Filme na média, bom design de produção, figurino e trilha sonora. Encapsula bem os anos 2000, nostálgico para quem passou a infância/adolescência nessa época.
O roteiro (sem filtro nenhum) envelheceu mal e é agravado com atuações que não convencem. A sensação é que o filme podia ter sido muito mais do que foi, mas diverte no que consegue entregar.
Muita câmera na mão e pessimismo, "Tudo Sobre Lily Chou-Chou" se torna emblemático no que é (ou no que tenta ser).
Gosto muito do cinema que se permite não ser polido, aqui o filme abraça o caos e a captação ruidosa de imagem. Um prato cheio para quem aprecia a estética da filmadora portátil, o segmento em Okinawa é um mergulho no trauma através dos quadros.
O filme é excessivo na exposição do comportamento disfuncional dos jovens, sem trazer uma clareza narrativa para as conexões, isso gera uma frieza involuntária no espectador. O chat de adoração à Lily é a forma que compreendemos as motivações e crises internas daquela sociedade juvenil, mas tudo é muito abstrato, nesse sentido que o filme se perde.
Talvez seja uma escolha da direção: trabalhar os extremos sem recuar. O desfecho
Lars von Trier é o cineasta da dor, dividindo a realeza com Michael Haneke.
Quando digo dor, não é apenas a exposição gráfica do sofrimento, é a elaboração escrita, vivida, calculada do que é sofrer. Em "A Casa que Jack Construiu", há um tormento mórbido no assassino desnorteado com os próprios rastros. Perdido na contradição de querer mostrar seus crimes e viver fugindo.
A estética da câmera na mão faz o espectador ser voyeur da violência extrema, o olho que espia. É isso que Trier sempre fez, aqui ele grita isso para o mundo (como se já não soubéssemos). A própria escalação da Uma Thurman
reafirma a devoção do diretor ao cinema extremo, quase como uma religião.
O filme é excessivo, as vezes tenso e as vezes tedioso. Cheio de contradições e insuficiências: a viagem do cruel Jack com Virgílio (na travessia de Caronte) é pintada com a beleza de uma tela, e isso é Lars von Trier em essência.
Uma das metáforas que Guillermo del Toro joga na cara do espectador. Ainda que não seja sutil, funciona bem. A Medusa, forjada nos quereres e vaidades dos deuses, torna-se uma ferramenta de destruição, condenada na agonia de causar morte.
O Adão e o conhecimento
A Criatura, em seu mais simbólico ato (e, novamente, pouco sutil por parte da direção) lê o Gênesis bíblico. A aquisição do conhecimento e da linguagem — o fruto proibido — é também sofrimento: pois entende o que representa ser acorrentado pelo seu próprio criador.
Ainda que não seja o roteiro mais enxuto, há boas intenções aqui. O design de produção está longe de ser o melhor do diretor, CGI excessivo e muita estilística Netflix. Creio que cumpre a homenagem ao legado de Mary Shelley, uma perspectiva nova (e, merecidamente, gótica) desse clássico.
Adilson Barros está a cara do Harry Dean Stanton — de "Paris, Texas" — aqui.
Essa comédia tem um texto bem legal, criativo. Bebeu da fonte de Guimarães Rosa, trouxe aquela "neossintaxe" do português que é sempre reconfortante de assistir. Até os sotaques (que não decidem de onde são) trazem mais ludicidade para o material.
Minha ressalva fica com alguns direcionamentos de roteiro. O clímax não segurou bem o filme (que já é curto), senti que precisava impactar.
As alegorias da inocência do amor simples e da obsessão pela carne são interessantes,
A cena em que as mãos do Adam são suavemente colocadas em foco (e a protagonista se joga sobre elas) já nos prepara para a sua obsessão sombria com membros humanos. Talvez o olho preguiçoso de May fosse a grande razão da atração pelas partes do corpo perfeitas, é a busca pela beleza que nunca enxergou em si.
A boneca (perturbadora, por sinal) é sempre retratada nos cantos, quase como uma observadora e testemunha dos passos de May.
O aprisionamento da boneca e o temor de deixá-la escapar é uma alegoria perfeita para simbolizar a própria repressão vivida pela protagonista. A boneca é a voz materna sinalizando um olho defeituoso que deve ser refém do uso do óculos. Interessante ver que a mãe de May oferece uma amiga artificial, a boneca, mas em nenhum momento do filme ela exerce esse papel de amiga para a própria filha.
O famoso "jumpscare" do homem sombrio na primeira parte do filme estabelece uma tensão que está sempre à frente do espectador.
A câmera de Lynch é inteligente, intencional, irretocável. O cenário e as paredes são foco constante, explorados com vagareza e mistério. Há uma grande tensão em entender o que há atrás das paredes, das portas, das janelas, da caixa... O filme escancara o terror dos recalques do inconsciente com imagens. A fotografia onírica em "blur" é uma escolha estética tão acertada, isso é sonhar: a fantasia pode ser bela, destrutiva, ressentida, fragmentada, pode representar tudo e nada também.
Muito me marcou o movimento suave da câmera enquadrando Naomi Watts e Laura Harring dividindo um telefone, quase como um espelho em que são escancaradas as projeções, as comparações.
Seja na ânsia de Naomi pela fama e amor correspondido, ou na necessidade de Laura de impor grandeza (cena do jantar), em que entendemos que a fama, muitas vezes, pode ser o atropelamento do ego para com o mundo externo.
