Promising Young Woman é uma falha curiosa. É um filme que tenta abordar o difícil tema da cultura de estupro com a delicadeza de nunca ficar difícil de assistir, pelo menos não perturbador num nível que não seja conceitual, fluindo como uma dark comedy.
Mas erra em cheio exatamente no tom conciliador. É humoroso demais para ser sério, e sério demais para ser humoroso. Como resultado, fica um filme de proposta confusa que não tem coragem para encarar os riscos que sugere que vai tomar.
O filme começa dando dicas de ser uma revenge fantasy, onde a protagonista Cassie tem um plano sociopata para se vingar de cada homem que toma vantagens sobre mulheres bêbadas em clubes. Entretanto, o payback absurdista violento tarantinesco nunca vem, com os encontros terminando numa anticlimática, decepcionante lição moral nos agressores, que observam chocados a militância de Cassie.
O que quebra a imersão, Cassie dá lições sermões em predadores, sozinha com eles em espaços vazios, em uma cena até destruindo o carro de um redneck que parece violento. É um realismo mágico? Uma metáfora em linguagem de sonho? Pois, na vida real, a mulher que fizesse isso ia acabar no mínimo com um olho roxo. No filme, os homens fogem assustados.
Então tudo bem, Promising Young Woman seria uma crítica séria, com pés no chão? Também não funciona com a bizarrice tonal atrapalhando qualquer crítica construtiva sobre a cultura de estupro. É estranho que os planos sociopatas de Cassie funcionam justamente com mulheres, com o filme celebrando vitórias sádicas e justiceiras dela, que chega a ameaçar a filha inocente de outra mulher. A vingança 3 encontra o perdão do homem arrependido, a vingança 4 encontra a morte de Cassie, finalmente encarando o feminicídio que é a primeira coisa realista que acontece no filme.
Isso tudo é uma crítica irônica pós-moderna auto-consciente bla bla bla? É impossível dizer, não porque Promising Young Woman é sutil, sofisticado ou propositalmente ambíguo, mas porque ele realiza um double-talking, buscando fazer mais de um discurso de uma vez e não conseguindo nenhum, as lições sobre cultura de estupro ficando incrivelmente superficiais (feminismo 101 de twitter) e o filme até mesmo sugerindo entrar no território de autoparódia.
A cena no mercado com Paris Hilton tocando é exemplo: é a estupidez da paródia de encontrar o homem ideal, como parte da audiência achou, ou um momento romântico pra millenials que passaram dos 30 e cresceram com guilty pleasures se projetarem, como a outra parte achou?
Promising Young Woman tenta ter tudo ao mesmo tempo e vai pra casa de mãos vazias, mas é um filme confuso que não deixa de ser provocador, uma bagunça que pelo menos nunca fica chata.
Judas and the Black Messiah é um filme de informante, mas com pouco foco no suspense do infiltrado ser potencialmente capturado, e sim em como a jornada emocional do seu protagonista funciona como perfeito microcosmo de um quadro maior.
E William O'Neal (Lakeith Stanfield, criminosamente indicado a Melhor Ator Coadjuvante) é um homem pego no meio de uma situação. Um low-life aparentemente desinteressado em políticas, vira uma peça de xadrez fundamental na luta do FBI racista, genocida de Edgar Hoover (Martin Sheen, ativista, caprichou no quão evil Hoover ficou) contra o grupo revolucionário Black Panthers.
O'Neal se envolve ideologicamente e afetivamente com o grupo, mas completa seu serviço para o FBI, que graças a sua ajuda criminosamente assassina Fred Hampton. Stanfield é inesquecível: O'Neal nunca é muito expressivo, com mesmo suas contestações a Roy Mitchell (atuado pela versão feia do Matt Damon), pouco articuladas, em uma atuação física que diz mais com o desespero do olhar.
O lado do filme que conta a história dos Black Panthers é didático, preciso. Daniel Kaluuya é brilhante na pele de Hampton, colocando em tela o vigor revolucionário que fez a figura ser chamada de messias. Sua esposa, revolucionária Deborah Jones, e outros integrantes dos panteras são todos trazidos a vida como pessoas reais, de anseios humanos perante à violenta situação maior.
2 horas compartilhadas com outro personagem principal pode ser pouco para trazer a complexidade de uma figura como Fred Hampton à tela, mas Kaluuya e o roteiro trazem a urgência adequada. O filme é bem dirigido. Alternando os pontos de vista - panteras, informantes, fbi - Judas and the Black Messiah tem valor histórico, dramatização coerente para introduzir a história da traição/assassinato de Hampton, em 1969, para novas gerações.
