A sequência final, desde que Michelle entra no quartinho escondido, seguido dela conta do toda a história dos andromedas, a ida até a empresa, ela explodindo Teddy, depois o absurdo de a vermos como uma alienígena e por fim a destruição da vida humana, tudo isso foi me gerando um grande incomodo, como assim o roteiro vai dar sustentação para algo tão tosco? O que ele quer com isso? Como tudo a partir daquele momento se tornou idiota, mal explicado, mal feito, pouco crível e verossímil, ela pula de uma ambulância em movimento com o joelho estourado, sai andando, ninguém para ela, entra no prédio sem ninguém ver, volta para sua nave com trajes toscos, as pessoas desse mundo andam de forma patética com roupas fofinhas, etc, etc, etc... Tudo se tornou tão patético que foi assim que percebi o quão bom é esse final. Ele esfrega na cara de quem assiste o quão ridículo é todo esse pensamento conspiratório que cresceu em bolhas nos subterrâneos na internet e cada vez mais segue destruindo mentes e emergindo para a realidade onde temos até presidentes de potências mundiais que acreditam nisso. O final está longe de ser sentido, se faz ridículo justamente para incomodar, torna tudo isso realidade para mostrar a irrealidade do mesmo.
Um dos piores filmes que já vi, ainda mais se comparar com o primeiro. Fui conferir e um filme hispano britano estadunidense, e claramente quem mandou no roteiro deve ter sido os EUA que já chega com aquela visão tosca de salvadores do mundo. Os personagens são burros e possuem objetivos ridículos. O caos começa porque duas crianças imbecis querem uma foto da mãe, dali pra frente eu ansiava pela morte dos dois...que infelizmente não aconteceu. Desde o começo do filme se quer construir a ideia de que o pai é um traidor, que deixou a mulher para trás, o problema é que o pai é o único personagem que faz algum sentido e tem mais de dois neurônios e entende que se ajudasse a mãe, que em uma atitude egoísta resolve ajudar uma criança para preencher o vazio materno dela, iria morrer junto com ela. Até na hora em que ele beija ela, é um ser humano sendo ser humano. Mas ai ele vira zumbizão onipresente que sempre acha os filhos. A fotografia do filme é horrível, um tom acinzentado estranho no filme todo. Não tem uma cena interessante para além do começo onde atacam a casa que as pessoas estavam escondidas. Nem se compara ao primeiro, que consegue levantar questionamentos, provocar de alguma maneira, que tenta algo apesar das limitações técnicas e orçamentárias. Vi esse para assistir o terceiro, mas sinceramente, nem tem necessidade, pode passar direto por essa bomba.
A velhice em filmes sempre me prende, pois é um tema que sempre me traz muita angústia. Não luto contra a minha velhice como se não a aceitasse, faz parte da vida, mas ainda assim sou bastante apreensivo quanto essa única certeza que é cheia de incertezas. Logo de início temos a divisão da tela, que pra mim não funciona simplesmente para mostrar cada lado dos acontecimentos, mas para mostrar uma cisão entre eles, que deixam de viver uma mesma realidade de casal quando a esposa Elle parece romper com a sanidade. Então vivemos a partir dali não só visões diferentes, e sim universos separados. Lui acredita estar protegendo Elle, cuidando e prezando por sua memória. Ao mesmo tempo Elle se enxerga perseguida por ele no início, ao passo que começa a se enxergar como um fardo para aquele homem e seu filho. A atuação da atriz desde o início, quando ainda não entendemos direito o que está acontecendo, é um primor. Você sabe no olhar dela o quanto está perdida, o quanto não entende e se sente desesperada. Outro fator interessante é o uso de drogas em toda a trama. Enquanto Lui está envolto pela ideia de falar de sonhos e cinema, e vive essa sua realidade sonhadora de escritor, sua esposa luta uma batalha silenciosa para se manter na realidade através de remédios que indica para si. Além dos dois, o filho que tenta ajudar ambos, utiliza de drogas para que possa ao menos fugir da realidade cheia de problemas que o assola. A droga é no filme uma forma de se buscar realidades e sonhos, sendo ela incapaz de alcançar qualquer um dos dois, traz apenas uma sensação vazia e perturbadora daquele que é incapaz de alcançar seja a realidade ou o sonho. O casal me passa a sensação de ter muita vivência. A casa, que é praticamente um personagem, é entulhada de referências a tudo aquilo que gostavam, cartazes de filmes, livros, quadros, etc... Formam um casal que tinha seus gostos e aquilo forma uma tradução visual de existência de vida. A casa é caótica, espremida, mas não tenho dúvida de que lhes trazia conforto e aconchego. Quando nas cenas finais vemos a casa ser desmontada, a sensação de morte se completa quando memórias deixam de existir. A morte aqui é representada como a "fraqueza" quando assistimos ambos falecerem. Primeiro no findar da vida por uma falha do corpo, em uma morte por AVC de Lui que ainda queria tanto viver, escrever, criar, amar, etc. Segundo por um suicídio em uma falha da mente que já não se encontra mais capaz de viver. O filme apesar de lento, pra mim prende pela angustia, enxergar a vida definhando é sempre uma curiosidade extremamente humana pois fala com absolutamente todo e qualquer um. Não tem como pensar em nossas vidas sem pensar no final dela. Se há alguém que não tem o mais puro desespero em pensar como será a reta final de sua existência, invejo profundamente essa pessoa.
Desde o momento em que soube que ia ter um novo filme do Auto da Compadecida, fiquei em um misto de "que legal!" e "mas precisava?". E o que o filme acabou me entregando foi um misto de sentimentos mesmo.
Começando pelo lado positivo, é bastante justo dizer que Selton Mello e Matheus Nachtergaele ainda entregam muito bem Chicó e João Grilo, atuam bem nos papéis que sabem como fazer, provavelmente nem precisaram muito de indicações da direção para acertá-los. Basicamente é a interação entre eles que entrega alguma emoção verdadeira para o filme, seja para rir ou chorar. O restante do elenco já não consegue trazer muito ao filme, ou parecem cópias do primeiro, ou são extremamente exageradas. Cada cena que Luis Miranda, interpretando Antônio do Amor, aparecia me causava uma ansiedade enorme de que a cena acabasse logo! Eu tenho a dúvida se algum dia o ator já fez algum trabalho que não fosse gritando sem parar, pois é essa a impressão que eu tenho. Eduardo Sterblitch é outro que leva um exagero para além da conta, uma perda pois acho que o personagem cabia muito bem a ele. Taís Araujo vai bem...mas ainda assim não é Fernanda Montenegro. No geral, entre cópias do passado e exagerados, fico com as cópias que ao menos não estragam a cena.
Já a estética me causou incômodo desde o começo e não consegui me habituar. Tentando resumir... me pareceu uma mistura de Wes Anderson com surrealismo. Entendo querer se diferenciar do primeiro, mas passou longe de conseguir me dar aquela delicadeza de Cabaceiras, a Roliúde nordestinade. Então acaba numa estética "modernosa" que pouco me atrai. Quando juntava Luis Miranda gritando com um cenário de um falso colorido como aquele, eu estava com total certeza de estar assistindo uma dessas comédias barulhentas do Multishow.
O roteiro é uma cópia com trechos remontados do primeiro. Chicó fazendo lados contrastantes se enfrentarem para ele reinar no meio dos dois com sua inteligência. Piadas foram reutilizadas, gestos repetidos, relações forçadas que são apenas sombra do primeiro. Uma tentativa de denotar algo mais político me pareceu meio vazia mas até que tem seu lugar bem representado no meio disso tudo, mas que é bem mais sútil e inteligente no primeiro.
De todo o filme, existe uma cena que me trouxe uma boa impressão, aquela em que João Grilo foge da polícia na cidade grande, acaba por entrar em uma sala de cinema e assiste na tela moradores de cidades nordestinas dando depoimentos sobre suas vidas no seco sertão, o que faz João decidir voltar para o nordeste. Uma cena bastante tocante e que me fez sair um pouco daquele teatro exagerado todo que o filme vinha trazendo.
Eu fico entre duas suposições para o filme. A primeira de ser uma tentativa de homenagem ao primeiro, pois ele não esconde por nem um segundo a vontade de repetir piadas de 25 anos atrás, e até ai tudo bem, assim eu tenho mais facilidade de lidar com a impressão de ser tão aquém de seu antecessor. A segunda é que é uma tentativa de fazer bilheteria em cima de um produto cultural reconhecido, daí é mais triste, pois nisso não posso deixar de notar o quão abaixo ele está em criatividade, estética, direção, o quão abaixo é o julgamento de João Grilo, o quão abaixo é a história, tudo. Não consigo apontar um detalhe sequer onde vejo chegar perto do primeiro, somente Chicó e João Grilo conseguem. Como sou positivo e prefiro a versão mais leve de pensamentos, fico com o primeiro, uma homenagem ao primeiro que...quem saaabe...faça alguém ter o interesse em ver o primeiro.
Um recorte de realidade não é a representação da realidade. E Sandra não só sabe disso, como vive isso. Escondeu a verdade do seu casamento por medo de ser presa, mas na exposição de tudo, não negou em nenhum momento. Casamentos, relações humanas, pessoas, tudo é de uma ampla complexidade que colocar uma lupa em um único aspecto é negar todo o resto. Mesmo com as brigas de Sandra e Samuel, ela nunca deixou de defender aquele homem que somente ela conhecia, que somente ela sabia o quão amou e admirou. Filme incrível em todos os sentidos. Me espanta ver as pessoas falarem que é longo, pois pra mim me prendeu do começo ao fim e passou bem rápido!
Quando se termina de ver um filme na Netflix aparece uma avaliação a ser feita, e uma das opções define bem o gênero terror pra mim: "Não é para mim". Eu tento mas não vai. Não me assusta, não me sinto envolvido. Assim como a grande maioria do filmes que eu já vi, achei raso, infantil, meio bobo. Fora algumas cenas interessantes, foi mais pro tosco e engraçado. Sei la, terror sempre me dá a sensação de que perdi tempo.
Sinceramente?! Esperava algo muito pior e no fim me fez rir muito mais que muito filme de comédia brasileiro. A Xuxa traz ótimas risadas na primeira metade, muita referência legal. Roteiro fraco como esperado, mas tá tranquilo... O final ficou mais tosquinho, com uns efeitos piores, sei lá...parece que foi acabando o orçamento hauhau. Mas pra mim ficou uma sensação positiva, as crianças se prenderam e curtiram. E nunca é demais falar de bullying e cyberbullying mesmo que de forma superficial, apesar de falta de profundidade, a lição com certeza é válida.
A série sofre com um problema, uma protagonista fraca devido a roteiro e direção. Não sei nem dizer se a atriz é boa pra falar a verdade. O mundo gira entorno dela, tem dois caras babando por ela, tudo é ela...mas não criei a mínima empatia, achei-a bem sem graça. Não tem uma história bem desenvolvida, não tem enfoque e cenas que a façam "gostável", muito menos uma atuação que faça brilhar os olhos. Felizmente ela não tem tanto tempo de tela, os demais personagens têm bastante tempo e mais bem feito roteiro para aparecerem. Então vale muito assistir por todo o restante e esperando menos da protagonista.
