Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Sendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
De todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Retratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Em sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Retratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.
O último capítulo de "Better Call Saul" encerra, em grande estilo e alto nível, a saga do icônico Saul Goodman, completando um dos arcos mais bem desenvolvidos e bem escritos da história da televisão. Apresentando um tom mais dramático, esta temporada traz os eventos que puseram fim a sua vida passada como Jimmy, a conexão direta com a trama de "Breaking Bad" - trazendo mais personagens da série original - e a tão aguardada conclusão da história do protagonista.
Os primeiros episódios dão continuidade aos acontecimentos da temporada anterior, com foco no conflito entre os cartéis de Los Pollos e dos Salamanca, e nos impactos dessa guerra nas vidas das personagens. Enquanto Lalo finge estar morto e prepara, minuciosamente, a sua vingança, Nacho se esconde e luta pela sua próprio vida ao perceber que está sendo usado como bode expiatório, com a responsabilidade pelo atentado sendo atribuída exclusivamente a ele.
Se todos dão a morte de Lalo como certa, Gus, perspicaz como sempre, consegue enxergar que algo não está certo e levanta suspeitas acerca do destino do adversário. Neste momento, acompanhamos uma situação incomum nas duas séries, com Fring em um estado de paranoia, medo e tensão do eventual retorno de quem havia mandado matar e da possibilidade dos seus segredos serem revelados. O membro do clã Salamanca é aquele que consegue deixá-lo na posição mais vulnerável já vista pelos espectadores.
Quanto a Jimmy e Kim, presenciamos uma relação extremamente complexa. Se, por um lado, ambos se amam, também é possível afirmar que essas duas pessoas, juntas, acabam trilhando um caminho perigoso para si e para quem está próximo, com os seus golpes e atitudes imorais. É curioso, mas, ao mesmo tempo em que são perfeitos um para o outro, igualmente são tóxicos, com um relacionamento que acaba incentivando os seus vícios e mentiras, em um processo quase que autodestrutivo e que é intensificado com o envolvimento do protagonista com o cartel mexicano.
Na reta final da temporada, temos algumas das cenas mais intensas e emocionantes de todo o seriado, na medida em que somos apresentados ao que ocorre com Saul após os eventos de "Breaking Bad" e como a sua saga irá se encerrar. Mesmo tendo que se esconder das autoridades, ele, como é recorrente em sua vida, não consegue "se ajudar" e retorna a se envolver com atividades criminosas, que acabam, por fim, revelando a sua verdadeira identidade e o deixando exposto. É como se o protagonista fosse incapaz de viver uma vida normal e abandonar, por completo, a sua rotina de golpista.
Então, quando encontra-se encurralado e não tem mais para onde correr, Saul decide, pela primeira vez, agir com honestidade e, passando a limpo todos os seus erros e pecados cometidos durante a vida, confessa tudo. E não por que gostaria de, por conta disso, ser um herói, mas para fazer as pazes com a única pessoa viva que ainda verdadeiramente amava: Kim. Após uma vida inteira de atalhos e tirando vantagens dos outros, ele, enfim, arrepende-se de suas ações e encara as consequências de suas escolhas.
O roteiro, nesse sentido, é muito bem elaborado, ao longo do último episódio, para justificar as escolhas finais do protagonista, em especial os flashbacks de conversas com Mike, Chuck e até Walter e da reflexão acerca de arrependimentos e viagens no tempo. Enquanto uma viagem no tempo realmente é impossível, como bem descreveu Walter, nunca é tarde para se arrepender dos seus erros, se reconciliar com quem ama e mudar de rumo, e é isso que Jimmy faz.
Em linhas gerais, considero que "Better Call Saul" não está no mesmo patamar que "Breaking Bad", mas, sem dúvida, está bem próxima e, com certeza, é uma série muito boa e de alta qualidade, estando no rol das melhores já produzidas. O seu "series finale", no entanto, eu julgo como sendo até superior em comparação ao do seriado original, com um encerramento digno do elevado nível de direção, roteiro e atuação apresentados pelo show ao longo de suas seis temporadas e um ponto final ao brilhante universo construído por Vince Gilligan.
O quinto capítulo de "Better Call Saul" começa exatamente no momento em que se encerra a temporada anterior, isto é, com Jimmy iniciando uma nova trajetória enquanto advogado, desta vez com o nome "Saul Goodman". Apesar de, a princípio, parecer algo muito semelhante com o ponto de onde o seriado parte, com o protagonista aceitando pequenos casos "pro bono", logo percebemos que não é bem assim. Aqui, ele não vai mais tentar vencer obedecendo as regras do jogo e irá completamente abraçar o uso de suas artimanhas no mundo jurídico, sem qualquer pudor ou moralidade.
No entanto, se a ideia original era trabalhar com clientes que não tivessem mais ninguém para recorrer, como viciados e pequenos criminosos, Saul rapidamente se vê envolvido com velhos e novos conhecidos do meio do tráfico. Dentre eles, estão Nacho e Lalo, respectivamente, que, em meio a uma guerra com o Cartel de Los Pollos ,vão tendo problemas com as autoridades americanas. Ao solicitarem o auxílio legal do advogado, também mandam a ele realizar outros serviços à margem do lei, o envolvendo definitivamente nos negócios do cartel e o colocando no "olho do furacão" de uma disputa muito maior do que ele sequer imaginava.
Enquanto a vida de Jimmy muda por completo e além do que ele gostaria quando mudou de nome, acompanhamos Kim não apenas ainda em dúvidas em relação ao seu futuro profisional, mas agora também refletindo acerca de sua vida pessoal. No início, apesar de tolerar os seus truques e até gostar de alguns dos seus métodos, ela não vê com bons olhos a mudança de identidade do namorado e considera que também ele esteja indo longe demais. Em dado instante, ela se vê em uma encruzilhada entre o seu relacionamento com Jimmy, que vai se distanciando em meio a mentiras e desconfianças, e aquilo que ela tenta encontrar para a sua carreira. Quando a rotina de ambos se transforma devido a uma série de eventos, ela terá de decidir qual caminho seguir.
No arco da guerra entre os cartéis de Los Pollos e de Salamanca, vemos Mike questionando a continuidade de seus serviços e se tudo aquilo ainda vale a pena, ao mesmo tempo em que compreende que o seu trabalho, mesmo que imoral e sujo, é necessário para ajudar a sua família. Por outro lado, também é possível observar Nacho lutando para manter a confiança por parte dos dois cartéis e ainda costurar uma eventual saída para si e para o seu pai. Ambos os personagens têm muito em comum e trabalham juntos em busca de sobreviver nesse mundo.
Nesse contexto, Gus sente, os seus negócios "sangrando", de maneira crescente, em meio a essa barulhenta guerra do tráfico, o que o leva a tomar atitudes cada vez mais extremas e arriscadas a fim de proteger os seus interesses e manter os Salamancas distantes de seu território. Quanto a Lalo, um dos mais interessantes personagens desta temporada, vemos um homem que é, sem dúvida, muito mais inteligente do que aparenta ser e extremamente determinado a defender o nome e poder de sua família.
Essa é a parte do seriado que, até o momento, mais se assemelha a "Breaking Bad", inclusive com mais personagens da série original fazendo aparições. Pessoalmente, achei a quarta temporada um pouco melhor, mas esta também é muito boa e de altíssimo nível e, por enquanto, apenas atrás da temporada anterior em termos de qualidade. Ansioso para continuar assistindo.
A quarta temporada de "Better Call Saul" é mais uma amostra da capacidade do seriado em continuar elevando o seu nível. Iniciando exatamente do ponto em que a história parou, a série nos apresenta um roteiro, como sempre, muito bem amarrado, com os personagens sendo impactados pelos acontecimentos outrora mostrados e o arcos desenvolvidos, ao longo da trama, com competência. De maneira simultânea, acompanhamos tanto Mike mergulhando a fundo na organização de Gus quanto a transformação de Jimmy em Saul sendo, enfim, completa.
Já a partir dos primeiros episódios, a história começa de forma frenética e impactante, com Jimmy tendo que lidar com a trágica perda do irmão. No entanto, enganou-se quem imaginava que tal evento poderia levá-lo a uma mudança de comportamento ou a um sentimento de culpa, pois, na realidade, apenas fez com que prosseguisse, ainda mais, com seus esquemas e artimanhas. Com Chuck fora de cena, não somente desaparecia o seu parente mais próximo ainda vivo, mas também os últimos obstáculos remanescentes em seu caminho de trapaças e mentiras.
Nesse sentido, o protagonista, cada vez mais, vai abrindo mão dos poucos resquícios de moralidade e vergonha que ainda existiam em sua consciência. Se antes era apenas um advogado que usava de "atalhos", agora se tornava um verdadeiro criminoso e se relacionava com outros bandidos, sequer fazendo muito esforço para esconder isso de Kim. Ao criar conexões no mundo do crime, Jimmy estabelecia, sem perceber, a primeira clientela da sua futura identidade, Saul Goodman.
Quanto a Kim, é interessante acompanhar como ela, inicialmente devido ao seu amor por Jimmy, não apenas "passa pano" para as atitudes do namorado, mas também até o ajuda a "limpar a sujeira" das ações ilegais do namorado, mesmo sabendo, no fundo, que são erradas e arriscadas. Porém, se no começo a advogada fazia isso por motivos amorosos, aos poucos vemos ela começando a gostar de participar dessas artimanhas, sobretudo devido ao tédio que sentia com o seu trabalho regular e por conta de uma "crise existencial" que desenvolvida quanto a sua profissão.
A realidade é que Kim, por mais inteligente e determinada que fosse, sempre se sentiu atraída, mesmo que desaprovasse publicamente, pelo estilo "rebelde" de Jimmy e muitas vezes minimizava as atitudes ilegais do namorado. Nas temporadas anteriores, inclusive, ela, em determinadas ocasiões, até agia, junto com ele, em alguns golpes. Nesta temporada, entretanto, o que antes era apenas uma diversão momentânea passa a se tornar algo frequente, aprofundando a relação entre ambos - embora o último episódio dê a entender que isso não durará muito.
No arco envolvendo Mike/Gus, vemos os esforços do cartel de Los Pollos na ampliação da operação estabelecida por Fring, mais especificamente com a construção do laboratório. No caso, acompanhamos Mike tendo que tomar atitudes cada vez mais extremas e questionáveis para prosseguir trabalhando nesse meio. Além disso, também é parte importante da trama o cenário de adaptações ocorridas na Família Salamanca em decorrência do quadro de saúde de Hector, com a temporária ascensão de Nacho e o surgimento de um novo, e já bastante interessante, personagem, Lalo.
Esta temporada, portanto, realmente é melhor que as anteriores em termos de qualidade, o que confirma a tendência de subida de nível do seriado, com drama e humor na medida certa e um roteiro que desenvolve bem cada história sem deixar pontas soltas e encaixando todos os elementos na reta final. Aos poucos, o universo de "Breaking Bad" vai começando a aparecer e se montar cada vez mais, mas sem abandonar a identidade única construída por "Better Call Saul".
Em sua terceira temporada, "Better Call Saul" aprofunda não apenas a transformação de Jimmy em Saul, que vai se tornando cada vez mais evidente, mas também as disputas entre os irmãos McGill, que aqui chega ao seu ápice. Além disso, o seriado introduz, de maneira eficiente, vários personagens conhecidos de "Breaking Bad", sendo Gus Fring o principal deles. Com todos esses elementos, a produção dá uma melhora de qualidade em relação às temporadas anteriores e eleva o seu nível.
O arco principal segue sendo o conflito entre Chuck e Jimmy, que deixa de ser exclusivamente uma briga entre irmãos, de caráter pessoal, para se tornar uma disputa jurídica, que terá ramificações e impactos significativos tanto para a gigante HHM quanto para a carreira de ambos os advogados. O conflito será mais um momento em que o passado dos dois irmãos virá novamente à tona, assim como o complexo e difícil relacionamento existente entre eles. No quinto episódio, um dos melhores da série até o momento, presenciamos essa guerra familiar no seu ponto mais intenso.
As consequências da disputa jurídica com o seu irmão levam Jimmy a buscar outras formas de ganhar dinheiro e sobreviver, com o intuito de não deixar todas as despesas nas costas de Kim. No entanto, ao mesmo tempo, também o fazem retornar, um pouco mais, em sua antiga vida de bicos, golpes e artimanhas, que agora voltarão a ser o seu ganha pão.
Enquanto isso, também é muito bem desenvolvido o arco de Mike, que vê as suas desavenças com Hector Salamanca o colocando no meio de uma antiga rixa entre o traficante mexicano e Gus Fring. Este deseja prejudicar, discretamente, os negócios do rival, mas reserva um eventual assassinato a um momento oportuno e da forma mais cruel possível, pois entende, como ele mesmo diz, que meramente uma bala na cabeça seria muito humano. Nesse caso, é essencial relembrar o flashback mostrado em "Breaking Bad", que explica a razão do ódio de um em relação ao outro. Nesse sentido, Mike e Gus, com interesses em comum e um respeito mútuo, se ajudam e pavimentam o caminho para o que será uma longa parceria.