Os dois homens no centro são contrapontos: Hampton é um homem disposto a morrer pela sua raça, O'Neal é disposto a sacrificar sua raça para sobreviver. O'Neal, tirando no título, nunca é vilanizado, tratado com um pathos generoso de figura complexa, também uma vítima do genocídio racial. Para mim, a informação no pós-filme foi a parte mais devastadora.
Este filme tem uma grande direção, cenas impressionantes e todo ator é muito talentoso, especialmente o Norton É um excelente filme mas poderia ser um clássico; a edição parece apressada e obtusa. O filme tem uma estrutura estranha, com enormes flashbacks no meio e a história mais interessante que parece que vai desenvolver no começo do filme acaba indo para caminhos abreviados. As motivações do Derek são explicadas, mas quase que num improviso tipo aquela rápida cena com o pai dele num flashback; apesar da amizade na cadeia ser marcante, o caminho para ele deixar de ser um skinhead também é pouco desenvolvido. O final é espetacular cinematograficamente e pesado, mas também parece um pouco repentino. O diretor Tony Kaye brigou com o Norton e a produção o filme todo, com ele eventualmente saindo (e pedindo para tirar seus créditos - não foi atendido). O próprio Norton fez a edição final, que parece remendar um trabalho incompleto - tenho impressão que no projeto original, deveriam ter menos flashbacks e mais desenvolvimento daqueles grupos neonazistas com aquele escritor supremacista que eles protegem; provavelmente o plot giraria entorno do Derek voltar infiltrado para ajudar o policial e o professor, como eles pedem no fim? Seria demais! No filme acabam que várias cenas são como band-aids pro roteiro não andar, e aí as conclusões chegam apressadas.
Ainda é um grande filme, quando você dá play ele voa porque cena a cena ele é provocador, mas é difícil não imaginar o clássico que poderia ser.
The Dead Zone – lançado como Na Hora da Zona Morta no Brasil – é uma joia do cinema B. Como Roger Ebert argumenta e tantos episódios de Arquivo X também mostram, algumas das melhores histórias paranormais são aquelas que nos fazem justamente esquecer o paranormal, tão capazes de envolver a audiência com dilemas pessoais e atmosfera.
Com a premissa comum envolvendo um personagem que, após um acidente quase fatal, ganha capacidades psiquícas de prever o futuro, o filme é elevado pelo drama existencial de Johnny, seu personagem principal: ele pode ter ganhado o famigerado “dom/maldição” da premonição, mas nos 5 anos de coma, perdeu tudo – sua namorada casou com outro, suas pernas não funcionam mais, sua mãe logo morre e seu emprego como professor de literatura também se foi.
The Dead Zone é um drama sobre um indivíduo que, congelado no tempo, perde a andada do mundo. A grande atuação de Christopher Walken dá enorme pathos a história: ele humaniza o atormentado personagem, mas mesmo despertando pena, de forma alguma vira um misery porn. Como um bom filme de gênero de baixo orçamento (de 1h30min), o enredo se move pela curiosidade, cada esquina uma nova parábola pessoal envolvendo suas misteriosas novas capacidades.
Walken não é o único grande talento envolvido, o filme inteiro está em boas mãos – David Cronenberg capricha na sua direção mais convencional, uma dos poucos sem tentáculos e parasitas (um bizarro suicídio é o único toque com a cara do diretor); legendária produtora de horror Debra Hill está no barco; Stephen King, autor do livro, ficou satisfeito com as mudanças de Jeffrey Boam no roteiro (apesar de subestimado, vez ou outra o filme é lembrado como das boas adaptações de King); o grande Martin Sheen ainda aparece no ato final com um memorável vilão.
Charmoso, atmosférico e carregado pelo pathos do seu personagem principal, The Dead Zone tem foco: bem editadas direção e roteiro são sutis, colocando o necessário na tela com clareza. A curta e recompensadora jornada termina no climáx com minutos finais poderosos.
Um icônico filme B de muitas formas, Cães de Aluguel é uma história hilária e ultraviolenta de uma locação só, conduzida por uma linguagem sensacionalista e por grandes atuações de um elenco de excelentes de antes e depois.
A violência e o teor racial de tantos diálogos foi mais chocante em 1992 do que é hoje, e o filme tem muitas características que seriam virtudes da carreira do Tarantino: o diálogo é hilário e descompromissado, mas não o suficiente para o filme virar uma comédia - ou seja, nunca sacrifica a tensão dos momentos de thriller. Homenagens a cultura pop em menções a música negra, séries de televisão antiga e outros filmes também aparecem.
