WRONGFULLY ACCUSED Direção: Pat Proft Ano: 1998 Assistido em: 13/09/2026
O Fugitivo (1993) foi um dos filmes de maior sucesso daquele ano e entrou para a história do cinema. Teve uma excelente bilheteria, foi muito bem recebido pelas críticas e chegou a ser indicado ao Oscar. Eu cheguei para assisti-lo com altíssimas expectativas. Entretanto, quando os créditos começaram a subir, percebi que não tinha gostado nem um pouco, porque ele simplesmente não fazia a minha praia. Agora, uns dez anos mais ou menos depois de tê-lo assistido pela última vez, sem nada em especial para assistir, me deparo com essa paródia na Netflix e, ao saber que ela é protagonizada pelo lendário Leslie Nielsen, decidi dar uma chance para ver se a versão cômica me agradaria mais. E, honestamente, ainda não foi dessa vez.
O famoso violinista Ryan Harrison é condenado à morte pelo assassinato do milionário Hibbing Goodhue, apesar de ser inocente. Durante o transporte para a prisão, um acidente provoca a fuga de Ryan, que passa a ser perseguido pelas autoridades enquanto tenta descobrir quem realmente está por trás do crime. Em meio à fuga, ele se envolve em uma série de situações absurdas e perigosas, enquanto busca provar sua inocência.
O mais interessante de uma comédia que faz paródia de um filme específico é que você consegue observar os momentos exatos que estão sendo parodiados e, obviamente, isso faz com que o humor se destaque mais. Então, ao ver algumas cenas desta versão, imediatamente me lembrava das cenas de 1993, e aí o humor vinha naturalmente. Entretanto, o meu problema com aquele filme é que eu não achava a história interessante o suficiente. Sim, eu sei que ele foi amplamente elogiado, mas comigo não deu certo. Aconteceu basicamente a mesma coisa aqui. Apesar de ter o Nielsen, a história ainda é a mesma, do fugitivo que sai correndo destrambelhado, com a polícia nos seus calcanhares, logo por tabela, eu também não gostei.
Nem todo bom roteirista é um bom diretor, e vice-versa. Aqui, nós temos a condução de Pat Proft, que foi roteirista de uma série de filmes protagonizados pelo Nielsen, em particular da franquia Corra Que a Polícia Vem Aí, mas faltou o timing cômico necessário. Faltou o momento de fazer a piada funcionar na hora certa, de cortar na hora certa. Em muitos momentos, o filme parece bobo e inchado, com piadas que não faziam muito sentido dentro do que estava sendo apresentado. E olha que isso é algo corriqueiro em uma comédia-paródia de humor nonsense igual a esta.
Wrongfully Accused não é reconhecido como pertencente aos grandes clássicos do lendário Leslie Nielsen e, quando você assiste, percebe que é uma produção menor. Entretanto, talvez funcione para quem gosta de humor nonsense, eu até gosto bastante desse tipo, mas admito que, desta vez, não funcionou muito bem comigo. Quem sabe é porque eu estava em um dia não muito propício para esse tipo de humor e ele funcionasse melhor em outra ocasião, em uma revisita. Mas isso aí vai ficar para outro momento.
Confesso que não sou amante desses filmes dos anos 90 de um policial que precisa combater um vilão e provar sua inocência, blá-blá-blá. Nunca fui muito adepto desse tipo de produção, mas, devido a um problema na minha televisão, fui forçado a assistir a alguma coisa aleatória na Netflix e dei de cara com esse filme do Bruce Willis. Decidi dar uma oportunidade e fui esperando absolutamente nada, mas até que não foi tão ruim quanto eu esperava. Apesar de já adiantar: ele é bem fraco.
O detetive Tom Hardy, da polícia de Pittsburgh, é transferido para uma unidade fluvial após denunciar a corrupção de seu primo e parceiro de departamento. Quando uma série de mulheres associadas a Hardy aparece morta no rio, ele suspeita que os crimes estejam ligados a um antigo caso investigado por sua família. Determinado a descobrir a identidade do assassino, ele se envolve novamente na investigação e passa a desconfiar até mesmo de seus próprios colegas.
Meu grande problema com esse filme é que, para mim, parece que ele foi feito de qualquer jeito em todos os sentidos. O roteiro foi escrito e não teve nenhuma revisão, a direção foi entregue nas mãos de um iniciante e os atores não estavam minimamente interessados em fazer alguma coisa minimamente decente. Falando de uma maneira mais vulgar, foi feito à "moda caralha", como se ninguém estivesse se importando com o resultado. Da forma que ficasse, ia ficar, e acabou.
O roteiro não é dos mais bem elaborados, não. Ele é um clichê do policial que se afasta do trabalho e tem que voltar porque um criminoso do passado retorna e está matando pessoas próximas a ele. Tem um envolvimento com a parceira, enfim, é muito básico. O "grande momento", é a revelação da identidade do vilão que, convenhamos, você só pode ter errado o membro, mas era óbvio que pertencia à mesma família. Na sequência, temos a conclusão óbvia no qual o protagonista precisa brilhar, mesmo que em cenas constrangedoras e completamente sem nexo, vide todo o malabarisco que o Bruce Willis faz ALGEMADO.
No campo das atuações, tudo é simplesmente apavorante. O vilão é totalmente exagerado, caricato, histriônico. Até poderia funcionar se isso aqui fosse uma paródia, mas não é. É um filme que você leva a sério, que está querendo fazer um grande drama policial, um grande longa de ação. Aí, quando você tem o Robert Pastorelli gritando, dando chilique e fazendo tudo de uma maneira cartunesca, é impossível permanecer imerso na história. Sua cabeça vai para da trama, e tudo se perde.
Para não dizer que nada aqui é aproveitável, confesso que, mesmo no clichê, o mistério é interessante. Você quer saber por que estão matando aquelas mulheres, quem é o assassino e admito que o roteiro até me surpreendeu ao revelar as circunstâncias da morte do pai do protagonista. Mas são qualidades pontuais, algumas eu diria até mais superficiais, não conseguem anular os problemas existentes no restante da produção.
Para quem quer um filme de ação policial do Bruce Willis dos anos 90, no seu auge, em que ele banca o policial bem durão no combate aos inimigos, talvez seja um prato cheio. Mas, se você procura algo com um pouquinho mais de qualidade cinematográfica, esse aqui não é nem de longe a melhor pedida.
Em Hollywood, é muito comum atores pularem para trás das câmeras e se tornarem diretores. Todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é uma máquina de moer carne, que, quando chega a uma certa idade e a pessoa já não é mais tão jovem, a beleza começa a desaparecer e a tendência é que os papéis importantes vão rareando. Então, nada mais justo que aconteça essa transição, e é graças a isso que nós temos excelentes profissionais que nos presenteiam todos os anos com obras icônicas. Mas também tem casos em que você olha e pensa que seria melhor se essa transição nunca tivesse acontecido. Com CHiPs, foi exatamente isso que eu imaginei.
Jon Baker, um motociclista profissional que decide ingressar na Patrulha Rodoviária da Califórnia, recebe como parceiro Frank “Ponch” Poncherello, um agente federal infiltrado. Enquanto Jon tenta se adaptar ao trabalho e provar seu valor, Ponch investiga uma série de roubos cometidos por um grupo de criminosos que pode ter ligações com policiais corruptos. Os dois, apesar das personalidades e objetivos diferentes, precisam trabalhar juntos para descobrir a identidade dos responsáveis e impedir que o esquema continue.
Tem certos humores que são peculiares, funcionam para determinadas pessoas e para outras não. Eu, particularmente, adoro um humor mais satírico, mais debochado, humor negro, vamos dizer assim. Há quem goste de comédia escrachada, pastelão, que é o que encontramos aqui. Que, comigo, não funcionou de maneira alguma. O timing cômico do Dax Shepard é pavoroso. As cenas são construídas com base em humor de quinta série, infantil e bobo, criando constrangimento. Mas não é daqueles estilos como The Office (2005-2013), em que você ri de nervoso. Não, é daqueles em que você procura um buraco para enfiar a cara.
O elenco reunido aqui é bom, mas, com um roteiro tão fraco, morto não tem condição de se sustentar nenhum personagem. Eu não conheço a série-mãe que deu origem ao filme, mas, se era intenção despertar interesse para buscar o material original, fracassou vergonhosamente, porque tudo o que eu fiquei foi com vontade de nunca mais ver nada relacionado a essa franquia na face da Terra.
Com a direção fraca, que picotou o filme inteiro na montagem, e um roteiro sem graça, CHiPs deixa a pior impressão possível. É daqueles que você não quer nem lembrar que um dia assistiu. O gênero do humor é um dos mais difíceis do cinema. Não é fácil fazer rir: para cada um bom e engraçado, tem 200 horripilantes, e este aqui, com toda a certeza, caiu no grupo dos 200. Quando eu vir o Dax Shepard, acho que vai ser impossível não lembrar do mal-estar que esse personagem dele me causou assistindo a esse filme.
SELMA Direção: Ava DuVernay Ano: 2014 Assistido em: 12/09/2026
A luta pelos direitos civis na década de 1960 é um dos pontos mais instigantes de todo o século XX. Era extremamente absurda a contradição de os Estados Unidos alegarem estar protegendo o planeta do comunismo, mandando jovens para serem mortos no Vietnã e financiando golpes de Estado na América Latina, enquanto negros eram brutalmente violentados, abusados e agredidos em seu próprio território. Estou concluindo a trilogia O Século, do Ken Follett, e ele dedica muito tempo do terceiro livro tratando desse assunto. Por isso decidi ir atrás de Selma, que foi indicado ao Oscar em 2014, mas que eu não havia tido a oportunidade de conferir, e me arrependi muito de ter demorado tanto tempo para assisti-lo, porque é um filme de fato muito bom.
Em 1965, Martin Luther King Jr. e outros líderes dos direitos civis concentram seus esforços em Selma, no Alabama, para garantir o direito de voto à população negra. Diante da violência e da repressão das autoridades locais, o movimento organiza uma série de protestos e marchas, incluindo a tentativa de atravessar a ponte Edmund Pettus rumo a Montgomery. A mobilização coloca a questão do direito ao voto no centro do debate nacional e aumenta a pressão sobre o presidente Lyndon B. Johnson para aprovar uma nova legislação de direitos civis.
Eu tenho problemas muito sérios com figuras históricas muito pacifistas. Eu admiro muito Martin Luther King, a postura dele, a vontade, a forma como ele nunca se deixou abater, mas eu confesso que, caso eu fosse um homem negro com idade para ter engajamento na causa lá nos anos 60, eu provavelmente ficaria do lado de Malcolm X. Eu não consigo conceber essa ideia de dar a outra face. Eu sou muito reativo, eu sei que muitas vezes essa não é a maneira mais adequada, mas não consigo compreender como aquelas pessoas podiam sofrer as maiores barbaridades sem poder fazer nada para revidar. Entendo toda a política do King, entendo que, com toda certeza, haveria uma retaliação muito grande, mas não existe mudança sem sofrimento, e sou daqueles que acredita que, caso os negros tivessem se imposto de uma forma mais radical há mais tempo, as mudanças teriam vindo mais rapidamente.
Cada conquista desse período era obtida com muito sofrimento, com muito derramamento de sangue e com vítimas. A marcha de Selma foi uma forma de pressionar Lyndon Johnson para ele fazer o mínimo. Algo muito interessante, que é bem retratado no filme, é que a Lei dos Direitos Civis idealizada pelo Kennedy foi promulgada no ano anterior pelo Johnson e, como bem diz o desgraçado do George Wallace, os negros tinham que se dar por satisfeitos. No sul dos Estados Unidos, essas leis eram amplamente desrespeitadas, logo a marcha foi importante porque mostrou ao mundo o que de fato estava acontecendo nos Estados Unidos.
Selma tem um registro histórico muito bom, mas ele falha em alguns pontos. Eu, por exemplo, nunca gostei de idealizar figura nenhuma, e muito menos dessa idolatria que existe pelo King, não só por ele, como por qualquer outro nome importante. Sim, ele fez muitas coisas boas, mas também era uma pessoa muito falha, então essa grande dependência que as pessoas tinham dele e a forma como é retratado no filme, quase que como uma idolatria, me incomoda bastante. Bom, outro detalhe é que o roteiro dá a entender que Lyndon Johnson resolveu finalmente assinar a lei por conta de uma conversa que ele teve com King, e quem busca saber um pouquinho de história sabe que Johnson tinha um sentimento de inferioridade muito grande porque ele era uma pessoa de origem humilde, vinda do Texas. Ele não era da elite norte-americana, como, por exemplo, seu antecessor Kennedy. Então, tudo que ele fez foi movido pelo ego. Ele queria entrar para a história como o presidente que finalmente resolveu a questão da segregação racial nos Estados Unidos, e não por conta de discursozinho bonitinho do King.
Do ponto de vista artístico e técnico, Ava DuVernay faz um trabalho muito competente. Os atores estão muito bem em cena, a direção é segura, os figurinos e os cenários são tudo muito bem recriados. Não tem nada que soe falso, tudo parece, de fato, uma produção da década de 1960. O elenco não tem ninguém que se destaque mais do que os demais. Todos estão bem, mas não há nenhuma atuação fora da curva. Outro destaque muito importante é a excelente “Glory”. Quando essa música venceu o Oscar de Melhor Canção Original, eu não gostei muito, não achava ela muito boa, mas, com o passar dos anos, fui mudando de opinião e hoje em dia consigo reconhecê-la como uma excelente canção.
Selma é muito bom nas suas duas funções. Ele funciona muito bem como um grande filme e serve para nos ensinar um pouquinho mais da situação política dos Estados Unidos e do cenário global da década de 1960. Entretanto, eu acho que é sempre preciso um complemento, é sempre interessante buscar um pouquinho mais de informações. Não que o que o filme nos forneça não seja de qualidade, não é isso. Só que toda arte é enviesada pelos olhos do seu artista, e eu creio que, se seus personagens tivessem um pouco menos desse verniz que suaviza as personagens, ele funcionaria ainda melhor do que já funciona.
ROSE OF NEVADA Direção: Mark Jenkin Ano: 2025 Assistido em: 07/09/2026
Eu cheguei num ponto em que não procuro muita coisa para me convencer a assistir a um filme. Eu não leio sinopse, não assisto trailer. A única coisa que acompanho religiosamente são notícias. Então, quando vi uma notícia sobre essa produção com viagem temporal, com dois atores de que eu gosto como protagonistas, eu já estava convencido. Não precisava de mais nada para assistir. Entretanto, admito que esse método pode fazer com que eu assista a grandes projetos e a grandes fracassos também. Com Rose of Nevada, eu senti que ele ficou no meio do caminho, sem conseguir ir nem para um lado nem para o outro.
Em uma esquecida vila de pescadores na Cornualha, um barco desaparecido há trinta anos, o Rose of Nevada, surge misteriosamente no antigo porto. Para os moradores, seu retorno pode ser um sinal de que a sorte da comunidade, devastada pelo declínio econômico, finalmente está prestes a mudar. Nick, um jovem pai que precisa sustentar sua família, e Liam, um recém-chegado tentando escapar do próprio passado, embarcam na embarcação. Depois de uma viagem bem-sucedida, porém, eles retornam ao porto e descobrem que algo inexplicável aconteceu: foram transportados trinta anos para o passado e são recebidos pelos moradores como se fossem os membros originais da tripulação desaparecida.
O grande problema deste filme, está no roteiro, que, convenhamos, é confuso, arrastado e tem pouquíssimas curvas dramáticas. A história é boa e poderia render grandes momentos de tensão e conflito, mas não é isso o que o roteiro entrega. Nós temos dois protagonistas: enquanto um tenta desesperadamente voltar para o tempo presente, o outro se acostuma muito depressa e vai se adaptando. Mas a forma como eles mostram isso é muito fraca, dando a impressão de que nada está acontecendo de fato, de que a história não está andando, ela está parada no tempo. O que é até curioso, já que, por mais que o Nick tente, ele não consegue sair do lugar, não consegue voltar ao tempo presente.
Como o roteiro não colabora, eu tive que me apegar a outros critérios. Por exemplo, a fotografia é fantástica. A forma como eles emulam uma filmagem antiga, dando uma estética similar à de uma filmagem caseira de 1993, deixa o filme muito gostoso de se assistir. O formato da tela, que não é widescreen, é 4:3. A atuação é muito boa. Eu gosto demais do George MacKay, ele segura grandes momentos dramáticos, e eu também gosto bastante do Callum Turner. O problema é que, como eu já falei antes, o roteiro não dá nenhum grande material para eles trabalharem. Todas as cenas-chave deveriam ser intensas, interessantes, mas são sem vida. Nós temos o protagonista gritando na cara de duas pessoas que ele não é o filho que elas estão acreditando que seja, e você não sente nada. Nós temos o outro brincando de casinha, fingindo ser o pai de uma criança, e também não diz nada.
Rose of Nevada está mais para uma boa ideia do que para um bom filme. Aliás, a quantidade de bomba que nasce de uma boa ideia não está no gibi. É preciso ter uma boa execução e, por mais que o longa não esteja em um nível mais elevado, ele ainda é interessante. Você ainda consegue ficar curioso para saber quais serão os desdobramentos da história e se mantém preso para descobrir o que vai acontecer, mesmo que o resultado final não seja exatamente aquilo que você esperava ou aquilo que você gostaria de fato de assistir.
SNAKE EYES: G.I. JOE ORIGINS Direção: Robert Schwentke Ano: 2021 Assistido em: 07/09/2026
Honestamente, eu fico me perguntando qual é a tara que os americanos têm com G.I. Joe. Eu sei que até trouxeram a animação aqui para o Brasil e que os bonequinhos eram bem vendidos lá nos anos 80, mas eu sou dos anos 90 e, para minha geração essa marca nunca quis dizer nada. Só conheci mesmo pelos filmes e, como todos são bem fracos, fico me perguntando para quem eles fazem esse tipo de produção, porque até agora não consegui entender.
Após anos procurando pelo homem responsável pela morte de seu pai, Snake Eyes finalmente o encontra e recebe a chance de se vingar. Porém, ao salvar a vida de Tommy Arashikage, herdeiro de um poderoso clã ninja japonês, ele é levado ao Japão e acolhido pelo grupo, onde começa a ser treinado para se tornar um guerreiro. Enquanto tenta conquistar a confiança de seus novos aliados, Snake Eyes se vê dividido entre a promessa de vingança que o guiou por toda a vida e os valores de honra e lealdade ensinados pelo clã.
Nós vivemos numa era tão desgraçada do cinema que tudo hoje em dia é spin-off, sequência, remake... E, quando decidiram fazer essa prequel contando a história do Snake Eyes, eu só fiquei me perguntando: para quê? Ele é um personagem visualmente legal. Aquela roupa toda preta, ele não fala, a gente não sabe nada dele. Quando chega, chega descendo a porrada em todo mundo. Ele é aquele tipo de personagem que, quanto menos você souber, melhor.
Mas, já que fizeram um filme, que ao menos fizessem uma história interessante, o que não é o caso aqui. O roteiro é rocambolesco, clichê, é traição em cima de traição, é uma pataquada de uns testes sem graça. A cena das anacondas até poderia ser boa, mas é tudo tão escuro e tão mal executado que uma sequência conceitualmente interessante acaba ficando boba durante a execução.
Eu cheguei aqui ao menos esperando encontrar boas sequências de luta, uma boa coordenação de dublês, mas não tem nada disso. Outro problema é o Harry Goodwin, que tem o carisma de uma parede. Nós temos no elenco Andrew Koji que, além de um bom ator, é um artista marcial sensacional. Ele funcionaria muito melhor como protagonista, mas, pelo menos aqui, colocaram-no como vilão. O Storm Shadow, que, honestamente, eu sempre achei muito mais interessante que o próprio Snake Eyes.
Esse filme foi uma tentativa de Hollywood de retomar uma franquia que, lá no finalzinho dos anos 2000, deu umas batidas de asa, mas que nunca decolou. E o mais interessante é que, atualmente, a Hasbro está tentando colar G.I. Joe nos Transformers, que, por si só, já foram gigantescos, mas que nos cinemas atualmente respiram por aparelhos. Seria um aleijado se escorando em outro. Mas eu tenho para mim que isso nunca vai sair do papel e creio que essa saga deveria ficar presa lá nos anos 80, quando ela era relevante. Hoje em dia, honestamente, isso aí já não diz mais nada, só os executivos insistem em não ver.
Eu tenho para mim que o maior crime que um filme pode cometer não é ele ser ruim, é ele ser qualquer coisa. É ser esquecível, ser qualquer nota. Porque o filme ruim, um verdadeiro desastre, mas te marca de alguma forma: te faz perder a paciência, te faz querer bufar de raiva, enfim, te provoca algum sentimento. E, quando você se depara com um que nem isso consegue fazer, a frustração é pior. É aquele sentimento de que você se envolveu, se entregou, e não recebeu nada em troca. E foi exatamente isso que eu senti assistindo a isso aqui.
