como entusiasta de obras que abordam morte, iniciei o filme em busca de uma narrativa mais densa, e quando, vez ou outra, a fala de um personagem dava indícios de que um pensamento nesse sentido poderia ser explorado, infelizmente não ia adiante. servia mais como um adorno contextual que como elemento de progressão.
os maneirismos e marcadores de gênero bem reforçados nos protagonistas também me distanciaram da fantasia do momento, embora isso seja mais sobre mim. terminei me sentindo deslocado em algum lugar entre o drama e a comédia, a qual, por sua vez, me lembrou remotamente a que se executa no filme Ghost, e que nele, ao menos a meu ver, ocorre de forma mais honesta e engajadora.
" - lembra a última vez que você saiu com seus amigos quando criança pra brincar de faz de conta?
- lembro que eu fazia muito isso
- lembra a última vez?
- não...
- não é triste? pensar que teve uma época em que você pedalava com seus amigos, fingindo que zumbis perseguiam vocês, todo mundo sujo e se divertindo demais... até que todos foram pra casa, deixaram a bicicleta e foram dormir, sem se dar conta de que nunca mais fariam aquilo de novo? o problema de não nos despedirmos é que não podemos aproveitar a última vez que faremos aquilo"
a aparição de fernanda montenegro torna uma obra que já era importante ainda mais especial: ela não precisou de uma palavra sequer pra transmitir em poucos minutos uma emoção colossal. que sorte a nossa e do cinema brasileiro!
a relação entre o pequeno poeta e sua professora me trouxe um misto estranhíssimo de sentimentos, a começar pela forma aparentemente vazia com que ele recebia as investidas dela.
inicialmente, me vi torcendo para que as iniciativas dela produzissem efeitos positivos na vida dele, afinal era a única pessoa que de fato aparentava valorizar suas criações.
mas perceber que a arte, na vivência infantil do personagem, não tinha propriamente uma finalidade, de nenhum cunho senão o da experimentação e percepção da linguagem pura e simples, conferiu às atitudes da professora não apenas um tom obsessor como também intimidador, talvez por, em sua própria trajetória, ter se distanciado da arte a ponto de objetificá-la como produto para consumo e projetar isso em outros âmbitos da vida, como por exemplo em relação à própria família, com quem ela mantinha um constante ar de ausência.
poucos são os filmes em que a ambientação funciona tão poderosamente que atua quase como um personagem adicional. aqui a atmosfera onírica e perturbadora dos espaços convida a um olhar mais atento ao mesmo tempo que ajuda a respaldar o caos de tudo que acontece - o que é impossível num universo em que corpos de galinha e cabeças de porco se fundem num híbrido?
destaque também para a sonorização, que nas cenas de sexo eleva a sensação de um gozo aterrorizante, envolto por um violino acelerado e disruptivo.
por mais que não pareça a princípio, nem enquanto proposta, o filme transcorreu diante de mim de forma muito sensorial, em que pese o apelo racionalista de muitas discussões levantadas. talvez por ter acompanhado obras anteriores do diretor, tenha me preparado pra abraçar o incômodo do explícito que ele costuma abordar, e, nesse caso em específico, funcionou: o sangue, as vísceras, a volúpia, os retalhos no rosto do willem dafoe, tudo conflui pra uma história de exuberâncias tristes... uma história de pobres criadores e pobres criaturas.
ps: acho que a grande concentração de eventos no filme poderia ter sido melhor distribuída numa série, em que personagens aparentemente unidimensionais como o assistente do God/noivo da Bella poderiam ter sido eventualmente mais aprofundados.
embora a temática que envolve acidentes e situações limite nesse sentido não me atraia de modo geral, a construção de momentos de ternura em meio à tragédia aqui retratada confere uma tessitura extremamente original ao filme, originalidade a meu ver também incrementada pela narração de um dos personagens, que, de forma onisciente, descreve alguns dos principais momentos da obra.
o recurso gráfico que expõe as mortes, individualmente, nome por nome, também mostra, no meu sentir, o cuidado que tiveram em humanizar o ocorrido a nível de detalhes.
me investi no desejo de um final que acolhesse a protagonista e não sei se isso retirou de mim a possibilidade de apreciar os rumos que, embora não fossem os mais acolhedores, foram os possíveis em meio a tantos interditos.
não dá pra deixar de notar também o êxodo constante que geralmente vivem as pessoas trans/travestis, desterritorializadas em suas casas, relações, trabalhos... o filme é exímio em apresentar esse movimento, mas também os fluxos reativos a ele, por meio da amizade, da formação de laços e redes de apoio.
gosto de como o filme meio que "resgata a si mesmo" em vários momentos. ele te apresenta uma bifurcação, um desencontro, e depois retoma esse desencontro simbolicamente pra mostrar como os caminhos das pessoas voltam a se entrelaçar, seja pra voltarem a se perder ou se encontrar.