Uma produção de baixo orçamento, acaba cedo demais, justo quando você pega o gosto pelas articulações dos personagens excêntricos. Fica o gosto de querer mais, e de muitas formas o diretor entrega no filme seguinte.
Anos depois, com superexposições do diretor que virou uma celebridade entrevistas, fica notável que todo personagem em Reservoir Dogs ou Pulp Fiction soa como uma versão exagerada do próprio Tarantino (o melhor de todos, Jackie Brown, foi um roteiro adaptado), o que sugere que o mesmo seja afinal um escritor limitado, baseado em gimmicks - seus filmes funcionando mais como esquetes noir do que como as obras profundas que o culto de personalidade sugerem. Mas dentro dessas concessões, ele é ainda é divertido demais e em 1992 não havia nada igual a Reservoir Dogs.
Eu amei esse filme. O formato e o tom é bem Disney, mas a roupagem das melodias e a entrega dos personagens é diferente - provavelmente pelo tanto talento mexicano por trás da produção. As músicas são discretas, mas o plot importa mais e trata de forma delicada e bondosa questões pesadas como morte e memória - apesar de ser diferente por ser completamente sinistro, me lembrou A Viagem de Chihiro pois contempla o espaço metafísico que pertence aos que já foram. É um filme cerebral, hilário e com ambientes deslumbrantes, água fresca depois de tanto reino nesses filmes. Eu não sou o público alvo de animações e gostei muito.
É estranho que esse filme por um tempo teve uma reputação infame, sendo quase esquecido na discussão de épicos de Hollywood de ficção científica, ofuscados por alguns recentes bem inferiores (ou alguns antigos que envelheceram bem mais mau).
Comandado por uma atuação inesquecível da Jodie Foster, Contato revela informações aos poucos, começando minimalista como um thriller extraterrestre estilo Arquivo X, finalizando com viagens interdimensionais buscando o significado sobre tudo, estilo algum livro do Arthur C Clarke.
Mas é dum livro do Carl Seagan que é baseado, e debates sobre machismo na ciência, ciência vs religião, financiamento de pesquisas e um fundo de verdade bem pesquisado sobre uma ou outra parte também fazem parte.
Eu gosto como ele vai revelando aos poucos as informações, e em breve uma suástica recebida de sinais de rádio antigos do espaço sideral viram uma questão global de busca pela verdade na operação científica mais elaborada da humanidade. O filme promove o Ciência vs Fé sem diminuir a ciência e embora dando valor igual a fé, atacando o extremismo religioso sem pudor. É um em cima do muro que ainda faz as críticas que precisa.
O personagem do Matthew McConaughey aparecendo aleatoriamente por todo o filme distrai um pouco, tem um melodrama típico de blockbuster 90s que alguns vão amar e outros nem tanto mas a grande mancha pra mim é a manipulação de discursos do Bill Clinton da vida real, recortados para aparecer na história, e também o uso de figuras jornalísticas da CNN do mundo real em um produto entretenimento. Ambos são emblemáticos ao preceder questões como deep fakes e a machucada integridade jornalística no mundo "pós-verdade" de hoje.
Apesar de uns 15-30 mins mais longo do que devia ser, Dog Day Afternoon é um excelente "siege film" (pessoas cercadas numa mesma locação por todo o filme), comandado por uma atuação estelar do Al Pacino. O assalto violento acaba sendo encarado num tom mais leve, amenizando o tema pesando e quase anulando a violência que um filme, como outros apelativos dessa época, teriam.
Logo o roteiro se politiza, falando também da polícia, da mídia e por identidade sexual. Ele é um estudo do Sonny, o personagem principal. O assaltante da história real (que foi solto acho que 5 anos depois), aparentemente uma pessoa curiosa e articulada como o personagem do filme, enviou uma carta ao NYT falando que, apesar de adorar a performance do Al Pacino, o filme só condiz em 30% com a verdade. A menina conseguiu sua cirurgia de mudança de sexo!
Ainda assim vale a pena, pra quem gosta dum certo tom contracultural, anti-autoritário do cinema americano dos anos 70.
Como Robocop e Showgirls, Verhoeven entrega uma crítica hilária ao fascismo e ao militarismo, mostrando um império humano completamente idiotizado e encantado por patriotismos baratos; audiências na época não conseguiam entender, e não dá para culpar pois em 1997 filmes com uma linguagem tão complexa (uma crítica mas em forma de deboche onde os protagonistas que a gente torce são totais idiotas? é um pouco demais mesmo, apesar de mais atual no cinema e TV de hoje).