Assisto filmes do Guy Ritchie porque os acho divertidos e entro com esse espírito de ver algo assim, e aqui se repete essa sensação, me diverti assistindo! Apesar de saber que seus filmes têm um pouco a vontade de mostrar diferentes povos meio esteriotipados num certo caldo cultural britânico, nesse eu acho que ele pesou a mão com os chineses, ficou algo muito "perigo amarelo", aquela coisa de caracterizar povos asiáticos orientais como perigo para a cultura e sociedade ocidental. Mas estudando um pouco sobre isso, sobre a Guerra do Ópio e tudo mais ligado à isso, é fácil perceber que a cena que Pearson dá todo um sermão à um chinês tomando chá, no máximo da sua esteriotipação, falando que eles trouxeram uma droga que destrói familias e os britânicos como santos que só querem fumar uma maconhinha, pegou bem mal pra mim. Eu sei que é chato denotar esses detalhes, parece uma politização forçada de minha parte, mas o problema é que a problematização vem antes do filme. Pois é através de produtos culturais que preconceitos criam alicerces lá no fundo da mente de pessoas predispostas a sentirem essa aversão à outros povos.
Só tenho um único problema e não acho que o diretor esteja errado, mas me incomoda. O filme deixa bem claro sua posição principal o tempo todo, uma crítica forte ao Estado, seu tamanho e possibilidades de corrompê-lo. E nada tenho contra essa crítica, de verdade, aquelas morreram por ausência de fiscalização de um Estado corrompido, desde a falta de saídas na Colectiv até não fazerem testes no desinfetante. E nisso eu tenho uma tendência a achar que aqueles que fazem tal crítica, ao mesmo tempo, levantam a bandeira da diminuição do Estado, o que pode ser uma falha minha em não perceber que não estão necessariamente atreladas. Mas o ponto que quero chegar é o incômodo que me causa a falta de percepção desse tipo de opinião que esquece que na base desse problema pode existir também um inescrupuloso e imoral acúmulo de capital. Em quase todo esquema de corrupção temos dois lados: o público de onde se manipulam leis, regras, licitações, etc... através de posições de poder político e também se desviam o dinheiro do contribuinte. E temos o outro lado, o privado, de onde vem a demanda por privilégios, isenções e vista grossa para que haja assim o acúmulo de capital e poder, para fazer girar essa roda de corrupção. A lógica do acúmulo de capital é típica de uma posição de direita, pró capitalismo que pretende diminuir o Estado. Por si só, não é um problema ao meu ver querer um Estado menor, mas aqui essa diminuição é justamente com a intenção de se destruir a fiscalização facilitando esquemas vantajosos para indivíduos. Eu digo tudo isso porque as vezes me soa que esquecem desse detalhe, o lado da demanda por corrupção do Estado vinda diretamente do setor privado. Seja numa Hexa Pharma do documentário, até uma Odebrecht, temos muito esquecido essa percepção, de responsabilidade social também das empresas. E o documentário me deu essa sensação, mas como eu disse anteriormente, não acho que o diretor estava errado, já que ele deve sim dar um enfoque que bem entender, ainda mais neste caso, já que tem toda razão em demonstrar a corrupção que se entranhou no governo romeno.
Minha nota seria 4...4,5. Mas como tem um monte de fascista aparecendo por aqui para dar nota mínima, melhor deixar em 5. Não que a nota seja importante ou que vá ser suficiente para equilibrar, mas prefiro assim.
Não, o filme não é imparcial e nem deve ser. Se você acha que já viu na vida um filme imparcial, é de uma ignorância gigantesca, provavelmente entende que caso se aproxime de sua opinião, certamente deve ser imparcialidade. O filme é todo muito bem feito, faz ótimas adaptações ao livro de Mario Magalhães. Ótimas atuações, ótima narrativa, construção de personagens, etc. Muito válido para o infeliz momento e governo que vivemos.
Eu só tenho uma única crítica ao documentário. Senti falta de entrarem mais profundamente nos crimes de Castor e os bicheiros em geral. Se você tem um conhecimento prévio de tais crimes, okay... você pode ver e ter a dimensão de quão absurda é a inserção tão natural de uma pessoa como essa nos meio midíaticos, nas ingênuas colunas de celebridades. Caso contrário, me parece que para alguém que não tenha essa percepção, ao final de Castor de Andrade possa realmente passar como folclórico e até mesmo ter certa empatia pelo "personagem". Eu entendo que o foco era justamente mostrar sua ligação com o Carnaval e futebol, mostrar a naturalidade de um criminoso por esses meios, mas eu perderia um tempinho a mais em mais um episódio deixando claro o lado cruel de Castor e dos demais banqueiros do bicho.
Me pareceu se explicar demais, as críticas e seus objetivos. Mas daí pego parte de sua própria temática, como uma parcela da população não tem problemas em enveredar pelo negacionismo, por mais que o problema esteja na cara, seja covid, desigualdade social, mudanças climáticas, etc ... Então se nem com esse cometas que já convivemos não é o suficiente para que olhem para cima...talvez seja necessário mesmo o filme ser tão explícito em suas críticas.
A minha única crítica a série é alguns momentos querer esmiuçar demais o que ela mesmo quer dizer. Em alguns momentos parece querer explicar demais os conceitos que quer entregar. Mas a trama é muito boa, ela gera uma ansiedade constante para saber o que vai acontecer, ajuda muito a música que diversas vezes toca em momentos tensos entre os personagens, ela causa uma estranheza também, outra característica que me chamou atenção em toda a série. Algo nela incomoda, o ambiente que deveria ser de um belo hotel havaiano, traz uma sensação de incômodo o tempo todo, como se houvesse tangível no ar todas as diferenças, sejam ela de classes, de raça, de gênero, de etnia, etc, assuntos centrais na série. Gostei, primeiro episódio não me cativooou, mas arrisco dizer que era o sono, mas no dia seguinte assisti os outros cinco seguidos sem parar.
Elize Matsunaga não é uma deusa feminista. Mas é interessante observar como ocorre seu julgamento muito além do próprio juri e da estratégia da acusação, mas sim o prévio julgamento social machista da sociedade em que esse crime acontece. Para esse lado que o documentário levanta não há a mínima necessidade de justificar seu crime, ao mesmo tempo você pode levantar sem problema as dúvidas em relação a machismo.
Elize Matsunaga não é humanizada no sentido de dar-lhe contornos de bondade. Entender um assassino é importante, qualquer ser humano apresenta nuances, se você assiste um documentário e sai por ai falando que ela é uma "sociopata" está fazendo uma afirmação vazia. Vale lembrar que sociopatia é um transtorno de personalidade, algo que necessita ser diagnósticado por um psiquiatra para se afirmar. Se você tem diploma para exercer psiquiatria, analisou e conviveu com uma paciente chamada Elize Matsunaga, e depois de tudo isso a definiu como sociopata, okay, caso você não é essa pessoa, por favor, menos.Ao cometer tal barbaridade, Elize não sai da posição de "ser humano" para "monstro" ou "não-humana". Assassinatos muitas vezes são extremamente humanos e passionais. Criar a ideia fácil de monstruosidade é válido para estes programas sensacionalistas e rasos que chama todo assassino de "frio" e "calculista" só porque o mesmo respondeu alguma pergunta sobre teu crime com aparente naturalidade, dai o apresentador "jornalista" faz ao vivo uma grande análise desse tipo. Pessoas sem transtornos de personalidade são também capazes de cometer atrocidades.
Mas como vivemos nesse mundo de torcidas, é isso ai, ou você entra para o clubinho do "picotou foi pouco" ou do "ain gente, não humaniza".
Eu fiquei um pouco na dúvida, mas quando vejo uma criança me vem a imagem de ingenuidade. Para que Ridgeway pratique seu poder sobre ele e o faça perseguir junto como ele, apenas sendo coagido e nada melhor do que ser ingênuo suficiente para acreditar que aquilo é uma vida, que Ridgeway é um salvador ou cuida e se importa de verdade com ele. Uma representação de um negro que, independente da idade, acredite que o racismo é inexistente ou superestimado, fazendo-se assim papel de ferramenta de disseminação do racismo.
Alguém teria uma outra leitura do personagem?
A série...bom, tá longe de estar recebendo os holofotes que merecia como uma das melhores que eu vi nos últimos tempos. Barry Jenkins é zica!
A cena em que Ruben come com os demais pela primeira vez. Como essa cena é boa, ali está a grande dificuldade do protagonista, a sensação de pertencimento de grupo em todos nós é algo bastante comum, nossos amigos têm maneiras de agir parecidas com as nossas, temos códigos próprios e que nos coloca dentro de padrões de normalidade. E quando deficientes auditivos têm de usar de forma contundente a expressão corporal, eles se destacam, eles passam a não ser vistos mais como "normais". Por mais que Ruben seja uma cara "diferentão", aquilo é uma mudança profunda e que é fora de suas escolhas quanto a um corte de cabelo ou uma camisa rasgada, é imposto a ele esse novo grupo, esse novo pertencimento. E isso me lembrou muito um trabalho de faculdade que fiz que era focado em deficientes auditivos, é um grupo muito fechado e muito protegido por aqueles que os circundam. Tive a experiência de ir à uma balada para deficientes auditivos, e é uma realidade completamente diferente em lidar com as pessoas. Exemplo simples: andar em uma festa qualquer você simplesmente andará pedindo licença para todos, no máximo um toque no ombro ou nas costas caso o som esteja alto. Ali não, você tem que deixar claro que seu toque é de quem está passando, então é mais firme, é algo mais físico. O corpo ali é um instrumento mais forte de percepção de mundo. Apenas um detalhe que eu nunca esqueci em um único dia. Agora imagine Ruben com uma nova vida e imagem perante a sociedade.
Sem or, que série ruim! A atuação, as câmeras, as roupas dos personagens! Tudo é ruim! O roteiro então... é raro eu parar uma série tão rápido, mas nos 10 primeiros minutos do terceiro episódio já se mostrou impossível de se continuar. A série tenta construir um personagem inteligente, astuto e de mente brilhante, mas fiquei com uma única pergunta: o Lupin é inteligente ou os franceses ali são todos extremamente burros?
