suely
3.9 484 Assista AgoraSpoiler:
Até a última cena, eu estava decidido a avaliar o filme com 3 estrelas. Vi a moto voltando. Temi pela ocupação da garupa. Pensei em dar 2 estrelas em face de um desfecho tão borracha fraca. Não tinha ninguém na garupa. Ufa!!! 3,5 estrelas pela potência do alívio. Às vezes a única solução é sair em busca de si. O efeito de um "amor" em forma de bengala dura menos que o de um paracetamol genérico. Precisar partir é muito mais forte do que precisar ficar. A vida tende a mostrar que a banda toca assim... Um filme singelo, de estética apurada e bastante reflexão. Cinema Nacional <3
As Vantagens de Ser Invisível
4.2 6,9K Assista Agora"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme sensível, sincero, que consegue se desprender dos clichês para fortalecer a simbiose entre os três personagens principais, sendo capaz de nos afastar de estereótipos e fortalecer a sua narrativa bem construída, embora opte por não desembaralhar muito bem algumas questões de abuso infantil.
Imagino que assistir a esse filme lá no fim de 2012, justamente no meu primeiro ano de faculdade, teria produzido algumas sensações mais latentes, potencializando o "se sentir infinito" com relação as perspectivas de futuro. No entanto, esse "afastar" do tempo me permitiu enxergar as várias facetas da juventude de um lugar diferente, meio silencioso. Uma espécie de nostalgia despropositada.
Sabe aquela história de que a vida não é boa e nem má, apenas os dois ao mesmo tempo?! Então, o filme me levou para esse lugar, como quando colocamos a cabeça no travesseiro após um dia bem vivido: tendo plena consciência de um emaranhado de situações merdas nas quais estamos inseridos, mas ainda insistindo na ideia de que amanhã há de ser outro dia.
Como adolescente bobalhão e fã de "American Pie" que fui, fico aguardando por uma reunion do elenco, daqui a uns vinte anos, com todo mundo gordo, calvo, aposentado e divorciado, refletindo sobre os ~dias de luta dias de glória~ de outrora, com direito a passeio pelo túnel e novas juras de amor incumpríveis.
É pedir demais?
O Hospedeiro
3.6 560Bong Joon-ho transforma um lagartão comedor de gente num belo condutor de dramas familiares, medo, ansiedade, frustação, esperança, lealdade, direcionando a nossa atenção para uma família desleixadona e disfuncional, enquanto esmurra o ocidente através de críticas muito bem fundamentadas.
A cena do protagonista implorando para se fazer ouvido pelo laboratorista americano, por exemplo, se reproduz como uma alegoria à relação do cinema não-ocidental e a incapacidade dessa indústria ser verdadeiramente consumida para além de seu raio.
Não à toa, o próprio diretor do filme é um dos maiores, senão o maior, responsável por essa ruptura, ao varrer o Oscar 2019 com o apogeu de "Parasita".
As mudanças de tom estranhas e aleatórias, flertando entre o chocante e o hilariante, também são marcas registradas que muito me agradam. Alguns frames frios também são muito bem inseridosdurante esses momentos de transição.
A distância de 2023 para 2006, ano do lançamento de "O Hospedeiro", foi o meu maior desafio no processo de digestão...
Há 17 anos, certamente eu teria considerado um filme muito acima da média. Em maio de 2023, eu consigo compreender o seu valor, mas seria forçado dizer que a experiência me gerou tanto impacto, depois de já ter consumido tanta coisa mais evoluída no gênero.
No fim das contas, são duas horas que valem muito como estudo da obra desse gênio coreano!
Triângulo da Tristeza
3.6 776 Assista AgoraNão acho que sobrecarregar um roteiro com dezenas de alegorias criticando a sociedade do espetáculo torne um filme bom. Até consegui distrair a minha cabeça brincando de pescar referências com a decadência da elite e a hipocrisia da classe média, mas achei zero genial. Overrated.
Guerra de Tapioca
3.7 10Curti demais assistir ao "Guerra da Tapioca" na TV aberta, no horário nobre da Globo, imediatamente após o campeão de audiência "Jogo da Discórdia" do Big Brother Brasil, ainda que isso só escancare a nossa inversão de prioridades, rs.