Neil Patrick Harris vestido de soldado da SS, declarando que "assustaram" uma raça alien que os próprios humanos foram importunar, para a celebração geral, é inesquecível pra mim. Sim, assustaram, não mataram ou venceram, como se o terrorismo psicológico e a maldade fossem o objetivo principal das campanhas, não qualquer tipo de sobrevivencialismo.
Eu não poderia discordar mais do "Tão ruim que é bom" Showgirls é um deboche escancarado com o capitalismo, a exploração não só do corpo das mulheres, mas de todos relacionados ao mercado de trabalho É um filme tão sarcástico que chega a ser obnóxio às vezes, 20 anos depois a visão Verhoeven fica clara para mim, duma forma bem parecida com a ironia do Starship Troopers Este já foi revisado como um filme debochado e altamente inteligente criticando o fascismo e o militarismo, infelizmente o Showgirls (pra mim quase filme-irmãos) ainda segue sendo odiado - ou apreciado de forma campy com o "tão ruim que é bom". Como Tarantino disse, é um filme "exploitative" (provavelmente escrevi errado mas tanto faz), seguindo lógica que foram populares nos anos 70, mas incorporando comentários embutidos através da ironia e do tom escrachado, de forma bem pós-moderna
Showgirls não é uma obra-prima pra mim só por causa de uma cena de estupro completamente deslocada e desnecessária, fácil a coisa mais violenta que vi num filme mainstream. Mas eu ainda amo esse filme, defendo contra tudo e todos, um dos filmes mais complexos que já vi, podem me xingar.
Envelheceu mal mas foi um estrondo na época pelo que falam, não havia nada igual. Hoje é muito lento e sci-fi basic, mas tem que se lembrar que ele construiu a base pra tudo. O primeiro e o segundo ato são interessantes, mas talvez mais de debater as questões filosóficas no bar. O terceiro ato é o melhor, com uma viagem bem as que Arthur C Clarke fazia na parte final de tantos dos seus livros (ele escreveu o roteiro com Kubrick, ao mesmo tempo que escrevia o livro 2001), e o diretor caprichando no surrealismo totalmente inesperado. Filme fácil de respeitar mas difícil de sentar e rever, pelo menos pra mim.
Grande estética, quase não precisando de roteiro escrito, tamanha a história visual é contada pecado por pecado. Desde o momento que fulano tal entra em tal lugar no terceiro ato do filme, é de ficar na cadeira. O twist é um para os livros. Dois leads espetaculares, um segredo bem guardado (até nos promos quando saiu em 1995), um filme famoso e super influente que é surpreendentemente muito simples, Se7en é um clássico neo-neoir e minha única reclamação é a cena extra esperançosa completamente sem sentido no final - devia ter acabado no deserto.
Hoje é meio vergoinha gostar desse filme né, os ciNEfilos pegaram como objeto de culto (igual Pulp Fiction e outros) e o alt-right entendeu tudo errado, Tyler Durden sendo uma espécie de herói incel. A verdade é que essa é uma obra super complexa, escrita por um autor homossexual, que toca na relação entre masculinidade, consumismo e fascismo.
O livro do Palahnuik (que nem é um dos melhores dele) é mais cômico, com o roteiro (brilhantemente adaptado, sendo melhor que o livro, por um cara que nem sei o nome) aliado a cinetamografia e a ressonância emocional das imagens acabam deixando o filme um pouco mais pesado e pessoal, embora ainda humoroso. Ele rende tanta discussão de qualquer forma, e é hilário (e digno de investigação séria) que ele e o Matrix, também de 1999, também escrito por LGBTs, tenham virado ícones da extrema-direita (não que outras pessoas também não cultuem)
Fincher segue uma sequencia legendária se firmando como esteticista único, o estilo de escrita do Palahnuik (ainda mais fantástico em livros que vieram depois como o Invisible Monsters), a grande adaptação do roteiro, a música underground dos fantásticos produtores The Dust Brothers (infelizmente sumiram), Brad e Edward jovens, dando um tom homoerótico, tudo em Fight Club tá no topo e pode ser um filme que muda sua vida, se ao invés de ouvir os personagens perdidos, você vá pesquisar a fundo sobre as interpretações profundamente políticas dos seus temas.