O filme me trouxe um sentimento muito forte, um sentimento que depois de assistir percebi o quão importante era para a trama, e esse sentimento foi o de puro cansaço. É cansativo estar na pele de Zain, viver pelo que ele vive, sentir o que ele sente. Não é por nada que Zain questiona sua própria existência, qual o sentido de nascer para sobreviver no lugar de viver? Qual o sentido de viver em uma sociedade que só lhe exige aquilo que nunca lhe ofereceu? Todos os caminhos dados a Zain terminam sempre nos mesmos lugares e o filme os deixa bem claros, burocracia, violência e aquele que me pareceu mais forte, a falta de dinheiro, como é duro que a vida seja tão precificada, e o pior, tão desproporcionalmente precificada. A desigualdade segue sendo a força mais voraz e destruidora no nosso mundo. Ao final, como eu disse, é cansaço, desalento, impotência. Apesar da tentativa de um final um pouco mais feliz, de um reencontro de uma mãe com seu filho, o gosto que fica é amargo, vontade de fazer algo para mudar e não saber nem por onde começar, saber o quão isso é maior que a minha existência e das gerações futuras. Mas Zain ainda nos mostra como é bom o sorriso de uma criança e o quanto vale a pena lutar por ele. Meio que piegas meu próprio sentimento com o final do filme, mas foi o que me trouxe, sentimentos simples e que deveriam ser universais, mas infelizmente não são.
Eu concordo com os comentários que dizem que o filme faz certa construção dá China como o mau, é meio maniqueísta em alguns pontos. Coloca cenas da bandeira americana tremulando com músicas épicas de fundo. Okay, eu entendo o ponto. Sim, eu sou contra imperialismo americano, a sua influência tanto dos diferentes governos e do Estado americano em geral, assim como de suas multinacionais em território estrangeiro, inclusive se aproveitando da própia cultura de trabalho chinesa que vimos apresentada no documentário. Mas acho que falta entender que o filme não tenta explicar o mundo e sim dar luz à um determinado recorte escolhido. Não sei se é uma tendência de esquerda (do qual me considero parte) querer dar contornos mais suaves aos problemas presentes naqueles que em tese estão do seu lado do espectro político, mas não podemos negar o problema apontado. Dentro desse "capitalismo de estado" que se diz existir na China, existe tanta voracidade pelo lucro e desprezo pela vida humana quanto há na estrutura do capitalismo convencional imposto pelo mundo. Não é aceitável de maneira alguma uma pessoa trabalhar 12 horas por dia só para justificar o crescimento "invejável" da China. Dentro do território chinês estamos cada vez mais acompanhando a mão pesada de um Estado autoritário crescente. Perseguição cada vez mais forte em Hong Kong, desrespeito com a região de Taiwan, perseguição e aprisionamento do povo uighur em campos de concentração para inclusive utilização de trabalho escravo. São tantas facetas do governo chinês que tem se apresentado tão atroz quanto o imperialismo americano. Eu prefiro os dois gigantes apontando o dedo na cara um do outro e mostrando as suas cicatrizes de suas políticas e seus modelos econômicos, porque no fim das contas temos que lutar tanto pelo chinês perdendo a vida dentro de uma fábrica, quanto pelo americano sofrendo com uma precarização do trabalho. Os dois são verdadeiros, os dois merecem nossa atenção.
Quando foi que Silicon Valley se tornou tão chato? Foi difícil terminar essa última temporada, se não soubesse que era a última, teria largado no terceiro episódio. Os personagens se afundaram em suas características se tornando previsíveis ao extremo. Dinesh tenta derrubar Gilfoyle de alguma maneira e termina se ferrando. Gilfoyle com seus olhares de sempre, vai dar alguma tirandinha sarcástica e Richard faz besteiras, fica desesperado e algo surge para salvar. Jared foi o único que supreendeu de alguma maneira. Desde a saída do TJ Miller, parece que a série foi murchando até esse final insosso.
Um filme que toca em diversos assuntos: velhice, juventude, sexualidade, memórias, família, classes sociais, elite inconsequente, poder público, etc... E sim, tudo se encaixa, se entrelaça e funciona muito bem.
De início nós mesmo participamos da construção de um trecho das tantas memórias da personagem principal, a escritora Clara. Temos uma festa, com relações entre as pessoas que ali se encontram, se gostam, partilham um ambiente e constroem ali um momento de suas vidas. Aquele apartamento abriga pessoas que passaram por problemas, como o câncer de Clara, tiveram felicidades como aquela festa de aniversário, foram jovens e transaram por todo canto, em cima da mobília, etc. Ali mora não só Clara, mas sua história de vida. Durante a festa, Tia Lúcia que faz 70 anos olha para sua cômoda, e lembra como aproveitou seus tempos mais jovens, e aqui o sexo tem uma forte relação com a ideia de jovialidade. Toda vez que ele aparece, o sexo e a juventude da personagem aparecem também. Clara é uma mulher ativa, que vai à praia, que caminha, que sai para dançar, que pensa sobre si, que pensa sobre o mundo, que indaga, que questiona. Não é, como ela mesmo diz, uma louca que simplesmente tem um apego exagerado por seus pertences. Ela não morreu, assim como o que possui. Seus LPs, seus livros, seus móveis, seus quadros, tudo ali ainda tem história para contar, ainda estão vivos. Mesmo a mídia não tem o mínimo interesse de demonstrar com essa história, como quando Clara conta sobre um de seus LPs, e a matéria que vai ao jornal simplesmente faz um recorte vazio de suas falas. E por isso Clara é persistente em se manter, é um grito de resistência àqueles que cismam em decretar que sua velhice se faz presente, chegando assim o momento de ficar reclusa em um apartamento cheio de seguranças e muros em sua volta esperando a morte chegar. Mesmo sua família não respeita isso, com desculpa de estar protegendo-a, mas não respeitam sua liberdade. A arte aqui também demonstra sua vitalidade eterna, ela se mantém não só na memória de Clara, ela é ainda relevante, mesmo que sejam LPs antigos, a arte é atemporal e conversa com situações dos tempos atuais. A arte é forma de resistência. Temos também alguns momentos interessantes de como o filme fala sobre família. O amor de Clara pelos filhos é claro e inegável, mas ela possui apoio em outras pessoas que não seriam os mais óbvios e cria com eles laços sutis, porém fortes. Seja com seu sobrinho, a nova namorada dele, com a mulher que trabalha em sua casa, com o salva-vidas na praia em frente ao apartamento. São relações que de forma inesperada, demonstram maior partilha e sinceridade. A desigualdade social e as relações de poder são outros dos assuntos presentes fortemente no filme. Aquarius nos coloca do lado de Clara, criamos empatia por sua luta, por sua forma de agir, por sua forma de bater de frente com aqueles que querem roubar aquilo que é seu. Mas ao mesmo tempo o filme nunca nos deixa esquecer que dentro dessa sociedade Clara também possui uma “superioridade” na relação de poder com muitos das personagens, com a sua “empregada”, com os empregados do condomínio e da construtora, com os pintores. Ela sim resolve os problemas, ela vai atrás, mas praticamente não coloca a mão na massa. O interessante é que a personagem parece perceber muito disso, mas quando lhe convém, se torna mais desejável utilizar esse poder. Resumindo... ”que os empregados limpem a merda vinda da escada lá de cima enquanto eu me mantenho incólume na segurança de meu apartamento”. Ou seja, o modo padrão de agir da classe média. Uma das cenas que achei forte foi a da família de Clara olhando álbuns e mais álbuns de fotos. Enquanto passam por suas memórias, pessoas e lugares do passado, Clara vê uma foto de uma “empregada” com a qual conviveu, e dela lembra duas coisas: que aquela pessoa fazia uma ótima comida e que roubou algumas joias, o que a fez ser mandada embora. Mas pena para lembrar seu nome. Aqui demonstra uma sutil mesquinhez. Aquilo que recorda diz apenas sobre si mesma: que fazia uma comida gostosa que CLARA gostava e que roubou joias de CLARA, mas é incapaz de buscar sem dificuldade o nome daquela pessoa, quem foi aquela pessoa, não sabe o que lhe aconteceu, e como mostra a cena em que Clara vai ao quarto e vemos um vulto “fantasmagórico” da esquecida “empregada” passar rapidamente para dentro de um quarto, porque no fim a isso ela foi resumida, um vulto. E logo depois a atual “empregada” passa mostrando uma pequena e simplória foto de seu filho, sem floreios, sem grandes feitos, apenas a foto de um filho, e a família não é capaz de demonstrar interesse. Achei essa cena especialmente pesada, ela demonstra como não é permitido ao pobre ter memória, ele deve ser apenas uma engrenagem invisível para a produção de memórias daqueles que serve. O que lhes resta é ser lembrado por seus feitos, e que sejam bons, caso contrário serão eternamente lembrados por roubarem as joias da patroa. A memória destes está nas mãos de seus “superiores”, eles vão decidir como você vai ser conhecido futuramente. Mas temos aqui a ideia de um mal menor, pois o mal mesmo, aquele que age para tal vem representado na família Bonfim, donos da Bonfim Engenharia e dona dos demais apartamentos. Temos Diego e seus avô que passa ao neto por laços familiares o poder sobre a empresa. Diego tem uma atuação perfeita para um tipo bastante comum hoje em dia, ele representa muito bem esse novo empreendedor cheio de sorrisos e maneiras educadas, ele seduz e te convence, mas não se diferencia em nada em suas ações mais básicas de perpetuação de poder. Diego faz festas nos apartamentos vazios acima do apartamento de Clara. Inclusive a própria estrutura do prédio é perfeita para a demonstração das classes. Os empregados são vistos mais no térreo ou descendo as escadas representando uma classe mais pobre, enquanto Clara é vista mais em seu apartamento, acima do térreo onde o serviço é feito e abaixo das ações da construtora que ocorrem acima dela, representando assim a classe média, e a construtora usa apenas os apartamentos que estão acima, representando uma elite. As festas são regadas pela mais pura...putaria... e até ai não temos problemas, até porque todos no fundo gostam de uma boa e velha putaria. O problema é que não há respeito pelo espaço de Clara, o som alto, bitucas de cigarro vindos do andar de cima que caem na casa dela, as fezes no chão da escada no dia seguinte, é uma representação de uma elite inconsequente e indiferente aos demais. O acontecido toma proporção ainda maior com as cenas de religiosos nos corredores até o apartamento onde a festa tinha sido feita, Diego tem ligações com as igrejas. Então temos aqui não só uma elite inconsequente e indiferente com aqueles abaixo, mas também moralista e que usa da fé da população de forma criminosa. O ambiente de putaria é o mesmo de falsa santidade. Essa elite é tal como é pois possui sempre uma classe trabalhadora que fará todo o trabalho sujo para alcançar os seus objetivos. Seja queimar os colchões marcados por suas perversões, seja obriga-los a subir com uma colmeia de cupim para ruir toda a estrutura e alcançar seus objetivos. Além disso, a elite é sempre muito bem relacionada, laços familiares ou qualquer relação para que se fortaleçam. O dono do jornal é irmão do padrasto do dono da construtora, que é amigo intimo do dono da igreja, que é genro do político, e por ai vai... São puros laços de poder. É estrutural e é grande, possui meios de se proteger ou usam da burocracia para embaralhar os caminhos, como fica claro na cena dos arquivos bagunçados. Mas Clara aqui surge realmente como salvadora, ela vai vasculhar, vai atrás de achar os podres deles. E nesse momento a cômoda que remetia a jovialidade, aparece em foco enquanto ela vasculha na internet informações. Aqui ela demonstra que apesar da idade, possui uma jovialidade de uma resistência feroz capaz de bater de frente com qualquer tipo de adversário. Ao final temos a descoberta do plano da construtora, onde acham a colmeia de cupim e nada mais representativo de uma elite que tem como principal objetivo vencer mesmo que seja corroendo toda a estrutura para demarcar o seu território, mesmo que reinem em cima de destroços. E como Kleber Mendonça Filho faz em O Som ao Redor, um recorte ali formado é uma representação da sociedade brasileira como um todo, e para mim o prédio é uma representação do Brasil e a utilização do cupim no final por uma empresa privada é bastante significativo. Uma crítica muito bem construída do desmonte dos bens públicos em favorecimento de uma futura aquisição dos mesmos pelo setor privado. Se corrói a estrutura, não respeitando a memória, a liberdade, a vontade daqueles que ainda ali residem, e isso tudo numa rede que inclui mídia, igreja, construtoras, políticos, etc. O estado é corroído e depois vendido. E no fim temos a angústia de Clara ao descobrir tudo isso, mas mesmo assim ela enfrenta e temos a ótima e satisfatória cena final dela jogando pedaços da madeira corroída e cheia de cupim. Clara é um personagem muito forte, em nenhum momento é negado que ela tem seus favorecimentos por ser uma mulher branca de uma pequena elite cultural, mas isso não diminui as suas lutas, ainda é uma mulher forte que não teve sua feminilidade destruída por uma mastectomia, que enfrenta dançando um homem que não a quis por simplesmente não ter um seio, nada disso tira a sua força de ser mulher. Aqui as mulheres muito se unem, enquanto a construtora é basicamente masculina. O filme mostra além de tudo o poder feminino e sua forma diferencia. Aquarius é incisivo e ao mesmo delicado em suas críticas, ele escalona lentamente e na reta final nos leva a um certo suspense sobre o que está acontecendo, prende e nos faz querer saber mais daquilo que está escondido, que está sendo feito pela construtora. Tenho como ponto negativo algumas poucas atuações que me incomodaram um pouco, e certos momentos em que o áudio dificulta o entendimento com uma mixagem ruim entre o som do ambiente e a da voz dos atores. Mas nada que atrapalhe e faça desse mais um filme excepcional de Kleber Mendonça Filho.