Após perder a esposa e a filha em um acidente aéreo causado por um erro de controle de tráfego, Roman Melnyk fica devastado. Quando percebe que o responsável pela tragédia continua vivendo sua própria vida, Roman passa a ser consumido pelo luto e pela necessidade de encontrar algum tipo de justiça, colocando-o em uma trajetória marcada por dor, ressentimento e vingança.
Quando eu li a sinopse, achei a história extremamente interessante, uma proposta diferente. O Arnold Schwarzenegger já estava bem mais velho, então não seria um daqueles longas que ele estava acostumado a fazer na juventude, do exército do homem solitário em busca de vingança e tal. Mas eu não imaginava que fosse encontrar uma coisa tão insípida, tão sem graça.
A parte mais interessante da obra justamente está no personagem do Scott McNairy e na repercussão que o erro dele causou, desde as pressões psicológicas até as pressões sociais. Mas isso não é bem explorado. É tudo feito de uma maneira insípida.
A fotografia é cinzenta e combina com o roteiro, que não é preto nem branco, não é 8 ou 80, ele é cinza. Ele é uma coisa, uma massa sem forma. E foi isso que me impediu de gostar, porque ele não é intenso. Uma história como esta poderia ser um drama fenomenal, que nos levasse a discutir, que nos levasse a entender melhor quais seriam as repercussões que um acidente como este teria caso acontecesse na vida real, já que o filme é levemente inspirado em uma história real. Mas roteiro e direção não querem se comprometer com nada, e aí acaba resultando em uma coisa sem vida.
Aftermath é daqueles filmes que eu coloco na prateleira de que você não vai se esquecer da história dele, você vai se esquecer de sequer tê-lo assistido. É o tipo de produção que implode imediatamente na parte do cérebro que guarda as nossas memórias, porque não tem uma cena minimamente memorável. Eu mesmo cochilei e lutei contra o sono durante uma hora e meia e, o filme não me ajudava a resistir. E isso é o que torna tudo mais desmotivante no final.
DOCTOR ZHIVAGO Direção: David Lean Ano: 1965 Assistido em: 05/09/2026
Desde março, estou vivendo quase que um caso de hiperfoco na história russa, muito devido ao fato de estar lendo algumas obras icônicas do Ken Follett. E, quando li uma biografia do meu diretor favorito da vida, Christopher Nolasn, descobri que este é um dos longas mais influentes no trabalho dele. Então, decidi que era hora de juntar o útil ao agradável e conhecer esse grande clássico dos anos 60. Mas é aquela história: não é porque é clássico que obrigatoriamente você vai morrer de amores.
Durante a Revolução Russa e a Guerra Civil, o médico e poeta Yuri Zhivago tenta sobreviver às profundas transformações políticas e sociais que devastam a Rússia. Casado com Tonya, ele acaba se envolvendo com Lara, uma enfermeira por quem desenvolve uma paixão intensa, enquanto os conflitos ao seu redor tornam cada vez mais difícil preservar sua família, seus ideais e sua própria vida.
Eu vou começar falando daquilo que não me agradou na obra porque vai ser mais fácil, já que o problema se concentra em apenas dois pontos: primeiro, nos personagens; segundo, no ritmo. Sobre os personagens, a melhor definição que eu consigo achar é que eles são tão carismáticos quanto um muro chapiscado. Honestamente, eu não gostei de ninguém. Nenhum me convenceu, eu não fui encantado por eles. O protagonista é apático, não tem atitude, é simplesmente carregado pelas situações da vida. Honestamente, eu não morro de amores por pessoas que são adúlteras, independentemente do contexto ou da situação, então o Yuri foi alguém que praticamente foi muito maçante de acompanhar. Os demais personagens, esses aí então, pioraram. A mais simpática de todos é a Lara, mas, ainda assim, a questão do adultério me pega demais e não dá para torcer para os dois.
O ponto do ritmo e edição também fica complicado. São 3h20 de duração nada dinâmicos: tudo é arrastado. E olha que ele tem assuntos extremamente relevantes e que, como eu disse, têm minha total atenção, como as revoluções de 1917, a Guerra Civil Russa, todo o contexto geopolítico entre o fim do Império Russo e a ascensão da União Soviética e o estado de caos que se instaurou nos cinco anos entre uma coisa e outra. Ainda assim, é tudo muito devagar. A história se arrasta e, como eu disse lá em cima, os protagonistas não são muito agradáveis. Tudo isso torna a experiência de assistir a Doctor Zhivago bastante enfadonha.
Mas, deixando de lado essa parte, o restante do trabalho é um espetáculo com letras garrafais. A direção é muito boa, os atores em cena são lendários. Por mais que eu ache o Yuri uma água de salchica, é inegável o talento de Omar Sharif, assim como o de Geraldine Chaplin, o da Julie Christie e, é claro, o do lendário Alec Guinness, mesmo ele apareca pouco.
Outro detalhe que faz o queixo cair é a fotografia linda. Ela usa muito bem os cenários, dando uma impressão de grandiosidade à história. A produção, os cenários e os figurinos nos fazem acreditar que estamos mesmo na Rússia do princípio do século XX. A trilha sonora é forte, é marcante, não passa despercebida. Você entende perfeitamente de onde vem o fascínio do Nolan por essa produção, porque, artisticamente falando, é delicioso de observar. É uma pena, infelizmente, que a história não acompanhe.
Para mim, Doctor Zhivago vai ser daqueles filmes de que eu sempre vou me lembrar quando precisar de um exemplo de produção que você consegue reconhecer que é muito caprichada, que foi muito bem feita, mas que, ainda assim, não conseguiu te cativar. Um filme que é justamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos e que tem todos os elementos para isso. Então, não é daqueles que vai me fazer perguntar: “O que diabos os críticos viram nisso?”. Não, muito pelo contrário. É daqueles que eu tenho a mais absoluta certeza de que, ao longo dos anos, vou querer rever. Quem sabe, em outro dia, em outro momento, com outra cabeça, ele consiga se comunicar comigo de uma forma diferente da que foi no dia de hoje.
THE VEIL Direção: Brent Ryan Green Ano: 2017 Assistido em: 30/08/2026
Quando eu era criança, lá nos anos 90, a única maneira de assistir a certos filmes era pela televisão, e eu sempre reparava que os grandes blockbusters, os grandes sucessos, estavam na Globo. Os menores iam parar no SBT. A Record pegava aquele resto de filmes muito antigos cujas emissoras principais já haviam perdido os direitos, e para a Band sobravam aqueles produzidos diretamente para VHS/DVD que não podiam nem ser chamados de classe B, pois eram fracos demais para essa classificação. Quando terminei de assistir The Veil, tive a sensação de ter acabado de presenciar uma daquelas sessões de cinema daquela época.
Em um mundo devastado por guerras, um guerreiro é traído e abandonado à própria sorte. Depois de ser salvo por uma misteriosa princesa, ele é acolhido por uma tribo que acredita que sua chegada está ligada a uma antiga profecia. Enquanto recupera suas forças, ele precisa decidir se está disposto a liderar aquele povo contra seus inimigos.
Existe uma teoria cinematográfica que diz que, para fazer um bom filme, não é necessário ter dinheiro: só é preciso ter uma câmera e talento. Ao longo dos anos, tivemos diversas confirmações dessa regra. Foi assim com Mad Max (1979), foi assim com A Bruxa de Blair (1999) e, mais recentemente, com Obsessão (2025). Portanto, orçamento não é desculpa, mas você precisa saber o que quer fazer e, principalmente, como fazer. A partir do momento em que você se propõe a fazer uma fantasia medieval, precisa entender suas limitações. O problema é que este filme não entendeu isso. Em alguns momentos, ele me lembrou episódios de Power Rangers ou de séries da CW. Mas aí eu dou até um desconto para essas séries, porque elas não têm orçamento de cinema e nem a pretensão de serem exibidas em tela grande.
As atuações são simplesmente sofríveis, mas eu não vou julgar os atores, até porque há gente de quem eu gosto bastante aí no meio, como William Levy, William Moseley e Serinda Swan. Nenhum deles, porém, vai conseguir entregar uma boa performance quando a base é simplesmente tenebrosa. Nenhum personagem tem um bom desenvolvimento, nenhum é bem escrito e todos só servem momentaneamente às necessidades do roteiro (aliás, que roteiro?). São tão profundos quanto uma poça d'água depois de uma chuva.
Tudo aqui é precário. Os figurinos são feitos à base de couro, como se o figurinista tivesse algum tipo de fetiche com esse material. A fotografia é péssima, os ângulos não criam nada de bonito, tudo é feio. Os cenários parecem feitos de papelão, daqueles de produção escolar. Resumindo: é tudo pavoroso, asqueroso, para não dizer uma palavra mais forte.
Este é um dos piores filmes que já vi na minha vida, e olha que já vi muita coisa ruim. Nada aqui funciona. Vou dar meia estrela pelo elenco masculino ser cheio de homens bonitos, mas, quando esse é o único ponto positivo que consigo encontrar em uma produção, é porque a coisa está muito feia.
Eu lembro que, lá em 2018, quando fiquei sabendo do lançamento desse filme, fiquei bastante animado, porque ele seria o primeiro longa-metragem produzido pela Eon que não pertencia ao universo de James Bond em décadas de atuação na área cinematográfica. Ele entrou na minha lista de produções para assistir no cinema em 2019, mas acabou sendo adiado, adiado novamente e finalmente desovado no começo de 2020. Não veio para a minha cidade e eu perdi completamente o interesse, até que, ao revisar uma lista de pendências no IMDb, me deparei com ele e decidi que era hora de corrigir essa pendência. Agora, a sensação que fica é que talvez tivesse sido melhor não ter ido atrás.
Após perder a família em um acidente aéreo, Stephanie Patrick descobre que a tragédia foi, na verdade, um atentado. Consumida pelo desejo de vingança, ela é treinada por um ex-agente do MI6 para assumir diferentes identidades e perseguir os responsáveis, transformando-se em uma assassina determinada a descobrir toda a verdade.
Lendo um pouco sobre os bastidores, descobrimos que houve uma verdadeira batalha pelo controle da narrativa, com estúdio, protagonista e diretora querendo um filme de ação mais tradicional, enquanto os produtores defendiam algo mais slow burn. Não sou contrário a uma narrativa mais cadenciada e até prefiro histórias que apresentem melhor seus personagens antes de partir para a ação. O problema é que, para isso funcionar, é necessário existir alguma profundidade nesses personagens, algo que os torne interessantes. E aqui não há nada disso. Se tirarmos o fato de a família da protagonista ter morrido em um acidente de avião, Stephanie praticamente se desfaz: não sobra muita coisa.
Eu entendo que, para Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, fazer um novo filme simplesmente igual aos de James Bond não seria algo interessante. Seria, em essência, fazer a mesma coisa. Mas, convenhamos: para um filme de espionagem, faltaram cenas realmente interessantes, combates bem coreografados, perseguições mais elaboradas e, enfim, boa parte dos componentes que esperamos desse gênero e que ajudam a manter o público envolvido. A tentativa de fugir do modelo tradicional acabou sacrificando justamente aquilo que poderia tornar a experiência mais divertida.
Não sou o maior fã da Blake Lively, mas reconheço que ela consegue ser uma boa atriz quando recebe material suficiente para trabalhar. O problema é que aqui ela recebe uma personagem completamente insossa e sem graça. Ela ainda conta com o suporte de um Jude Law completamente apático e de um Sterling K. Brown absurdamente subutilizado, sendo que ambos poderiam render muito mais.
No fim, saí desse filme com a impressão de estar diante de um primo pobre de James Bond: aquele que tentou fazer as coisas do seu jeito, tentou seguir por um caminho diferente, mas não apenas não conseguiu fugir das comparações como também não conseguiu provar que esse novo caminho poderia dar certo. Há anos existe na internet uma discussão sobre a possibilidade de reformular 007, seja transformando-o em uma mulher, seja em um homem negro, enfim, fugindo da forma como o personagem foi originalmente concebido. The Rhythm Section poderia ter sido uma resposta interessante para essa discussão, uma espécie de versão feminina do clássico herói de espionagem. No final, porém, parece apenas uma oportunidade desperdiçada.
THE LAST SUNRISE Direção: Carlson Young Ano: 2026 Assistido em: 29/08/2026
Comédias românticas protagonizadas por jovens são a mesma coisa desde que o mundo é mundo. Elas não têm novidade, não têm muita profundidade e, honestamente, só servem para aqueles dias em que você não tem uma opção melhor para assistir. Eu vi o card deste filme no Prime Video, achei os atores bonitos e decidi dar play, só que tudo o que encontrei foi a mesmice ordinária de sempre.
Ry, uma jovem de 22 anos que enfrenta problemas crônicos de saúde e vive sob a proteção excessiva da mãe, sente que sua vida está sendo constantemente adiada. Quando as duas viajam para Maiorca por causa do trabalho da mãe, Ry decide aproveitar a oportunidade para experimentar uma independência que nunca teve. Em uma de suas primeiras aventuras sozinha, ela conhece Julián, um jovem espanhol que vive na ilha e a conduz para experiências completamente novas. À medida que o verão avança, a atração entre os dois cresce e Ry começa a descobrir uma versão de si mesma que desconhecia.
Eu não vou ser hipócrita e dizer que o filme não tem pontos positivos, porque ele tem. O elenco é muito bonito, nós temos cenas de Fernando Lindez sem camisa para ninguém reclamar, e os cenários da Espanha são deslumbrantes. Mas não vai além disso. É basicamente um filme visualmente agradável, porque, quando entra no campo da história, aí não há muito o que ser dito. É o mais do mesmo de sempre, com um dos protagonistas doente, que meio que já desistiu da vida, encontrando um grande amor e ficando naquele esquema meloso de “ah, meu Deus, estou morrendo, mas descobri o grande amor da minha vida, e por isso vou deixar de tomar os meus remédios”, algo que a gente já viu um milhão de vezes.
Tecnicamente falando, não há muito que ser dito. É aquela atuação básica de atores, não temos nenhum grande personagem, então nem é preciso esperar algo digno de Oscar ou nada disso. A trilha sonora é apagada e não há nenhum grande destaque em edição, e direção. O ritmo funciona para o que é uma comédia romântica, ou seja, tudo segue no compasso correto, da antipatia inicial entre os personagens até o momento em que eles vão se apaixonando. Enfim, é uma repetição do que já vimos ao longo de muitos e muitos anos.
Nos últimos tempos, estamos presenciando um boom de adaptações de literatura jovem e romântica. Algumas são boas, outras nem tanto. The Last Sunrise cai no grupo das nem tanto. Não é algo que vai ofender a inteligência de ninguém, mas também não vai ser escolhido como o filme favorito de ninguém. Ele é daqueles que você assiste hoje e amanhã já esqueceu, não da história, mas de ter assistido.
CHAPLIN Direção: Richard Attenborough Ano: 1992 Assistido em: 29/08/2026
Se fizessem uma votação hoje, e tivéssemos que escolher o maior gênio da história do cinema, meu voto, com absoluta certeza, iria para Charles Chaplin. Ele jogava em outro nível. Não foi apenas um ator de extrema importância e de talento inquestionável. Não, o homem foi um pioneiro em todos os sentidos. Ele era um diretor excepcional, um roteirista brilhante, um empresário talentosíssimo que brigou contra o sistema e a indústria de Hollywood quando Hollywood ainda estava se formando. Era também um músico talentosíssimo, um bailarino e acrobata além do normal. Enfim, ele era o que podemos chamar de fora da curva. Um filme que conseguisse retratar todas as facetas dessa figura, ao mesmo tempo em que não deixasse de lado suas polêmicas, era um desafio muito grande de ser realizado, mas eu confesso que gostei muito daquilo que vi.
A vida de Charles Chaplin começa em meio à extrema pobreza da Londres do início do século XX, mas seu talento para a comédia o leva dos palcos ingleses aos Estados Unidos, onde rapidamente se transforma em uma das figuras mais populares do mundo. Por trás do personagem irreverente que conquista milhões de pessoas, porém, existe um homem ambicioso, perfeccionista e marcado por relações amorosas conturbadas, conflitos profissionais e controvérsias políticas. Enquanto sua carreira alcança proporções extraordinárias, Chaplin precisa lidar com o preço da fama e com as consequências de suas escolhas pessoais.
A vida de Chaplin não foi nada fácil, principalmente para o filho de uma mãe solo no final do século XIX. Ele foi obrigado, desde muito cedo, a enfrentar uma vida muito difícil, mas, por outro lado, aprendeu e descobriu muito rapidamente o seu grande talento e o quão especial ele era. Infelizmente, o filme tem muita coisa para contar, então nós não temos tempo a perder. A infância de Chaplin é tratada de uma forma muito breve, sendo que existiam muitas coisas a serem abordadas ali. Eu sei que Richard Attenborough seguiu a autobiografia de Charles, e isso acabou prejudicando um pouco a narrativa, já que o próprio ator não era muito afeito a falar sobre algumas passagens. Aliás, este é um problema do filme como um todo, e o maior deles, muitos pontos são trabalhados de uma forma muito rápida, sem que tenham o devido detalhamento necessário, principalmente as polêmicas.
Apesar de Chaplin ser, para mim, a maior figura da história do cinema, eu não nego que o fato de ele se envolver com jovens muito novas é altamente problemático e deplorável, para não dizer outra palavra. Só que eu também não sou adepto do revisionismo histórico ou de ressignificações. Nós não podemos julgar com os olhos do século XXI comportamentos do princípio do século XX, porque, se fizermos isso, não teremos ídolo nenhum. Enfim, eu fico aliviado que pelo menos isso tenha sido retratado em tela. Partindo do pressuposto de que estamos nos baseando em uma autobiografia que contou com o envolvimento direto da família do ator, ver o comportamento dele sendo criticado (não tanto quanto deveria, mas ainda assim criticado), foi impressionante.
Tecnicamente falando, o filme é muito bem trabalhado. Robert Downey Jr. conseguiu entregar uma fisicalidade muito grande, que era obrigatória para interpretar esse personagem. O ator conseguiu se disfarçar muito bem, só que eu não gostei de vê-lo como Chaplin nos anos 60 e 70. Downey era muito jovem em 1992, não tinha nem 30 anos, e interpretar um homem de mais de 80, mesmo com aquela maquiagem bem feita, não me soou tão natural. Os demais atores estão bem em seus papéis, mas, como há muita coisa a cobrir, todos passam muito rapidamente, não dando muito espaço para que ninguém brilhasse com maior intensidade.
Chaplin é daquelas cinebiografias que tentam cobrir toda a vida do personagem e, graças a isso, é um filme apressado. Eu senti que havia espaço para muito mais. Ele tem apenas duas horas e vinte minutos, mas é daqueles que poderiam ter bem mais duração e você não sentiria, porque é uma história tão rica e tão deliciosa de acompanhar que, ao final, a sensação que tive foi de que eu passaria tranquilamente das três horas sem cansar.
É impossível não se emocionar com as cenas finais, quando imagens do verdadeiro Chaplin aparecem naquela homenagem no Oscar de 1972. Aliás, achei o ponto de corte excelente: o momento em que Hollywood meio que pediu perdão a Chaplin pelos anos de perseguição. Foi verdadeiramente encantador.
THE SHADOW EFFECT Direção: Obin Olson e Amariah Olson Ano: 2017 Assistido em: 23/08/2026
Tem filme que, antes mesmo de assistir, você já sabe que vai ser ruim. Você vê atores da série B, vê um diretor desconhecido, um pôster meio duvidoso e é batata. E como o mundo do cinema não se faz apenas de classe A, é preciso dar uma oportunidade para esses títulos inferiores, para ter repertório, para poder reconhecer ainda mais aqueles que são bons. Mas tem uns que só pela misericórdia.
Gabriel Howarth começa a ter sonhos violentos nos quais presencia assassinatos e outros acontecimentos perturbadores. Quando percebe que aquilo que vê durante o sono está de alguma forma relacionado à realidade, ele passa a questionar a própria mente e a descobrir que existe uma força misteriosa por trás de suas experiências.
Esse é daquele tipo de filme que, de tão previsível, se torna irritante. Logo nas primeiras cenas, você já percebe qual vai ser o plot twist. E eu não estou falando isso porque sou muito inteligente, não, longe disso. É porque é tão, mas tão previsível, e o roteiro é tão capenga, tão anêmico, que qualquer um percebe.
Outro ponto que merece ser comentado é a completa falta de sutileza do roteiro. Quando você percebe o que está acontecendo, fica nítido que você está assistindo a uma Laranja Mecânica (1971) às avessas, mas os diretores, não satisfeito, ainda mete uma cena chupada do clássico de Stanley Kubrick, com direito à reprodução idêntica do Tratamento Ludovico. Só que aqui feita sem impacto e sem delicadeza foi como colocar um elefante andando dentro de uma sala de estar.
