VERITY Direção: Michael Showalter Ano: 2026 Assistido em: 06/10/2026
Diferente de muitas pessoas, não fui criado com a Sessão da Tarde. Estudei no período vespertino por quase toda a minha vida, então não consumi aqueles filmes clássicos que eram repetidos à exaustão na tela da Globo. A maioria deles fui assistir já no final da adolescência, começo da vida adulta ou quando estava de férias, enfim. Entretanto, fui uma criança pouco tradicional. A sessão de filmes de que eu mais gostava era o Supercine. Meus pais foram um pouco irresponsáveis nesse sentido: eles sempre me deixaram ter contato com histórias mais fortes, histórias mais intensas, desde muito cedo. Então, meu gênero favorito é o suspense, com espaço especial para aqueles que podem ser eróticos ou não, nos quais temos algum personagem se envolvendo em um relacionamento que claramente é uma furada, com uma grande reviravolta ao final. Quando minimamente soube sobre esse filme, senti que podia dar muito bom e, na cara e na coragem, fui para o cinema.
Lowen Ashleigh é uma escritora em dificuldades financeiras que recebe uma proposta inesperada: terminar os livros restantes da famosa autora Verity Crawford, que ficou incapacitada após um acidente. Para pesquisar o material da escritora, Lowen se muda temporariamente para a casa da família e passa a conviver com seu marido, Jeremy Crawford, e o filho do casal. Durante sua investigação, ela encontra um manuscrito autobiográfico de Verity que revela acontecimentos perturbadores sobre a família e começa a descobrir segredos cada vez mais sombrios. Conforme Lowen se aproxima de Jeremy, ela percebe que talvez tenha entrado em uma situação muito mais perigosa do que imaginava.
A ideia de partida é até interessante, porque a história consegue nos manter na dúvida o tempo todo. Nós não sabemos o que é verdade ou não. Tudo que temos é a perspectiva de Lowen, lendo a “confissão” de Verity. Só que anos e anos de estrada nesse tipo de filme me ensinaram a nunca, jamais, em tempo algum, acreditar facilmente nas primeiras respostas. Provavelmente, elas estão erradas. E é aí que o filme me perde.
Eu venho reparando que, nos últimos anos, Hollywood tem uma restrição quanto a retratar mulheres como vilãs. Podem reparar: nos últimos tempos, quando uma mulher tem uma atitude um pouco mais questionável, é porque um homem está levando-a a essa situação. No último ano, nós pudemos constatar isso em alguns filmes, alguns títulos bem famosos. Por exemplo, The Housemaid (2025) foi um tremendo sucesso, mas me decepcionou demais, porque eu queria, eu precisava de uma vilã descompensada, paranoica, louca, surtada. E o que eles me entregaram foi outra coisa completamente diferente: uma vítima do abuso psicológico, uma mulher que precisa se fazer de "doida" para poder sobreviver ao marido tóxico.
Eu sinto muita falta, no cinema contemporâneo, de personagens como Norma Desmond, Alex Forrest ou Catherine Tramell. Quero uma vilã mesmo. Mas, repetindo, atualmente parece ser proibido ter mulheres desvairadas em papéis vilanescos, e aí todos os filmes parecem iguais.
Na metade desse aqui, você não precisa ser nenhum gênio para perceber o que está acontecendo. Basta se atentar ao andamento da história, à forma como Jeremy é retratado como uma vítima o tempo todo e à maneira como o roteiro o absolve de tudo. Pronto, você saca na hora que ele é o vilão da história. E, por mais que as atitudes da personagem de Dakota Johnson sejam totalmente erradas, é fácil justificá-las: ela foi manipulada, ela foi enganada. Ou seja, isso tira da personagem o poder de escolha, e é isso que a deixa vazia, fazendo com que ela fique totalmente superficial.
Do ponto de vista técnico, esse filme é extremamente morno, e ele prometia ser intenso, certo? Fervente. Mas não é isso. O thriller não deixa ninguém com a mão suando na ponta da poltrona. Não, é tudo perceptível: você consegue sentir que está vindo há quilômetros de distância. O erotismo é insosso. Não senti química alguma entre nenhum dos dois casais centrais, e isso você percebe até nos cenários, nas paisagens gélidas de Vermont. Só que era preciso intensidade para fazer as coisas funcionarem por aqui, e nós não temos isso em momento algum.
Sobre o elenco, preciso dizer que Anne Hathaway, parada, sem esboçar a mínima reação, consegue atuar melhor do que Dakota Johnson fazendo o esforço da vida dela para entregar o mínimo. É impressionante como essa mulher não herdou nem uma gota do talento da família. Sobre a personagem Verity, ela deixa a desejar, principalmente em um ano em que Anne Hathaway fez Penélope em A Odisseia e retornou como Andrea em O Diabo Veste Prada 2. Eu esperava uma vilã imponente, mas o desfecho joga tudo por água abaixo. Já o Josh Hartnett consegue entregar, mas precisa de roteiro e direção, e aqui não encontrou nenhum dos dois.
Verity é bem específico para o público feminino que gosta da literatura da Colleen Hoover, porém bem que poderia atrair um outro público, aquele que gosta do suspense, que, assim como eu, é declaradamente fã dessas galhofadas. Só que ele ficou o tempo todo no ponto morto. Ele até apela para jump scares e nem assim consegue dar uma sobrevida, uma pulsação de ânimo a essa história. Não é um filme que vai te fazer dormir, não é isso, mas também não vai dar a carga de adrenalina, a carga de emoção que você busca.
Quem gosta de pesquisar sobre serial killers com toda certeza já se deparou com a história do Unabomber. Ele é, sem sombra de dúvidas, um dos maníacos mais interessantes (se é que podemos usar essa palavra aplicada a essa situação), que já se abateu sobre os Estados Unidos. E olha que a terra do Tio Sam é um campo muito prolífero quando o assunto é assassino em série. Seja por sua motivação nada convencional ou pela forma que matava, ainda mais inusitada, Kaczynski foi uma figura muito sombria da história americana e que até hoje desperta muitas dúvidas. Por isso, estava ansioso para assistir a este filme, mas o problema é que o personagem, a figura real, era complexa demais para talentos tão pouco aptos a trabalhá-la.
Ted Kaczynski, um jovem prodígio da matemática em Harvard, é submetido a controversos experimentos psicológicos conduzidos pelo professor Henry Murray. Anos depois, enquanto Kaczynski se transforma no terrorista conhecido como Unabomber e inicia uma campanha de atentados com bombas enviadas pelo correio, a agente do FBI Joanne Miller participa da longa investigação para descobrir sua identidade. Entre passado e presente, a caçada revela como o isolamento, as experiências vividas em Harvard e as convicções extremistas de Kaczynski contribuíram para sua transformação.
O Kaczynski real foi uma figura avessa ao desenvolvimento tecnológico, mas não era só isso. Ele era uma pessoa com distúrbios mentais muito sérios e muito complexos, como esquizofrenia e paranoia. Ele não é aquele serial killer "tradicional" que teve problemas de rejeição paterna ou sexual, que serviu de gatilho para despertar seu interesse pela matança. Não, nada disso. Ele foi uma figura extremamente inteligente, que tinha uma visão muito peculiar do mundo, que não conseguia enxergar um papel natural no processo evolutivo da humanidade e que acabou desenvolvendo uma misantropia fundamentalista, ocasionando diversas vítimas. E, conhecendo Hollywood, a gente sabe que jamais conseguiriam retratar com a profundidade adequada e esperada uma história como essa.
Eu não acho que serial killer tenha que ser enaltecido, nã é isso. Mas, a partir do momoento que você se propõe a retratar uma história como essa, é preciso ser fiel aos acontecimentos. Não por conta do matador, mas por conta das vítimas. Elas, infelizmente, fazem parte dessa história e precisam ter suas jornadas respeitadas. Então, quando você começa a bagunçar todo o meio de campo, está mais uma vez prejudicando a memória daqueles que se foram.
O roteiro é dividido em duas linhas temporais: a primeira com Ted adolescente, na fase em que ele participou dos experimentos com a CIA, e a segunda durante a busca e a investigação nos anos 90. E o filme consegue ir mal nas duas. Na primeira, nós temos Russell Crowe e Jacob Tremblay, que são excelentes atores e entregam muito, mas aqui o texto deles é tão panfletário, tão simplório, que não funciona. Enquanto isso, no futuro, Shailene Woodley é uma amálgama de diversas pessoas que tentaram esclarecer este caso. E eu tive uma sensação tremenda de anacronismo, porque isso deveria se situar em mais ou menos por volta de 1996, só que, às vezes, os diálogos, os cenários, tudo me soa como algo do Século XXI em diante, 2010, 2020. E isso só ajuda na fuga mental que esse filme me causou.
Unabomber é um serial killer complexo e não é simples analisar as ideias dele. E fazer um trabalho qualquer, de qualquer jeito, não é a escolha adequada para tentar explicar um pouquinho dessa mente perturbada, se é que alguém chegou perto de conseguir esse feito. Este filme não é nem de perto indicado para quem quiser conhecer mais sobre este fato tão sombrio do final do século XX, porque ele só pincela tantos detalhes sobre a vida de Kaczynski e não explora nada das vítimas ou da investigação de décadas. É como se a produção fizesse parecer que tudo foi uma coisa simples, rápida. No fim, é só mais um dentre tantos títulos de true crime feitos apenas para movimentar a máquina que esse gênero acabou se tornando. Porque, se você quer conhecer precisamente o que aconteceu, ele não serve para isso.
THE LOVE HYPOTHESIS Direção: Claire Scanlon Ano: 2026 Assistido em: 03/10/2026
Nós estamos vivendo uma era muito prolífica para adaptações literárias de romances. Não que no passado eles já não existissem em abundância, mas, de um tempo para cá, principalmente diante do advento do streaming, a quantidade disparou muito. E, vendo este filme no top 10 do Prime Video, sendo protagonizado por uma dupla que eu gosto bastante, eu decidi dar uma oportunidade. Principalmente diante da crítica positiva. Só que um filme que fala sobre cientistas... acho que faltou o principal: química.
Olive Smith é uma estudante de doutorado em Biologia que prefere se dedicar à carreira acadêmica a se envolver em relacionamentos. Para convencer sua melhor amiga de que já superou uma antiga paixão, ela beija impulsivamente o intimidador professor Adam Carlsen e acaba propondo um relacionamento falso entre os dois. O acordo deveria ser apenas uma encenação com regras bem definidas, mas a convivência começa a tornar cada vez mais difícil separar o que é fingimento do que realmente sentem um pelo outro.
Para uma comédia romântica funcionar, é preciso que a dupla principal funcione. Isso é mais importante do que até mesmo o roteiro, até mesmo a direção, porque, se tiver uma química explosiva entre os protagonistas, isso ajuda a mascarar qualquer situação. O problema é que The Love Hypothesis, apesar de seus protagonistas serem lindos e bons atores, tem uma química inexistente. É impossível acreditar que poderia existir algum romance entre Olive e Adam. E não estamos falando apenas de quando eles estavam fingindo. Eu não conseguia sentir química nem de fato quando eles perceberam que estavam apaixonados.
Cinema, infelizmente, não tem receita pronta, que você segue a risca e vai sair um resultado perfeito. Infelizmente, você pode partir de um bom princípio, de todos os elementos positivos, e o resultado final não agradar ninguém. Eu não acho que tivemos um filme ruim, não chega a esse extremo, é perceptível que existem bons ingredientes, entretanto a execução não colabora. O elenco é bom, a direção é bacana, mas o roteiro é muito simples, é muito bobinho. Vale observar a cena do corredor, onde um se declara para o outro. Ali, eu senti uma vergonha alheia incontrolável quando eles começaram a usar frases relacionadas a termos científicos na declaração, uma coisa que, se a ideia era ser romântica, ficou patética.
No final, The Love Hypothesis não vai te ofender de forma alguma, mas também não vai te entreter muito. Foram vários os momentos em que eu me peguei olhando para o lado, pegando o controle da televisão e vendo o marcador para saber quanto tempo ainda faltava, pegando o celular para ver se tinha alguma nova mensagem no WhatsApp. Enfim, não foi algo que me imergiu completamente e nem que conseguiu prender totalmente minha atenção. Valeu como passatempo? Até que valeu. Para quem não tinha nenhuma outra opção do que assistir, funciona, mas confesso que talvez ele não seja a melhor escolha para uma pessoa que não seja fã do gênero. Nesse caso, a melhor opção é não insistir.
FIRESTARTER Direção: Keith Thomas Ano: 2022 Assistido em: 03/10/2026
Tendo Stephen King como o meu autor favorito, o anúncio de uma adaptação de uma obra sua, para mim, é sempre um misto de sentimentos conflitantes. Um lado sempre vai querer ver as páginas serem transportadas para a tela, ver aquela história que antes estava restrita ao papel tomar forma, ver a forma dos personagens que até então existiam apenas na minha cabeça serem materializados na minha frente. Entretanto, sendo ele um dos autores mais adaptados de todos os tempos, o segundo, se não me falha a memória, é óbvio que tem muita, muita, mas muita adaptação ruim de seus trabalhos. Particularmente, eu nunca li A Incendiária, até porque não é um dos títulos mais famosos do autor, apesar de já tê-lo na coleção. Mas suas adaptações não estão entre aquelas com a melhor fama e, honestamente, é fácil de entender o porquê.
Andy e Vicky vivem escondidos com a filha Charlie, tentando protegê-la de uma agência governamental que pretende transformar seus poderes em uma arma. Charlie possui a capacidade de provocar incêndios com a mente, uma habilidade cada vez mais difícil de controlar conforme ela cresce. Quando a localização da família é descoberta, eles precisam fugir enquanto agentes tentam capturar a menina e tomar controle de seu poder.
Assistindo a esse filme, eu entrei em estado de negação, porque até mesmo as histórias mais simples do King têm personagens bem escritos, bem desenvolvidos e com dramas extremamente interessantes. Então, eu não consegui reconhecer o que eu estava vendo como algo pertencente ao universo dele. Essa família é a mais completa ausência de carisma que eu já presenciei em uma história. E, se tem uma coisa que o King sabe trabalhar muito bem, são famílias. É a dinâmica entre as figuras paterna, materna e filial. Então, eu só podia imaginar que o roteirista aqui estava fazendo um péssimo trabalho, porque é inadmissível isso ser tratado como um trabalho de Stephen King.
Eu me recordo que, em 2023, no ano posterior ao lançamento desse filme, houve uma polêmica imensa junto ao Framboesa de Ouro por eles terem indicado a menina, Ryan Kiera Armstrong, ao prêmio de pior atriz. Na época, foi um burburinho dizendo que isso poderia traumatizar a garota, que seria algo muito cruel e todo esse blá-blá-blá. Mas, assistindo, algumas coisas ficam bem claras. Primeiro, a menina é uma nepo baby. Ela não está aí porque foi a melhor da seleção; ela está ali por ser filha de um ator conhecido. E ela mereceu a saraivada de críticas, porque a atuação dela, sim, foi horrível, passou o filme inteiro fazendo careta, fazendo força para simular uma mínima emoção. Melhor receber críticas agora do que crescer em um mundo difícil achando que pode atuar, e destruindo outras personagens e história. É claro que ela não merece ser ofendida, isso não, mas a verdade precisa ser exposta, doa a quem doer. E digo mais: ela não é a única que merecia críticas pelos trabalhos aqui. Zac Efron esta particularmente horrível. Não que ele seja um ator de primeira linha, não é, mas, com texto e direção corretos, ele entrega, e aqui não tem nada disso, só um homem sem personalidade e sem energia.
E, aliás, a direção merece uma nota de repúdio, porque é tudo feito de uma forma tão porca. O filme não tem ritmo, não tem cadência e não tem tensão. Essa é uma história que, por obrigação, tinha que nos deixar aflitos e ansiosos. A maior prova disso é a trilha sonora, aqui assinada pelo mestre John Carpenter, que nos entrega um trabalho com uma pegada oitentista, com sintetizadores, que cria um clima de tensão, algo muito próximo do que ele fez na trilogia Halloween do David Gordon Green. Mas é aquele negócio: não adianta nada a trilha criar uma situação e a imagem não corresponder, a trilha ser intensa, e o roteiro raso, não casa. E, por consequência, fica uma droga.
Firestarter é ruim. Mas ruim com gosto, ruim com força, tão ruim que eu preciso tirar da minha mente imediatamente essa imagem que ficou. Para isso, o livro, que estava parado na minha prateleira, pulou todos os outros títulos que estavam na frente, e é uma leitura que começa amanhã mesmo, porque é simplesmente inaceitável para mim acreditar que Stephen King criou personagens tão sem graça, com uma dinâmica tão ruim e com uma profundidade de uma poça d'água. Eu tenho certeza absoluta de que, quando eu terminar de ler o livro, esse filme, que para mim já é ruim, vai piorar muito.
A franquia Resident Evil está na minha vida há muitos anos. Eu lembro como se fosse hoje a emoção de jogar o primeiro jogo no PlayStation 1. As adaptações cinematográficas da franquia, por outro lado, são um grande problema. Assim como a maioria dos fãs dos videogames, eu também sou daqueles que sentia apenas ódio a tudo que o casal Paul W. S. Anderson e Milla Jovovich fizeram ao longo de uns 15 anos. E eu também sou daqueles que ficou animado pelo primeiro anúncio do primeiro reboot da franquia, realizado lá em 2021, em meio à pandemia, que também não deu em nada. E, por alguns segundos, eu até tive uma esperança quando anunciaram mais uma tentativa, mas ela caiu por terra quando saíram as notícias de que Zach Cregger faria um trabalho original e não uma adaptação dos jogos. Mas, como ele não tem vergonha na cara, lá fui eu ao cinema. Eu tinha a expectativa de que, se eu não encontrasse um bom Resident Evil, pelo menos encontraria um bom filme de terror. Só que, novamente, eu estava errado, porque eu não encontrei nenhuma coisa nem outra.
Bryan, um entregador de suprimentos médicos, recebe uma missão aparentemente simples: levar uma encomenda até um hospital em Raccoon City. Durante o trajeto por uma estrada isolada, ele atropela uma mulher e tenta socorrê-la, mas logo percebe que ela está infectada. O encontro acaba colocando Bryan no meio de um surto que transforma a cidade em um cenário de horror, com pessoas contaminadas e criaturas monstruosas surgindo por todos os lados, onde ele terá que fazer de tudo para sobreviver.
Zach Cregger é um dos nomes mais badalados do cinema contemporâneo, principalmente quando o assunto é cinema de terror. No ano passado, ele fez muito sucesso com o seu Weapons (2025), produção que foi tão elogiada que me fez ir ao cinema, e o ponto que mais me chamou a atenção lá foi o fato de ele ter uma excelente construção de tensão, arruinada por um final que mais parece um episódio do Looney Tunes. Pesquisando sobre o nosso amigo Cregger, nós vamos descobrir que ele trabalhou com comédia durante muito tempo antes de pular para o terror. E acho até interessante você colocar pitadinhas de humor no momento adequado, só que, para mim, ele é um diretor que não sabe fazer isso. Ele confunde as coisas e põe o humor onde não deve. Sim, no Weapons ele errou colocando justamente no final da história, criando uma cena cômica no pior momento possível. Aqui, a coisa piora muito, porque não temos um filme de terror com pitadas de comédia, não. Esse novo Resident Evil é um filme de comédia com leves pitadas de terror.
Eu já sabia que não teria quase nada dos jogos. Eu já sabia que o máximo que ele iria evocar seria uma tentativa de simular a experiência que você tem ao jogar Resident Evil 2, de andar pela cidade de Raccoon City completamente desolada e tentando sobreviver. E nisso aí ele até conseguiu. Eu senti, sim, a mesma vibe em certos pontos, o mesmo nojo das pessoas modificadas pelos vírus da Umbrella. Isso aí, de fato, ele conseguiu recriar. Entretanto, no centro de tudo, ele escreve um completo imbecil para ser seu protagonista. O Bryan não é apenas o homem comum na hora errada, algo que o lendário Alfred Hitchcock amava colocar em seus filmes. Tudo bem não ser um supersoldado, preparado para tudo, mas ele tem um tempo de reação horrível, fica esperando as coisas acontecerem diante de seus olhos. Não foge quando deve, não ataca quando precisa. E, para piorar, o diretor faz ele ficar resmungando o tempo todo, o que torna a experiência de acompanhá-lo extremamente chata e desgastante.
Por outro lado, esse filme serviu para pavimentar definitivamente a carreira de Austin Abrams. Ele é simplesmente brilhante, porque pega essa pataquada e consegue se sobressair, consegue entregar uma boa atuação, porque é impossível você não ficar extremamente irritado com a estupidez do Bryan e, a partir de determinado ponto do filme, simplesmente desistir dele e torcer para que ele morra, mas a atuação é impecável do começo ao fim.
Aliás, aqui eu preciso abrir um parêntese. Eu fiquei muito incomodado com o final de Weapons, principalmente por conta da forma como aquele bando de crianças correndo atrás da Gladys. Aquilo, para mim, foi péssimo. Entretanto, aqui, curiosamente, o final foi a coisa que eu mais gostei do filme inteiro, porque foi o ponto mais corajoso do roteiro. Bom, quem é fã de Resident Evil sabe que você não tem como negociar com a Umbrella Corporation, que você vai se ferrar na história. Então, eu já imaginava que, em algum momento, o Bryan ia se ferrar. Mas escolhê-lo para ser o portador da cura, mesmo sem ele saber, e, ao mesmo tempo, o responsável por impedir que ela seja desenvolvida, condenando aquele mundo, foi algo de que eu comecei a desconfiar na metade do filme. Quando eu vi que seria aquilo, deu para amenizar um pouquinho a minha decepção com o projeto como um todo.
Eu vou bancar o cético: para mim, essa franquia não tem salvação mais no cinema. É claro que, em termos técnicos, não tem como comparar o Cregger com o W. S. Anderson. Mesmo tendo uma carreira bem menor, com muito menos experiência, ele dá um baile em tudo aquilo que o Anderson fez ao longo de quatro longas como diretor e seis como roteirista e produtor, enfim. Mas, apesar de ser melhor do que os anteriores, ele é tão ruim quanto os demais como um Resident Evil. E eu não queria uma história avulsa qualquer. Eu queria ver, pela primeira vez, bem adaptados, o Chris, a Jill, a Claire, o Leon, os personagens que eu aprendi a amar ao longo dos últimos 30 anos e que, pelo menos uma vez, eu acho que mereciam um pouco de dignidade quando levados para o cinema. Eu não consigo entender como a PlayStation e a Sony não conseguem respeitar esse universo minimamente.