Meu primeiro cadastro e movimentação para trazer o cinema hindu devocional antigo aqui para o Filmow.
Encontrei esse cinema por interesse na religião hindu e toda a imagética relacionada. Cada vez mais busco experiências visuais em filmes, imagens e cores que contam histórias. E nada se compara a capacidade da Índia de retratar a sua crença da forma mais onírica e surreal possível.
Este filme eu nem achei legenda em inglês, não entendi os diálogos, mas as imagens e as músicas guiam a experiência. Na verdade, prefiro me contentar com elas. É um filme majoritariamente em preto e branco, com uns lapsos de cor. Não sei se foi uma limitação de equipamento ou uma escolha estética, ou os dois ao mesmo tempo. Independente, é um charme muito particular!
Descobri que as músicas desse filme são "hits" indianos, esse deve ser um famoso filme de infância dos indianos. Sem dúvidas, Bollywood tem um passado muito bem lapidado e com uma estética singular, milenar, ancestral.
Para quem está com muitas expectativas, é interessante assistir sabendo que "A Substância" é um filme extremamente derivado. Fica a juizo do espectador decidir se isso é um ponto fraco ou forte. Particularmente, amei esse combinado de referências.
Vamos destrinchá-las: a diretora recria a famosa alegoria da estética, da busca e do vício pela perfeição. Podemos citar "Perfect Blue", "Demônio de Neon", o cinema de Aronofsky, e, enxergo até um pouco da protagonista apática e grotesca de "A Professora de Piano" aqui. Elizabeth Sparkle é a protagonista constantemente vítima do sistema ageista, mas que, ao mesmo tempo, atrai forte repulsa do público pelas suas respostas inexpressivas frente à vida.
Outro lado da trama é a revitalização fortíssima do gênero "body horror" (terror que parte da exibição inescrupulosa do corpo). O que o remake de "Suspiria" flertou, "A Substância" escancarou.
Em uma grande fantasia genética, Elizabeth Sparkle/Sue cria uma aberração monstruosa de si mesma, à la Dr. Frankenstein. O banho de sangue do final filtra o público que realmente embarca nesse tipo de cinema.
Aqui, com temáticas atualizadas e interessantes para a geração atual.
É o filme inicial da franquia, que, apesar da estrutura simples, já rende reflexões interessantíssimas. Sobretudo para quem acompanha o fênomeno que Pokémon é hoje na cultura pop. O prelúdio com o Mewtwo é irretocável, direto e tocante. Depois que os protagonistas clássicos aparecem na tela, o filme volta para o lugar comum e esperado.
Ainda coube nesse roteiro uma espécie de "mea culpa" da franquia de Pokémon, ao retratar a violência e degradação do que pode ser a batalha Pokémon (na qual toda série se pauta). Talvez uma forma de se armar contra as polêmicas da época de apologia aos maus tratos contra os animais, colocando as batalhas em um patamar de esporte. Futuramente, os outros filmes da franquia trariam mais questões em pauta (as ambientais principalmente).
Revisitei esse clássico da infância, lembrava de algumas cenas, mas agora fui interessado em entender melhor o universo e, principalmente, o "Xenomorph", que é um primor de design, tanto no filme quanto nas artes de conceito para o filme.
O filme já inicia com uma cena muito bela do contraste entre os corredores claustrofóbicos da nave com o dormitório quase celestial da tripulação. Essa é a beleza e contradição do "Xenomorph": uma perfeição genética que se alimenta e se defende das formas mais brutais possíveis. Alien ensina com maestria que a iminência do monstro pode ser mais assustadora que o monstro em si.
Ainda tenho umas ressalvas quanto ao filme. A tripulação da nave não segura no carisma para mim, queria ter torcido mais por eles. Com exceção da Ripley, que rouba cada segundo para ela.
A primeira aparição do Alien é icônica, nada mais visceral que uma criatura rompendo um estômago. Entretanto, a criatura em si ficou amadora, a produção poderia ter colocado mais capricho ali.
Também achei os jump scare cansativos, repetitivos. Toda hora aquele gatinho aparecia sem propósito nenhum.
Na parte da animação, percebi segmentos bem fluidos e outros truncados. Mas, no geral, há um trabalho de design muito caprichado, criaturinhas inspiradas na cultura hippie/boho, com direito a Minimoy maconheiro e um vilão à la Voldemort. Surpreso com a Madonna envolvida nesse projeto, acho que a Selenia não tem muito a ver com ela.
A história é infanto-juvenil e não tem medo de ser boba. Incomoda quem vê depois de anos, mas impressiona pela construção de mitologia. Experiência aceitável, vou procurar as sequências.
Seria um alerta de tendência para o cinema essa mistura de esporte com homoerotismo, vide a estreia colada de "Rivais" e "Love Lies Bleeding"? Queria assistir (e escrever sobre) os dois juntos, mas "Rivais" foi melhor circulado na minha região.
O filme é episódico (no melhor sentido possível): uma partida de tênis em que os sets são costurados por flashbacks dos envolvidos, formando uma teia de conexões, amores frustrados e atração. O trio principal protagoniza quase tudo aqui e sustenta os dramas com primor.