E sobre o plot twist depois do plot twist, eu só gostaria de parabenizar quem teve uma ideia tão imbecil como essa. É como se o filme já não fosse uma ficção científica suficiente apenas com a questão das memórias; ainda inventaram de enfiar clonagem no meio. De fato, não é qualquer um que consegue ter tantas ideias cretinas juntas ao mesmo tempo.
Sobre o elenco, o pobre Cam Gigandet só faz o filme ruim, então até aí, sem novidades. Jonathan Rhys Meyers é muito bom, mas fez péssimas escolhas ao longo dos anos, e o Michael Biehn, infelizmente, perdeu tudo na virada dos anos 80 e, desde então, também só aparece nesse tipo de bomba genérica.
Completamente cansativo, frustrante e desgastante. A direção é tão abaixo incapaz de criar algo interessante, que 1h40min parecem 5h. The Shadow Effect não valoriza a experiência cinematográfica em nada, porque, até para ser ruim, é preciso ter um pouquinho de qualidade, e até nisso ele ficou devendo.
FALLEN Direção: Scott Hicks Ano: 2016 Assistido em: 23/08/2026
O final dos anos 2000 e o comecinho dos anos 2010 foram um terreno fértil para adaptações literárias com foco no público juvenil. E tudo isso graças ao enorme sucesso, principalmente, de Harry Potter e, posteriormente, de Crepúsculo e Jogos Vorazes. Entretanto, pouquíssimos, para não dizer mais nenhum, conseguiram um sucesso parecido com o destes exemplos. Quando Fallen chegou à festa, ela já tinha acabado. Ele passou completamente despercebido, mas, com um resultado como o apresentado, eu acredito que isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com todos os envolvidos, já que o que temos aqui é claramente um caso capaz de destruir carreiras.
Após ser enviada para um reformatório por causa de um incidente misterioso, Luce Price se vê envolvida em uma atmosfera estranha e começa a se sentir inexplicavelmente atraída por Daniel, um jovem reservado que parece esconder um segredo. Enquanto tenta entender as estranhas visões que a perseguem, Luce descobre que sua vida está ligada a uma antiga e sobrenatural disputa.
Quando tudo terminou, a única coisa que vinha à minha cabeça era que talvez ele tivesse feito muito sucesso caso fosse lançado dez anos antes, lá pelos idos de 2006 ou 2007, porque claramente é um filme perdido no tempo e no espaço. Tudo nele está ultrapassado: os visuais, a fotografia, o perfil dos personagens. É tudo fora do seu habitat natural. Em 2016, histórias assim já não faziam sentido, já não faziam sucesso, então qual o sentido de lançar isso?
A mitologia apresentada é uma bomba quase atômica. Até onde vai o meu parco conhecimento, anjos caídos são aqueles que apoiaram Lúcifer, mas aqui eles são os que ficaram em cima do muro. Ok, não faz muito sentido, mas, se fosse explorado de uma maneira interessante... Mas não, não é. É tudo muito superficial. Você não sabe nada sobre eles, apenas que caíram na Terra, são imortais e têm umas asas horrorosas que me lembraram bastante uma versão inferior das usadas no Clube das Winx.
Direção tenebrosa, fotografia escura pra caramba, que não deixa você enxergar nada direito em muitos momentos, e atuações horripilantes. Eu me pergunto o que a Joely Richardson estava fazendo nisso. E o Jeremy Irvine coitado, estreou no cinema em grande estilo, sendo protagonista do Steven Spielberg, e pouco tempo depois estava estrelando essa bomba. Enfim, é difícil encontrar pontos positivos nisso aqui, mas eu vou destacar que eu ri em algumas situações com o quão boba e frágil é essa história, como todo o ato final, só para citar um exemplo, eles dizendo que Lucifer viria buscar a protagonista foi para gargalhar alto.
Sem absolutamente nenhuma curva narrativa interessante, sem nenhum drama forte, Fallen é fraco, fraco, fraco. Ele é esquecível e ruim mesmo dentre os esquecíveis e ruins. O que é uma grande tristeza, porque o dinheiro investido nisso aí poderia facilmente bancar algum outro projeto independente muito mais interessante. Mas eu pelo menos fico feliz, por um lado, que fracassos como esse foram decisivos para enterrar de vez essas tentativas que Hollywood tanto insistiu em fazer para tentar encontrar seu novo grande sucesso da fantasia infantojuvenil.
LUCKY STRIKE Direção: Rod Lurie Ano: 2026 Assistido em: 22/08/2026
Como um apaixonado por história e um viciado na Segunda Guerra Mundial, eu ouço há anos falar sobre a grande Batalha das Ardenas (1944-1945), esse conflito em que o exército nazista deu seus últimos suspiros de resistência e que, a partir dali, seria massacrado sem poder fazer muita coisa. Um momento de extrema importância, de extrema relevância dentro do conflito, e tudo que envolve ele eu sempre gosto de ler, de conhecer. O auge foi na minissérie Band of Brothers (2001), e, quando fiquei sabendo deste filme, fiquei animado para assistir. Só que eu não imaginava que seria apenas os mesmos vícios das produções de guerra repetidos, sem nenhum brilho de inovação.
Durante a Batalha das Ardenas, em dezembro de 1944, o capitão americano John Castle sobrevive à destruição de sua unidade e fica isolado atrás das linhas alemãs. Ferido e equipado apenas com seu treinamento e um rádio, ele recebe instruções para percorrer cerca de 30 quilômetros até reencontrar as forças americanas. Enquanto atravessa as Ardenas em pleno inverno, Castle precisa evitar patrulhas alemãs, lidar com seus ferimentos e usar o rádio para transmitir informações importantes sobre os movimentos inimigos. A cada quilômetro, sua sobrevivência depende de encontrar maneiras de permanecer escondido enquanto tenta alcançar as linhas aliadas.
Meu problema com o filme é que eu cheguei esperando por algo minimamente próximo do que eu tinha visto na minissérie clássica da HBO, com os conflitos grandes, as lutas, mostrando o quão importante era aquela batalha, o quão decisiva ela era tanto para os Aliados quanto para o Eixo. E não é isso que a gente tem. O que nós temos é o velho arquétipo do soldado com trauma que precisa sobreviver sozinho após ter seu batalhão dizimado, e ele vai passando por dificuldades enquanto tenta voltar a um posto do seu agrupamento. É o que nós já vimos em um milhão de filmes produzidos por Hollywood. Ou seja, não tem nada, não tem um pingo de identidade e inventividade.
O Scott Eastwood herdou a beleza do pai, mas não o talento. Ele é muito fraco, mas eu acho que ele é esforçado. Eu creio que, com a influência certa, dá para sair alguma coisa. Infelizmente, ele não teve essa influência. Seu personagem é terrível de ruim, e todos em volta dele vão pelo mesmo caminho. A direção é insípida, sem vida; a fotografia é cinzenta, sem nada que se destaque; e o roteiro é tão monótono, tão previsível, que só desperta sono.
Muitos vão dizer que o filme é inspirado em uma história real e que pode ter respeitado o que de fato aconteceu. Para mim, isso tudo é balela. Hollywood só respeita histórias reais quando elas já são naturalmente cinematográficas. Quando eles querem, conseguem fazer com que elas soem mais interessantes, e aqui eles não fizeram. Aliás, por mim, eu até preferia que eles não fossem nada leais aos eventos históricos e, no lugar disso, pegassem pelo menos a história e fizessem um roteiro interessante. Não aconteceu.
Muitas pessoas amam filmes de guerra, amam conflitos, amam as cenas de troca de tiros. Eu, por outro lado, gosto mais dos bastidores, gosto mais dos detalhes. Eu esperava encontra isso, mas Lucky Strike é tão sem graça, tão fraquinho e tedioso. A única coisa que ele me deu foi sono. Eu pesquei algumas vezes enquanto assistia e nem tive interesse de voltar para ver o que perdi, porque a sensação que tive era de que não estava perdendo nada de relevante. Enfim, só espero que, da próxima vez que forem levar a Batalha das Ardenas para as telas, ela seja mais como fizeram no episódio 6 de Band of Brothers do que isso aqui.
YOUNG WASHINGTON Direção: Jon Erwin Ano: 2026 Assistido em: 22/08/2026
Eu gosto muito de conhecer a vida de grandes personalidades históricas e, gostando deles ou não, os presidentes dos Estados Unidos da América são figuras de poder que exercem uma influência absurda no mundo. Sempre achei interessante saber um pouquinho mais sobre eles. Quando tomei conhecimento sobre este filme, eu nem sabia direito do que se tratava. Basicamente, a única informação que eu tinha é que ele iria retratar a juventude de Washington, como o próprio título já entregava, mas eu já estava decidido a assistir. Após conferir o resultado final, a impressão que eu tive é que a ideia foi muito boa, mas o resultado ficou devendo muito.
Aos 21 anos, George Washington começa sua carreira militar durante as tensões entre britânicos e franceses pelo controle do território americano. Enviado à fronteira da Virgínia, ele se envolve no conflito que desencadeará a Guerra Franco-Indígena. Após um confronto desastroso com os franceses, Washington passa a servir sob o comando do general Edward Braddock, participando de uma campanha que termina em uma devastadora derrota britânica. Entre fracassos militares, disputas com seus superiores e experiências no campo de batalha, o jovem oficial começa a desenvolver a liderança e a experiência que futuramente o transformarão em um símbolo do país.
Os americanos têm a mania, o costume, a prática, seja lá o nome que podemos dar a isso, de idolatrar seus políticos, principalmente aqueles que eles chamam de “pais fundadores”. É algo que não existe aqui do nosso lado do continente. Os brasileiros têm verdadeiro horror de muitas de suas figuras de autoridade, então é difícil assistir a um filme onde o protagonista é um pilar de perfeição. Eu até fiquei surpreso que Washington tenha sido retratado como sendo uma pessoa ambiciosa e teimosa ao extremo, e essa teimosia levou a um grande desastre. O pilar moral que eles estavam criando nem combina muito com essas características.
Mas a forma como o roteiro retrata o personagem não me surpreende, já era algo que eu esperava. O que chamou minha atenção aqui mesmo é a direção, que é pavorosamente ruim. A forma como tentam criar tensão, mostrando os rostos desesperados dos homens do futuro presidente esperando por orientação enquanto uma música em tom de desespero sobe, é uma das maneiras mais patéticas e ordinárias de tentar despertar uma emoção no público. O que não acontece. Muito pelo contrário: esse povo todo é tão superficial, tão raso, que não dá para você ter empatia por eles. No final, você pouco se importa com o que está acontecendo ou não.
Eu fiquei bastante surpreso com o elenco, porque todas as atuações são bem ruinzinhas, mas encontrar nomes como Mary-Louise Parker, Ben Kingsley e Andy Serkis em um filme desses só me fez perguntar se eles estavam com algum agiota nas suas colas, se estavam precisando de um troco para poder se livrar do problema, porque é inacreditável como o nível de atuação aqui está baixo. O protagonista, William Franklyn-Miller, é uma gracinha, mas, misericórdia, é uma cara de perdido. De quem não sabe o que está acontecendo.
Para não dizer que é um filme completamente inútil, eu acredito que quem o assistiu em uma sala de cinema pode ter se divertido com as cenas de luta e de batalha, mas, fora isso, ele dá aquela impressão de filme de televisão... Eu até ia dizer um documentário feito pelo History Channel, mas parece mais aquelas subproduções feitas por um Hallmark da vida. Nada se destaca. A trilha sonora é ruim, apagada, sem vida; a fotografia é fria demais, não cria momentos impactantes; a edição é monótona. Enfim, é um filminho bem qualquer nota.
Pelo menos para mim, ele serviu para aprender um pouquinho de história e, como eu sou completamente encantado por conhecer o passado, ainda consegui tirar algum proveito disso tudo. Mas, honestamente, é um filme do qual eu me arrependi muito de ter criado qualquer espécie de expectativa.
A DOG'S PURPOSE Direção: Lasse Hallström Ano: 2017 Assistido em: 16/08/2026
Eu vou confessar uma coisa: quando criança, eu amava filmes de cachorro. Depois de adulto, passei a evitá-los, e não é porque eu não aguento ver cenas dos bichinhos sofrendo, nem nada disso. Apesar de ser apaixonado por eles desde que me entendo por gente e, se pudesse, teria um verdadeiro canil na minha casa, não é por isso que me afastei desse tipo de produção, mas porque os roteiros são tão ruins, tão fracos e tão previsíveis que eu optei por esse afastamento. Porém, quando li a premissa deste aqui, fiquei interessado, principalmente porque ele me lembrou um dos filmes que eu mais amava quando criança e que era repetido à exaustão na Sessão da Tarde: o clássico (pelo menos no meu coração), Fluke (1995).
Bailey é um cachorro que, após morrer, renasce repetidamente em diferentes corpos caninos ao longo de várias décadas. A cada nova vida, ele conhece pessoas diferentes, experimenta novas relações e desempenha papéis distintos na vida de seus donos. Apesar das mudanças, Bailey mantém uma espécie de consciência de suas existências anteriores e começa a perceber que cada uma delas possui um propósito, especialmente sua ligação com Ethan, o garoto que se torna seu primeiro e mais importante companheiro.
Como disse, este filme me lembrou muito Fluke, só que, diferentemente do longa dos anos 90, aqui não é um ser humano que reencarna em um cachorro, mas sim um cãozinho que vai reencarnando, e nós vamos acompanhando cada uma das interações que ele tem com os seres humanos. Aí vai da crença de cada um: se você for adepto do kardecismo ou do hinduísmo e acredita em reencarnação, talvez essa premissa faça ainda mais sentido para você. Mas não estamos aqui para falar sobre isso, mas sobre o filme. E aí está o problema dessa história: apesar de ter uma ideia interessante, a execução dela é uma tristeza.
O maior problema está na montagem. Ele não tem nenhum primor de roteiro; é o básico, aquela água com açúcar que sempre me manteve afastado dos filmes de cachorro. Mas o problema é que o ritmo é terrível. É muito truncado e, em alguns momentos, extremamente cansativo. Há uma hora em que a história fica particularmente arrastada, principalmente nas cenas da fazenda. Cheguei a me perguntar quando esse cachorro finalmente iria morrer, desencarnar e partir para a próxima vida, porque aquela estava muito chata. Muito chata mesmo.
E assim nós vamos seguindo, presos a uma previsibilidade que não dá ao roteiro qualquer espaço para escapar do óbvio. O longa tenta o tempo todo nos fazer chorar, mas trabalha com uma emoção falha, que não parece verdadeira. Eu admito que fiquei muito sensibilizado com todas as cenas de morte, porque qualquer pessoa que já perdeu um animalzinho sabe que essa é uma das piores experiências da vida. Mas, fora isso, não houve nada aqui que me fizesse de fato ficar impressionado.
O fato de enxergarmos tudo pelo olhar do cãozinho Bailey torna muitas coisas no roteiro problemáticas. Por exemplo, a transformação dos personagens é extremamente abrupta. Em determinado momento, o pai do protagonista é um homem tranquilo; logo depois, descobrimos que o cara já é um alcoólatra, colocando a família em risco. E o que aconteceu com o garoto responsável pelo incêndio? Nada disso é devidamente esclarecido porque estamos presos à visão do cãozinho. Mas um bom roteiro poderia resolver essa situação. O problema é que nós não temos um bom roteiro.
Tirando o fato de que o título brasileiro não faz o menor sentido, afinal de contas nós vemos cinco encarnações da vida de Bailey, e não apenas quatro, Quatro Vidas de um Cachorro é uma adaptação que pode funcionar de maneira diferente para pessoas mais sensíveis. Eu entendo que ele possa tocar alguém de uma forma muito particular, mas, honestamente, não me causou nenhum impacto. Assisti, achei interessantes algumas partes, mas, assim que os créditos começaram a subir, eu já tinha deletado muita coisa da minha mente. O resultado final é, acima de tudo, um filme esquecível.
Não sou o cara dos musicais. Não fui acostumado a eles, haja vista que, desde pequeno, sempre fui mais exposto ao cinema realista, de suspense e tensão. A exceção, obviamente, é a era renascentista da Disney, mas essa é uma proposta completamente diferente dos musicais clássicos por se tratar de animações. Como eu não tenho preconceito cinematográfico, mesmo não sendo a minha praia, ainda assisto. E, nesta semana, eu me peguei lendo sobre a vida de Marilyn Monroe e percebi que nunca tinha assistido ao seu primeiro grande sucesso, o filme que a projetou. Decidi, então, que era hora de corrigir essa falha.
Lorelei Lee e Dorothy Shaw são duas cantoras e melhores amigas que trabalham juntas em um clube noturno. Enquanto Dorothy é romântica e procura um homem que realmente a ame, Lorelei está noiva do milionário Gus Esmond, cuja família desaprova o relacionamento por acreditar que ela está interessada apenas no dinheiro. Quando Lorelei embarca com Dorothy em uma viagem de navio rumo à Europa, as duas acabam envolvidas em uma série de situações amorosas, confusões e encontros com homens ricos, enquanto um detetive particular contratado pelo pai de Gus passa a vigiá-las de perto.
Confesso que o musical aqui não me incomodou. Afinal de contas, temos como protagonistas duas performers, duas jovens extremamente bonitas que já cantavam e dançavam no palco. Então, quando elas começam seus números musicais, eu os enxerguei como uma extensão natural de suas personagens. O roteiro não é dos mais complexos: é algo bem simples. Um ponto alto para mim foi o humor e suas sutilezas, principalmente as de Lorelei, personagem da Marilyn Monroe, que, do alto de sua inocência — para não dizer falta de inteligência —, foi capaz de soltar algumas pérolas simples, mas verdadeiramente engraçadas.
Mas, mesmo eu não sendo chegado do gênero é impossível fechar os olhos para Diamonds Are a Girl's Best Friend. Mesmo não sendo o maior fã da música, o número como um todo é um espetáculo, literalmente falando. Marilyn, no auge da beleza e do carisma, com o figurino lendário e uma coreografia muito bem planejada e executada. É impossível chegar 100% limpo para assistir a essa cena porque, mesmo que você nunca tenha visto o filme, provavelmente já assistiu ao clipe Material Girl, da Madonna; à apresentação de Ryan Gosling cantando I'm Just Ken na cerimônia do Oscar; ou a qualquer um dos muitos momentos da cultura pop que foram impactados por essa cena.
Tecnicamente falando, o filme tem todos aqueles trunfos do cinema clássico, que vão desde figurinos e cenários muito bem produzidos até atores com uma dicção excelente e performances que trazem um pouco da energia da época. Mas, até aí, nada fora do normal. A direção também é muito competente, sempre buscando os melhores enquadramentos e ângulos para que o público veja esse espetáculo da forma mais precisa possível.
Os Homens Preferem as Loiras pode não ser comumente citado entre os grandes musicais, pelo menos não entre os maiores, mas, sem sombra de dúvidas, foi um dos que eu mais achei divertido. E, novamente, eu não sou um adepto desse tipo de filme. Mas o mais importante é que consegui me divertir bastante e, ao final, é isso que qualquer pessoa quer de um filme: se divertir, desligar um pouquinho da realidade e simplesmente aproveitar aquele momento. Nesse sentido, o objetivo foi atingido com excelência. Então, não tenho nada mais a pontuar.
POWER BALLAD Direção: John Carney Ano: 2026 Assistido em: 15/08/2026
Quem já procurou conhecer minimamente os bastidores do mundo da música sabe que é um universo muito complicado. Acusações de plágio existem aos milhares mundo afora, e conseguir provar esse tipo de coisa é muito difícil. É praticamente impossível lutar contra os colossos do mundo musical. Quando vi que essa era a proposta de Power Ballad, fiquei muito interessado para saber como seria o desdobramento de toda essa história.
Rick é um cantor de casamentos que já viveu dias melhores quando conhece Danny, um antigo astro de boy band cuja carreira também está em decadência. Os dois se aproximam durante uma apresentação e acabam compondo juntos em uma madrugada de música e bebida. Quando Danny transforma uma das canções de Rick em um grande sucesso e consegue recuperar sua própria carreira, Rick se vê deixado de lado e decide lutar pelo reconhecimento que acredita merecer. A busca pela autoria e pelo sucesso, porém, ameaça colocar em risco sua amizade com Danny e tudo aquilo que realmente importa para ele.
O que encontramos aqui é uma história muito simples, muito leve e descompromissada. Eu diria que é um filme que trata tudo de uma maneira muito en passant. Nós temos o Rick sendo roubado pelo Danny, entretanto, a vida dele começa a desandar e, ainda assim, o roteiro em momento algum dá muita profundidade para nada do que está acontecendo. Rick vê sua vida afundar, enquanto o Danny retorna com força total aos holofotes, isso poderia render boas discussões. Mas não era o plano do diretor levar a história para esse lado, então ele trata tudo de uma maneira muito leve, e aí está o problema.