Embora eu desconhecesse o filme (tal qual a maioria dos atores envolvidos), a obra que é uma produção 100% cearense protagonizada por Samya de Lavor e inteiramente gravada em Fortaleza, me fisgou por acaso, ainda nos instantes iniciais, tamanho carisma da trilha forrozenta.
Dirigido por Luciana Vieira e Wislan Esmeraldo, os trinta minutos de tela revelam um texto irreverente e atuações bem envolventes que retratam a vida popular local. É arte independente, de pouco orçamento, produção tupiniquim e puro suco do Nordeste!
Em algumas camadas, me lembrei bastante da saudosa "A Grande Família". A propósito, eu zero me incomodaria de assistir a algum tipo de continuação da trama em formato de minissérie... Fica a dica.
A vingança é uma tapioca que se come fria!
A Baleia
4.0 1,2K Assista AgoraAinda que Aronofsky não encabece a minha lista de diretores favoritos, é inegável a sua imensa habilidade de penetrar no íntimo dos personagens destrinchados em tela, escancarando suas obsessões e tragédias pessoais, sem a realização de muitas concessões aparentes. Foi assim em "Requiem for a Dream", foi assim em "Black Swan", foi assim em "Mother!" e é assim em "The Whale".
Justamente por esse "foda-se" que o diretor faz questão de implementar como uma de suas características principais, que uma análise mais simplista da sua obra pode acabar gerando um efeito contrário no âmago de quem assiste, como se ele, de certo modo, buscasse menosprezar seus próprios personagens, utilizando-se de certa crueldade e mera reprodução de clichês para gerar entretenimento cult às custas de temáticas sensíveis.
Não posso concordar com isso...
Os diferentes tipos de dependência química dos personagens de "Réquiem para um Sonho", o perfeccionismo obsessivo da bailarina de "Cisne Negro" e as alegorias ocultas de "Mãe!", desta vez, tomaram a forma da obesidade mórbida munida pelos efeitos da depressão e da compulsão alimentar, temáticas tão atuais.
Os diferentes níveis de ódio e desprezo para com o protagonista, não se resumem a sua condição física. Embora o fato de o personagem ter obesidade mórbida seja importante para a trama, ela é apenas uma consequência de diferentes processos banhados em estágios profundos de tristeza.
Charlie chegou a um nível depressivo tão irreversível que ele come para se afogar e passa a olhar pro relógio em contagem regressiva. A divisão do roteiro em dias da semana gera exatamente essa sensação claustrofóbica.
Embora a minha namorada tenha comentado que a repulsa pelo personagem, assim como os seus trejeitos caricatos ao manejar e se deleitar com um balde de frango frito soe gordofóbico, não seria justamente essa a mera representação da gordofobia na obra?
Ora, senão temos a seguinte sequência narrativa: um casal incompatível gera uma menina revoltada com o distanciamento do pai, que encontrou em uma relação homoafetiva a sua grande paixão, mas perdeu o seu companheiro por conta da intolerância da igreja, entrando num estágio de luto profundo, até desenvolver uma trágica condição de compulsão alimentar e resignação com a morte iminente, momento no qual resolve "correr atrás do tempo perdido", ao menos por alguns instantes.
Agora me diga: como é que uma pessoa depressiva e solitária, com extrema dificuldade de locomoção, pesando mais de duzentos quilos e, literalmente, comendo para morrer, deveria ser retratada em tela?
Sentando-se à mesa em horários determinados, fazendo questão de seguir a etiqueta em suas refeições? Se alimentando com comidas não processadas, bem preparadas e ricas em nutrientes? Sem limpar a mãozona suja de gordura na camisa enquanto traveste a sua dor com quilos e mais quilos de fast food? Dando trinta e quatro mastigadas enquanto saboreia cada uma de suas coxas de frango?
Talvez essa tal gordofobia esteja mais enraizada nos olhos do espectador do que de fato nas nuances da trama em si...
Entendo que a contratação de um ator "supersize" pudesse amenizar esse tipo de discussão, mas trabalhemos com o que temos.
