Uma obra-prima do visionário Miloš Forman. Um país viciado em criar conflitos, diga-se de passagem, até hoje, obcecado por guerras e por seu poder militar. Das ruas vêm os gritos contra esse sistema ideal conservador, que sustenta os horrores do imperialismo americano. A forma como esses jovens propõem enfrentar a elite,desde seus penteados, passando por invadir festas de ricos até nadar pelados no lago, é uma referência que falta aos jovens de hoje.
Um jovem recruta, prestes a servir ao exército, conhece outros jovens hippies em uma cidade dos Estados Unidos e embarca em uma aventura louca e destemida. Toda a direção de "Hair" é estupenda, a forma como Forman filma os números musicais e engrandece as cenas, mesmo em planos mais fechados, é de bater palmas. As músicas são incríveis, com letras divertidas que misturam críticas e reflexões. Todo o elenco entra em uma química tão boa que até os coadjuvantes roubam a cena. O final? Tão atual e tão arrebatador. Talvez um dos maiores musicais já feitos.
A jovem Rosetta vive em um pequeno trailer, tem uma mãe alcoólatra, é uma pessoa impulsiva e acaba de ser demitida. É nesse contexto que a protagonista dos irmãos Dardenne vive, carregando prematuramente um enorme peso da vida, sendo uma sobrevivente em um mundo solitário e sem afeto. Obcecada por viver uma vida normal, Rosetta procura emprego por toda parte e, quando consegue, vai tentar mantê-lo custe o que custar. É nesse "vale-tudo" que se transforma sua vida tão desprovida de afeto, a ponto de ela acabar sendo extremamente cruel com o único rapaz que demonstra afeição por ela.
A vida, tão cruel com Rosetta, impede-a até mesmo de pôr um fim em tudo. E, em seu choro final, enquanto carrega um fardo enorme, mais uma vez cabe ao rapaz estender a mão.
Um grande vencedor da Palma de Ouro e do prêmio de Melhor Interpretação Feminina em Cannes.
A cena inicial de "Baby" me lembrou bastante uma estética do cinema europeu, com uma abertura mais estilizada, com a presença de um desfile musical acompanhado por tambores, saxofones e o amarelo das portas em cores vivas, enquanto Wellington é introduzido na história.
Wellington é um jovem que reencontra as ruas da capital paulista após cumprir pena por delitos que cometeu ainda menor de idade. Sem ter muito para onde ir, ele reencontra seus antigos amigos, que se divertem na noite das ruas de São Paulo. Ao decidirem ir a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo, figura central do que virá a ser uma complicada relação amorosa.
"Baby" é o amor que se revela de maneiras diferentes, que vem desse mundo invisível da sociedade. Isso é visto desde o início, no local onde nasce o interesse entre eles: um cinema que exibe filmes pornôs, um lugar de reprovação, frequentado por minorias e desejos marginalizados. A câmera de Marcelo Caetano quase sempre capta imagens de espelhos, que refletem a realidade dura daqueles lugares, dessa relação, e demonstram a dualidade que permeia todo o filme. O peso da realidade de Wellington, de ser um jovem LGBTQ+ invisível, contrasta com sua capacidade de conseguir ser feliz, assim como o amor de Ronaldo, que se divide entre inserir Wellington em uma profissão sexual e, ao mesmo tempo, ser tomado por um sentimento de cuidado por esse jovem.
Ronaldo chama Wellington de "Baby" como forma de repreendê-lo devido a uma atitude emocional considerada "infantil" que o jovem exibe após um episódio. A partir disso, Wellington se intitula assim. Chama-me a atenção a primeira cena em que Baby tira a roupa para Ronaldo e exibe um corpo cheio de pequenas cicatrizes. As cicatrizes de Wellington são uma metáfora para as dificuldades que marcam sua trajetória até ali. Um pouco depois, na cena do ônibus em que Ronaldo e Wellington conversam, é Ronaldo quem exibe uma cicatriz na perna, fruto de uma cirurgia, e diz: "Fim da linha, né?". Wellington responde: "É só uma cicatriz, não é nada não". A cicatriz que marca Ronaldo agora é o amor que desenvolveu por Baby, mesmo que questionável pelas atitudes, ele vem dessa São Paulo imperceptível, parte de um lugar onde se expressa e se desenvolve de maneira diferente do amor que conhecemos, mas é fiel aos espaços em que ganhou vida.
A cinebiografia de Bob Dylan, dirigida por James Mangold, é um filme que foge da jornada mítica do herói, geralmente adotada por esses tipos de filmes que são expressos em tons piegas e até vendidos como uma história meritocrática. Em oposição a isso, Mangold faz um trabalho que já executou muito bem em "Walk the Line", onde a força do seu personagem, aqui Bob Dylan, é apresentada como parte do processo de uma pessoa real e um talentoso artista. A ascensão de Dylan, inclusive, é ligada à participação de duas figuras femininas cruciais: enquanto a cantora estabelecida Joan Baez é o caminho pelo qual Bob se conecta a uma carreira de fama e consegue impor suas composições para gravadoras, seu lado político é aflorado pela entrada da jovem ativista Sylvie em sua vida, momento em que Dylan passa a escrever canções que traziam reflexões sobre o momento social da época, como a luta pelos direitos civis e a Guerra Fria.
Timothée Chalamet dá vida a esse Bob Dylan, ora uma figura reservada sobre o que viveu, ora um criador de letras impressionantes. Notável é o esforço de Chalamet com esse papel: suas aulas de canto, seu preparo que vai ganhando vida ali, e a personalidade do cantor, que se torna imprevisível. Por ser uma figura já tão presente no cinema, às vezes parece que enxergamos mais o ator do que o Dylan, mas provavelmente é só um detalhe. E, apesar disso, é a autenticidade que ficou mais marcante para mim entre as características apresentadas desse folkstar. Uma cena em particular mostra que Bob Dylan não era convencional, quando perguntado em um programa de televisão o que ele tocava, ele responde "eu toco um pouco de tudo". Essa é a introdução do que o cantor enfrentaria de resistência, um tanto conservadora, do público e da indústria do folk, com seu álbum influenciado pelo rock, "Highway 61 Revisited". Mas, se Dylan é um gênio de sua arte, como bem mostra a história, gênios não ficam presos a uma zona de conforto, nem são enjaulados em uma carreira de aprovações.
Mangold também encaixa as músicas em seus momentos certos, aqui não exatamente como um musical, mas como complemento à história. As cenas em que as músicas são cantadas estão sempre atreladas ao que acontece em cena ou ao que está por vir. Como quando o noticiário é bombardeado por manchetes sobre uma ameaça nuclear russa, e a canção "Masters of War" entra em cena na voz de Chalamet, ou mesmo quando, no ápice de sua raiva por ser desaprovado por suas canções elétricas durante um festival folk, a setlist é sequenciada por "Like a Rolling Stone", uma música sobre desilusão, transformação e autoconhecimento que marca a virada na carreira do cantor.