Durante todo o filme fiquei esperando a catarse, um momento de recompensa em que finalmente aquele pobre diabo do Rick provaria que estava correto. Só que esse momento não veio. Ele não teve o apoio da esposa, não teve o apoio da filha — que, aliás, é uma tremenda filha da puta e não merecia a música que foi composta para ela — e, quando finalmente chega o momento de contar a verdade, o filme acaba. Temos apenas uma cenazinha, nos confirmando que as coisas deram certo. Mas eu gostaria de ter visto isso acontecendo. Gostaria de ter visto o Rick provando que estava correto. Gostaria de ter visto o que aconteceu com o Danny. Apesar de sabermos que, no mundo da música, o máximo que poderia ter acontecido seria um acordo e vida que segue, tudo isso não foi mostrado. E aí fica uma sensação de filme incompleto.
Eu não conhecia o trabalho do diretor John Carney, apesar de ele ser muito renomado, mas gostei bastante da direção. Gostei também do roteiro, apesar das falhas, facilidades e muitas conveniências como soluções deus ex-machina. Sou fã do Paul Rudd, sou fã do Nick Jonas e os dois têm uma química muito boa em tela. A música em questão How to Write a Song (Without You) é muito boa, as músicas escolhidas para tocar nos casamentos são clássicos, então é tudo muito gostoso de assistir. É um filme rápido, de uma hora e meia, que não incomoda ninguém. Como foram muito sincero aqui nos comentários: é uma sessão da tarde.
No final, Power Ballad poderia ter sido um grande drama, até mesmo um grande filme de tribunal, mas, por escolhas criativas, tornou-se um filme muito mais leve. Não quiseram pesar o clima. Era o que eu gostaria? Sim. Mas a escolha do seu diretor é soberana. E vendo o resultado, o que importa é que, no fim, foi um bom filme.
FUZE Direção: David Mackenzie Ano: 2025 Assistido em: 15/08/2026
Eu cheguei a uma fase da experiência cinéfila em que atualmente me mantenho completamente afastado de sinopses e trailers. A única coisa de que preciso para assistir a um filme é gostar do diretor, do elenco e de uma ou duas linhas que leio ali no IMDb apresentando muito brevemente a história. É claro que estou cronicamente acompanhando as notícias dos bastidores de Hollywood, então sei mais ou menos do que cada filme se trata, mas essa estratégia às vezes pode nos garantir bons filmes, medianos e filmes muito ruins. Ainda assim, a experiência de chegar para assistir a um filme sem saber o que você vai encontrar é, para mim, a melhor alternativa.
Em Londres, a descoberta de uma bomba não detonada da Segunda Guerra Mundial em um canteiro de obras provoca uma enorme operação de evacuação. Enquanto militares e policiais correm contra o tempo para controlar a ameaça e retirar milhares de pessoas da região, um grupo de criminosos aproveita o caos e a cidade praticamente esvaziada para colocar em prática um elaborado assalto.
Eu gosto dos trabalhos do David Mackenzie, gosto das críticas sociais que ele costuma apresentar e, sendo honesto, esperava algo nesse sentido com Fuze. Entretanto, o maior problema deste filme, sem sombra de dúvidas, é o roteiro: muito simples, muito banal e, principalmente, incapaz de desenvolver os personagens. Alguns são completamente superficiais, enquanto outros são até mesmo vazios.
O roteiro apresenta um plot twist lá no final e tem um flashback que vai nos explicar o comportamento das personagens. Convenhamos: se você pegar aquela cena final e encaixá-la no começo do filme, vai perceber que ele ficará ainda mais simplório. E aí está o problema: o plot twist não vem como uma decisão narrativa interessante que vai justificar algumas coisas do roteiro. Não. Ele só vai te deixar com a sensação de: “Ah, então era isso”.
O elenco aqui é a peça-chave. Eu gosto demais do Aaron Taylor-Johnson, o Theo James vem melhorando como ator, mas confesso que esperava mais de ambos e, novamente, o roteiro não colabora, então não há muito o que ser feito. E ainda temos o sempre péssimo Sam Worthington, canastrando em um personagem secundário, tem quase 20 anos que me pergunto como esse homem ainda trabalha na indústria. A direção é boa, mas confesso que esperava mais. A edição é ágil, a duração de 1h38min não deixa o filme se estender demais, a trilha sonora poderia ser mais marcante.
Fuze é um filme que estava com bastante expectativa para assistir e, apesar de ele não ter atendido a todas elas, não saí insatisfeito. Eu gostei. Foi um entretenimento válido, daqueles que você assiste ali rapidinho, sem se preocupar muito com uma história mirabolante. A história simples traz uma outra surpresa que vai te pegar de calça curta, mas não é nada que vá ficar marcado nos anais do cinema, nem que vá fazer você se encantar pela sétima arte. É o básico feito de uma maneira básica.
LEVITICUS Direção: Adrian Chiarella Ano: 2026 Assistido em: 11/08/2026
A safra do terror dos últimos três ou quatro anos vem sendo a melhor em décadas. No meu tempo de vida e de cinéfilo, eu nunca vi tantos filmes do gênero com tanta repercussão e recebendo tantos elogios. Leviticus é um longa que causou certo barulho no começo deste ano e que infelizmente não chegou aos nossos cinemas, muito provavelmente por ser protagonizado por um casal gay. Isso, obviamente, só gerou ainda mais interesse, especialmente em uma pessoa LGBT. Cheguei de coração aberto e, apesar de algumas ressalvas, gostei muito do que vi.
Em uma comunidade cristã isolada e ultraconservadora no interior da Austrália, os adolescentes Naim e Ryan começam a descobrir a atração que sentem um pelo outro. Quando o relacionamento é descoberto pelo pastor local, os dois são submetidos a um ritual de “cura”. A cerimônia, porém, dá terrivelmente errado e liberta uma entidade violenta que assume a forma da pessoa que cada um deles mais deseja.
É impressionante como a perseguição e o ódio manifestados por muitas religiões e por muitos religiosos são iguais, não importa se você esteja no Brasil, no interior da Austrália ou em qualquer outro lugar do mundo. Onde existe fanatismo religioso, uma pessoa LGBT dificilmente tem paz, e aqui isso é retratado de forma muito clara. O que mais me assustou foi ver a naturalidade com que o ódio e o preconceito são apresentados em tela, e apresentados de maneira extremamente convincente. As famílias dos jovens submetidos à “cura” agem como se nada estivesse acontecendo; muitos preferem aquilo a ter um filho homossexual. É doloroso saber que essa é a realidade de muitas famílias e de muitas pessoas.
Adorei a metáfora da aceitação, a ideia de que primeiro você precisa superar o seu próprio medo e o seu próprio preconceito para conseguir se aceitar. Amei tudo isso. Mas há um ponto que não consigo relevar e que foi, sem dúvida, o aspecto que mais me desagradou: o mau comportamento termina vencedor e, mais do que isso, recompensado. Os pais de Ryan e Hunter, assim como a mãe de Naim, não sofrem absolutamente nenhuma consequência; saem praticamente incólumes no final. O maior problema ainda, porém, é justamente o próprio Naim.
Entendo que muita gente vai defendê-lo dizendo que ele é apenas um adolescente perdido e confuso com os próprios sentimentos. Ainda assim, acredito que mau-caratismo não tem idade. Certas coisas você aprende desde pequeno que são certas ou erradas, e o que ele faz acaba contribuindo diretamente para a perda de uma vida. Hunter morre por causa de todo aquele processo. “Ah, mas os pais e o pastor maluco foram os verdadeiros responsáveis.” Foram, sem dúvida, mas ele também teve sua parcela de culpa. E vê-lo terminar a história fugindo tranquilamente ao lado do grande amor da sua vida é algo que considero inconcebível. Para mim, é muito difícil aceitar que o protagonista cometa um ato tão grave e não pague por isso.
Tecnicamente, é um filme muito bem feito. A direção é segura, os atores são ótimos, muito expressivos e intensos em suas performances, e a edição funciona muito bem. É uma obra rápida, que transmite sua mensagem sem enrolação. Entretanto, nem tudo é perfeito. Achei os personagens bastante superficiais; o único traço realmente desenvolvido neles é o fato de serem homossexuais. Falta profundidade, e isso é um problema de roteiro que poderia ter sido trabalhado melhor. Também me incomodou a fotografia excessivamente escura. Filme escuro não é sinônimo de filme sombrio, e acredito que muitos diretores novatos ainda têm dificuldade em compreender essa diferença.
No geral, ao término da sessão, entendi melhor por que o filme sofreu tanto boicote no Brasil, um país que, a cada dia que passa, parece mais dominado por um neopentecostalismo fanático. Leviticus escancara que o ódio mata e que a responsabilidade pelos seus atos não desaparece simplesmente porque você acredita estar fazendo a coisa certa. Isso é triste, porque obras como essa deveriam ter mais repercussão e ser mais reconhecidas. Já passamos da fase de sermos apenas “bonzinhos” e complacentes. Precisamos ser mais firmes na nossa voz, mais claros nas nossas posições e mais intensos com quem pratica preconceito. Intolerância não tem espaço, preconceito não deve ter lugar, e combatê-los é uma obrigação de qualquer sociedade que se pretenda minimamente humana.
SACCHARINE Direção: Natalie Erika James Ano: 2026 Assistido em: 07/08/2026
Estamos vivendo uma safra de filmes de terror que há muitos anos não se via, pelo menos não desde os anos 80, quando inúmeras ideias estavam gerando produções diferentes, que não se sustentavam apenas naquelas velhas franquias. Muito pelo contrário, estamos vendo o nascimento de potenciais clássicos do futuro. A ideia de Saccharine foi tão absurda que eu pensei que poderia gerar um terror de respeito, mas, apesar de se destacar em alguns pontos, tem algumas derrapadas que impedem que o resultado seja ainda mais satisfatório.
Hana é uma estudante de medicina que vive obcecada com o próprio peso e insatisfeita com seu corpo. Depois de conhecer um método aparentemente milagroso para emagrecer, ela começa a utilizar pílulas produzidas a partir de cinzas humanas, disposta a ignorar a origem perturbadora do tratamento em busca do corpo que deseja. Conforme sua obsessão se intensifica, Hana passa a experimentar consequências cada vez mais assustadoras e começa a ser atormentada por uma presença sobrenatural. Presa entre a compulsão, a culpa e o horror, ela precisa lidar com o preço macabro de sua busca por transformação.
Meu grande problema com esse filme é que eu senti que ele se conteve o tempo todo. O terror, de fato, nunca chegava aonde deveria chegar. Nós temos algumas cenas bastante grotescas que apelam para o gore, mas, fora isso, não temos grandes momentos de tensão ou grandes curvas dramáticas que façam a história andar. Inclusive, em determinados momentos, eu me senti até enganado, porque parecia estar assistindo a um grande suspense psicológico e não a um terror propriamente dito. Faltaram decisões narrativas que fizessem o filme se tornar mais assustador.
Os personagens são bem apáticos. Convenhamos que nenhum deles é verdadeiramente carismático. Não que as performances sejam ruins, longe disso, os atores estão até bem. O problema está na escrita, que não conseguiu desenvolver essas figuras de uma forma que as deixasse carismáticas, que fizesse com que nós nos preocupássemos com elas. E aquela coisa: quando você não liga para o que vai acontecer com as personagens, fica difícil sustentar o interesse.
Vi algumas pessoas defendendo que esse não é bem inédito. De fato, não é. Tem um pouquinho de The Substance (2024), de The Whale (2022), de Smile (2022), mas essa mistureba toda acaba gerando um filme que não se destaca em nenhum aspecto. Ele não é um desastre, não é ruim a ponto de incomodar, só não é memorável o suficiente. É aquela diversão momentânea que você assiste e logo esquece.
Sobre o final, eu achei bem covarde, porque, se você reparar bem no ambiente, vai perceber que tudo está indicando ser mais um delírio por parte da Hana do que realidade, o que seria muito mais interessante se fosse verdade.
SPIDER-MAN: BRAND NEW DAY Direção: Destin Daniel Cretton Ano: 2026 Assistido em: 02/08/2026
O Homem-Aranha é, ao lado do Batman, o meu herói favorito das histórias em quadrinhos. Inclusive, apesar de ficar em segundo lugar atrás do Morcegão, é o presente na minha vida há mais tempo, aquele de quem tenho mais lembranças da primeira infância. Eu estava lá na sala de cinema vendo o primeiro live-action, então já deixo claro desde o início: sim, eu sou viúva do Tobey Maguire. Ele continua sendo o meu favorito, e eu torci muito o nariz para o Tom Holland quando assumiu o personagem. Mas fico feliz em dizer que agora, no quarto filme, passados dez anos, eu finalmente consigo reconhecer o Homem-Aranha nele. Pela primeira vez senti que ele entendeu o que é o personagem.
Quatro anos se passaram e Peter Parker agora vive completamente sozinho, tendo apagado sua existência das memórias das pessoas que ama. Sem ninguém conhecer sua verdadeira identidade, ele se dedica integralmente a combater o crime em Nova York como Homem-Aranha. Porém, uma sequência de crimes misteriosos coloca o herói diante de uma ameaça diferente de tudo que já enfrentou. Ao mesmo tempo, a pressão de sua vida solitária provoca uma transformação física inesperada que pode colocar sua própria existência em risco.
Uma coisa que me incomodou muito nos três primeiros filmes do MCU foi o fato de o herói ser excessivamente dependente de outras figuras. Ele era basicamente um Menino de Ferro; não era o Homem-Aranha. Em Brand New Day ainda existe um certo apoio de Bruce Banner e Frank Castle, mas vemos Peter se virando mais sozinho, descobrindo as coisas graças à própria inteligência, tomando decisões por conta própria e agindo como protagonista da própria história. Para mim, se removessem essa maldita tecnologia do uniforme e essa inteligência artificial, aí sim estaria perfeito.
O grande trunfo do roteiro é a figura da vilã, que, convenhamos, Marvel e Sony guardaram tão mal que todo mundo já sabia que Jean Grey estaria no filme. Eu gostei muito da atriz no papel, mas não gostei da forma como ela foi utilizada. Não me desce que uma das personagens mais importantes, uma das membras fundadoras dos X-Men, seja usada como vilã de um filme do Homem-Aranha, ainda mais um personagem que possui uma galeria de vilões tão rica e interessante.
Quanto aos personagens coadjuvantes, honestamente, eu não estou nem aí para Hulk e Justiceiro. E, se estivesse ao meu alcance, eu já teria matado essa MJ e esse Ned há muito tempo. Mas entendo que, sendo Zendaya esposa do Tom Holland, provavelmente nunca vamos nos livrar dessa personagem horrorosa.
Uma grande mudança nos bastidores é a saída do genérico Jon Watts e a entrada de Destin Daniel Cretton. Não que o segundo seja um primor de diretor, mas, em comparação com o primeiro, ele se sobressai bastante, principalmente nas tomadas aéreas, naquelas em que vemos o Homem-Aranha balançando pelas teias. Finalmente aparece um pouco de criatividade, algo que eu não via nos três filmes anteriores. A coreografia das lutas também está bem melhor, e isso fica evidente quando lembramos do trabalho do diretor em Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings (2021).
Ainda assim, existe um CGI pavoroso que te tira do filme em várias sequências, principalmente nas que mostram a cidade de Nova York. Todo mundo sabe que aquilo não é Nova York, não porque o filme foi rodado na Escócia, mas por conta do visual ruim. Enfim, são problemas repetidos que a Marvel parece não fazer a menor questão de resolver. Brand New Day é claramente um dos melhores filmes dessa nova fase do Homem-Aranha iniciada em Homecoming (2017), o que também não é muito difícil, já que os dois primeiros são bem fraquinhos. Ainda assim, eu continuo preferindo No Way Home (2021), porque o impacto de ver as três gerações do personagem juntas foi muito mais forte.
Mesmo assim, este é um filme muito bom, com um Peter que chama para si o protagonismo e o sustenta de verdade. E ele reforça uma das minhas críticas mais pesadas ao Homem-Aranha de 2017: o personagem não precisa de mentor e não precisa do Homem de Ferro. Aquele era o grande problema do primeiro filme, o fato de Peter estar ancorado demais em Tony Stark. Para mim, este longa é a prova definitiva disso. O Homem-Aranha é o maior herói da Marvel. A Marvel é que precisa dele, o MCU é que precisa dele; ele não precisa do resto do MCU. Ele funciona sozinho, e este filme prova isso para todo mundo.
CHILDREN OF THE CORN Direção: Fritz Kiersch Ano: 1984 Assistido em: 26/07/2026
Como todo fã do mestre do terror, eu tenho a ambição megalômana de um dia ler toda a obra dele, e recentemente tive a oportunidade de ler a primeira coletânea de contos que ele publicou, Sombras da Noite (1978). Um dos últimos contos do livro é justamente As Crianças do Milharal, que serve de base para este filme, e como ele ficou no meu top 3 dos contos que compõem a coletânea, eu imediatamente vim atrás da adaptação, até porque eu nunca tive muito interesse por ela, principalmente devido às críticas nada positivas que recebeu ao longo das últimas quatro décadas. Quando concluí a exibição do filme, pude entender perfeitamente o porquê.
Durante uma viagem pelo interior de Nebraska, Burt e Vicky acabam chegando à pequena cidade de Gatlin depois de um acontecimento inesperado na estrada. O casal logo percebe que o lugar está praticamente deserto e que as poucas pessoas que permanecem ali são crianças. Conforme investigam o estranho comportamento dos moradores, descobrem que a comunidade é dominada por um culto religioso liderado por um garoto chamado Isaac, que acredita que os adultos devem ser sacrificados a uma entidade sobrenatural que habita os campos de milho.
É óbvio, compreensível e justificável que toda adaptação precise fazer modificações. Literatura e cinema são artes diferentes, têm linguagens e propostas distintas, mas certas mudanças são verdadeiramente injustificáveis. No conto, o casal Burt e Vicky está a um passo do divórcio. Eles têm um relacionamento completamente desgastado e fazem aquela viagem como uma tentativa desesperada de não se separarem, e é justamente essa situação que desencadeia toda a tensão dramática entre eles e justifica as escolhas feitas ao longo da trama. Isso foi removido da adaptação. O casal aqui é apenas um casal qualquer; existe uma ou outra desavença, mas, em linhas gerais, está tudo bem, e isso enfraquece violentamente a proposta da história.
Outra situação verdadeiramente perturbadora, que me fez questionar a capacidade mental de quem assinou esse roteiro, é que logo nas primeiras cenas eles entregam todos os pontos de relevância da história. No conto, vemos a dupla chegando naquela cidadezinha deserta e percebendo que há algo errado, e aí surge um mistério: o que aconteceu? Onde estão as pessoas? Depois vem outro mistério: onde estão os adultos? Aqui não existe nada disso. Logo nas primeiras cenas, todo o trunfo do suspense e do mistério vai pelo ralo, porque já nos entregam tudo de cara. Não há motivo para ficar ansioso querendo descobrir o que está acontecendo naquela cidadezinha, porque o roteiro já estragou essa experiência.
Outro problema é que Hollywood não consegue aceitar certas noções, então enfiam uma dupla de irmãos bonzinhos no meio da história, quando, na realidade, as crianças são o mal puro. E, por falar em mal puro, o conceito do “Aquele que anda por trás das fileiras" também é completamente alterado. No conto, não sabemos o que é esse mal; isso permanece um mistério, tanto que existe até uma suposição de que seja Randall Flagg. Aqui não. Aqui ele vira uma massa cinzenta ridícula que precisam enfiar na história para justificar um finalzinho bonitinho.
O maior problema de uma adaptação malfeita é esvaziar a história original, fazer com que ela perca força, e foi exatamente isso que aconteceu em Children of the Corn. Tudo o que havia de positivo e interessante no material-base foi enfraquecido, mutilado e distorcido para virar um filme genérico que não dá para levar a sério. Creio que, se você não conhecer o material original, até consegue se divertir, mas é impossível não traçar um comparativo. E, quando você chega a esse ponto, fica nítido o quanto enfraqueceram a base original. Resta aquele gostinho de que uma adaptação decente poderia ter se tornado um clássico, mas, pesquisando sobre essa franquia, tudo o que descobrimos é que a situação pioraria muito ao longo dos anos. Então é melhor parar por aqui.
O Foragido
3.0 43 Assista AgoraWRONGFULLY ACCUSED
Direção: Pat Proft
Ano: 1998
Assistido em: 13/09/2026
O Fugitivo (1993) foi um dos filmes de maior sucesso daquele ano e entrou para a história do cinema. Teve uma excelente bilheteria, foi muito bem recebido pelas críticas e chegou a ser indicado ao Oscar. Eu cheguei para assisti-lo com altíssimas expectativas. Entretanto, quando os créditos começaram a subir, percebi que não tinha gostado nem um pouco, porque ele simplesmente não fazia a minha praia. Agora, uns dez anos mais ou menos depois de tê-lo assistido pela última vez, sem nada em especial para assistir, me deparo com essa paródia na Netflix e, ao saber que ela é protagonizada pelo lendário Leslie Nielsen, decidi dar uma chance para ver se a versão cômica me agradaria mais. E, honestamente, ainda não foi dessa vez.