A série é instigante e te faz ter interesse sobre o ocorrido, nisso ela tem muitos méritos. Mas no final, quando Luka é pego, tem-se alguns poucos minutos para se falar dele baseado apenas nos crimes e em seu interrogatório, dando uma conclusão de forma rasa e simplista ao meu ver, resumindo: Um louco narcisista que ama uns filmes e os usa como referência para seus crimes. Em um rápido momento a mãe cita bullying sofrido na infância e mais nada. Para mim faltou ao menos um episódio inteiro sobre ele, sobre seu passado sobre sua trajetória. E ainda a série acaba de forma abrupta na crítica novamente rasa de 5 minutos sobre darmos ou não audiência para essas pessoas. Nós damos audiência por que elas são pontos fora da curva, porque sempre existiram e sempre vão existir pessoa assim, e silenciar sobre o assunto não é solução, ao meu ver. Se não dessem atenção para quando matou gatos, talvez teria matado pessoas do mesmo jeito para da mesma forma chamar atenção. É a mesma lógica triste de quando alguém tenta um suicídio e diminuem a situação falando que "só queria chamar atenção". O simples fato de alguém tentar chamar atenção através de algo tão absurdo como auto mutilação ou matando filhotes, já demonstra a necessidade de algo maior e não de mais exclusão. É importante entender cada vez mais essas pessoas ao meu ver, e fiquei com uma imagem totalmente embaçada de quem é Luka, e isso me incomodou muito!
Um filme de um estética tão espetacular que é impossível não se prender a tela, seja pela beleza ou pela estranheza. Pega toda a estrutura comum aos contos de fada e o coloca em um mundo cruelmente real.
Shou, que não possui grandes expectativas em sua vida, e a vê de forma indiferente, é mandado por seu pai para limpar a casa de sua assassinada e desconhecida tia, e ao fazer isso, ele descobre uma história espetacular que poderia ter sido esquecida facilmente em mundo onde as intempéries de uma vida nos levam ao fundo do poço.
Matsuko, tia de Shou, era uma aplicada professora que amava o seu trabalho, ao ponto de defender seus alunos de maneiras até mesmo desproporcionais. E ao fazer isso, defende um aluno acusado de roubar dinheiro em uma excursão, chegando a assumir a culpa pelo delito. Matsuko é ingênua, não demonstra discernimento para defender e subjuga a si perante os demais com essa convicção. E assim destrói sua reputação na escola e com sua família, então o problema que vai lhe acompanhar a vida toda aparece, a violência psicológica e física que figuras masculinas não exitam em praticar com Matsuko. A violência psicológica mais importante é a indiferença que seu pai tem por Matsuko ao dar toda sua atenção à sua irmã doente, Kumi. Matsuka luta para conseguir se fazer perceber e também para tirar de seu pai a preocupação com a doença de sua irmã, e para isso cria uma careta que o faz sorrir, porém mesmo esta, não dura para sempre o pai se torna indiferente à esse artifício. Mas a careta fica internalizada, e é usada toda vez que Matsuko passa por situações de estresse, deixando clara a ferida que isso lhe criou. A violência física permeia o filme todo. Homens distintos, de diferentes atitudes e posições, seja o diretor da escola que chantageia para que mostre os peitos, seja o escritor "excêntrico" que agride e a manda se prostituir, seja o barbeiro que parecia um homem decente mas a larga na primeira dificuldade que apareceu, seja o ex-aluno que a fez ser expulsa e depois voltou falando que a amava, mas abusava, batia e a usava de todas as formas, todos entram em sua vida para agredir e se aproveitar de Matsuko.
Matsuko é uma pessoa de afeto incondicional, porém não recebe o mesmo de volta, não há afeto, e essa é a busca constante do personagem na maior parte do tempo. A clara falta de uma figura paterna amável constrói nela uma necessidade insaciável incapaz de perceber abusos. O afeto sempre vem de figuras femininas, mas ela parece incapaz de perceber isso de forma a se afastar das mesmas. O machismo é assunto predominante aqui. O homem manda na família, o homem manda na escola, o homem demite, o homem manda em seus pensamentos, o homem abusa, o homem abusa inclusive dizendo que é por amor, o homem é indiferente. O masculino é posto aqui de forma bastante negativa, e acho que isso deve ter até outros significados para um filme japonês que tem uma sociedade fortemente patriarcal até hoje. Toda ideia de conto de fadas com principes encantados é fortemente desconstruido enquanto vemos Matsuko sofrer.
Mas é sofrível mesmo ver como ela não consegue se desvincilhar da ideia dos contos de fadas. É interessante perceber como Matsuko tem um ideal e uma busca tão inabalável, que cada nova fase de sua vida é acompanhada de uma música típica de contos de fada, nesses momentos o filme se mostra mais teatral e lúdico, porque aqui você embarca de vez na visão distorcida e ingênua da protagonista. Mas é também fácil perceber como ao longo do filme, mesmo que hajam as músicas, o lúdico, o fantasioso, aos poucos o filme vai deixando essa característica de lado, as decepções vão trazendo Matsuko para o mundo normal, colocando seus pés no chão, até o ponto em que a desesperança a possuí e ela perde motivos para viver socialmente, buscando isolamento em um pequena casa onde inicia uma vida em meio ao acúmulo de lixo em sua casa e se deteriora fisicamente. Não há mais esperança.
Então o filme passa a tocar também em uma temática relativa à religião e como a praticamos. O filme mesmo diz não saber se existe um deus, mas se existe, ele toma formas desconhecidas, mas invariavelmente elas devem ser afetuosas, que seja capaz de perdoar, de aceitar o próximo. E essa foi a vida de Matsuko, sempre perdoou, sempre aceitou o próximo, sempre defendeu mesmo aqueles que cometeram erros, todos eram merecedores de sua atenção. O filme mostra mais de uma vez cenas em close do Novo Testamento, e claramente Matsuko é uma face moderna de Jesus Cristo, o filme pode facilmente ser lido como Caminho do Calvário por qual Jesus carregou sua cruz e sofreu de todas as violências possíveis até o local onde seria crucificado, para ainda assim perdoar aqueles que o crucificavam. Matsuko também tem sua crucificação. No final, quando surge novamente a esperança, quando surge uma amiga que lhe oferece um emprego e ela volta a acreditar que pode fazer algo, da mesma forma que Jesus sofreu o golpe fatal com a Lança que lhe perfurou, Matsuko recebe uma pancada com um taco de baseball em sua cabeça desferida por crianças. E então temos sua caminhada para o divino, sua ascenção e perdão até mesmo da irmã a qual tinha agredido quando saiu de casa ainda jovem. Ali acaba seu sofrimento, porque não mais faz parte da humanidade, que se mostrou totalmente incapaz de lhe dar afeto da mesma maneira que ela ofereceu aos demais. Esse final muito me fez lembrar do final de O Auto da Compadecida, onde João Grilo fala que aquele pedindo esmola jamais poderia ser Cristo, por que para ele Jesus não podia ser "pretinho" daquele jeito. Mesmo sendo ateu, acho muito bonita a ideia de Jesus não está no céu, mas sim naquele que passa por você todo dia, aquele ser invisível, as vezes um morador de rua, que pode ter uma história incrível, mas não conseguimos mais enxergar o próximo o suficiente para nos aproximarmos, e o quanto isso nos faz distanciar uns dos outros. E Matsuko absorveu em toda sua vida todo tipo de forma que esse ódio pode tomar. Apesar de toda as cores que a fotografia traz, todo o floreio que a estética do filme propositalmente força, não temos nada de contos da fadas aqui, apenas uma vida de tristeza profunda. E essa visão de Jesus estar no outro está cada vez mais "fora de moda" infelizmente, o afeto está longe de ser o sentimento vigente, o ódio nos torna cada vez mais alheios e indiferentes, e o filme se torna assim extremamente atual, só espero que não se torne atemporal, que um dia o afeto seja o padrão.
Bugonia
3.6 427 Assista AgoraGostei mais do que esperava...
A sequência final, desde que Michelle entra no quartinho escondido, seguido dela conta do toda a história dos andromedas, a ida até a empresa, ela explodindo Teddy, depois o absurdo de a vermos como uma alienígena e por fim a destruição da vida humana, tudo isso foi me gerando um grande incomodo, como assim o roteiro vai dar sustentação para algo tão tosco? O que ele quer com isso? Como tudo a partir daquele momento se tornou idiota, mal explicado, mal feito, pouco crível e verossímil, ela pula de uma ambulância em movimento com o joelho estourado, sai andando, ninguém para ela, entra no prédio sem ninguém ver, volta para sua nave com trajes toscos, as pessoas desse mundo andam de forma patética com roupas fofinhas, etc, etc, etc... Tudo se tornou tão patético que foi assim que percebi o quão bom é esse final. Ele esfrega na cara de quem assiste o quão ridículo é todo esse pensamento conspiratório que cresceu em bolhas nos subterrâneos na internet e cada vez mais segue destruindo mentes e emergindo para a realidade onde temos até presidentes de potências mundiais que acreditam nisso. O final está longe de ser sentido, se faz ridículo justamente para incomodar, torna tudo isso realidade para mostrar a irrealidade do mesmo.