Muitos vão dizer que o filme é bom. Ok, eu respeito quem goste. Novamente, tecnicamente falando, como filme, ele funciona, só que não funciona como Resident Evil e não funciona como terror, porque a forma do Zach Cregger de fazer terror, sempre desarmando, sempre usando humor para desmanchar os momentos de tensão, é simplesmente muito repetitiva para mim. Não deu. Não reconheço como Resident Evil, mas que bom que alguém tenha conseguido curtir.
ALL THE PRESIDENT'S MEN Direção: Alan J. Pakula Ano: 1976 Assistido em: 26/09/2026
O escândalo de Watergate é um dos casos mais polêmicos quando o assunto é política americana, especialmente no cenário da política internacional da década de 1970. Uma confusão que, em um espaço de tempo muito curto, derrubou o homem mais poderoso do cargo mais importante do mundo. Mas não foi da noite para o dia que Richard Nixon perdeu o prestígio e o poder. Esse foi um processo organizado e liderado pela imprensa, que precisou lutar contra os tubarões de Washington para levar a verdade ao público. Essa história foi tão impactante que, com apenas quatro anos, foi parar nas telas do cinema, gerando um dos filmes mais elogiados de todos os tempos. E foi procurando saber um pouquinho mais sobre todo esse caos que decidi que era hora de tirá-lo da minha lista de pendências.
Dois jornalistas do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, investigam a invasão da sede do Partido Democrata no complexo Watergate, em 1972. Ao aprofundarem as apurações, descobrem uma rede de espionagem política e corrupção que envolve integrantes do governo de Richard Nixon. Com o auxílio de fontes anônimas e enfrentando pressões e obstáculos, os repórteres seguem as pistas que podem revelar um dos maiores escândalos políticos da história dos Estados Unidos.
Um grande problema dos filmes jornalísticos é que eles são um verdadeiro desfile de nomes, com inúmeras situações sendo descritas, e, se você não tem conhecimento prévio, se não tem uma bagagem, ficar perdido é muito fácil. E esse é um dos exemplos mais evidentes dessa situação. Temos inúmeros nomes sendo citados, de inúmeros envolvidos no escândalo, desde os capangas que colocaram a mão na massa até todos os membros do alto escalão da administração Nixon que estavam envolvidos. Então, é preciso prestar muita atenção, pois qualquer mínimo desvio vai fazer com que você se perca.
Entretanto, o ritmo é a maior armadilha da obra. Alan J. Pakula entrega um filme lento. É uma investigação, mas não daquelas do cinema clássico de ação e espionagem. É justamente o contrário: é um processo de analisar papéis, ler documentos, fazer telefonemas e entrevistas. E o fato de ser uma linguagem cinematográfica de 50 anos atrás também deixa o resultado ainda mais devagar. É aí que as coisas desandam um pouco, porque, por mais que você preste muita atenção, é impossível não sentir o cansaço. Você sente as 2h18min passando vagarosamente. É preciso gostar muito dessa história para não sentir que a mesma é um pouco enfadonha.
Tecnicamente falando, o longa é irretocável. Não tenho o que discutir. Os protagonistas são dois dos maiores atores de todos os tempos, Dustin Hoffman e Robert Redford, e eles estão excelentes, principalmente Redford. A fotografia é muito bonita, os enquadramentos são bons, a direção escolhe ângulos muito imersivos, a trilha sonora, apesar de aparecer um pouco, é boa, mas faltou uma edição melhor para dar uma polida, deixando o filme mais dinâmico.
All the President's Men é um clássico da política, é um clássico do jornalismo, é um filme muito utilizado nas escolas de cinema e tem muito valor para quem quer conhecer um pouco da história dessa enorme cachorrada política que marcou uma era. Mas, como filme, ele não é daqueles que vão te divertir, não é daqueles que servem de entretenimento. Para quem está procurando esse tipo de recompensa, é melhor escolher outros títulos.
HEART OF THE BEAST Direção: David Ayer Ano: 2026 Assistido em: 25/09/2026
Não sou o que podemos chamar de fã de filmes de cachorro. Não que eu não goste dos nossos amigos peludos de quatro patas, muito pelo contrário, eu os adoro, mas costumo evitar produções que os colocam como protagonistas. Há quase dois meses sem ir ao cinema, optei por esse pois parecia a única opção mais ou menos interessante em cartaz aqui na minha cidade. E apesar de não ser um filme tão previsível quanto eu imaginava que seria. Afinal, dessa vez, temos um cachorro diferente, a soma dos fatores ainda é básica.
Após um acidente aéreo, James Belmont, um ex-oficial das Forças Especiais, fica isolado na região selvagem do Alasca ao lado de Odin, seu cão de combate. Ferido e distante de qualquer sinal de civilização, ele precisa contar com o treinamento e a lealdade de seu companheiro para enfrentar temperaturas extremas, terrenos perigosos e ameaças da natureza. Enquanto lutam para encontrar um caminho de volta à segurança, os dois enfrentam os limites da resistência física e emocional, em uma jornada que coloca à prova os laços construídos durante anos de parceria.
A suspensão da descrença é um conceito fundamental para você curtir um filme, para você se entreter. É acreditar nas possibilidades que a história oferece. Mas existe uma questão: você até pode acreditar no impossível, mas dificilmente no improvável. E meu grande problema com esse roteiro foi justamente a quantidade de improbabilidades que ele apresenta. Por mais que James, interpretado por Brad Pitt, seja um super soldado treinado, e Odin seja um cão de guerra, não um cachorro doméstico comum, o filme abusa das conveniências de roteiro para justificar sua história.
Logo no comecinho, temos o acidente de avião que dá início à história. James sofre um ataque cardíaco, o avião cai em uma água extremamente gelada, Odin é ejetado para fora da aeronave e, pasmem, basicamente nada acontece com eles. James consegue sair do fundo do lago, não sofre maiores consequências do ataque cardíaco, consegue carregar duas malas extremamente pesadas que contêm absolutamente tudo de que vai precisar para sobreviver naquele imenso deserto florestal do Alasca, Odin, aparentemente fica algumas horas, no máximo um dia, desacordado e também se levanta como se nada tivesse acontecido. A partir daí, vamos acompanhar uma sucessão de acontecimentos que certamente matariam o protagonista, mas dos quais ele, de alguma forma, consegue sobreviver. Ele não morre de hipotermia, não pega uma pneumonia, quebra o braço e não sofre um choque, não tem febre, não pega raiva do ataque dos lobos. Segue cambaleando até que, em determinado momento, o roteiro decide que é hora de matá-lo.
Ultimamente, as pessoas estão de uma fragilidade tremenda. Na minha sessão, o que teve de gente soluçando no finalzinho, fungando, não estava escrito. E eu não entendi o porquê. E honestamente, não é uma questão de indiferença, é porque não teve nada que justificasse isso. Sobre o personagem do James, não sabemos nada desse sujeito além de segundos de flashbacks bem qualquer coisa, relacionados à Guerra. É um personagem de desenvolvimento frio. Sim, o cachorrinho é um fofo pra caramba, e ele termina bem. Porque, de tanto auê?! Não entendi.
Um ponto interessante é que David Ayer, que é ex-militar, coloca, no final do filme, alguns cards falando sobre os "cães de guerra", como se fosse uma profissão. Só que, em momento algum, ele critica o fato de usarem cães na guerra. Pelo contrário, vende isso como se fosse algo nobre, como se fosse algo justificável. Para mim, usar um animal inocente no meio do fogo cruzado, em uma situação que ele não entende, é uma monstruosidade inimaginável. Em momento algum, vi isso sendo condenado.
O filme não é ruim, ele é interessante. As paisagens (da Nova Zelândia, não do Alasca), são muito bonitas e foram muito bem capturadas pela câmera de Ayer. A direção é boa, e a atuação de Brad Pitt é muito sóbria, principalmente porque, durante o filme, tirando um breve momento, ele passa o tempo todo contracenando com um cachorro. Cachorros esses que interpretam Odin e que são muito mais expressivos do que muito ator que existe por aí em Hollywood. Mas fora isso, é um filme banal, que não tem muito o que dizer. Não é diferente de outras produções de sobrevivência que já vimos por aí. A única diferença aqui mesmo é o cachorro.
Heart of the Beast é uma boa produção para uma tarde chuvosa, simples e rápido, que te mantém entretido por conta da curiosidade para saber como o protagonista vai sair, ou se vai sair, daquela situação. Mas, cinematograficamente falando, não agrega em nada, não traz nenhuma evolução, não traz nenhuma nova perspectiva. É o básico sendo o básico. Para muitos, às vezes, funciona, mas, honestamente, para mim, acho que ficou devendo.
THE LOST CITY Direção: Aaron Nee e Adam Nee Ano: 2022 Assistido em: 21/09/2026
Eu sou cria dos anos 90, logo, o que eu consumi ao longo da minha infância e juventude foram as produções dos anos 80. Então, eu fui formado com essas aventuras misturadas com comédia, que nos encantam com personagens carismáticos em jornadas na floresta ou em lugares distantes. Isso está na minha veia. Portanto, eu tinha altas expectativas para este filme, mas nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar que ele fosse tão genérico a ponto de ser completamente esquecível.
Loretta Sage é uma escritora reclusa que faz sucesso com romances de aventura ambientados em lugares exóticos, estrelados pelo personagem Dash, interpretado nas capas por Alan, seu modelo de capa. Durante a divulgação de seu novo livro, Loretta é sequestrada por um excêntrico bilionário que acredita que a cidade perdida descrita na obra existe de verdade e quer que ela o conduza até seu tesouro. Ao descobrir o sequestro, Alan decide partir em seu resgate, mas os dois acabam envolvidos em uma perigosa aventura pela selva.
Olha, eu vou ser obrigado a fazer mea-culpa: eu não sou nem um pouco fã do Channing Tatum. Até tem um filme ou outro interessante e divertido, mas, no geral, é um ator muito fraco. Então, não tinha muita expectativa com ele. Em contrapartida, eu já esperava mais da Sandra Bullock, do Brad Pitt, do Daniel Radcliffe e da Da'Vine Joy Randolph, atores invegávelmente muito bons. Infelizmente, nenhum deles rende, e a culpa não é deles, porque o roteiro é muito fraco. Os personagens são muito insossos, sem vida, não têm uma personalidade. É tudo uma mistureba clichê de tudo que a gente já viu no cinema, só que sem profundidade. O Daniel até está em uma situação melhorzinha, por estar vivendo um vilão, e o Brad Pitt está em um personagem doido, completamente desregulado, mas os demais, poxa, são desperdiçados.
Visualmente, também não tem nada muito impactante. Os cenários são legais, mas a composição das cenas de ação é tediosa. Tem coisas dos anos 80, filmes do Spielberg e do Zemeckis que são muito superiores. Então, como o filme bebe muito dessa fonte, quando você compara, imediatamente The Lost City perde. E aí vem a frustração. Aí vem a indignação. O cansaço.
The Lost City é daquele tipo de filme que tenta lembrar sucessos do passado, tenta beber da mesma fonte, só que a execução não chega lá, não acompanha. Seria injusto comparar? Talvez eu esteja sendo um pouco radical demais, mas o filme falha em tudo o que se propõe. Ele é uma comédia romântica de aventura, mas não é engraçado. O casal principal não tem absolutamente nenhuma química, ao ponto de chegar a ser constrangedor nas cenas de romance. E a aventura é batida, repetitiva. Aí, quando o filme falha basicamente em tudo, é muito difícil você encontrar qualidade para se agarrar.
FULL METAL JACKET Direção: Stanley Kubrick Ano: 1987 Assistido em: 20/09/2026
Nas últimas semanas, ando pesquisando muito a respeito da Guerra do Vietnã. Estou buscando livros, assistindo a documentários, ouvindo podcasts e me bateu uma vontade de assistir a um filme sobre o assunto. Então eu pensei: qual dos grandes clássicos eu ainda não havia tido a oportunidade de assistir? Já que Apocalypse Now (1979) e Platoon (1986) eu já havia assistido, eu me recordei, obviamente, de um dos maiores diretores de todos os tempos, que tinha um longa sobre o assunto que eu ainda não havia assistido. Então chegou a hora de correr atrás de mais um clássico do Kubrick e tirá-lo da minha lista de pendências. Foi assim que eu decidi assistir a Full Metal Jacket, e eu já esperava que fosse, no mínimo, diferente. Afinal de contas, Kubrick não era diretor para fazer filme comum.
Durante a Guerra do Vietnã, jovens recrutas dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos passam por um brutal treinamento em Parris Island, comandado pelo implacável sargento Hartman. Entre eles estão Joker, um recruta irreverente que encontra no humor uma forma de lidar com a pressão, e Pyle, que enfrenta enormes dificuldades para se adaptar à rotina militar. Depois do treinamento, os soldados são enviados ao Vietnã, onde Joker passa a trabalhar como correspondente de guerra e acaba testemunhando diretamente a violência e o caos dos combates.
É notório que o ponto mais chamativo desse filme é a sua divisão. Inclusive, eu já li em alguns lugares que muitos gostam até de tratá-lo como dois trabalhos distintos colados um ao outro. E o que mais chama a atenção é o fato de o roteiro dedicar um tempo enorme a um ponto que muita gente ignora, que é o treinamento, a preparação de um soldado, ainda mais um de alto padrão, como os Marines nos EUA. Como ex-militar, que optou por não seguir adiante na carreira, eu posso afirmar que 100% do que vemos naquela base de treinamento é real, e a parte da pressão psicológica ficaria próxima de uns 200% de realidade.
No militarismo, existe uma teoria de que você é como uma engrenagem de um relógio, e se uma engrenagem para de funcionar, ela automaticamente compromete todas as outras, e logo a estrutura irá ruir. Tudo que o Pyle sofre na primeira parte é algo de que eu já fui testemunha. Todos os gritos do sargento Hartman, eu já testemunhei. Foram poucos os quais eu fui vítima, mas foi algo muito corriqueiro de presenciar na minha vida por cerca de dois anos. E é justamente por isso que eu vou fazer parte do grupo que elege a primeira parte como sendo a melhor. Não que a segunda seja ruim, não é isso, mas é tudo feito com um realismo tão grande que chega a ser assustador.
Kubrick consegue extrair de seus atores atuações inacreditáveis. Eu não conhecia o trabalho do Lee Ermey, e ele estava simplesmente assustador. A mesma coisa com o Vincent D'Onofrio. Tudo bem, hoje ele já é aclamado e tal, mas nessa época ele tinha apenas 25 anos e conseguiu entregar uma performance incrível. Os dois estão monstruosos em cena. E Kubrick trabalha a tensão de uma forma que você sabe que as coisas vão descarrilhar e, quando vem, mesmo você já prevendo, ainda assim te pega de surpresa. E é esse choque, esse surto, que torna essa primeira parte tão impactante.
Quando nós chegamos à segunda metade, nós estamos em um território já conhecido. Nós nos deparamos com os americanos fazendo suas habituais "americanices", vamos dizer assim. O roteiro ainda ganha pontos porque não retrata os estadunidenses como os heróis que foram libertar os pobres vietnamitas da opressão do comunismo. Muito pelo contrário, Kubrick expõe muito dos horrores que eram praticados naquela guerra e o quão estúpida, ridícula e inútil era tudo aquilo. Mas ele ainda não deixa de nos chocar com a forma como a brutalidade psicológica se transforma em brutalidade física. Principalmente ali nas cenas finais, é algo impactante demais.
Não tem nenhum tipo de violência que Kubrick não esteja disposto a mostrar. Se por um momento você pensou que não veria banho de sangue nesse filme, ele chega e te derruba novamente, te provando que sim, você ainda vai ter que se deparar com muita carnificina.
Se tem uma coisa em todo filme do Kubrick, sem nenhuma exceção, é deslumbre, é a fotografia. E aqui ele nos reserva, para as cenas finais, algumas das mais belas e incríveis de sua carreira. A iluminação que ele utiliza no momento em que os soldados americanos invadem aquele prédio em busca do sniper que tinha matado seus companheiros é absurda. O jogo de sombras, a forma como o rosto do Joker é coberto pela escuridão quando ele precisa tirar uma vida, depois a silhueta desses soldados contra uma frágil luz de fogo ao fundo... Tudo isso é uma beleza artística inquestionável. E eu não vou nem dizer que não era esperado, porque, quando se trata do Kubrick, qualquer cena vira uma pintura de tão bem filmada, de tão bem enquadrada. Não é à toa que isso é só uma das muitas provas do porquê de ele ser um dos grandes diretores de todos os tempos.
Full Metal Jacket não é um filme para fazer você se sentir bem, para fazer você se sentir confortável. Não. Ele foi planejado desde o princípio para te levar a um questionamento: qual a real necessidade de um conflito tão brutal, tão violento? Qual é o propósito de destruir a mente de um homem, transformá-lo em uma máquina de matar que vai desprezar a vida de outras pessoas? Com qual intuito? E tudo isso é retratado com um brilhantismo poucas vezes visto na sétima arte.
Novamente, o primeiro ato, por ser incomum de vermos no cinema, é muito mais impactante, ainda é muito mais chocante, inclusive para quem tem algum tipo de vínculo emocional com o militarismo. Eu acho que, infelizmente, o segundo não conseguiu igualar. Eu não vou dizer que ele ficou muito abaixo, ele não ficou. Ele simplesmente não conseguiu igualar. Mas, artisticamente falando, também é incrível, sem nada para questionar.
Ah, eu não posso deixar passar em brancas nuvens: encerrar esse filme com "Paint It, Black", dos Rolling Stones, foi outra sacada genial. Nada como uma música criada e lançada naquela época, que fala sobre luto, para deixar claro qual era o único sentimento possível no meio de toda aquela tragédia exposta em tela.
UNDRAFTED Direção: Joseph Mazzello Ano: 2016 Assistido em: 19/09/2026
Apesar de não ser um praticante de esportes, eu gosto muito de assistir a filmes sobre esportes. Entretanto, tem dois em específico que, toda vez que eu vejo que o filme trata sobre eles, eu tento fugir: futebol americano e o bendito do beisebol. Mas, como eu sou da teoria de que não devemos ter nenhum tipo de preconceito cinematográfico, eu ainda tento. Só que, a cada frustração, o ranço por esse esporte sem graça só aumenta.
John Mazzello é um talentoso jogador universitário de beisebol que sonha em seguir carreira profissional, mas vê seu objetivo desmoronar ao não ser selecionado no draft da Major League Baseball. Pouco depois de receber a notícia, ele precisa entrar em campo com os D-Backs para disputar a semifinal de uma liga de verão contra os Bulldogs, uma equipe reforçada por jogadores experientes.
Filmes de um cenário não são fáceis. É preciso uma história muito boa, que prenda a atenção e que saiba utilizar o pouco espaço disponível. É preciso uma gestão, uma logística muito boa. Infelizmente, nós não temos isso aqui. Nós temos essas duas equipes que vão disputar uma partida de beisebol e, com exceção do campo, a única coisa que nós vemos é o banco de uma delas. Isso causa uma sensação de prisão, de que a história está amarrada, sufocada, o que deixa tudo muito mais cansativo. Não é como se o roteiro colaborasse e fosse muito bom, com personagens muito bem trabalhados para compensar de alguma forma, o que não é o caso. É tudo muito arrastado, tudo muito cansativo, a personalidade dos personagens é irritante demais. Enfim, é uma tortura.
Levando em consideração que este é o primeiro trabalho do Joseph Mazzeo, que começou em Hollywood ainda criança e tentou fazer essa transição, eu acharia muito mais interessante que ele permanecesse atuando porque, por Deus, a condução da história, a forma como os personagens são direcionados, as escolhas dos enquadramentos, tudo é muito deficiente. Até quem não entende bosta nenhuma disso, sabe que tudo isso ajuda a deixar o filme dinâmico, o que não aconteceu aqui. E observem o sobrenome do protagonista, o mesmo do diretor/roteirista, arrogância mandou lembranças.
Eu costumo brincar que, quando o filme é ruim, a única coisa que sobra é prestar atenção na beleza do elenco, e talvez seja essa a única coisa minimamente boa aqui. Está cheio de homem bonito, você fica encantado, mas é tão triste saber que você passa por uma história e ela não tem motivo, não tem nada que permaneça, e a única coisa que você consegue lembrar é a cara dos atores. Isso é horrível para qualquer cinéfilo. É uma experiência que eu não aconselho ninguém a ter.
ONE NIGHT ONLY Direção: Will Gluck Ano: 2026 Assistido em: 19/09/2026
Já faz alguns anos que existe uma discussão de que as comédias românticas perderam espaço nas telas de cinema e que, atualmente, elas devem se contentar com os serviços de streaming. Entretanto, em 2023, o diretor Will Gluck provou que essa afirmação não é de toda verdadeira com o grande sucesso de Anyone But You. Agora, passados três anos, ele tenta mais uma vez emplacar um sucesso com um casal que se estranha em um primeiro momento, mas que precisa se acertar. Só que, infelizmente, não é sempre que um raio cai duas vezes no mesmo lugar.
Em uma Nova York onde solteiros podem fazer sexo legalmente apenas uma noite por ano, Owen, recém-abandonado pela namorada, e Allie, uma romântica em busca de algo mais significativo, se encontram justamente quando a cidade está tomada por encontros casuais. Apesar da conexão imediata entre os dois, uma sucessão de desencontros, confusões e situações inesperadas faz com que eles passem a noite correndo pela cidade, ora se aproximando, ora se afastando, enquanto tentam descobrir se aquela noite pode lhes trazer algo além do que inicialmente procuravam.
Longe de querer comparar esse filme com a obra anterior do diretor, apesar de eu já ter feito isso na introdução, mas comédias românticas seguem uma cartilha tão cegamente que é impossível não traçar paralelos entre elas. E, se analisarmos mais friamente a estrutura de One Night Only, a gente pode perceber que, apesar de partir de uma ideia muito boa de uma distopia onde os Estados Unidos controlam a vida sexual da sua população, a execução não parece saber muito bem o que fazer com essa premissa. Nós temos os protagonistas, Owen e Allie, doidos para transar, mas se envolvendo em diversas situações que, na teoria, deveriam ser divertidas, mas não são. E aí existe um outro problema: não existe química no casal.
Em uma comédia romântica, subentende-se que precisa haver humor e romance, mas não é bem isso que nós encontramos aqui. O filme em momento algum é constrangedor, ele não vai te fazer morrer de vergonha, também não apela para o humor besteirol, mas ele não tem graça. O máximo que vai te dar é um sorrisinho de canto de boca. Isso é ruim? Não, mas também não cumpre os pré-requisitos do que é uma comédia. O romance também é outro problema. Por mais que Callum Turner e Monica Barbaro sejam dois lindos gostosos, eles não funcionam em cena. Eu não senti aquele desejo explosivo que vai fazer com que a gente torça desesperadamente para que eles fiquem juntos. Você quer que eles fiquem juntos porque as outras opções são todas horríveis, mas não é aquela paixão arrebatadora que muitas vezes nós já vimos nesse tipo de história.