O esporte é a culminância do desejo, da frustração, do ímpeto humano. Tudo que não se dá conta na vida pessoal (as faltas e os excessos) são articulados na linguagem do tênis: na força que se rebate a bola, nos grunhidos de cansaço, na posição em que ocupa na quadra. O tênis é uma dança de pares rivais.
Destaque para a câmera subjetiva, que assumia os personagens no dinamismo da partida de tênis. As bolas em direção à câmera adicionaram um nível de realismo muito impressionante.
Minha crítica maior fica na parte do homoerotismo, parece que o filme não decidiu bem a direção que iria levar a tensão entre o Patrick e o Art.
É preciso selecionar entre texto ou subtexto, o filme escolheu (corajosamente) montar uma cena erótica entre os dois, no início, para depois retrai-los de um jeito totalmente anticlimático. A cena que eles se reencontram na sauna poderia ser muito mais do que foi.
Na tentativa recorrente dos anos 90 e 2000 de emplacar a protagonista feminina de ação perfeita (Aeon Flux, Ultravioleta, Bayonetta, Resident Evil, etc), Barb Wire foi a grande mãe (ao lado da Tank Girl, discutivelmente).
Ainda que feita para o olhar masculino, Barb Wire foi ganhando novas significações com o passar dos anos. De uma sensualidade caricata que transmite poder, da silhueta perfeita intacta na distopia. É quase um paralelo poético com a carreira da atriz Pamela Anderson, que hoje em dia atrai simpatia pela postura bem resolvida para com as polêmicas de sua vida e das suas personagens.
Eu, como fã do gênero, aprecio Barb Wire pelo o que ele é: um trash divertido, que ajudou a transformar Pamela Anderson em uma potência midiática.
Um filme em que a premissa principal gira em torno do descobrimento sexual de uma mulher com o cérebro infantil é, de fato, controversa. Pode-se argumentar que, dentro do próprio material escrito, o diretor justifica um desenvolvimento excessivo desse cérebro. Eu já acredito que não há pretensão moral ao retratar os personagens dessa forma.
Por meio dessas reflexões, compreendo as pobres criaturas do título não apenas como as quimeras deformadas e vítimas do Dr. God. As pobres criaturas são os dominados pela ignorância, é o intelectualismo (que vive apenas como discurso) acima da pobreza de Alexandria. É a obsessão cientifíca que não se deixa fruir a vida e as emoções. É a fixação sexual que termina em frustração, por aí vai..
Todas essas criaturas não se deixam observar Bella como o que ela é: uma esponja do mundo, inocente e incapaz de exercer distinção.
É uma cena de crime muito simplória que seria solucionada facilmente na perícia policial. Para uma melhor imersão é necessário ignorar a parte forense e apreciar a discussão filosófica (que muito me encanta): tratando-se de justiça, não há verdade, há, sim, narrativas dominantes.
E, dito isso, entre Sandra e Samuel, Sandra se mostra uma exímia narradora, no inglês e até no francês arranhado. Tudo que Samuel deixou no pós-morte foi um quebra-cabeças nebuloso e conspiratório.
Bayonetta já está na categoria de ícone da cultura pop, a personagem por si só é um combinado muito bem sucedido de referências inusitadas. Uma espécie de "Barb Wire" ocultista, que protagoniza uma versão feminina e sexy da aventura de Dante em "Devil May Cry". O corpo de supermodelo, a atitude performática e os óculos de grau desenham a excêntrica (e grandiosa) Bayonetta. Nesse sentido, tudo que é derivado desse universo já me ganha gratuitamente.
O anime me surpreendeu em certos aspectos, algumas liberdades criativas frente ao material original me agradaram mais aqui do que no jogo. Por exemplo: o prólogo na catedral com o piano de fundo, uma sacada belíssima.
Fiquei com medo da animação ser muito estática e truncada, mas as cenas tiveram bom dinamismo. Narrativamente, é caótico (tal como o jogo), entretanto, aqui no anime o tempo curto da obra prejudica ainda mais, quem assistir esse material sem contato prévio com Bayonetta ficará confuso.
O saldo é positivo, mas com certeza deixou vontade de assistir uma produção melhor amarrada, mais longa e narrativamente controlada do universo de Bayonetta. Creio que isso ainda é possível, considerando a abrangência da franquia.
A mise-en-scène mais potente do cinema. Cada micro-expressão da personagem Erika é um mergulho em sua complexidade psicossexual. Esse filme merece ser estudado com uma lupa.
Quando o rosto da protagonista, de sofrimento fatalista, não está em foco, o que vemos é o corpo masculino de Walter invadindo Erika, ocupando o seu íntimo mais reprimido e dolorido. Esta cena, que poderia ser passional, confunde-se facilmente com o cenário de um ataque, agressão. A mesma excitação voyeur de Erika, que a faz urinar no cinema drive-in, repete-se na crueldade concretizada contra sua aluna de piano.
Não há prazer sem dor aqui, Erika é tão acostumada a se punir, que causar dor também lhe traz familiaridade, prazer.
Os tons sóbrios e modestos das primeiras cenas encontram, gradativamente, manchas de sangue e sujeira. A força erudita da música clássica transforma-se em horror materializado, o Haneke, acima de tudo, soube como pintar essa tela.
O que me impressionou mais em "Barbie" foi toda a pesquisa e referência que a Greta Gerwig investiu para criar a "artificialidade programada" do Barbieland, é muito divertido ver elementos da lógica dos brinquedos serem traduzidos em um pseudo realismo. As referências ao cinema antigo são várias e evidenciam a potência da diretora. E o figurino é minha parte preferida, destaque para a colaboração frequente com a Chanel.