Destaque para a atenção dada à ambientação, que não se limita às imagens dos espaços que remetem à década de 1960, mas também ao contexto político daquela época: os movimentos de contracultura, o filme exibido no cinema, as citações a Bette Davis e o discurso histórico de John F. Kennedy na televisão americana sobre a crise dos mísseis em Cuba.
"1 -Atacar, atacar, atacar sempre" 2 - Negue tudo 3 - Aconteça o que acontecer, nunca admita uma derrota"
O longa-metragem de Ali Abbasi é um filme que evita cair nos clichês mais constantes desses tipos de filmes que representam figuras desprezíveis. A história, que é um recorte sobre a ascensão do magnata imobiliário e posterior presidente dos EUA, é contada de forma muito estruturada e fluida, sem exaltá-lo ou cair em um viés exagerado. Inclusive, me agrada como o filme consegue ser engraçado devido à egolatria da figura de Trump. Sebastian Stan dá um show; o desenvolvimento de seu personagem, de forma segura, começa por esse jovem ambicioso podado pela rigidez do pai, até conhecer Roy Cohn, um desprezível advogado. Dessa amizade nasce uma relação de criador e criatura. Roy é um trapaceiro, antiético, nacionalista e com a mente dominada pelo liberalismo, ele ensina passo a passo a Trump como ascender na vida, e basicamente é enganando e corrompendo instituições. A trajetória de Trump é de uma pessoa que vai se esvaziando de humanidade e vai sendo preenchida pelo dinheiro, poder e ego, muito ego. Pouco importa sua família, esposa, filhos, o lema é vencer e estampar seu nome pelos quatro cantos de Nova York. O principal ponto de rompimento de Trump com a sua humanidade é quando o conflito com Roy se estabelece, e o agora ex-mentor se assusta com a frieza de sua criação. Ora, se um homem desprezível como Roy Cohn se assusta com as ações de Trump, o que Trump se tornou? Roy, inclusive, é belissimamente interpretado por Mark Strong, é um homem complexo, que inicia imponente e vai ruindo, consumido por uma grave doença.
O trabalho de fotografia também merece destaque, assegurando essa ambientação oitentista do filme. Os flashes com vídeos gravados em câmeras analógicas ajudam no tom de nostalgia.
Entrega imagens fascinantes, todos os planos belíssimos, as paisagens, os closes. É, de fato, um dos filmes visualmente mais impressionantes, especialmente pela sua época. O tema sobre o limite da vida cansativa, de repetir os dias, dos problemas, segue sendo real. Certamente, no nosso imaginário, alguma vez houve o desejo de simplesmente se afastar para algum local distante de tudo que conhecemos.
Exercício metalinguístico, onde a arte é instrumento para revelar o que há de melhor em nós, nos salvar e ser a fuga em nossos períodos mais sombrios. O filme se comunica com o espectador muito mais pela personalidade e o texto de cada personagem, a ambientação e os espaços são pouco explorados, e alguns momentos remetem a um making of de peça de teatro. Colman Domingo é sublime, que ator incrível, mas não posso deixar de falar de Clarence Maclin, que me chamou muito a atenção, além de assinar o roteiro, entrega um show como ator.
Os temas que "Memórias de um Caracol" aborda são tão complexos e atuais, como a homofobia, a hipocrisia religiosa e o bullying, tratando-os de forma direta, mas sem perder suas características cômicas.
A jornada da menina caracol que se vê diferente do mundo e vai amadurecendo com as mazelas da vida é comovente e delicada. Um filme feito com muito carinho, que fala sobre descoberta, reencontro e, principalmente, libertação. Lindo, lindo!
- "Tem umas coisas que não tem muito haver com a história, uns crimes, uns lugares sujos, mas os negócio das amigas é parecido" - "É nacional?" - "É"
O filme de Bressane, não ironicamente, foi lançado em 1969, quando o Brasil já vivia sob o regime do AI-5 e, mais tarde, teria como "presidente" o general Emílio Garrastazu Médici, homem que consolidou os chamados "anos de chumbo", conhecidos como o período mais duro da ditadura militar. Em "Matou a Família e Foi ao Cinema", a violência é a real protagonista desse média-metragem tão impactante. É perceptível a agonia do diretor em filmar, é como se a câmera e a montagem também estivessem a serviço dessa violência crua e banal. Parece que cada ação sangrenta é resolutiva para quem a pratica, mas as motivações têm origens cotidianas.
As imagens se misturam, ora reais, ora talvez fruto de um imaginário do próprio cinema. Quando a garota fala do filme "Nacional", as cenas seguintes são exatamente aquelas, executadas de forma espetacular.
A obra de Bressane, que parece quebrar a lógica da forma ou as regras de filmar, é uma denúncia por meio da arte, refletindo o período em que se vivia na época. É como se a política fosse aerossóis que não saem do ar, mas não enxergamos a olho nu, ainda que pulse na violência, na ironia, no caos, no afrontamento que tudo ali é.
O final disco arranha, enquanto Roberto Carlos cantava "Eu fico triste em pensar em te perder, em te perder, em te perder...". Acho que, naquela época, tínhamos medo de perder muita coisa, até mesmo o cinema.
Bigelow é ótima em tudo que faz mesmo, altera aqui entre o atmosférico e a violência gráfica. Sempre segura, tem referências mas é cheio de características do seu cinema.
Produção norte-americana e brasileira, "Kiss of the Spider Woman" é filmado em São Paulo e repleto de atores brasileiros, mas todo falado em inglês. A produção tem uma forte estética americanizada, sendo perceptível uma inspiração na Era de Ouro de Hollywood nas partes oníricas em que Molina narra seus filmes.
O romance ganha peso no que inicialmente parecia um filme de tom político. Molina é um homem gay que passa a dividir a cela com Valentin, um preso político da ditadura. Valentin é um homem grosseiro e focado em seus ideais revolucionários, enquanto Molina é delicado e sonha acordado, narrando filmes sobre amores impossíveis. Dessa divergência de personalidades, nasce uma amizade que vai florescendo em amor e carinho.
William Hurt, em uma interpretação gigantesca, demonstra uma capacidade dramática ímpar ao dar vida a esse homem carente e sonhador, garantindo um Oscar muito merecido. Sônia Braga dá charme com suas várias personagens, que ganham vida sob as histórias que Molina conta. A trilha sonora também é encantadora e mira o cinema norte-americano, chegando a lembrar, no final, as músicas de tensão características do cinema do mestre John Carpenter.
O "Brutalista", vencedor de melhor direção em Veneza e subsequentemente postulante ao Oscar de melhor filme, é uma obra dividida em três partes, frente às suas 3h35 de duração, técnica usada para confortar os espectadores menos acostumados a longas-metragens de maior duração.