Extermínio 2
3.4 744 Assista AgoraUm dos piores filmes que já vi, ainda mais se comparar com o primeiro. Fui conferir e um filme hispano britano estadunidense, e claramente quem mandou no roteiro deve ter sido os EUA que já chega com aquela visão tosca de salvadores do mundo. Os personagens são burros e possuem objetivos ridículos. O caos começa porque duas crianças imbecis querem uma foto da mãe, dali pra frente eu ansiava pela morte dos dois...que infelizmente não aconteceu. Desde o começo do filme se quer construir a ideia de que o pai é um traidor, que deixou a mulher para trás, o problema é que o pai é o único personagem que faz algum sentido e tem mais de dois neurônios e entende que se ajudasse a mãe, que em uma atitude egoísta resolve ajudar uma criança para preencher o vazio materno dela, iria morrer junto com ela. Até na hora em que ele beija ela, é um ser humano sendo ser humano. Mas ai ele vira zumbizão onipresente que sempre acha os filhos. A fotografia do filme é horrível, um tom acinzentado estranho no filme todo. Não tem uma cena interessante para além do começo onde atacam a casa que as pessoas estavam escondidas.
Nem se compara ao primeiro, que consegue levantar questionamentos, provocar de alguma maneira, que tenta algo apesar das limitações técnicas e orçamentárias. Vi esse para assistir o terceiro, mas sinceramente, nem tem necessidade, pode passar direto por essa bomba.
Vortex
4.0 77A velhice em filmes sempre me prende, pois é um tema que sempre me traz muita angústia. Não luto contra a minha velhice como se não a aceitasse, faz parte da vida, mas ainda assim sou bastante apreensivo quanto essa única certeza que é cheia de incertezas.
Logo de início temos a divisão da tela, que pra mim não funciona simplesmente para mostrar cada lado dos acontecimentos, mas para mostrar uma cisão entre eles, que deixam de viver uma mesma realidade de casal quando a esposa Elle parece romper com a sanidade. Então vivemos a partir dali não só visões diferentes, e sim universos separados. Lui acredita estar protegendo Elle, cuidando e prezando por sua memória. Ao mesmo tempo Elle se enxerga perseguida por ele no início, ao passo que começa a se enxergar como um fardo para aquele homem e seu filho. A atuação da atriz desde o início, quando ainda não entendemos direito o que está acontecendo, é um primor. Você sabe no olhar dela o quanto está perdida, o quanto não entende e se sente desesperada.
Outro fator interessante é o uso de drogas em toda a trama. Enquanto Lui está envolto pela ideia de falar de sonhos e cinema, e vive essa sua realidade sonhadora de escritor, sua esposa luta uma batalha silenciosa para se manter na realidade através de remédios que indica para si. Além dos dois, o filho que tenta ajudar ambos, utiliza de drogas para que possa ao menos fugir da realidade cheia de problemas que o assola. A droga é no filme uma forma de se buscar realidades e sonhos, sendo ela incapaz de alcançar qualquer um dos dois, traz apenas uma sensação vazia e perturbadora daquele que é incapaz de alcançar seja a realidade ou o sonho.
O casal me passa a sensação de ter muita vivência. A casa, que é praticamente um personagem, é entulhada de referências a tudo aquilo que gostavam, cartazes de filmes, livros, quadros, etc... Formam um casal que tinha seus gostos e aquilo forma uma tradução visual de existência de vida. A casa é caótica, espremida, mas não tenho dúvida de que lhes trazia conforto e aconchego. Quando nas cenas finais vemos a casa ser desmontada, a sensação de morte se completa quando memórias deixam de existir.
A morte aqui é representada como a "fraqueza" quando assistimos ambos falecerem. Primeiro no findar da vida por uma falha do corpo, em uma morte por AVC de Lui que ainda queria tanto viver, escrever, criar, amar, etc. Segundo por um suicídio em uma falha da mente que já não se encontra mais capaz de viver.
O filme apesar de lento, pra mim prende pela angustia, enxergar a vida definhando é sempre uma curiosidade extremamente humana pois fala com absolutamente todo e qualquer um. Não tem como pensar em nossas vidas sem pensar no final dela. Se há alguém que não tem o mais puro desespero em pensar como será a reta final de sua existência, invejo profundamente essa pessoa.
O Auto da Compadecida 2
3.0 444 Assista AgoraDesde o momento em que soube que ia ter um novo filme do Auto da Compadecida, fiquei em um misto de "que legal!" e "mas precisava?". E o que o filme acabou me entregando foi um misto de sentimentos mesmo.
Começando pelo lado positivo, é bastante justo dizer que Selton Mello e Matheus Nachtergaele ainda entregam muito bem Chicó e João Grilo, atuam bem nos papéis que sabem como fazer, provavelmente nem precisaram muito de indicações da direção para acertá-los. Basicamente é a interação entre eles que entrega alguma emoção verdadeira para o filme, seja para rir ou chorar. O restante do elenco já não consegue trazer muito ao filme, ou parecem cópias do primeiro, ou são extremamente exageradas. Cada cena que Luis Miranda, interpretando Antônio do Amor, aparecia me causava uma ansiedade enorme de que a cena acabasse logo! Eu tenho a dúvida se algum dia o ator já fez algum trabalho que não fosse gritando sem parar, pois é essa a impressão que eu tenho. Eduardo Sterblitch é outro que leva um exagero para além da conta, uma perda pois acho que o personagem cabia muito bem a ele. Taís Araujo vai bem...mas ainda assim não é Fernanda Montenegro. No geral, entre cópias do passado e exagerados, fico com as cópias que ao menos não estragam a cena.
Já a estética me causou incômodo desde o começo e não consegui me habituar. Tentando resumir... me pareceu uma mistura de Wes Anderson com surrealismo. Entendo querer se diferenciar do primeiro, mas passou longe de conseguir me dar aquela delicadeza de Cabaceiras, a Roliúde nordestinade. Então acaba numa estética "modernosa" que pouco me atrai. Quando juntava Luis Miranda gritando com um cenário de um falso colorido como aquele, eu estava com total certeza de estar assistindo uma dessas comédias barulhentas do Multishow.
O roteiro é uma cópia com trechos remontados do primeiro. Chicó fazendo lados contrastantes se enfrentarem para ele reinar no meio dos dois com sua inteligência. Piadas foram reutilizadas, gestos repetidos, relações forçadas que são apenas sombra do primeiro. Uma tentativa de denotar algo mais político me pareceu meio vazia mas até que tem seu lugar bem representado no meio disso tudo, mas que é bem mais sútil e inteligente no primeiro.
De todo o filme, existe uma cena que me trouxe uma boa impressão, aquela em que João Grilo foge da polícia na cidade grande, acaba por entrar em uma sala de cinema e assiste na tela moradores de cidades nordestinas dando depoimentos sobre suas vidas no seco sertão, o que faz João decidir voltar para o nordeste. Uma cena bastante tocante e que me fez sair um pouco daquele teatro exagerado todo que o filme vinha trazendo.
Eu fico entre duas suposições para o filme. A primeira de ser uma tentativa de homenagem ao primeiro, pois ele não esconde por nem um segundo a vontade de repetir piadas de 25 anos atrás, e até ai tudo bem, assim eu tenho mais facilidade de lidar com a impressão de ser tão aquém de seu antecessor. A segunda é que é uma tentativa de fazer bilheteria em cima de um produto cultural reconhecido, daí é mais triste, pois nisso não posso deixar de notar o quão abaixo ele está em criatividade, estética, direção, o quão abaixo é o julgamento de João Grilo, o quão abaixo é a história, tudo. Não consigo apontar um detalhe sequer onde vejo chegar perto do primeiro, somente Chicó e João Grilo conseguem. Como sou positivo e prefiro a versão mais leve de pensamentos, fico com o primeiro, uma homenagem ao primeiro que...quem saaabe...faça alguém ter o interesse em ver o primeiro.
Anatomia de uma Queda
4.0 974 Assista AgoraUm recorte de realidade não é a representação da realidade. E Sandra não só sabe disso, como vive isso. Escondeu a verdade do seu casamento por medo de ser presa, mas na exposição de tudo, não negou em nenhum momento. Casamentos, relações humanas, pessoas, tudo é de uma ampla complexidade que colocar uma lupa em um único aspecto é negar todo o resto. Mesmo com as brigas de Sandra e Samuel, ela nunca deixou de defender aquele homem que somente ela conhecia, que somente ela sabia o quão amou e admirou. Filme incrível em todos os sentidos. Me espanta ver as pessoas falarem que é longo, pois pra mim me prendeu do começo ao fim e passou bem rápido!
O Mal Que Nos Habita
3.5 807 Assista AgoraQuando se termina de ver um filme na Netflix aparece uma avaliação a ser feita, e uma das opções define bem o gênero terror pra mim: "Não é para mim". Eu tento mas não vai. Não me assusta, não me sinto envolvido. Assim como a grande maioria do filmes que eu já vi, achei raso, infantil, meio bobo. Fora algumas cenas interessantes, foi mais pro tosco e engraçado. Sei la, terror sempre me dá a sensação de que perdi tempo.
Uma Fada Veio me Visitar
3.0 36 Assista AgoraSinceramente?! Esperava algo muito pior e no fim me fez rir muito mais que muito filme de comédia brasileiro. A Xuxa traz ótimas risadas na primeira metade, muita referência legal. Roteiro fraco como esperado, mas tá tranquilo... O final ficou mais tosquinho, com uns efeitos piores, sei lá...parece que foi acabando o orçamento hauhau. Mas pra mim ficou uma sensação positiva, as crianças se prenderam e curtiram. E nunca é demais falar de bullying e cyberbullying mesmo que de forma superficial, apesar de falta de profundidade, a lição com certeza é válida.
Devs
4.0 69 Assista AgoraA série sofre com um problema, uma protagonista fraca devido a roteiro e direção. Não sei nem dizer se a atriz é boa pra falar a verdade. O mundo gira entorno dela, tem dois caras babando por ela, tudo é ela...mas não criei a mínima empatia, achei-a bem sem graça. Não tem uma história bem desenvolvida, não tem enfoque e cenas que a façam "gostável", muito menos uma atuação que faça brilhar os olhos. Felizmente ela não tem tanto tempo de tela, os demais personagens têm bastante tempo e mais bem feito roteiro para aparecerem. Então vale muito assistir por todo o restante e esperando menos da protagonista.