O famoso violinista Ryan Harrison é condenado à morte pelo assassinato do milionário Hibbing Goodhue, apesar de ser inocente. Durante o transporte para a prisão, um acidente provoca a fuga de Ryan, que passa a ser perseguido pelas autoridades enquanto tenta descobrir quem realmente está por trás do crime. Em meio à fuga, ele se envolve em uma série de situações absurdas e perigosas, enquanto busca provar sua inocência.
O mais interessante de uma comédia que faz paródia de um filme específico é que você consegue observar os momentos exatos que estão sendo parodiados e, obviamente, isso faz com que o humor se destaque mais. Então, ao ver algumas cenas desta versão, imediatamente me lembrava das cenas de 1993, e aí o humor vinha naturalmente. Entretanto, o meu problema com aquele filme é que eu não achava a história interessante o suficiente. Sim, eu sei que ele foi amplamente elogiado, mas comigo não deu certo. Aconteceu basicamente a mesma coisa aqui. Apesar de ter o Nielsen, a história ainda é a mesma, do fugitivo que sai correndo destrambelhado, com a polícia nos seus calcanhares, logo por tabela, eu também não gostei.
Nem todo bom roteirista é um bom diretor, e vice-versa. Aqui, nós temos a condução de Pat Proft, que foi roteirista de uma série de filmes protagonizados pelo Nielsen, em particular da franquia Corra Que a Polícia Vem Aí, mas faltou o timing cômico necessário. Faltou o momento de fazer a piada funcionar na hora certa, de cortar na hora certa. Em muitos momentos, o filme parece bobo e inchado, com piadas que não faziam muito sentido dentro do que estava sendo apresentado. E olha que isso é algo corriqueiro em uma comédia-paródia de humor nonsense igual a esta.
Wrongfully Accused não é reconhecido como pertencente aos grandes clássicos do lendário Leslie Nielsen e, quando você assiste, percebe que é uma produção menor. Entretanto, talvez funcione para quem gosta de humor nonsense, eu até gosto bastante desse tipo, mas admito que, desta vez, não funcionou muito bem comigo. Quem sabe é porque eu estava em um dia não muito propício para esse tipo de humor e ele funcionasse melhor em outra ocasião, em uma revisita. Mas isso aí vai ficar para outro momento.
Zona de Perigo
3.0 83 Assista AgoraSTRIKING DISTANCE
Direção: Rowdy Herrington
Ano: 1993
Assistido em: 13/09/2026
Confesso que não sou amante desses filmes dos anos 90 de um policial que precisa combater um vilão e provar sua inocência, blá-blá-blá. Nunca fui muito adepto desse tipo de produção, mas, devido a um problema na minha televisão, fui forçado a assistir a alguma coisa aleatória na Netflix e dei de cara com esse filme do Bruce Willis. Decidi dar uma oportunidade e fui esperando absolutamente nada, mas até que não foi tão ruim quanto eu esperava. Apesar de já adiantar: ele é bem fraco.
O detetive Tom Hardy, da polícia de Pittsburgh, é transferido para uma unidade fluvial após denunciar a corrupção de seu primo e parceiro de departamento. Quando uma série de mulheres associadas a Hardy aparece morta no rio, ele suspeita que os crimes estejam ligados a um antigo caso investigado por sua família. Determinado a descobrir a identidade do assassino, ele se envolve novamente na investigação e passa a desconfiar até mesmo de seus próprios colegas.
Meu grande problema com esse filme é que, para mim, parece que ele foi feito de qualquer jeito em todos os sentidos. O roteiro foi escrito e não teve nenhuma revisão, a direção foi entregue nas mãos de um iniciante e os atores não estavam minimamente interessados em fazer alguma coisa minimamente decente. Falando de uma maneira mais vulgar, foi feito à "moda caralha", como se ninguém estivesse se importando com o resultado. Da forma que ficasse, ia ficar, e acabou.
O roteiro não é dos mais bem elaborados, não. Ele é um clichê do policial que se afasta do trabalho e tem que voltar porque um criminoso do passado retorna e está matando pessoas próximas a ele. Tem um envolvimento com a parceira, enfim, é muito básico. O "grande momento", é a revelação da identidade do vilão que, convenhamos, você só pode ter errado o membro, mas era óbvio que pertencia à mesma família. Na sequência, temos a conclusão óbvia no qual o protagonista precisa brilhar, mesmo que em cenas constrangedoras e completamente sem nexo, vide todo o malabarisco que o Bruce Willis faz ALGEMADO.
No campo das atuações, tudo é simplesmente apavorante. O vilão é totalmente exagerado, caricato, histriônico. Até poderia funcionar se isso aqui fosse uma paródia, mas não é. É um filme que você leva a sério, que está querendo fazer um grande drama policial, um grande longa de ação. Aí, quando você tem o Robert Pastorelli gritando, dando chilique e fazendo tudo de uma maneira cartunesca, é impossível permanecer imerso na história. Sua cabeça vai para da trama, e tudo se perde.
Para não dizer que nada aqui é aproveitável, confesso que, mesmo no clichê, o mistério é interessante. Você quer saber por que estão matando aquelas mulheres, quem é o assassino e admito que o roteiro até me surpreendeu ao revelar as circunstâncias da morte do pai do protagonista. Mas são qualidades pontuais, algumas eu diria até mais superficiais, não conseguem anular os problemas existentes no restante da produção.
Para quem quer um filme de ação policial do Bruce Willis dos anos 90, no seu auge, em que ele banca o policial bem durão no combate aos inimigos, talvez seja um prato cheio. Mas, se você procura algo com um pouquinho mais de qualidade cinematográfica, esse aqui não é nem de longe a melhor pedida.
CHiPs: O Filme
3.0 137 Assista AgoraCHiPs
Direção: Dax Shepard
Ano: 2017
Assistido em: 12/09/2026
Em Hollywood, é muito comum atores pularem para trás das câmeras e se tornarem diretores. Todo mundo sabe que a indústria cinematográfica é uma máquina de moer carne, que, quando chega a uma certa idade e a pessoa já não é mais tão jovem, a beleza começa a desaparecer e a tendência é que os papéis importantes vão rareando. Então, nada mais justo que aconteça essa transição, e é graças a isso que nós temos excelentes profissionais que nos presenteiam todos os anos com obras icônicas. Mas também tem casos em que você olha e pensa que seria melhor se essa transição nunca tivesse acontecido. Com CHiPs, foi exatamente isso que eu imaginei.
Jon Baker, um motociclista profissional que decide ingressar na Patrulha Rodoviária da Califórnia, recebe como parceiro Frank “Ponch” Poncherello, um agente federal infiltrado. Enquanto Jon tenta se adaptar ao trabalho e provar seu valor, Ponch investiga uma série de roubos cometidos por um grupo de criminosos que pode ter ligações com policiais corruptos. Os dois, apesar das personalidades e objetivos diferentes, precisam trabalhar juntos para descobrir a identidade dos responsáveis e impedir que o esquema continue.
Tem certos humores que são peculiares, funcionam para determinadas pessoas e para outras não. Eu, particularmente, adoro um humor mais satírico, mais debochado, humor negro, vamos dizer assim. Há quem goste de comédia escrachada, pastelão, que é o que encontramos aqui. Que, comigo, não funcionou de maneira alguma. O timing cômico do Dax Shepard é pavoroso. As cenas são construídas com base em humor de quinta série, infantil e bobo, criando constrangimento. Mas não é daqueles estilos como The Office (2005-2013), em que você ri de nervoso. Não, é daqueles em que você procura um buraco para enfiar a cara.
O elenco reunido aqui é bom, mas, com um roteiro tão fraco, morto não tem condição de se sustentar nenhum personagem. Eu não conheço a série-mãe que deu origem ao filme, mas, se era intenção despertar interesse para buscar o material original, fracassou vergonhosamente, porque tudo o que eu fiquei foi com vontade de nunca mais ver nada relacionado a essa franquia na face da Terra.
Com a direção fraca, que picotou o filme inteiro na montagem, e um roteiro sem graça, CHiPs deixa a pior impressão possível. É daqueles que você não quer nem lembrar que um dia assistiu. O gênero do humor é um dos mais difíceis do cinema. Não é fácil fazer rir: para cada um bom e engraçado, tem 200 horripilantes, e este aqui, com toda a certeza, caiu no grupo dos 200. Quando eu vir o Dax Shepard, acho que vai ser impossível não lembrar do mal-estar que esse personagem dele me causou assistindo a esse filme.
Selma: Uma Luta Pela Igualdade
4.2 796 Assista AgoraSELMA
Direção: Ava DuVernay
Ano: 2014
Assistido em: 12/09/2026
A luta pelos direitos civis na década de 1960 é um dos pontos mais instigantes de todo o século XX. Era extremamente absurda a contradição de os Estados Unidos alegarem estar protegendo o planeta do comunismo, mandando jovens para serem mortos no Vietnã e financiando golpes de Estado na América Latina, enquanto negros eram brutalmente violentados, abusados e agredidos em seu próprio território. Estou concluindo a trilogia O Século, do Ken Follett, e ele dedica muito tempo do terceiro livro tratando desse assunto. Por isso decidi ir atrás de Selma, que foi indicado ao Oscar em 2014, mas que eu não havia tido a oportunidade de conferir, e me arrependi muito de ter demorado tanto tempo para assisti-lo, porque é um filme de fato muito bom.
Em 1965, Martin Luther King Jr. e outros líderes dos direitos civis concentram seus esforços em Selma, no Alabama, para garantir o direito de voto à população negra. Diante da violência e da repressão das autoridades locais, o movimento organiza uma série de protestos e marchas, incluindo a tentativa de atravessar a ponte Edmund Pettus rumo a Montgomery. A mobilização coloca a questão do direito ao voto no centro do debate nacional e aumenta a pressão sobre o presidente Lyndon B. Johnson para aprovar uma nova legislação de direitos civis.
Eu tenho problemas muito sérios com figuras históricas muito pacifistas. Eu admiro muito Martin Luther King, a postura dele, a vontade, a forma como ele nunca se deixou abater, mas eu confesso que, caso eu fosse um homem negro com idade para ter engajamento na causa lá nos anos 60, eu provavelmente ficaria do lado de Malcolm X. Eu não consigo conceber essa ideia de dar a outra face. Eu sou muito reativo, eu sei que muitas vezes essa não é a maneira mais adequada, mas não consigo compreender como aquelas pessoas podiam sofrer as maiores barbaridades sem poder fazer nada para revidar. Entendo toda a política do King, entendo que, com toda certeza, haveria uma retaliação muito grande, mas não existe mudança sem sofrimento, e sou daqueles que acredita que, caso os negros tivessem se imposto de uma forma mais radical há mais tempo, as mudanças teriam vindo mais rapidamente.
Cada conquista desse período era obtida com muito sofrimento, com muito derramamento de sangue e com vítimas. A marcha de Selma foi uma forma de pressionar Lyndon Johnson para ele fazer o mínimo. Algo muito interessante, que é bem retratado no filme, é que a Lei dos Direitos Civis idealizada pelo Kennedy foi promulgada no ano anterior pelo Johnson e, como bem diz o desgraçado do George Wallace, os negros tinham que se dar por satisfeitos. No sul dos Estados Unidos, essas leis eram amplamente desrespeitadas, logo a marcha foi importante porque mostrou ao mundo o que de fato estava acontecendo nos Estados Unidos.
Selma tem um registro histórico muito bom, mas ele falha em alguns pontos. Eu, por exemplo, nunca gostei de idealizar figura nenhuma, e muito menos dessa idolatria que existe pelo King, não só por ele, como por qualquer outro nome importante. Sim, ele fez muitas coisas boas, mas também era uma pessoa muito falha, então essa grande dependência que as pessoas tinham dele e a forma como é retratado no filme, quase que como uma idolatria, me incomoda bastante. Bom, outro detalhe é que o roteiro dá a entender que Lyndon Johnson resolveu finalmente assinar a lei por conta de uma conversa que ele teve com King, e quem busca saber um pouquinho de história sabe que Johnson tinha um sentimento de inferioridade muito grande porque ele era uma pessoa de origem humilde, vinda do Texas. Ele não era da elite norte-americana, como, por exemplo, seu antecessor Kennedy. Então, tudo que ele fez foi movido pelo ego. Ele queria entrar para a história como o presidente que finalmente resolveu a questão da segregação racial nos Estados Unidos, e não por conta de discursozinho bonitinho do King.
Do ponto de vista artístico e técnico, Ava DuVernay faz um trabalho muito competente. Os atores estão muito bem em cena, a direção é segura, os figurinos e os cenários são tudo muito bem recriados. Não tem nada que soe falso, tudo parece, de fato, uma produção da década de 1960. O elenco não tem ninguém que se destaque mais do que os demais. Todos estão bem, mas não há nenhuma atuação fora da curva. Outro destaque muito importante é a excelente “Glory”. Quando essa música venceu o Oscar de Melhor Canção Original, eu não gostei muito, não achava ela muito boa, mas, com o passar dos anos, fui mudando de opinião e hoje em dia consigo reconhecê-la como uma excelente canção.
Selma é muito bom nas suas duas funções. Ele funciona muito bem como um grande filme e serve para nos ensinar um pouquinho mais da situação política dos Estados Unidos e do cenário global da década de 1960. Entretanto, eu acho que é sempre preciso um complemento, é sempre interessante buscar um pouquinho mais de informações. Não que o que o filme nos forneça não seja de qualidade, não é isso. Só que toda arte é enviesada pelos olhos do seu artista, e eu creio que, se seus personagens tivessem um pouco menos desse verniz que suaviza as personagens, ele funcionaria ainda melhor do que já funciona.
Rose of Nevada
2.8 4ROSE OF NEVADA
Direção: Mark Jenkin
Ano: 2025
Assistido em: 07/09/2026
Eu cheguei num ponto em que não procuro muita coisa para me convencer a assistir a um filme. Eu não leio sinopse, não assisto trailer. A única coisa que acompanho religiosamente são notícias. Então, quando vi uma notícia sobre essa produção com viagem temporal, com dois atores de que eu gosto como protagonistas, eu já estava convencido. Não precisava de mais nada para assistir. Entretanto, admito que esse método pode fazer com que eu assista a grandes projetos e a grandes fracassos também. Com Rose of Nevada, eu senti que ele ficou no meio do caminho, sem conseguir ir nem para um lado nem para o outro.
Em uma esquecida vila de pescadores na Cornualha, um barco desaparecido há trinta anos, o Rose of Nevada, surge misteriosamente no antigo porto. Para os moradores, seu retorno pode ser um sinal de que a sorte da comunidade, devastada pelo declínio econômico, finalmente está prestes a mudar. Nick, um jovem pai que precisa sustentar sua família, e Liam, um recém-chegado tentando escapar do próprio passado, embarcam na embarcação. Depois de uma viagem bem-sucedida, porém, eles retornam ao porto e descobrem que algo inexplicável aconteceu: foram transportados trinta anos para o passado e são recebidos pelos moradores como se fossem os membros originais da tripulação desaparecida.
O grande problema deste filme, está no roteiro, que, convenhamos, é confuso, arrastado e tem pouquíssimas curvas dramáticas. A história é boa e poderia render grandes momentos de tensão e conflito, mas não é isso o que o roteiro entrega. Nós temos dois protagonistas: enquanto um tenta desesperadamente voltar para o tempo presente, o outro se acostuma muito depressa e vai se adaptando. Mas a forma como eles mostram isso é muito fraca, dando a impressão de que nada está acontecendo de fato, de que a história não está andando, ela está parada no tempo. O que é até curioso, já que, por mais que o Nick tente, ele não consegue sair do lugar, não consegue voltar ao tempo presente.
Como o roteiro não colabora, eu tive que me apegar a outros critérios. Por exemplo, a fotografia é fantástica. A forma como eles emulam uma filmagem antiga, dando uma estética similar à de uma filmagem caseira de 1993, deixa o filme muito gostoso de se assistir. O formato da tela, que não é widescreen, é 4:3. A atuação é muito boa. Eu gosto demais do George MacKay, ele segura grandes momentos dramáticos, e eu também gosto bastante do Callum Turner. O problema é que, como eu já falei antes, o roteiro não dá nenhum grande material para eles trabalharem. Todas as cenas-chave deveriam ser intensas, interessantes, mas são sem vida. Nós temos o protagonista gritando na cara de duas pessoas que ele não é o filho que elas estão acreditando que seja, e você não sente nada. Nós temos o outro brincando de casinha, fingindo ser o pai de uma criança, e também não diz nada.
Rose of Nevada está mais para uma boa ideia do que para um bom filme. Aliás, a quantidade de bomba que nasce de uma boa ideia não está no gibi. É preciso ter uma boa execução e, por mais que o longa não esteja em um nível mais elevado, ele ainda é interessante. Você ainda consegue ficar curioso para saber quais serão os desdobramentos da história e se mantém preso para descobrir o que vai acontecer, mesmo que o resultado final não seja exatamente aquilo que você esperava ou aquilo que você gostaria de fato de assistir.
G.I. Joe Origens: Snake Eyes
2.6 108SNAKE EYES: G.I. JOE ORIGINS
Direção: Robert Schwentke
Ano: 2021
Assistido em: 07/09/2026
Honestamente, eu fico me perguntando qual é a tara que os americanos têm com G.I. Joe. Eu sei que até trouxeram a animação aqui para o Brasil e que os bonequinhos eram bem vendidos lá nos anos 80, mas eu sou dos anos 90 e, para minha geração essa marca nunca quis dizer nada. Só conheci mesmo pelos filmes e, como todos são bem fracos, fico me perguntando para quem eles fazem esse tipo de produção, porque até agora não consegui entender.
Após anos procurando pelo homem responsável pela morte de seu pai, Snake Eyes finalmente o encontra e recebe a chance de se vingar. Porém, ao salvar a vida de Tommy Arashikage, herdeiro de um poderoso clã ninja japonês, ele é levado ao Japão e acolhido pelo grupo, onde começa a ser treinado para se tornar um guerreiro. Enquanto tenta conquistar a confiança de seus novos aliados, Snake Eyes se vê dividido entre a promessa de vingança que o guiou por toda a vida e os valores de honra e lealdade ensinados pelo clã.
Nós vivemos numa era tão desgraçada do cinema que tudo hoje em dia é spin-off, sequência, remake... E, quando decidiram fazer essa prequel contando a história do Snake Eyes, eu só fiquei me perguntando: para quê? Ele é um personagem visualmente legal. Aquela roupa toda preta, ele não fala, a gente não sabe nada dele. Quando chega, chega descendo a porrada em todo mundo. Ele é aquele tipo de personagem que, quanto menos você souber, melhor.
Mas, já que fizeram um filme, que ao menos fizessem uma história interessante, o que não é o caso aqui. O roteiro é rocambolesco, clichê, é traição em cima de traição, é uma pataquada de uns testes sem graça. A cena das anacondas até poderia ser boa, mas é tudo tão escuro e tão mal executado que uma sequência conceitualmente interessante acaba ficando boba durante a execução.
Eu cheguei aqui ao menos esperando encontrar boas sequências de luta, uma boa coordenação de dublês, mas não tem nada disso. Outro problema é o Harry Goodwin, que tem o carisma de uma parede. Nós temos no elenco Andrew Koji que, além de um bom ator, é um artista marcial sensacional. Ele funcionaria muito melhor como protagonista, mas, pelo menos aqui, colocaram-no como vilão. O Storm Shadow, que, honestamente, eu sempre achei muito mais interessante que o próprio Snake Eyes.
Esse filme foi uma tentativa de Hollywood de retomar uma franquia que, lá no finalzinho dos anos 2000, deu umas batidas de asa, mas que nunca decolou. E o mais interessante é que, atualmente, a Hasbro está tentando colar G.I. Joe nos Transformers, que, por si só, já foram gigantescos, mas que nos cinemas atualmente respiram por aparelhos. Seria um aleijado se escorando em outro. Mas eu tenho para mim que isso nunca vai sair do papel e creio que essa saga deveria ficar presa lá nos anos 80, quando ela era relevante. Hoje em dia, honestamente, isso aí já não diz mais nada, só os executivos insistem em não ver.
Em Busca de Vingança
2.6 105 Assista grátisAFTERMATH
Direção: Elliott Lester
Ano: 2017
Assistido em: 05/09/2026
Eu tenho para mim que o maior crime que um filme pode cometer não é ele ser ruim, é ele ser qualquer coisa. É ser esquecível, ser qualquer nota. Porque o filme ruim, um verdadeiro desastre, mas te marca de alguma forma: te faz perder a paciência, te faz querer bufar de raiva, enfim, te provoca algum sentimento. E, quando você se depara com um que nem isso consegue fazer, a frustração é pior. É aquele sentimento de que você se envolveu, se entregou, e não recebeu nada em troca. E foi exatamente isso que eu senti assistindo a isso aqui.