É perceptível que Gluck estava tentando repetir o seu sucesso anterior. Por isso, ele vai incisivamente em cima dos mesmos pontos: casal se conhece, não dá muito certo no primeiro momento e depois, meio que pelas circunstâncias do destino, são obrigados a ficar juntos. Mas eu acho que faltou ele estruturar melhor essa história, ver os pontos fortes dela e tentar utilizá-los da melhor forma possível, porque seguir uma cartilha infelizmente não funcionou tão bem quanto deveria ter funcionado.
Falando assim, parece que eu odiei o filme. Não é isso. Eu diria que ele está até um pouquinho acima da média, se tratando do gênero. Tem um bom elenco e uma trilha sonora maravilhosa, mas deixa aquela impressão de que poderia ter escolhido um caminho diferente, buscando algo próprio, ter explorado mais as implicações da lei naquela sociedade. Enfim, ter se aproveitado mais do que poderia ter tornado o resultado diferente, e não apenas mais um.
PS: A Monica Barbaro teve uma sorte bárbara nesse filme, hein? Pegar Callum Turner, Charlie Gillespie e Andrew Burnap na mesma noite! Sorte para poucos.
WRONGFULLY ACCUSED Direção: Pat Proft Ano: 1998 Assistido em: 13/09/2026
O Fugitivo (1993) foi um dos filmes de maior sucesso daquele ano e entrou para a história do cinema. Teve uma excelente bilheteria, foi muito bem recebido pelas críticas e chegou a ser indicado ao Oscar. Eu cheguei para assisti-lo com altíssimas expectativas. Entretanto, quando os créditos começaram a subir, percebi que não tinha gostado nem um pouco, porque ele simplesmente não fazia a minha praia. Agora, uns dez anos mais ou menos depois de tê-lo assistido pela última vez, sem nada em especial para assistir, me deparo com essa paródia na Netflix e, ao saber que ela é protagonizada pelo lendário Leslie Nielsen, decidi dar uma chance para ver se a versão cômica me agradaria mais. E, honestamente, ainda não foi dessa vez.
O famoso violinista Ryan Harrison é condenado à morte pelo assassinato do milionário Hibbing Goodhue, apesar de ser inocente. Durante o transporte para a prisão, um acidente provoca a fuga de Ryan, que passa a ser perseguido pelas autoridades enquanto tenta descobrir quem realmente está por trás do crime. Em meio à fuga, ele se envolve em uma série de situações absurdas e perigosas, enquanto busca provar sua inocência.
O mais interessante de uma comédia que faz paródia de um filme específico é que você consegue observar os momentos exatos que estão sendo parodiados e, obviamente, isso faz com que o humor se destaque mais. Então, ao ver algumas cenas desta versão, imediatamente me lembrava das cenas de 1993, e aí o humor vinha naturalmente. Entretanto, o meu problema com aquele filme é que eu não achava a história interessante o suficiente. Sim, eu sei que ele foi amplamente elogiado, mas comigo não deu certo. Aconteceu basicamente a mesma coisa aqui. Apesar de ter o Nielsen, a história ainda é a mesma, do fugitivo que sai correndo destrambelhado, com a polícia nos seus calcanhares, logo por tabela, eu também não gostei.
Nem todo bom roteirista é um bom diretor, e vice-versa. Aqui, nós temos a condução de Pat Proft, que foi roteirista de uma série de filmes protagonizados pelo Nielsen, em particular da franquia Corra Que a Polícia Vem Aí, mas faltou o timing cômico necessário. Faltou o momento de fazer a piada funcionar na hora certa, de cortar na hora certa. Em muitos momentos, o filme parece bobo e inchado, com piadas que não faziam muito sentido dentro do que estava sendo apresentado. E olha que isso é algo corriqueiro em uma comédia-paródia de humor nonsense igual a esta.
Wrongfully Accused não é reconhecido como pertencente aos grandes clássicos do lendário Leslie Nielsen e, quando você assiste, percebe que é uma produção menor. Entretanto, talvez funcione para quem gosta de humor nonsense, eu até gosto bastante desse tipo, mas admito que, desta vez, não funcionou muito bem comigo. Quem sabe é porque eu estava em um dia não muito propício para esse tipo de humor e ele funcionasse melhor em outra ocasião, em uma revisita. Mas isso aí vai ficar para outro momento.
Confesso que não sou amante desses filmes dos anos 90 de um policial que precisa combater um vilão e provar sua inocência, blá-blá-blá. Nunca fui muito adepto desse tipo de produção, mas, devido a um problema na minha televisão, fui forçado a assistir a alguma coisa aleatória na Netflix e dei de cara com esse filme do Bruce Willis. Decidi dar uma oportunidade e fui esperando absolutamente nada, mas até que não foi tão ruim quanto eu esperava. Apesar de já adiantar: ele é bem fraco.
O detetive Tom Hardy, da polícia de Pittsburgh, é transferido para uma unidade fluvial após denunciar a corrupção de seu primo e parceiro de departamento. Quando uma série de mulheres associadas a Hardy aparece morta no rio, ele suspeita que os crimes estejam ligados a um antigo caso investigado por sua família. Determinado a descobrir a identidade do assassino, ele se envolve novamente na investigação e passa a desconfiar até mesmo de seus próprios colegas.
Meu grande problema com esse filme é que, para mim, parece que ele foi feito de qualquer jeito em todos os sentidos. O roteiro foi escrito e não teve nenhuma revisão, a direção foi entregue nas mãos de um iniciante e os atores não estavam minimamente interessados em fazer alguma coisa minimamente decente. Falando de uma maneira mais vulgar, foi feito à "moda caralha", como se ninguém estivesse se importando com o resultado. Da forma que ficasse, ia ficar, e acabou.
O roteiro não é dos mais bem elaborados, não. Ele é um clichê do policial que se afasta do trabalho e tem que voltar porque um criminoso do passado retorna e está matando pessoas próximas a ele. Tem um envolvimento com a parceira, enfim, é muito básico. O "grande momento", é a revelação da identidade do vilão que, convenhamos, você só pode ter errado o membro, mas era óbvio que pertencia à mesma família. Na sequência, temos a conclusão óbvia no qual o protagonista precisa brilhar, mesmo que em cenas constrangedoras e completamente sem nexo, vide todo o malabarisco que o Bruce Willis faz ALGEMADO.
No campo das atuações, tudo é simplesmente apavorante. O vilão é totalmente exagerado, caricato, histriônico. Até poderia funcionar se isso aqui fosse uma paródia, mas não é. É um filme que você leva a sério, que está querendo fazer um grande drama policial, um grande longa de ação. Aí, quando você tem o Robert Pastorelli gritando, dando chilique e fazendo tudo de uma maneira cartunesca, é impossível permanecer imerso na história. Sua cabeça vai para da trama, e tudo se perde.
Para não dizer que nada aqui é aproveitável, confesso que, mesmo no clichê, o mistério é interessante. Você quer saber por que estão matando aquelas mulheres, quem é o assassino e admito que o roteiro até me surpreendeu ao revelar as circunstâncias da morte do pai do protagonista. Mas são qualidades pontuais, algumas eu diria até mais superficiais, não conseguem anular os problemas existentes no restante da produção.
Para quem quer um filme de ação policial do Bruce Willis dos anos 90, no seu auge, em que ele banca o policial bem durão no combate aos inimigos, talvez seja um prato cheio. Mas, se você procura algo com um pouquinho mais de qualidade cinematográfica, esse aqui não é nem de longe a melhor pedida.
Em Hollywood, é muito comum atores pularem para trás das câmeras e se tornarem diretores. Todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é uma máquina de moer carne, que, quando chega a uma certa idade e a pessoa já não é mais tão jovem, a beleza começa a desaparecer e a tendência é que os papéis importantes vão rareando. Então, nada mais justo que aconteça essa transição, e é graças a isso que nós temos excelentes profissionais que nos presenteiam todos os anos com obras icônicas. Mas também tem casos em que você olha e pensa que seria melhor se essa transição nunca tivesse acontecido. Com CHiPs, foi exatamente isso que eu imaginei.
Jon Baker, um motociclista profissional que decide ingressar na Patrulha Rodoviária da Califórnia, recebe como parceiro Frank “Ponch” Poncherello, um agente federal infiltrado. Enquanto Jon tenta se adaptar ao trabalho e provar seu valor, Ponch investiga uma série de roubos cometidos por um grupo de criminosos que pode ter ligações com policiais corruptos. Os dois, apesar das personalidades e objetivos diferentes, precisam trabalhar juntos para descobrir a identidade dos responsáveis e impedir que o esquema continue.
Tem certos humores que são peculiares, funcionam para determinadas pessoas e para outras não. Eu, particularmente, adoro um humor mais satírico, mais debochado, humor negro, vamos dizer assim. Há quem goste de comédia escrachada, pastelão, que é o que encontramos aqui. Que, comigo, não funcionou de maneira alguma. O timing cômico do Dax Shepard é pavoroso. As cenas são construídas com base em humor de quinta série, infantil e bobo, criando constrangimento. Mas não é daqueles estilos como The Office (2005-2013), em que você ri de nervoso. Não, é daqueles em que você procura um buraco para enfiar a cara.
O elenco reunido aqui é bom, mas, com um roteiro tão fraco, morto não tem condição de se sustentar nenhum personagem. Eu não conheço a série-mãe que deu origem ao filme, mas, se era intenção despertar interesse para buscar o material original, fracassou vergonhosamente, porque tudo o que eu fiquei foi com vontade de nunca mais ver nada relacionado a essa franquia na face da Terra.
Com a direção fraca, que picotou o filme inteiro na montagem, e um roteiro sem graça, CHiPs deixa a pior impressão possível. É daqueles que você não quer nem lembrar que um dia assistiu. O gênero do humor é um dos mais difíceis do cinema. Não é fácil fazer rir: para cada um bom e engraçado, tem 200 horripilantes, e este aqui, com toda a certeza, caiu no grupo dos 200. Quando eu vir o Dax Shepard, acho que vai ser impossível não lembrar do mal-estar que esse personagem dele me causou assistindo a esse filme.
SELMA Direção: Ava DuVernay Ano: 2014 Assistido em: 12/09/2026
A luta pelos direitos civis na década de 1960 é um dos pontos mais instigantes de todo o século XX. Era extremamente absurda a contradição de os Estados Unidos alegarem estar protegendo o planeta do comunismo, mandando jovens para serem mortos no Vietnã e financiando golpes de Estado na América Latina, enquanto negros eram brutalmente violentados, abusados e agredidos em seu próprio território. Estou concluindo a trilogia O Século, do Ken Follett, e ele dedica muito tempo do terceiro livro tratando desse assunto. Por isso decidi ir atrás de Selma, que foi indicado ao Oscar em 2014, mas que eu não havia tido a oportunidade de conferir, e me arrependi muito de ter demorado tanto tempo para assisti-lo, porque é um filme de fato muito bom.
Em 1965, Martin Luther King Jr. e outros líderes dos direitos civis concentram seus esforços em Selma, no Alabama, para garantir o direito de voto à população negra. Diante da violência e da repressão das autoridades locais, o movimento organiza uma série de protestos e marchas, incluindo a tentativa de atravessar a ponte Edmund Pettus rumo a Montgomery. A mobilização coloca a questão do direito ao voto no centro do debate nacional e aumenta a pressão sobre o presidente Lyndon B. Johnson para aprovar uma nova legislação de direitos civis.
Eu tenho problemas muito sérios com figuras históricas muito pacifistas. Eu admiro muito Martin Luther King, a postura dele, a vontade, a forma como ele nunca se deixou abater, mas eu confesso que, caso eu fosse um homem negro com idade para ter engajamento na causa lá nos anos 60, eu provavelmente ficaria do lado de Malcolm X. Eu não consigo conceber essa ideia de dar a outra face. Eu sou muito reativo, eu sei que muitas vezes essa não é a maneira mais adequada, mas não consigo compreender como aquelas pessoas podiam sofrer as maiores barbaridades sem poder fazer nada para revidar. Entendo toda a política do King, entendo que, com toda certeza, haveria uma retaliação muito grande, mas não existe mudança sem sofrimento, e sou daqueles que acredita que, caso os negros tivessem se imposto de uma forma mais radical há mais tempo, as mudanças teriam vindo mais rapidamente.
Cada conquista desse período era obtida com muito sofrimento, com muito derramamento de sangue e com vítimas. A marcha de Selma foi uma forma de pressionar Lyndon Johnson para ele fazer o mínimo. Algo muito interessante, que é bem retratado no filme, é que a Lei dos Direitos Civis idealizada pelo Kennedy foi promulgada no ano anterior pelo Johnson e, como bem diz o desgraçado do George Wallace, os negros tinham que se dar por satisfeitos. No sul dos Estados Unidos, essas leis eram amplamente desrespeitadas, logo a marcha foi importante porque mostrou ao mundo o que de fato estava acontecendo nos Estados Unidos.
Selma tem um registro histórico muito bom, mas ele falha em alguns pontos. Eu, por exemplo, nunca gostei de idealizar figura nenhuma, e muito menos dessa idolatria que existe pelo King, não só por ele, como por qualquer outro nome importante. Sim, ele fez muitas coisas boas, mas também era uma pessoa muito falha, então essa grande dependência que as pessoas tinham dele e a forma como é retratado no filme, quase que como uma idolatria, me incomoda bastante. Bom, outro detalhe é que o roteiro dá a entender que Lyndon Johnson resolveu finalmente assinar a lei por conta de uma conversa que ele teve com King, e quem busca saber um pouquinho de história sabe que Johnson tinha um sentimento de inferioridade muito grande porque ele era uma pessoa de origem humilde, vinda do Texas. Ele não era da elite norte-americana, como, por exemplo, seu antecessor Kennedy. Então, tudo que ele fez foi movido pelo ego. Ele queria entrar para a história como o presidente que finalmente resolveu a questão da segregação racial nos Estados Unidos, e não por conta de discursozinho bonitinho do King.
Do ponto de vista artístico e técnico, Ava DuVernay faz um trabalho muito competente. Os atores estão muito bem em cena, a direção é segura, os figurinos e os cenários são tudo muito bem recriados. Não tem nada que soe falso, tudo parece, de fato, uma produção da década de 1960. O elenco não tem ninguém que se destaque mais do que os demais. Todos estão bem, mas não há nenhuma atuação fora da curva. Outro destaque muito importante é a excelente “Glory”. Quando essa música venceu o Oscar de Melhor Canção Original, eu não gostei muito, não achava ela muito boa, mas, com o passar dos anos, fui mudando de opinião e hoje em dia consigo reconhecê-la como uma excelente canção.
Selma é muito bom nas suas duas funções. Ele funciona muito bem como um grande filme e serve para nos ensinar um pouquinho mais da situação política dos Estados Unidos e do cenário global da década de 1960. Entretanto, eu acho que é sempre preciso um complemento, é sempre interessante buscar um pouquinho mais de informações. Não que o que o filme nos forneça não seja de qualidade, não é isso. Só que toda arte é enviesada pelos olhos do seu artista, e eu creio que, se seus personagens tivessem um pouco menos desse verniz que suaviza as personagens, ele funcionaria ainda melhor do que já funciona.
ROSE OF NEVADA Direção: Mark Jenkin Ano: 2025 Assistido em: 07/09/2026
Eu cheguei num ponto em que não procuro muita coisa para me convencer a assistir a um filme. Eu não leio sinopse, não assisto trailer. A única coisa que acompanho religiosamente são notícias. Então, quando vi uma notícia sobre essa produção com viagem temporal, com dois atores de que eu gosto como protagonistas, eu já estava convencido. Não precisava de mais nada para assistir. Entretanto, admito que esse método pode fazer com que eu assista a grandes projetos e a grandes fracassos também. Com Rose of Nevada, eu senti que ele ficou no meio do caminho, sem conseguir ir nem para um lado nem para o outro.
Em uma esquecida vila de pescadores na Cornualha, um barco desaparecido há trinta anos, o Rose of Nevada, surge misteriosamente no antigo porto. Para os moradores, seu retorno pode ser um sinal de que a sorte da comunidade, devastada pelo declínio econômico, finalmente está prestes a mudar. Nick, um jovem pai que precisa sustentar sua família, e Liam, um recém-chegado tentando escapar do próprio passado, embarcam na embarcação. Depois de uma viagem bem-sucedida, porém, eles retornam ao porto e descobrem que algo inexplicável aconteceu: foram transportados trinta anos para o passado e são recebidos pelos moradores como se fossem os membros originais da tripulação desaparecida.
O grande problema deste filme, está no roteiro, que, convenhamos, é confuso, arrastado e tem pouquíssimas curvas dramáticas. A história é boa e poderia render grandes momentos de tensão e conflito, mas não é isso o que o roteiro entrega. Nós temos dois protagonistas: enquanto um tenta desesperadamente voltar para o tempo presente, o outro se acostuma muito depressa e vai se adaptando. Mas a forma como eles mostram isso é muito fraca, dando a impressão de que nada está acontecendo de fato, de que a história não está andando, ela está parada no tempo. O que é até curioso, já que, por mais que o Nick tente, ele não consegue sair do lugar, não consegue voltar ao tempo presente.
Como o roteiro não colabora, eu tive que me apegar a outros critérios. Por exemplo, a fotografia é fantástica. A forma como eles emulam uma filmagem antiga, dando uma estética similar à de uma filmagem caseira de 1993, deixa o filme muito gostoso de se assistir. O formato da tela, que não é widescreen, é 4:3. A atuação é muito boa. Eu gosto demais do George MacKay, ele segura grandes momentos dramáticos, e eu também gosto bastante do Callum Turner. O problema é que, como eu já falei antes, o roteiro não dá nenhum grande material para eles trabalharem. Todas as cenas-chave deveriam ser intensas, interessantes, mas são sem vida. Nós temos o protagonista gritando na cara de duas pessoas que ele não é o filho que elas estão acreditando que seja, e você não sente nada. Nós temos o outro brincando de casinha, fingindo ser o pai de uma criança, e também não diz nada.
Rose of Nevada está mais para uma boa ideia do que para um bom filme. Aliás, a quantidade de bomba que nasce de uma boa ideia não está no gibi. É preciso ter uma boa execução e, por mais que o longa não esteja em um nível mais elevado, ele ainda é interessante. Você ainda consegue ficar curioso para saber quais serão os desdobramentos da história e se mantém preso para descobrir o que vai acontecer, mesmo que o resultado final não seja exatamente aquilo que você esperava ou aquilo que você gostaria de fato de assistir.
SNAKE EYES: G.I. JOE ORIGINS Direção: Robert Schwentke Ano: 2021 Assistido em: 07/09/2026
Honestamente, eu fico me perguntando qual é a tara que os americanos têm com G.I. Joe. Eu sei que até trouxeram a animação aqui para o Brasil e que os bonequinhos eram bem vendidos lá nos anos 80, mas eu sou dos anos 90 e, para minha geração essa marca nunca quis dizer nada. Só conheci mesmo pelos filmes e, como todos são bem fracos, fico me perguntando para quem eles fazem esse tipo de produção, porque até agora não consegui entender.
Após anos procurando pelo homem responsável pela morte de seu pai, Snake Eyes finalmente o encontra e recebe a chance de se vingar. Porém, ao salvar a vida de Tommy Arashikage, herdeiro de um poderoso clã ninja japonês, ele é levado ao Japão e acolhido pelo grupo, onde começa a ser treinado para se tornar um guerreiro. Enquanto tenta conquistar a confiança de seus novos aliados, Snake Eyes se vê dividido entre a promessa de vingança que o guiou por toda a vida e os valores de honra e lealdade ensinados pelo clã.
Nós vivemos numa era tão desgraçada do cinema que tudo hoje em dia é spin-off, sequência, remake... E, quando decidiram fazer essa prequel contando a história do Snake Eyes, eu só fiquei me perguntando: para quê? Ele é um personagem visualmente legal. Aquela roupa toda preta, ele não fala, a gente não sabe nada dele. Quando chega, chega descendo a porrada em todo mundo. Ele é aquele tipo de personagem que, quanto menos você souber, melhor.
Mas, já que fizeram um filme, que ao menos fizessem uma história interessante, o que não é o caso aqui. O roteiro é rocambolesco, clichê, é traição em cima de traição, é uma pataquada de uns testes sem graça. A cena das anacondas até poderia ser boa, mas é tudo tão escuro e tão mal executado que uma sequência conceitualmente interessante acaba ficando boba durante a execução.
Eu cheguei aqui ao menos esperando encontrar boas sequências de luta, uma boa coordenação de dublês, mas não tem nada disso. Outro problema é o Harry Goodwin, que tem o carisma de uma parede. Nós temos no elenco Andrew Koji que, além de um bom ator, é um artista marcial sensacional. Ele funcionaria muito melhor como protagonista, mas, pelo menos aqui, colocaram-no como vilão. O Storm Shadow, que, honestamente, eu sempre achei muito mais interessante que o próprio Snake Eyes.
Esse filme foi uma tentativa de Hollywood de retomar uma franquia que, lá no finalzinho dos anos 2000, deu umas batidas de asa, mas que nunca decolou. E o mais interessante é que, atualmente, a Hasbro está tentando colar G.I. Joe nos Transformers, que, por si só, já foram gigantescos, mas que nos cinemas atualmente respiram por aparelhos. Seria um aleijado se escorando em outro. Mas eu tenho para mim que isso nunca vai sair do papel e creio que essa saga deveria ficar presa lá nos anos 80, quando ela era relevante. Hoje em dia, honestamente, isso aí já não diz mais nada, só os executivos insistem em não ver.
Eu tenho para mim que o maior crime que um filme pode cometer não é ele ser ruim, é ele ser qualquer coisa. É ser esquecível, ser qualquer nota. Porque o filme ruim, um verdadeiro desastre, mas te marca de alguma forma: te faz perder a paciência, te faz querer bufar de raiva, enfim, te provoca algum sentimento. E, quando você se depara com um que nem isso consegue fazer, a frustração é pior. É aquele sentimento de que você se envolveu, se entregou, e não recebeu nada em troca. E foi exatamente isso que eu senti assistindo a isso aqui.