A cinebiografia fictícia de Brady Corbet aborda temas como imigração, xenofobia, racismo e exploração de trabalho como eixos centrais, sob a trajetória de um arquiteto húngaro, muito bem interpretado por Adrien Brody. *O Brutalista* tem uma direção marcada pela grandiosidade: as imagens são sempre captadas numa visão monumental, com longos planos abertos, paralelos, de cima para baixo, de baixo para cima. Tudo com a intenção de transmitir a ideia de que tudo ali é fabuloso, acompanhado de uma trilha sonora que reforça e intensifica a sensação de esplendor. Essa câmera obsessiva permeia todos os atos do filme e soa presunçosa, mirando claramente em um "Oscarbait".
No entanto, há uma divergência entre a forma e o conteúdo: enquanto tudo que é mostrado é grandioso e volumoso, as ideias que o filme apresenta são mais suaves, neutras, e me deram uma sensação de incompletude e subdesenvolvimento. Os personagens parecem não se revelar por completo, mesmo quando há tempo hábil para isso, e as relações entre eles parecem fragmentadas, provocando certa estranheza.
"O Brutalista" rende imagens belíssimas com sua fotografia impressionante, entre o preto do carvão e o cinza do concreto, captados de forma emoldurada, que renderiam muitos quadros de parede. No entanto, não considero isso suficiente para uma experiência cinematográfica completa.
Definitivamente, não gostei do epílogo que encerra o filme. Enquanto Corbet tenta ser grandioso a todo momento, é no ato final que ele se torna menor, despedindo-se do espectador com um encerramento embaraçoso, extremamente expositivo e preguiçoso
Apesar de "Kids" ser considerado um filme chocante, acho que a forma fluída na qual é filmado me causou menos impacto do que eu esperava. "Kids" é um filme muito mais organizado do que o posterior "Bully", do diretor Larry Clark. Aqui, o roteiro de Harmony Korine está concentrado no cotidiano de jovens meninos e meninas. Para minha surpresa, "Kids" é um filme sagaz e de forma muito espontânea. Ele abre seus minutos iniciais com um close em um quarto, onde o jovem Telly convence, de forma aparentemente romântica, uma menina a ter relações sexuais com ele. À primeira vista, dá para pensar que se trata de um momento amoroso, mas logo em seguida somos apresentados a um jovem malandro, dissimulado e cujo único interesse é o sexo.
Acho interessante como o filme mostra o sexo para ambos os gêneros: na perspectiva masculina, o sexo como fonte de afirmação, poder e de se mostrar grandioso para os amigos; na visão feminina, o desejo, as descobertas, o compartilhamento de experiências entre meninas e os cuidados. O filme ainda brinca com a forma machista como os homens veem a virgindade, enquanto Telly fala que é algo marcante para qualquer mulher e, por isso, ele precisa ser sempre o primeiro, na cena seguinte, as meninas conversam entre si, falando que suas primeiras experiências sexuais foram esquecíveis.
A parte mais sombria do filme vem quando um diagnóstico de HIV positivo é revelado a uma das garotas. Em desespero pela notícia, ela busca o garoto que possivelmente a transmitiu. Clark busca mostrar o resultado do excesso da juventude, as irresponsabilidades que permeiam uma vida focada em sexo, drogas e curtição. Como a vida não é só isso, cada escolha deles tem um preço a ser pago, e em "Kids* as consequências para todos são muito, muito altas.
Conversa muito bem com todos nós pela forma como conduz as relações amorosas, com muito humor.
Gaspard chega a um balneário francês movido pelo desejo de encontrar Lena, sua suposta namorada. Como Lena não aparece, ele acaba desenvolvendo uma amizade sincera e divertida com Margot. Mas, em seu caminho, também aparece a destemida Solène, por quem se sente completamente atraído. Quando Lena finalmente aparece, a vida de Gaspard vira de cabeça para baixo, principalmente porque nosso protagonista tende a não se opor ao que as moças propõem, complicando ainda mais sua situação. Rohmer destaca muito as trocas de ideias entre os personagens, o texto potencializa o desenvolvimento das relações entre as três garotas e o rapaz, e tudo isso de forma muito simpática. É bonito como existe uma sutileza, principalmente na relação dele com Margot, onde Gaspard é visto de diversas maneiras diferentes: atrapalhado, cínico, romântico.
Do jeito que se inicia, se termina, mas com sentimentos diferentes, para Gaspard e para nós.
O Rio de Janeiro e os primeiros flertes com esquema de milícias. Lúcio Flávio não é herói, nem mocinho, não tem jornada que busca redenção, ele é mais uma peça de um esquema de corrupção que interliga as forças de segurança e a bandidagem. E como esse sistema que age paralelamente às instituições se movimenta para se manter vivo, pois ele ganha poder, influência e dinheiro de todos os lados, utiliza os bandidos para benefícios próprios, manipula a opinião pública sobre o que está acontecendo e executa os aliados que já não têm mais proveito.
O título do filme, que carrega consigo "Sociedade Anônima", também conhecido pela sigla S.A., utilizada no final da razão social de várias empresas, é a definição para corporações com fins lucrativos divididas em ações. Ele sinaliza o que compõe o coração da capital paulista, tanto da época quanto daquela que vemos crescer ao longo das décadas. É nessa São Paulo movida pelo capitalismo que Carlos está inserido, e Person nos mostra como o indivíduo pode ser sugado mental e fisicamente pelo cotidiano da cidade. Carlos é um homem comum, que começa aos poucos sua vida no mercado de trabalho e vai ascendendo até se tornar gerente de uma montadora de automóveis. Ao longo do caminho, ele faz escolhas que remetem à vida protocolar do homem bem-sucedido: trabalhar, casar, ter filhos e ser o chefe do lar. Gradualmente, a vida de Carlos é guiada por uma rotina frenética e exaustiva, enquanto ele ainda lida com os sentimentos decorrentes de suas escolhas, as mulheres que passaram por sua vida e os pensamentos existenciais que cada figura parece provocar nele. É daí que sentimos o desgaste que a cidade provoca no homem, agora cheio de responsabilidades.
A São Paulo que é vista como uma terra de oportunidades é exposta como uma máquina de destruir os mais vulneráveis, em um amplo sistema de exploração do trabalho.
Não posso deixar de mencionar a aula de decupagem que Person nos oferece aqui. Os movimentos de câmera e os planos são muito bem estabelecidos, e o início, que é também o final, demonstra um controle absurdo sobre o que está sendo feito. A modulação do roteiro, que trabalha o tempo em perspectivas diferentes e depois as conecta, é realmente impressionante.
Uma ficção científica distópica, um pouco irregular em sequenciar sua história, acaba sendo um filme menos robusto do que poderia ser.
Acontece que o material de base parece muito interessante. A história começa com um tom de mistério sobre o assassinato de um rico empresário em um mundo assolado por desigualdades e problemas sociais institucionalizados. O filme parece focar muito na postura do personagem central de Charlton Heston, como se tentasse desenvolver nele uma figura masculina típica do cinema hollywoodiano: o policial sexy, agressivo e ético. Isso às vezes dá a sensação de que o texto fica um pouco de lado para valorizar a construção do protagonista. O resultado é um final meio apressado, como se o tempo corresse para nos mostrar o grande mistério, que é revelado, mas acaba sendo explorado de forma efêmera.