De forma geral, como dito antes, a série, que já vinha de duas boas temporadas, aqui, apesar de um início um tanto lento, sobe um degrau em termos de qualidade e proporciona grandes cenas em um roteiro novamente coeso e bem desenvolvido. Vale também destacar a atuação do elenco, que se destaca em meio a um seriado com já tantas qualidades.
Em sua segunda temporada, "Better Call Saul" mantém o bom nível de qualidade apresentado em sua estréia e prossegue a saga da transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman. Com um roteiro bem amarrado, boa direção e mais uma grande performance do elenco, o seriado aprofunda, sobretudo, a relação entre Jimmy e o seu irmão, fazendo o espectador compreender melhor o passado de ambos e o complexo relacionamento que estabelecem entre si, que é um dos pontos centrais da história.
Seja por cenas de flashback ou simplesmente por falas das personagens, Vince Gilligan explica a mágoa que Chuck sente por Jimmy, apesar de ainda nutrir amor por ele, o que nos ajuda a entender a dificuldade que possui em aceitar que o irmão mais novo pode mudar. Essa marca que o passado lhe deixou é forte e faz com que ele não consiga enxergar os esforços de Jimmy em ser diferente, o que, ironicamente, acaba sendo o motivo pelo qual o irmão mais novo acaba desistindo de ter qualquer mudança e mergulha de vez em uma vida de trapaças e artimanhas.
Nesta temporada, inclusive, temos Saul aparecendo com cada vez mais força, seja nas vestimentas ou nas atitudes de Jimmy, que, tendo a sua tentativa de mudança rejeitada pelo irmão, busca ser aquilo que realmente quer ser, independente do que os outros desejam. Os poucos princípios morais, éticos e legais que restavam no protagonista, e que eram mantidos para tentar agradar a Chuck, vão sumindo aos poucos, à medida em que ele vai procurando percorrer o seu próprio caminho na vida, e não o caminho que traçaram para ele.
O arco de Mike também vai se tornando cada vez mais interessante, com ele começando a se envolver com o Cartel de Salamanca. Isso, junto a necessidade de obter mais dinheiro e de proteger a sua família, o força a ter de entrar cada vez mais no submundo do crime e a ter, com maior frequência, que agir de forma drástica e arriscada.
Aliás, a moralidade por trás das escolhas que os personagens fazem prossegue sendo um dos pontos fascinantes da série. Ao longo da trama, presenciamos indivíduos consideravelmente imperfeitos, mas com bom coração e boas intenções, sendo levados a caminhos obscuros devido a escolhas moralmente complexas e questionáveis e aproximando, por exemplo, Jimmy e Mike a quem eles são em "Breaking Bad". Dessa forma, somos levados a refletir até quão longe vale a pena ir para tentar fazer a coisa certa.
O encerramento da temporada, em particular, é muito bom, o que deixa o espectador ansioso para continuar a história.
São raros os casos em que um personagem de uma série consegue inspirar um outro seriado inteiro baseado em si e, além disso, com a obra derivada apresentando qualidade e sucesso semelhantes à produção original. No entanto, em "Better Call Saul" essa rara situação ocorre graças, sobretudo, ao carisma do excêntrico e icônico advogado Saul Goodman, que aqui ainda não se tornou completamente aquele personagem que conhecemos, mais uma vez interpretado com excelência por Bob Odenkirk, e ao roteiro bem elaborado por Vince Gilligan.
Na série, acompanhamos Jimmy McGill antes de se tornar o Saul Goodman, em uma época em que o protagonista, com o intuito de se desvencilhar de seu conturbado passado e de cumprir uma promessa feita ao irmão Chuck, ainda procurava ser um advogado bem sucedido seguindo a lei e trabalhando de forma relativamente honesta - ou, pelo menos, com o máximo de honestidade que conseguia ter. Caminhando na linha tênue que separa aquilo que é permitido e o que não é, Jimmy vai sobrevivendo com dificuldades e lutando para subir na profissão.
No caso, percebemos que o seu charme, lábia e excentricidade, tão úteis quando era um mero golpista em sua terra natal, não apresentam a mesma eficácia no meio jurídico do Novo México. Aqui, McGill, trabalhando sozinho na defensoria pública, limita-se a casos fadados ao fracasso e clientes claramente criminosos, o que o faz ganhar a fama de "advogado de porta de cadeia", não sendo, dessa forma, devidamente reconhecido ou levado à sério pelos colegas de profissão.
Mesmo vez ou outra ainda apelando para antigas artimanhas e estratégias performativas, o sonhador advogado persiste em agir conforme a lei e, repleto de boas intenções, fazer a coisa certa. A sua atitude somente muda ao final da temporada, ao perceber que a promessa que havia feito a Chuck e todo o seu esforço não mudariam a forma como era visto e demorariam muito para lhe trazer algum retorno, com as suas ações passadas ainda fortemente impregnando a sua reputação. A escolha que fez foi tomada por si, mas, em parte, foi levado a tomá-la pela falta de reconhecimento que ele recebia, o que provoca uma forte empatia pelo espectador e fornece uma maior complexidade a um personagem que outrora poderia parecer apenas um mero alívio cômico.
A gradativa transformação de Jimmy em Saul é muito bem executada pelos roteiristas, ocorrendo gradualmente ao longo dos episódios. Outro mérito de Gilligan e companhia reside no fato de não tentarem imitar "Breaking Bad" ou sustentar este seriado em referências à história original, mas fornecerem, à "Better Call Saul", a sua própria identidade, com os seus próprios personagens - com exceção, por ora, de Jimmy e Mike - e arcos e um estilo que mescla, com competência, a comédia e o drama.
Uma boa primeira temporada para uma série que promete. Recomendado.
Em seu capítulo final, "Breaking Bad" encerra a história em grande forma, mantendo o alto nível de qualidade apresentado nas temporadas anteriores e, em diversos episódios, indo além. Aqui presenciamos a ganância de Walter White alcançando o seu ápice, com o protagonista em busca de construir o seu próprio império da metanfetamina. Tal cobiça contribui para sedimentar a sua completa transformação em Heisenberg - restando poucos traços de quem Walt outrora era, corroer a relação com as pessoas que amava e trazer as consequências máximas de suas ações a si e a sua família.
Nos primeiros episódios, acompanhamos as personagens principais - Walt, Jesse e Mike -tentando juntar os cacos após os eventos que encerraram a temporada passada. Ao mesmo tempo em que procuram se livrar de eventuais investigações policiais associadas às atividades de Gus Fring, o trio também busca reconstruir a operação estabelecida por seu antigo chefe. Nesse contexto, Walter, em um cenário de "vácuo de poder" no tráfico, vislumbra a possibilidade de enfim ter um império para chamar de seu, ainda guardando rusgas do seu passado e da fortuna que deixou de ter na Gray Matter, companhia que havia ajudado a fundar.
Neste momento, torna-se cada vez mais claro que, se a motivação inicial de Walt para entrar nesse negócio era simplesmente deixar dinheiro para a sua família, agora ele não fazia mais isso pelos seus filhos e esposa, ou pelo dinheiro, mas para si próprio e o seu ego. No entanto, quando aqueles ao seu redor começam a ter dúvidas se querem continuar com aquilo - Mike devido a sua neta, Jesse por um evento traumático envolvendo um garoto e Skyler pelo que houve com Ted e o que poderá ocorrer com sua família - e pretendem se afastar de Walt, este entra em colisão com as pessoas que se colocam entre ele e seus objetivos.
A ruína total - tanto de sua vida pessoal quanto de seus negócios - somente chega, porém, na segunda metade da quinta temporada, mais especificamente em um dos melhores, mais tensos e mais bem escritos episódios da série: "Ozymandias". Aqui, enfim vemos as consequências das escolhas de Walter batendo na porta de sua família da maneira mais intensa possível, o colocando em uma posição sem caminho de retorno e destruindo tudo aquilo que ele havia construído e buscado proteger.
Ao término, no "season finale", acompanhamos o protagonista, meses após o "furacão" que demoliu a sua vida, em uma trajetória para não deixar qualquer ponta solta, despendido-se das pessoas que amava e se vingando daqueles que contribuíram para a sua queda. Pessoalmente, acho que os dois últimos episódios poderiam ter explorado mais os impactos desses acontecimentos na vida de sua esposa e filhos, e acredito que essa foi uma oportunidade perdida. Além disso, a forma como ele se vingou de Lydia foi um pouco "forçada", pois, sejamos justos, seria impossível para ele colocar ricina em seu adoçante sem ser percebido. Isso sem falar da ameaça a Gretchen e Elliot, com Walt entregando todo o seu dinheiro a duas pessoas em que ele não confiava.
No entanto, se, por um lado, eu considero que algumas escolhas dos roteiristas não foram exatamente bem feitas ou à altura da qualidade da série, vale destacar que o episódio final apresenta um tom extremamente triste e melancólico, o que é correto para demonstrar o efeito das ações de Walt em sua vida. A cena final também carrega um forte simbolismo, com o protagonista encerrando em um laboratório, cercado por aquilo que havia se transformado em sua paixão e, ao mesmo tempo, na causa de sua destruição. Ironicamente, a pessoa mais viciada em metanfetamina nunca a consumiu, mas apenas produzia.
Logo em seu primeiro episódio, a quarta temporada de "Breaking Bad" inicia de forma eletrizante, com a continuidade dos eventos que encerraram a temporada anterior e da tensão entre Walter/Jesse e Gus, que será tema recorrente ao longo da trama. Nos episódios seguintes, a série, pelo menos ao meu ver, adota uma velocidade mais lenta e, em diversos momentos, excessivamente "arrastada", o que pode desagradar alguns. No entanto, em sua segunda metade, o seriado compensa, pois, daí até o final, a história engata em um ritmo frenético e eletrizante e se torna um verdadeiro furacão.
Um dos aspectos mais positivos desta temporada reside em Jesse, cujo desenvolvimento de sua personagem, que tanto faltou/estagnou em momentos anteriores, é aqui construído de maneira espetacular. Ao invés de simplesmente "se aceitar" como um drogado, ele enfim adquire definitivamente, após muita dificuldade e ajuda externa, foco em sua vida e busca, inclusive, realizar uma boa ação, ao ajudar Andrea e seu filho. Além do roteiro bem escrito, isso se deve também a excelente performance de Aaron Paul, que se destaca em meio a um elenco estrelado.
No entanto, à medida em que Jesse vai se tornando mais competente e importante, a situação de Walter, por outro lado, vai, gradativamente, se deteriorando. Sabendo que agora é o único químico e cozinheiro que Gus possui, Walt abusa desse privilégio e testa, ao máximo, os limites de sua liberdade perante Fring. Este, por sua vez, mostra novamente estar sempre "dois passos à frente" dos demais e compreende que o único caminho para resolver tal problema é afastando a dupla, minando a amizade que ambos haviam construído e tornando Walt cada vez menos insubstituível.
Em meio a tudo isso, Walter, que parecia finalmente ter tudo sob relativo controle e imaginava estar, devido ao seu importante status na organização, longe de qualquer perigo, aos poucos vai se vendo encurralado. As dificuldades com Jesse, a perda de prestígio perante Gus e a investigação conduzida por Hank colocam-no dentro de uma situação em que ele tem de escolher entre a sua sobrevivência e de sua família e a continuação do seu trabalho. No episódio "Fim dos Tempos", temos o protagonista situado nessa tensa e quase irremediável posição e, em minha opinião, o melhor episódio, até aqui, de todo o seriado, com um final de arrepiar os cabelos e de tensão absoluta.
Por sinal, finalmente somos apresentados ao passado de Gus Fring. Ao conhecer melhor a sua história de origem, também conseguimos compreender a psicologia por trás desse fascinante e enigmático personagem, bem como as suas motivações e a rivalidade contra o Cartel de Salamanca, que, nesta temporada, alcança o ápice.
Se não fosse pelos primeiros episódios, que realmente são um pouco mais "fracos", daria uma avaliação maior. Apesar disso, é importante ressaltar que a quarta temporada é, sem dúvida, de alto nível e entrega, em sua reta final, alguns dos grandes e mais marcantes momentos da série.
A terceira temporada de "Breaking Bad" começa no momento exatamente posterior aos acontecimentos da segunda, o que significa que já se inicia com as personagens encarando as consequências do ocorrido no season finale anterior. Após um início um tanto lento, no entanto não menos importante para a história, a trama vai, aos poucos, intensificando o drama e a ação e, em meio a inúmeras reviravoltas, encerra-se de maneira eletrizante e imprevisível.