Após perder a esposa e a filha em um acidente aéreo causado por um erro de controle de tráfego, Roman Melnyk fica devastado. Quando percebe que o responsável pela tragédia continua vivendo sua própria vida, Roman passa a ser consumido pelo luto e pela necessidade de encontrar algum tipo de justiça, colocando-o em uma trajetória marcada por dor, ressentimento e vingança.
Quando eu li a sinopse, achei a história extremamente interessante, uma proposta diferente. O Arnold Schwarzenegger já estava bem mais velho, então não seria um daqueles longas que ele estava acostumado a fazer na juventude, do exército do homem solitário em busca de vingança e tal. Mas eu não imaginava que fosse encontrar uma coisa tão insípida, tão sem graça.
A parte mais interessante da obra justamente está no personagem do Scott McNairy e na repercussão que o erro dele causou, desde as pressões psicológicas até as pressões sociais. Mas isso não é bem explorado. É tudo feito de uma maneira insípida.
A fotografia é cinzenta e combina com o roteiro, que não é preto nem branco, não é 8 ou 80, ele é cinza. Ele é uma coisa, uma massa sem forma. E foi isso que me impediu de gostar, porque ele não é intenso. Uma história como esta poderia ser um drama fenomenal, que nos levasse a discutir, que nos levasse a entender melhor quais seriam as repercussões que um acidente como este teria caso acontecesse na vida real, já que o filme é levemente inspirado em uma história real. Mas roteiro e direção não querem se comprometer com nada, e aí acaba resultando em uma coisa sem vida.
Aftermath é daqueles filmes que eu coloco na prateleira de que você não vai se esquecer da história dele, você vai se esquecer de sequer tê-lo assistido. É o tipo de produção que implode imediatamente na parte do cérebro que guarda as nossas memórias, porque não tem uma cena minimamente memorável. Eu mesmo cochilei e lutei contra o sono durante uma hora e meia e, o filme não me ajudava a resistir. E isso é o que torna tudo mais desmotivante no final.
Doutor Jivago
4.2 331 Assista AgoraDOCTOR ZHIVAGO
Direção: David Lean
Ano: 1965
Assistido em: 05/09/2026
Desde março, estou vivendo quase que um caso de hiperfoco na história russa, muito devido ao fato de estar lendo algumas obras icônicas do Ken Follett. E, quando li uma biografia do meu diretor favorito da vida, Christopher Nolasn, descobri que este é um dos longas mais influentes no trabalho dele. Então, decidi que era hora de juntar o útil ao agradável e conhecer esse grande clássico dos anos 60. Mas é aquela história: não é porque é clássico que obrigatoriamente você vai morrer de amores.
Durante a Revolução Russa e a Guerra Civil, o médico e poeta Yuri Zhivago tenta sobreviver às profundas transformações políticas e sociais que devastam a Rússia. Casado com Tonya, ele acaba se envolvendo com Lara, uma enfermeira por quem desenvolve uma paixão intensa, enquanto os conflitos ao seu redor tornam cada vez mais difícil preservar sua família, seus ideais e sua própria vida.
Eu vou começar falando daquilo que não me agradou na obra porque vai ser mais fácil, já que o problema se concentra em apenas dois pontos: primeiro, nos personagens; segundo, no ritmo. Sobre os personagens, a melhor definição que eu consigo achar é que eles são tão carismáticos quanto um muro chapiscado. Honestamente, eu não gostei de ninguém. Nenhum me convenceu, eu não fui encantado por eles. O protagonista é apático, não tem atitude, é simplesmente carregado pelas situações da vida. Honestamente, eu não morro de amores por pessoas que são adúlteras, independentemente do contexto ou da situação, então o Yuri foi alguém que praticamente foi muito maçante de acompanhar. Os demais personagens, esses aí então, pioraram. A mais simpática de todos é a Lara, mas, ainda assim, a questão do adultério me pega demais e não dá para torcer para os dois.
O ponto do ritmo e edição também fica complicado. São 3h20 de duração nada dinâmicos: tudo é arrastado. E olha que ele tem assuntos extremamente relevantes e que, como eu disse, têm minha total atenção, como as revoluções de 1917, a Guerra Civil Russa, todo o contexto geopolítico entre o fim do Império Russo e a ascensão da União Soviética e o estado de caos que se instaurou nos cinco anos entre uma coisa e outra. Ainda assim, é tudo muito devagar. A história se arrasta e, como eu disse lá em cima, os protagonistas não são muito agradáveis. Tudo isso torna a experiência de assistir a Doctor Zhivago bastante enfadonha.
Mas, deixando de lado essa parte, o restante do trabalho é um espetáculo com letras garrafais. A direção é muito boa, os atores em cena são lendários. Por mais que eu ache o Yuri uma água de salchica, é inegável o talento de Omar Sharif, assim como o de Geraldine Chaplin, o da Julie Christie e, é claro, o do lendário Alec Guinness, mesmo ele apareca pouco.
Outro detalhe que faz o queixo cair é a fotografia linda. Ela usa muito bem os cenários, dando uma impressão de grandiosidade à história. A produção, os cenários e os figurinos nos fazem acreditar que estamos mesmo na Rússia do princípio do século XX. A trilha sonora é forte, é marcante, não passa despercebida. Você entende perfeitamente de onde vem o fascínio do Nolan por essa produção, porque, artisticamente falando, é delicioso de observar. É uma pena, infelizmente, que a história não acompanhe.
Para mim, Doctor Zhivago vai ser daqueles filmes de que eu sempre vou me lembrar quando precisar de um exemplo de produção que você consegue reconhecer que é muito caprichada, que foi muito bem feita, mas que, ainda assim, não conseguiu te cativar. Um filme que é justamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos e que tem todos os elementos para isso. Então, não é daqueles que vai me fazer perguntar: “O que diabos os críticos viram nisso?”. Não, muito pelo contrário. É daqueles que eu tenho a mais absoluta certeza de que, ao longo dos anos, vou querer rever. Quem sabe, em outro dia, em outro momento, com outra cabeça, ele consiga se comunicar comigo de uma forma diferente da que foi no dia de hoje.
O Guerreiro
1.4 49 Assista grátisTHE VEIL
Direção: Brent Ryan Green
Ano: 2017
Assistido em: 30/08/2026
Quando eu era criança, lá nos anos 90, a única maneira de assistir a certos filmes era pela televisão, e eu sempre reparava que os grandes blockbusters, os grandes sucessos, estavam na Globo. Os menores iam parar no SBT. A Record pegava aquele resto de filmes muito antigos cujas emissoras principais já haviam perdido os direitos, e para a Band sobravam aqueles produzidos diretamente para VHS/DVD que não podiam nem ser chamados de classe B, pois eram fracos demais para essa classificação. Quando terminei de assistir The Veil, tive a sensação de ter acabado de presenciar uma daquelas sessões de cinema daquela época.
Em um mundo devastado por guerras, um guerreiro é traído e abandonado à própria sorte. Depois de ser salvo por uma misteriosa princesa, ele é acolhido por uma tribo que acredita que sua chegada está ligada a uma antiga profecia. Enquanto recupera suas forças, ele precisa decidir se está disposto a liderar aquele povo contra seus inimigos.
Existe uma teoria cinematográfica que diz que, para fazer um bom filme, não é necessário ter dinheiro: só é preciso ter uma câmera e talento. Ao longo dos anos, tivemos diversas confirmações dessa regra. Foi assim com Mad Max (1979), foi assim com A Bruxa de Blair (1999) e, mais recentemente, com Obsessão (2025). Portanto, orçamento não é desculpa, mas você precisa saber o que quer fazer e, principalmente, como fazer. A partir do momento em que você se propõe a fazer uma fantasia medieval, precisa entender suas limitações. O problema é que este filme não entendeu isso. Em alguns momentos, ele me lembrou episódios de Power Rangers ou de séries da CW. Mas aí eu dou até um desconto para essas séries, porque elas não têm orçamento de cinema e nem a pretensão de serem exibidas em tela grande.
As atuações são simplesmente sofríveis, mas eu não vou julgar os atores, até porque há gente de quem eu gosto bastante aí no meio, como William Levy, William Moseley e Serinda Swan. Nenhum deles, porém, vai conseguir entregar uma boa performance quando a base é simplesmente tenebrosa. Nenhum personagem tem um bom desenvolvimento, nenhum é bem escrito e todos só servem momentaneamente às necessidades do roteiro (aliás, que roteiro?). São tão profundos quanto uma poça d'água depois de uma chuva.
Tudo aqui é precário. Os figurinos são feitos à base de couro, como se o figurinista tivesse algum tipo de fetiche com esse material. A fotografia é péssima, os ângulos não criam nada de bonito, tudo é feio. Os cenários parecem feitos de papelão, daqueles de produção escolar. Resumindo: é tudo pavoroso, asqueroso, para não dizer uma palavra mais forte.
Este é um dos piores filmes que já vi na minha vida, e olha que já vi muita coisa ruim. Nada aqui funciona. Vou dar meia estrela pelo elenco masculino ser cheio de homens bonitos, mas, quando esse é o único ponto positivo que consigo encontrar em uma produção, é porque a coisa está muito feia.
O Ritmo da Vingança
2.5 80THE RHYTHM SECTION
Direção: Reed Morano
Ano: 2020
Assistido em: 30/08/2026
Eu lembro que, lá em 2018, quando fiquei sabendo do lançamento desse filme, fiquei bastante animado, porque ele seria o primeiro longa-metragem produzido pela Eon que não pertencia ao universo de James Bond em décadas de atuação na área cinematográfica. Ele entrou na minha lista de produções para assistir no cinema em 2019, mas acabou sendo adiado, adiado novamente e finalmente desovado no começo de 2020. Não veio para a minha cidade e eu perdi completamente o interesse, até que, ao revisar uma lista de pendências no IMDb, me deparei com ele e decidi que era hora de corrigir essa pendência. Agora, a sensação que fica é que talvez tivesse sido melhor não ter ido atrás.
Após perder a família em um acidente aéreo, Stephanie Patrick descobre que a tragédia foi, na verdade, um atentado. Consumida pelo desejo de vingança, ela é treinada por um ex-agente do MI6 para assumir diferentes identidades e perseguir os responsáveis, transformando-se em uma assassina determinada a descobrir toda a verdade.
Lendo um pouco sobre os bastidores, descobrimos que houve uma verdadeira batalha pelo controle da narrativa, com estúdio, protagonista e diretora querendo um filme de ação mais tradicional, enquanto os produtores defendiam algo mais slow burn. Não sou contrário a uma narrativa mais cadenciada e até prefiro histórias que apresentem melhor seus personagens antes de partir para a ação. O problema é que, para isso funcionar, é necessário existir alguma profundidade nesses personagens, algo que os torne interessantes. E aqui não há nada disso. Se tirarmos o fato de a família da protagonista ter morrido em um acidente de avião, Stephanie praticamente se desfaz: não sobra muita coisa.
Eu entendo que, para Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, fazer um novo filme simplesmente igual aos de James Bond não seria algo interessante. Seria, em essência, fazer a mesma coisa. Mas, convenhamos: para um filme de espionagem, faltaram cenas realmente interessantes, combates bem coreografados, perseguições mais elaboradas e, enfim, boa parte dos componentes que esperamos desse gênero e que ajudam a manter o público envolvido. A tentativa de fugir do modelo tradicional acabou sacrificando justamente aquilo que poderia tornar a experiência mais divertida.
Não sou o maior fã da Blake Lively, mas reconheço que ela consegue ser uma boa atriz quando recebe material suficiente para trabalhar. O problema é que aqui ela recebe uma personagem completamente insossa e sem graça. Ela ainda conta com o suporte de um Jude Law completamente apático e de um Sterling K. Brown absurdamente subutilizado, sendo que ambos poderiam render muito mais.
No fim, saí desse filme com a impressão de estar diante de um primo pobre de James Bond: aquele que tentou fazer as coisas do seu jeito, tentou seguir por um caminho diferente, mas não apenas não conseguiu fugir das comparações como também não conseguiu provar que esse novo caminho poderia dar certo. Há anos existe na internet uma discussão sobre a possibilidade de reformular 007, seja transformando-o em uma mulher, seja em um homem negro, enfim, fugindo da forma como o personagem foi originalmente concebido. The Rhythm Section poderia ter sido uma resposta interessante para essa discussão, uma espécie de versão feminina do clássico herói de espionagem. No final, porém, parece apenas uma oportunidade desperdiçada.
O Último Nascer do Sol
2.5 17 Assista AgoraTHE LAST SUNRISE
Direção: Carlson Young
Ano: 2026
Assistido em: 29/08/2026
Comédias românticas protagonizadas por jovens são a mesma coisa desde que o mundo é mundo. Elas não têm novidade, não têm muita profundidade e, honestamente, só servem para aqueles dias em que você não tem uma opção melhor para assistir. Eu vi o card deste filme no Prime Video, achei os atores bonitos e decidi dar play, só que tudo o que encontrei foi a mesmice ordinária de sempre.
Ry, uma jovem de 22 anos que enfrenta problemas crônicos de saúde e vive sob a proteção excessiva da mãe, sente que sua vida está sendo constantemente adiada. Quando as duas viajam para Maiorca por causa do trabalho da mãe, Ry decide aproveitar a oportunidade para experimentar uma independência que nunca teve. Em uma de suas primeiras aventuras sozinha, ela conhece Julián, um jovem espanhol que vive na ilha e a conduz para experiências completamente novas. À medida que o verão avança, a atração entre os dois cresce e Ry começa a descobrir uma versão de si mesma que desconhecia.
Eu não vou ser hipócrita e dizer que o filme não tem pontos positivos, porque ele tem. O elenco é muito bonito, nós temos cenas de Fernando Lindez sem camisa para ninguém reclamar, e os cenários da Espanha são deslumbrantes. Mas não vai além disso. É basicamente um filme visualmente agradável, porque, quando entra no campo da história, aí não há muito o que ser dito. É o mais do mesmo de sempre, com um dos protagonistas doente, que meio que já desistiu da vida, encontrando um grande amor e ficando naquele esquema meloso de “ah, meu Deus, estou morrendo, mas descobri o grande amor da minha vida, e por isso vou deixar de tomar os meus remédios”, algo que a gente já viu um milhão de vezes.
Tecnicamente falando, não há muito que ser dito. É aquela atuação básica de atores, não temos nenhum grande personagem, então nem é preciso esperar algo digno de Oscar ou nada disso. A trilha sonora é apagada e não há nenhum grande destaque em edição, e direção. O ritmo funciona para o que é uma comédia romântica, ou seja, tudo segue no compasso correto, da antipatia inicial entre os personagens até o momento em que eles vão se apaixonando. Enfim, é uma repetição do que já vimos ao longo de muitos e muitos anos.
Nos últimos tempos, estamos presenciando um boom de adaptações de literatura jovem e romântica. Algumas são boas, outras nem tanto. The Last Sunrise cai no grupo das nem tanto. Não é algo que vai ofender a inteligência de ninguém, mas também não vai ser escolhido como o filme favorito de ninguém. Ele é daqueles que você assiste hoje e amanhã já esqueceu, não da história, mas de ter assistido.
Chaplin
4.2 368CHAPLIN
Direção: Richard Attenborough
Ano: 1992
Assistido em: 29/08/2026
Se fizessem uma votação hoje, e tivéssemos que escolher o maior gênio da história do cinema, meu voto, com absoluta certeza, iria para Charles Chaplin. Ele jogava em outro nível. Não foi apenas um ator de extrema importância e de talento inquestionável. Não, o homem foi um pioneiro em todos os sentidos. Ele era um diretor excepcional, um roteirista brilhante, um empresário talentosíssimo que brigou contra o sistema e a indústria de Hollywood quando Hollywood ainda estava se formando. Era também um músico talentosíssimo, um bailarino e acrobata além do normal. Enfim, ele era o que podemos chamar de fora da curva. Um filme que conseguisse retratar todas as facetas dessa figura, ao mesmo tempo em que não deixasse de lado suas polêmicas, era um desafio muito grande de ser realizado, mas eu confesso que gostei muito daquilo que vi.
A vida de Charles Chaplin começa em meio à extrema pobreza da Londres do início do século XX, mas seu talento para a comédia o leva dos palcos ingleses aos Estados Unidos, onde rapidamente se transforma em uma das figuras mais populares do mundo. Por trás do personagem irreverente que conquista milhões de pessoas, porém, existe um homem ambicioso, perfeccionista e marcado por relações amorosas conturbadas, conflitos profissionais e controvérsias políticas. Enquanto sua carreira alcança proporções extraordinárias, Chaplin precisa lidar com o preço da fama e com as consequências de suas escolhas pessoais.
A vida de Chaplin não foi nada fácil, principalmente para o filho de uma mãe solo no final do século XIX. Ele foi obrigado, desde muito cedo, a enfrentar uma vida muito difícil, mas, por outro lado, aprendeu e descobriu muito rapidamente o seu grande talento e o quão especial ele era. Infelizmente, o filme tem muita coisa para contar, então nós não temos tempo a perder. A infância de Chaplin é tratada de uma forma muito breve, sendo que existiam muitas coisas a serem abordadas ali. Eu sei que Richard Attenborough seguiu a autobiografia de Charles, e isso acabou prejudicando um pouco a narrativa, já que o próprio ator não era muito afeito a falar sobre algumas passagens. Aliás, este é um problema do filme como um todo, e o maior deles, muitos pontos são trabalhados de uma forma muito rápida, sem que tenham o devido detalhamento necessário, principalmente as polêmicas.
Apesar de Chaplin ser, para mim, a maior figura da história do cinema, eu não nego que o fato de ele se envolver com jovens muito novas é altamente problemático e deplorável, para não dizer outra palavra. Só que eu também não sou adepto do revisionismo histórico ou de ressignificações. Nós não podemos julgar com os olhos do século XXI comportamentos do princípio do século XX, porque, se fizermos isso, não teremos ídolo nenhum. Enfim, eu fico aliviado que pelo menos isso tenha sido retratado em tela. Partindo do pressuposto de que estamos nos baseando em uma autobiografia que contou com o envolvimento direto da família do ator, ver o comportamento dele sendo criticado (não tanto quanto deveria, mas ainda assim criticado), foi impressionante.
Tecnicamente falando, o filme é muito bem trabalhado. Robert Downey Jr. conseguiu entregar uma fisicalidade muito grande, que era obrigatória para interpretar esse personagem. O ator conseguiu se disfarçar muito bem, só que eu não gostei de vê-lo como Chaplin nos anos 60 e 70. Downey era muito jovem em 1992, não tinha nem 30 anos, e interpretar um homem de mais de 80, mesmo com aquela maquiagem bem feita, não me soou tão natural. Os demais atores estão bem em seus papéis, mas, como há muita coisa a cobrir, todos passam muito rapidamente, não dando muito espaço para que ninguém brilhasse com maior intensidade.
Chaplin é daquelas cinebiografias que tentam cobrir toda a vida do personagem e, graças a isso, é um filme apressado. Eu senti que havia espaço para muito mais. Ele tem apenas duas horas e vinte minutos, mas é daqueles que poderiam ter bem mais duração e você não sentiria, porque é uma história tão rica e tão deliciosa de acompanhar que, ao final, a sensação que tive foi de que eu passaria tranquilamente das três horas sem cansar.
É impossível não se emocionar com as cenas finais, quando imagens do verdadeiro Chaplin aparecem naquela homenagem no Oscar de 1972. Aliás, achei o ponto de corte excelente: o momento em que Hollywood meio que pediu perdão a Chaplin pelos anos de perseguição. Foi verdadeiramente encantador.
Sem Controle
2.0 31 Assista AgoraTHE SHADOW EFFECT
Direção: Obin Olson e Amariah Olson
Ano: 2017
Assistido em: 23/08/2026
Tem filme que, antes mesmo de assistir, você já sabe que vai ser ruim. Você vê atores da série B, vê um diretor desconhecido, um pôster meio duvidoso e é batata. E como o mundo do cinema não se faz apenas de classe A, é preciso dar uma oportunidade para esses títulos inferiores, para ter repertório, para poder reconhecer ainda mais aqueles que são bons. Mas tem uns que só pela misericórdia.
Gabriel Howarth começa a ter sonhos violentos nos quais presencia assassinatos e outros acontecimentos perturbadores. Quando percebe que aquilo que vê durante o sono está de alguma forma relacionado à realidade, ele passa a questionar a própria mente e a descobrir que existe uma força misteriosa por trás de suas experiências.
Esse é daquele tipo de filme que, de tão previsível, se torna irritante. Logo nas primeiras cenas, você já percebe qual vai ser o plot twist. E eu não estou falando isso porque sou muito inteligente, não, longe disso. É porque é tão, mas tão previsível, e o roteiro é tão capenga, tão anêmico, que qualquer um percebe.
Outro ponto que merece ser comentado é a completa falta de sutileza do roteiro. Quando você percebe o que está acontecendo, fica nítido que você está assistindo a uma Laranja Mecânica (1971) às avessas, mas os diretores, não satisfeito, ainda mete uma cena chupada do clássico de Stanley Kubrick, com direito à reprodução idêntica do Tratamento Ludovico. Só que aqui feita sem impacto e sem delicadeza foi como colocar um elefante andando dentro de uma sala de estar.