No roteiro, o filme acabou caindo em alguns maniqueísmos da tal "guerra dos sexos", mas, ainda assim, a Barbie aqui é existencial, e, de certa forma, aberta a filtrar a dualidade de gênero que o filme traz. Aliás, os roteiristas tinham uma ótima tela em branco: imaginar que tipo de existencialidades teria uma boneca tão esteriotipada.
A presença da Mattel parece uma constante "mea-culpa" mascarada de autocrítica, não sei se foi de bom gosto. Mas certamente é engraçado, a Gerwig soube tirar sarro dessa situação com maestria.
É um retrato bem exagerado da insalubridade e da ignorância medieval, absolutamente todos os personagens caem no vale da estranheza. Por mais que a proposta seja chocar e causar desconforto, acredito que o design dos personagens poderia ter sido mais suavizado, é quase um desafio chegar no final do filme.
Não fui fisgado mas entendi o motivo disso aqui existir, só faltou cuidado na direção de arte, um roteiro menos escrachado ia bem também.
É daqueles filmes que sabem onde tem que ir com o (pouco) tempo que tem. Dá para sentir o roteiro tentando estabelecer toda hora algum elemento do universo Mario, mesmo que sem o desenvolvimento que merece. Ainda assim, o volume de referências é muito impressionante, inunda cada canto da tela a todo segundo. Uma carta de amor da Nintendo para a Nintendo.
Achei que haveriam comentários, até onde me lembro esse filme marcou muitas infâncias. Claro que a animação não se segura até hoje, mas até que é uma aventura bacana. Tem voz da Jamie Lee Curtis e música do Tony Bennett, vale a pena relembrar.
Assisti a pré-estreia na UFES, filme ótimo e fiel ao tom da obra de Hilda Hilst. Unicórnio é repleto de alegorias utilizadas para tratar aspectos acerca da psique da personagem Maria, que se mostra bem construída e interpretada, muitas de suas ações partem de situações sugestivas e imaginativas, abrindo os horizontes do filme para a reflexão e pensamento filosófico.
Os planos abertos (no campo) acompanhados da trilha sonora fantasiosa criam um ambiente vasto e fértil, e formam um contraste com a sobriedade da sala branca e a figura do unicórnio.
Na visão semântica, o colorido representa as construções criativas da mente de Maria, e os tons brancos (da sala, unicórnio e rato) sugerem a quebra e a fuga dessa ludicidade, ou seja, uma conexão mais palpável com o real.
A relação da mãe (Patrícia Pillar) com a filha é outro ponto alto, há traços de identificação e ao mesmo tempo, inveja, entre as duas. E a figura masculina aparece no filme como um aspecto de perturbação e indagação, na figura de Lee Taylor ou do pai de Maria, que despertam reações e questionamentos inconvencionais na protagonista.
A resolução do envenenamento é uma resposta lúdica de Maria aos acontecimentos incomuns dentro da sua fantasia. A aparição do unicórnio e do outro homem lhe faz questionar a união com sua mãe, ou seja, faz questionar si mesma, pois a mãe se tratava da projeção de sua própria personalidade, como é revelado no desfecho.
Filme incrível, os tons serenos e pouco saturados marcam uma abordagem nova e refrescante para a filmografia da Sofia Coppola. A sutileza do suspense e a câmera estática nos colocam em frames hipnotizantes, que trabalham a favor dos impecáveis figurino e cenografia.
Em termos narrativos, O Estranho que Nós Amamos é comedido, suas cenas se desenrolam de modo discreto e aguçam o sentido do espectador de forma gradativa. O clímax é morno mas prepara o território para a atmosfera dramática do último ato.
A forma que John se adapta as características de cada uma das garotas é certeira, Colin Farrell cria com êxito uma figura masculina que representa, acima de tudo, a liberdade que foi privada das personagens.
O desfecho é quase lúdico, o envenenamento foi arquitetado como um "acidente trágico", para reduzir a culpa cristã. O olhar frio de Martha ao presenciar a morte de John foi primoroso, simbolizou toda a ambiguidade da personagem de ter criado apreço pelo estranho mas prezar pela segurança e espiritualidade da casa.
Nicole Kidman está em um dos seus melhores momentos, me marcou.
Houve uma Vez Dois Verões
3.4 216Filme na média, bom design de produção, figurino e trilha sonora. Encapsula bem os anos 2000, nostálgico para quem passou a infância/adolescência nessa época.
O roteiro (sem filtro nenhum) envelheceu mal e é agravado com atuações que não convencem. A sensação é que o filme podia ter sido muito mais do que foi, mas diverte no que consegue entregar.
Tudo Sobre Lily Chou-Chou
4.1 66 Assista AgoraMuita câmera na mão e pessimismo, "Tudo Sobre Lily Chou-Chou" se torna emblemático no que é (ou no que tenta ser).
Gosto muito do cinema que se permite não ser polido, aqui o filme abraça o caos e a captação ruidosa de imagem. Um prato cheio para quem aprecia a estética da filmadora portátil, o segmento em Okinawa é um mergulho no trauma através dos quadros.