Ao longo da temporada, acompanhamos o trabalho de Walter se profissionalizando, agora inserido na mega organização encabeçada por Gus Fring, o que traz maiores retornos financeiros, mas também demanda responsabilidades e compromissos igualmente maiores. Aliás, Gus é, com certeza, uma das figuras mais fascinantes do seriado. Enigmático, calculista e frio, Fring consegue ser um pragmático homem de negócios e, ao mesmo tempo, também ser um ameaçador e perigoso traficante, estando sempre dois passos à frente. Sob o seu disfarce como dono de um restaurante e empresário local, coloca-se em uma posição estratégica de proximidade tanto com a polícia quanto com cartéis mexicanos sem quaisquer suspeitas.
A vida pessoal de Walt, por outro lado, é a parte da trama que mais convive com transformações, em um momento no qual ele e Skyler tentam lidar com os problemas em seu casamento. A metamorfose de Skyler na temporada é muito bem construída, em que ela, passada a fúria e a consternação perante a vida dupla do seu marido, enfim aceita a realidade. Compreendendo que entregá-lo à polícia e tornar a história pública iria gerar um escândalo na sociedade que seria insuportável à família, em especial ao seu filho, ela prefere o caminho mais "confortável" e manter o segredo somente entre eles dois. No entanto, ao também entender que esse caminho a tornaria cúmplice no crime, ela, já estando envolvida nas ações cometidas por Walt, mergulha de cabeça em tudo isso e ativamente age para ajudar a encobrir a origem do dinheiro, sobretudo por que tal atitude também protegeria a si própria e a seu filho.
As duas "vidas" de Walt, inclusive também em decorrência do envolvimento crescente de sua esposa, vão se entrelaçando e quase se tornando uma só. Dividindo-se entre os sentimentos de culpa/precaução e a ambição desmedida pelo dinheiro, o protagonista, em meio ao turbilhão de mudanças que não param de ocorrer em sua rotina, tem os seus conflitos internos e dúvidas elevados ao máximo. No início, deseja abandonar o negócio, mas, aos poucos, é convencido, por outros e também por ele próprio, a aceitar aquilo que vem fazendo, a buscar aumentar o seu faturamento e a se tornar cada vez mais Heinseberg e cada vez menos Walter White.
Também é interessante observar como os arcos de todos os personagens, de maneira direta ou indireta, eventualmente acabam se conectando. E não de forma forçada, mas naturalmente, em que as peças vão se encaixando, como em um quebra cabeça, até o desfecho. Um desses casos é a história de Hank - que, assim como Marie, é um personagem que aqui cresce bastante, dando continuidade ao que vinha ocorrendo desde a temporada passada - e a sua busca por encontrar o misterioso Heinseberg, que o leva até Jesse e o coloca em meio a uma disputa de cartéis, gerando um dos momentos mais tensos da trama.
O único ponto que me decepcionou um pouco foi exatamente Jesse. Após o trauma sofrido com a morte de Jane e o período que passou em recuperação, ele retorna com mais foco e um melhor entendimento de seus problemas pessoais. No entanto, isso dura poucos episódios e ele logo retorna a tomar decisões incrivelmente estúpidas e irresponsáveis, mesmo agora tendo bastante dinheiro e inserido em um emprego estável graças a Walt. No ápice dessa estupidez, encontram-se o roubo da metanfetamina de Gus - o que poderia colocar ele e Walt em perigo - e a tentativa de vender drogas a pessoas que estavam tentando se livrar do vício, o que é um tanto surpreendente dado o que ocorreu com sua namorada pouco tempo antes. Ficou a sensação, pelo menos para mim, que o desenvolvimento dessa personagem várias vezes andou em círculos e pouco evoluiu, o que o tornou um tanto irritante em diversos momentos e, sem dúvida, me impede, em meio a tantos positivos, de dar uma avaliação maior a essa temporada.
Em resumo, a terceira temporada mantém um alto nível de qualidade - embora admito que gostei mais da anterior, amplifica tudo aquilo que havia sido visto até então e ainda encontra tempo para surpreender os espectadores com um roteiro bem amarrado. Além disso, o desfecho repleto de tensão já nos deixa pronto e ansioso para logo prosseguir a acompanhar a história.
Em sua segunda temporada, "Breaking Bad", agora também contando com um maior número de episódios, definitivamente mostra a que veio. Além de expandir a quantidade de personagens e desenvolver/melhor explicar o passado de outros previamente presentes, o seriado, com brilhantes direção e roteiro, leva a história a um outro patamar.
Em suma, é mostrada a dificuldade para Walter, à medida em que a sua operação com Jesse vai crescendo, de conciliar a sua vida pessoal com as suas atividades ilícitas e secretas, que, por sua vez, vão consumindo cada vez mais o seu tempo. Da mesma forma, é interessante acompanhar a alternância entre as duas personalidades presentes no protagonista - Walter e Heinseberg - e como ambas entram em conflito, com uma, eventualmente, se sobrepondo à outra.
Como mencionado, novos personagens também são apresentados e representam uma bela adição à trama, em especial Saul Goodman, que é um dos mais interessantes da história, tanto pelo carisma quanto, digamos, pela malandragem. Também é importante mencionar como algumas pontas soltas deixadas na primeira temporada acerca das personagens principais são agora melhor explicadas, sobretudo o passado de Walter e Skyler e antigos parceiros que ambos tiveram e que voltam às suas vidas de diferentes formas.
Um dos aspectos que mais me fascinou é como a história flui naturalmente, com os episódios geralmente retratando eventos diretamente em sequência, sem qualquer tipo de intervalo ou salto temporal e com um acontecimento após o outro. Isso prende a atenção do espectador e gera um dinamismo à série, mas sendo feito com um bom ritmo e sem atropelamentos.
Logo, se a primeira temporada foi boa, mas um pouco curta e talvez abaixo da grande reputação que o seriado recebe, "Breaking Bad" dá o recado, na segunda temporada e de forma veemente, de que não será somente mais uma boa série que fica esquecida na prateleira, mas que está nos levando para algo grande, de alto nível e que pretende deixar a sua marca na televisão.
Depois de muito tempo adiando e postergando por diversas razões, finalmente decidi assistir a essa série tão aclamada. Mesmo ainda em sua primeira temporada, que provavelmente não deve ser o ápice do seriado, "Breaking Bad" já se mostra uma produção diferenciada, criativa e de boa qualidade, o que me deixa intrigado para continuar acompanhando a continuação dessa história nas temporadas seguintes.
Não dá para negar que a ideia de um professor de química utilizando os seus conhecimentos para não somente produzir drogas, mas também para entrar a fundo no submundo do tráfico como uma tentativa desesperada de conseguir dinheiro é, no mínimo, bem interessante e inusitada. Pessoalmente, sou bastante atraído por histórias que aproximam personagens de realidades e personalidades completamente diferentes, e, sem dúvida, Walter White e Jesse Pinkman se encaixam nessa proposta. Sendo dois indivíduos que não poderiam ser mais distintos entre si nem se tentassem, tornam-se, exatamente por isso, uma dupla tão eficiente no objetivo de prender a atenção do espectador, que fica ansioso para ver até onde essa aventura vai parar.
Quanto a White especificamente, é um protagonista bastante complexo. À princípio, começa a fabricar drogas pois quer deixar uma boa quantia, em dinheiro, à família em decorrência do seu diagnóstico de câncer. No entanto, em dado momento na trama, é apresentada a ele uma nova alternativa para obter dinheiro, inclusive a um possível tratamento, e o mesmo a recusa para continuar vendendo droga. Dessa forma, fica claro que as suas ações não são motivadas somente pela parte financeira, mas também por um desejo de, após muito tempo seguindo regras à risca e acumulando frustrações, seguir o seu próprio caminho e assumir o rumo de sua vida sem precisar obedecer a nada ou abaixar a cabeça para ninguém. Sem mais nada a perder, ele agora se sente mais confiante para fazer aquilo que quer e assumir riscos.
As únicas críticas que faço é que, primeiramente, os personagens secundários não são exatamente os mais interessantes e poderiam ter sido melhor explorados, muitas vezes servindo apenas como alívio cômico e sem grande importância ao arco principal - no entanto, creio que isso se deve à curta duração da primeira temporada e deve ser corrigido nas próximas. Em segundo lugar, alguns acontecimentos são um pouco forçados, como White explodindo um carro em plena luz do dia em um posto de gasolina e a cena da "negociação" com Tuco no quartel do traficante.
É um bom e promissor começo para o seriado, ainda não fazendo jus a toda a fama construída em seu redor, mas contando, ao seu próprio ritmo, a história e desenvolvendo bem os protagonistas e suas motivações. Ao final, ficamos com o gosto de "quero mais" e imagino que isso será atendido nas temporadas seguintes.
Em "Death by Lightning", é retratada uma das histórias mais curiosas e absurdas da política americana - e que, como é mencionado no próprio início do filme, ficou por muito tempo "esquecida". Para quem, como eu, é apaixonado por história, a trajetória da ascensão de James Garfield, da pobreza à política e do anonimato à presidência, já seria, por si só, fascinante o suficiente. No entanto, a trama torna-se ainda mais interessante ao adicionar-se, em meio a tudo isso, a figura de Charles Guiteau, um louco que, tomado por delírios de grandeza, foi eternizado para sempre ao assassinar o presidente que havia ajudado a eleger, porém não da forma que gostaria.
Em primeiro lugar, é preciso destacar os aspectos técnicos, pois a ambientação é espetacular, com uma reconstrução muito bem feita dos EUA do final do século XIX, seja pelo cenário, seja pelo figurino e retratação das personagens. Aliás, falando das personagens, eu diria que a escolha do elenco não poderia ter sido melhor. Todos os atores escolhidos para os principais papéis, destacando aqui Michael Shannon, Matthew Macfayden e Nick Offerman, não apenas apresentam ótimas performances, mas também, fisicamente, assemelham-se bastante com as pessoas reais que interpretam.
Quanto ao enredo, é óbvio que a minissérie, como toda produção artística, coloca algumas coisas que não ocorreram de fato, mas é seguro dizer que o número de imprecisões históricas aqui apresentado é aceitável por motivos de dramatização, com o roteiro mantendo-se fiel à verdade durante a maior parte do tempo e explorando bem os arcos dos dois personagens principais. No entanto, ressalto que alguns aspectos poderiam ter sido melhor explicados, como a derrota eleitoral de Cockling e o período entre a tentativa de assassinato de Garfield e a chegada de Arthur à presidência.
Em linhas gerais, é, ressalvas feitas, uma boa produção tanto para quem gosta de história quanto para aqueles que não gostam tanto do gênero, mas apreciam um drama bem construído e tramas verdadeiras que parecem ficção. Recomendado.
Retratar a vida de Ayrton Senna é sem dúvida uma daquelas tarefas que podem ser consideradas, ao mesmo tempo, como difíceis por um lado e fáceis pelo outro. Difícil por se tratar de um personagem considerado, com todo o merecimento, uma lenda do automobilismo e um herói nacional, logo é sempre bom ter cuidado com a forma como se irá representar alguém desse "tamanho" - isso sem falar de outras famosas pessoas envolvidas. E fácil por ser um indivíduo que viveu uma vida repleta de acontecimentos marcantes, então não falta material a ser utilizado.
Dito isso, posso dizer que fiquei positivamente surpreso com o nível desta produção e com a qualidade da minissérie. Com o desafio que tinham em mãos, creio que os diretores e roteiristas conseguiram fazer um bom trabalho, sendo bastante fiéis, na medida do possível, aos fatos verdadeiros e mesclando-os, de maneira aceitável, a alguns eventos fictícios que contribuem com a dramatização e o desenrolar da trama.
No entanto, dois elementos merecem um destaque maior. O primeiro é a filmagem das cenas de corrida. Com uma mistura de excelentes direção, edição e efeitos visuais, essas cenas são simplesmente eletrizantes, transmitindo forte emoção e prendendo bem a atenção do espectador, que é, em tais momentos, "imerso" nas pistas da Fórmula 1. E o segundo é o elenco, que parece ter sido "escolhido a dedo", com atores que não somente são fisicamente bem semelhantes aos personagens que interpretam, mas também possuem ótimas performances na tela.
Único ponto que me incomodou, e que infelizmente se arrasta do primeiro ao último episódio, foi a insistência com a personagem interpretada por Kaya Scodelario, que é fictícia e, sinceramente, não somente não agrega muito a trama, mas também tem a presença um tanto "forçada". Nada contra a Kaya, que é uma boa atriz, mas parece que algum produtor quis colocá-la no filme e tiveram que arranjar um jeito de fazer isso.
Ressalvas feitas, a minissérie é boa, sendo divertida, eletrizante e emocionante. Recomendo.