Após perder a esposa e a filha em um acidente aéreo causado por um erro de controle de tráfego, Roman Melnyk fica devastado. Quando percebe que o responsável pela tragédia continua vivendo sua própria vida, Roman passa a ser consumido pelo luto e pela necessidade de encontrar algum tipo de justiça, colocando-o em uma trajetória marcada por dor, ressentimento e vingança.
Quando eu li a sinopse, achei a história extremamente interessante, uma proposta diferente. O Arnold Schwarzenegger já estava bem mais velho, então não seria um daqueles longas que ele estava acostumado a fazer na juventude, do exército do homem solitário em busca de vingança e tal. Mas eu não imaginava que fosse encontrar uma coisa tão insípida, tão sem graça.
A parte mais interessante da obra justamente está no personagem do Scott McNairy e na repercussão que o erro dele causou, desde as pressões psicológicas até as pressões sociais. Mas isso não é bem explorado. É tudo feito de uma maneira insípida.
A fotografia é cinzenta e combina com o roteiro, que não é preto nem branco, não é 8 ou 80, ele é cinza. Ele é uma coisa, uma massa sem forma. E foi isso que me impediu de gostar, porque ele não é intenso. Uma história como esta poderia ser um drama fenomenal, que nos levasse a discutir, que nos levasse a entender melhor quais seriam as repercussões que um acidente como este teria caso acontecesse na vida real, já que o filme é levemente inspirado em uma história real. Mas roteiro e direção não querem se comprometer com nada, e aí acaba resultando em uma coisa sem vida.
Aftermath é daqueles filmes que eu coloco na prateleira de que você não vai se esquecer da história dele, você vai se esquecer de sequer tê-lo assistido. É o tipo de produção que implode imediatamente na parte do cérebro que guarda as nossas memórias, porque não tem uma cena minimamente memorável. Eu mesmo cochilei e lutei contra o sono durante uma hora e meia e, o filme não me ajudava a resistir. E isso é o que torna tudo mais desmotivante no final.
DOCTOR ZHIVAGO Direção: David Lean Ano: 1965 Assistido em: 05/09/2026
Desde março, estou vivendo quase que um caso de hiperfoco na história russa, muito devido ao fato de estar lendo algumas obras icônicas do Ken Follett. E, quando li uma biografia do meu diretor favorito da vida, Christopher Nolasn, descobri que este é um dos longas mais influentes no trabalho dele. Então, decidi que era hora de juntar o útil ao agradável e conhecer esse grande clássico dos anos 60. Mas é aquela história: não é porque é clássico que obrigatoriamente você vai morrer de amores.
Durante a Revolução Russa e a Guerra Civil, o médico e poeta Yuri Zhivago tenta sobreviver às profundas transformações políticas e sociais que devastam a Rússia. Casado com Tonya, ele acaba se envolvendo com Lara, uma enfermeira por quem desenvolve uma paixão intensa, enquanto os conflitos ao seu redor tornam cada vez mais difícil preservar sua família, seus ideais e sua própria vida.
Eu vou começar falando daquilo que não me agradou na obra porque vai ser mais fácil, já que o problema se concentra em apenas dois pontos: primeiro, nos personagens; segundo, no ritmo. Sobre os personagens, a melhor definição que eu consigo achar é que eles são tão carismáticos quanto um muro chapiscado. Honestamente, eu não gostei de ninguém. Nenhum me convenceu, eu não fui encantado por eles. O protagonista é apático, não tem atitude, é simplesmente carregado pelas situações da vida. Honestamente, eu não morro de amores por pessoas que são adúlteras, independentemente do contexto ou da situação, então o Yuri foi alguém que praticamente foi muito maçante de acompanhar. Os demais personagens, esses aí então, pioraram. A mais simpática de todos é a Lara, mas, ainda assim, a questão do adultério me pega demais e não dá para torcer para os dois.
O ponto do ritmo e edição também fica complicado. São 3h20 de duração nada dinâmicos: tudo é arrastado. E olha que ele tem assuntos extremamente relevantes e que, como eu disse, têm minha total atenção, como as revoluções de 1917, a Guerra Civil Russa, todo o contexto geopolítico entre o fim do Império Russo e a ascensão da União Soviética e o estado de caos que se instaurou nos cinco anos entre uma coisa e outra. Ainda assim, é tudo muito devagar. A história se arrasta e, como eu disse lá em cima, os protagonistas não são muito agradáveis. Tudo isso torna a experiência de assistir a Doctor Zhivago bastante enfadonha.
Mas, deixando de lado essa parte, o restante do trabalho é um espetáculo com letras garrafais. A direção é muito boa, os atores em cena são lendários. Por mais que eu ache o Yuri uma água de salchica, é inegável o talento de Omar Sharif, assim como o de Geraldine Chaplin, o da Julie Christie e, é claro, o do lendário Alec Guinness, mesmo ele apareca pouco.
Outro detalhe que faz o queixo cair é a fotografia linda. Ela usa muito bem os cenários, dando uma impressão de grandiosidade à história. A produção, os cenários e os figurinos nos fazem acreditar que estamos mesmo na Rússia do princípio do século XX. A trilha sonora é forte, é marcante, não passa despercebida. Você entende perfeitamente de onde vem o fascínio do Nolan por essa produção, porque, artisticamente falando, é delicioso de observar. É uma pena, infelizmente, que a história não acompanhe.
Para mim, Doctor Zhivago vai ser daqueles filmes de que eu sempre vou me lembrar quando precisar de um exemplo de produção que você consegue reconhecer que é muito caprichada, que foi muito bem feita, mas que, ainda assim, não conseguiu te cativar. Um filme que é justamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos e que tem todos os elementos para isso. Então, não é daqueles que vai me fazer perguntar: “O que diabos os críticos viram nisso?”. Não, muito pelo contrário. É daqueles que eu tenho a mais absoluta certeza de que, ao longo dos anos, vou querer rever. Quem sabe, em outro dia, em outro momento, com outra cabeça, ele consiga se comunicar comigo de uma forma diferente da que foi no dia de hoje.
THE VEIL Direção: Brent Ryan Green Ano: 2017 Assistido em: 30/08/2026
Quando eu era criança, lá nos anos 90, a única maneira de assistir a certos filmes era pela televisão, e eu sempre reparava que os grandes blockbusters, os grandes sucessos, estavam na Globo. Os menores iam parar no SBT. A Record pegava aquele resto de filmes muito antigos cujas emissoras principais já haviam perdido os direitos, e para a Band sobravam aqueles produzidos diretamente para VHS/DVD que não podiam nem ser chamados de classe B, pois eram fracos demais para essa classificação. Quando terminei de assistir The Veil, tive a sensação de ter acabado de presenciar uma daquelas sessões de cinema daquela época.
Em um mundo devastado por guerras, um guerreiro é traído e abandonado à própria sorte. Depois de ser salvo por uma misteriosa princesa, ele é acolhido por uma tribo que acredita que sua chegada está ligada a uma antiga profecia. Enquanto recupera suas forças, ele precisa decidir se está disposto a liderar aquele povo contra seus inimigos.
Existe uma teoria cinematográfica que diz que, para fazer um bom filme, não é necessário ter dinheiro: só é preciso ter uma câmera e talento. Ao longo dos anos, tivemos diversas confirmações dessa regra. Foi assim com Mad Max (1979), foi assim com A Bruxa de Blair (1999) e, mais recentemente, com Obsessão (2025). Portanto, orçamento não é desculpa, mas você precisa saber o que quer fazer e, principalmente, como fazer. A partir do momento em que você se propõe a fazer uma fantasia medieval, precisa entender suas limitações. O problema é que este filme não entendeu isso. Em alguns momentos, ele me lembrou episódios de Power Rangers ou de séries da CW. Mas aí eu dou até um desconto para essas séries, porque elas não têm orçamento de cinema e nem a pretensão de serem exibidas em tela grande.
As atuações são simplesmente sofríveis, mas eu não vou julgar os atores, até porque há gente de quem eu gosto bastante aí no meio, como William Levy, William Moseley e Serinda Swan. Nenhum deles, porém, vai conseguir entregar uma boa performance quando a base é simplesmente tenebrosa. Nenhum personagem tem um bom desenvolvimento, nenhum é bem escrito e todos só servem momentaneamente às necessidades do roteiro (aliás, que roteiro?). São tão profundos quanto uma poça d'água depois de uma chuva.
Tudo aqui é precário. Os figurinos são feitos à base de couro, como se o figurinista tivesse algum tipo de fetiche com esse material. A fotografia é péssima, os ângulos não criam nada de bonito, tudo é feio. Os cenários parecem feitos de papelão, daqueles de produção escolar. Resumindo: é tudo pavoroso, asqueroso, para não dizer uma palavra mais forte.
Este é um dos piores filmes que já vi na minha vida, e olha que já vi muita coisa ruim. Nada aqui funciona. Vou dar meia estrela pelo elenco masculino ser cheio de homens bonitos, mas, quando esse é o único ponto positivo que consigo encontrar em uma produção, é porque a coisa está muito feia.
Eu lembro que, lá em 2018, quando fiquei sabendo do lançamento desse filme, fiquei bastante animado, porque ele seria o primeiro longa-metragem produzido pela Eon que não pertencia ao universo de James Bond em décadas de atuação na área cinematográfica. Ele entrou na minha lista de produções para assistir no cinema em 2019, mas acabou sendo adiado, adiado novamente e finalmente desovado no começo de 2020. Não veio para a minha cidade e eu perdi completamente o interesse, até que, ao revisar uma lista de pendências no IMDb, me deparei com ele e decidi que era hora de corrigir essa pendência. Agora, a sensação que fica é que talvez tivesse sido melhor não ter ido atrás.
Após perder a família em um acidente aéreo, Stephanie Patrick descobre que a tragédia foi, na verdade, um atentado. Consumida pelo desejo de vingança, ela é treinada por um ex-agente do MI6 para assumir diferentes identidades e perseguir os responsáveis, transformando-se em uma assassina determinada a descobrir toda a verdade.
Lendo um pouco sobre os bastidores, descobrimos que houve uma verdadeira batalha pelo controle da narrativa, com estúdio, protagonista e diretora querendo um filme de ação mais tradicional, enquanto os produtores defendiam algo mais slow burn. Não sou contrário a uma narrativa mais cadenciada e até prefiro histórias que apresentem melhor seus personagens antes de partir para a ação. O problema é que, para isso funcionar, é necessário existir alguma profundidade nesses personagens, algo que os torne interessantes. E aqui não há nada disso. Se tirarmos o fato de a família da protagonista ter morrido em um acidente de avião, Stephanie praticamente se desfaz: não sobra muita coisa.
Eu entendo que, para Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, fazer um novo filme simplesmente igual aos de James Bond não seria algo interessante. Seria, em essência, fazer a mesma coisa. Mas, convenhamos: para um filme de espionagem, faltaram cenas realmente interessantes, combates bem coreografados, perseguições mais elaboradas e, enfim, boa parte dos componentes que esperamos desse gênero e que ajudam a manter o público envolvido. A tentativa de fugir do modelo tradicional acabou sacrificando justamente aquilo que poderia tornar a experiência mais divertida.
Não sou o maior fã da Blake Lively, mas reconheço que ela consegue ser uma boa atriz quando recebe material suficiente para trabalhar. O problema é que aqui ela recebe uma personagem completamente insossa e sem graça. Ela ainda conta com o suporte de um Jude Law completamente apático e de um Sterling K. Brown absurdamente subutilizado, sendo que ambos poderiam render muito mais.
No fim, saí desse filme com a impressão de estar diante de um primo pobre de James Bond: aquele que tentou fazer as coisas do seu jeito, tentou seguir por um caminho diferente, mas não apenas não conseguiu fugir das comparações como também não conseguiu provar que esse novo caminho poderia dar certo. Há anos existe na internet uma discussão sobre a possibilidade de reformular 007, seja transformando-o em uma mulher, seja em um homem negro, enfim, fugindo da forma como o personagem foi originalmente concebido. The Rhythm Section poderia ter sido uma resposta interessante para essa discussão, uma espécie de versão feminina do clássico herói de espionagem. No final, porém, parece apenas uma oportunidade desperdiçada.
THE LAST SUNRISE Direção: Carlson Young Ano: 2026 Assistido em: 29/08/2026
Comédias românticas protagonizadas por jovens são a mesma coisa desde que o mundo é mundo. Elas não têm novidade, não têm muita profundidade e, honestamente, só servem para aqueles dias em que você não tem uma opção melhor para assistir. Eu vi o card deste filme no Prime Video, achei os atores bonitos e decidi dar play, só que tudo o que encontrei foi a mesmice ordinária de sempre.
Ry, uma jovem de 22 anos que enfrenta problemas crônicos de saúde e vive sob a proteção excessiva da mãe, sente que sua vida está sendo constantemente adiada. Quando as duas viajam para Maiorca por causa do trabalho da mãe, Ry decide aproveitar a oportunidade para experimentar uma independência que nunca teve. Em uma de suas primeiras aventuras sozinha, ela conhece Julián, um jovem espanhol que vive na ilha e a conduz para experiências completamente novas. À medida que o verão avança, a atração entre os dois cresce e Ry começa a descobrir uma versão de si mesma que desconhecia.
Eu não vou ser hipócrita e dizer que o filme não tem pontos positivos, porque ele tem. O elenco é muito bonito, nós temos cenas de Fernando Lindez sem camisa para ninguém reclamar, e os cenários da Espanha são deslumbrantes. Mas não vai além disso. É basicamente um filme visualmente agradável, porque, quando entra no campo da história, aí não há muito o que ser dito. É o mais do mesmo de sempre, com um dos protagonistas doente, que meio que já desistiu da vida, encontrando um grande amor e ficando naquele esquema meloso de “ah, meu Deus, estou morrendo, mas descobri o grande amor da minha vida, e por isso vou deixar de tomar os meus remédios”, algo que a gente já viu um milhão de vezes.
Tecnicamente falando, não há muito que ser dito. É aquela atuação básica de atores, não temos nenhum grande personagem, então nem é preciso esperar algo digno de Oscar ou nada disso. A trilha sonora é apagada e não há nenhum grande destaque em edição, e direção. O ritmo funciona para o que é uma comédia romântica, ou seja, tudo segue no compasso correto, da antipatia inicial entre os personagens até o momento em que eles vão se apaixonando. Enfim, é uma repetição do que já vimos ao longo de muitos e muitos anos.
Nos últimos tempos, estamos presenciando um boom de adaptações de literatura jovem e romântica. Algumas são boas, outras nem tanto. The Last Sunrise cai no grupo das nem tanto. Não é algo que vai ofender a inteligência de ninguém, mas também não vai ser escolhido como o filme favorito de ninguém. Ele é daqueles que você assiste hoje e amanhã já esqueceu, não da história, mas de ter assistido.
CHAPLIN Direção: Richard Attenborough Ano: 1992 Assistido em: 29/08/2026
Se fizessem uma votação hoje, e tivéssemos que escolher o maior gênio da história do cinema, meu voto, com absoluta certeza, iria para Charles Chaplin. Ele jogava em outro nível. Não foi apenas um ator de extrema importância e de talento inquestionável. Não, o homem foi um pioneiro em todos os sentidos. Ele era um diretor excepcional, um roteirista brilhante, um empresário talentosíssimo que brigou contra o sistema e a indústria de Hollywood quando Hollywood ainda estava se formando. Era também um músico talentosíssimo, um bailarino e acrobata além do normal. Enfim, ele era o que podemos chamar de fora da curva. Um filme que conseguisse retratar todas as facetas dessa figura, ao mesmo tempo em que não deixasse de lado suas polêmicas, era um desafio muito grande de ser realizado, mas eu confesso que gostei muito daquilo que vi.
A vida de Charles Chaplin começa em meio à extrema pobreza da Londres do início do século XX, mas seu talento para a comédia o leva dos palcos ingleses aos Estados Unidos, onde rapidamente se transforma em uma das figuras mais populares do mundo. Por trás do personagem irreverente que conquista milhões de pessoas, porém, existe um homem ambicioso, perfeccionista e marcado por relações amorosas conturbadas, conflitos profissionais e controvérsias políticas. Enquanto sua carreira alcança proporções extraordinárias, Chaplin precisa lidar com o preço da fama e com as consequências de suas escolhas pessoais.
A vida de Chaplin não foi nada fácil, principalmente para o filho de uma mãe solo no final do século XIX. Ele foi obrigado, desde muito cedo, a enfrentar uma vida muito difícil, mas, por outro lado, aprendeu e descobriu muito rapidamente o seu grande talento e o quão especial ele era. Infelizmente, o filme tem muita coisa para contar, então nós não temos tempo a perder. A infância de Chaplin é tratada de uma forma muito breve, sendo que existiam muitas coisas a serem abordadas ali. Eu sei que Richard Attenborough seguiu a autobiografia de Charles, e isso acabou prejudicando um pouco a narrativa, já que o próprio ator não era muito afeito a falar sobre algumas passagens. Aliás, este é um problema do filme como um todo, e o maior deles, muitos pontos são trabalhados de uma forma muito rápida, sem que tenham o devido detalhamento necessário, principalmente as polêmicas.
Apesar de Chaplin ser, para mim, a maior figura da história do cinema, eu não nego que o fato de ele se envolver com jovens muito novas é altamente problemático e deplorável, para não dizer outra palavra. Só que eu também não sou adepto do revisionismo histórico ou de ressignificações. Nós não podemos julgar com os olhos do século XXI comportamentos do princípio do século XX, porque, se fizermos isso, não teremos ídolo nenhum. Enfim, eu fico aliviado que pelo menos isso tenha sido retratado em tela. Partindo do pressuposto de que estamos nos baseando em uma autobiografia que contou com o envolvimento direto da família do ator, ver o comportamento dele sendo criticado (não tanto quanto deveria, mas ainda assim criticado), foi impressionante.
Tecnicamente falando, o filme é muito bem trabalhado. Robert Downey Jr. conseguiu entregar uma fisicalidade muito grande, que era obrigatória para interpretar esse personagem. O ator conseguiu se disfarçar muito bem, só que eu não gostei de vê-lo como Chaplin nos anos 60 e 70. Downey era muito jovem em 1992, não tinha nem 30 anos, e interpretar um homem de mais de 80, mesmo com aquela maquiagem bem feita, não me soou tão natural. Os demais atores estão bem em seus papéis, mas, como há muita coisa a cobrir, todos passam muito rapidamente, não dando muito espaço para que ninguém brilhasse com maior intensidade.
Chaplin é daquelas cinebiografias que tentam cobrir toda a vida do personagem e, graças a isso, é um filme apressado. Eu senti que havia espaço para muito mais. Ele tem apenas duas horas e vinte minutos, mas é daqueles que poderiam ter bem mais duração e você não sentiria, porque é uma história tão rica e tão deliciosa de acompanhar que, ao final, a sensação que tive foi de que eu passaria tranquilamente das três horas sem cansar.
É impossível não se emocionar com as cenas finais, quando imagens do verdadeiro Chaplin aparecem naquela homenagem no Oscar de 1972. Aliás, achei o ponto de corte excelente: o momento em que Hollywood meio que pediu perdão a Chaplin pelos anos de perseguição. Foi verdadeiramente encantador.
THE SHADOW EFFECT Direção: Obin Olson e Amariah Olson Ano: 2017 Assistido em: 23/08/2026
Tem filme que, antes mesmo de assistir, você já sabe que vai ser ruim. Você vê atores da série B, vê um diretor desconhecido, um pôster meio duvidoso e é batata. E como o mundo do cinema não se faz apenas de classe A, é preciso dar uma oportunidade para esses títulos inferiores, para ter repertório, para poder reconhecer ainda mais aqueles que são bons. Mas tem uns que só pela misericórdia.
Gabriel Howarth começa a ter sonhos violentos nos quais presencia assassinatos e outros acontecimentos perturbadores. Quando percebe que aquilo que vê durante o sono está de alguma forma relacionado à realidade, ele passa a questionar a própria mente e a descobrir que existe uma força misteriosa por trás de suas experiências.
Esse é daquele tipo de filme que, de tão previsível, se torna irritante. Logo nas primeiras cenas, você já percebe qual vai ser o plot twist. E eu não estou falando isso porque sou muito inteligente, não, longe disso. É porque é tão, mas tão previsível, e o roteiro é tão capenga, tão anêmico, que qualquer um percebe.
Outro ponto que merece ser comentado é a completa falta de sutileza do roteiro. Quando você percebe o que está acontecendo, fica nítido que você está assistindo a uma Laranja Mecânica (1971) às avessas, mas os diretores, não satisfeito, ainda mete uma cena chupada do clássico de Stanley Kubrick, com direito à reprodução idêntica do Tratamento Ludovico. Só que aqui feita sem impacto e sem delicadeza foi como colocar um elefante andando dentro de uma sala de estar.
E sobre o plot twist depois do plot twist, eu só gostaria de parabenizar quem teve uma ideia tão imbecil como essa. É como se o filme já não fosse uma ficção científica suficiente apenas com a questão das memórias; ainda inventaram de enfiar clonagem no meio. De fato, não é qualquer um que consegue ter tantas ideias cretinas juntas ao mesmo tempo.
Sobre o elenco, o pobre Cam Gigandet só faz o filme ruim, então até aí, sem novidades. Jonathan Rhys Meyers é muito bom, mas fez péssimas escolhas ao longo dos anos, e o Michael Biehn, infelizmente, perdeu tudo na virada dos anos 80 e, desde então, também só aparece nesse tipo de bomba genérica.
Completamente cansativo, frustrante e desgastante. A direção é tão abaixo incapaz de criar algo interessante, que 1h40min parecem 5h. The Shadow Effect não valoriza a experiência cinematográfica em nada, porque, até para ser ruim, é preciso ter um pouquinho de qualidade, e até nisso ele ficou devendo.
Verity
3.1 87VERITY
Direção: Michael Showalter
Ano: 2026
Assistido em: 06/10/2026
Diferente de muitas pessoas, não fui criado com a Sessão da Tarde. Estudei no período vespertino por quase toda a minha vida, então não consumi aqueles filmes clássicos que eram repetidos à exaustão na tela da Globo. A maioria deles fui assistir já no final da adolescência, começo da vida adulta ou quando estava de férias, enfim. Entretanto, fui uma criança pouco tradicional. A sessão de filmes de que eu mais gostava era o Supercine. Meus pais foram um pouco irresponsáveis nesse sentido: eles sempre me deixaram ter contato com histórias mais fortes, histórias mais intensas, desde muito cedo. Então, meu gênero favorito é o suspense, com espaço especial para aqueles que podem ser eróticos ou não, nos quais temos algum personagem se envolvendo em um relacionamento que claramente é uma furada, com uma grande reviravolta ao final. Quando minimamente soube sobre esse filme, senti que podia dar muito bom e, na cara e na coragem, fui para o cinema.