Magnatas do Crime
3.8 326 Assista AgoraAssisto filmes do Guy Ritchie porque os acho divertidos e entro com esse espírito de ver algo assim, e aqui se repete essa sensação, me diverti assistindo! Apesar de saber que seus filmes têm um pouco a vontade de mostrar diferentes povos meio esteriotipados num certo caldo cultural britânico, nesse eu acho que ele pesou a mão com os chineses, ficou algo muito "perigo amarelo", aquela coisa de caracterizar povos asiáticos orientais como perigo para a cultura e sociedade ocidental. Mas estudando um pouco sobre isso, sobre a Guerra do Ópio e tudo mais ligado à isso, é fácil perceber que a cena que Pearson dá todo um sermão à um chinês tomando chá, no máximo da sua esteriotipação, falando que eles trouxeram uma droga que destrói familias e os britânicos como santos que só querem fumar uma maconhinha, pegou bem mal pra mim. Eu sei que é chato denotar esses detalhes, parece uma politização forçada de minha parte, mas o problema é que a problematização vem antes do filme. Pois é através de produtos culturais que preconceitos criam alicerces lá no fundo da mente de pessoas predispostas a sentirem essa aversão à outros povos.
Colectiv
3.9 101Só tenho um único problema e não acho que o diretor esteja errado, mas me incomoda. O filme deixa bem claro sua posição principal o tempo todo, uma crítica forte ao Estado, seu tamanho e possibilidades de corrompê-lo. E nada tenho contra essa crítica, de verdade, aquelas morreram por ausência de fiscalização de um Estado corrompido, desde a falta de saídas na Colectiv até não fazerem testes no desinfetante. E nisso eu tenho uma tendência a achar que aqueles que fazem tal crítica, ao mesmo tempo, levantam a bandeira da diminuição do Estado, o que pode ser uma falha minha em não perceber que não estão necessariamente atreladas. Mas o ponto que quero chegar é o incômodo que me causa a falta de percepção desse tipo de opinião que esquece que na base desse problema pode existir também um inescrupuloso e imoral acúmulo de capital. Em quase todo esquema de corrupção temos dois lados: o público de onde se manipulam leis, regras, licitações, etc... através de posições de poder político e também se desviam o dinheiro do contribuinte. E temos o outro lado, o privado, de onde vem a demanda por privilégios, isenções e vista grossa para que haja assim o acúmulo de capital e poder, para fazer girar essa roda de corrupção. A lógica do acúmulo de capital é típica de uma posição de direita, pró capitalismo que pretende diminuir o Estado. Por si só, não é um problema ao meu ver querer um Estado menor, mas aqui essa diminuição é justamente com a intenção de se destruir a fiscalização facilitando esquemas vantajosos para indivíduos. Eu digo tudo isso porque as vezes me soa que esquecem desse detalhe, o lado da demanda por corrupção do Estado vinda diretamente do setor privado. Seja numa Hexa Pharma do documentário, até uma Odebrecht, temos muito esquecido essa percepção, de responsabilidade social também das empresas. E o documentário me deu essa sensação, mas como eu disse anteriormente, não acho que o diretor estava errado, já que ele deve sim dar um enfoque que bem entender, ainda mais neste caso, já que tem toda razão em demonstrar a corrupção que se entranhou no governo romeno.
Marighella
3.9 1,1K Assista AgoraMinha nota seria 4...4,5. Mas como tem um monte de fascista aparecendo por aqui para dar nota mínima, melhor deixar em 5. Não que a nota seja importante ou que vá ser suficiente para equilibrar, mas prefiro assim.
Não, o filme não é imparcial e nem deve ser. Se você acha que já viu na vida um filme imparcial, é de uma ignorância gigantesca, provavelmente entende que caso se aproxime de sua opinião, certamente deve ser imparcialidade. O filme é todo muito bem feito, faz ótimas adaptações ao livro de Mario Magalhães. Ótimas atuações, ótima narrativa, construção de personagens, etc. Muito válido para o infeliz momento e governo que vivemos.
Doutor Castor
4.3 81Eu só tenho uma única crítica ao documentário. Senti falta de entrarem mais profundamente nos crimes de Castor e os bicheiros em geral. Se você tem um conhecimento prévio de tais crimes, okay... você pode ver e ter a dimensão de quão absurda é a inserção tão natural de uma pessoa como essa nos meio midíaticos, nas ingênuas colunas de celebridades. Caso contrário, me parece que para alguém que não tenha essa percepção, ao final de Castor de Andrade possa realmente passar como folclórico e até mesmo ter certa empatia pelo "personagem". Eu entendo que o foco era justamente mostrar sua ligação com o Carnaval e futebol, mostrar a naturalidade de um criminoso por esses meios, mas eu perderia um tempinho a mais em mais um episódio deixando claro o lado cruel de Castor e dos demais banqueiros do bicho.
Não Olhe para Cima
3.7 1,9K Assista AgoraMe pareceu se explicar demais, as críticas e seus objetivos. Mas daí pego parte de sua própria temática, como uma parcela da população não tem problemas em enveredar pelo negacionismo, por mais que o problema esteja na cara, seja covid, desigualdade social, mudanças climáticas, etc ... Então se nem com esse cometas que já convivemos não é o suficiente para que olhem para cima...talvez seja necessário mesmo o filme ser tão explícito em suas críticas.
The White Lotus (1ª Temporada)
3.9 453 Assista AgoraA minha única crítica a série é alguns momentos querer esmiuçar demais o que ela mesmo quer dizer. Em alguns momentos parece querer explicar demais os conceitos que quer entregar.
Mas a trama é muito boa, ela gera uma ansiedade constante para saber o que vai acontecer, ajuda muito a música que diversas vezes toca em momentos tensos entre os personagens, ela causa uma estranheza também, outra característica que me chamou atenção em toda a série. Algo nela incomoda, o ambiente que deveria ser de um belo hotel havaiano, traz uma sensação de incômodo o tempo todo, como se houvesse tangível no ar todas as diferenças, sejam ela de classes, de raça, de gênero, de etnia, etc, assuntos centrais na série.
Gostei, primeiro episódio não me cativooou, mas arrisco dizer que era o sono, mas no dia seguinte assisti os outros cinco seguidos sem parar.
Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime
3.4 390Elize Matsunaga não é uma deusa feminista. Mas é interessante observar como ocorre seu julgamento muito além do próprio juri e da estratégia da acusação, mas sim o prévio julgamento social machista da sociedade em que esse crime acontece. Para esse lado que o documentário levanta não há a mínima necessidade de justificar seu crime, ao mesmo tempo você pode levantar sem problema as dúvidas em relação a machismo.
Elize Matsunaga não é humanizada no sentido de dar-lhe contornos de bondade. Entender um assassino é importante, qualquer ser humano apresenta nuances, se você assiste um documentário e sai por ai falando que ela é uma "sociopata" está fazendo uma afirmação vazia. Vale lembrar que sociopatia é um transtorno de personalidade, algo que necessita ser diagnósticado por um psiquiatra para se afirmar. Se você tem diploma para exercer psiquiatria, analisou e conviveu com uma paciente chamada Elize Matsunaga, e depois de tudo isso a definiu como sociopata, okay, caso você não é essa pessoa, por favor, menos.Ao cometer tal barbaridade, Elize não sai da posição de "ser humano" para "monstro" ou "não-humana". Assassinatos muitas vezes são extremamente humanos e passionais. Criar a ideia fácil de monstruosidade é válido para estes programas sensacionalistas e rasos que chama todo assassino de "frio" e "calculista" só porque o mesmo respondeu alguma pergunta sobre teu crime com aparente naturalidade, dai o apresentador "jornalista" faz ao vivo uma grande análise desse tipo. Pessoas sem transtornos de personalidade são também capazes de cometer atrocidades.
Mas como vivemos nesse mundo de torcidas, é isso ai, ou você entra para o clubinho do "picotou foi pouco" ou do "ain gente, não humaniza".
The Underground Railroad: Os Caminhos Para a Liberdade
4.4 58 Assista AgoraPergunta: O que Homer representa??
Eu fiquei um pouco na dúvida, mas quando vejo uma criança me vem a imagem de ingenuidade. Para que Ridgeway pratique seu poder sobre ele e o faça perseguir junto como ele, apenas sendo coagido e nada melhor do que ser ingênuo suficiente para acreditar que aquilo é uma vida, que Ridgeway é um salvador ou cuida e se importa de verdade com ele. Uma representação de um negro que, independente da idade, acredite que o racismo é inexistente ou superestimado, fazendo-se assim papel de ferramenta de disseminação do racismo.
Alguém teria uma outra leitura do personagem?
A série...bom, tá longe de estar recebendo os holofotes que merecia como uma das melhores que eu vi nos últimos tempos. Barry Jenkins é zica!
O Som do Silêncio
4.1 999 Assista AgoraO filme é todo muito bom, mas uma cena me pegou fortemente:
A cena em que Ruben come com os demais pela primeira vez. Como essa cena é boa, ali está a grande dificuldade do protagonista, a sensação de pertencimento de grupo em todos nós é algo bastante comum, nossos amigos têm maneiras de agir parecidas com as nossas, temos códigos próprios e que nos coloca dentro de padrões de normalidade. E quando deficientes auditivos têm de usar de forma contundente a expressão corporal, eles se destacam, eles passam a não ser vistos mais como "normais". Por mais que Ruben seja uma cara "diferentão", aquilo é uma mudança profunda e que é fora de suas escolhas quanto a um corte de cabelo ou uma camisa rasgada, é imposto a ele esse novo grupo, esse novo pertencimento. E isso me lembrou muito um trabalho de faculdade que fiz que era focado em deficientes auditivos, é um grupo muito fechado e muito protegido por aqueles que os circundam. Tive a experiência de ir à uma balada para deficientes auditivos, e é uma realidade completamente diferente em lidar com as pessoas. Exemplo simples: andar em uma festa qualquer você simplesmente andará pedindo licença para todos, no máximo um toque no ombro ou nas costas caso o som esteja alto. Ali não, você tem que deixar claro que seu toque é de quem está passando, então é mais firme, é algo mais físico. O corpo ali é um instrumento mais forte de percepção de mundo. Apenas um detalhe que eu nunca esqueci em um único dia. Agora imagine Ruben com uma nova vida e imagem perante a sociedade.
Lupin (Parte 1)
4.0 333 Assista AgoraSem or, que série ruim! A atuação, as câmeras, as roupas dos personagens! Tudo é ruim! O roteiro então... é raro eu parar uma série tão rápido, mas nos 10 primeiros minutos do terceiro episódio já se mostrou impossível de se continuar. A série tenta construir um personagem inteligente, astuto e de mente brilhante, mas fiquei com uma única pergunta: o Lupin é inteligente ou os franceses ali são todos extremamente burros?
Fazia tempo que não via algo tão ruim.