Esta temporada, devo admitir, deixou-me com um misto de sentimentos. O seriado, mais uma vez, mostrou a sua capacidade de expandir o universo da franquia, mas acredito que o roteiro perdeu-se um pouco, ao longo do processo, em sub tramas que não levaram a lugar algum. A experiência proporcionou diversos momentos interessantes e cenas eletrizantes, mas também forneceu determinados elementos um tanto desnecessários e que tornaram a narrativa enfadonha.
Os fãs de Star Wars, que sabem de antemão que esta série se trata de um prólogo de "Rogue One", já tem noção de quais personagens sobrevivem e do que acontece no final, isto é, que os rebeldes, com Cassian Andor, conseguem obter os planos da Estrela da Morte. O grande interesse, em "Andor", não é saber o que ocorre ao término da história, porém saber como as coisas ocorrem.
Dessa maneira, todos aqueles acontecimentos e arcos secundários que estão presentes e não adicionam algo - ou muito pouco - a trama principal, naturalmente, provocam um certo desconforto no espectador e tornam o desenrolar da história um tanto "arrastado". Quanto digo isso, refiro-me ao interminável casamento chandrillano, o embate entre aqueles rebeldes nos primeiros episódios e boa parte das cenas envolvendo os Ghorman. Por outro lado, os esforços do agente rebelde infiltrado no BSI, que é fundamental para a obtenção dos planos imperiais e central para o encerramento da própria série, não é mostrado e torna-se apenas uma "nota de rodapé".
Sem dúvida, a série mantém grandes atuações, trilha sonora e efeitos visuais, mas a queda de qualidade no roteiro é considerável e perceptível. Esta segunda - e final - temporada não é ruim, mas poderia ter menos episódios e mais objetividade.
Existem séries em que o começo não impressiona tanto e é lento, com o espectador apenas precisando ter um pouco de paciência nos primeiros episódios para, ao final, ser completamente recompensado. Pois bem, esse é o caso de "Andor", que, em meio a tantas produções da Disney decepcionantes no universo Star Wars, consegue mostrar qualidade e brilhar ao manter a essência da saga e, de maneira simultânea, imprimir a sua própria identidade e apresentar novidades aos amantes de "guerra nas estrelas".
O seriado acompanha um grupo de personagens que vive em constante esconderijo em relação ao Império. Logo, é natural que, com eles frequentemente estando fugindo de algo e tendo que ser cuidadosos, não exista, no início, muito espaço para diálogos. Embora faça sentido, isso dificulta, ao público, compreender melhor o que está ocorrendo, deixando-nos no "escuro".
Ao longo da temporada, no entanto, pouco a pouco as "peças" da trama vão se encaixando e tudo vai ficando mais fácil de se entender. Além disso, acompanhamos cada personagem nas suas sub tramas particulares, o que nos permite compreender suas motivações e histórias de origem e fornece uma maior profundidade a história, que deixa de ser mais um dentre vários "spin off" de Star Wars para se tornar um drama muito bem construído.
Os episódios finais, sem dúvida, são o ponto alto, apresentando um ritmo intenso e eletrizante, em uma excelente combinação de enredo, direção, trilha sonora e atuações. Recomendado.
A essa altura, não deveria me surpreender, mas é fascinante como Black Mirror, mesmo com a difícil tarefa de desenvolver uma história diferente a cada novo episódio, mantém o alto nível de qualidade, em média, mostrado nas temporadas anteriores. Naturalmente, alguns episódios me agradaram mais do que outros, mas em linhas gerais, o seriado preserva a sua criatividade e a sua capacidade de surpreender o espectador, bem como o visual distópico e futurista.
O primeiro episódio talvez seja o que mais se aproxima da nossa realidade, em uma sociedade que se preocupa cada vez mais com as aparências do que propriamente com a essência das coisas e em um mundo em que cada vez mais as relações artificiais se sobrepõe as relações verdadeiras e humanas. Neste caso em particular, essa situação é levada ao extremo, com o intuito de ilustrar o destino de uma sociedade que supervaloriza a aparência em detrimento da humanidade e da sinceridade.
"Shut up and dance", o terceiro, por sua vez, é, sem dúvida, aquele que mais prende a atenção do público, nos mostrando até onde uma pessoa pode ir para não ter os seus "podres" revelados. O seriado consegue transmitir, com perfeição, a tensão vivida pelos personagens, construindo bem o suspense e nos trazendo revelações surpreendentes no final. A atuação do elenco também merece ser bastante elogiada.
O quinto é aquele, em minha avaliação, com o plot twist mais chocante e inesperado, realizando uma interessante crítica não apenas a "indústria da guerra" de uma maneira geral, mas também a noções de eugenia e preconceito étnico. Creio que é possível até fazer diversos paralelos com o holocausto e a perseguição aos judeus.
Os outros episódios são bons, mas não são tão brilhantes ou marcantes como esses que eu mencionei anteriormente. O último até tinha bastante potencial, mas o final me pareceu um tanto mal elaborado e inconclusivo, e a excelente história que é construída acaba por ter um encerramento pouco satisfatório.
Em minha opinião, a mais fraca das três temporadas. A série preserva o visual e o estilo já consagrados, mais uma vez com direção, fotografia e trilha sonora impecáveis. No entanto, no roteiro, que considero ser o principal, o seriado deixou bastante a desejar, apresentando-nos uma história monótona, arrastada, com inúmeros "furos" no enredo e pouco, ou quase nenhum, desenvolvimento das personagens.
No início, a temporada até parece ser interessante e desperta muita curiosidade no espectador, mas a demora no desenrolar dos acontecimentos torna a trama excessivamente enfadonha. Pessoalmente, não vejo problema nos roteiristas adotarem um ritmo mais cadenciado e deixarem o público "respirar" um pouco, porém aqui passou bastante do ponto adequado.
No entanto, o principal problema não é o ritmo, mas o pouco desenvolvimento das personagens e das escolhas que fazem ao longo da história, que são, no mínimo, bastante questionáveis. Também fiquei com a sensação de que Mike White poderia ter ido além e se arriscado mais na sub trama envolvendo a família Ratliff, cuja história muitas vezes acaba girando em círculos e não saindo do lugar.
Também não entendi o pouco aproveitamento do personagem de Jon Gries, o misterioso Greg Hunt, que aqui torna-se secundário e praticamente dispensável, e o plot twist envolvendo o personagem de Walton Goggins, que tem pouco sentido e é mal explicado.
Os "furos" no roteiro foram inúmeros. Por que o dono do hotel não simplesmente os expulsou de lá de forma prévia? Porque Rick retornou ao hotel do cara que havia tentado matar? Por que Sri Tala contrataria um segurança que ela teve praticamente de implorar para matar o indivíduo que assassinou o seu marido? Além disso, as três amigas presenciam um assassinato e na cena seguinte estão no barco como se nada tivesse ocorrido. E outra coisa: a cena de sexo entre os irmãos é grotesca e não adiciona nada ao enredo.
Em linhas gerais, acredito que os criadores desperdiçaram muitas oportunidades aqui, o que é uma pena, pois o visual deslumbrante da Tailândia e o ótimo elenco mereciam uma história melhor escrita.
Serei obrigado a discordar, com todo respeito, de certos comentários negativos que li por aqui. Pessoalmente, já imaginava que seria muito difícil para a série não apenas manter o nível da primeira temporada em termos de qualidade, mas também proporcionar, ao espectador, a mesma sensação de "novidade" garantida antes. No entanto, acredito que "Ruptura", em sua segunda temporada, consegue ainda manter um bom nível - ou, pelo menos, acima do que estamos acostumados a ver ultimamente na indústria do audiovisual - e preservar a essência da história de nos surpreender, provocar reflexões e, sem dúvida, "embrulhar" a nossa mente.
Em termos de direção, fotografia e atuações, em primeiro lugar, creio que seja unanimidade, mesmo dentre aqueles mais "insatisfeitos", que o seriado prossegue com elevada qualidade. A produção, em linhas gerais, é muito bem feita, conservando a estética desse interessante "universo", com aquela fascinante mistura do "retrô" com o futurista, e do moderno com o clássico.
O roteiro, com certeza, é o "ponto de discórdia", que provoca variadas reações, positivas e negativas, para os mais diversos tipos de espectador. Em minha humilde opinião, isso provavelmente se deve ao fato da primeira temporada ter, de maneira intencional, deixado muita coisa "em aberto", o que abriu a possibilidade para diversos caminhos pelos quais a história poderia trilhar e inúmeras teorias criadas pelos fãs. Diante disso, quando os roteiristas, então, tem que decidir por onde seguir, é natural que nem todos fiquem satisfeitos. No meu caso, posso dizer que fui pego de surpresa por muita coisa que aconteceu e algumas cenas, admito, eu teria feito diferente, mas, apesar disso, gostei bastante do que vi.
Sempre que uma série vai para uma segunda temporada, com raras exceções, possui como missões principais dar continuidade ao que ficou em aberto, expandir a história - seja com novos personagens ou aprofundando os já existentes - e manter a essência da história - porém, sem abrir mão de trazer novos elementos. "Ruptura", ao meu ver, consegue isso, ao aprofundar os personagens da primeira temporada, trazer mais explicações sobre a Lumon e sobre o "andar de ruptura" e agregar novos acontecimentos, surpreendendo e envolvendo o espectador sem desfigurar a característica "chave" do enredo, que é, em algo que lembra muito "Black Mirror", provocar reflexões e emoções em meio a situações absurdas, inesperadas e criativas.
O principal tema da primeira temporada, creio, foi "liberdade de escolha", em um contexto no qual os internos estavam condenados, por decisão dos seus externos respectivos, a viver eternamente naquele andar, apenas se dedicar a um trabalho que eles desconheciam e obedecer às ordens dos superiores. Em outras palavras, estariam condenadas a viver as consequências de escolhas que não haviam sido feitas por eles, o que os faz se rebelar diante daquilo, buscar o exterior e alertar quem está lá fora sobre o que acontece ali dentro. Na segunda temporada, por sua vez, o tema central é a dicotomia entre corpo e identidade, pois, ao conhecer melhor os personagens, percebemos, cada vez mais, as diferenças entre os internos e os externos, que compartilham o mesmo corpo, mas possuem personalidades, desejos e formas de enxergar o mundo diferentes. Ao mesmo tempo que são exatamente a mesma pessoa, também são pessoas completamente diferentes, a tal ponto de sentirem sentimentos de inveja, ódio e distanciamento perante um a outro em dados momentos.
Ao longo da trama, descobrimos que a Lumon usa Gemma como uma cobaia para criar aquilo que parece ser o "interno perfeito", isto é, sem qualquer resquício, tanto em termos de personalidade quanto em memórias e emoções, do seu externo ou do mundo exterior, sendo assim perfeitamente manipulável pela empresa. No entanto, no último episódio, vemos que, apesar de todos os esforços empreendidos pela companhia, Gemma mostra afeição a Mark, ou, pelo menos, afeição suficiente para confiar nele e sair daquela sala em que estava presa.
A grande ironia de tudo é que, se o experimento não foi totalmente eficaz em Gemma, foi, de certa maneira, eficiente em Mark, pois, apesar de cumprir a missão de salvar a esposa do seu externo, ele não possui a confiança e nem a afeição suficientes ao seu externo para decidir ir ao exterior, preferindo ficar no "andar de ruptura" com Helly. Sendo assim, a "total separação" entre interno e externo, tão desejada pela Lumon, é o que faz o protagonista não abrir a porta naquele fatídico momento. O Mark externo, ao fazer a ruptura e aprisionar o seu interno, queria se esquecer da esposa, mas, no momento em que agora precisava do interno para salvar a esposa, foi vítima de suas próprias ações, isto é, o interno, criado para não ter sentimentos por Gemma, não é capaz de abrir mão de sua vida e de quem ele realmente ama por uma pessoa que ele desconhece - e foi criado para desconhecer. Um final, sem dúvida, trágico, mas finais trágicos também tem a sua beleza e qualidade, e este é um deles.
Uma série muito boa, que mantém o alto nível, surpreende o público e faz a nossa cabeça trabalhar bastante. Apesar de preferir a primeira temporada, fiquei muito satisfeito com o que vi aqui e, sendo assim, recomendo.
Vinland Saga (2ª Temporada)
4.3 48Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Vinland Saga (1ª Temporada)
4.3 69 Assista AgoraSendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
Avatar: A Lenda de Aang (3ª Temporada)
4.7 326 Assista AgoraDe todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Recomendado para todas as idades.
Spartacus: Sangue e Areia (1ª Temporada)
4.5 645 Assista AgoraRetratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Roma (2ª Temporada)
4.4 103 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Roma (1ª Temporada)
4.4 154 Assista AgoraRetratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.
Better Call Saul (6ª Temporada)
4.6 430 Assista AgoraO último capítulo de "Better Call Saul" encerra, em grande estilo e alto nível, a saga do icônico Saul Goodman, completando um dos arcos mais bem desenvolvidos e bem escritos da história da televisão. Apresentando um tom mais dramático, esta temporada traz os eventos que puseram fim a sua vida passada como Jimmy, a conexão direta com a trama de "Breaking Bad" - trazendo mais personagens da série original - e a tão aguardada conclusão da história do protagonista.