Lowen Ashleigh é uma escritora em dificuldades financeiras que recebe uma proposta inesperada: terminar os livros restantes da famosa autora Verity Crawford, que ficou incapacitada após um acidente. Para pesquisar o material da escritora, Lowen se muda temporariamente para a casa da família e passa a conviver com seu marido, Jeremy Crawford, e o filho do casal. Durante sua investigação, ela encontra um manuscrito autobiográfico de Verity que revela acontecimentos perturbadores sobre a família e começa a descobrir segredos cada vez mais sombrios. Conforme Lowen se aproxima de Jeremy, ela percebe que talvez tenha entrado em uma situação muito mais perigosa do que imaginava.
A ideia de partida é até interessante, porque a história consegue nos manter na dúvida o tempo todo. Nós não sabemos o que é verdade ou não. Tudo que temos é a perspectiva de Lowen, lendo a “confissão” de Verity. Só que anos e anos de estrada nesse tipo de filme me ensinaram a nunca, jamais, em tempo algum, acreditar facilmente nas primeiras respostas. Provavelmente, elas estão erradas. E é aí que o filme me perde.
Eu venho reparando que, nos últimos anos, Hollywood tem uma restrição quanto a retratar mulheres como vilãs. Podem reparar: nos últimos tempos, quando uma mulher tem uma atitude um pouco mais questionável, é porque um homem está levando-a a essa situação. No último ano, nós pudemos constatar isso em alguns filmes, alguns títulos bem famosos. Por exemplo, The Housemaid (2025) foi um tremendo sucesso, mas me decepcionou demais, porque eu queria, eu precisava de uma vilã descompensada, paranoica, louca, surtada. E o que eles me entregaram foi outra coisa completamente diferente: uma vítima do abuso psicológico, uma mulher que precisa se fazer de "doida" para poder sobreviver ao marido tóxico.
Eu sinto muita falta, no cinema contemporâneo, de personagens como Norma Desmond, Alex Forrest ou Catherine Tramell. Quero uma vilã mesmo. Mas, repetindo, atualmente parece ser proibido ter mulheres desvairadas em papéis vilanescos, e aí todos os filmes parecem iguais.
Na metade desse aqui, você não precisa ser nenhum gênio para perceber o que está acontecendo. Basta se atentar ao andamento da história, à forma como Jeremy é retratado como uma vítima o tempo todo e à maneira como o roteiro o absolve de tudo. Pronto, você saca na hora que ele é o vilão da história. E, por mais que as atitudes da personagem de Dakota Johnson sejam totalmente erradas, é fácil justificá-las: ela foi manipulada, ela foi enganada. Ou seja, isso tira da personagem o poder de escolha, e é isso que a deixa vazia, fazendo com que ela fique totalmente superficial.
Do ponto de vista técnico, esse filme é extremamente morno, e ele prometia ser intenso, certo? Fervente. Mas não é isso. O thriller não deixa ninguém com a mão suando na ponta da poltrona. Não, é tudo perceptível: você consegue sentir que está vindo há quilômetros de distância. O erotismo é insosso. Não senti química alguma entre nenhum dos dois casais centrais, e isso você percebe até nos cenários, nas paisagens gélidas de Vermont. Só que era preciso intensidade para fazer as coisas funcionarem por aqui, e nós não temos isso em momento algum.
Sobre o elenco, preciso dizer que Anne Hathaway, parada, sem esboçar a mínima reação, consegue atuar melhor do que Dakota Johnson fazendo o esforço da vida dela para entregar o mínimo. É impressionante como essa mulher não herdou nem uma gota do talento da família. Sobre a personagem Verity, ela deixa a desejar, principalmente em um ano em que Anne Hathaway fez Penélope em A Odisseia e retornou como Andrea em O Diabo Veste Prada 2. Eu esperava uma vilã imponente, mas o desfecho joga tudo por água abaixo. Já o Josh Hartnett consegue entregar, mas precisa de roteiro e direção, e aqui não encontrou nenhum dos dois.
Verity é bem específico para o público feminino que gosta da literatura da Colleen Hoover, porém bem que poderia atrair um outro público, aquele que gosta do suspense, que, assim como eu, é declaradamente fã dessas galhofadas. Só que ele ficou o tempo todo no ponto morto. Ele até apela para jump scares e nem assim consegue dar uma sobrevida, uma pulsação de ânimo a essa história. Não é um filme que vai te fazer dormir, não é isso, mas também não vai dar a carga de adrenalina, a carga de emoção que você busca.
Unabomber
3.1 62UNABOMBER
Direção: Janus Metz
Ano: 2026
Assistido em: 04/10/2026
Quem gosta de pesquisar sobre serial killers com toda certeza já se deparou com a história do Unabomber. Ele é, sem sombra de dúvidas, um dos maníacos mais interessantes (se é que podemos usar essa palavra aplicada a essa situação), que já se abateu sobre os Estados Unidos. E olha que a terra do Tio Sam é um campo muito prolífero quando o assunto é assassino em série. Seja por sua motivação nada convencional ou pela forma que matava, ainda mais inusitada, Kaczynski foi uma figura muito sombria da história americana e que até hoje desperta muitas dúvidas. Por isso, estava ansioso para assistir a este filme, mas o problema é que o personagem, a figura real, era complexa demais para talentos tão pouco aptos a trabalhá-la.
Ted Kaczynski, um jovem prodígio da matemática em Harvard, é submetido a controversos experimentos psicológicos conduzidos pelo professor Henry Murray. Anos depois, enquanto Kaczynski se transforma no terrorista conhecido como Unabomber e inicia uma campanha de atentados com bombas enviadas pelo correio, a agente do FBI Joanne Miller participa da longa investigação para descobrir sua identidade. Entre passado e presente, a caçada revela como o isolamento, as experiências vividas em Harvard e as convicções extremistas de Kaczynski contribuíram para sua transformação.
O Kaczynski real foi uma figura avessa ao desenvolvimento tecnológico, mas não era só isso. Ele era uma pessoa com distúrbios mentais muito sérios e muito complexos, como esquizofrenia e paranoia. Ele não é aquele serial killer "tradicional" que teve problemas de rejeição paterna ou sexual, que serviu de gatilho para despertar seu interesse pela matança. Não, nada disso. Ele foi uma figura extremamente inteligente, que tinha uma visão muito peculiar do mundo, que não conseguia enxergar um papel natural no processo evolutivo da humanidade e que acabou desenvolvendo uma misantropia fundamentalista, ocasionando diversas vítimas. E, conhecendo Hollywood, a gente sabe que jamais conseguiriam retratar com a profundidade adequada e esperada uma história como essa.
Eu não acho que serial killer tenha que ser enaltecido, nã é isso. Mas, a partir do momoento que você se propõe a retratar uma história como essa, é preciso ser fiel aos acontecimentos. Não por conta do matador, mas por conta das vítimas. Elas, infelizmente, fazem parte dessa história e precisam ter suas jornadas respeitadas. Então, quando você começa a bagunçar todo o meio de campo, está mais uma vez prejudicando a memória daqueles que se foram.
O roteiro é dividido em duas linhas temporais: a primeira com Ted adolescente, na fase em que ele participou dos experimentos com a CIA, e a segunda durante a busca e a investigação nos anos 90. E o filme consegue ir mal nas duas. Na primeira, nós temos Russell Crowe e Jacob Tremblay, que são excelentes atores e entregam muito, mas aqui o texto deles é tão panfletário, tão simplório, que não funciona. Enquanto isso, no futuro, Shailene Woodley é uma amálgama de diversas pessoas que tentaram esclarecer este caso. E eu tive uma sensação tremenda de anacronismo, porque isso deveria se situar em mais ou menos por volta de 1996, só que, às vezes, os diálogos, os cenários, tudo me soa como algo do Século XXI em diante, 2010, 2020. E isso só ajuda na fuga mental que esse filme me causou.
Unabomber é um serial killer complexo e não é simples analisar as ideias dele. E fazer um trabalho qualquer, de qualquer jeito, não é a escolha adequada para tentar explicar um pouquinho dessa mente perturbada, se é que alguém chegou perto de conseguir esse feito. Este filme não é nem de perto indicado para quem quiser conhecer mais sobre este fato tão sombrio do final do século XX, porque ele só pincela tantos detalhes sobre a vida de Kaczynski e não explora nada das vítimas ou da investigação de décadas. É como se a produção fizesse parecer que tudo foi uma coisa simples, rápida. No fim, é só mais um dentre tantos títulos de true crime feitos apenas para movimentar a máquina que esse gênero acabou se tornando. Porque, se você quer conhecer precisamente o que aconteceu, ele não serve para isso.
A Hipótese do Amor
3.5 106 Assista AgoraTHE LOVE HYPOTHESIS
Direção: Claire Scanlon
Ano: 2026
Assistido em: 03/10/2026
Nós estamos vivendo uma era muito prolífica para adaptações literárias de romances. Não que no passado eles já não existissem em abundância, mas, de um tempo para cá, principalmente diante do advento do streaming, a quantidade disparou muito. E, vendo este filme no top 10 do Prime Video, sendo protagonizado por uma dupla que eu gosto bastante, eu decidi dar uma oportunidade. Principalmente diante da crítica positiva. Só que um filme que fala sobre cientistas... acho que faltou o principal: química.
Olive Smith é uma estudante de doutorado em Biologia que prefere se dedicar à carreira acadêmica a se envolver em relacionamentos. Para convencer sua melhor amiga de que já superou uma antiga paixão, ela beija impulsivamente o intimidador professor Adam Carlsen e acaba propondo um relacionamento falso entre os dois. O acordo deveria ser apenas uma encenação com regras bem definidas, mas a convivência começa a tornar cada vez mais difícil separar o que é fingimento do que realmente sentem um pelo outro.
Para uma comédia romântica funcionar, é preciso que a dupla principal funcione. Isso é mais importante do que até mesmo o roteiro, até mesmo a direção, porque, se tiver uma química explosiva entre os protagonistas, isso ajuda a mascarar qualquer situação. O problema é que The Love Hypothesis, apesar de seus protagonistas serem lindos e bons atores, tem uma química inexistente. É impossível acreditar que poderia existir algum romance entre Olive e Adam. E não estamos falando apenas de quando eles estavam fingindo. Eu não conseguia sentir química nem de fato quando eles perceberam que estavam apaixonados.
Cinema, infelizmente, não tem receita pronta, que você segue a risca e vai sair um resultado perfeito. Infelizmente, você pode partir de um bom princípio, de todos os elementos positivos, e o resultado final não agradar ninguém. Eu não acho que tivemos um filme ruim, não chega a esse extremo, é perceptível que existem bons ingredientes, entretanto a execução não colabora. O elenco é bom, a direção é bacana, mas o roteiro é muito simples, é muito bobinho. Vale observar a cena do corredor, onde um se declara para o outro. Ali, eu senti uma vergonha alheia incontrolável quando eles começaram a usar frases relacionadas a termos científicos na declaração, uma coisa que, se a ideia era ser romântica, ficou patética.
No final, The Love Hypothesis não vai te ofender de forma alguma, mas também não vai te entreter muito. Foram vários os momentos em que eu me peguei olhando para o lado, pegando o controle da televisão e vendo o marcador para saber quanto tempo ainda faltava, pegando o celular para ver se tinha alguma nova mensagem no WhatsApp. Enfim, não foi algo que me imergiu completamente e nem que conseguiu prender totalmente minha atenção. Valeu como passatempo? Até que valeu. Para quem não tinha nenhuma outra opção do que assistir, funciona, mas confesso que talvez ele não seja a melhor escolha para uma pessoa que não seja fã do gênero. Nesse caso, a melhor opção é não insistir.
Chamas da Vingança
2.1 103FIRESTARTER
Direção: Keith Thomas
Ano: 2022
Assistido em: 03/10/2026
Tendo Stephen King como o meu autor favorito, o anúncio de uma adaptação de uma obra sua, para mim, é sempre um misto de sentimentos conflitantes. Um lado sempre vai querer ver as páginas serem transportadas para a tela, ver aquela história que antes estava restrita ao papel tomar forma, ver a forma dos personagens que até então existiam apenas na minha cabeça serem materializados na minha frente. Entretanto, sendo ele um dos autores mais adaptados de todos os tempos, o segundo, se não me falha a memória, é óbvio que tem muita, muita, mas muita adaptação ruim de seus trabalhos. Particularmente, eu nunca li A Incendiária, até porque não é um dos títulos mais famosos do autor, apesar de já tê-lo na coleção. Mas suas adaptações não estão entre aquelas com a melhor fama e, honestamente, é fácil de entender o porquê.
Andy e Vicky vivem escondidos com a filha Charlie, tentando protegê-la de uma agência governamental que pretende transformar seus poderes em uma arma. Charlie possui a capacidade de provocar incêndios com a mente, uma habilidade cada vez mais difícil de controlar conforme ela cresce. Quando a localização da família é descoberta, eles precisam fugir enquanto agentes tentam capturar a menina e tomar controle de seu poder.
Assistindo a esse filme, eu entrei em estado de negação, porque até mesmo as histórias mais simples do King têm personagens bem escritos, bem desenvolvidos e com dramas extremamente interessantes. Então, eu não consegui reconhecer o que eu estava vendo como algo pertencente ao universo dele. Essa família é a mais completa ausência de carisma que eu já presenciei em uma história. E, se tem uma coisa que o King sabe trabalhar muito bem, são famílias. É a dinâmica entre as figuras paterna, materna e filial. Então, eu só podia imaginar que o roteirista aqui estava fazendo um péssimo trabalho, porque é inadmissível isso ser tratado como um trabalho de Stephen King.
Eu me recordo que, em 2023, no ano posterior ao lançamento desse filme, houve uma polêmica imensa junto ao Framboesa de Ouro por eles terem indicado a menina, Ryan Kiera Armstrong, ao prêmio de pior atriz. Na época, foi um burburinho dizendo que isso poderia traumatizar a garota, que seria algo muito cruel e todo esse blá-blá-blá. Mas, assistindo, algumas coisas ficam bem claras. Primeiro, a menina é uma nepo baby. Ela não está aí porque foi a melhor da seleção; ela está ali por ser filha de um ator conhecido. E ela mereceu a saraivada de críticas, porque a atuação dela, sim, foi horrível, passou o filme inteiro fazendo careta, fazendo força para simular uma mínima emoção. Melhor receber críticas agora do que crescer em um mundo difícil achando que pode atuar, e destruindo outras personagens e história. É claro que ela não merece ser ofendida, isso não, mas a verdade precisa ser exposta, doa a quem doer. E digo mais: ela não é a única que merecia críticas pelos trabalhos aqui. Zac Efron esta particularmente horrível. Não que ele seja um ator de primeira linha, não é, mas, com texto e direção corretos, ele entrega, e aqui não tem nada disso, só um homem sem personalidade e sem energia.
E, aliás, a direção merece uma nota de repúdio, porque é tudo feito de uma forma tão porca. O filme não tem ritmo, não tem cadência e não tem tensão. Essa é uma história que, por obrigação, tinha que nos deixar aflitos e ansiosos. A maior prova disso é a trilha sonora, aqui assinada pelo mestre John Carpenter, que nos entrega um trabalho com uma pegada oitentista, com sintetizadores, que cria um clima de tensão, algo muito próximo do que ele fez na trilogia Halloween do David Gordon Green. Mas é aquele negócio: não adianta nada a trilha criar uma situação e a imagem não corresponder, a trilha ser intensa, e o roteiro raso, não casa. E, por consequência, fica uma droga.
Firestarter é ruim. Mas ruim com gosto, ruim com força, tão ruim que eu preciso tirar da minha mente imediatamente essa imagem que ficou. Para isso, o livro, que estava parado na minha prateleira, pulou todos os outros títulos que estavam na frente, e é uma leitura que começa amanhã mesmo, porque é simplesmente inaceitável para mim acreditar que Stephen King criou personagens tão sem graça, com uma dinâmica tão ruim e com uma profundidade de uma poça d'água. Eu tenho certeza absoluta de que, quando eu terminar de ler o livro, esse filme, que para mim já é ruim, vai piorar muito.
Resident Evil
3.6 260RESIDENT EVIL
Direção: Zach Cregger
Ano: 2026
Assistido em: 02/10/2026
A franquia Resident Evil está na minha vida há muitos anos. Eu lembro como se fosse hoje a emoção de jogar o primeiro jogo no PlayStation 1. As adaptações cinematográficas da franquia, por outro lado, são um grande problema. Assim como a maioria dos fãs dos videogames, eu também sou daqueles que sentia apenas ódio a tudo que o casal Paul W. S. Anderson e Milla Jovovich fizeram ao longo de uns 15 anos. E eu também sou daqueles que ficou animado pelo primeiro anúncio do primeiro reboot da franquia, realizado lá em 2021, em meio à pandemia, que também não deu em nada. E, por alguns segundos, eu até tive uma esperança quando anunciaram mais uma tentativa, mas ela caiu por terra quando saíram as notícias de que Zach Cregger faria um trabalho original e não uma adaptação dos jogos. Mas, como ele não tem vergonha na cara, lá fui eu ao cinema. Eu tinha a expectativa de que, se eu não encontrasse um bom Resident Evil, pelo menos encontraria um bom filme de terror. Só que, novamente, eu estava errado, porque eu não encontrei nenhuma coisa nem outra.
Bryan, um entregador de suprimentos médicos, recebe uma missão aparentemente simples: levar uma encomenda até um hospital em Raccoon City. Durante o trajeto por uma estrada isolada, ele atropela uma mulher e tenta socorrê-la, mas logo percebe que ela está infectada. O encontro acaba colocando Bryan no meio de um surto que transforma a cidade em um cenário de horror, com pessoas contaminadas e criaturas monstruosas surgindo por todos os lados, onde ele terá que fazer de tudo para sobreviver.
Zach Cregger é um dos nomes mais badalados do cinema contemporâneo, principalmente quando o assunto é cinema de terror. No ano passado, ele fez muito sucesso com o seu Weapons (2025), produção que foi tão elogiada que me fez ir ao cinema, e o ponto que mais me chamou a atenção lá foi o fato de ele ter uma excelente construção de tensão, arruinada por um final que mais parece um episódio do Looney Tunes. Pesquisando sobre o nosso amigo Cregger, nós vamos descobrir que ele trabalhou com comédia durante muito tempo antes de pular para o terror. E acho até interessante você colocar pitadinhas de humor no momento adequado, só que, para mim, ele é um diretor que não sabe fazer isso. Ele confunde as coisas e põe o humor onde não deve. Sim, no Weapons ele errou colocando justamente no final da história, criando uma cena cômica no pior momento possível. Aqui, a coisa piora muito, porque não temos um filme de terror com pitadas de comédia, não. Esse novo Resident Evil é um filme de comédia com leves pitadas de terror.
Eu já sabia que não teria quase nada dos jogos. Eu já sabia que o máximo que ele iria evocar seria uma tentativa de simular a experiência que você tem ao jogar Resident Evil 2, de andar pela cidade de Raccoon City completamente desolada e tentando sobreviver. E nisso aí ele até conseguiu. Eu senti, sim, a mesma vibe em certos pontos, o mesmo nojo das pessoas modificadas pelos vírus da Umbrella. Isso aí, de fato, ele conseguiu recriar. Entretanto, no centro de tudo, ele escreve um completo imbecil para ser seu protagonista. O Bryan não é apenas o homem comum na hora errada, algo que o lendário Alfred Hitchcock amava colocar em seus filmes. Tudo bem não ser um supersoldado, preparado para tudo, mas ele tem um tempo de reação horrível, fica esperando as coisas acontecerem diante de seus olhos. Não foge quando deve, não ataca quando precisa. E, para piorar, o diretor faz ele ficar resmungando o tempo todo, o que torna a experiência de acompanhá-lo extremamente chata e desgastante.
Por outro lado, esse filme serviu para pavimentar definitivamente a carreira de Austin Abrams. Ele é simplesmente brilhante, porque pega essa pataquada e consegue se sobressair, consegue entregar uma boa atuação, porque é impossível você não ficar extremamente irritado com a estupidez do Bryan e, a partir de determinado ponto do filme, simplesmente desistir dele e torcer para que ele morra, mas a atuação é impecável do começo ao fim.
Aliás, aqui eu preciso abrir um parêntese. Eu fiquei muito incomodado com o final de Weapons, principalmente por conta da forma como aquele bando de crianças correndo atrás da Gladys. Aquilo, para mim, foi péssimo. Entretanto, aqui, curiosamente, o final foi a coisa que eu mais gostei do filme inteiro, porque foi o ponto mais corajoso do roteiro. Bom, quem é fã de Resident Evil sabe que você não tem como negociar com a Umbrella Corporation, que você vai se ferrar na história. Então, eu já imaginava que, em algum momento, o Bryan ia se ferrar. Mas escolhê-lo para ser o portador da cura, mesmo sem ele saber, e, ao mesmo tempo, o responsável por impedir que ela seja desenvolvida, condenando aquele mundo, foi algo de que eu comecei a desconfiar na metade do filme. Quando eu vi que seria aquilo, deu para amenizar um pouquinho a minha decepção com o projeto como um todo.
Eu vou bancar o cético: para mim, essa franquia não tem salvação mais no cinema. É claro que, em termos técnicos, não tem como comparar o Cregger com o W. S. Anderson. Mesmo tendo uma carreira bem menor, com muito menos experiência, ele dá um baile em tudo aquilo que o Anderson fez ao longo de quatro longas como diretor e seis como roteirista e produtor, enfim. Mas, apesar de ser melhor do que os anteriores, ele é tão ruim quanto os demais como um Resident Evil. E eu não queria uma história avulsa qualquer. Eu queria ver, pela primeira vez, bem adaptados, o Chris, a Jill, a Claire, o Leon, os personagens que eu aprendi a amar ao longo dos últimos 30 anos e que, pelo menos uma vez, eu acho que mereciam um pouco de dignidade quando levados para o cinema. Eu não consigo entender como a PlayStation e a Sony não conseguem respeitar esse universo minimamente.
Muitos vão dizer que o filme é bom. Ok, eu respeito quem goste. Novamente, tecnicamente falando, como filme, ele funciona, só que não funciona como Resident Evil e não funciona como terror, porque a forma do Zach Cregger de fazer terror, sempre desarmando, sempre usando humor para desmanchar os momentos de tensão, é simplesmente muito repetitiva para mim. Não deu. Não reconheço como Resident Evil, mas que bom que alguém tenha conseguido curtir.