E o que também temos é um trabalho técnico impecável capaz de caracterizar o antigo "George o Rei da Floresta" em um personagem esteticamente impactante e ainda mais complexo internamente, credenciando Brendan Fraser à disputa e eventual conquista da cobiçada estatueta de Melhor Ator.
Essa complexidade é o que a primeira cena do filme busca mostrar, nos empurrando para dentro da telinha preta de uma câmera letárgica e atrelada a um laptop que mais parece ser o único respiro de um filme ambientado em uma única câmara, mas que não perde para a monotonia.
Agradeçam a Deus por eu não ter lido "Moby Dick".
Do contrário, eu poderia ficar por mais umas duas mil palavras falando abobrinhas por aqui.
Ah, e nada como um final nos brindando com o alívio de um protagonista que se divide entre otimismo e saída de cena como duas faces da mesma moeda. Não à toa, o único raio de sol que passa pelo buraco da porta daquele apartamento, em quase duas horas de filme, é praticamente na mesma hora de sair do cinema.
Todo Dia a Mesma Noite
4.0 286Com todo respeito, quem gostou dessa série deve ter parado de prestar atenção nela enquanto ia sendo consumido pelos mais profundos sentimentos de tristeza e inconformismo nutridos pela própria magnitude da tragédia em si.
Porque eu não sei o que foi pior...
O gauchês extremamente forçado, caminhando na linha tênue do "insuportável" com o "vergonha alheia"?
Os defeitos especiais à lá "Linha Direta"?
A evolução do roteiro que divide a obra esdruxulamente em "noite da tragédia" vs "tribunais infrutíferos", sem entregar mais nada?
A péssima tentativa de humanização de determinados personagens, sem que fôssemos suficientemente inseridos na vida pessoal de cada um deles?
Alguns diálogos mais rasos que uma poça de xixi?
O clamor por "justiça" empacotado por sentimentos clichês de apelo social e vingança jurídica?
As falsas simetrias e informações incongruentes sobre uma infinidade de contextos técnicos?
Achei essa produção um lixo!
Meus mais profundos sentimentos às famílias...
Nada de Novo no Front
4.0 640 Assista AgoraRigorosamente NADA DE NOVO.
Tudo em Todo O Lugar ao Mesmo Tempo
4.0 2,1K Assista AgoraSe encontrar o equilíbrio entre as nossas próprias escolhas pode acabar sendo uma tarefa enlouquecedora, esse filme serve de trampolim para algumas reflexões sobre o tal "sentido da existência humana", então nada mais justo do que navegarmos por tudo quanto é gênero ~ao mesmo tempo~.
É de ficar sem gps entre um contexto surrealista de ficção científica e os momentos de humor nonsense com pitadas de Bruce Lee e Jackie Chan. Um filme de Kung Fu que também é drama e romance, se utilizando de elementos do gore para ilustrar o suspense que a própria ansiedade das protagonistas já nos sugere.
Em meio ao caos, fica fácil degustar sabores diferentes e até mesmo perder a noção de qual é a linha central do roteiro, sem deixar de se compadecer com cada processo depreciativo escancarado em tela.
A abordagem "piroca das ideias" também é a chave para tornar o filme acessível para quem só está disposto a se distrair, se entreter, sem deixar de se valer da sua complexidade para atrair outro tipo de telespectador.
Em meio a infinitas possibilidades, arranjar maneiras de se entregar à "finitude" da vida para suportar os buracos em que nós mesmos nos enfiamos, surge como alternativa a uma saída de cena bebendo da fonte da depressão.
Um filme maluco, poderoso e de estética inovadora.
O Urso (1ª Temporada)
4.3 474Muito vem sendo falado sobre a sensibilidade dessa série, da sua qualidade acima da média em inúmeros aspectos, da potência dos personagens, do plano sequência inacreditável do penúltimo episódio, dos inúmeros abraços que os diálogos são capazes de nos dar, mas eu confesso que demorei horas tentando aceitar que o ator protagonista não se tratava de Rob Schneider, do filme ANIMAL (2001). Isso pode ter prejudicado a minha experiência.