E sobre o plot twist depois do plot twist, eu só gostaria de parabenizar quem teve uma ideia tão imbecil como essa. É como se o filme já não fosse uma ficção científica suficiente apenas com a questão das memórias; ainda inventaram de enfiar clonagem no meio. De fato, não é qualquer um que consegue ter tantas ideias cretinas juntas ao mesmo tempo.
Sobre o elenco, o pobre Cam Gigandet só faz o filme ruim, então até aí, sem novidades. Jonathan Rhys Meyers é muito bom, mas fez péssimas escolhas ao longo dos anos, e o Michael Biehn, infelizmente, perdeu tudo na virada dos anos 80 e, desde então, também só aparece nesse tipo de bomba genérica.
Completamente cansativo, frustrante e desgastante. A direção é tão abaixo incapaz de criar algo interessante, que 1h40min parecem 5h. The Shadow Effect não valoriza a experiência cinematográfica em nada, porque, até para ser ruim, é preciso ter um pouquinho de qualidade, e até nisso ele ficou devendo.
Fallen: O Filme
2.1 534 Assista AgoraFALLEN
Direção: Scott Hicks
Ano: 2016
Assistido em: 23/08/2026
O final dos anos 2000 e o comecinho dos anos 2010 foram um terreno fértil para adaptações literárias com foco no público juvenil. E tudo isso graças ao enorme sucesso, principalmente, de Harry Potter e, posteriormente, de Crepúsculo e Jogos Vorazes. Entretanto, pouquíssimos, para não dizer mais nenhum, conseguiram um sucesso parecido com o destes exemplos. Quando Fallen chegou à festa, ela já tinha acabado. Ele passou completamente despercebido, mas, com um resultado como o apresentado, eu acredito que isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com todos os envolvidos, já que o que temos aqui é claramente um caso capaz de destruir carreiras.
Após ser enviada para um reformatório por causa de um incidente misterioso, Luce Price se vê envolvida em uma atmosfera estranha e começa a se sentir inexplicavelmente atraída por Daniel, um jovem reservado que parece esconder um segredo. Enquanto tenta entender as estranhas visões que a perseguem, Luce descobre que sua vida está ligada a uma antiga e sobrenatural disputa.
Quando tudo terminou, a única coisa que vinha à minha cabeça era que talvez ele tivesse feito muito sucesso caso fosse lançado dez anos antes, lá pelos idos de 2006 ou 2007, porque claramente é um filme perdido no tempo e no espaço. Tudo nele está ultrapassado: os visuais, a fotografia, o perfil dos personagens. É tudo fora do seu habitat natural. Em 2016, histórias assim já não faziam sentido, já não faziam sucesso, então qual o sentido de lançar isso?
A mitologia apresentada é uma bomba quase atômica. Até onde vai o meu parco conhecimento, anjos caídos são aqueles que apoiaram Lúcifer, mas aqui eles são os que ficaram em cima do muro. Ok, não faz muito sentido, mas, se fosse explorado de uma maneira interessante... Mas não, não é. É tudo muito superficial. Você não sabe nada sobre eles, apenas que caíram na Terra, são imortais e têm umas asas horrorosas que me lembraram bastante uma versão inferior das usadas no Clube das Winx.
Direção tenebrosa, fotografia escura pra caramba, que não deixa você enxergar nada direito em muitos momentos, e atuações horripilantes. Eu me pergunto o que a Joely Richardson estava fazendo nisso. E o Jeremy Irvine coitado, estreou no cinema em grande estilo, sendo protagonista do Steven Spielberg, e pouco tempo depois estava estrelando essa bomba. Enfim, é difícil encontrar pontos positivos nisso aqui, mas eu vou destacar que eu ri em algumas situações com o quão boba e frágil é essa história, como todo o ato final, só para citar um exemplo, eles dizendo que Lucifer viria buscar a protagonista foi para gargalhar alto.
Sem absolutamente nenhuma curva narrativa interessante, sem nenhum drama forte, Fallen é fraco, fraco, fraco. Ele é esquecível e ruim mesmo dentre os esquecíveis e ruins. O que é uma grande tristeza, porque o dinheiro investido nisso aí poderia facilmente bancar algum outro projeto independente muito mais interessante. Mas eu pelo menos fico feliz, por um lado, que fracassos como esse foram decisivos para enterrar de vez essas tentativas que Hollywood tanto insistiu em fazer para tentar encontrar seu novo grande sucesso da fantasia infantojuvenil.
Lucky Strike
2.4 5LUCKY STRIKE
Direção: Rod Lurie
Ano: 2026
Assistido em: 22/08/2026
Como um apaixonado por história e um viciado na Segunda Guerra Mundial, eu ouço há anos falar sobre a grande Batalha das Ardenas (1944-1945), esse conflito em que o exército nazista deu seus últimos suspiros de resistência e que, a partir dali, seria massacrado sem poder fazer muita coisa. Um momento de extrema importância, de extrema relevância dentro do conflito, e tudo que envolve ele eu sempre gosto de ler, de conhecer. O auge foi na minissérie Band of Brothers (2001), e, quando fiquei sabendo deste filme, fiquei animado para assistir. Só que eu não imaginava que seria apenas os mesmos vícios das produções de guerra repetidos, sem nenhum brilho de inovação.
Durante a Batalha das Ardenas, em dezembro de 1944, o capitão americano John Castle sobrevive à destruição de sua unidade e fica isolado atrás das linhas alemãs. Ferido e equipado apenas com seu treinamento e um rádio, ele recebe instruções para percorrer cerca de 30 quilômetros até reencontrar as forças americanas. Enquanto atravessa as Ardenas em pleno inverno, Castle precisa evitar patrulhas alemãs, lidar com seus ferimentos e usar o rádio para transmitir informações importantes sobre os movimentos inimigos. A cada quilômetro, sua sobrevivência depende de encontrar maneiras de permanecer escondido enquanto tenta alcançar as linhas aliadas.
Meu problema com o filme é que eu cheguei esperando por algo minimamente próximo do que eu tinha visto na minissérie clássica da HBO, com os conflitos grandes, as lutas, mostrando o quão importante era aquela batalha, o quão decisiva ela era tanto para os Aliados quanto para o Eixo. E não é isso que a gente tem. O que nós temos é o velho arquétipo do soldado com trauma que precisa sobreviver sozinho após ter seu batalhão dizimado, e ele vai passando por dificuldades enquanto tenta voltar a um posto do seu agrupamento. É o que nós já vimos em um milhão de filmes produzidos por Hollywood. Ou seja, não tem nada, não tem um pingo de identidade e inventividade.
O Scott Eastwood herdou a beleza do pai, mas não o talento. Ele é muito fraco, mas eu acho que ele é esforçado. Eu creio que, com a influência certa, dá para sair alguma coisa. Infelizmente, ele não teve essa influência. Seu personagem é terrível de ruim, e todos em volta dele vão pelo mesmo caminho. A direção é insípida, sem vida; a fotografia é cinzenta, sem nada que se destaque; e o roteiro é tão monótono, tão previsível, que só desperta sono.
Muitos vão dizer que o filme é inspirado em uma história real e que pode ter respeitado o que de fato aconteceu. Para mim, isso tudo é balela. Hollywood só respeita histórias reais quando elas já são naturalmente cinematográficas. Quando eles querem, conseguem fazer com que elas soem mais interessantes, e aqui eles não fizeram. Aliás, por mim, eu até preferia que eles não fossem nada leais aos eventos históricos e, no lugar disso, pegassem pelo menos a história e fizessem um roteiro interessante. Não aconteceu.
Muitas pessoas amam filmes de guerra, amam conflitos, amam as cenas de troca de tiros. Eu, por outro lado, gosto mais dos bastidores, gosto mais dos detalhes. Eu esperava encontra isso, mas Lucky Strike é tão sem graça, tão fraquinho e tedioso. A única coisa que ele me deu foi sono. Eu pesquei algumas vezes enquanto assistia e nem tive interesse de voltar para ver o que perdi, porque a sensação que tive era de que não estava perdendo nada de relevante. Enfim, só espero que, da próxima vez que forem levar a Batalha das Ardenas para as telas, ela seja mais como fizeram no episódio 6 de Band of Brothers do que isso aqui.
George Washington
3.2 9YOUNG WASHINGTON
Direção: Jon Erwin
Ano: 2026
Assistido em: 22/08/2026
Eu gosto muito de conhecer a vida de grandes personalidades históricas e, gostando deles ou não, os presidentes dos Estados Unidos da América são figuras de poder que exercem uma influência absurda no mundo. Sempre achei interessante saber um pouquinho mais sobre eles. Quando tomei conhecimento sobre este filme, eu nem sabia direito do que se tratava. Basicamente, a única informação que eu tinha é que ele iria retratar a juventude de Washington, como o próprio título já entregava, mas eu já estava decidido a assistir. Após conferir o resultado final, a impressão que eu tive é que a ideia foi muito boa, mas o resultado ficou devendo muito.
Aos 21 anos, George Washington começa sua carreira militar durante as tensões entre britânicos e franceses pelo controle do território americano. Enviado à fronteira da Virgínia, ele se envolve no conflito que desencadeará a Guerra Franco-Indígena. Após um confronto desastroso com os franceses, Washington passa a servir sob o comando do general Edward Braddock, participando de uma campanha que termina em uma devastadora derrota britânica. Entre fracassos militares, disputas com seus superiores e experiências no campo de batalha, o jovem oficial começa a desenvolver a liderança e a experiência que futuramente o transformarão em um símbolo do país.
Os americanos têm a mania, o costume, a prática, seja lá o nome que podemos dar a isso, de idolatrar seus políticos, principalmente aqueles que eles chamam de “pais fundadores”. É algo que não existe aqui do nosso lado do continente. Os brasileiros têm verdadeiro horror de muitas de suas figuras de autoridade, então é difícil assistir a um filme onde o protagonista é um pilar de perfeição. Eu até fiquei surpreso que Washington tenha sido retratado como sendo uma pessoa ambiciosa e teimosa ao extremo, e essa teimosia levou a um grande desastre. O pilar moral que eles estavam criando nem combina muito com essas características.
Mas a forma como o roteiro retrata o personagem não me surpreende, já era algo que eu esperava. O que chamou minha atenção aqui mesmo é a direção, que é pavorosamente ruim. A forma como tentam criar tensão, mostrando os rostos desesperados dos homens do futuro presidente esperando por orientação enquanto uma música em tom de desespero sobe, é uma das maneiras mais patéticas e ordinárias de tentar despertar uma emoção no público. O que não acontece. Muito pelo contrário: esse povo todo é tão superficial, tão raso, que não dá para você ter empatia por eles. No final, você pouco se importa com o que está acontecendo ou não.
Eu fiquei bastante surpreso com o elenco, porque todas as atuações são bem ruinzinhas, mas encontrar nomes como Mary-Louise Parker, Ben Kingsley e Andy Serkis em um filme desses só me fez perguntar se eles estavam com algum agiota nas suas colas, se estavam precisando de um troco para poder se livrar do problema, porque é inacreditável como o nível de atuação aqui está baixo. O protagonista, William Franklyn-Miller, é uma gracinha, mas, misericórdia, é uma cara de perdido. De quem não sabe o que está acontecendo.
Para não dizer que é um filme completamente inútil, eu acredito que quem o assistiu em uma sala de cinema pode ter se divertido com as cenas de luta e de batalha, mas, fora isso, ele dá aquela impressão de filme de televisão... Eu até ia dizer um documentário feito pelo History Channel, mas parece mais aquelas subproduções feitas por um Hallmark da vida. Nada se destaca. A trilha sonora é ruim, apagada, sem vida; a fotografia é fria demais, não cria momentos impactantes; a edição é monótona. Enfim, é um filminho bem qualquer nota.
Pelo menos para mim, ele serviu para aprender um pouquinho de história e, como eu sou completamente encantado por conhecer o passado, ainda consegui tirar algum proveito disso tudo. Mas, honestamente, é um filme do qual eu me arrependi muito de ter criado qualquer espécie de expectativa.
Quatro Vidas de Um Cachorro
3.8 728 Assista AgoraA DOG'S PURPOSE
Direção: Lasse Hallström
Ano: 2017
Assistido em: 16/08/2026
Eu vou confessar uma coisa: quando criança, eu amava filmes de cachorro. Depois de adulto, passei a evitá-los, e não é porque eu não aguento ver cenas dos bichinhos sofrendo, nem nada disso. Apesar de ser apaixonado por eles desde que me entendo por gente e, se pudesse, teria um verdadeiro canil na minha casa, não é por isso que me afastei desse tipo de produção, mas porque os roteiros são tão ruins, tão fracos e tão previsíveis que eu optei por esse afastamento. Porém, quando li a premissa deste aqui, fiquei interessado, principalmente porque ele me lembrou um dos filmes que eu mais amava quando criança e que era repetido à exaustão na Sessão da Tarde: o clássico (pelo menos no meu coração), Fluke (1995).
Bailey é um cachorro que, após morrer, renasce repetidamente em diferentes corpos caninos ao longo de várias décadas. A cada nova vida, ele conhece pessoas diferentes, experimenta novas relações e desempenha papéis distintos na vida de seus donos. Apesar das mudanças, Bailey mantém uma espécie de consciência de suas existências anteriores e começa a perceber que cada uma delas possui um propósito, especialmente sua ligação com Ethan, o garoto que se torna seu primeiro e mais importante companheiro.
Como disse, este filme me lembrou muito Fluke, só que, diferentemente do longa dos anos 90, aqui não é um ser humano que reencarna em um cachorro, mas sim um cãozinho que vai reencarnando, e nós vamos acompanhando cada uma das interações que ele tem com os seres humanos. Aí vai da crença de cada um: se você for adepto do kardecismo ou do hinduísmo e acredita em reencarnação, talvez essa premissa faça ainda mais sentido para você. Mas não estamos aqui para falar sobre isso, mas sobre o filme. E aí está o problema dessa história: apesar de ter uma ideia interessante, a execução dela é uma tristeza.
O maior problema está na montagem. Ele não tem nenhum primor de roteiro; é o básico, aquela água com açúcar que sempre me manteve afastado dos filmes de cachorro. Mas o problema é que o ritmo é terrível. É muito truncado e, em alguns momentos, extremamente cansativo. Há uma hora em que a história fica particularmente arrastada, principalmente nas cenas da fazenda. Cheguei a me perguntar quando esse cachorro finalmente iria morrer, desencarnar e partir para a próxima vida, porque aquela estava muito chata. Muito chata mesmo.
E assim nós vamos seguindo, presos a uma previsibilidade que não dá ao roteiro qualquer espaço para escapar do óbvio. O longa tenta o tempo todo nos fazer chorar, mas trabalha com uma emoção falha, que não parece verdadeira. Eu admito que fiquei muito sensibilizado com todas as cenas de morte, porque qualquer pessoa que já perdeu um animalzinho sabe que essa é uma das piores experiências da vida. Mas, fora isso, não houve nada aqui que me fizesse de fato ficar impressionado.
O fato de enxergarmos tudo pelo olhar do cãozinho Bailey torna muitas coisas no roteiro problemáticas. Por exemplo, a transformação dos personagens é extremamente abrupta. Em determinado momento, o pai do protagonista é um homem tranquilo; logo depois, descobrimos que o cara já é um alcoólatra, colocando a família em risco. E o que aconteceu com o garoto responsável pelo incêndio? Nada disso é devidamente esclarecido porque estamos presos à visão do cãozinho. Mas um bom roteiro poderia resolver essa situação. O problema é que nós não temos um bom roteiro.
Tirando o fato de que o título brasileiro não faz o menor sentido, afinal de contas nós vemos cinco encarnações da vida de Bailey, e não apenas quatro, Quatro Vidas de um Cachorro é uma adaptação que pode funcionar de maneira diferente para pessoas mais sensíveis. Eu entendo que ele possa tocar alguém de uma forma muito particular, mas, honestamente, não me causou nenhum impacto. Assisti, achei interessantes algumas partes, mas, assim que os créditos começaram a subir, eu já tinha deletado muita coisa da minha mente. O resultado final é, acima de tudo, um filme esquecível.
Os Homens Preferem as Loiras
3.9 371 Assista AgoraGENTLEMEN PREFER BLONDES
Direção: Howard Hawks
Ano: 1953
Assistido em: 16/08/2026
Não sou o cara dos musicais. Não fui acostumado a eles, haja vista que, desde pequeno, sempre fui mais exposto ao cinema realista, de suspense e tensão. A exceção, obviamente, é a era renascentista da Disney, mas essa é uma proposta completamente diferente dos musicais clássicos por se tratar de animações. Como eu não tenho preconceito cinematográfico, mesmo não sendo a minha praia, ainda assisto. E, nesta semana, eu me peguei lendo sobre a vida de Marilyn Monroe e percebi que nunca tinha assistido ao seu primeiro grande sucesso, o filme que a projetou. Decidi, então, que era hora de corrigir essa falha.
Lorelei Lee e Dorothy Shaw são duas cantoras e melhores amigas que trabalham juntas em um clube noturno. Enquanto Dorothy é romântica e procura um homem que realmente a ame, Lorelei está noiva do milionário Gus Esmond, cuja família desaprova o relacionamento por acreditar que ela está interessada apenas no dinheiro. Quando Lorelei embarca com Dorothy em uma viagem de navio rumo à Europa, as duas acabam envolvidas em uma série de situações amorosas, confusões e encontros com homens ricos, enquanto um detetive particular contratado pelo pai de Gus passa a vigiá-las de perto.
Confesso que o musical aqui não me incomodou. Afinal de contas, temos como protagonistas duas performers, duas jovens extremamente bonitas que já cantavam e dançavam no palco. Então, quando elas começam seus números musicais, eu os enxerguei como uma extensão natural de suas personagens. O roteiro não é dos mais complexos: é algo bem simples. Um ponto alto para mim foi o humor e suas sutilezas, principalmente as de Lorelei, personagem da Marilyn Monroe, que, do alto de sua inocência — para não dizer falta de inteligência —, foi capaz de soltar algumas pérolas simples, mas verdadeiramente engraçadas.
Mas, mesmo eu não sendo chegado do gênero é impossível fechar os olhos para Diamonds Are a Girl's Best Friend. Mesmo não sendo o maior fã da música, o número como um todo é um espetáculo, literalmente falando. Marilyn, no auge da beleza e do carisma, com o figurino lendário e uma coreografia muito bem planejada e executada. É impossível chegar 100% limpo para assistir a essa cena porque, mesmo que você nunca tenha visto o filme, provavelmente já assistiu ao clipe Material Girl, da Madonna; à apresentação de Ryan Gosling cantando I'm Just Ken na cerimônia do Oscar; ou a qualquer um dos muitos momentos da cultura pop que foram impactados por essa cena.
Tecnicamente falando, o filme tem todos aqueles trunfos do cinema clássico, que vão desde figurinos e cenários muito bem produzidos até atores com uma dicção excelente e performances que trazem um pouco da energia da época. Mas, até aí, nada fora do normal. A direção também é muito competente, sempre buscando os melhores enquadramentos e ângulos para que o público veja esse espetáculo da forma mais precisa possível.
Os Homens Preferem as Loiras pode não ser comumente citado entre os grandes musicais, pelo menos não entre os maiores, mas, sem sombra de dúvidas, foi um dos que eu mais achei divertido. E, novamente, eu não sou um adepto desse tipo de filme. Mas o mais importante é que consegui me divertir bastante e, ao final, é isso que qualquer pessoa quer de um filme: se divertir, desligar um pouquinho da realidade e simplesmente aproveitar aquele momento. Nesse sentido, o objetivo foi atingido com excelência. Então, não tenho nada mais a pontuar.
Hit Para Dois
3.2 16POWER BALLAD
Direção: John Carney
Ano: 2026
Assistido em: 15/08/2026
Quem já procurou conhecer minimamente os bastidores do mundo da música sabe que é um universo muito complicado. Acusações de plágio existem aos milhares mundo afora, e conseguir provar esse tipo de coisa é muito difícil. É praticamente impossível lutar contra os colossos do mundo musical. Quando vi que essa era a proposta de Power Ballad, fiquei muito interessado para saber como seria o desdobramento de toda essa história.
Rick é um cantor de casamentos que já viveu dias melhores quando conhece Danny, um antigo astro de boy band cuja carreira também está em decadência. Os dois se aproximam durante uma apresentação e acabam compondo juntos em uma madrugada de música e bebida. Quando Danny transforma uma das canções de Rick em um grande sucesso e consegue recuperar sua própria carreira, Rick se vê deixado de lado e decide lutar pelo reconhecimento que acredita merecer. A busca pela autoria e pelo sucesso, porém, ameaça colocar em risco sua amizade com Danny e tudo aquilo que realmente importa para ele.