Todos os Homens do Presidente
4.1 215 Assista AgoraALL THE PRESIDENT'S MEN
Direção: Alan J. Pakula
Ano: 1976
Assistido em: 26/09/2026
O escândalo de Watergate é um dos casos mais polêmicos quando o assunto é política americana, especialmente no cenário da política internacional da década de 1970. Uma confusão que, em um espaço de tempo muito curto, derrubou o homem mais poderoso do cargo mais importante do mundo. Mas não foi da noite para o dia que Richard Nixon perdeu o prestígio e o poder. Esse foi um processo organizado e liderado pela imprensa, que precisou lutar contra os tubarões de Washington para levar a verdade ao público. Essa história foi tão impactante que, com apenas quatro anos, foi parar nas telas do cinema, gerando um dos filmes mais elogiados de todos os tempos. E foi procurando saber um pouquinho mais sobre todo esse caos que decidi que era hora de tirá-lo da minha lista de pendências.
Dois jornalistas do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, investigam a invasão da sede do Partido Democrata no complexo Watergate, em 1972. Ao aprofundarem as apurações, descobrem uma rede de espionagem política e corrupção que envolve integrantes do governo de Richard Nixon. Com o auxílio de fontes anônimas e enfrentando pressões e obstáculos, os repórteres seguem as pistas que podem revelar um dos maiores escândalos políticos da história dos Estados Unidos.
Um grande problema dos filmes jornalísticos é que eles são um verdadeiro desfile de nomes, com inúmeras situações sendo descritas, e, se você não tem conhecimento prévio, se não tem uma bagagem, ficar perdido é muito fácil. E esse é um dos exemplos mais evidentes dessa situação. Temos inúmeros nomes sendo citados, de inúmeros envolvidos no escândalo, desde os capangas que colocaram a mão na massa até todos os membros do alto escalão da administração Nixon que estavam envolvidos. Então, é preciso prestar muita atenção, pois qualquer mínimo desvio vai fazer com que você se perca.
Entretanto, o ritmo é a maior armadilha da obra. Alan J. Pakula entrega um filme lento. É uma investigação, mas não daquelas do cinema clássico de ação e espionagem. É justamente o contrário: é um processo de analisar papéis, ler documentos, fazer telefonemas e entrevistas. E o fato de ser uma linguagem cinematográfica de 50 anos atrás também deixa o resultado ainda mais devagar. É aí que as coisas desandam um pouco, porque, por mais que você preste muita atenção, é impossível não sentir o cansaço. Você sente as 2h18min passando vagarosamente. É preciso gostar muito dessa história para não sentir que a mesma é um pouco enfadonha.
Tecnicamente falando, o longa é irretocável. Não tenho o que discutir. Os protagonistas são dois dos maiores atores de todos os tempos, Dustin Hoffman e Robert Redford, e eles estão excelentes, principalmente Redford. A fotografia é muito bonita, os enquadramentos são bons, a direção escolhe ângulos muito imersivos, a trilha sonora, apesar de aparecer um pouco, é boa, mas faltou uma edição melhor para dar uma polida, deixando o filme mais dinâmico.
All the President's Men é um clássico da política, é um clássico do jornalismo, é um filme muito utilizado nas escolas de cinema e tem muito valor para quem quer conhecer um pouco da história dessa enorme cachorrada política que marcou uma era. Mas, como filme, ele não é daqueles que vão te divertir, não é daqueles que servem de entretenimento. Para quem está procurando esse tipo de recompensa, é melhor escolher outros títulos.
Coração Selvagem
3.5 32HEART OF THE BEAST
Direção: David Ayer
Ano: 2026
Assistido em: 25/09/2026
Não sou o que podemos chamar de fã de filmes de cachorro. Não que eu não goste dos nossos amigos peludos de quatro patas, muito pelo contrário, eu os adoro, mas costumo evitar produções que os colocam como protagonistas. Há quase dois meses sem ir ao cinema, optei por esse pois parecia a única opção mais ou menos interessante em cartaz aqui na minha cidade. E apesar de não ser um filme tão previsível quanto eu imaginava que seria. Afinal, dessa vez, temos um cachorro diferente, a soma dos fatores ainda é básica.
Após um acidente aéreo, James Belmont, um ex-oficial das Forças Especiais, fica isolado na região selvagem do Alasca ao lado de Odin, seu cão de combate. Ferido e distante de qualquer sinal de civilização, ele precisa contar com o treinamento e a lealdade de seu companheiro para enfrentar temperaturas extremas, terrenos perigosos e ameaças da natureza. Enquanto lutam para encontrar um caminho de volta à segurança, os dois enfrentam os limites da resistência física e emocional, em uma jornada que coloca à prova os laços construídos durante anos de parceria.
A suspensão da descrença é um conceito fundamental para você curtir um filme, para você se entreter. É acreditar nas possibilidades que a história oferece. Mas existe uma questão: você até pode acreditar no impossível, mas dificilmente no improvável. E meu grande problema com esse roteiro foi justamente a quantidade de improbabilidades que ele apresenta. Por mais que James, interpretado por Brad Pitt, seja um super soldado treinado, e Odin seja um cão de guerra, não um cachorro doméstico comum, o filme abusa das conveniências de roteiro para justificar sua história.
Logo no comecinho, temos o acidente de avião que dá início à história. James sofre um ataque cardíaco, o avião cai em uma água extremamente gelada, Odin é ejetado para fora da aeronave e, pasmem, basicamente nada acontece com eles. James consegue sair do fundo do lago, não sofre maiores consequências do ataque cardíaco, consegue carregar duas malas extremamente pesadas que contêm absolutamente tudo de que vai precisar para sobreviver naquele imenso deserto florestal do Alasca, Odin, aparentemente fica algumas horas, no máximo um dia, desacordado e também se levanta como se nada tivesse acontecido. A partir daí, vamos acompanhar uma sucessão de acontecimentos que certamente matariam o protagonista, mas dos quais ele, de alguma forma, consegue sobreviver. Ele não morre de hipotermia, não pega uma pneumonia, quebra o braço e não sofre um choque, não tem febre, não pega raiva do ataque dos lobos. Segue cambaleando até que, em determinado momento, o roteiro decide que é hora de matá-lo.
Ultimamente, as pessoas estão de uma fragilidade tremenda. Na minha sessão, o que teve de gente soluçando no finalzinho, fungando, não estava escrito. E eu não entendi o porquê. E honestamente, não é uma questão de indiferença, é porque não teve nada que justificasse isso. Sobre o personagem do James, não sabemos nada desse sujeito além de segundos de flashbacks bem qualquer coisa, relacionados à Guerra. É um personagem de desenvolvimento frio. Sim, o cachorrinho é um fofo pra caramba, e ele termina bem. Porque, de tanto auê?! Não entendi.
Um ponto interessante é que David Ayer, que é ex-militar, coloca, no final do filme, alguns cards falando sobre os "cães de guerra", como se fosse uma profissão. Só que, em momento algum, ele critica o fato de usarem cães na guerra. Pelo contrário, vende isso como se fosse algo nobre, como se fosse algo justificável. Para mim, usar um animal inocente no meio do fogo cruzado, em uma situação que ele não entende, é uma monstruosidade inimaginável. Em momento algum, vi isso sendo condenado.
O filme não é ruim, ele é interessante. As paisagens (da Nova Zelândia, não do Alasca), são muito bonitas e foram muito bem capturadas pela câmera de Ayer. A direção é boa, e a atuação de Brad Pitt é muito sóbria, principalmente porque, durante o filme, tirando um breve momento, ele passa o tempo todo contracenando com um cachorro. Cachorros esses que interpretam Odin e que são muito mais expressivos do que muito ator que existe por aí em Hollywood. Mas fora isso, é um filme banal, que não tem muito o que dizer. Não é diferente de outras produções de sobrevivência que já vimos por aí. A única diferença aqui mesmo é o cachorro.
Heart of the Beast é uma boa produção para uma tarde chuvosa, simples e rápido, que te mantém entretido por conta da curiosidade para saber como o protagonista vai sair, ou se vai sair, daquela situação. Mas, cinematograficamente falando, não agrega em nada, não traz nenhuma evolução, não traz nenhuma nova perspectiva. É o básico sendo o básico. Para muitos, às vezes, funciona, mas, honestamente, para mim, acho que ficou devendo.
Cidade Perdida
3.0 304 Assista AgoraTHE LOST CITY
Direção: Aaron Nee e Adam Nee
Ano: 2022
Assistido em: 21/09/2026
Eu sou cria dos anos 90, logo, o que eu consumi ao longo da minha infância e juventude foram as produções dos anos 80. Então, eu fui formado com essas aventuras misturadas com comédia, que nos encantam com personagens carismáticos em jornadas na floresta ou em lugares distantes. Isso está na minha veia. Portanto, eu tinha altas expectativas para este filme, mas nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar que ele fosse tão genérico a ponto de ser completamente esquecível.
Loretta Sage é uma escritora reclusa que faz sucesso com romances de aventura ambientados em lugares exóticos, estrelados pelo personagem Dash, interpretado nas capas por Alan, seu modelo de capa. Durante a divulgação de seu novo livro, Loretta é sequestrada por um excêntrico bilionário que acredita que a cidade perdida descrita na obra existe de verdade e quer que ela o conduza até seu tesouro. Ao descobrir o sequestro, Alan decide partir em seu resgate, mas os dois acabam envolvidos em uma perigosa aventura pela selva.
Olha, eu vou ser obrigado a fazer mea-culpa: eu não sou nem um pouco fã do Channing Tatum. Até tem um filme ou outro interessante e divertido, mas, no geral, é um ator muito fraco. Então, não tinha muita expectativa com ele. Em contrapartida, eu já esperava mais da Sandra Bullock, do Brad Pitt, do Daniel Radcliffe e da Da'Vine Joy Randolph, atores invegávelmente muito bons. Infelizmente, nenhum deles rende, e a culpa não é deles, porque o roteiro é muito fraco. Os personagens são muito insossos, sem vida, não têm uma personalidade. É tudo uma mistureba clichê de tudo que a gente já viu no cinema, só que sem profundidade. O Daniel até está em uma situação melhorzinha, por estar vivendo um vilão, e o Brad Pitt está em um personagem doido, completamente desregulado, mas os demais, poxa, são desperdiçados.
Visualmente, também não tem nada muito impactante. Os cenários são legais, mas a composição das cenas de ação é tediosa. Tem coisas dos anos 80, filmes do Spielberg e do Zemeckis que são muito superiores. Então, como o filme bebe muito dessa fonte, quando você compara, imediatamente The Lost City perde. E aí vem a frustração. Aí vem a indignação. O cansaço.
The Lost City é daquele tipo de filme que tenta lembrar sucessos do passado, tenta beber da mesma fonte, só que a execução não chega lá, não acompanha. Seria injusto comparar? Talvez eu esteja sendo um pouco radical demais, mas o filme falha em tudo o que se propõe. Ele é uma comédia romântica de aventura, mas não é engraçado. O casal principal não tem absolutamente nenhuma química, ao ponto de chegar a ser constrangedor nas cenas de romance. E a aventura é batida, repetitiva. Aí, quando o filme falha basicamente em tudo, é muito difícil você encontrar qualidade para se agarrar.
Nascido Para Matar
4.3 1,2K Assista AgoraFULL METAL JACKET
Direção: Stanley Kubrick
Ano: 1987
Assistido em: 20/09/2026
Nas últimas semanas, ando pesquisando muito a respeito da Guerra do Vietnã. Estou buscando livros, assistindo a documentários, ouvindo podcasts e me bateu uma vontade de assistir a um filme sobre o assunto. Então eu pensei: qual dos grandes clássicos eu ainda não havia tido a oportunidade de assistir? Já que Apocalypse Now (1979) e Platoon (1986) eu já havia assistido, eu me recordei, obviamente, de um dos maiores diretores de todos os tempos, que tinha um longa sobre o assunto que eu ainda não havia assistido. Então chegou a hora de correr atrás de mais um clássico do Kubrick e tirá-lo da minha lista de pendências. Foi assim que eu decidi assistir a Full Metal Jacket, e eu já esperava que fosse, no mínimo, diferente. Afinal de contas, Kubrick não era diretor para fazer filme comum.
Durante a Guerra do Vietnã, jovens recrutas dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos passam por um brutal treinamento em Parris Island, comandado pelo implacável sargento Hartman. Entre eles estão Joker, um recruta irreverente que encontra no humor uma forma de lidar com a pressão, e Pyle, que enfrenta enormes dificuldades para se adaptar à rotina militar. Depois do treinamento, os soldados são enviados ao Vietnã, onde Joker passa a trabalhar como correspondente de guerra e acaba testemunhando diretamente a violência e o caos dos combates.
É notório que o ponto mais chamativo desse filme é a sua divisão. Inclusive, eu já li em alguns lugares que muitos gostam até de tratá-lo como dois trabalhos distintos colados um ao outro. E o que mais chama a atenção é o fato de o roteiro dedicar um tempo enorme a um ponto que muita gente ignora, que é o treinamento, a preparação de um soldado, ainda mais um de alto padrão, como os Marines nos EUA. Como ex-militar, que optou por não seguir adiante na carreira, eu posso afirmar que 100% do que vemos naquela base de treinamento é real, e a parte da pressão psicológica ficaria próxima de uns 200% de realidade.
No militarismo, existe uma teoria de que você é como uma engrenagem de um relógio, e se uma engrenagem para de funcionar, ela automaticamente compromete todas as outras, e logo a estrutura irá ruir. Tudo que o Pyle sofre na primeira parte é algo de que eu já fui testemunha. Todos os gritos do sargento Hartman, eu já testemunhei. Foram poucos os quais eu fui vítima, mas foi algo muito corriqueiro de presenciar na minha vida por cerca de dois anos. E é justamente por isso que eu vou fazer parte do grupo que elege a primeira parte como sendo a melhor. Não que a segunda seja ruim, não é isso, mas é tudo feito com um realismo tão grande que chega a ser assustador.
Kubrick consegue extrair de seus atores atuações inacreditáveis. Eu não conhecia o trabalho do Lee Ermey, e ele estava simplesmente assustador. A mesma coisa com o Vincent D'Onofrio. Tudo bem, hoje ele já é aclamado e tal, mas nessa época ele tinha apenas 25 anos e conseguiu entregar uma performance incrível. Os dois estão monstruosos em cena. E Kubrick trabalha a tensão de uma forma que você sabe que as coisas vão descarrilhar e, quando vem, mesmo você já prevendo, ainda assim te pega de surpresa. E é esse choque, esse surto, que torna essa primeira parte tão impactante.
Quando nós chegamos à segunda metade, nós estamos em um território já conhecido. Nós nos deparamos com os americanos fazendo suas habituais "americanices", vamos dizer assim. O roteiro ainda ganha pontos porque não retrata os estadunidenses como os heróis que foram libertar os pobres vietnamitas da opressão do comunismo. Muito pelo contrário, Kubrick expõe muito dos horrores que eram praticados naquela guerra e o quão estúpida, ridícula e inútil era tudo aquilo. Mas ele ainda não deixa de nos chocar com a forma como a brutalidade psicológica se transforma em brutalidade física. Principalmente ali nas cenas finais, é algo impactante demais.
Não tem nenhum tipo de violência que Kubrick não esteja disposto a mostrar. Se por um momento você pensou que não veria banho de sangue nesse filme, ele chega e te derruba novamente, te provando que sim, você ainda vai ter que se deparar com muita carnificina.
Se tem uma coisa em todo filme do Kubrick, sem nenhuma exceção, é deslumbre, é a fotografia. E aqui ele nos reserva, para as cenas finais, algumas das mais belas e incríveis de sua carreira. A iluminação que ele utiliza no momento em que os soldados americanos invadem aquele prédio em busca do sniper que tinha matado seus companheiros é absurda. O jogo de sombras, a forma como o rosto do Joker é coberto pela escuridão quando ele precisa tirar uma vida, depois a silhueta desses soldados contra uma frágil luz de fogo ao fundo... Tudo isso é uma beleza artística inquestionável. E eu não vou nem dizer que não era esperado, porque, quando se trata do Kubrick, qualquer cena vira uma pintura de tão bem filmada, de tão bem enquadrada. Não é à toa que isso é só uma das muitas provas do porquê de ele ser um dos grandes diretores de todos os tempos.
Full Metal Jacket não é um filme para fazer você se sentir bem, para fazer você se sentir confortável. Não. Ele foi planejado desde o princípio para te levar a um questionamento: qual a real necessidade de um conflito tão brutal, tão violento? Qual é o propósito de destruir a mente de um homem, transformá-lo em uma máquina de matar que vai desprezar a vida de outras pessoas? Com qual intuito? E tudo isso é retratado com um brilhantismo poucas vezes visto na sétima arte.
Novamente, o primeiro ato, por ser incomum de vermos no cinema, é muito mais impactante, ainda é muito mais chocante, inclusive para quem tem algum tipo de vínculo emocional com o militarismo. Eu acho que, infelizmente, o segundo não conseguiu igualar. Eu não vou dizer que ele ficou muito abaixo, ele não ficou. Ele simplesmente não conseguiu igualar. Mas, artisticamente falando, também é incrível, sem nada para questionar.
Ah, eu não posso deixar passar em brancas nuvens: encerrar esse filme com "Paint It, Black", dos Rolling Stones, foi outra sacada genial. Nada como uma música criada e lançada naquela época, que fala sobre luto, para deixar claro qual era o único sentimento possível no meio de toda aquela tragédia exposta em tela.
Undrafted
3.5 1UNDRAFTED
Direção: Joseph Mazzello
Ano: 2016
Assistido em: 19/09/2026
Apesar de não ser um praticante de esportes, eu gosto muito de assistir a filmes sobre esportes. Entretanto, tem dois em específico que, toda vez que eu vejo que o filme trata sobre eles, eu tento fugir: futebol americano e o bendito do beisebol. Mas, como eu sou da teoria de que não devemos ter nenhum tipo de preconceito cinematográfico, eu ainda tento. Só que, a cada frustração, o ranço por esse esporte sem graça só aumenta.
John Mazzello é um talentoso jogador universitário de beisebol que sonha em seguir carreira profissional, mas vê seu objetivo desmoronar ao não ser selecionado no draft da Major League Baseball. Pouco depois de receber a notícia, ele precisa entrar em campo com os D-Backs para disputar a semifinal de uma liga de verão contra os Bulldogs, uma equipe reforçada por jogadores experientes.
Filmes de um cenário não são fáceis. É preciso uma história muito boa, que prenda a atenção e que saiba utilizar o pouco espaço disponível. É preciso uma gestão, uma logística muito boa. Infelizmente, nós não temos isso aqui. Nós temos essas duas equipes que vão disputar uma partida de beisebol e, com exceção do campo, a única coisa que nós vemos é o banco de uma delas. Isso causa uma sensação de prisão, de que a história está amarrada, sufocada, o que deixa tudo muito mais cansativo. Não é como se o roteiro colaborasse e fosse muito bom, com personagens muito bem trabalhados para compensar de alguma forma, o que não é o caso. É tudo muito arrastado, tudo muito cansativo, a personalidade dos personagens é irritante demais. Enfim, é uma tortura.
Levando em consideração que este é o primeiro trabalho do Joseph Mazzeo, que começou em Hollywood ainda criança e tentou fazer essa transição, eu acharia muito mais interessante que ele permanecesse atuando porque, por Deus, a condução da história, a forma como os personagens são direcionados, as escolhas dos enquadramentos, tudo é muito deficiente. Até quem não entende bosta nenhuma disso, sabe que tudo isso ajuda a deixar o filme dinâmico, o que não aconteceu aqui. E observem o sobrenome do protagonista, o mesmo do diretor/roteirista, arrogância mandou lembranças.
Eu costumo brincar que, quando o filme é ruim, a única coisa que sobra é prestar atenção na beleza do elenco, e talvez seja essa a única coisa minimamente boa aqui. Está cheio de homem bonito, você fica encantado, mas é tão triste saber que você passa por uma história e ela não tem motivo, não tem nada que permaneça, e a única coisa que você consegue lembrar é a cara dos atores. Isso é horrível para qualquer cinéfilo. É uma experiência que eu não aconselho ninguém a ter.
Só Por Uma Noite
3.1 36 Assista AgoraONE NIGHT ONLY
Direção: Will Gluck
Ano: 2026
Assistido em: 19/09/2026
Já faz alguns anos que existe uma discussão de que as comédias românticas perderam espaço nas telas de cinema e que, atualmente, elas devem se contentar com os serviços de streaming. Entretanto, em 2023, o diretor Will Gluck provou que essa afirmação não é de toda verdadeira com o grande sucesso de Anyone But You. Agora, passados três anos, ele tenta mais uma vez emplacar um sucesso com um casal que se estranha em um primeiro momento, mas que precisa se acertar. Só que, infelizmente, não é sempre que um raio cai duas vezes no mesmo lugar.
Em uma Nova York onde solteiros podem fazer sexo legalmente apenas uma noite por ano, Owen, recém-abandonado pela namorada, e Allie, uma romântica em busca de algo mais significativo, se encontram justamente quando a cidade está tomada por encontros casuais. Apesar da conexão imediata entre os dois, uma sucessão de desencontros, confusões e situações inesperadas faz com que eles passem a noite correndo pela cidade, ora se aproximando, ora se afastando, enquanto tentam descobrir se aquela noite pode lhes trazer algo além do que inicialmente procuravam.
Longe de querer comparar esse filme com a obra anterior do diretor, apesar de eu já ter feito isso na introdução, mas comédias românticas seguem uma cartilha tão cegamente que é impossível não traçar paralelos entre elas. E, se analisarmos mais friamente a estrutura de One Night Only, a gente pode perceber que, apesar de partir de uma ideia muito boa de uma distopia onde os Estados Unidos controlam a vida sexual da sua população, a execução não parece saber muito bem o que fazer com essa premissa. Nós temos os protagonistas, Owen e Allie, doidos para transar, mas se envolvendo em diversas situações que, na teoria, deveriam ser divertidas, mas não são. E aí existe um outro problema: não existe química no casal.
Em uma comédia romântica, subentende-se que precisa haver humor e romance, mas não é bem isso que nós encontramos aqui. O filme em momento algum é constrangedor, ele não vai te fazer morrer de vergonha, também não apela para o humor besteirol, mas ele não tem graça. O máximo que vai te dar é um sorrisinho de canto de boca. Isso é ruim? Não, mas também não cumpre os pré-requisitos do que é uma comédia. O romance também é outro problema. Por mais que Callum Turner e Monica Barbaro sejam dois lindos gostosos, eles não funcionam em cena. Eu não senti aquele desejo explosivo que vai fazer com que a gente torça desesperadamente para que eles fiquem juntos. Você quer que eles fiquem juntos porque as outras opções são todas horríveis, mas não é aquela paixão arrebatadora que muitas vezes nós já vimos nesse tipo de história.