A ambientação tem algo que parece inspirar posteriores sucessos dos anos 80, como "Blade Runner" e "De Volta para o Futuro".
Greice é malandra, cínica, mentirosa, mas extremamente carismática, e é assim que Leonardo leva sua personagem entre suas empreitadas em Portugal e o regresso ao Brasil. Apesar de agir de maneira duvidosa com todo mundo que a rodeia, Greice é isenta de maldade; é como se suas atitudes fossem fruto da sustentação de seus sonhos em uma mente livre e que anseia por descobertas. Tudo isso deixa as armações da nossa protagonista quase que inocentes. A parte em Portugal parece mais apática, neutra, e o filme ganha charme mesmo quando tudo começa a acontecer em Fortaleza, e vão surgindo mais personagens que abrilhantam a temática, como o recepcionista Enrique e a prima Márcia
Um melodrama cheio de autocríticas à postura do Japão na guerra, Kurosawa tira o rótulo de um país somente como vítima e mostra os horrores também praticados pelos japoneses durante o conflito.
Tudo começa com um possível espião que leva informações aos aliados. A partir daí, Kurosawa vai, aos poucos, desvendando o mistério que paira nas dúvidas da esposa de Yasuka (o suposto espião). Ela embarca em uma busca pela verdade, mas guiada pelo sentimento de salvar seu casamento, que está muito além de qualquer causa.
Kurosawa não deixa claro se Yasuka agiu de fato para salvar Yu Aoi ou se a intenção foi realmente resguardar seus planos políticos. E é isso que torna a trama ainda mais interessante, nesse misto de inteligência e/ou ato de amor.
O plano aberto na cena final é um primor e mostra por que Kurosawa é tão magistral.
"Talvez os dias fiquem mais longos, agora que estou sozinho"
Ozu conta com delicadeza essa história, tal qual pintar um quadro com pincéis finos, utilizando de forma muito sutil para mostrar as frias relações de uma família tradicional japonesa no pós-guerra.
Dois idosos partem para Tóquio para visitar filhos e netos. Ambos estão bastante longe da capital do Japão e enfrentam uma cansativa viagem de trem. Acredito que esse seja o primeiro sinal da forma como os filhos, agora adultos, encaram a importância de seus pais: é o velho casal que precisa se movimentar em busca de rever sua família. Daí pra frente, vai se empilhando cena após cena a personalidade de cada filho, que age de maneira indiferente aos pais, enquanto o pai e a mãe parecem entender as motivações por trás disso.
A sequência em que uma das filhas, a que já vive com o casal há muito tempo, questiona a atitude dos demais, e a personagem Noriko justifica que não são atitudes pensadas para o mal, e sim um processo natural de separação entre pais e filhos. É daqui que talvez saia o maior peso de "Tokyo Story", apesar de toda a construção da relação agora superficial entre eles, tudo é fruto de um ciclo natural da vida, onde crescemos e passamos a olhar mais para nós mesmos de forma egoísta. Mas a situação que é o presente dos pais é também o futuro para os filhos.
No final, o carinho daqueles que não são do nosso sangue, a melancolia e a solidão de envelhecer.
Abel Ferrara falando sobre vício em drogas e álcool, mas numa perspectiva vampiresca. A estética com a fotografia preto e branco e as ruas de Nova York dão ainda mais esse tom sombrio, melancólico que agoniza a protagonista.
Na linguagem o filme passeia bastante pelo campo filosófico para dissecar as motivações pelo vício, mapeando autoconhecimento e autocontrole, sem esquecer dos altos e baixos que é a vida de quem luta contra o vício.
Um retrato sobre o cotidiano do trabalhador brasileiro, nessa jornada *road trip movie* da trajetória de Cristiano. Esse trabalhador que vai percorrendo cidades, histórias, amores e indo de emprego em emprego pela busca de crescimento e, claro, sobrevivência. E é isso que sobra pra Cristiano: a reflexão de que é apenas mais uma peça descartável desse sistema que gira com o único intuito de fazer mais e mais dinheiro. É um retrato amargo sob a frágil teoria da meritocracia.
É um longa que vai nos carregando para essa dor, porque enxergamos essa realidade no dia a dia do nosso país. Mas a narração de Aristides de Sousa vai encontrando um tom poético, e o filme se despede de nós de forma arrebatadora.
Leone refilmando "Yojimbo", clássico japonês de Akira Kurosawa, o original já carregava uma estética muito parecida com o Western. A diferença é que em "Por um Punhado de Dólares" saem os samurais com espadas e entram os cowboys pistoleiros. Leone é muito seguro e filma com muito virtuosismo, e como ele dominava muito bem seu gênero, o filme consegue ser ainda mais intenso em trazer ao espectador os sentimentos de raiva, revolta e vingança. Todos esses sentimentos calculados pelo diretor caem perfeitamente bem para o personagem de Clint Eastwood executá-los por nós, e que homem, meus amigos!
Baseado no romance de Colson Whitehead, ganhador do Prêmio Pulitzer, "The Nickel Boys" segue dois adolescentes negros em um reformatório nos EUA, sob um estado racista e cruel. O principal recurso adotado durante todo o filme é o uso da câmera subjetiva pela perspectiva de Elwood. Essa abordagem faz com que o espectador veja tudo sob os olhos de El, e só venha a conhecer seu rosto com a chegada de Turner, quando a câmera passa a existir também por sua visão.
Aqui, temos um caso em que uma história poderosa é utilizada para flertar com o cinema documental. Na minha opinião, a adoção desse método mais subjetivo resultou em mais de uma hora de puro desinteresse, já que o longa sofre com problemas de desenvolvimento e compreensão, o que dificulta a conexão com os personagens. Até mesmo a história parece se distanciar de seu real peso.
No ato final, há uma mudança, quando a história central de Nickel Boys aparece de vez: a luta pelos direitos civis das pessoas negras, a crueldade da segregação, a corrupção sistemática e agonizante para manter os negros marginalizados. O final do filme é um golpe que desestrutura e nos faz relembrar mais uma vez os tempos sombrios que existiram ali, e que podem existir novamente.
O filme rende imagens e planos muito bonitos, e as atuações dos dois protagonistas são formidáveis. No entanto, "Nickel Boys" parece se sair melhor mesmo em seu papel extra-filme.
Hair
4.1 538 Assista AgoraUma obra-prima do visionário Miloš Forman. Um país viciado em criar conflitos, diga-se de passagem, até hoje, obcecado por guerras e por seu poder militar. Das ruas vêm os gritos contra esse sistema ideal conservador, que sustenta os horrores do imperialismo americano. A forma como esses jovens propõem enfrentar a elite,desde seus penteados, passando por invadir festas de ricos até nadar pelados no lago, é uma referência que falta aos jovens de hoje.