Algumas edições da direção parecendo videoclipes, umas atmosferas que parecem um pesadelo e a música e efeitos sonoros são realmente icônicas e ficam na minha memória, mas não consigo aplaudir esse filme. A guerra as drogas e o problema com dependência química é muito mais complexo que isso, Requiem para um Sonho faz parecer que os personagens são mau caráteres que sucumbiram à tentações, tentaram ser mais espertos com todo mundo ao brincar com algo terrivelmente errado.
Drogas não funcionam assim, mesmo as que matam, e há uma série de problemas sociais e psicológicos que legam ao vício em drogas. Esse é um filme bem careta, conservador e quase cristão, uma propaganda que usa apelações emocionais para fazer um ponto muito raso de que o problema das drogas se resume a elas fazerem mal, reduzindo questões a uma disputa de bem vs mal como é típico de reacionários. O plot da mãe é completamente implausível e eles misturarem a trajetória dela com a dos jovens me faz perguntar se eles fizeram alguma pesquisa médica pra escrever isso? O misery porn de ser um filme onde só tudo dá errado o tempo todo também não ajuda.
Queria que o diretor usasse essas estéticas e sons dream/pesadelo-like em algum trabalho menos pedante e superficial. O tempo passa e continuam endeusando Requiem para um Sonho, prova de que a apresentação duma ideia às vezes vale mais do que a substância dela (sem trocadilho hehe).
Filme sólido, com boas atuações, mas que por algum motivo não me toca. Não funciona como comédia, nem como drama e não consigo me investir nos personagens. A crítica social a cultura de estupro e as tragédias pessoais não atingiu o ponto pra mim. Mas é só minha opiniao
Fargo é um filme quase impossível de não amar. Uma história de crime de curta duração, com cinematografia inesquecível em um setting atmosférico, é daqueles filmes que os protagonistas são amáveis, os vilões são hilários, é violento mas nada é tão dark ou tão sério, é hilário e ás vezes adorável. Cena por cena você não sabe o que esperar, o filme de atinge com surpresas e reviravoltas o tempo todo. McDormand mereceu o Oscar e não bastasse a grande influência em tantos outros filmes, ainda ganhou uma belíssima adaptação como antologia na TV duas décadas depois.
Quem diria que Tarantino é melhor escritor de roteiro adaptado que original, no único adaptado que ele escreveu? Ele corta os excessos e fanboyzismos das coisas originais dele e conseguiu dirigir um filme com total sutileza e respeito por estética e o material fonte. O livro do grande Elmore Leonard é cerebral e incrivelmente bem escrito, especialmente os diálogos. O Tarantino pega as estéticas dos filmes black exploitation (inclusive a atriz principal), como a música soul e as fotografias, mas deixa a parte de exploitation totalmente pra trás ao usar Leonard para se atualizar. É o filme que mais olha pra frente do diretor, que nos bons filmes Kill Bill e Once Upon a Time In Hollywood, por exemplo, pode ser acusado de reacionário, além das homenagens grindhouse, ao querer viver e voltar ao passado demais.
Jackie Brown tem raízes no passado mas soa como uma atualização, com todos personagens complexos e humanos demais para serem estereótipos raciais, e sua protagonista uma mulher empoderada simplesmente espetacular. Se nos outros trabalhos do Tarantino todos os personagens parecem uma versão dele, aqui cada um parece um ser humano completamente desenvolvido, cortesia do grande Leonard que sabe escrever personagens.
Você junta isso com um elenco absolutamente matador em todas suas performances - Grier, Forster, Jackson, De Niro, Fonda - e você tem não só o melhor filme do Tarantino, mas o mais maduro (sem perder o aspecto diversão). Os filmes de ação que vieram depois foram todos bons, mas isso aqui sugere que, não fosse o fracasso comercial e crítico, ele poderia ter dado passo a frente e ter sido um cineasta dez vezes mais complexo. Jackie Brown é sutilmente espetacular
Bom standup, observacional como sempre. Uma atualização do velho estilo dele para o mundo atual, o que é interessante de ver após os antigos falarem tanto deu m mundo pré internet e etc. São 60 minutos bons de gastar
É normal boiar, o ponto de JFK não é provar o que aconteceu no assassinato do presidente, mas ilustrar uma cultura de teorias da conspiração que se formou nessa época e hoje é uma parte significante do imaginário político da sociedade. As colagens com monólogos foram iconicamente estilosas; grandes atuações, direção e um tom incrivelmente provocador levaram as autoridades dos EUA a liberarem documentos do caso JFK, mesmo com o boicote da imprensa à esse filme
JFK talvez tenha feito mais mal que bem para o mundo, já que hoje convivemos com negacionistas do holocausto, terraplanistas e anti-vacinas que seguem retóricas similares; e é bem verdade a homofobia no ápice do plot, mas é uma peça não apenas do cinema, mas do pensamento social determinante para entender o mundo de hoje. Se você abstrair, também é pura diversão pulp.