É perceptível que Gluck estava tentando repetir o seu sucesso anterior. Por isso, ele vai incisivamente em cima dos mesmos pontos: casal se conhece, não dá muito certo no primeiro momento e depois, meio que pelas circunstâncias do destino, são obrigados a ficar juntos. Mas eu acho que faltou ele estruturar melhor essa história, ver os pontos fortes dela e tentar utilizá-los da melhor forma possível, porque seguir uma cartilha infelizmente não funcionou tão bem quanto deveria ter funcionado.
Falando assim, parece que eu odiei o filme. Não é isso. Eu diria que ele está até um pouquinho acima da média, se tratando do gênero. Tem um bom elenco e uma trilha sonora maravilhosa, mas deixa aquela impressão de que poderia ter escolhido um caminho diferente, buscando algo próprio, ter explorado mais as implicações da lei naquela sociedade. Enfim, ter se aproveitado mais do que poderia ter tornado o resultado diferente, e não apenas mais um.
PS: A Monica Barbaro teve uma sorte bárbara nesse filme, hein? Pegar Callum Turner, Charlie Gillespie e Andrew Burnap na mesma noite! Sorte para poucos.
O Foragido
2.9 46 Assista AgoraWRONGFULLY ACCUSED
Direção: Pat Proft
Ano: 1998
Assistido em: 13/09/2026
O Fugitivo (1993) foi um dos filmes de maior sucesso daquele ano e entrou para a história do cinema. Teve uma excelente bilheteria, foi muito bem recebido pelas críticas e chegou a ser indicado ao Oscar. Eu cheguei para assisti-lo com altíssimas expectativas. Entretanto, quando os créditos começaram a subir, percebi que não tinha gostado nem um pouco, porque ele simplesmente não fazia a minha praia. Agora, uns dez anos mais ou menos depois de tê-lo assistido pela última vez, sem nada em especial para assistir, me deparo com essa paródia na Netflix e, ao saber que ela é protagonizada pelo lendário Leslie Nielsen, decidi dar uma chance para ver se a versão cômica me agradaria mais. E, honestamente, ainda não foi dessa vez.
O famoso violinista Ryan Harrison é condenado à morte pelo assassinato do milionário Hibbing Goodhue, apesar de ser inocente. Durante o transporte para a prisão, um acidente provoca a fuga de Ryan, que passa a ser perseguido pelas autoridades enquanto tenta descobrir quem realmente está por trás do crime. Em meio à fuga, ele se envolve em uma série de situações absurdas e perigosas, enquanto busca provar sua inocência.
O mais interessante de uma comédia que faz paródia de um filme específico é que você consegue observar os momentos exatos que estão sendo parodiados e, obviamente, isso faz com que o humor se destaque mais. Então, ao ver algumas cenas desta versão, imediatamente me lembrava das cenas de 1993, e aí o humor vinha naturalmente. Entretanto, o meu problema com aquele filme é que eu não achava a história interessante o suficiente. Sim, eu sei que ele foi amplamente elogiado, mas comigo não deu certo. Aconteceu basicamente a mesma coisa aqui. Apesar de ter o Nielsen, a história ainda é a mesma, do fugitivo que sai correndo destrambelhado, com a polícia nos seus calcanhares, logo por tabela, eu também não gostei.
Nem todo bom roteirista é um bom diretor, e vice-versa. Aqui, nós temos a condução de Pat Proft, que foi roteirista de uma série de filmes protagonizados pelo Nielsen, em particular da franquia Corra Que a Polícia Vem Aí, mas faltou o timing cômico necessário. Faltou o momento de fazer a piada funcionar na hora certa, de cortar na hora certa. Em muitos momentos, o filme parece bobo e inchado, com piadas que não faziam muito sentido dentro do que estava sendo apresentado. E olha que isso é algo corriqueiro em uma comédia-paródia de humor nonsense igual a esta.
Wrongfully Accused não é reconhecido como pertencente aos grandes clássicos do lendário Leslie Nielsen e, quando você assiste, percebe que é uma produção menor. Entretanto, talvez funcione para quem gosta de humor nonsense, eu até gosto bastante desse tipo, mas admito que, desta vez, não funcionou muito bem comigo. Quem sabe é porque eu estava em um dia não muito propício para esse tipo de humor e ele funcionasse melhor em outra ocasião, em uma revisita. Mas isso aí vai ficar para outro momento.
Zona de Perigo
3.0 83STRIKING DISTANCE
Direção: Rowdy Herrington
Ano: 1993
Assistido em: 13/09/2026
Confesso que não sou amante desses filmes dos anos 90 de um policial que precisa combater um vilão e provar sua inocência, blá-blá-blá. Nunca fui muito adepto desse tipo de produção, mas, devido a um problema na minha televisão, fui forçado a assistir a alguma coisa aleatória na Netflix e dei de cara com esse filme do Bruce Willis. Decidi dar uma oportunidade e fui esperando absolutamente nada, mas até que não foi tão ruim quanto eu esperava. Apesar de já adiantar: ele é bem fraco.
O detetive Tom Hardy, da polícia de Pittsburgh, é transferido para uma unidade fluvial após denunciar a corrupção de seu primo e parceiro de departamento. Quando uma série de mulheres associadas a Hardy aparece morta no rio, ele suspeita que os crimes estejam ligados a um antigo caso investigado por sua família. Determinado a descobrir a identidade do assassino, ele se envolve novamente na investigação e passa a desconfiar até mesmo de seus próprios colegas.
Meu grande problema com esse filme é que, para mim, parece que ele foi feito de qualquer jeito em todos os sentidos. O roteiro foi escrito e não teve nenhuma revisão, a direção foi entregue nas mãos de um iniciante e os atores não estavam minimamente interessados em fazer alguma coisa minimamente decente. Falando de uma maneira mais vulgar, foi feito à "moda caralha", como se ninguém estivesse se importando com o resultado. Da forma que ficasse, ia ficar, e acabou.
O roteiro não é dos mais bem elaborados, não. Ele é um clichê do policial que se afasta do trabalho e tem que voltar porque um criminoso do passado retorna e está matando pessoas próximas a ele. Tem um envolvimento com a parceira, enfim, é muito básico. O "grande momento", é a revelação da identidade do vilão que, convenhamos, você só pode ter errado o membro, mas era óbvio que pertencia à mesma família. Na sequência, temos a conclusão óbvia no qual o protagonista precisa brilhar, mesmo que em cenas constrangedoras e completamente sem nexo, vide todo o malabarisco que o Bruce Willis faz ALGEMADO.
No campo das atuações, tudo é simplesmente apavorante. O vilão é totalmente exagerado, caricato, histriônico. Até poderia funcionar se isso aqui fosse uma paródia, mas não é. É um filme que você leva a sério, que está querendo fazer um grande drama policial, um grande longa de ação. Aí, quando você tem o Robert Pastorelli gritando, dando chilique e fazendo tudo de uma maneira cartunesca, é impossível permanecer imerso na história. Sua cabeça vai para da trama, e tudo se perde.
Para não dizer que nada aqui é aproveitável, confesso que, mesmo no clichê, o mistério é interessante. Você quer saber por que estão matando aquelas mulheres, quem é o assassino e admito que o roteiro até me surpreendeu ao revelar as circunstâncias da morte do pai do protagonista. Mas são qualidades pontuais, algumas eu diria até mais superficiais, não conseguem anular os problemas existentes no restante da produção.
Para quem quer um filme de ação policial do Bruce Willis dos anos 90, no seu auge, em que ele banca o policial bem durão no combate aos inimigos, talvez seja um prato cheio. Mas, se você procura algo com um pouquinho mais de qualidade cinematográfica, esse aqui não é nem de longe a melhor pedida.
CHiPs: O Filme
3.0 137 Assista AgoraCHiPs
Direção: Dax Shepard
Ano: 2017
Assistido em: 12/09/2026
Em Hollywood, é muito comum atores pularem para trás das câmeras e se tornarem diretores. Todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é uma máquina de moer carne, que, quando chega a uma certa idade e a pessoa já não é mais tão jovem, a beleza começa a desaparecer e a tendência é que os papéis importantes vão rareando. Então, nada mais justo que aconteça essa transição, e é graças a isso que nós temos excelentes profissionais que nos presenteiam todos os anos com obras icônicas. Mas também tem casos em que você olha e pensa que seria melhor se essa transição nunca tivesse acontecido. Com CHiPs, foi exatamente isso que eu imaginei.
Jon Baker, um motociclista profissional que decide ingressar na Patrulha Rodoviária da Califórnia, recebe como parceiro Frank “Ponch” Poncherello, um agente federal infiltrado. Enquanto Jon tenta se adaptar ao trabalho e provar seu valor, Ponch investiga uma série de roubos cometidos por um grupo de criminosos que pode ter ligações com policiais corruptos. Os dois, apesar das personalidades e objetivos diferentes, precisam trabalhar juntos para descobrir a identidade dos responsáveis e impedir que o esquema continue.
Tem certos humores que são peculiares, funcionam para determinadas pessoas e para outras não. Eu, particularmente, adoro um humor mais satírico, mais debochado, humor negro, vamos dizer assim. Há quem goste de comédia escrachada, pastelão, que é o que encontramos aqui. Que, comigo, não funcionou de maneira alguma. O timing cômico do Dax Shepard é pavoroso. As cenas são construídas com base em humor de quinta série, infantil e bobo, criando constrangimento. Mas não é daqueles estilos como The Office (2005-2013), em que você ri de nervoso. Não, é daqueles em que você procura um buraco para enfiar a cara.
O elenco reunido aqui é bom, mas, com um roteiro tão fraco, morto não tem condição de se sustentar nenhum personagem. Eu não conheço a série-mãe que deu origem ao filme, mas, se era intenção despertar interesse para buscar o material original, fracassou vergonhosamente, porque tudo o que eu fiquei foi com vontade de nunca mais ver nada relacionado a essa franquia na face da Terra.
Com a direção fraca, que picotou o filme inteiro na montagem, e um roteiro sem graça, CHiPs deixa a pior impressão possível. É daqueles que você não quer nem lembrar que um dia assistiu. O gênero do humor é um dos mais difíceis do cinema. Não é fácil fazer rir: para cada um bom e engraçado, tem 200 horripilantes, e este aqui, com toda a certeza, caiu no grupo dos 200. Quando eu vir o Dax Shepard, acho que vai ser impossível não lembrar do mal-estar que esse personagem dele me causou assistindo a esse filme.
Selma: Uma Luta Pela Igualdade
4.2 796 Assista AgoraSELMA
Direção: Ava DuVernay
Ano: 2014
Assistido em: 12/09/2026
A luta pelos direitos civis na década de 1960 é um dos pontos mais instigantes de todo o século XX. Era extremamente absurda a contradição de os Estados Unidos alegarem estar protegendo o planeta do comunismo, mandando jovens para serem mortos no Vietnã e financiando golpes de Estado na América Latina, enquanto negros eram brutalmente violentados, abusados e agredidos em seu próprio território. Estou concluindo a trilogia O Século, do Ken Follett, e ele dedica muito tempo do terceiro livro tratando desse assunto. Por isso decidi ir atrás de Selma, que foi indicado ao Oscar em 2014, mas que eu não havia tido a oportunidade de conferir, e me arrependi muito de ter demorado tanto tempo para assisti-lo, porque é um filme de fato muito bom.
Em 1965, Martin Luther King Jr. e outros líderes dos direitos civis concentram seus esforços em Selma, no Alabama, para garantir o direito de voto à população negra. Diante da violência e da repressão das autoridades locais, o movimento organiza uma série de protestos e marchas, incluindo a tentativa de atravessar a ponte Edmund Pettus rumo a Montgomery. A mobilização coloca a questão do direito ao voto no centro do debate nacional e aumenta a pressão sobre o presidente Lyndon B. Johnson para aprovar uma nova legislação de direitos civis.
Eu tenho problemas muito sérios com figuras históricas muito pacifistas. Eu admiro muito Martin Luther King, a postura dele, a vontade, a forma como ele nunca se deixou abater, mas eu confesso que, caso eu fosse um homem negro com idade para ter engajamento na causa lá nos anos 60, eu provavelmente ficaria do lado de Malcolm X. Eu não consigo conceber essa ideia de dar a outra face. Eu sou muito reativo, eu sei que muitas vezes essa não é a maneira mais adequada, mas não consigo compreender como aquelas pessoas podiam sofrer as maiores barbaridades sem poder fazer nada para revidar. Entendo toda a política do King, entendo que, com toda certeza, haveria uma retaliação muito grande, mas não existe mudança sem sofrimento, e sou daqueles que acredita que, caso os negros tivessem se imposto de uma forma mais radical há mais tempo, as mudanças teriam vindo mais rapidamente.
Cada conquista desse período era obtida com muito sofrimento, com muito derramamento de sangue e com vítimas. A marcha de Selma foi uma forma de pressionar Lyndon Johnson para ele fazer o mínimo. Algo muito interessante, que é bem retratado no filme, é que a Lei dos Direitos Civis idealizada pelo Kennedy foi promulgada no ano anterior pelo Johnson e, como bem diz o desgraçado do George Wallace, os negros tinham que se dar por satisfeitos. No sul dos Estados Unidos, essas leis eram amplamente desrespeitadas, logo a marcha foi importante porque mostrou ao mundo o que de fato estava acontecendo nos Estados Unidos.
Selma tem um registro histórico muito bom, mas ele falha em alguns pontos. Eu, por exemplo, nunca gostei de idealizar figura nenhuma, e muito menos dessa idolatria que existe pelo King, não só por ele, como por qualquer outro nome importante. Sim, ele fez muitas coisas boas, mas também era uma pessoa muito falha, então essa grande dependência que as pessoas tinham dele e a forma como é retratado no filme, quase que como uma idolatria, me incomoda bastante. Bom, outro detalhe é que o roteiro dá a entender que Lyndon Johnson resolveu finalmente assinar a lei por conta de uma conversa que ele teve com King, e quem busca saber um pouquinho de história sabe que Johnson tinha um sentimento de inferioridade muito grande porque ele era uma pessoa de origem humilde, vinda do Texas. Ele não era da elite norte-americana, como, por exemplo, seu antecessor Kennedy. Então, tudo que ele fez foi movido pelo ego. Ele queria entrar para a história como o presidente que finalmente resolveu a questão da segregação racial nos Estados Unidos, e não por conta de discursozinho bonitinho do King.
Do ponto de vista artístico e técnico, Ava DuVernay faz um trabalho muito competente. Os atores estão muito bem em cena, a direção é segura, os figurinos e os cenários são tudo muito bem recriados. Não tem nada que soe falso, tudo parece, de fato, uma produção da década de 1960. O elenco não tem ninguém que se destaque mais do que os demais. Todos estão bem, mas não há nenhuma atuação fora da curva. Outro destaque muito importante é a excelente “Glory”. Quando essa música venceu o Oscar de Melhor Canção Original, eu não gostei muito, não achava ela muito boa, mas, com o passar dos anos, fui mudando de opinião e hoje em dia consigo reconhecê-la como uma excelente canção.
Selma é muito bom nas suas duas funções. Ele funciona muito bem como um grande filme e serve para nos ensinar um pouquinho mais da situação política dos Estados Unidos e do cenário global da década de 1960. Entretanto, eu acho que é sempre preciso um complemento, é sempre interessante buscar um pouquinho mais de informações. Não que o que o filme nos forneça não seja de qualidade, não é isso. Só que toda arte é enviesada pelos olhos do seu artista, e eu creio que, se seus personagens tivessem um pouco menos desse verniz que suaviza as personagens, ele funcionaria ainda melhor do que já funciona.
Rose of Nevada
2.8 4ROSE OF NEVADA
Direção: Mark Jenkin
Ano: 2025
Assistido em: 07/09/2026
Eu cheguei num ponto em que não procuro muita coisa para me convencer a assistir a um filme. Eu não leio sinopse, não assisto trailer. A única coisa que acompanho religiosamente são notícias. Então, quando vi uma notícia sobre essa produção com viagem temporal, com dois atores de que eu gosto como protagonistas, eu já estava convencido. Não precisava de mais nada para assistir. Entretanto, admito que esse método pode fazer com que eu assista a grandes projetos e a grandes fracassos também. Com Rose of Nevada, eu senti que ele ficou no meio do caminho, sem conseguir ir nem para um lado nem para o outro.
Em uma esquecida vila de pescadores na Cornualha, um barco desaparecido há trinta anos, o Rose of Nevada, surge misteriosamente no antigo porto. Para os moradores, seu retorno pode ser um sinal de que a sorte da comunidade, devastada pelo declínio econômico, finalmente está prestes a mudar. Nick, um jovem pai que precisa sustentar sua família, e Liam, um recém-chegado tentando escapar do próprio passado, embarcam na embarcação. Depois de uma viagem bem-sucedida, porém, eles retornam ao porto e descobrem que algo inexplicável aconteceu: foram transportados trinta anos para o passado e são recebidos pelos moradores como se fossem os membros originais da tripulação desaparecida.
O grande problema deste filme, está no roteiro, que, convenhamos, é confuso, arrastado e tem pouquíssimas curvas dramáticas. A história é boa e poderia render grandes momentos de tensão e conflito, mas não é isso o que o roteiro entrega. Nós temos dois protagonistas: enquanto um tenta desesperadamente voltar para o tempo presente, o outro se acostuma muito depressa e vai se adaptando. Mas a forma como eles mostram isso é muito fraca, dando a impressão de que nada está acontecendo de fato, de que a história não está andando, ela está parada no tempo. O que é até curioso, já que, por mais que o Nick tente, ele não consegue sair do lugar, não consegue voltar ao tempo presente.
Como o roteiro não colabora, eu tive que me apegar a outros critérios. Por exemplo, a fotografia é fantástica. A forma como eles emulam uma filmagem antiga, dando uma estética similar à de uma filmagem caseira de 1993, deixa o filme muito gostoso de se assistir. O formato da tela, que não é widescreen, é 4:3. A atuação é muito boa. Eu gosto demais do George MacKay, ele segura grandes momentos dramáticos, e eu também gosto bastante do Callum Turner. O problema é que, como eu já falei antes, o roteiro não dá nenhum grande material para eles trabalharem. Todas as cenas-chave deveriam ser intensas, interessantes, mas são sem vida. Nós temos o protagonista gritando na cara de duas pessoas que ele não é o filho que elas estão acreditando que seja, e você não sente nada. Nós temos o outro brincando de casinha, fingindo ser o pai de uma criança, e também não diz nada.
Rose of Nevada está mais para uma boa ideia do que para um bom filme. Aliás, a quantidade de bomba que nasce de uma boa ideia não está no gibi. É preciso ter uma boa execução e, por mais que o longa não esteja em um nível mais elevado, ele ainda é interessante. Você ainda consegue ficar curioso para saber quais serão os desdobramentos da história e se mantém preso para descobrir o que vai acontecer, mesmo que o resultado final não seja exatamente aquilo que você esperava ou aquilo que você gostaria de fato de assistir.
G.I. Joe Origens: Snake Eyes
2.6 108SNAKE EYES: G.I. JOE ORIGINS
Direção: Robert Schwentke
Ano: 2021
Assistido em: 07/09/2026
Honestamente, eu fico me perguntando qual é a tara que os americanos têm com G.I. Joe. Eu sei que até trouxeram a animação aqui para o Brasil e que os bonequinhos eram bem vendidos lá nos anos 80, mas eu sou dos anos 90 e, para minha geração essa marca nunca quis dizer nada. Só conheci mesmo pelos filmes e, como todos são bem fracos, fico me perguntando para quem eles fazem esse tipo de produção, porque até agora não consegui entender.
Após anos procurando pelo homem responsável pela morte de seu pai, Snake Eyes finalmente o encontra e recebe a chance de se vingar. Porém, ao salvar a vida de Tommy Arashikage, herdeiro de um poderoso clã ninja japonês, ele é levado ao Japão e acolhido pelo grupo, onde começa a ser treinado para se tornar um guerreiro. Enquanto tenta conquistar a confiança de seus novos aliados, Snake Eyes se vê dividido entre a promessa de vingança que o guiou por toda a vida e os valores de honra e lealdade ensinados pelo clã.
Nós vivemos numa era tão desgraçada do cinema que tudo hoje em dia é spin-off, sequência, remake... E, quando decidiram fazer essa prequel contando a história do Snake Eyes, eu só fiquei me perguntando: para quê? Ele é um personagem visualmente legal. Aquela roupa toda preta, ele não fala, a gente não sabe nada dele. Quando chega, chega descendo a porrada em todo mundo. Ele é aquele tipo de personagem que, quanto menos você souber, melhor.
Mas, já que fizeram um filme, que ao menos fizessem uma história interessante, o que não é o caso aqui. O roteiro é rocambolesco, clichê, é traição em cima de traição, é uma pataquada de uns testes sem graça. A cena das anacondas até poderia ser boa, mas é tudo tão escuro e tão mal executado que uma sequência conceitualmente interessante acaba ficando boba durante a execução.
Eu cheguei aqui ao menos esperando encontrar boas sequências de luta, uma boa coordenação de dublês, mas não tem nada disso. Outro problema é o Harry Goodwin, que tem o carisma de uma parede. Nós temos no elenco Andrew Koji que, além de um bom ator, é um artista marcial sensacional. Ele funcionaria muito melhor como protagonista, mas, pelo menos aqui, colocaram-no como vilão. O Storm Shadow, que, honestamente, eu sempre achei muito mais interessante que o próprio Snake Eyes.
Esse filme foi uma tentativa de Hollywood de retomar uma franquia que, lá no finalzinho dos anos 2000, deu umas batidas de asa, mas que nunca decolou. E o mais interessante é que, atualmente, a Hasbro está tentando colar G.I. Joe nos Transformers, que, por si só, já foram gigantescos, mas que nos cinemas atualmente respiram por aparelhos. Seria um aleijado se escorando em outro. Mas eu tenho para mim que isso nunca vai sair do papel e creio que essa saga deveria ficar presa lá nos anos 80, quando ela era relevante. Hoje em dia, honestamente, isso aí já não diz mais nada, só os executivos insistem em não ver.