Cafarnaum
4.6 691 Assista AgoraO filme me trouxe um sentimento muito forte, um sentimento que depois de assistir percebi o quão importante era para a trama, e esse sentimento foi o de puro cansaço. É cansativo estar na pele de Zain, viver pelo que ele vive, sentir o que ele sente. Não é por nada que Zain questiona sua própria existência, qual o sentido de nascer para sobreviver no lugar de viver? Qual o sentido de viver em uma sociedade que só lhe exige aquilo que nunca lhe ofereceu?
Todos os caminhos dados a Zain terminam sempre nos mesmos lugares e o filme os deixa bem claros, burocracia, violência e aquele que me pareceu mais forte, a falta de dinheiro, como é duro que a vida seja tão precificada, e o pior, tão desproporcionalmente precificada. A desigualdade segue sendo a força mais voraz e destruidora no nosso mundo.
Ao final, como eu disse, é cansaço, desalento, impotência. Apesar da tentativa de um final um pouco mais feliz, de um reencontro de uma mãe com seu filho, o gosto que fica é amargo, vontade de fazer algo para mudar e não saber nem por onde começar, saber o quão isso é maior que a minha existência e das gerações futuras. Mas Zain ainda nos mostra como é bom o sorriso de uma criança e o quanto vale a pena lutar por ele. Meio que piegas meu próprio sentimento com o final do filme, mas foi o que me trouxe, sentimentos simples e que deveriam ser universais, mas infelizmente não são.
Indústria Americana
3.6 171Eu concordo com os comentários que dizem que o filme faz certa construção dá China como o mau, é meio maniqueísta em alguns pontos. Coloca cenas da bandeira americana tremulando com músicas épicas de fundo. Okay, eu entendo o ponto. Sim, eu sou contra imperialismo americano, a sua influência tanto dos diferentes governos e do Estado americano em geral, assim como de suas multinacionais em território estrangeiro, inclusive se aproveitando da própia cultura de trabalho chinesa que vimos apresentada no documentário. Mas acho que falta entender que o filme não tenta explicar o mundo e sim dar luz à um determinado recorte escolhido. Não sei se é uma tendência de esquerda (do qual me considero parte) querer dar contornos mais suaves aos problemas presentes naqueles que em tese estão do seu lado do espectro político, mas não podemos negar o problema apontado. Dentro desse "capitalismo de estado" que se diz existir na China, existe tanta voracidade pelo lucro e desprezo pela vida humana quanto há na estrutura do capitalismo convencional imposto pelo mundo. Não é aceitável de maneira alguma uma pessoa trabalhar 12 horas por dia só para justificar o crescimento "invejável" da China. Dentro do território chinês estamos cada vez mais acompanhando a mão pesada de um Estado autoritário crescente. Perseguição cada vez mais forte em Hong Kong, desrespeito com a região de Taiwan, perseguição e aprisionamento do povo uighur em campos de concentração para inclusive utilização de trabalho escravo. São tantas facetas do governo chinês que tem se apresentado tão atroz quanto o imperialismo americano. Eu prefiro os dois gigantes apontando o dedo na cara um do outro e mostrando as suas cicatrizes de suas políticas e seus modelos econômicos, porque no fim das contas temos que lutar tanto pelo chinês perdendo a vida dentro de uma fábrica, quanto pelo americano sofrendo com uma precarização do trabalho. Os dois são verdadeiros, os dois merecem nossa atenção.
Silicon Valley (6ª Temporada)
3.8 42 Assista AgoraQuando foi que Silicon Valley se tornou tão chato? Foi difícil terminar essa última temporada, se não soubesse que era a última, teria largado no terceiro episódio. Os personagens se afundaram em suas características se tornando previsíveis ao extremo. Dinesh tenta derrubar Gilfoyle de alguma maneira e termina se ferrando. Gilfoyle com seus olhares de sempre, vai dar alguma tirandinha sarcástica e Richard faz besteiras, fica desesperado e algo surge para salvar. Jared foi o único que supreendeu de alguma maneira. Desde a saída do TJ Miller, parece que a série foi murchando até esse final insosso.
Aquarius
4.2 1,9K Assista AgoraUm filme que toca em diversos assuntos: velhice, juventude, sexualidade, memórias, família, classes sociais, elite inconsequente, poder público, etc... E sim, tudo se encaixa, se entrelaça e funciona muito bem.
De início nós mesmo participamos da construção de um trecho das tantas memórias da personagem principal, a escritora Clara. Temos uma festa, com relações entre as pessoas que ali se encontram, se gostam, partilham um ambiente e constroem ali um momento de suas vidas. Aquele apartamento abriga pessoas que passaram por problemas, como o câncer de Clara, tiveram felicidades como aquela festa de aniversário, foram jovens e transaram por todo canto, em cima da mobília, etc. Ali mora não só Clara, mas sua história de vida. Durante a festa, Tia Lúcia que faz 70 anos olha para sua cômoda, e lembra como aproveitou seus tempos mais jovens, e aqui o sexo tem uma forte relação com a ideia de jovialidade. Toda vez que ele aparece, o sexo e a juventude da personagem aparecem também.
Clara é uma mulher ativa, que vai à praia, que caminha, que sai para dançar, que pensa sobre si, que pensa sobre o mundo, que indaga, que questiona. Não é, como ela mesmo diz, uma louca que simplesmente tem um apego exagerado por seus pertences. Ela não morreu, assim como o que possui. Seus LPs, seus livros, seus móveis, seus quadros, tudo ali ainda tem história para contar, ainda estão vivos. Mesmo a mídia não tem o mínimo interesse de demonstrar com essa história, como quando Clara conta sobre um de seus LPs, e a matéria que vai ao jornal simplesmente faz um recorte vazio de suas falas. E por isso Clara é persistente em se manter, é um grito de resistência àqueles que cismam em decretar que sua velhice se faz presente, chegando assim o momento de ficar reclusa em um apartamento cheio de seguranças e muros em sua volta esperando a morte chegar. Mesmo sua família não respeita isso, com desculpa de estar protegendo-a, mas não respeitam sua liberdade. A arte aqui também demonstra sua vitalidade eterna, ela se mantém não só na memória de Clara, ela é ainda relevante, mesmo que sejam LPs antigos, a arte é atemporal e conversa com situações dos tempos atuais. A arte é forma de resistência.
Temos também alguns momentos interessantes de como o filme fala sobre família. O amor de Clara pelos filhos é claro e inegável, mas ela possui apoio em outras pessoas que não seriam os mais óbvios e cria com eles laços sutis, porém fortes. Seja com seu sobrinho, a nova namorada dele, com a mulher que trabalha em sua casa, com o salva-vidas na praia em frente ao apartamento. São relações que de forma inesperada, demonstram maior partilha e sinceridade.
A desigualdade social e as relações de poder são outros dos assuntos presentes fortemente no filme. Aquarius nos coloca do lado de Clara, criamos empatia por sua luta, por sua forma de agir, por sua forma de bater de frente com aqueles que querem roubar aquilo que é seu. Mas ao mesmo tempo o filme nunca nos deixa esquecer que dentro dessa sociedade Clara também possui uma “superioridade” na relação de poder com muitos das personagens, com a sua “empregada”, com os empregados do condomínio e da construtora, com os pintores. Ela sim resolve os problemas, ela vai atrás, mas praticamente não coloca a mão na massa. O interessante é que a personagem parece perceber muito disso, mas quando lhe convém, se torna mais desejável utilizar esse poder. Resumindo... ”que os empregados limpem a merda vinda da escada lá de cima enquanto eu me mantenho incólume na segurança de meu apartamento”. Ou seja, o modo padrão de agir da classe média.
Uma das cenas que achei forte foi a da família de Clara olhando álbuns e mais álbuns de fotos. Enquanto passam por suas memórias, pessoas e lugares do passado, Clara vê uma foto de uma “empregada” com a qual conviveu, e dela lembra duas coisas: que aquela pessoa fazia uma ótima comida e que roubou algumas joias, o que a fez ser mandada embora. Mas pena para lembrar seu nome. Aqui demonstra uma sutil mesquinhez. Aquilo que recorda diz apenas sobre si mesma: que fazia uma comida gostosa que CLARA gostava e que roubou joias de CLARA, mas é incapaz de buscar sem dificuldade o nome daquela pessoa, quem foi aquela pessoa, não sabe o que lhe aconteceu, e como mostra a cena em que Clara vai ao quarto e vemos um vulto “fantasmagórico” da esquecida “empregada” passar rapidamente para dentro de um quarto, porque no fim a isso ela foi resumida, um vulto. E logo depois a atual “empregada” passa mostrando uma pequena e simplória foto de seu filho, sem floreios, sem grandes feitos, apenas a foto de um filho, e a família não é capaz de demonstrar interesse. Achei essa cena especialmente pesada, ela demonstra como não é permitido ao pobre ter memória, ele deve ser apenas uma engrenagem invisível para a produção de memórias daqueles que serve. O que lhes resta é ser lembrado por seus feitos, e que sejam bons, caso contrário serão eternamente lembrados por roubarem as joias da patroa. A memória destes está nas mãos de seus “superiores”, eles vão decidir como você vai ser conhecido futuramente.
Mas temos aqui a ideia de um mal menor, pois o mal mesmo, aquele que age para tal vem representado na família Bonfim, donos da Bonfim Engenharia e dona dos demais apartamentos. Temos Diego e seus avô que passa ao neto por laços familiares o poder sobre a empresa. Diego tem uma atuação perfeita para um tipo bastante comum hoje em dia, ele representa muito bem esse novo empreendedor cheio de sorrisos e maneiras educadas, ele seduz e te convence, mas não se diferencia em nada em suas ações mais básicas de perpetuação de poder.
Diego faz festas nos apartamentos vazios acima do apartamento de Clara. Inclusive a própria estrutura do prédio é perfeita para a demonstração das classes. Os empregados são vistos mais no térreo ou descendo as escadas representando uma classe mais pobre, enquanto Clara é vista mais em seu apartamento, acima do térreo onde o serviço é feito e abaixo das ações da construtora que ocorrem acima dela, representando assim a classe média, e a construtora usa apenas os apartamentos que estão acima, representando uma elite. As festas são regadas pela mais pura...putaria... e até ai não temos problemas, até porque todos no fundo gostam de uma boa e velha putaria. O problema é que não há respeito pelo espaço de Clara, o som alto, bitucas de cigarro vindos do andar de cima que caem na casa dela, as fezes no chão da escada no dia seguinte, é uma representação de uma elite inconsequente e indiferente aos demais. O acontecido toma proporção ainda maior com as cenas de religiosos nos corredores até o apartamento onde a festa tinha sido feita, Diego tem ligações com as igrejas. Então temos aqui não só uma elite inconsequente e indiferente com aqueles abaixo, mas também moralista e que usa da fé da população de forma criminosa. O ambiente de putaria é o mesmo de falsa santidade.