O que encontramos aqui é uma história muito simples, muito leve e descompromissada. Eu diria que é um filme que trata tudo de uma maneira muito en passant. Nós temos o Rick sendo roubado pelo Danny, entretanto, a vida dele começa a desandar e, ainda assim, o roteiro em momento algum dá muita profundidade para nada do que está acontecendo. Rick vê sua vida afundar, enquanto o Danny retorna com força total aos holofotes, isso poderia render boas discussões. Mas não era o plano do diretor levar a história para esse lado, então ele trata tudo de uma maneira muito leve, e aí está o problema.
Durante todo o filme fiquei esperando a catarse, um momento de recompensa em que finalmente aquele pobre diabo do Rick provaria que estava correto. Só que esse momento não veio. Ele não teve o apoio da esposa, não teve o apoio da filha — que, aliás, é uma tremenda filha da puta e não merecia a música que foi composta para ela — e, quando finalmente chega o momento de contar a verdade, o filme acaba. Temos apenas uma cenazinha, nos confirmando que as coisas deram certo. Mas eu gostaria de ter visto isso acontecendo. Gostaria de ter visto o Rick provando que estava correto. Gostaria de ter visto o que aconteceu com o Danny. Apesar de sabermos que, no mundo da música, o máximo que poderia ter acontecido seria um acordo e vida que segue, tudo isso não foi mostrado. E aí fica uma sensação de filme incompleto.
Eu não conhecia o trabalho do diretor John Carney, apesar de ele ser muito renomado, mas gostei bastante da direção. Gostei também do roteiro, apesar das falhas, facilidades e muitas conveniências como soluções deus ex-machina. Sou fã do Paul Rudd, sou fã do Nick Jonas e os dois têm uma química muito boa em tela. A música em questão How to Write a Song (Without You) é muito boa, as músicas escolhidas para tocar nos casamentos são clássicos, então é tudo muito gostoso de assistir. É um filme rápido, de uma hora e meia, que não incomoda ninguém. Como foram muito sincero aqui nos comentários: é uma sessão da tarde.
No final, Power Ballad poderia ter sido um grande drama, até mesmo um grande filme de tribunal, mas, por escolhas criativas, tornou-se um filme muito mais leve. Não quiseram pesar o clima. Era o que eu gostaria? Sim. Mas a escolha do seu diretor é soberana. E vendo o resultado, o que importa é que, no fim, foi um bom filme.
Golpe Explosivo
2.9 34 Assista AgoraFUZE
Direção: David Mackenzie
Ano: 2025
Assistido em: 15/08/2026
Eu cheguei a uma fase da experiência cinéfila em que atualmente me mantenho completamente afastado de sinopses e trailers. A única coisa de que preciso para assistir a um filme é gostar do diretor, do elenco e de uma ou duas linhas que leio ali no IMDb apresentando muito brevemente a história. É claro que estou cronicamente acompanhando as notícias dos bastidores de Hollywood, então sei mais ou menos do que cada filme se trata, mas essa estratégia às vezes pode nos garantir bons filmes, medianos e filmes muito ruins. Ainda assim, a experiência de chegar para assistir a um filme sem saber o que você vai encontrar é, para mim, a melhor alternativa.
Em Londres, a descoberta de uma bomba não detonada da Segunda Guerra Mundial em um canteiro de obras provoca uma enorme operação de evacuação. Enquanto militares e policiais correm contra o tempo para controlar a ameaça e retirar milhares de pessoas da região, um grupo de criminosos aproveita o caos e a cidade praticamente esvaziada para colocar em prática um elaborado assalto.
Eu gosto dos trabalhos do David Mackenzie, gosto das críticas sociais que ele costuma apresentar e, sendo honesto, esperava algo nesse sentido com Fuze. Entretanto, o maior problema deste filme, sem sombra de dúvidas, é o roteiro: muito simples, muito banal e, principalmente, incapaz de desenvolver os personagens. Alguns são completamente superficiais, enquanto outros são até mesmo vazios.
O roteiro apresenta um plot twist lá no final e tem um flashback que vai nos explicar o comportamento das personagens. Convenhamos: se você pegar aquela cena final e encaixá-la no começo do filme, vai perceber que ele ficará ainda mais simplório. E aí está o problema: o plot twist não vem como uma decisão narrativa interessante que vai justificar algumas coisas do roteiro. Não. Ele só vai te deixar com a sensação de: “Ah, então era isso”.
O elenco aqui é a peça-chave. Eu gosto demais do Aaron Taylor-Johnson, o Theo James vem melhorando como ator, mas confesso que esperava mais de ambos e, novamente, o roteiro não colabora, então não há muito o que ser feito. E ainda temos o sempre péssimo Sam Worthington, canastrando em um personagem secundário, tem quase 20 anos que me pergunto como esse homem ainda trabalha na indústria. A direção é boa, mas confesso que esperava mais. A edição é ágil, a duração de 1h38min não deixa o filme se estender demais, a trilha sonora poderia ser mais marcante.
Fuze é um filme que estava com bastante expectativa para assistir e, apesar de ele não ter atendido a todas elas, não saí insatisfeito. Eu gostei. Foi um entretenimento válido, daqueles que você assiste ali rapidinho, sem se preocupar muito com uma história mirabolante. A história simples traz uma outra surpresa que vai te pegar de calça curta, mas não é nada que vá ficar marcado nos anais do cinema, nem que vá fazer você se encantar pela sétima arte. É o básico feito de uma maneira básica.
Leviticus
3.3 95LEVITICUS
Direção: Adrian Chiarella
Ano: 2026
Assistido em: 11/08/2026
A safra do terror dos últimos três ou quatro anos vem sendo a melhor em décadas. No meu tempo de vida e de cinéfilo, eu nunca vi tantos filmes do gênero com tanta repercussão e recebendo tantos elogios. Leviticus é um longa que causou certo barulho no começo deste ano e que infelizmente não chegou aos nossos cinemas, muito provavelmente por ser protagonizado por um casal gay. Isso, obviamente, só gerou ainda mais interesse, especialmente em uma pessoa LGBT. Cheguei de coração aberto e, apesar de algumas ressalvas, gostei muito do que vi.
Em uma comunidade cristã isolada e ultraconservadora no interior da Austrália, os adolescentes Naim e Ryan começam a descobrir a atração que sentem um pelo outro. Quando o relacionamento é descoberto pelo pastor local, os dois são submetidos a um ritual de “cura”. A cerimônia, porém, dá terrivelmente errado e liberta uma entidade violenta que assume a forma da pessoa que cada um deles mais deseja.
É impressionante como a perseguição e o ódio manifestados por muitas religiões e por muitos religiosos são iguais, não importa se você esteja no Brasil, no interior da Austrália ou em qualquer outro lugar do mundo. Onde existe fanatismo religioso, uma pessoa LGBT dificilmente tem paz, e aqui isso é retratado de forma muito clara. O que mais me assustou foi ver a naturalidade com que o ódio e o preconceito são apresentados em tela, e apresentados de maneira extremamente convincente. As famílias dos jovens submetidos à “cura” agem como se nada estivesse acontecendo; muitos preferem aquilo a ter um filho homossexual. É doloroso saber que essa é a realidade de muitas famílias e de muitas pessoas.
Adorei a metáfora da aceitação, a ideia de que primeiro você precisa superar o seu próprio medo e o seu próprio preconceito para conseguir se aceitar. Amei tudo isso. Mas há um ponto que não consigo relevar e que foi, sem dúvida, o aspecto que mais me desagradou: o mau comportamento termina vencedor e, mais do que isso, recompensado. Os pais de Ryan e Hunter, assim como a mãe de Naim, não sofrem absolutamente nenhuma consequência; saem praticamente incólumes no final. O maior problema ainda, porém, é justamente o próprio Naim.
Entendo que muita gente vai defendê-lo dizendo que ele é apenas um adolescente perdido e confuso com os próprios sentimentos. Ainda assim, acredito que mau-caratismo não tem idade. Certas coisas você aprende desde pequeno que são certas ou erradas, e o que ele faz acaba contribuindo diretamente para a perda de uma vida. Hunter morre por causa de todo aquele processo. “Ah, mas os pais e o pastor maluco foram os verdadeiros responsáveis.” Foram, sem dúvida, mas ele também teve sua parcela de culpa. E vê-lo terminar a história fugindo tranquilamente ao lado do grande amor da sua vida é algo que considero inconcebível. Para mim, é muito difícil aceitar que o protagonista cometa um ato tão grave e não pague por isso.
Tecnicamente, é um filme muito bem feito. A direção é segura, os atores são ótimos, muito expressivos e intensos em suas performances, e a edição funciona muito bem. É uma obra rápida, que transmite sua mensagem sem enrolação. Entretanto, nem tudo é perfeito. Achei os personagens bastante superficiais; o único traço realmente desenvolvido neles é o fato de serem homossexuais. Falta profundidade, e isso é um problema de roteiro que poderia ter sido trabalhado melhor. Também me incomodou a fotografia excessivamente escura. Filme escuro não é sinônimo de filme sombrio, e acredito que muitos diretores novatos ainda têm dificuldade em compreender essa diferença.
No geral, ao término da sessão, entendi melhor por que o filme sofreu tanto boicote no Brasil, um país que, a cada dia que passa, parece mais dominado por um neopentecostalismo fanático. Leviticus escancara que o ódio mata e que a responsabilidade pelos seus atos não desaparece simplesmente porque você acredita estar fazendo a coisa certa. Isso é triste, porque obras como essa deveriam ter mais repercussão e ser mais reconhecidas. Já passamos da fase de sermos apenas “bonzinhos” e complacentes. Precisamos ser mais firmes na nossa voz, mais claros nas nossas posições e mais intensos com quem pratica preconceito. Intolerância não tem espaço, preconceito não deve ter lugar, e combatê-los é uma obrigação de qualquer sociedade que se pretenda minimamente humana.
Insaciável
3.0 65SACCHARINE
Direção: Natalie Erika James
Ano: 2026
Assistido em: 07/08/2026
Estamos vivendo uma safra de filmes de terror que há muitos anos não se via, pelo menos não desde os anos 80, quando inúmeras ideias estavam gerando produções diferentes, que não se sustentavam apenas naquelas velhas franquias. Muito pelo contrário, estamos vendo o nascimento de potenciais clássicos do futuro. A ideia de Saccharine foi tão absurda que eu pensei que poderia gerar um terror de respeito, mas, apesar de se destacar em alguns pontos, tem algumas derrapadas que impedem que o resultado seja ainda mais satisfatório.
Hana é uma estudante de medicina que vive obcecada com o próprio peso e insatisfeita com seu corpo. Depois de conhecer um método aparentemente milagroso para emagrecer, ela começa a utilizar pílulas produzidas a partir de cinzas humanas, disposta a ignorar a origem perturbadora do tratamento em busca do corpo que deseja. Conforme sua obsessão se intensifica, Hana passa a experimentar consequências cada vez mais assustadoras e começa a ser atormentada por uma presença sobrenatural. Presa entre a compulsão, a culpa e o horror, ela precisa lidar com o preço macabro de sua busca por transformação.
Meu grande problema com esse filme é que eu senti que ele se conteve o tempo todo. O terror, de fato, nunca chegava aonde deveria chegar. Nós temos algumas cenas bastante grotescas que apelam para o gore, mas, fora isso, não temos grandes momentos de tensão ou grandes curvas dramáticas que façam a história andar. Inclusive, em determinados momentos, eu me senti até enganado, porque parecia estar assistindo a um grande suspense psicológico e não a um terror propriamente dito. Faltaram decisões narrativas que fizessem o filme se tornar mais assustador.
Os personagens são bem apáticos. Convenhamos que nenhum deles é verdadeiramente carismático. Não que as performances sejam ruins, longe disso, os atores estão até bem. O problema está na escrita, que não conseguiu desenvolver essas figuras de uma forma que as deixasse carismáticas, que fizesse com que nós nos preocupássemos com elas. E aquela coisa: quando você não liga para o que vai acontecer com as personagens, fica difícil sustentar o interesse.
Vi algumas pessoas defendendo que esse não é bem inédito. De fato, não é. Tem um pouquinho de The Substance (2024), de The Whale (2022), de Smile (2022), mas essa mistureba toda acaba gerando um filme que não se destaca em nenhum aspecto. Ele não é um desastre, não é ruim a ponto de incomodar, só não é memorável o suficiente. É aquela diversão momentânea que você assiste e logo esquece.
Sobre o final, eu achei bem covarde, porque, se você reparar bem no ambiente, vai perceber que tudo está indicando ser mais um delírio por parte da Hana do que realidade, o que seria muito mais interessante se fosse verdade.
Homem-Aranha: Um Novo Dia
4.0 389SPIDER-MAN: BRAND NEW DAY
Direção: Destin Daniel Cretton
Ano: 2026
Assistido em: 02/08/2026
O Homem-Aranha é, ao lado do Batman, o meu herói favorito das histórias em quadrinhos. Inclusive, apesar de ficar em segundo lugar atrás do Morcegão, é o presente na minha vida há mais tempo, aquele de quem tenho mais lembranças da primeira infância. Eu estava lá na sala de cinema vendo o primeiro live-action, então já deixo claro desde o início: sim, eu sou viúva do Tobey Maguire. Ele continua sendo o meu favorito, e eu torci muito o nariz para o Tom Holland quando assumiu o personagem. Mas fico feliz em dizer que agora, no quarto filme, passados dez anos, eu finalmente consigo reconhecer o Homem-Aranha nele. Pela primeira vez senti que ele entendeu o que é o personagem.
Quatro anos se passaram e Peter Parker agora vive completamente sozinho, tendo apagado sua existência das memórias das pessoas que ama. Sem ninguém conhecer sua verdadeira identidade, ele se dedica integralmente a combater o crime em Nova York como Homem-Aranha. Porém, uma sequência de crimes misteriosos coloca o herói diante de uma ameaça diferente de tudo que já enfrentou. Ao mesmo tempo, a pressão de sua vida solitária provoca uma transformação física inesperada que pode colocar sua própria existência em risco.
Uma coisa que me incomodou muito nos três primeiros filmes do MCU foi o fato de o herói ser excessivamente dependente de outras figuras. Ele era basicamente um Menino de Ferro; não era o Homem-Aranha. Em Brand New Day ainda existe um certo apoio de Bruce Banner e Frank Castle, mas vemos Peter se virando mais sozinho, descobrindo as coisas graças à própria inteligência, tomando decisões por conta própria e agindo como protagonista da própria história. Para mim, se removessem essa maldita tecnologia do uniforme e essa inteligência artificial, aí sim estaria perfeito.
O grande trunfo do roteiro é a figura da vilã, que, convenhamos, Marvel e Sony guardaram tão mal que todo mundo já sabia que Jean Grey estaria no filme. Eu gostei muito da atriz no papel, mas não gostei da forma como ela foi utilizada. Não me desce que uma das personagens mais importantes, uma das membras fundadoras dos X-Men, seja usada como vilã de um filme do Homem-Aranha, ainda mais um personagem que possui uma galeria de vilões tão rica e interessante.
Quanto aos personagens coadjuvantes, honestamente, eu não estou nem aí para Hulk e Justiceiro. E, se estivesse ao meu alcance, eu já teria matado essa MJ e esse Ned há muito tempo. Mas entendo que, sendo Zendaya esposa do Tom Holland, provavelmente nunca vamos nos livrar dessa personagem horrorosa.
Uma grande mudança nos bastidores é a saída do genérico Jon Watts e a entrada de Destin Daniel Cretton. Não que o segundo seja um primor de diretor, mas, em comparação com o primeiro, ele se sobressai bastante, principalmente nas tomadas aéreas, naquelas em que vemos o Homem-Aranha balançando pelas teias. Finalmente aparece um pouco de criatividade, algo que eu não via nos três filmes anteriores. A coreografia das lutas também está bem melhor, e isso fica evidente quando lembramos do trabalho do diretor em Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings (2021).
Ainda assim, existe um CGI pavoroso que te tira do filme em várias sequências, principalmente nas que mostram a cidade de Nova York. Todo mundo sabe que aquilo não é Nova York, não porque o filme foi rodado na Escócia, mas por conta do visual ruim. Enfim, são problemas repetidos que a Marvel parece não fazer a menor questão de resolver.
Brand New Day é claramente um dos melhores filmes dessa nova fase do Homem-Aranha iniciada em Homecoming (2017), o que também não é muito difícil, já que os dois primeiros são bem fraquinhos. Ainda assim, eu continuo preferindo No Way Home (2021), porque o impacto de ver as três gerações do personagem juntas foi muito mais forte.
Mesmo assim, este é um filme muito bom, com um Peter que chama para si o protagonismo e o sustenta de verdade. E ele reforça uma das minhas críticas mais pesadas ao Homem-Aranha de 2017: o personagem não precisa de mentor e não precisa do Homem de Ferro. Aquele era o grande problema do primeiro filme, o fato de Peter estar ancorado demais em Tony Stark. Para mim, este longa é a prova definitiva disso. O Homem-Aranha é o maior herói da Marvel. A Marvel é que precisa dele, o MCU é que precisa dele; ele não precisa do resto do MCU. Ele funciona sozinho, e este filme prova isso para todo mundo.
Colheita Maldita
3.1 512 Assista AgoraCHILDREN OF THE CORN
Direção: Fritz Kiersch
Ano: 1984
Assistido em: 26/07/2026
Como todo fã do mestre do terror, eu tenho a ambição megalômana de um dia ler toda a obra dele, e recentemente tive a oportunidade de ler a primeira coletânea de contos que ele publicou, Sombras da Noite (1978). Um dos últimos contos do livro é justamente As Crianças do Milharal, que serve de base para este filme, e como ele ficou no meu top 3 dos contos que compõem a coletânea, eu imediatamente vim atrás da adaptação, até porque eu nunca tive muito interesse por ela, principalmente devido às críticas nada positivas que recebeu ao longo das últimas quatro décadas. Quando concluí a exibição do filme, pude entender perfeitamente o porquê.
Durante uma viagem pelo interior de Nebraska, Burt e Vicky acabam chegando à pequena cidade de Gatlin depois de um acontecimento inesperado na estrada. O casal logo percebe que o lugar está praticamente deserto e que as poucas pessoas que permanecem ali são crianças. Conforme investigam o estranho comportamento dos moradores, descobrem que a comunidade é dominada por um culto religioso liderado por um garoto chamado Isaac, que acredita que os adultos devem ser sacrificados a uma entidade sobrenatural que habita os campos de milho.
É óbvio, compreensível e justificável que toda adaptação precise fazer modificações. Literatura e cinema são artes diferentes, têm linguagens e propostas distintas, mas certas mudanças são verdadeiramente injustificáveis. No conto, o casal Burt e Vicky está a um passo do divórcio. Eles têm um relacionamento completamente desgastado e fazem aquela viagem como uma tentativa desesperada de não se separarem, e é justamente essa situação que desencadeia toda a tensão dramática entre eles e justifica as escolhas feitas ao longo da trama. Isso foi removido da adaptação. O casal aqui é apenas um casal qualquer; existe uma ou outra desavença, mas, em linhas gerais, está tudo bem, e isso enfraquece violentamente a proposta da história.
Outra situação verdadeiramente perturbadora, que me fez questionar a capacidade mental de quem assinou esse roteiro, é que logo nas primeiras cenas eles entregam todos os pontos de relevância da história. No conto, vemos a dupla chegando naquela cidadezinha deserta e percebendo que há algo errado, e aí surge um mistério: o que aconteceu? Onde estão as pessoas? Depois vem outro mistério: onde estão os adultos? Aqui não existe nada disso. Logo nas primeiras cenas, todo o trunfo do suspense e do mistério vai pelo ralo, porque já nos entregam tudo de cara. Não há motivo para ficar ansioso querendo descobrir o que está acontecendo naquela cidadezinha, porque o roteiro já estragou essa experiência.
Outro problema é que Hollywood não consegue aceitar certas noções, então enfiam uma dupla de irmãos bonzinhos no meio da história, quando, na realidade, as crianças são o mal puro. E, por falar em mal puro, o conceito do “Aquele que anda por trás das fileiras" também é completamente alterado. No conto, não sabemos o que é esse mal; isso permanece um mistério, tanto que existe até uma suposição de que seja Randall Flagg. Aqui não. Aqui ele vira uma massa cinzenta ridícula que precisam enfiar na história para justificar um finalzinho bonitinho.
O maior problema de uma adaptação malfeita é esvaziar a história original, fazer com que ela perca força, e foi exatamente isso que aconteceu em Children of the Corn. Tudo o que havia de positivo e interessante no material-base foi enfraquecido, mutilado e distorcido para virar um filme genérico que não dá para levar a sério. Creio que, se você não conhecer o material original, até consegue se divertir, mas é impossível não traçar um comparativo. E, quando você chega a esse ponto, fica nítido o quanto enfraqueceram a base original. Resta aquele gostinho de que uma adaptação decente poderia ter se tornado um clássico, mas, pesquisando sobre essa franquia, tudo o que descobrimos é que a situação pioraria muito ao longo dos anos. Então é melhor parar por aqui.