O filme é excessivo na exposição do comportamento disfuncional dos jovens, sem trazer uma clareza narrativa para as conexões, isso gera uma frieza involuntária no espectador. O chat de adoração à Lily é a forma que compreendemos as motivações e crises internas daquela sociedade juvenil, mas tudo é muito abstrato, nesse sentido que o filme se perde.
Talvez seja uma escolha da direção: trabalhar os extremos sem recuar. O desfecho
— da overdose do Éter, em que percebemos que nem a Lily (a arte mais bem fruida) pode salvar aqueles personagens —
A Casa Que Jack Construiu
3.5 808 Assista AgoraLars von Trier é o cineasta da dor, dividindo a realeza com Michael Haneke.
Quando digo dor, não é apenas a exposição gráfica do sofrimento, é a elaboração escrita, vivida, calculada do que é sofrer. Em "A Casa que Jack Construiu", há um tormento mórbido no assassino desnorteado com os próprios rastros. Perdido na contradição de querer mostrar seus crimes e viver fugindo.
A estética da câmera na mão faz o espectador ser voyeur da violência extrema, o olho que espia. É isso que Trier sempre fez, aqui ele grita isso para o mundo (como se já não soubéssemos). A própria escalação da Uma Thurman
— apenas para morrer de forma estúpida —
O filme é excessivo, as vezes tenso e as vezes tedioso. Cheio de contradições e insuficiências: a viagem do cruel Jack com Virgílio (na travessia de Caronte) é pintada com a beleza de uma tela, e isso é Lars von Trier em essência.
Frankenstein
3.7 600 Assista AgoraA Medusa de Victor
Uma das metáforas que Guillermo del Toro joga na cara do espectador. Ainda que não seja sutil, funciona bem. A Medusa, forjada nos quereres e vaidades dos deuses, torna-se uma ferramenta de destruição, condenada na agonia de causar morte.
O Adão e o conhecimento
A Criatura, em seu mais simbólico ato (e, novamente, pouco sutil por parte da direção) lê o Gênesis bíblico. A aquisição do conhecimento e da linguagem — o fruto proibido — é também sofrimento: pois entende o que representa ser acorrentado pelo seu próprio criador.
Ainda que não seja o roteiro mais enxuto, há boas intenções aqui. O design de produção está longe de ser o melhor do diretor, CGI excessivo e muita estilística Netflix. Creio que cumpre a homenagem ao legado de Mary Shelley, uma perspectiva nova (e, merecidamente, gótica) desse clássico.
A Marvada Carne
3.6 115 Assista AgoraAdilson Barros está a cara do Harry Dean Stanton — de "Paris, Texas" — aqui.
Essa comédia tem um texto bem legal, criativo. Bebeu da fonte de Guimarães Rosa, trouxe aquela "neossintaxe" do português que é sempre reconfortante de assistir. Até os sotaques (que não decidem de onde são) trazem mais ludicidade para o material.
Minha ressalva fica com alguns direcionamentos de roteiro. O clímax não segurou bem o filme (que já é curto), senti que precisava impactar.
As alegorias da inocência do amor simples e da obsessão pela carne são interessantes,
mas a passagem para o êxodo rural não alcança a eficácia da ironia pretendida.
May: Obsessão Assassina
3.2 285 Assista AgoraA dor de uma mulher preterida é escancarada em forma de terror psicológico.
Desde o início, May tem um jogo de câmera muito sugestivo e inteligente.
A cena em que as mãos do Adam são suavemente colocadas em foco (e a protagonista se joga sobre elas) já nos prepara para a sua obsessão sombria com membros humanos. Talvez o olho preguiçoso de May fosse a grande razão da atração pelas partes do corpo perfeitas, é a busca pela beleza que nunca enxergou em si.
A boneca (perturbadora, por sinal) é sempre retratada nos cantos, quase como uma observadora e testemunha dos passos de May.
O aprisionamento da boneca e o temor de deixá-la escapar é uma alegoria perfeita para simbolizar a própria repressão vivida pela protagonista. A boneca é a voz materna sinalizando um olho defeituoso que deve ser refém do uso do óculos. Interessante ver que a mãe de May oferece uma amiga artificial, a boneca, mas em nenhum momento do filme ela exerce esse papel de amiga para a própria filha.
Cidade dos Sonhos
4.1 1,8K Assista AgoraCidade dos Sonhos é uma das experiências máximas de cinema imersivo.
O famoso "jumpscare" do homem sombrio na primeira parte do filme estabelece uma tensão que está sempre à frente do espectador.
A câmera de Lynch é inteligente, intencional, irretocável. O cenário e as paredes são foco constante, explorados com vagareza e mistério. Há uma grande tensão em entender o que há atrás das paredes, das portas, das janelas, da caixa... O filme escancara o terror dos recalques do inconsciente com imagens. A fotografia onírica em "blur" é uma escolha estética tão acertada, isso é sonhar: a fantasia pode ser bela, destrutiva, ressentida, fragmentada, pode representar tudo e nada também.
Muito me marcou o movimento suave da câmera enquadrando Naomi Watts e Laura Harring dividindo um telefone, quase como um espelho em que são escancaradas as projeções, as comparações.
Seja na ânsia de Naomi pela fama e amor correspondido, ou na necessidade de Laura de impor grandeza (cena do jantar), em que entendemos que a fama, muitas vezes, pode ser o atropelamento do ego para com o mundo externo.