Um jovem recruta, prestes a servir ao exército, conhece outros jovens hippies em uma cidade dos Estados Unidos e embarca em uma aventura louca e destemida. Toda a direção de "Hair" é estupenda, a forma como Forman filma os números musicais e engrandece as cenas, mesmo em planos mais fechados, é de bater palmas. As músicas são incríveis, com letras divertidas que misturam críticas e reflexões. Todo o elenco entra em uma química tão boa que até os coadjuvantes roubam a cena. O final? Tão atual e tão arrebatador. Talvez um dos maiores musicais já feitos.
Rosetta
3.9 83A jovem Rosetta vive em um pequeno trailer, tem uma mãe alcoólatra, é uma pessoa impulsiva e acaba de ser demitida. É nesse contexto que a protagonista dos irmãos Dardenne vive, carregando prematuramente um enorme peso da vida, sendo uma sobrevivente em um mundo solitário e sem afeto. Obcecada por viver uma vida normal, Rosetta procura emprego por toda parte e, quando consegue, vai tentar mantê-lo custe o que custar. É nesse "vale-tudo" que se transforma sua vida tão desprovida de afeto, a ponto de ela acabar sendo extremamente cruel com o único rapaz que demonstra afeição por ela.
A vida, tão cruel com Rosetta, impede-a até mesmo de pôr um fim em tudo. E, em seu choro final, enquanto carrega um fardo enorme, mais uma vez cabe ao rapaz estender a mão.
Um grande vencedor da Palma de Ouro e do prêmio de Melhor Interpretação Feminina em Cannes.
Baby
3.5 84 Assista AgoraA cena inicial de "Baby" me lembrou bastante uma estética do cinema europeu, com uma abertura mais estilizada, com a presença de um desfile musical acompanhado por tambores, saxofones e o amarelo das portas em cores vivas, enquanto Wellington é introduzido na história.
Wellington é um jovem que reencontra as ruas da capital paulista após cumprir pena por delitos que cometeu ainda menor de idade. Sem ter muito para onde ir, ele reencontra seus antigos amigos, que se divertem na noite das ruas de São Paulo. Ao decidirem ir a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo, figura central do que virá a ser uma complicada relação amorosa.
"Baby" é o amor que se revela de maneiras diferentes, que vem desse mundo invisível da sociedade. Isso é visto desde o início, no local onde nasce o interesse entre eles: um cinema que exibe filmes pornôs, um lugar de reprovação, frequentado por minorias e desejos marginalizados. A câmera de Marcelo Caetano quase sempre capta imagens de espelhos, que refletem a realidade dura daqueles lugares, dessa relação, e demonstram a dualidade que permeia todo o filme. O peso da realidade de Wellington, de ser um jovem LGBTQ+ invisível, contrasta com sua capacidade de conseguir ser feliz, assim como o amor de Ronaldo, que se divide entre inserir Wellington em uma profissão sexual e, ao mesmo tempo, ser tomado por um sentimento de cuidado por esse jovem.
Ronaldo chama Wellington de "Baby" como forma de repreendê-lo devido a uma atitude emocional considerada "infantil" que o jovem exibe após um episódio. A partir disso, Wellington se intitula assim. Chama-me a atenção a primeira cena em que Baby tira a roupa para Ronaldo e exibe um corpo cheio de pequenas cicatrizes. As cicatrizes de Wellington são uma metáfora para as dificuldades que marcam sua trajetória até ali. Um pouco depois, na cena do ônibus em que Ronaldo e Wellington conversam, é Ronaldo quem exibe uma cicatriz na perna, fruto de uma cirurgia, e diz: "Fim da linha, né?". Wellington responde: "É só uma cicatriz, não é nada não". A cicatriz que marca Ronaldo agora é o amor que desenvolveu por Baby, mesmo que questionável pelas atitudes, ele vem dessa São Paulo imperceptível, parte de um lugar onde se expressa e se desenvolve de maneira diferente do amor que conhecemos, mas é fiel aos espaços em que ganhou vida.
Um Completo Desconhecido
3.5 234 Assista AgoraA cinebiografia de Bob Dylan, dirigida por James Mangold, é um filme que foge da jornada mítica do herói, geralmente adotada por esses tipos de filmes que são expressos em tons piegas e até vendidos como uma história meritocrática. Em oposição a isso, Mangold faz um trabalho que já executou muito bem em "Walk the Line", onde a força do seu personagem, aqui Bob Dylan, é apresentada como parte do processo de uma pessoa real e um talentoso artista. A ascensão de Dylan, inclusive, é ligada à participação de duas figuras femininas cruciais: enquanto a cantora estabelecida Joan Baez é o caminho pelo qual Bob se conecta a uma carreira de fama e consegue impor suas composições para gravadoras, seu lado político é aflorado pela entrada da jovem ativista Sylvie em sua vida, momento em que Dylan passa a escrever canções que traziam reflexões sobre o momento social da época, como a luta pelos direitos civis e a Guerra Fria.
Timothée Chalamet dá vida a esse Bob Dylan, ora uma figura reservada sobre o que viveu, ora um criador de letras impressionantes. Notável é o esforço de Chalamet com esse papel: suas aulas de canto, seu preparo que vai ganhando vida ali, e a personalidade do cantor, que se torna imprevisível. Por ser uma figura já tão presente no cinema, às vezes parece que enxergamos mais o ator do que o Dylan, mas provavelmente é só um detalhe. E, apesar disso, é a autenticidade que ficou mais marcante para mim entre as características apresentadas desse folkstar. Uma cena em particular mostra que Bob Dylan não era convencional, quando perguntado em um programa de televisão o que ele tocava, ele responde "eu toco um pouco de tudo". Essa é a introdução do que o cantor enfrentaria de resistência, um tanto conservadora, do público e da indústria do folk, com seu álbum influenciado pelo rock, "Highway 61 Revisited". Mas, se Dylan é um gênio de sua arte, como bem mostra a história, gênios não ficam presos a uma zona de conforto, nem são enjaulados em uma carreira de aprovações.
Mangold também encaixa as músicas em seus momentos certos, aqui não exatamente como um musical, mas como complemento à história. As cenas em que as músicas são cantadas estão sempre atreladas ao que acontece em cena ou ao que está por vir. Como quando o noticiário é bombardeado por manchetes sobre uma ameaça nuclear russa, e a canção "Masters of War" entra em cena na voz de Chalamet, ou mesmo quando, no ápice de sua raiva por ser desaprovado por suas canções elétricas durante um festival folk, a setlist é sequenciada por "Like a Rolling Stone", uma música sobre desilusão, transformação e autoconhecimento que marca a virada na carreira do cantor.
Destaque para a atenção dada à ambientação, que não se limita às imagens dos espaços que remetem à década de 1960, mas também ao contexto político daquela época: os movimentos de contracultura, o filme exibido no cinema, as citações a Bette Davis e o discurso histórico de John F. Kennedy na televisão americana sobre a crise dos mísseis em Cuba.