Estrelas: Gary Oldman, mesmo só aparecendo em flashbacks; Oliver Stone; John Williams.
O Poderoso Chefão pode ser eternamente lembrado no gênero máfia, mas o pace mais literário e o foco em família, tradição e honras talvez o afaste de definir o gênero tanto quanto Goodfellas. Os ítalo-americanos como conhecemos de tantos outros filmes (e de The Sopranos que tanto deve a essa série), com aquele humor bizarro, risadas forçadas, comilança exagerada, péssimo temperamento, mal gosto pela ascensão financeira e tudo mais são moldados nesse que é o filme de máfia essencial. A ascensão e queda de um gangster em NY, analisando aspectos sociais, familiares e consumistas não é só baita entretenimento (graças a um grande elenco e um roteiro com muito humor), mas um retrato que contém bastante de realidade também.
Afinal, não apenas Nicolas Pilleggi, repórter criminal que entrevistou e escreveu a biografia de Henry Hill, que o filme é baseado, mas todos os diretores e atores tem ascendência ítalo-americana (alguns como Tony Sirico até foram da máfia), cresceram em meios similares e certamente tem um poderoso espaço de fala para contar esse tipo de história.
Um dos melhores filmes de crime de todos os tempos, com Al Pacino no ápice, mostra a ascensão e queda de Tony Montana, um dos personagens mais psicopáticos protagonizando um filme mainstream até ali. Diálogo, roteiro, ação, fotografia em Miami, é tudo icônico e é daqueles filmes de 3 horas que parecem passar em 30 minutos. Poucos filmes de crime tem um climáx tão perfeitamente localizado justo nas cenas finais. A quantidade brutal de violência e abuso explícito de drogas afastou os críticos quando saiu, mas eles foram forçados a reavaliar o filme que não só inspirou dezenas de outros filmes (e séries como Breaking Bad), mas o hip hop e a cultura de rua a partir dali. Também lançou a carreira do tão controverso Oliver Stone, aqui roteirista.
É o conto de um homem que ascende ao topo através de blefe, truculência, culhão e cocaína, e quando chega lá, mal consegue aproveitar o império que construiu e ironicamente,
Antes de tudo, Fora Bozo e #Lula2022. Essa é minha postura política, para deixar claro para quem tá lendo que não sou dos bots do energúmeno do presidente que aparecem para negativar o filme pelos motivos errados.
Bacurau, para mim, é uma falha interessante ao invés da obra-prima de esquerda que tanta gente sugere. Fotografia, atores e diretor são acima da média. O roteiro é a calcanhar de Aquiles do filme.
Que não sabe se decidir se é um filme cult cheio de coisas em aberto, um protesto político ou uma homenagem aos filmes apelativos dos anos 70. Bacurau monta a cidade homônima como uma locação western, isolada e fora do mapa no interior de Pernambuco. Faz representações da cultura nordestina e tem bonitas paisagens.
Então, como um slasher de locadora, americanos começam a executar seus moradores. Não explica porquê, mas eles recebem satisfação e prazer sexual da morte dessas pessoas. Há brasileiros do Sudeste participando. Não tem comentário sobre neocolonialismo ou imperialismo (fora uma boa cena sobre viralatismo): os americanos são sádicos e malvados. E é isso, vago e insatisfatório assim. Americanos fodem nosso país há décadas por motivos políticos e econômicos, reduzir isso a esse simplismo, que parece sair de uma fantasia adolescente, não faz lá muito serviço a discussão política. É uma associação boba e preguiçosa, parece como a extrema-direita vê as paranoias da esquerda.
Fica pior: formulaico, o ato final tem a defesa de Bacurau contra seus agressores. E aí que nem parece ser um western apelativo ele serve: li comentários sobre o excesso de violência, mas a verdade é que CINCO dos 6 vilões morrem off-screen! Cadê os tiros na cara? O climáx é uma decepção enorme pelo quão ruim a ação é conduzida.
E o final transcendental. O vilão do Udo Kier, a melhor coisa desse filme, não é massacrado por Bacurau. Um tom bizarramente contemplativo e respeitoso entre ele e os moradores da cidade precede sua morte off-screen. Ele não gosta de ser chamado de nazista, mas mata cães, mas não mata mulheres, mas mata os próprios aliados. É para ele ser gostável?