Shree Ganesh
4.0 1Meu primeiro cadastro e movimentação para trazer o cinema hindu devocional antigo aqui para o Filmow.
Encontrei esse cinema por interesse na religião hindu e toda a imagética relacionada. Cada vez mais busco experiências visuais em filmes, imagens e cores que contam histórias. E nada se compara a capacidade da Índia de retratar a sua crença da forma mais onírica e surreal possível.
Este filme eu nem achei legenda em inglês, não entendi os diálogos, mas as imagens e as músicas guiam a experiência. Na verdade, prefiro me contentar com elas. É um filme majoritariamente em preto e branco, com uns lapsos de cor. Não sei se foi uma limitação de equipamento ou uma escolha estética, ou os dois ao mesmo tempo. Independente, é um charme muito particular!
Descobri que as músicas desse filme são "hits" indianos, esse deve ser um famoso filme de infância dos indianos. Sem dúvidas, Bollywood tem um passado muito bem lapidado e com uma estética singular, milenar, ancestral.
https://youtu.be/Vr_yMbPIctU?si=y5N9gD9oRr1pnHY9
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraPara quem está com muitas expectativas, é interessante assistir sabendo que "A Substância" é um filme extremamente derivado. Fica a juizo do espectador decidir se isso é um ponto fraco ou forte. Particularmente, amei esse combinado de referências.
Vamos destrinchá-las: a diretora recria a famosa alegoria da estética, da busca e do vício pela perfeição. Podemos citar "Perfect Blue", "Demônio de Neon", o cinema de Aronofsky, e, enxergo até um pouco da protagonista apática e grotesca de "A Professora de Piano" aqui. Elizabeth Sparkle é a protagonista constantemente vítima do sistema ageista, mas que, ao mesmo tempo, atrai forte repulsa do público pelas suas respostas inexpressivas frente à vida.
Outro lado da trama é a revitalização fortíssima do gênero "body horror" (terror que parte da exibição inescrupulosa do corpo). O que o remake de "Suspiria" flertou, "A Substância" escancarou.
Zoom's desconfortáveis, fluidos corporais, corpos deformados e despedaçados, barulhos desconcertantes.
Em uma grande fantasia genética, Elizabeth Sparkle/Sue cria uma aberração monstruosa de si mesma, à la Dr. Frankenstein. O banho de sangue do final filtra o público que realmente embarca nesse tipo de cinema.
O filme dispensou algumas explicações basilares (o que é, minimamente, organização que fez "A Substância"?).
Pokémon, O Filme 1: Mewtwo vs Mew
3.7 670 Assista AgoraÉ o filme inicial da franquia, que, apesar da estrutura simples, já rende reflexões interessantíssimas. Sobretudo para quem acompanha o fênomeno que Pokémon é hoje na cultura pop. O prelúdio com o Mewtwo é irretocável, direto e tocante. Depois que os protagonistas clássicos aparecem na tela, o filme volta para o lugar comum e esperado.
Ainda coube nesse roteiro uma espécie de "mea culpa" da franquia de Pokémon, ao retratar a violência e degradação do que pode ser a batalha Pokémon (na qual toda série se pauta). Talvez uma forma de se armar contra as polêmicas da época de apologia aos maus tratos contra os animais, colocando as batalhas em um patamar de esporte. Futuramente, os outros filmes da franquia trariam mais questões em pauta (as ambientais principalmente).
Alien: O Oitavo Passageiro
4.1 1,4K Assista AgoraRevisitei esse clássico da infância, lembrava de algumas cenas, mas agora fui interessado em entender melhor o universo e, principalmente, o "Xenomorph", que é um primor de design, tanto no filme quanto nas artes de conceito para o filme.
O filme já inicia com uma cena muito bela do contraste entre os corredores claustrofóbicos da nave com o dormitório quase celestial da tripulação. Essa é a beleza e contradição do "Xenomorph": uma perfeição genética que se alimenta e se defende das formas mais brutais possíveis. Alien ensina com maestria que a iminência do monstro pode ser mais assustadora que o monstro em si.
Ainda tenho umas ressalvas quanto ao filme. A tripulação da nave não segura no carisma para mim, queria ter torcido mais por eles. Com exceção da Ripley, que rouba cada segundo para ela.
A primeira aparição do Alien é icônica, nada mais visceral que uma criatura rompendo um estômago. Entretanto, a criatura em si ficou amadora, a produção poderia ter colocado mais capricho ali.
Arthur e os Minimoys
3.2 125 Assista AgoraNa parte da animação, percebi segmentos bem fluidos e outros truncados. Mas, no geral, há um trabalho de design muito caprichado, criaturinhas inspiradas na cultura hippie/boho, com direito a Minimoy maconheiro e um vilão à la Voldemort. Surpreso com a Madonna envolvida nesse projeto, acho que a Selenia não tem muito a ver com ela.
A história é infanto-juvenil e não tem medo de ser boba. Incomoda quem vê depois de anos, mas impressiona pela construção de mitologia. Experiência aceitável, vou procurar as sequências.
Rivais
3.6 577 Assista AgoraSeria um alerta de tendência para o cinema essa mistura de esporte com homoerotismo, vide a estreia colada de "Rivais" e "Love Lies Bleeding"? Queria assistir (e escrever sobre) os dois juntos, mas "Rivais" foi melhor circulado na minha região.