O Aprendiz
3.5 202 Assista Agora"1 -Atacar, atacar, atacar sempre"
2 - Negue tudo
3 - Aconteça o que acontecer, nunca admita uma derrota"
O longa-metragem de Ali Abbasi é um filme que evita cair nos clichês mais constantes desses tipos de filmes que representam figuras desprezíveis. A história, que é um recorte sobre a ascensão do magnata imobiliário e posterior presidente dos EUA, é contada de forma muito estruturada e fluida, sem exaltá-lo ou cair em um viés exagerado. Inclusive, me agrada como o filme consegue ser engraçado devido à egolatria da figura de Trump. Sebastian Stan dá um show; o desenvolvimento de seu personagem, de forma segura, começa por esse jovem ambicioso podado pela rigidez do pai, até conhecer Roy Cohn, um desprezível advogado. Dessa amizade nasce uma relação de criador e criatura. Roy é um trapaceiro, antiético, nacionalista e com a mente dominada pelo liberalismo, ele ensina passo a passo a Trump como ascender na vida, e basicamente é enganando e corrompendo instituições. A trajetória de Trump é de uma pessoa que vai se esvaziando de humanidade e vai sendo preenchida pelo dinheiro, poder e ego, muito ego. Pouco importa sua família, esposa, filhos, o lema é vencer e estampar seu nome pelos quatro cantos de Nova York. O principal ponto de rompimento de Trump com a sua humanidade é quando o conflito com Roy se estabelece, e o agora ex-mentor se assusta com a frieza de sua criação. Ora, se um homem desprezível como Roy Cohn se assusta com as ações de Trump, o que Trump se tornou? Roy, inclusive, é belissimamente interpretado por Mark Strong, é um homem complexo, que inicia imponente e vai ruindo, consumido por uma grave doença.
O trabalho de fotografia também merece destaque, assegurando essa ambientação oitentista do filme. Os flashes com vídeos gravados em câmeras analógicas ajudam no tom de nostalgia.
Limite
4.0 178 Assista AgoraEntrega imagens fascinantes, todos os planos belíssimos, as paisagens, os closes. É, de fato, um dos filmes visualmente mais impressionantes, especialmente pela sua época. O tema sobre o limite da vida cansativa, de repetir os dias, dos problemas, segue sendo real. Certamente, no nosso imaginário, alguma vez houve o desejo de simplesmente se afastar para algum local distante de tudo que conhecemos.
Sing Sing
3.8 147 Assista AgoraExercício metalinguístico, onde a arte é instrumento para revelar o que há de melhor em nós, nos salvar e ser a fuga em nossos períodos mais sombrios. O filme se comunica com o espectador muito mais pela personalidade e o texto de cada personagem, a ambientação e os espaços são pouco explorados, e alguns momentos remetem a um making of de peça de teatro. Colman Domingo é sublime, que ator incrível, mas não posso deixar de falar de Clarence Maclin, que me chamou muito a atenção, além de assinar o roteiro, entrega um show como ator.
Memórias de um Caracol
4.2 130 Assista AgoraOs temas que "Memórias de um Caracol" aborda são tão complexos e atuais, como a homofobia, a hipocrisia religiosa e o bullying, tratando-os de forma direta, mas sem perder suas características cômicas.
A jornada da menina caracol que se vê diferente do mundo e vai amadurecendo com as mazelas da vida é comovente e delicada. Um filme feito com muito carinho, que fala sobre descoberta, reencontro e, principalmente, libertação. Lindo, lindo!
Matou a Família e Foi ao Cinema
3.6 100- "Tem umas coisas que não tem muito haver com a história, uns crimes, uns lugares sujos, mas os negócio das amigas é parecido"
- "É nacional?"
- "É"
O filme de Bressane, não ironicamente, foi lançado em 1969, quando o Brasil já vivia sob o regime do AI-5 e, mais tarde, teria como "presidente" o general Emílio Garrastazu Médici, homem que consolidou os chamados "anos de chumbo", conhecidos como o período mais duro da ditadura militar. Em "Matou a Família e Foi ao Cinema", a violência é a real protagonista desse média-metragem tão impactante. É perceptível a agonia do diretor em filmar, é como se a câmera e a montagem também estivessem a serviço dessa violência crua e banal. Parece que cada ação sangrenta é resolutiva para quem a pratica, mas as motivações têm origens cotidianas.
As imagens se misturam, ora reais, ora talvez fruto de um imaginário do próprio cinema. Quando a garota fala do filme "Nacional", as cenas seguintes são exatamente aquelas, executadas de forma espetacular.
A obra de Bressane, que parece quebrar a lógica da forma ou as regras de filmar, é uma denúncia por meio da arte, refletindo o período em que se vivia na época. É como se a política fosse aerossóis que não saem do ar, mas não enxergamos a olho nu, ainda que pulse na violência, na ironia, no caos, no afrontamento que tudo ali é.
O final disco arranha, enquanto Roberto Carlos cantava "Eu fico triste em pensar em te perder, em te perder, em te perder...". Acho que, naquela época, tínhamos medo de perder muita coisa, até mesmo o cinema.
Quando Chega A Escuridão
3.3 140Bigelow é ótima em tudo que faz mesmo, altera aqui entre o atmosférico e a violência gráfica. Sempre segura, tem referências mas é cheio de características do seu cinema.
O Beijo da Mulher-Aranha
3.9 270 Assista AgoraProdução norte-americana e brasileira, "Kiss of the Spider Woman" é filmado em São Paulo e repleto de atores brasileiros, mas todo falado em inglês. A produção tem uma forte estética americanizada, sendo perceptível uma inspiração na Era de Ouro de Hollywood nas partes oníricas em que Molina narra seus filmes.
O romance ganha peso no que inicialmente parecia um filme de tom político. Molina é um homem gay que passa a dividir a cela com Valentin, um preso político da ditadura. Valentin é um homem grosseiro e focado em seus ideais revolucionários, enquanto Molina é delicado e sonha acordado, narrando filmes sobre amores impossíveis. Dessa divergência de personalidades, nasce uma amizade que vai florescendo em amor e carinho.
William Hurt, em uma interpretação gigantesca, demonstra uma capacidade dramática ímpar ao dar vida a esse homem carente e sonhador, garantindo um Oscar muito merecido. Sônia Braga dá charme com suas várias personagens, que ganham vida sob as histórias que Molina conta. A trilha sonora também é encantadora e mira o cinema norte-americano, chegando a lembrar, no final, as músicas de tensão características do cinema do mestre John Carpenter.
O Brutalista
3.6 307 Assista AgoraO "Brutalista", vencedor de melhor direção em Veneza e subsequentemente postulante ao Oscar de melhor filme, é uma obra dividida em três partes, frente às suas 3h35 de duração, técnica usada para confortar os espectadores menos acostumados a longas-metragens de maior duração.