Impossível saber, Bacurau não faz a mínima ideia do que quer dizer e usa de estéticas, não ideias, progressistas para se afirmar.
Lynch estava no topo do mundo em 1990 - um dos diretores mais respeitáveis de Hollywood após Blue Velvet, sua série Twin Peaks era um fenômeno da cultura pop com audiências na casa das dezenas de milhões, artista plástico respeitável, Lynch era visto como uma powerhouse da arte pop e da criatividade, não apenas como um exemplo de técnica.
Sua aguardada sequel a Blue Velvet leva seu tom pós-moderno, surrealista a uma otimista, embora completamente insana e as vezes perturbadora, história de amor no formato de um road movie. Acho que esse filme também teve grande influência pelo resto da década, abrindo caminho para outras modernizações do formato Bonnie & Clyde como Thelma & Louise e Natural Born Killers.
A revolução de Blue Velvet e Twin Peaks não é repetida, mas Wild at Heart é altamente satisfatório, desenvolve mais da cabeça do diretor e tem o final mais "aww", de esquentar o coração da filmografia do Lynch.
Bela Vingança
3.8 1,3KPromising Young Woman é uma falha curiosa. É um filme que tenta abordar o difícil tema da cultura de estupro com a delicadeza de nunca ficar difícil de assistir, pelo menos não perturbador num nível que não seja conceitual, fluindo como uma dark comedy.
Mas erra em cheio exatamente no tom conciliador. É humoroso demais para ser sério, e sério demais para ser humoroso. Como resultado, fica um filme de proposta confusa que não tem coragem para encarar os riscos que sugere que vai tomar.
O filme começa dando dicas de ser uma revenge fantasy, onde a protagonista Cassie tem um plano sociopata para se vingar de cada homem que toma vantagens sobre mulheres bêbadas em clubes. Entretanto, o payback absurdista violento tarantinesco nunca vem, com os encontros terminando numa anticlimática, decepcionante lição moral nos agressores, que observam chocados a militância de Cassie.
O que quebra a imersão, Cassie dá lições sermões em predadores, sozinha com eles em espaços vazios, em uma cena até destruindo o carro de um redneck que parece violento. É um realismo mágico? Uma metáfora em linguagem de sonho? Pois, na vida real, a mulher que fizesse isso ia acabar no mínimo com um olho roxo. No filme, os homens fogem assustados.
Então tudo bem, Promising Young Woman seria uma crítica séria, com pés no chão? Também não funciona com a bizarrice tonal atrapalhando qualquer crítica construtiva sobre a cultura de estupro. É estranho que os planos sociopatas de Cassie funcionam justamente com mulheres, com o filme celebrando vitórias sádicas e justiceiras dela, que chega a ameaçar a filha inocente de outra mulher. A vingança 3 encontra o perdão do homem arrependido, a vingança 4 encontra a morte de Cassie, finalmente encarando o feminicídio que é a primeira coisa realista que acontece no filme.
Isso tudo é uma crítica irônica pós-moderna auto-consciente bla bla bla? É impossível dizer, não porque Promising Young Woman é sutil, sofisticado ou propositalmente ambíguo, mas porque ele realiza um double-talking, buscando fazer mais de um discurso de uma vez e não conseguindo nenhum, as lições sobre cultura de estupro ficando incrivelmente superficiais (feminismo 101 de twitter) e o filme até mesmo sugerindo entrar no território de autoparódia.
A cena no mercado com Paris Hilton tocando é exemplo: é a estupidez da paródia de encontrar o homem ideal, como parte da audiência achou, ou um momento romântico pra millenials que passaram dos 30 e cresceram com guilty pleasures se projetarem, como a outra parte achou?
Promising Young Woman tenta ter tudo ao mesmo tempo e vai pra casa de mãos vazias, mas é um filme confuso que não deixa de ser provocador, uma bagunça que pelo menos nunca fica chata.
Judas e o Messias Negro
4.1 526 Assista AgoraJudas and the Black Messiah é um filme de informante, mas com pouco foco no suspense do infiltrado ser potencialmente capturado, e sim em como a jornada emocional do seu protagonista funciona como perfeito microcosmo de um quadro maior.
E William O'Neal (Lakeith Stanfield, criminosamente indicado a Melhor Ator Coadjuvante) é um homem pego no meio de uma situação. Um low-life aparentemente desinteressado em políticas, vira uma peça de xadrez fundamental na luta do FBI racista, genocida de Edgar Hoover (Martin Sheen, ativista, caprichou no quão evil Hoover ficou) contra o grupo revolucionário Black Panthers.