O filme é episódico (no melhor sentido possível): uma partida de tênis em que os sets são costurados por flashbacks dos envolvidos, formando uma teia de conexões, amores frustrados e atração. O trio principal protagoniza quase tudo aqui e sustenta os dramas com primor.
O esporte é a culminância do desejo, da frustração, do ímpeto humano. Tudo que não se dá conta na vida pessoal (as faltas e os excessos) são articulados na linguagem do tênis: na força que se rebate a bola, nos grunhidos de cansaço, na posição em que ocupa na quadra. O tênis é uma dança de pares rivais.
Destaque para a câmera subjetiva, que assumia os personagens no dinamismo da partida de tênis. As bolas em direção à câmera adicionaram um nível de realismo muito impressionante.
Minha crítica maior fica na parte do homoerotismo, parece que o filme não decidiu bem a direção que iria levar a tensão entre o Patrick e o Art.
É preciso selecionar entre texto ou subtexto, o filme escolheu (corajosamente) montar uma cena erótica entre os dois, no início, para depois retrai-los de um jeito totalmente anticlimático. A cena que eles se reencontram na sauna poderia ser muito mais do que foi.
Barb Wire: A Justiceira
2.1 28Na tentativa recorrente dos anos 90 e 2000 de emplacar a protagonista feminina de ação perfeita (Aeon Flux, Ultravioleta, Bayonetta, Resident Evil, etc), Barb Wire foi a grande mãe (ao lado da Tank Girl, discutivelmente).
Ainda que feita para o olhar masculino, Barb Wire foi ganhando novas significações com o passar dos anos. De uma sensualidade caricata que transmite poder, da silhueta perfeita intacta na distopia. É quase um paralelo poético com a carreira da atriz Pamela Anderson, que hoje em dia atrai simpatia pela postura bem resolvida para com as polêmicas de sua vida e das suas personagens.
Eu, como fã do gênero, aprecio Barb Wire pelo o que ele é: um trash divertido, que ajudou a transformar Pamela Anderson em uma potência midiática.
Pobres Criaturas
4.1 1,3K Assista AgoraUm filme em que a premissa principal gira em torno do descobrimento sexual de uma mulher com o cérebro infantil é, de fato, controversa. Pode-se argumentar que, dentro do próprio material escrito, o diretor justifica um desenvolvimento excessivo desse cérebro. Eu já acredito que não há pretensão moral ao retratar os personagens dessa forma.
Por meio dessas reflexões, compreendo as pobres criaturas do título não apenas como as quimeras deformadas e vítimas do Dr. God. As pobres criaturas são os dominados pela ignorância, é o intelectualismo (que vive apenas como discurso) acima da pobreza de Alexandria. É a obsessão cientifíca que não se deixa fruir a vida e as emoções. É a fixação sexual que termina em frustração, por aí vai..
Todas essas criaturas não se deixam observar Bella como o que ela é: uma esponja do mundo, inocente e incapaz de exercer distinção.
Exposta aos prazeres do outro, Bella se tornou uma figura próxima daquilo que mais a aprisionou: uma doutora sem escrúpulos.
Anatomia de uma Queda
4.0 977 Assista AgoraÉ uma cena de crime muito simplória que seria solucionada facilmente na perícia policial. Para uma melhor imersão é necessário ignorar a parte forense e apreciar a discussão filosófica (que muito me encanta): tratando-se de justiça, não há verdade, há, sim, narrativas dominantes.
E, dito isso, entre Sandra e Samuel, Sandra se mostra uma exímia narradora, no inglês e até no francês arranhado. Tudo que Samuel deixou no pós-morte foi um quebra-cabeças nebuloso e conspiratório.
Bayonetta: Destino Sangrento
3.2 59 Assista AgoraBayonetta já está na categoria de ícone da cultura pop, a personagem por si só é um combinado muito bem sucedido de referências inusitadas. Uma espécie de "Barb Wire" ocultista, que protagoniza uma versão feminina e sexy da aventura de Dante em "Devil May Cry". O corpo de supermodelo, a atitude performática e os óculos de grau desenham a excêntrica (e grandiosa) Bayonetta. Nesse sentido, tudo que é derivado desse universo já me ganha gratuitamente.
O anime me surpreendeu em certos aspectos, algumas liberdades criativas frente ao material original me agradaram mais aqui do que no jogo. Por exemplo: o prólogo na catedral com o piano de fundo, uma sacada belíssima.
Fiquei com medo da animação ser muito estática e truncada, mas as cenas tiveram bom dinamismo. Narrativamente, é caótico (tal como o jogo), entretanto, aqui no anime o tempo curto da obra prejudica ainda mais, quem assistir esse material sem contato prévio com Bayonetta ficará confuso.
O saldo é positivo, mas com certeza deixou vontade de assistir uma produção melhor amarrada, mais longa e narrativamente controlada do universo de Bayonetta. Creio que isso ainda é possível, considerando a abrangência da franquia.
A Professora de Piano
4.0 728 Assista AgoraA mise-en-scène mais potente do cinema. Cada micro-expressão da personagem Erika é um mergulho em sua complexidade psicossexual. Esse filme merece ser estudado com uma lupa.
Quando o rosto da protagonista, de sofrimento fatalista, não está em foco, o que vemos é o corpo masculino de Walter invadindo Erika, ocupando o seu íntimo mais reprimido e dolorido. Esta cena, que poderia ser passional, confunde-se facilmente com o cenário de um ataque, agressão. A mesma excitação voyeur de Erika, que a faz urinar no cinema drive-in, repete-se na crueldade concretizada contra sua aluna de piano.