A cinebiografia fictícia de Brady Corbet aborda temas como imigração, xenofobia, racismo e exploração de trabalho como eixos centrais, sob a trajetória de um arquiteto húngaro, muito bem interpretado por Adrien Brody. *O Brutalista* tem uma direção marcada pela grandiosidade: as imagens são sempre captadas numa visão monumental, com longos planos abertos, paralelos, de cima para baixo, de baixo para cima. Tudo com a intenção de transmitir a ideia de que tudo ali é fabuloso, acompanhado de uma trilha sonora que reforça e intensifica a sensação de esplendor. Essa câmera obsessiva permeia todos os atos do filme e soa presunçosa, mirando claramente em um "Oscarbait".
No entanto, há uma divergência entre a forma e o conteúdo: enquanto tudo que é mostrado é grandioso e volumoso, as ideias que o filme apresenta são mais suaves, neutras, e me deram uma sensação de incompletude e subdesenvolvimento. Os personagens parecem não se revelar por completo, mesmo quando há tempo hábil para isso, e as relações entre eles parecem fragmentadas, provocando certa estranheza.
"O Brutalista" rende imagens belíssimas com sua fotografia impressionante, entre o preto do carvão e o cinza do concreto, captados de forma emoldurada, que renderiam muitos quadros de parede. No entanto, não considero isso suficiente para uma experiência cinematográfica completa.
Definitivamente, não gostei do epílogo que encerra o filme. Enquanto Corbet tenta ser grandioso a todo momento, é no ato final que ele se torna menor, despedindo-se do espectador com um encerramento embaraçoso, extremamente expositivo e preguiçoso
Kids
3.5 682Apesar de "Kids" ser considerado um filme chocante, acho que a forma fluída na qual é filmado me causou menos impacto do que eu esperava. "Kids" é um filme muito mais organizado do que o posterior "Bully", do diretor Larry Clark. Aqui, o roteiro de Harmony Korine está concentrado no cotidiano de jovens meninos e meninas. Para minha surpresa, "Kids" é um filme sagaz e de forma muito espontânea. Ele abre seus minutos iniciais com um close em um quarto, onde o jovem Telly convence, de forma aparentemente romântica, uma menina a ter relações sexuais com ele. À primeira vista, dá para pensar que se trata de um momento amoroso, mas logo em seguida somos apresentados a um jovem malandro, dissimulado e cujo único interesse é o sexo.
Acho interessante como o filme mostra o sexo para ambos os gêneros: na perspectiva masculina, o sexo como fonte de afirmação, poder e de se mostrar grandioso para os amigos; na visão feminina, o desejo, as descobertas, o compartilhamento de experiências entre meninas e os cuidados. O filme ainda brinca com a forma machista como os homens veem a virgindade, enquanto Telly fala que é algo marcante para qualquer mulher e, por isso, ele precisa ser sempre o primeiro, na cena seguinte, as meninas conversam entre si, falando que suas primeiras experiências sexuais foram esquecíveis.
A parte mais sombria do filme vem quando um diagnóstico de HIV positivo é revelado a uma das garotas. Em desespero pela notícia, ela busca o garoto que possivelmente a transmitiu. Clark busca mostrar o resultado do excesso da juventude, as irresponsabilidades que permeiam uma vida focada em sexo, drogas e curtição. Como a vida não é só isso, cada escolha deles tem um preço a ser pago, e em "Kids* as consequências para todos são muito, muito altas.
Conto de Verão
4.0 52Conversa muito bem com todos nós pela forma como conduz as relações amorosas, com muito humor.
Gaspard chega a um balneário francês movido pelo desejo de encontrar Lena, sua suposta namorada. Como Lena não aparece, ele acaba desenvolvendo uma amizade sincera e divertida com Margot. Mas, em seu caminho, também aparece a destemida Solène, por quem se sente completamente atraído. Quando Lena finalmente aparece, a vida de Gaspard vira de cabeça para baixo, principalmente porque nosso protagonista tende a não se opor ao que as moças propõem, complicando ainda mais sua situação. Rohmer destaca muito as trocas de ideias entre os personagens, o texto potencializa o desenvolvimento das relações entre as três garotas e o rapaz, e tudo isso de forma muito simpática. É bonito como existe uma sutileza, principalmente na relação dele com Margot, onde Gaspard é visto de diversas maneiras diferentes: atrapalhado, cínico, romântico.
Do jeito que se inicia, se termina, mas com sentimentos diferentes, para Gaspard e para nós.
Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia
3.7 121O Rio de Janeiro e os primeiros flertes com esquema de milícias. Lúcio Flávio não é herói, nem mocinho, não tem jornada que busca redenção, ele é mais uma peça de um esquema de corrupção que interliga as forças de segurança e a bandidagem. E como esse sistema que age paralelamente às instituições se movimenta para se manter vivo, pois ele ganha poder, influência e dinheiro de todos os lados, utiliza os bandidos para benefícios próprios, manipula a opinião pública sobre o que está acontecendo e executa os aliados que já não têm mais proveito.
São Paulo Sociedade Anônima
4.2 207O título do filme, que carrega consigo "Sociedade Anônima", também conhecido pela sigla S.A., utilizada no final da razão social de várias empresas, é a definição para corporações com fins lucrativos divididas em ações. Ele sinaliza o que compõe o coração da capital paulista, tanto da época quanto daquela que vemos crescer ao longo das décadas. É nessa São Paulo movida pelo capitalismo que Carlos está inserido, e Person nos mostra como o indivíduo pode ser sugado mental e fisicamente pelo cotidiano da cidade. Carlos é um homem comum, que começa aos poucos sua vida no mercado de trabalho e vai ascendendo até se tornar gerente de uma montadora de automóveis. Ao longo do caminho, ele faz escolhas que remetem à vida protocolar do homem bem-sucedido: trabalhar, casar, ter filhos e ser o chefe do lar. Gradualmente, a vida de Carlos é guiada por uma rotina frenética e exaustiva, enquanto ele ainda lida com os sentimentos decorrentes de suas escolhas, as mulheres que passaram por sua vida e os pensamentos existenciais que cada figura parece provocar nele. É daí que sentimos o desgaste que a cidade provoca no homem, agora cheio de responsabilidades.
A São Paulo que é vista como uma terra de oportunidades é exposta como uma máquina de destruir os mais vulneráveis, em um amplo sistema de exploração do trabalho.
Não posso deixar de mencionar a aula de decupagem que Person nos oferece aqui. Os movimentos de câmera e os planos são muito bem estabelecidos, e o início, que é também o final, demonstra um controle absurdo sobre o que está sendo feito. A modulação do roteiro, que trabalha o tempo em perspectivas diferentes e depois as conecta, é realmente impressionante.
No Mundo de 2020
3.5 165 Assista AgoraUma ficção científica distópica, um pouco irregular em sequenciar sua história, acaba sendo um filme menos robusto do que poderia ser.