nesse sentido, é particularmente interessante observar o resgate de memórias infantis na vida adulta dos personagens. eles crescem, trabalham, buscam novas rotas, novos parceiros... mas seguem sendo, em alguma medida, aqueles que um dia foram
"então viva, porque quando você for convocado para se juntar à numerosa caravana que se move para aquele reino misterioso onde cada um deve levar sua câmara nos silenciosos salões da morte, tu não vais, como o escravo da pedreira à noite, flagelado em sua masmorra, mas sustentado e tranquilo numa confiança inabalável, aproximar-se do seu túmulo, como quem envolve um lençol sobre sua cama e se deita para ter sonhos agradáveis"
tive a impressão de que o diretor aprecia trabalhar com a ideia de redenção pela morte, como se quanto mais próximo dela o personagem estiver, mais reluzente é a atmosfera em torno dele. nessa experiência em particular, não foi algo que me distanciou da obra. são tantas as nuances que atravessam uma história contada em basicamente uma sala que essa aparente predileção de aronofsky não me desconectou da narrativa. me senti olhando nos olhos do brendan fraser, a ponto de sentir toda a carga de sua expressão. e que expressão, meusamigos! estou hipnotizado
me disseram que o filme "a metamorfose dos pássaros" era como um abraço de 1h30. esse eu senti como uma despedida de 1h30, em que cada cena parece uma fotografia tirada para que o instante não fosse esquecido, mesmo sob os desígnios do tempo. gostei de como a delicadeza do roteiro não ignorou a angústia dos personagens.
Alerta Apocalipse
2.5 37 Assista Agoranoites turbulentas de trabalho
Eternidade
3.5 154 Assista Agoracomo entusiasta de obras que abordam morte, iniciei o filme em busca de uma narrativa mais densa, e quando, vez ou outra, a fala de um personagem dava indícios de que um pensamento nesse sentido poderia ser explorado, infelizmente não ia adiante. servia mais como um adorno contextual que como elemento de progressão.
os maneirismos e marcadores de gênero bem reforçados nos protagonistas também me distanciaram da fantasia do momento, embora isso seja mais sobre mim. terminei me sentindo deslocado em algum lugar entre o drama e a comédia, a qual, por sua vez, me lembrou remotamente a que se executa no filme Ghost, e que nele, ao menos a meu ver, ocorre de forma mais honesta e engajadora.
Meu Eu do Futuro
3.2 110" - lembra a última vez que você saiu com seus amigos quando criança pra brincar de faz de conta?
- lembro que eu fazia muito isso
- lembra a última vez?
- não...
- não é triste? pensar que teve uma época em que você pedalava com seus amigos, fingindo que zumbis perseguiam vocês, todo mundo sujo e se divertindo demais... até que todos foram pra casa, deixaram a bicicleta e foram dormir, sem se dar conta de que nunca mais fariam aquilo de novo? o problema de não nos despedirmos é que não podemos aproveitar a última vez que faremos aquilo"
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista Agoraa aparição de fernanda montenegro torna uma obra que já era importante ainda mais especial: ela não precisou de uma palavra sequer pra transmitir em poucos minutos uma emoção colossal. que sorte a nossa e do cinema brasileiro!
A Professora do Jardim de Infância
3.6 88 Assista Agoraa relação entre o pequeno poeta e sua professora me trouxe um misto estranhíssimo de sentimentos, a começar pela forma aparentemente vazia com que ele recebia as investidas dela.
inicialmente, me vi torcendo para que as iniciativas dela produzissem efeitos positivos na vida dele, afinal era a única pessoa que de fato aparentava valorizar suas criações.
mas perceber que a arte, na vivência infantil do personagem, não tinha propriamente uma finalidade, de nenhum cunho senão o da experimentação e percepção da linguagem pura e simples, conferiu às atitudes da professora não apenas um tom obsessor como também intimidador, talvez por, em sua própria trajetória, ter se distanciado da arte a ponto de objetificá-la como produto para consumo e projetar isso em outros âmbitos da vida, como por exemplo em relação à própria família, com quem ela mantinha um constante ar de ausência.
O Pagador de Promessas
4.3 389 Assista Agoraimprensa, estado e religião encarnados numa narrativa genial.
final apoteótico!
Eu Sonho em Outro Idioma
4.1 41que idioma será capaz de falar a língua morta de nossas perdas?
(a quem tenha admirado esse filme, recomendo y tu mama también, uma obra na qual fiquei pensando constantemente enquanto via essa)
Pobres Criaturas
4.1 1,3K Assista Agorapoucos são os filmes em que a ambientação funciona tão poderosamente que atua quase como um personagem adicional. aqui a atmosfera onírica e perturbadora dos espaços convida a um olhar mais atento ao mesmo tempo que ajuda a respaldar o caos de tudo que acontece - o que é impossível num universo em que corpos de galinha e cabeças de porco se fundem num híbrido?
destaque também para a sonorização, que nas cenas de sexo eleva a sensação de um gozo aterrorizante, envolto por um violino acelerado e disruptivo.
por mais que não pareça a princípio, nem enquanto proposta, o filme transcorreu diante de mim de forma muito sensorial, em que pese o apelo racionalista de muitas discussões levantadas. talvez por ter acompanhado obras anteriores do diretor, tenha me preparado pra abraçar o incômodo do explícito que ele costuma abordar, e, nesse caso em específico, funcionou: o sangue, as vísceras, a volúpia, os retalhos no rosto do willem dafoe, tudo conflui pra uma história de exuberâncias tristes... uma história de pobres criadores e pobres criaturas.
ps: acho que a grande concentração de eventos no filme poderia ter sido melhor distribuída numa série, em que personagens aparentemente unidimensionais como o assistente do God/noivo da Bella poderiam ter sido eventualmente mais aprofundados.