Os primeiros episódios dão continuidade aos acontecimentos da temporada anterior, com foco no conflito entre os cartéis de Los Pollos e dos Salamanca, e nos impactos dessa guerra nas vidas das personagens. Enquanto Lalo finge estar morto e prepara, minuciosamente, a sua vingança, Nacho se esconde e luta pela sua próprio vida ao perceber que está sendo usado como bode expiatório, com a responsabilidade pelo atentado sendo atribuída exclusivamente a ele.
Se todos dão a morte de Lalo como certa, Gus, perspicaz como sempre, consegue enxergar que algo não está certo e levanta suspeitas acerca do destino do adversário. Neste momento, acompanhamos uma situação incomum nas duas séries, com Fring em um estado de paranoia, medo e tensão do eventual retorno de quem havia mandado matar e da possibilidade dos seus segredos serem revelados. O membro do clã Salamanca é aquele que consegue deixá-lo na posição mais vulnerável já vista pelos espectadores.
Quanto a Jimmy e Kim, presenciamos uma relação extremamente complexa. Se, por um lado, ambos se amam, também é possível afirmar que essas duas pessoas, juntas, acabam trilhando um caminho perigoso para si e para quem está próximo, com os seus golpes e atitudes imorais. É curioso, mas, ao mesmo tempo em que são perfeitos um para o outro, igualmente são tóxicos, com um relacionamento que acaba incentivando os seus vícios e mentiras, em um processo quase que autodestrutivo e que é intensificado com o envolvimento do protagonista com o cartel mexicano.
Na reta final da temporada, temos algumas das cenas mais intensas e emocionantes de todo o seriado, na medida em que somos apresentados ao que ocorre com Saul após os eventos de "Breaking Bad" e como a sua saga irá se encerrar. Mesmo tendo que se esconder das autoridades, ele, como é recorrente em sua vida, não consegue "se ajudar" e retorna a se envolver com atividades criminosas, que acabam, por fim, revelando a sua verdadeira identidade e o deixando exposto. É como se o protagonista fosse incapaz de viver uma vida normal e abandonar, por completo, a sua rotina de golpista.
Então, quando encontra-se encurralado e não tem mais para onde correr, Saul decide, pela primeira vez, agir com honestidade e, passando a limpo todos os seus erros e pecados cometidos durante a vida, confessa tudo. E não por que gostaria de, por conta disso, ser um herói, mas para fazer as pazes com a única pessoa viva que ainda verdadeiramente amava: Kim. Após uma vida inteira de atalhos e tirando vantagens dos outros, ele, enfim, arrepende-se de suas ações e encara as consequências de suas escolhas.
O roteiro, nesse sentido, é muito bem elaborado, ao longo do último episódio, para justificar as escolhas finais do protagonista, em especial os flashbacks de conversas com Mike, Chuck e até Walter e da reflexão acerca de arrependimentos e viagens no tempo. Enquanto uma viagem no tempo realmente é impossível, como bem descreveu Walter, nunca é tarde para se arrepender dos seus erros, se reconciliar com quem ama e mudar de rumo, e é isso que Jimmy faz.
Em linhas gerais, considero que "Better Call Saul" não está no mesmo patamar que "Breaking Bad", mas, sem dúvida, está bem próxima e, com certeza, é uma série muito boa e de alta qualidade, estando no rol das melhores já produzidas. O seu "series finale", no entanto, eu julgo como sendo até superior em comparação ao do seriado original, com um encerramento digno do elevado nível de direção, roteiro e atuação apresentados pelo show ao longo de suas seis temporadas e um ponto final ao brilhante universo construído por Vince Gilligan.
Better Call Saul (5ª Temporada)
4.6 331 Assista AgoraO quinto capítulo de "Better Call Saul" começa exatamente no momento em que se encerra a temporada anterior, isto é, com Jimmy iniciando uma nova trajetória enquanto advogado, desta vez com o nome "Saul Goodman". Apesar de, a princípio, parecer algo muito semelhante com o ponto de onde o seriado parte, com o protagonista aceitando pequenos casos "pro bono", logo percebemos que não é bem assim. Aqui, ele não vai mais tentar vencer obedecendo as regras do jogo e irá completamente abraçar o uso de suas artimanhas no mundo jurídico, sem qualquer pudor ou moralidade.
No entanto, se a ideia original era trabalhar com clientes que não tivessem mais ninguém para recorrer, como viciados e pequenos criminosos, Saul rapidamente se vê envolvido com velhos e novos conhecidos do meio do tráfico. Dentre eles, estão Nacho e Lalo, respectivamente, que, em meio a uma guerra com o Cartel de Los Pollos ,vão tendo problemas com as autoridades americanas. Ao solicitarem o auxílio legal do advogado, também mandam a ele realizar outros serviços à margem do lei, o envolvendo definitivamente nos negócios do cartel e o colocando no "olho do furacão" de uma disputa muito maior do que ele sequer imaginava.
Enquanto a vida de Jimmy muda por completo e além do que ele gostaria quando mudou de nome, acompanhamos Kim não apenas ainda em dúvidas em relação ao seu futuro profisional, mas agora também refletindo acerca de sua vida pessoal. No início, apesar de tolerar os seus truques e até gostar de alguns dos seus métodos, ela não vê com bons olhos a mudança de identidade do namorado e considera que também ele esteja indo longe demais. Em dado instante, ela se vê em uma encruzilhada entre o seu relacionamento com Jimmy, que vai se distanciando em meio a mentiras e desconfianças, e aquilo que ela tenta encontrar para a sua carreira. Quando a rotina de ambos se transforma devido a uma série de eventos, ela terá de decidir qual caminho seguir.
No arco da guerra entre os cartéis de Los Pollos e de Salamanca, vemos Mike questionando a continuidade de seus serviços e se tudo aquilo ainda vale a pena, ao mesmo tempo em que compreende que o seu trabalho, mesmo que imoral e sujo, é necessário para ajudar a sua família. Por outro lado, também é possível observar Nacho lutando para manter a confiança por parte dos dois cartéis e ainda costurar uma eventual saída para si e para o seu pai. Ambos os personagens têm muito em comum e trabalham juntos em busca de sobreviver nesse mundo.
Nesse contexto, Gus sente, os seus negócios "sangrando", de maneira crescente, em meio a essa barulhenta guerra do tráfico, o que o leva a tomar atitudes cada vez mais extremas e arriscadas a fim de proteger os seus interesses e manter os Salamancas distantes de seu território. Quanto a Lalo, um dos mais interessantes personagens desta temporada, vemos um homem que é, sem dúvida, muito mais inteligente do que aparenta ser e extremamente determinado a defender o nome e poder de sua família.
Essa é a parte do seriado que, até o momento, mais se assemelha a "Breaking Bad", inclusive com mais personagens da série original fazendo aparições. Pessoalmente, achei a quarta temporada um pouco melhor, mas esta também é muito boa e de altíssimo nível e, por enquanto, apenas atrás da temporada anterior em termos de qualidade. Ansioso para continuar assistindo.
Better Call Saul (4ª Temporada)
4.4 234 Assista AgoraA quarta temporada de "Better Call Saul" é mais uma amostra da capacidade do seriado em continuar elevando o seu nível. Iniciando exatamente do ponto em que a história parou, a série nos apresenta um roteiro, como sempre, muito bem amarrado, com os personagens sendo impactados pelos acontecimentos outrora mostrados e o arcos desenvolvidos, ao longo da trama, com competência. De maneira simultânea, acompanhamos tanto Mike mergulhando a fundo na organização de Gus quanto a transformação de Jimmy em Saul sendo, enfim, completa.
Já a partir dos primeiros episódios, a história começa de forma frenética e impactante, com Jimmy tendo que lidar com a trágica perda do irmão. No entanto, enganou-se quem imaginava que tal evento poderia levá-lo a uma mudança de comportamento ou a um sentimento de culpa, pois, na realidade, apenas fez com que prosseguisse, ainda mais, com seus esquemas e artimanhas. Com Chuck fora de cena, não somente desaparecia o seu parente mais próximo ainda vivo, mas também os últimos obstáculos remanescentes em seu caminho de trapaças e mentiras.
Nesse sentido, o protagonista, cada vez mais, vai abrindo mão dos poucos resquícios de moralidade e vergonha que ainda existiam em sua consciência. Se antes era apenas um advogado que usava de "atalhos", agora se tornava um verdadeiro criminoso e se relacionava com outros bandidos, sequer fazendo muito esforço para esconder isso de Kim. Ao criar conexões no mundo do crime, Jimmy estabelecia, sem perceber, a primeira clientela da sua futura identidade, Saul Goodman.
Quanto a Kim, é interessante acompanhar como ela, inicialmente devido ao seu amor por Jimmy, não apenas "passa pano" para as atitudes do namorado, mas também até o ajuda a "limpar a sujeira" das ações ilegais do namorado, mesmo sabendo, no fundo, que são erradas e arriscadas. Porém, se no começo a advogada fazia isso por motivos amorosos, aos poucos vemos ela começando a gostar de participar dessas artimanhas, sobretudo devido ao tédio que sentia com o seu trabalho regular e por conta de uma "crise existencial" que desenvolvida quanto a sua profissão.
A realidade é que Kim, por mais inteligente e determinada que fosse, sempre se sentiu atraída, mesmo que desaprovasse publicamente, pelo estilo "rebelde" de Jimmy e muitas vezes minimizava as atitudes ilegais do namorado. Nas temporadas anteriores, inclusive, ela, em determinadas ocasiões, até agia, junto com ele, em alguns golpes. Nesta temporada, entretanto, o que antes era apenas uma diversão momentânea passa a se tornar algo frequente, aprofundando a relação entre ambos - embora o último episódio dê a entender que isso não durará muito.
No arco envolvendo Mike/Gus, vemos os esforços do cartel de Los Pollos na ampliação da operação estabelecida por Fring, mais especificamente com a construção do laboratório. No caso, acompanhamos Mike tendo que tomar atitudes cada vez mais extremas e questionáveis para prosseguir trabalhando nesse meio. Além disso, também é parte importante da trama o cenário de adaptações ocorridas na Família Salamanca em decorrência do quadro de saúde de Hector, com a temporária ascensão de Nacho e o surgimento de um novo, e já bastante interessante, personagem, Lalo.
Esta temporada, portanto, realmente é melhor que as anteriores em termos de qualidade, o que confirma a tendência de subida de nível do seriado, com drama e humor na medida certa e um roteiro que desenvolve bem cada história sem deixar pontas soltas e encaixando todos os elementos na reta final. Aos poucos, o universo de "Breaking Bad" vai começando a aparecer e se montar cada vez mais, mas sem abandonar a identidade única construída por "Better Call Saul".
Better Call Saul (3ª Temporada)
4.4 317 Assista AgoraEm sua terceira temporada, "Better Call Saul" aprofunda não apenas a transformação de Jimmy em Saul, que vai se tornando cada vez mais evidente, mas também as disputas entre os irmãos McGill, que aqui chega ao seu ápice. Além disso, o seriado introduz, de maneira eficiente, vários personagens conhecidos de "Breaking Bad", sendo Gus Fring o principal deles. Com todos esses elementos, a produção dá uma melhora de qualidade em relação às temporadas anteriores e eleva o seu nível.
O arco principal segue sendo o conflito entre Chuck e Jimmy, que deixa de ser exclusivamente uma briga entre irmãos, de caráter pessoal, para se tornar uma disputa jurídica, que terá ramificações e impactos significativos tanto para a gigante HHM quanto para a carreira de ambos os advogados. O conflito será mais um momento em que o passado dos dois irmãos virá novamente à tona, assim como o complexo e difícil relacionamento existente entre eles. No quinto episódio, um dos melhores da série até o momento, presenciamos essa guerra familiar no seu ponto mais intenso.
As consequências da disputa jurídica com o seu irmão levam Jimmy a buscar outras formas de ganhar dinheiro e sobreviver, com o intuito de não deixar todas as despesas nas costas de Kim. No entanto, ao mesmo tempo, também o fazem retornar, um pouco mais, em sua antiga vida de bicos, golpes e artimanhas, que agora voltarão a ser o seu ganha pão.
Enquanto isso, também é muito bem desenvolvido o arco de Mike, que vê as suas desavenças com Hector Salamanca o colocando no meio de uma antiga rixa entre o traficante mexicano e Gus Fring. Este deseja prejudicar, discretamente, os negócios do rival, mas reserva um eventual assassinato a um momento oportuno e da forma mais cruel possível, pois entende, como ele mesmo diz, que meramente uma bala na cabeça seria muito humano. Nesse caso, é essencial relembrar o flashback mostrado em "Breaking Bad", que explica a razão do ódio de um em relação ao outro. Nesse sentido, Mike e Gus, com interesses em comum e um respeito mútuo, se ajudam e pavimentam o caminho para o que será uma longa parceria.