Em Busca de Vingança
2.6 105 Assista grátisAFTERMATH
Direção: Elliott Lester
Ano: 2017
Assistido em: 05/09/2026
Eu tenho para mim que o maior crime que um filme pode cometer não é ele ser ruim, é ele ser qualquer coisa. É ser esquecível, ser qualquer nota. Porque o filme ruim, um verdadeiro desastre, mas te marca de alguma forma: te faz perder a paciência, te faz querer bufar de raiva, enfim, te provoca algum sentimento. E, quando você se depara com um que nem isso consegue fazer, a frustração é pior. É aquele sentimento de que você se envolveu, se entregou, e não recebeu nada em troca. E foi exatamente isso que eu senti assistindo a isso aqui.
Após perder a esposa e a filha em um acidente aéreo causado por um erro de controle de tráfego, Roman Melnyk fica devastado. Quando percebe que o responsável pela tragédia continua vivendo sua própria vida, Roman passa a ser consumido pelo luto e pela necessidade de encontrar algum tipo de justiça, colocando-o em uma trajetória marcada por dor, ressentimento e vingança.
Quando eu li a sinopse, achei a história extremamente interessante, uma proposta diferente. O Arnold Schwarzenegger já estava bem mais velho, então não seria um daqueles longas que ele estava acostumado a fazer na juventude, do exército do homem solitário em busca de vingança e tal. Mas eu não imaginava que fosse encontrar uma coisa tão insípida, tão sem graça.
A parte mais interessante da obra justamente está no personagem do Scott McNairy e na repercussão que o erro dele causou, desde as pressões psicológicas até as pressões sociais. Mas isso não é bem explorado. É tudo feito de uma maneira insípida.
A fotografia é cinzenta e combina com o roteiro, que não é preto nem branco, não é 8 ou 80, ele é cinza. Ele é uma coisa, uma massa sem forma. E foi isso que me impediu de gostar, porque ele não é intenso. Uma história como esta poderia ser um drama fenomenal, que nos levasse a discutir, que nos levasse a entender melhor quais seriam as repercussões que um acidente como este teria caso acontecesse na vida real, já que o filme é levemente inspirado em uma história real. Mas roteiro e direção não querem se comprometer com nada, e aí acaba resultando em uma coisa sem vida.
Aftermath é daqueles filmes que eu coloco na prateleira de que você não vai se esquecer da história dele, você vai se esquecer de sequer tê-lo assistido. É o tipo de produção que implode imediatamente na parte do cérebro que guarda as nossas memórias, porque não tem uma cena minimamente memorável. Eu mesmo cochilei e lutei contra o sono durante uma hora e meia e, o filme não me ajudava a resistir. E isso é o que torna tudo mais desmotivante no final.
Doutor Jivago
4.2 331 Assista AgoraDOCTOR ZHIVAGO
Direção: David Lean
Ano: 1965
Assistido em: 05/09/2026
Desde março, estou vivendo quase que um caso de hiperfoco na história russa, muito devido ao fato de estar lendo algumas obras icônicas do Ken Follett. E, quando li uma biografia do meu diretor favorito da vida, Christopher Nolasn, descobri que este é um dos longas mais influentes no trabalho dele. Então, decidi que era hora de juntar o útil ao agradável e conhecer esse grande clássico dos anos 60. Mas é aquela história: não é porque é clássico que obrigatoriamente você vai morrer de amores.
Durante a Revolução Russa e a Guerra Civil, o médico e poeta Yuri Zhivago tenta sobreviver às profundas transformações políticas e sociais que devastam a Rússia. Casado com Tonya, ele acaba se envolvendo com Lara, uma enfermeira por quem desenvolve uma paixão intensa, enquanto os conflitos ao seu redor tornam cada vez mais difícil preservar sua família, seus ideais e sua própria vida.
Eu vou começar falando daquilo que não me agradou na obra porque vai ser mais fácil, já que o problema se concentra em apenas dois pontos: primeiro, nos personagens; segundo, no ritmo. Sobre os personagens, a melhor definição que eu consigo achar é que eles são tão carismáticos quanto um muro chapiscado. Honestamente, eu não gostei de ninguém. Nenhum me convenceu, eu não fui encantado por eles. O protagonista é apático, não tem atitude, é simplesmente carregado pelas situações da vida. Honestamente, eu não morro de amores por pessoas que são adúlteras, independentemente do contexto ou da situação, então o Yuri foi alguém que praticamente foi muito maçante de acompanhar. Os demais personagens, esses aí então, pioraram. A mais simpática de todos é a Lara, mas, ainda assim, a questão do adultério me pega demais e não dá para torcer para os dois.
O ponto do ritmo e edição também fica complicado. São 3h20 de duração nada dinâmicos: tudo é arrastado. E olha que ele tem assuntos extremamente relevantes e que, como eu disse, têm minha total atenção, como as revoluções de 1917, a Guerra Civil Russa, todo o contexto geopolítico entre o fim do Império Russo e a ascensão da União Soviética e o estado de caos que se instaurou nos cinco anos entre uma coisa e outra. Ainda assim, é tudo muito devagar. A história se arrasta e, como eu disse lá em cima, os protagonistas não são muito agradáveis. Tudo isso torna a experiência de assistir a Doctor Zhivago bastante enfadonha.
Mas, deixando de lado essa parte, o restante do trabalho é um espetáculo com letras garrafais. A direção é muito boa, os atores em cena são lendários. Por mais que eu ache o Yuri uma água de salchica, é inegável o talento de Omar Sharif, assim como o de Geraldine Chaplin, o da Julie Christie e, é claro, o do lendário Alec Guinness, mesmo ele apareca pouco.
Outro detalhe que faz o queixo cair é a fotografia linda. Ela usa muito bem os cenários, dando uma impressão de grandiosidade à história. A produção, os cenários e os figurinos nos fazem acreditar que estamos mesmo na Rússia do princípio do século XX. A trilha sonora é forte, é marcante, não passa despercebida. Você entende perfeitamente de onde vem o fascínio do Nolan por essa produção, porque, artisticamente falando, é delicioso de observar. É uma pena, infelizmente, que a história não acompanhe.
Para mim, Doctor Zhivago vai ser daqueles filmes de que eu sempre vou me lembrar quando precisar de um exemplo de produção que você consegue reconhecer que é muito caprichada, que foi muito bem feita, mas que, ainda assim, não conseguiu te cativar. Um filme que é justamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos e que tem todos os elementos para isso. Então, não é daqueles que vai me fazer perguntar: “O que diabos os críticos viram nisso?”. Não, muito pelo contrário. É daqueles que eu tenho a mais absoluta certeza de que, ao longo dos anos, vou querer rever. Quem sabe, em outro dia, em outro momento, com outra cabeça, ele consiga se comunicar comigo de uma forma diferente da que foi no dia de hoje.
O Guerreiro
1.4 49 Assista grátisTHE VEIL
Direção: Brent Ryan Green
Ano: 2017
Assistido em: 30/08/2026
Quando eu era criança, lá nos anos 90, a única maneira de assistir a certos filmes era pela televisão, e eu sempre reparava que os grandes blockbusters, os grandes sucessos, estavam na Globo. Os menores iam parar no SBT. A Record pegava aquele resto de filmes muito antigos cujas emissoras principais já haviam perdido os direitos, e para a Band sobravam aqueles produzidos diretamente para VHS/DVD que não podiam nem ser chamados de classe B, pois eram fracos demais para essa classificação. Quando terminei de assistir The Veil, tive a sensação de ter acabado de presenciar uma daquelas sessões de cinema daquela época.
Em um mundo devastado por guerras, um guerreiro é traído e abandonado à própria sorte. Depois de ser salvo por uma misteriosa princesa, ele é acolhido por uma tribo que acredita que sua chegada está ligada a uma antiga profecia. Enquanto recupera suas forças, ele precisa decidir se está disposto a liderar aquele povo contra seus inimigos.
Existe uma teoria cinematográfica que diz que, para fazer um bom filme, não é necessário ter dinheiro: só é preciso ter uma câmera e talento. Ao longo dos anos, tivemos diversas confirmações dessa regra. Foi assim com Mad Max (1979), foi assim com A Bruxa de Blair (1999) e, mais recentemente, com Obsessão (2025). Portanto, orçamento não é desculpa, mas você precisa saber o que quer fazer e, principalmente, como fazer. A partir do momento em que você se propõe a fazer uma fantasia medieval, precisa entender suas limitações. O problema é que este filme não entendeu isso. Em alguns momentos, ele me lembrou episódios de Power Rangers ou de séries da CW. Mas aí eu dou até um desconto para essas séries, porque elas não têm orçamento de cinema e nem a pretensão de serem exibidas em tela grande.
As atuações são simplesmente sofríveis, mas eu não vou julgar os atores, até porque há gente de quem eu gosto bastante aí no meio, como William Levy, William Moseley e Serinda Swan. Nenhum deles, porém, vai conseguir entregar uma boa performance quando a base é simplesmente tenebrosa. Nenhum personagem tem um bom desenvolvimento, nenhum é bem escrito e todos só servem momentaneamente às necessidades do roteiro (aliás, que roteiro?). São tão profundos quanto uma poça d'água depois de uma chuva.
Tudo aqui é precário. Os figurinos são feitos à base de couro, como se o figurinista tivesse algum tipo de fetiche com esse material. A fotografia é péssima, os ângulos não criam nada de bonito, tudo é feio. Os cenários parecem feitos de papelão, daqueles de produção escolar. Resumindo: é tudo pavoroso, asqueroso, para não dizer uma palavra mais forte.
Este é um dos piores filmes que já vi na minha vida, e olha que já vi muita coisa ruim. Nada aqui funciona. Vou dar meia estrela pelo elenco masculino ser cheio de homens bonitos, mas, quando esse é o único ponto positivo que consigo encontrar em uma produção, é porque a coisa está muito feia.
O Ritmo da Vingança
2.5 80THE RHYTHM SECTION
Direção: Reed Morano
Ano: 2020
Assistido em: 30/08/2026
Eu lembro que, lá em 2018, quando fiquei sabendo do lançamento desse filme, fiquei bastante animado, porque ele seria o primeiro longa-metragem produzido pela Eon que não pertencia ao universo de James Bond em décadas de atuação na área cinematográfica. Ele entrou na minha lista de produções para assistir no cinema em 2019, mas acabou sendo adiado, adiado novamente e finalmente desovado no começo de 2020. Não veio para a minha cidade e eu perdi completamente o interesse, até que, ao revisar uma lista de pendências no IMDb, me deparei com ele e decidi que era hora de corrigir essa pendência. Agora, a sensação que fica é que talvez tivesse sido melhor não ter ido atrás.
Após perder a família em um acidente aéreo, Stephanie Patrick descobre que a tragédia foi, na verdade, um atentado. Consumida pelo desejo de vingança, ela é treinada por um ex-agente do MI6 para assumir diferentes identidades e perseguir os responsáveis, transformando-se em uma assassina determinada a descobrir toda a verdade.
Lendo um pouco sobre os bastidores, descobrimos que houve uma verdadeira batalha pelo controle da narrativa, com estúdio, protagonista e diretora querendo um filme de ação mais tradicional, enquanto os produtores defendiam algo mais slow burn. Não sou contrário a uma narrativa mais cadenciada e até prefiro histórias que apresentem melhor seus personagens antes de partir para a ação. O problema é que, para isso funcionar, é necessário existir alguma profundidade nesses personagens, algo que os torne interessantes. E aqui não há nada disso. Se tirarmos o fato de a família da protagonista ter morrido em um acidente de avião, Stephanie praticamente se desfaz: não sobra muita coisa.
Eu entendo que, para Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, fazer um novo filme simplesmente igual aos de James Bond não seria algo interessante. Seria, em essência, fazer a mesma coisa. Mas, convenhamos: para um filme de espionagem, faltaram cenas realmente interessantes, combates bem coreografados, perseguições mais elaboradas e, enfim, boa parte dos componentes que esperamos desse gênero e que ajudam a manter o público envolvido. A tentativa de fugir do modelo tradicional acabou sacrificando justamente aquilo que poderia tornar a experiência mais divertida.
Não sou o maior fã da Blake Lively, mas reconheço que ela consegue ser uma boa atriz quando recebe material suficiente para trabalhar. O problema é que aqui ela recebe uma personagem completamente insossa e sem graça. Ela ainda conta com o suporte de um Jude Law completamente apático e de um Sterling K. Brown absurdamente subutilizado, sendo que ambos poderiam render muito mais.
No fim, saí desse filme com a impressão de estar diante de um primo pobre de James Bond: aquele que tentou fazer as coisas do seu jeito, tentou seguir por um caminho diferente, mas não apenas não conseguiu fugir das comparações como também não conseguiu provar que esse novo caminho poderia dar certo. Há anos existe na internet uma discussão sobre a possibilidade de reformular 007, seja transformando-o em uma mulher, seja em um homem negro, enfim, fugindo da forma como o personagem foi originalmente concebido. The Rhythm Section poderia ter sido uma resposta interessante para essa discussão, uma espécie de versão feminina do clássico herói de espionagem. No final, porém, parece apenas uma oportunidade desperdiçada.
O Último Nascer do Sol
2.6 23 Assista AgoraTHE LAST SUNRISE
Direção: Carlson Young
Ano: 2026
Assistido em: 29/08/2026
Comédias românticas protagonizadas por jovens são a mesma coisa desde que o mundo é mundo. Elas não têm novidade, não têm muita profundidade e, honestamente, só servem para aqueles dias em que você não tem uma opção melhor para assistir. Eu vi o card deste filme no Prime Video, achei os atores bonitos e decidi dar play, só que tudo o que encontrei foi a mesmice ordinária de sempre.
Ry, uma jovem de 22 anos que enfrenta problemas crônicos de saúde e vive sob a proteção excessiva da mãe, sente que sua vida está sendo constantemente adiada. Quando as duas viajam para Maiorca por causa do trabalho da mãe, Ry decide aproveitar a oportunidade para experimentar uma independência que nunca teve. Em uma de suas primeiras aventuras sozinha, ela conhece Julián, um jovem espanhol que vive na ilha e a conduz para experiências completamente novas. À medida que o verão avança, a atração entre os dois cresce e Ry começa a descobrir uma versão de si mesma que desconhecia.
Eu não vou ser hipócrita e dizer que o filme não tem pontos positivos, porque ele tem. O elenco é muito bonito, nós temos cenas de Fernando Lindez sem camisa para ninguém reclamar, e os cenários da Espanha são deslumbrantes. Mas não vai além disso. É basicamente um filme visualmente agradável, porque, quando entra no campo da história, aí não há muito o que ser dito. É o mais do mesmo de sempre, com um dos protagonistas doente, que meio que já desistiu da vida, encontrando um grande amor e ficando naquele esquema meloso de “ah, meu Deus, estou morrendo, mas descobri o grande amor da minha vida, e por isso vou deixar de tomar os meus remédios”, algo que a gente já viu um milhão de vezes.
Tecnicamente falando, não há muito que ser dito. É aquela atuação básica de atores, não temos nenhum grande personagem, então nem é preciso esperar algo digno de Oscar ou nada disso. A trilha sonora é apagada e não há nenhum grande destaque em edição, e direção. O ritmo funciona para o que é uma comédia romântica, ou seja, tudo segue no compasso correto, da antipatia inicial entre os personagens até o momento em que eles vão se apaixonando. Enfim, é uma repetição do que já vimos ao longo de muitos e muitos anos.
Nos últimos tempos, estamos presenciando um boom de adaptações de literatura jovem e romântica. Algumas são boas, outras nem tanto. The Last Sunrise cai no grupo das nem tanto. Não é algo que vai ofender a inteligência de ninguém, mas também não vai ser escolhido como o filme favorito de ninguém. Ele é daqueles que você assiste hoje e amanhã já esqueceu, não da história, mas de ter assistido.
Chaplin
4.2 368CHAPLIN
Direção: Richard Attenborough
Ano: 1992
Assistido em: 29/08/2026
Se fizessem uma votação hoje, e tivéssemos que escolher o maior gênio da história do cinema, meu voto, com absoluta certeza, iria para Charles Chaplin. Ele jogava em outro nível. Não foi apenas um ator de extrema importância e de talento inquestionável. Não, o homem foi um pioneiro em todos os sentidos. Ele era um diretor excepcional, um roteirista brilhante, um empresário talentosíssimo que brigou contra o sistema e a indústria de Hollywood quando Hollywood ainda estava se formando. Era também um músico talentosíssimo, um bailarino e acrobata além do normal. Enfim, ele era o que podemos chamar de fora da curva. Um filme que conseguisse retratar todas as facetas dessa figura, ao mesmo tempo em que não deixasse de lado suas polêmicas, era um desafio muito grande de ser realizado, mas eu confesso que gostei muito daquilo que vi.
A vida de Charles Chaplin começa em meio à extrema pobreza da Londres do início do século XX, mas seu talento para a comédia o leva dos palcos ingleses aos Estados Unidos, onde rapidamente se transforma em uma das figuras mais populares do mundo. Por trás do personagem irreverente que conquista milhões de pessoas, porém, existe um homem ambicioso, perfeccionista e marcado por relações amorosas conturbadas, conflitos profissionais e controvérsias políticas. Enquanto sua carreira alcança proporções extraordinárias, Chaplin precisa lidar com o preço da fama e com as consequências de suas escolhas pessoais.
A vida de Chaplin não foi nada fácil, principalmente para o filho de uma mãe solo no final do século XIX. Ele foi obrigado, desde muito cedo, a enfrentar uma vida muito difícil, mas, por outro lado, aprendeu e descobriu muito rapidamente o seu grande talento e o quão especial ele era. Infelizmente, o filme tem muita coisa para contar, então nós não temos tempo a perder. A infância de Chaplin é tratada de uma forma muito breve, sendo que existiam muitas coisas a serem abordadas ali. Eu sei que Richard Attenborough seguiu a autobiografia de Charles, e isso acabou prejudicando um pouco a narrativa, já que o próprio ator não era muito afeito a falar sobre algumas passagens. Aliás, este é um problema do filme como um todo, e o maior deles, muitos pontos são trabalhados de uma forma muito rápida, sem que tenham o devido detalhamento necessário, principalmente as polêmicas.
Apesar de Chaplin ser, para mim, a maior figura da história do cinema, eu não nego que o fato de ele se envolver com jovens muito novas é altamente problemático e deplorável, para não dizer outra palavra. Só que eu também não sou adepto do revisionismo histórico ou de ressignificações. Nós não podemos julgar com os olhos do século XXI comportamentos do princípio do século XX, porque, se fizermos isso, não teremos ídolo nenhum. Enfim, eu fico aliviado que pelo menos isso tenha sido retratado em tela. Partindo do pressuposto de que estamos nos baseando em uma autobiografia que contou com o envolvimento direto da família do ator, ver o comportamento dele sendo criticado (não tanto quanto deveria, mas ainda assim criticado), foi impressionante.
Tecnicamente falando, o filme é muito bem trabalhado. Robert Downey Jr. conseguiu entregar uma fisicalidade muito grande, que era obrigatória para interpretar esse personagem. O ator conseguiu se disfarçar muito bem, só que eu não gostei de vê-lo como Chaplin nos anos 60 e 70. Downey era muito jovem em 1992, não tinha nem 30 anos, e interpretar um homem de mais de 80, mesmo com aquela maquiagem bem feita, não me soou tão natural. Os demais atores estão bem em seus papéis, mas, como há muita coisa a cobrir, todos passam muito rapidamente, não dando muito espaço para que ninguém brilhasse com maior intensidade.
Chaplin é daquelas cinebiografias que tentam cobrir toda a vida do personagem e, graças a isso, é um filme apressado. Eu senti que havia espaço para muito mais. Ele tem apenas duas horas e vinte minutos, mas é daqueles que poderiam ter bem mais duração e você não sentiria, porque é uma história tão rica e tão deliciosa de acompanhar que, ao final, a sensação que tive foi de que eu passaria tranquilamente das três horas sem cansar.
É impossível não se emocionar com as cenas finais, quando imagens do verdadeiro Chaplin aparecem naquela homenagem no Oscar de 1972. Aliás, achei o ponto de corte excelente: o momento em que Hollywood meio que pediu perdão a Chaplin pelos anos de perseguição. Foi verdadeiramente encantador.
Sem Controle
2.0 31 Assista AgoraTHE SHADOW EFFECT
Direção: Obin Olson e Amariah Olson
Ano: 2017
Assistido em: 23/08/2026
Tem filme que, antes mesmo de assistir, você já sabe que vai ser ruim. Você vê atores da série B, vê um diretor desconhecido, um pôster meio duvidoso e é batata. E como o mundo do cinema não se faz apenas de classe A, é preciso dar uma oportunidade para esses títulos inferiores, para ter repertório, para poder reconhecer ainda mais aqueles que são bons. Mas tem uns que só pela misericórdia.
Gabriel Howarth começa a ter sonhos violentos nos quais presencia assassinatos e outros acontecimentos perturbadores. Quando percebe que aquilo que vê durante o sono está de alguma forma relacionado à realidade, ele passa a questionar a própria mente e a descobrir que existe uma força misteriosa por trás de suas experiências.
Esse é daquele tipo de filme que, de tão previsível, se torna irritante. Logo nas primeiras cenas, você já percebe qual vai ser o plot twist. E eu não estou falando isso porque sou muito inteligente, não, longe disso. É porque é tão, mas tão previsível, e o roteiro é tão capenga, tão anêmico, que qualquer um percebe.
Outro ponto que merece ser comentado é a completa falta de sutileza do roteiro. Quando você percebe o que está acontecendo, fica nítido que você está assistindo a uma Laranja Mecânica (1971) às avessas, mas os diretores, não satisfeito, ainda mete uma cena chupada do clássico de Stanley Kubrick, com direito à reprodução idêntica do Tratamento Ludovico. Só que aqui feita sem impacto e sem delicadeza foi como colocar um elefante andando dentro de uma sala de estar.
E sobre o plot twist depois do plot twist, eu só gostaria de parabenizar quem teve uma ideia tão imbecil como essa. É como se o filme já não fosse uma ficção científica suficiente apenas com a questão das memórias; ainda inventaram de enfiar clonagem no meio. De fato, não é qualquer um que consegue ter tantas ideias cretinas juntas ao mesmo tempo.
Sobre o elenco, o pobre Cam Gigandet só faz o filme ruim, então até aí, sem novidades. Jonathan Rhys Meyers é muito bom, mas fez péssimas escolhas ao longo dos anos, e o Michael Biehn, infelizmente, perdeu tudo na virada dos anos 80 e, desde então, também só aparece nesse tipo de bomba genérica.
Completamente cansativo, frustrante e desgastante. A direção é tão abaixo incapaz de criar algo interessante, que 1h40min parecem 5h. The Shadow Effect não valoriza a experiência cinematográfica em nada, porque, até para ser ruim, é preciso ter um pouquinho de qualidade, e até nisso ele ficou devendo.