A Sociedade da Neve
4.2 782 Assista Agoraembora a temática que envolve acidentes e situações limite nesse sentido não me atraia de modo geral, a construção de momentos de ternura em meio à tragédia aqui retratada confere uma tessitura extremamente original ao filme, originalidade a meu ver também incrementada pela narração de um dos personagens, que, de forma onisciente, descreve alguns dos principais momentos da obra.
o recurso gráfico que expõe as mortes, individualmente, nome por nome, também mostra, no meu sentir, o cuidado que tiveram em humanizar o ocorrido a nível de detalhes.
grata surpresa.
Cafarnaum
4.6 691 Assista Agoradói demais
Amor
4.2 2,2K Assista Agoraatuação brutal de emmanuelle riva, minha respiração foi ficando pesada junto com a dela
Vermelho, Branco e Sangue Azul
3.6 334 Assista Agoracorri pra debaixo da mesa pra me abrigar da chuva de clichês
Paloma
3.8 69um dos desfechos mais realistas que já vi.
me investi no desejo de um final que acolhesse a protagonista e não sei se isso retirou de mim a possibilidade de apreciar os rumos que, embora não fossem os mais acolhedores, foram os possíveis em meio a tantos interditos.
não dá pra deixar de notar também o êxodo constante que geralmente vivem as pessoas trans/travestis, desterritorializadas em suas casas, relações, trabalhos... o filme é exímio em apresentar esse movimento, mas também os fluxos reativos a ele, por meio da amizade, da formação de laços e redes de apoio.
Vidas Passadas
4.1 940 Assista Agoragosto de como o filme meio que "resgata a si mesmo" em vários momentos. ele te apresenta uma bifurcação, um desencontro, e depois retoma esse desencontro simbolicamente pra mostrar como os caminhos das pessoas voltam a se entrelaçar, seja pra voltarem a se perder ou se encontrar.
nesse sentido, é particularmente interessante observar o resgate de memórias infantis na vida adulta dos personagens. eles crescem, trabalham, buscam novas rotas, novos parceiros... mas seguem sendo, em alguma medida, aqueles que um dia foram
Driveways: Uma Amizade Inesperada
3.6 21 Assista Agora"então viva,
porque quando você for convocado para se juntar à numerosa caravana que se move
para aquele reino misterioso
onde cada um deve levar sua câmara nos silenciosos salões da morte,
tu não vais, como o escravo da pedreira à noite,
flagelado em sua masmorra,
mas sustentado e tranquilo
numa confiança inabalável,
aproximar-se do seu túmulo,
como quem envolve um lençol sobre sua cama
e se deita para ter sonhos agradáveis"
(thanatopsis)
A Baleia
4.0 1,2K Assista Agorative a impressão de que o diretor aprecia trabalhar com a ideia de redenção pela morte, como se quanto mais próximo dela o personagem estiver, mais reluzente é a atmosfera em torno dele. nessa experiência em particular, não foi algo que me distanciou da obra. são tantas as nuances que atravessam uma história contada em basicamente uma sala que essa aparente predileção de aronofsky não me desconectou da narrativa. me senti olhando nos olhos do brendan fraser, a ponto de sentir toda a carga de sua expressão. e que expressão, meusamigos! estou hipnotizado
A Pior Pessoa do Mundo
4.0 699 Assista Agorafleabag + frances ha
Close
4.2 656 Assista Agoraa estaca que esse filme fincou no meu coração não vai sair nunca mais
Felizes Juntos
4.2 273 Assista Agorase você pausar esse filme em qualquer parte, a fotografia produzirá um espetáculo à parte. o cuidado estético é visível.
bônus: a oportunidade de ver hong kong de cabeça pra baixo e de sentir um tempo pré instagram
Aftersun
4.0 790me disseram que o filme "a metamorfose dos pássaros" era como um abraço de 1h30. esse eu senti como uma despedida de 1h30, em que cada cena parece uma fotografia tirada para que o instante não fosse esquecido, mesmo sob os desígnios do tempo. gostei de como a delicadeza do roteiro não ignorou a angústia dos personagens.
Triângulo do Medo
3.5 1,3Ktaylor swift é correria
E Sua Mãe Também
4.0 539 Assista Agoramexicano, clitoriano, praiano. vai ser difícil esquecer isso aqui. ainda bem
Rastros de um Sequestro
3.8 598 Assista Agora0 a 100 muito rápido
O Abraço Corporativo
4.2 7genial