De forma geral, como dito antes, a série, que já vinha de duas boas temporadas, aqui, apesar de um início um tanto lento, sobe um degrau em termos de qualidade e proporciona grandes cenas em um roteiro novamente coeso e bem desenvolvido. Vale também destacar a atuação do elenco, que se destaca em meio a um seriado com já tantas qualidades.
Better Call Saul (2ª Temporada)
4.3 361 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Better Call Saul" mantém o bom nível de qualidade apresentado em sua estréia e prossegue a saga da transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman. Com um roteiro bem amarrado, boa direção e mais uma grande performance do elenco, o seriado aprofunda, sobretudo, a relação entre Jimmy e o seu irmão, fazendo o espectador compreender melhor o passado de ambos e o complexo relacionamento que estabelecem entre si, que é um dos pontos centrais da história.
Seja por cenas de flashback ou simplesmente por falas das personagens, Vince Gilligan explica a mágoa que Chuck sente por Jimmy, apesar de ainda nutrir amor por ele, o que nos ajuda a entender a dificuldade que possui em aceitar que o irmão mais novo pode mudar. Essa marca que o passado lhe deixou é forte e faz com que ele não consiga enxergar os esforços de Jimmy em ser diferente, o que, ironicamente, acaba sendo o motivo pelo qual o irmão mais novo acaba desistindo de ter qualquer mudança e mergulha de vez em uma vida de trapaças e artimanhas.
Nesta temporada, inclusive, temos Saul aparecendo com cada vez mais força, seja nas vestimentas ou nas atitudes de Jimmy, que, tendo a sua tentativa de mudança rejeitada pelo irmão, busca ser aquilo que realmente quer ser, independente do que os outros desejam. Os poucos princípios morais, éticos e legais que restavam no protagonista, e que eram mantidos para tentar agradar a Chuck, vão sumindo aos poucos, à medida em que ele vai procurando percorrer o seu próprio caminho na vida, e não o caminho que traçaram para ele.
O arco de Mike também vai se tornando cada vez mais interessante, com ele começando a se envolver com o Cartel de Salamanca. Isso, junto a necessidade de obter mais dinheiro e de proteger a sua família, o força a ter de entrar cada vez mais no submundo do crime e a ter, com maior frequência, que agir de forma drástica e arriscada.
Aliás, a moralidade por trás das escolhas que os personagens fazem prossegue sendo um dos pontos fascinantes da série. Ao longo da trama, presenciamos indivíduos consideravelmente imperfeitos, mas com bom coração e boas intenções, sendo levados a caminhos obscuros devido a escolhas moralmente complexas e questionáveis e aproximando, por exemplo, Jimmy e Mike a quem eles são em "Breaking Bad". Dessa forma, somos levados a refletir até quão longe vale a pena ir para tentar fazer a coisa certa.
O encerramento da temporada, em particular, é muito bom, o que deixa o espectador ansioso para continuar a história.
Better Call Saul (1ª Temporada)
4.3 833 Assista AgoraSão raros os casos em que um personagem de uma série consegue inspirar um outro seriado inteiro baseado em si e, além disso, com a obra derivada apresentando qualidade e sucesso semelhantes à produção original. No entanto, em "Better Call Saul" essa rara situação ocorre graças, sobretudo, ao carisma do excêntrico e icônico advogado Saul Goodman, que aqui ainda não se tornou completamente aquele personagem que conhecemos, mais uma vez interpretado com excelência por Bob Odenkirk, e ao roteiro bem elaborado por Vince Gilligan.
Na série, acompanhamos Jimmy McGill antes de se tornar o Saul Goodman, em uma época em que o protagonista, com o intuito de se desvencilhar de seu conturbado passado e de cumprir uma promessa feita ao irmão Chuck, ainda procurava ser um advogado bem sucedido seguindo a lei e trabalhando de forma relativamente honesta - ou, pelo menos, com o máximo de honestidade que conseguia ter. Caminhando na linha tênue que separa aquilo que é permitido e o que não é, Jimmy vai sobrevivendo com dificuldades e lutando para subir na profissão.
No caso, percebemos que o seu charme, lábia e excentricidade, tão úteis quando era um mero golpista em sua terra natal, não apresentam a mesma eficácia no meio jurídico do Novo México. Aqui, McGill, trabalhando sozinho na defensoria pública, limita-se a casos fadados ao fracasso e clientes claramente criminosos, o que o faz ganhar a fama de "advogado de porta de cadeia", não sendo, dessa forma, devidamente reconhecido ou levado à sério pelos colegas de profissão.
Mesmo vez ou outra ainda apelando para antigas artimanhas e estratégias performativas, o sonhador advogado persiste em agir conforme a lei e, repleto de boas intenções, fazer a coisa certa. A sua atitude somente muda ao final da temporada, ao perceber que a promessa que havia feito a Chuck e todo o seu esforço não mudariam a forma como era visto e demorariam muito para lhe trazer algum retorno, com as suas ações passadas ainda fortemente impregnando a sua reputação. A escolha que fez foi tomada por si, mas, em parte, foi levado a tomá-la pela falta de reconhecimento que ele recebia, o que provoca uma forte empatia pelo espectador e fornece uma maior complexidade a um personagem que outrora poderia parecer apenas um mero alívio cômico.
A gradativa transformação de Jimmy em Saul é muito bem executada pelos roteiristas, ocorrendo gradualmente ao longo dos episódios. Outro mérito de Gilligan e companhia reside no fato de não tentarem imitar "Breaking Bad" ou sustentar este seriado em referências à história original, mas fornecerem, à "Better Call Saul", a sua própria identidade, com os seus próprios personagens - com exceção, por ora, de Jimmy e Mike - e arcos e um estilo que mescla, com competência, a comédia e o drama.
Uma boa primeira temporada para uma série que promete. Recomendado.
Breaking Bad (5ª Temporada)
4.8 3,1K Assista AgoraEm seu capítulo final, "Breaking Bad" encerra a história em grande forma, mantendo o alto nível de qualidade apresentado nas temporadas anteriores e, em diversos episódios, indo além. Aqui presenciamos a ganância de Walter White alcançando o seu ápice, com o protagonista em busca de construir o seu próprio império da metanfetamina. Tal cobiça contribui para sedimentar a sua completa transformação em Heisenberg - restando poucos traços de quem Walt outrora era, corroer a relação com as pessoas que amava e trazer as consequências máximas de suas ações a si e a sua família.
Nos primeiros episódios, acompanhamos as personagens principais - Walt, Jesse e Mike -tentando juntar os cacos após os eventos que encerraram a temporada passada. Ao mesmo tempo em que procuram se livrar de eventuais investigações policiais associadas às atividades de Gus Fring, o trio também busca reconstruir a operação estabelecida por seu antigo chefe. Nesse contexto, Walter, em um cenário de "vácuo de poder" no tráfico, vislumbra a possibilidade de enfim ter um império para chamar de seu, ainda guardando rusgas do seu passado e da fortuna que deixou de ter na Gray Matter, companhia que havia ajudado a fundar.
Neste momento, torna-se cada vez mais claro que, se a motivação inicial de Walt para entrar nesse negócio era simplesmente deixar dinheiro para a sua família, agora ele não fazia mais isso pelos seus filhos e esposa, ou pelo dinheiro, mas para si próprio e o seu ego. No entanto, quando aqueles ao seu redor começam a ter dúvidas se querem continuar com aquilo - Mike devido a sua neta, Jesse por um evento traumático envolvendo um garoto e Skyler pelo que houve com Ted e o que poderá ocorrer com sua família - e pretendem se afastar de Walt, este entra em colisão com as pessoas que se colocam entre ele e seus objetivos.
A ruína total - tanto de sua vida pessoal quanto de seus negócios - somente chega, porém, na segunda metade da quinta temporada, mais especificamente em um dos melhores, mais tensos e mais bem escritos episódios da série: "Ozymandias". Aqui, enfim vemos as consequências das escolhas de Walter batendo na porta de sua família da maneira mais intensa possível, o colocando em uma posição sem caminho de retorno e destruindo tudo aquilo que ele havia construído e buscado proteger.
Ao término, no "season finale", acompanhamos o protagonista, meses após o "furacão" que demoliu a sua vida, em uma trajetória para não deixar qualquer ponta solta, despendido-se das pessoas que amava e se vingando daqueles que contribuíram para a sua queda. Pessoalmente, acho que os dois últimos episódios poderiam ter explorado mais os impactos desses acontecimentos na vida de sua esposa e filhos, e acredito que essa foi uma oportunidade perdida. Além disso, a forma como ele se vingou de Lydia foi um pouco "forçada", pois, sejamos justos, seria impossível para ele colocar ricina em seu adoçante sem ser percebido. Isso sem falar da ameaça a Gretchen e Elliot, com Walt entregando todo o seu dinheiro a duas pessoas em que ele não confiava.
No entanto, se, por um lado, eu considero que algumas escolhas dos roteiristas não foram exatamente bem feitas ou à altura da qualidade da série, vale destacar que o episódio final apresenta um tom extremamente triste e melancólico, o que é correto para demonstrar o efeito das ações de Walt em sua vida. A cena final também carrega um forte simbolismo, com o protagonista encerrando em um laboratório, cercado por aquilo que havia se transformado em sua paixão e, ao mesmo tempo, na causa de sua destruição. Ironicamente, a pessoa mais viciada em metanfetamina nunca a consumiu, mas apenas produzia.
Breaking Bad (4ª Temporada)
4.7 1,2K Assista AgoraLogo em seu primeiro episódio, a quarta temporada de "Breaking Bad" inicia de forma eletrizante, com a continuidade dos eventos que encerraram a temporada anterior e da tensão entre Walter/Jesse e Gus, que será tema recorrente ao longo da trama. Nos episódios seguintes, a série, pelo menos ao meu ver, adota uma velocidade mais lenta e, em diversos momentos, excessivamente "arrastada", o que pode desagradar alguns. No entanto, em sua segunda metade, o seriado compensa, pois, daí até o final, a história engata em um ritmo frenético e eletrizante e se torna um verdadeiro furacão.
Um dos aspectos mais positivos desta temporada reside em Jesse, cujo desenvolvimento de sua personagem, que tanto faltou/estagnou em momentos anteriores, é aqui construído de maneira espetacular. Ao invés de simplesmente "se aceitar" como um drogado, ele enfim adquire definitivamente, após muita dificuldade e ajuda externa, foco em sua vida e busca, inclusive, realizar uma boa ação, ao ajudar Andrea e seu filho. Além do roteiro bem escrito, isso se deve também a excelente performance de Aaron Paul, que se destaca em meio a um elenco estrelado.
No entanto, à medida em que Jesse vai se tornando mais competente e importante, a situação de Walter, por outro lado, vai, gradativamente, se deteriorando. Sabendo que agora é o único químico e cozinheiro que Gus possui, Walt abusa desse privilégio e testa, ao máximo, os limites de sua liberdade perante Fring. Este, por sua vez, mostra novamente estar sempre "dois passos à frente" dos demais e compreende que o único caminho para resolver tal problema é afastando a dupla, minando a amizade que ambos haviam construído e tornando Walt cada vez menos insubstituível.
Em meio a tudo isso, Walter, que parecia finalmente ter tudo sob relativo controle e imaginava estar, devido ao seu importante status na organização, longe de qualquer perigo, aos poucos vai se vendo encurralado. As dificuldades com Jesse, a perda de prestígio perante Gus e a investigação conduzida por Hank colocam-no dentro de uma situação em que ele tem de escolher entre a sua sobrevivência e de sua família e a continuação do seu trabalho. No episódio "Fim dos Tempos", temos o protagonista situado nessa tensa e quase irremediável posição e, em minha opinião, o melhor episódio, até aqui, de todo o seriado, com um final de arrepiar os cabelos e de tensão absoluta.
Por sinal, finalmente somos apresentados ao passado de Gus Fring. Ao conhecer melhor a sua história de origem, também conseguimos compreender a psicologia por trás desse fascinante e enigmático personagem, bem como as suas motivações e a rivalidade contra o Cartel de Salamanca, que, nesta temporada, alcança o ápice.
Se não fosse pelos primeiros episódios, que realmente são um pouco mais "fracos", daria uma avaliação maior. Apesar disso, é importante ressaltar que a quarta temporada é, sem dúvida, de alto nível e entrega, em sua reta final, alguns dos grandes e mais marcantes momentos da série.
Breaking Bad (3ª Temporada)
4.6 858A terceira temporada de "Breaking Bad" começa no momento exatamente posterior aos acontecimentos da segunda, o que significa que já se inicia com as personagens encarando as consequências do ocorrido no season finale anterior. Após um início um tanto lento, no entanto não menos importante para a história, a trama vai, aos poucos, intensificando o drama e a ação e, em meio a inúmeras reviravoltas, encerra-se de maneira eletrizante e imprevisível.