Essa elite é tal como é pois possui sempre uma classe trabalhadora que fará todo o trabalho sujo para alcançar os seus objetivos. Seja queimar os colchões marcados por suas perversões, seja obriga-los a subir com uma colmeia de cupim para ruir toda a estrutura e alcançar seus objetivos. Além disso, a elite é sempre muito bem relacionada, laços familiares ou qualquer relação para que se fortaleçam. O dono do jornal é irmão do padrasto do dono da construtora, que é amigo intimo do dono da igreja, que é genro do político, e por ai vai... São puros laços de poder. É estrutural e é grande, possui meios de se proteger ou usam da burocracia para embaralhar os caminhos, como fica claro na cena dos arquivos bagunçados. Mas Clara aqui surge realmente como salvadora, ela vai vasculhar, vai atrás de achar os podres deles. E nesse momento a cômoda que remetia a jovialidade, aparece em foco enquanto ela vasculha na internet informações. Aqui ela demonstra que apesar da idade, possui uma jovialidade de uma resistência feroz capaz de bater de frente com qualquer tipo de adversário.
Ao final temos a descoberta do plano da construtora, onde acham a colmeia de cupim e nada mais representativo de uma elite que tem como principal objetivo vencer mesmo que seja corroendo toda a estrutura para demarcar o seu território, mesmo que reinem em cima de destroços. E como Kleber Mendonça Filho faz em O Som ao Redor, um recorte ali formado é uma representação da sociedade brasileira como um todo, e para mim o prédio é uma representação do Brasil e a utilização do cupim no final por uma empresa privada é bastante significativo. Uma crítica muito bem construída do desmonte dos bens públicos em favorecimento de uma futura aquisição dos mesmos pelo setor privado. Se corrói a estrutura, não respeitando a memória, a liberdade, a vontade daqueles que ainda ali residem, e isso tudo numa rede que inclui mídia, igreja, construtoras, políticos, etc. O estado é corroído e depois vendido. E no fim temos a angústia de Clara ao descobrir tudo isso, mas mesmo assim ela enfrenta e temos a ótima e satisfatória cena final dela jogando pedaços da madeira corroída e cheia de cupim.
Clara é um personagem muito forte, em nenhum momento é negado que ela tem seus favorecimentos por ser uma mulher branca de uma pequena elite cultural, mas isso não diminui as suas lutas, ainda é uma mulher forte que não teve sua feminilidade destruída por uma mastectomia, que enfrenta dançando um homem que não a quis por simplesmente não ter um seio, nada disso tira a sua força de ser mulher. Aqui as mulheres muito se unem, enquanto a construtora é basicamente masculina. O filme mostra além de tudo o poder feminino e sua forma diferencia.
Aquarius é incisivo e ao mesmo delicado em suas críticas, ele escalona lentamente e na reta final nos leva a um certo suspense sobre o que está acontecendo, prende e nos faz querer saber mais daquilo que está escondido, que está sendo feito pela construtora. Tenho como ponto negativo algumas poucas atuações que me incomodaram um pouco, e certos momentos em que o áudio dificulta o entendimento com uma mixagem ruim entre o som do ambiente e a da voz dos atores. Mas nada que atrapalhe e faça desse mais um filme excepcional de Kleber Mendonça Filho.
Don't F**k With Cats: Uma Caçada Online
4.2 330 Assista AgoraAlgo me incomoda muito na minissérie: quem é Luka Magnotta?
A série é instigante e te faz ter interesse sobre o ocorrido, nisso ela tem muitos méritos. Mas no final, quando Luka é pego, tem-se alguns poucos minutos para se falar dele baseado apenas nos crimes e em seu interrogatório, dando uma conclusão de forma rasa e simplista ao meu ver, resumindo: Um louco narcisista que ama uns filmes e os usa como referência para seus crimes. Em um rápido momento a mãe cita bullying sofrido na infância e mais nada. Para mim faltou ao menos um episódio inteiro sobre ele, sobre seu passado sobre sua trajetória. E ainda a série acaba de forma abrupta na crítica novamente rasa de 5 minutos sobre darmos ou não audiência para essas pessoas. Nós damos audiência por que elas são pontos fora da curva, porque sempre existiram e sempre vão existir pessoa assim, e silenciar sobre o assunto não é solução, ao meu ver. Se não dessem atenção para quando matou gatos, talvez teria matado pessoas do mesmo jeito para da mesma forma chamar atenção. É a mesma lógica triste de quando alguém tenta um suicídio e diminuem a situação falando que "só queria chamar atenção". O simples fato de alguém tentar chamar atenção através de algo tão absurdo como auto mutilação ou matando filhotes, já demonstra a necessidade de algo maior e não de mais exclusão. É importante entender cada vez mais essas pessoas ao meu ver, e fiquei com uma imagem totalmente embaçada de quem é Luka, e isso me incomodou muito!
Memórias de Matsuko
4.3 53Um filme de um estética tão espetacular que é impossível não se prender a tela, seja pela beleza ou pela estranheza. Pega toda a estrutura comum aos contos de fada e o coloca em um mundo cruelmente real.
Shou, que não possui grandes expectativas em sua vida, e a vê de forma indiferente, é mandado por seu pai para limpar a casa de sua assassinada e desconhecida tia, e ao fazer isso, ele descobre uma história espetacular que poderia ter sido esquecida facilmente em mundo onde as intempéries de uma vida nos levam ao fundo do poço.
Matsuko, tia de Shou, era uma aplicada professora que amava o seu trabalho, ao ponto de defender seus alunos de maneiras até mesmo desproporcionais. E ao fazer isso, defende um aluno acusado de roubar dinheiro em uma excursão, chegando a assumir a culpa pelo delito. Matsuko é ingênua, não demonstra discernimento para defender e subjuga a si perante os demais com essa convicção. E assim destrói sua reputação na escola e com sua família, então o problema que vai lhe acompanhar a vida toda aparece, a violência psicológica e física que figuras masculinas não exitam em praticar com Matsuko. A violência psicológica mais importante é a indiferença que seu pai tem por Matsuko ao dar toda sua atenção à sua irmã doente, Kumi. Matsuka luta para conseguir se fazer perceber e também para tirar de seu pai a preocupação com a doença de sua irmã, e para isso cria uma careta que o faz sorrir, porém mesmo esta, não dura para sempre o pai se torna indiferente à esse artifício. Mas a careta fica internalizada, e é usada toda vez que Matsuko passa por situações de estresse, deixando clara a ferida que isso lhe criou. A violência física permeia o filme todo. Homens distintos, de diferentes atitudes e posições, seja o diretor da escola que chantageia para que mostre os peitos, seja o escritor "excêntrico" que agride e a manda se prostituir, seja o barbeiro que parecia um homem decente mas a larga na primeira dificuldade que apareceu, seja o ex-aluno que a fez ser expulsa e depois voltou falando que a amava, mas abusava, batia e a usava de todas as formas, todos entram em sua vida para agredir e se aproveitar de Matsuko.
Matsuko é uma pessoa de afeto incondicional, porém não recebe o mesmo de volta, não há afeto, e essa é a busca constante do personagem na maior parte do tempo. A clara falta de uma figura paterna amável constrói nela uma necessidade insaciável incapaz de perceber abusos. O afeto sempre vem de figuras femininas, mas ela parece incapaz de perceber isso de forma a se afastar das mesmas. O machismo é assunto predominante aqui. O homem manda na família, o homem manda na escola, o homem demite, o homem manda em seus pensamentos, o homem abusa, o homem abusa inclusive dizendo que é por amor, o homem é indiferente. O masculino é posto aqui de forma bastante negativa, e acho que isso deve ter até outros significados para um filme japonês que tem uma sociedade fortemente patriarcal até hoje. Toda ideia de conto de fadas com principes encantados é fortemente desconstruido enquanto vemos Matsuko sofrer.
Mas é sofrível mesmo ver como ela não consegue se desvincilhar da ideia dos contos de fadas. É interessante perceber como Matsuko tem um ideal e uma busca tão inabalável, que cada nova fase de sua vida é acompanhada de uma música típica de contos de fada, nesses momentos o filme se mostra mais teatral e lúdico, porque aqui você embarca de vez na visão distorcida e ingênua da protagonista. Mas é também fácil perceber como ao longo do filme, mesmo que hajam as músicas, o lúdico, o fantasioso, aos poucos o filme vai deixando essa característica de lado, as decepções vão trazendo Matsuko para o mundo normal, colocando seus pés no chão, até o ponto em que a desesperança a possuí e ela perde motivos para viver socialmente, buscando isolamento em um pequena casa onde inicia uma vida em meio ao acúmulo de lixo em sua casa e se deteriora fisicamente. Não há mais esperança.
Então o filme passa a tocar também em uma temática relativa à religião e como a praticamos. O filme mesmo diz não saber se existe um deus, mas se existe, ele toma formas desconhecidas, mas invariavelmente elas devem ser afetuosas, que seja capaz de perdoar, de aceitar o próximo. E essa foi a vida de Matsuko, sempre perdoou, sempre aceitou o próximo, sempre defendeu mesmo aqueles que cometeram erros, todos eram merecedores de sua atenção. O filme mostra mais de uma vez cenas em close do Novo Testamento, e claramente Matsuko é uma face moderna de Jesus Cristo, o filme pode facilmente ser lido como Caminho do Calvário por qual Jesus carregou sua cruz e sofreu de todas as violências possíveis até o local onde seria crucificado, para ainda assim perdoar aqueles que o crucificavam. Matsuko também tem sua crucificação. No final, quando surge novamente a esperança, quando surge uma amiga que lhe oferece um emprego e ela volta a acreditar que pode fazer algo, da mesma forma que Jesus sofreu o golpe fatal com a Lança que lhe perfurou, Matsuko recebe uma pancada com um taco de baseball em sua cabeça desferida por crianças. E então temos sua caminhada para o divino, sua ascenção e perdão até mesmo da irmã a qual tinha agredido quando saiu de casa ainda jovem. Ali acaba seu sofrimento, porque não mais faz parte da humanidade, que se mostrou totalmente incapaz de lhe dar afeto da mesma maneira que ela ofereceu aos demais. Esse final muito me fez lembrar do final de O Auto da Compadecida, onde João Grilo fala que aquele pedindo esmola jamais poderia ser Cristo, por que para ele Jesus não podia ser "pretinho" daquele jeito. Mesmo sendo ateu, acho muito bonita a ideia de Jesus não está no céu, mas sim naquele que passa por você todo dia, aquele ser invisível, as vezes um morador de rua, que pode ter uma história incrível, mas não conseguimos mais enxergar o próximo o suficiente para nos aproximarmos, e o quanto isso nos faz distanciar uns dos outros. E Matsuko absorveu em toda sua vida todo tipo de forma que esse ódio pode tomar. Apesar de toda as cores que a fotografia traz, todo o floreio que a estética do filme propositalmente força, não temos nada de contos da fadas aqui, apenas uma vida de tristeza profunda. E essa visão de Jesus estar no outro está cada vez mais "fora de moda" infelizmente, o afeto está longe de ser o sentimento vigente, o ódio nos torna cada vez mais alheios e indiferentes, e o filme se torna assim extremamente atual, só espero que não se torne atemporal, que um dia o afeto seja o padrão.