Acontece que o material de base parece muito interessante. A história começa com um tom de mistério sobre o assassinato de um rico empresário em um mundo assolado por desigualdades e problemas sociais institucionalizados. O filme parece focar muito na postura do personagem central de Charlton Heston, como se tentasse desenvolver nele uma figura masculina típica do cinema hollywoodiano: o policial sexy, agressivo e ético. Isso às vezes dá a sensação de que o texto fica um pouco de lado para valorizar a construção do protagonista. O resultado é um final meio apressado, como se o tempo corresse para nos mostrar o grande mistério, que é revelado, mas acaba sendo explorado de forma efêmera.
A ambientação tem algo que parece inspirar posteriores sucessos dos anos 80, como "Blade Runner" e "De Volta para o Futuro".
Greice
3.5 24 Assista AgoraGreice é malandra, cínica, mentirosa, mas extremamente carismática, e é assim que Leonardo leva sua personagem entre suas empreitadas em Portugal e o regresso ao Brasil. Apesar de agir de maneira duvidosa com todo mundo que a rodeia, Greice é isenta de maldade; é como se suas atitudes fossem fruto da sustentação de seus sonhos em uma mente livre e que anseia por descobertas. Tudo isso deixa as armações da nossa protagonista quase que inocentes. A parte em Portugal parece mais apática, neutra, e o filme ganha charme mesmo quando tudo começa a acontecer em Fortaleza, e vão surgindo mais personagens que abrilhantam a temática, como o recepcionista Enrique e a prima Márcia
A Mulher de um Espião
3.6 11"E agora o Japão irá perder."
Um melodrama cheio de autocríticas à postura do Japão na guerra, Kurosawa tira o rótulo de um país somente como vítima e mostra os horrores também praticados pelos japoneses durante o conflito.
Tudo começa com um possível espião que leva informações aos aliados. A partir daí, Kurosawa vai, aos poucos, desvendando o mistério que paira nas dúvidas da esposa de Yasuka (o suposto espião). Ela embarca em uma busca pela verdade, mas guiada pelo sentimento de salvar seu casamento, que está muito além de qualquer causa.
Kurosawa não deixa claro se Yasuka agiu de fato para salvar Yu Aoi ou se a intenção foi realmente resguardar seus planos políticos. E é isso que torna a trama ainda mais interessante, nesse misto de inteligência e/ou ato de amor.
O plano aberto na cena final é um primor e mostra por que Kurosawa é tão magistral.
Era uma Vez em Tóquio
4.4 199 Assista Agora"Talvez os dias fiquem mais longos, agora que estou sozinho"
Ozu conta com delicadeza essa história, tal qual pintar um quadro com pincéis finos, utilizando de forma muito sutil para mostrar as frias relações de uma família tradicional japonesa no pós-guerra.
Dois idosos partem para Tóquio para visitar filhos e netos. Ambos estão bastante longe da capital do Japão e enfrentam uma cansativa viagem de trem. Acredito que esse seja o primeiro sinal da forma como os filhos, agora adultos, encaram a importância de seus pais: é o velho casal que precisa se movimentar em busca de rever sua família. Daí pra frente, vai se empilhando cena após cena a personalidade de cada filho, que age de maneira indiferente aos pais, enquanto o pai e a mãe parecem entender as motivações por trás disso.
A sequência em que uma das filhas, a que já vive com o casal há muito tempo, questiona a atitude dos demais, e a personagem Noriko justifica que não são atitudes pensadas para o mal, e sim um processo natural de separação entre pais e filhos. É daqui que talvez saia o maior peso de "Tokyo Story", apesar de toda a construção da relação agora superficial entre eles, tudo é fruto de um ciclo natural da vida, onde crescemos e passamos a olhar mais para nós mesmos de forma egoísta. Mas a situação que é o presente dos pais é também o futuro para os filhos.
No final, o carinho daqueles que não são do nosso sangue, a melancolia e a solidão de envelhecer.
O Vício
3.8 70 Assista AgoraAbel Ferrara falando sobre vício em drogas e álcool, mas numa perspectiva vampiresca. A estética com a fotografia preto e branco e as ruas de Nova York dão ainda mais esse tom sombrio, melancólico que agoniza a protagonista.
Na linguagem o filme passeia bastante pelo campo filosófico para dissecar as motivações pelo vício, mapeando autoconhecimento e autocontrole, sem esquecer dos altos e baixos que é a vida de quem luta contra o vício.
Arábia
4.2 177Um retrato sobre o cotidiano do trabalhador brasileiro, nessa jornada *road trip movie* da trajetória de Cristiano. Esse trabalhador que vai percorrendo cidades, histórias, amores e indo de emprego em emprego pela busca de crescimento e, claro, sobrevivência. E é isso que sobra pra Cristiano: a reflexão de que é apenas mais uma peça descartável desse sistema que gira com o único intuito de fazer mais e mais dinheiro. É um retrato amargo sob a frágil teoria da meritocracia.
É um longa que vai nos carregando para essa dor, porque enxergamos essa realidade no dia a dia do nosso país. Mas a narração de Aristides de Sousa vai encontrando um tom poético, e o filme se despede de nós de forma arrebatadora.
Por um Punhado de Dólares
4.2 448 Assista AgoraLeone refilmando "Yojimbo", clássico japonês de Akira Kurosawa, o original já carregava uma estética muito parecida com o Western. A diferença é que em "Por um Punhado de Dólares" saem os samurais com espadas e entram os cowboys pistoleiros. Leone é muito seguro e filma com muito virtuosismo, e como ele dominava muito bem seu gênero, o filme consegue ser ainda mais intenso em trazer ao espectador os sentimentos de raiva, revolta e vingança. Todos esses sentimentos calculados pelo diretor caem perfeitamente bem para o personagem de Clint Eastwood executá-los por nós, e que homem, meus amigos!
O Reformatório Nickel
3.3 158Baseado no romance de Colson Whitehead, ganhador do Prêmio Pulitzer, "The Nickel Boys" segue dois adolescentes negros em um reformatório nos EUA, sob um estado racista e cruel. O principal recurso adotado durante todo o filme é o uso da câmera subjetiva pela perspectiva de Elwood. Essa abordagem faz com que o espectador veja tudo sob os olhos de El, e só venha a conhecer seu rosto com a chegada de Turner, quando a câmera passa a existir também por sua visão.
Aqui, temos um caso em que uma história poderosa é utilizada para flertar com o cinema documental. Na minha opinião, a adoção desse método mais subjetivo resultou em mais de uma hora de puro desinteresse, já que o longa sofre com problemas de desenvolvimento e compreensão, o que dificulta a conexão com os personagens. Até mesmo a história parece se distanciar de seu real peso.
No ato final, há uma mudança, quando a história central de Nickel Boys aparece de vez: a luta pelos direitos civis das pessoas negras, a crueldade da segregação, a corrupção sistemática e agonizante para manter os negros marginalizados. O final do filme é um golpe que desestrutura e nos faz relembrar mais uma vez os tempos sombrios que existiram ali, e que podem existir novamente.
O filme rende imagens e planos muito bonitos, e as atuações dos dois protagonistas são formidáveis. No entanto, "Nickel Boys" parece se sair melhor mesmo em seu papel extra-filme.