Ao longo da temporada, acompanhamos o trabalho de Walter se profissionalizando, agora inserido na mega organização encabeçada por Gus Fring, o que traz maiores retornos financeiros, mas também demanda responsabilidades e compromissos igualmente maiores. Aliás, Gus é, com certeza, uma das figuras mais fascinantes do seriado. Enigmático, calculista e frio, Fring consegue ser um pragmático homem de negócios e, ao mesmo tempo, também ser um ameaçador e perigoso traficante, estando sempre dois passos à frente. Sob o seu disfarce como dono de um restaurante e empresário local, coloca-se em uma posição estratégica de proximidade tanto com a polícia quanto com cartéis mexicanos sem quaisquer suspeitas.
A vida pessoal de Walt, por outro lado, é a parte da trama que mais convive com transformações, em um momento no qual ele e Skyler tentam lidar com os problemas em seu casamento. A metamorfose de Skyler na temporada é muito bem construída, em que ela, passada a fúria e a consternação perante a vida dupla do seu marido, enfim aceita a realidade. Compreendendo que entregá-lo à polícia e tornar a história pública iria gerar um escândalo na sociedade que seria insuportável à família, em especial ao seu filho, ela prefere o caminho mais "confortável" e manter o segredo somente entre eles dois. No entanto, ao também entender que esse caminho a tornaria cúmplice no crime, ela, já estando envolvida nas ações cometidas por Walt, mergulha de cabeça em tudo isso e ativamente age para ajudar a encobrir a origem do dinheiro, sobretudo por que tal atitude também protegeria a si própria e a seu filho.
As duas "vidas" de Walt, inclusive também em decorrência do envolvimento crescente de sua esposa, vão se entrelaçando e quase se tornando uma só. Dividindo-se entre os sentimentos de culpa/precaução e a ambição desmedida pelo dinheiro, o protagonista, em meio ao turbilhão de mudanças que não param de ocorrer em sua rotina, tem os seus conflitos internos e dúvidas elevados ao máximo. No início, deseja abandonar o negócio, mas, aos poucos, é convencido, por outros e também por ele próprio, a aceitar aquilo que vem fazendo, a buscar aumentar o seu faturamento e a se tornar cada vez mais Heinseberg e cada vez menos Walter White.
Também é interessante observar como os arcos de todos os personagens, de maneira direta ou indireta, eventualmente acabam se conectando. E não de forma forçada, mas naturalmente, em que as peças vão se encaixando, como em um quebra cabeça, até o desfecho. Um desses casos é a história de Hank - que, assim como Marie, é um personagem que aqui cresce bastante, dando continuidade ao que vinha ocorrendo desde a temporada passada - e a sua busca por encontrar o misterioso Heinseberg, que o leva até Jesse e o coloca em meio a uma disputa de cartéis, gerando um dos momentos mais tensos da trama.
O único ponto que me decepcionou um pouco foi exatamente Jesse. Após o trauma sofrido com a morte de Jane e o período que passou em recuperação, ele retorna com mais foco e um melhor entendimento de seus problemas pessoais. No entanto, isso dura poucos episódios e ele logo retorna a tomar decisões incrivelmente estúpidas e irresponsáveis, mesmo agora tendo bastante dinheiro e inserido em um emprego estável graças a Walt. No ápice dessa estupidez, encontram-se o roubo da metanfetamina de Gus - o que poderia colocar ele e Walt em perigo - e a tentativa de vender drogas a pessoas que estavam tentando se livrar do vício, o que é um tanto surpreendente dado o que ocorreu com sua namorada pouco tempo antes. Ficou a sensação, pelo menos para mim, que o desenvolvimento dessa personagem várias vezes andou em círculos e pouco evoluiu, o que o tornou um tanto irritante em diversos momentos e, sem dúvida, me impede, em meio a tantos positivos, de dar uma avaliação maior a essa temporada.
Em resumo, a terceira temporada mantém um alto nível de qualidade - embora admito que gostei mais da anterior, amplifica tudo aquilo que havia sido visto até então e ainda encontra tempo para surpreender os espectadores com um roteiro bem amarrado. Além disso, o desfecho repleto de tensão já nos deixa pronto e ansioso para logo prosseguir a acompanhar a história.
Breaking Bad (2ª Temporada)
4.5 790Em sua segunda temporada, "Breaking Bad", agora também contando com um maior número de episódios, definitivamente mostra a que veio. Além de expandir a quantidade de personagens e desenvolver/melhor explicar o passado de outros previamente presentes, o seriado, com brilhantes direção e roteiro, leva a história a um outro patamar.
Em suma, é mostrada a dificuldade para Walter, à medida em que a sua operação com Jesse vai crescendo, de conciliar a sua vida pessoal com as suas atividades ilícitas e secretas, que, por sua vez, vão consumindo cada vez mais o seu tempo. Da mesma forma, é interessante acompanhar a alternância entre as duas personalidades presentes no protagonista - Walter e Heinseberg - e como ambas entram em conflito, com uma, eventualmente, se sobrepondo à outra.
Como mencionado, novos personagens também são apresentados e representam uma bela adição à trama, em especial Saul Goodman, que é um dos mais interessantes da história, tanto pelo carisma quanto, digamos, pela malandragem. Também é importante mencionar como algumas pontas soltas deixadas na primeira temporada acerca das personagens principais são agora melhor explicadas, sobretudo o passado de Walter e Skyler e antigos parceiros que ambos tiveram e que voltam às suas vidas de diferentes formas.
Um dos aspectos que mais me fascinou é como a história flui naturalmente, com os episódios geralmente retratando eventos diretamente em sequência, sem qualquer tipo de intervalo ou salto temporal e com um acontecimento após o outro. Isso prende a atenção do espectador e gera um dinamismo à série, mas sendo feito com um bom ritmo e sem atropelamentos.
Logo, se a primeira temporada foi boa, mas um pouco curta e talvez abaixo da grande reputação que o seriado recebe, "Breaking Bad" dá o recado, na segunda temporada e de forma veemente, de que não será somente mais uma boa série que fica esquecida na prateleira, mas que está nos levando para algo grande, de alto nível e que pretende deixar a sua marca na televisão.
Breaking Bad (1ª Temporada)
4.5 1,4K Assista AgoraDepois de muito tempo adiando e postergando por diversas razões, finalmente decidi assistir a essa série tão aclamada. Mesmo ainda em sua primeira temporada, que provavelmente não deve ser o ápice do seriado, "Breaking Bad" já se mostra uma produção diferenciada, criativa e de boa qualidade, o que me deixa intrigado para continuar acompanhando a continuação dessa história nas temporadas seguintes.
Não dá para negar que a ideia de um professor de química utilizando os seus conhecimentos para não somente produzir drogas, mas também para entrar a fundo no submundo do tráfico como uma tentativa desesperada de conseguir dinheiro é, no mínimo, bem interessante e inusitada. Pessoalmente, sou bastante atraído por histórias que aproximam personagens de realidades e personalidades completamente diferentes, e, sem dúvida, Walter White e Jesse Pinkman se encaixam nessa proposta. Sendo dois indivíduos que não poderiam ser mais distintos entre si nem se tentassem, tornam-se, exatamente por isso, uma dupla tão eficiente no objetivo de prender a atenção do espectador, que fica ansioso para ver até onde essa aventura vai parar.
Quanto a White especificamente, é um protagonista bastante complexo. À princípio, começa a fabricar drogas pois quer deixar uma boa quantia, em dinheiro, à família em decorrência do seu diagnóstico de câncer. No entanto, em dado momento na trama, é apresentada a ele uma nova alternativa para obter dinheiro, inclusive a um possível tratamento, e o mesmo a recusa para continuar vendendo droga. Dessa forma, fica claro que as suas ações não são motivadas somente pela parte financeira, mas também por um desejo de, após muito tempo seguindo regras à risca e acumulando frustrações, seguir o seu próprio caminho e assumir o rumo de sua vida sem precisar obedecer a nada ou abaixar a cabeça para ninguém. Sem mais nada a perder, ele agora se sente mais confiante para fazer aquilo que quer e assumir riscos.
As únicas críticas que faço é que, primeiramente, os personagens secundários não são exatamente os mais interessantes e poderiam ter sido melhor explorados, muitas vezes servindo apenas como alívio cômico e sem grande importância ao arco principal - no entanto, creio que isso se deve à curta duração da primeira temporada e deve ser corrigido nas próximas. Em segundo lugar, alguns acontecimentos são um pouco forçados, como White explodindo um carro em plena luz do dia em um posto de gasolina e a cena da "negociação" com Tuco no quartel do traficante.
É um bom e promissor começo para o seriado, ainda não fazendo jus a toda a fama construída em seu redor, mas contando, ao seu próprio ritmo, a história e desenvolvendo bem os protagonistas e suas motivações. Ao final, ficamos com o gosto de "quero mais" e imagino que isso será atendido nas temporadas seguintes.
Como um Relâmpago
3.6 9 Assista AgoraEm "Death by Lightning", é retratada uma das histórias mais curiosas e absurdas da política americana - e que, como é mencionado no próprio início do filme, ficou por muito tempo "esquecida". Para quem, como eu, é apaixonado por história, a trajetória da ascensão de James Garfield, da pobreza à política e do anonimato à presidência, já seria, por si só, fascinante o suficiente. No entanto, a trama torna-se ainda mais interessante ao adicionar-se, em meio a tudo isso, a figura de Charles Guiteau, um louco que, tomado por delírios de grandeza, foi eternizado para sempre ao assassinar o presidente que havia ajudado a eleger, porém não da forma que gostaria.
Em primeiro lugar, é preciso destacar os aspectos técnicos, pois a ambientação é espetacular, com uma reconstrução muito bem feita dos EUA do final do século XIX, seja pelo cenário, seja pelo figurino e retratação das personagens. Aliás, falando das personagens, eu diria que a escolha do elenco não poderia ter sido melhor. Todos os atores escolhidos para os principais papéis, destacando aqui Michael Shannon, Matthew Macfayden e Nick Offerman, não apenas apresentam ótimas performances, mas também, fisicamente, assemelham-se bastante com as pessoas reais que interpretam.
Quanto ao enredo, é óbvio que a minissérie, como toda produção artística, coloca algumas coisas que não ocorreram de fato, mas é seguro dizer que o número de imprecisões históricas aqui apresentado é aceitável por motivos de dramatização, com o roteiro mantendo-se fiel à verdade durante a maior parte do tempo e explorando bem os arcos dos dois personagens principais. No entanto, ressalto que alguns aspectos poderiam ter sido melhor explicados, como a derrota eleitoral de Cockling e o período entre a tentativa de assassinato de Garfield e a chegada de Arthur à presidência.
Em linhas gerais, é, ressalvas feitas, uma boa produção tanto para quem gosta de história quanto para aqueles que não gostam tanto do gênero, mas apreciam um drama bem construído e tramas verdadeiras que parecem ficção. Recomendado.
Senna
4.0 239 Assista AgoraRetratar a vida de Ayrton Senna é sem dúvida uma daquelas tarefas que podem ser consideradas, ao mesmo tempo, como difíceis por um lado e fáceis pelo outro. Difícil por se tratar de um personagem considerado, com todo o merecimento, uma lenda do automobilismo e um herói nacional, logo é sempre bom ter cuidado com a forma como se irá representar alguém desse "tamanho" - isso sem falar de outras famosas pessoas envolvidas. E fácil por ser um indivíduo que viveu uma vida repleta de acontecimentos marcantes, então não falta material a ser utilizado.
Dito isso, posso dizer que fiquei positivamente surpreso com o nível desta produção e com a qualidade da minissérie. Com o desafio que tinham em mãos, creio que os diretores e roteiristas conseguiram fazer um bom trabalho, sendo bastante fiéis, na medida do possível, aos fatos verdadeiros e mesclando-os, de maneira aceitável, a alguns eventos fictícios que contribuem com a dramatização e o desenrolar da trama.
No entanto, dois elementos merecem um destaque maior. O primeiro é a filmagem das cenas de corrida. Com uma mistura de excelentes direção, edição e efeitos visuais, essas cenas são simplesmente eletrizantes, transmitindo forte emoção e prendendo bem a atenção do espectador, que é, em tais momentos, "imerso" nas pistas da Fórmula 1. E o segundo é o elenco, que parece ter sido "escolhido a dedo", com atores que não somente são fisicamente bem semelhantes aos personagens que interpretam, mas também possuem ótimas performances na tela.
Único ponto que me incomodou, e que infelizmente se arrasta do primeiro ao último episódio, foi a insistência com a personagem interpretada por Kaya Scodelario, que é fictícia e, sinceramente, não somente não agrega muito a trama, mas também tem a presença um tanto "forçada". Nada contra a Kaya, que é uma boa atriz, mas parece que algum produtor quis colocá-la no filme e tiveram que arranjar um jeito de fazer isso.