Os tons sóbrios e modestos das primeiras cenas encontram, gradativamente, manchas de sangue e sujeira. A força erudita da música clássica transforma-se em horror materializado, o Haneke, acima de tudo, soube como pintar essa tela.
Barbie
3.8 1,7K Assista AgoraO que me impressionou mais em "Barbie" foi toda a pesquisa e referência que a Greta Gerwig investiu para criar a "artificialidade programada" do Barbieland, é muito divertido ver elementos da lógica dos brinquedos serem traduzidos em um pseudo realismo. As referências ao cinema antigo são várias e evidenciam a potência da diretora. E o figurino é minha parte preferida, destaque para a colaboração frequente com a Chanel.
No roteiro, o filme acabou caindo em alguns maniqueísmos da tal "guerra dos sexos", mas, ainda assim, a Barbie aqui é existencial, e, de certa forma, aberta a filtrar a dualidade de gênero que o filme traz. Aliás, os roteiristas tinham uma ótima tela em branco: imaginar que tipo de existencialidades teria uma boneca tão esteriotipada.
A presença da Mattel parece uma constante "mea-culpa" mascarada de autocrítica, não sei se foi de bom gosto. Mas certamente é engraçado, a Gerwig soube tirar sarro dessa situação com maestria.
Uma Fazenda Maluca
2.2 43É um retrato bem exagerado da insalubridade e da ignorância medieval, absolutamente todos os personagens caem no vale da estranheza. Por mais que a proposta seja chocar e causar desconforto, acredito que o design dos personagens poderia ter sido mais suavizado, é quase um desafio chegar no final do filme.
Não fui fisgado mas entendi o motivo disso aqui existir, só faltou cuidado na direção de arte, um roteiro menos escrachado ia bem também.
Super Mario Bros.: O Filme
3.9 830 Assista AgoraÉ daqueles filmes que sabem onde tem que ir com o (pouco) tempo que tem. Dá para sentir o roteiro tentando estabelecer toda hora algum elemento do universo Mario, mesmo que sem o desenvolvimento que merece. Ainda assim, o volume de referências é muito impressionante, inunda cada canto da tela a todo segundo. Uma carta de amor da Nintendo para a Nintendo.
Obviamente senti falta do Yoshi, Toadette, Daisy e Koopalings.
Rudolph, A Rena do Nariz Vermelho - Na Ilha dos …
2.8 1Achei que haveriam comentários, até onde me lembro esse filme marcou muitas infâncias. Claro que a animação não se segura até hoje, mas até que é uma aventura bacana. Tem voz da Jamie Lee Curtis e música do Tony Bennett, vale a pena relembrar.
Unicórnio
3.0 51Assisti a pré-estreia na UFES, filme ótimo e fiel ao tom da obra de Hilda Hilst. Unicórnio é repleto de alegorias utilizadas para tratar aspectos acerca da psique da personagem Maria, que se mostra bem construída e interpretada, muitas de suas ações partem de situações sugestivas e imaginativas, abrindo os horizontes do filme para a reflexão e pensamento filosófico.
Os planos abertos (no campo) acompanhados da trilha sonora fantasiosa criam um ambiente vasto e fértil, e formam um contraste com a sobriedade da sala branca e a figura do unicórnio.
Na visão semântica, o colorido representa as construções criativas da mente de Maria, e os tons brancos (da sala, unicórnio e rato) sugerem a quebra e a fuga dessa ludicidade, ou seja, uma conexão mais palpável com o real.
A relação da mãe (Patrícia Pillar) com a filha é outro ponto alto, há traços de identificação e ao mesmo tempo, inveja, entre as duas. E a figura masculina aparece no filme como um aspecto de perturbação e indagação, na figura de Lee Taylor ou do pai de Maria, que despertam reações e questionamentos inconvencionais na protagonista.
A resolução do envenenamento é uma resposta lúdica de Maria aos acontecimentos incomuns dentro da sua fantasia. A aparição do unicórnio e do outro homem lhe faz questionar a união com sua mãe, ou seja, faz questionar si mesma, pois a mãe se tratava da projeção de sua própria personalidade, como é revelado no desfecho.
O Estranho que Nós Amamos
3.2 618 Assista AgoraFilme incrível, os tons serenos e pouco saturados marcam uma abordagem nova e refrescante para a filmografia da Sofia Coppola. A sutileza do suspense e a câmera estática nos colocam em frames hipnotizantes, que trabalham a favor dos impecáveis figurino e cenografia.
Em termos narrativos, O Estranho que Nós Amamos é comedido, suas cenas se desenrolam de modo discreto e aguçam o sentido do espectador de forma gradativa. O clímax é morno mas prepara o território para a atmosfera dramática do último ato.
A forma que John se adapta as características de cada uma das garotas é certeira, Colin Farrell cria com êxito uma figura masculina que representa, acima de tudo, a liberdade que foi privada das personagens.
O desfecho é quase lúdico, o envenenamento foi arquitetado como um "acidente trágico", para reduzir a culpa cristã. O olhar frio de Martha ao presenciar a morte de John foi primoroso, simbolizou toda a ambiguidade da personagem de ter criado apreço pelo estranho mas prezar pela segurança e espiritualidade da casa.