Ressalvas feitas, a minissérie é boa, sendo divertida, eletrizante e emocionante. Recomendo.
Star Wars: Andor (2ª Temporada)
4.5 87 Assista AgoraEsta temporada, devo admitir, deixou-me com um misto de sentimentos. O seriado, mais uma vez, mostrou a sua capacidade de expandir o universo da franquia, mas acredito que o roteiro perdeu-se um pouco, ao longo do processo, em sub tramas que não levaram a lugar algum. A experiência proporcionou diversos momentos interessantes e cenas eletrizantes, mas também forneceu determinados elementos um tanto desnecessários e que tornaram a narrativa enfadonha.
Os fãs de Star Wars, que sabem de antemão que esta série se trata de um prólogo de "Rogue One", já tem noção de quais personagens sobrevivem e do que acontece no final, isto é, que os rebeldes, com Cassian Andor, conseguem obter os planos da Estrela da Morte. O grande interesse, em "Andor", não é saber o que ocorre ao término da história, porém saber como as coisas ocorrem.
Dessa maneira, todos aqueles acontecimentos e arcos secundários que estão presentes e não adicionam algo - ou muito pouco - a trama principal, naturalmente, provocam um certo desconforto no espectador e tornam o desenrolar da história um tanto "arrastado". Quanto digo isso, refiro-me ao interminável casamento chandrillano, o embate entre aqueles rebeldes nos primeiros episódios e boa parte das cenas envolvendo os Ghorman. Por outro lado, os esforços do agente rebelde infiltrado no BSI, que é fundamental para a obtenção dos planos imperiais e central para o encerramento da própria série, não é mostrado e torna-se apenas uma "nota de rodapé".
Sem dúvida, a série mantém grandes atuações, trilha sonora e efeitos visuais, mas a queda de qualidade no roteiro é considerável e perceptível. Esta segunda - e final - temporada não é ruim, mas poderia ter menos episódios e mais objetividade.
Star Wars: Andor (1ª Temporada)
4.2 193 Assista AgoraExistem séries em que o começo não impressiona tanto e é lento, com o espectador apenas precisando ter um pouco de paciência nos primeiros episódios para, ao final, ser completamente recompensado. Pois bem, esse é o caso de "Andor", que, em meio a tantas produções da Disney decepcionantes no universo Star Wars, consegue mostrar qualidade e brilhar ao manter a essência da saga e, de maneira simultânea, imprimir a sua própria identidade e apresentar novidades aos amantes de "guerra nas estrelas".
O seriado acompanha um grupo de personagens que vive em constante esconderijo em relação ao Império. Logo, é natural que, com eles frequentemente estando fugindo de algo e tendo que ser cuidadosos, não exista, no início, muito espaço para diálogos. Embora faça sentido, isso dificulta, ao público, compreender melhor o que está ocorrendo, deixando-nos no "escuro".
Ao longo da temporada, no entanto, pouco a pouco as "peças" da trama vão se encaixando e tudo vai ficando mais fácil de se entender. Além disso, acompanhamos cada personagem nas suas sub tramas particulares, o que nos permite compreender suas motivações e histórias de origem e fornece uma maior profundidade a história, que deixa de ser mais um dentre vários "spin off" de Star Wars para se tornar um drama muito bem construído.
Os episódios finais, sem dúvida, são o ponto alto, apresentando um ritmo intenso e eletrizante, em uma excelente combinação de enredo, direção, trilha sonora e atuações. Recomendado.
Black Mirror (3ª Temporada)
4.5 1,3K Assista AgoraA essa altura, não deveria me surpreender, mas é fascinante como Black Mirror, mesmo com a difícil tarefa de desenvolver uma história diferente a cada novo episódio, mantém o alto nível de qualidade, em média, mostrado nas temporadas anteriores. Naturalmente, alguns episódios me agradaram mais do que outros, mas em linhas gerais, o seriado preserva a sua criatividade e a sua capacidade de surpreender o espectador, bem como o visual distópico e futurista.
O primeiro episódio talvez seja o que mais se aproxima da nossa realidade, em uma sociedade que se preocupa cada vez mais com as aparências do que propriamente com a essência das coisas e em um mundo em que cada vez mais as relações artificiais se sobrepõe as relações verdadeiras e humanas. Neste caso em particular, essa situação é levada ao extremo, com o intuito de ilustrar o destino de uma sociedade que supervaloriza a aparência em detrimento da humanidade e da sinceridade.
"Shut up and dance", o terceiro, por sua vez, é, sem dúvida, aquele que mais prende a atenção do público, nos mostrando até onde uma pessoa pode ir para não ter os seus "podres" revelados. O seriado consegue transmitir, com perfeição, a tensão vivida pelos personagens, construindo bem o suspense e nos trazendo revelações surpreendentes no final. A atuação do elenco também merece ser bastante elogiada.
O quinto é aquele, em minha avaliação, com o plot twist mais chocante e inesperado, realizando uma interessante crítica não apenas a "indústria da guerra" de uma maneira geral, mas também a noções de eugenia e preconceito étnico. Creio que é possível até fazer diversos paralelos com o holocausto e a perseguição aos judeus.
Os outros episódios são bons, mas não são tão brilhantes ou marcantes como esses que eu mencionei anteriormente. O último até tinha bastante potencial, mas o final me pareceu um tanto mal elaborado e inconclusivo, e a excelente história que é construída acaba por ter um encerramento pouco satisfatório.
The White Lotus (3ª Temporada)
3.6 243 Assista AgoraEm minha opinião, a mais fraca das três temporadas. A série preserva o visual e o estilo já consagrados, mais uma vez com direção, fotografia e trilha sonora impecáveis. No entanto, no roteiro, que considero ser o principal, o seriado deixou bastante a desejar, apresentando-nos uma história monótona, arrastada, com inúmeros "furos" no enredo e pouco, ou quase nenhum, desenvolvimento das personagens.
No início, a temporada até parece ser interessante e desperta muita curiosidade no espectador, mas a demora no desenrolar dos acontecimentos torna a trama excessivamente enfadonha. Pessoalmente, não vejo problema nos roteiristas adotarem um ritmo mais cadenciado e deixarem o público "respirar" um pouco, porém aqui passou bastante do ponto adequado.
No entanto, o principal problema não é o ritmo, mas o pouco desenvolvimento das personagens e das escolhas que fazem ao longo da história, que são, no mínimo, bastante questionáveis. Também fiquei com a sensação de que Mike White poderia ter ido além e se arriscado mais na sub trama envolvendo a família Ratliff, cuja história muitas vezes acaba girando em círculos e não saindo do lugar.
Também não entendi o pouco aproveitamento do personagem de Jon Gries, o misterioso Greg Hunt, que aqui torna-se secundário e praticamente dispensável, e o plot twist envolvendo o personagem de Walton Goggins, que tem pouco sentido e é mal explicado.
Os "furos" no roteiro foram inúmeros. Por que o dono do hotel não simplesmente os expulsou de lá de forma prévia? Porque Rick retornou ao hotel do cara que havia tentado matar? Por que Sri Tala contrataria um segurança que ela teve praticamente de implorar para matar o indivíduo que assassinou o seu marido? Além disso, as três amigas presenciam um assassinato e na cena seguinte estão no barco como se nada tivesse ocorrido. E outra coisa: a cena de sexo entre os irmãos é grotesca e não adiciona nada ao enredo.
Em linhas gerais, acredito que os criadores desperdiçaram muitas oportunidades aqui, o que é uma pena, pois o visual deslumbrante da Tailândia e o ótimo elenco mereciam uma história melhor escrita.
Ruptura (2ª Temporada)
4.1 346 Assista AgoraSerei obrigado a discordar, com todo respeito, de certos comentários negativos que li por aqui. Pessoalmente, já imaginava que seria muito difícil para a série não apenas manter o nível da primeira temporada em termos de qualidade, mas também proporcionar, ao espectador, a mesma sensação de "novidade" garantida antes. No entanto, acredito que "Ruptura", em sua segunda temporada, consegue ainda manter um bom nível - ou, pelo menos, acima do que estamos acostumados a ver ultimamente na indústria do audiovisual - e preservar a essência da história de nos surpreender, provocar reflexões e, sem dúvida, "embrulhar" a nossa mente.
Em termos de direção, fotografia e atuações, em primeiro lugar, creio que seja unanimidade, mesmo dentre aqueles mais "insatisfeitos", que o seriado prossegue com elevada qualidade. A produção, em linhas gerais, é muito bem feita, conservando a estética desse interessante "universo", com aquela fascinante mistura do "retrô" com o futurista, e do moderno com o clássico.
O roteiro, com certeza, é o "ponto de discórdia", que provoca variadas reações, positivas e negativas, para os mais diversos tipos de espectador. Em minha humilde opinião, isso provavelmente se deve ao fato da primeira temporada ter, de maneira intencional, deixado muita coisa "em aberto", o que abriu a possibilidade para diversos caminhos pelos quais a história poderia trilhar e inúmeras teorias criadas pelos fãs. Diante disso, quando os roteiristas, então, tem que decidir por onde seguir, é natural que nem todos fiquem satisfeitos. No meu caso, posso dizer que fui pego de surpresa por muita coisa que aconteceu e algumas cenas, admito, eu teria feito diferente, mas, apesar disso, gostei bastante do que vi.
Sempre que uma série vai para uma segunda temporada, com raras exceções, possui como missões principais dar continuidade ao que ficou em aberto, expandir a história - seja com novos personagens ou aprofundando os já existentes - e manter a essência da história - porém, sem abrir mão de trazer novos elementos. "Ruptura", ao meu ver, consegue isso, ao aprofundar os personagens da primeira temporada, trazer mais explicações sobre a Lumon e sobre o "andar de ruptura" e agregar novos acontecimentos, surpreendendo e envolvendo o espectador sem desfigurar a característica "chave" do enredo, que é, em algo que lembra muito "Black Mirror", provocar reflexões e emoções em meio a situações absurdas, inesperadas e criativas.
O principal tema da primeira temporada, creio, foi "liberdade de escolha", em um contexto no qual os internos estavam condenados, por decisão dos seus externos respectivos, a viver eternamente naquele andar, apenas se dedicar a um trabalho que eles desconheciam e obedecer às ordens dos superiores. Em outras palavras, estariam condenadas a viver as consequências de escolhas que não haviam sido feitas por eles, o que os faz se rebelar diante daquilo, buscar o exterior e alertar quem está lá fora sobre o que acontece ali dentro. Na segunda temporada, por sua vez, o tema central é a dicotomia entre corpo e identidade, pois, ao conhecer melhor os personagens, percebemos, cada vez mais, as diferenças entre os internos e os externos, que compartilham o mesmo corpo, mas possuem personalidades, desejos e formas de enxergar o mundo diferentes. Ao mesmo tempo que são exatamente a mesma pessoa, também são pessoas completamente diferentes, a tal ponto de sentirem sentimentos de inveja, ódio e distanciamento perante um a outro em dados momentos.
Ao longo da trama, descobrimos que a Lumon usa Gemma como uma cobaia para criar aquilo que parece ser o "interno perfeito", isto é, sem qualquer resquício, tanto em termos de personalidade quanto em memórias e emoções, do seu externo ou do mundo exterior, sendo assim perfeitamente manipulável pela empresa. No entanto, no último episódio, vemos que, apesar de todos os esforços empreendidos pela companhia, Gemma mostra afeição a Mark, ou, pelo menos, afeição suficiente para confiar nele e sair daquela sala em que estava presa.
A grande ironia de tudo é que, se o experimento não foi totalmente eficaz em Gemma, foi, de certa maneira, eficiente em Mark, pois, apesar de cumprir a missão de salvar a esposa do seu externo, ele não possui a confiança e nem a afeição suficientes ao seu externo para decidir ir ao exterior, preferindo ficar no "andar de ruptura" com Helly. Sendo assim, a "total separação" entre interno e externo, tão desejada pela Lumon, é o que faz o protagonista não abrir a porta naquele fatídico momento. O Mark externo, ao fazer a ruptura e aprisionar o seu interno, queria se esquecer da esposa, mas, no momento em que agora precisava do interno para salvar a esposa, foi vítima de suas próprias ações, isto é, o interno, criado para não ter sentimentos por Gemma, não é capaz de abrir mão de sua vida e de quem ele realmente ama por uma pessoa que ele desconhece - e foi criado para desconhecer. Um final, sem dúvida, trágico, mas finais trágicos também tem a sua beleza e qualidade, e este é um deles.
Uma série muito boa, que mantém o alto nível, surpreende o público e faz a nossa cabeça trabalhar bastante. Apesar de preferir a primeira temporada, fiquei muito satisfeito com o que vi aqui e, sendo assim, recomendo.