O'Neal se envolve ideologicamente e afetivamente com o grupo, mas completa seu serviço para o FBI, que graças a sua ajuda criminosamente assassina Fred Hampton. Stanfield é inesquecível: O'Neal nunca é muito expressivo, com mesmo suas contestações a Roy Mitchell (atuado pela versão feia do Matt Damon), pouco articuladas, em uma atuação física que diz mais com o desespero do olhar.
O lado do filme que conta a história dos Black Panthers é didático, preciso. Daniel Kaluuya é brilhante na pele de Hampton, colocando em tela o vigor revolucionário que fez a figura ser chamada de messias. Sua esposa, revolucionária Deborah Jones, e outros integrantes dos panteras são todos trazidos a vida como pessoas reais, de anseios humanos perante à violenta situação maior.
2 horas compartilhadas com outro personagem principal pode ser pouco para trazer a complexidade de uma figura como Fred Hampton à tela, mas Kaluuya e o roteiro trazem a urgência adequada. O filme é bem dirigido. Alternando os pontos de vista - panteras, informantes, fbi - Judas and the Black Messiah tem valor histórico, dramatização coerente para introduzir a história da traição/assassinato de Hampton, em 1969, para novas gerações.
Os dois homens no centro são contrapontos: Hampton é um homem disposto a morrer pela sua raça, O'Neal é disposto a sacrificar sua raça para sobreviver. O'Neal, tirando no título, nunca é vilanizado, tratado com um pathos generoso de figura complexa, também uma vítima do genocídio racial. Para mim, a informação no pós-filme foi a parte mais devastadora.
A Outra História Americana
4.4 2,3K Assista AgoraEste filme tem uma grande direção, cenas impressionantes e todo ator é muito talentoso, especialmente o Norton
É um excelente filme mas poderia ser um clássico; a edição parece apressada e obtusa.
O filme tem uma estrutura estranha, com enormes flashbacks no meio e a história mais interessante que parece que vai desenvolver no começo do filme acaba indo para caminhos abreviados.
As motivações do Derek são explicadas, mas quase que num improviso tipo aquela rápida cena com o pai dele num flashback; apesar da amizade na cadeia ser marcante, o caminho para ele deixar de ser um skinhead também é pouco desenvolvido. O final é espetacular cinematograficamente e pesado, mas também parece um pouco repentino.
O diretor Tony Kaye brigou com o Norton e a produção o filme todo, com ele eventualmente saindo (e pedindo para tirar seus créditos - não foi atendido). O próprio Norton fez a edição final, que parece remendar um trabalho incompleto - tenho impressão que no projeto original, deveriam ter menos flashbacks e mais desenvolvimento daqueles grupos neonazistas com aquele escritor supremacista que eles protegem; provavelmente o plot giraria entorno do Derek voltar infiltrado para ajudar o policial e o professor, como eles pedem no fim?
Seria demais! No filme acabam que várias cenas são como band-aids pro roteiro não andar, e aí as conclusões chegam apressadas.
Ainda é um grande filme, quando você dá play ele voa porque cena a cena ele é provocador, mas é difícil não imaginar o clássico que poderia ser.
Na Hora da Zona Morta
3.6 337 Assista AgoraThe Dead Zone – lançado como Na Hora da Zona Morta no Brasil – é uma joia do cinema B. Como Roger Ebert argumenta e tantos episódios de Arquivo X também mostram, algumas das melhores histórias paranormais são aquelas que nos fazem justamente esquecer o paranormal, tão capazes de envolver a audiência com dilemas pessoais e atmosfera.
Com a premissa comum envolvendo um personagem que, após um acidente quase fatal, ganha capacidades psiquícas de prever o futuro, o filme é elevado pelo drama existencial de Johnny, seu personagem principal: ele pode ter ganhado o famigerado “dom/maldição” da premonição, mas nos 5 anos de coma, perdeu tudo – sua namorada casou com outro, suas pernas não funcionam mais, sua mãe logo morre e seu emprego como professor de literatura também se foi.
The Dead Zone é um drama sobre um indivíduo que, congelado no tempo, perde a andada do mundo. A grande atuação de Christopher Walken dá enorme pathos a história: ele humaniza o atormentado personagem, mas mesmo despertando pena, de forma alguma vira um misery porn. Como um bom filme de gênero de baixo orçamento (de 1h30min), o enredo se move pela curiosidade, cada esquina uma nova parábola pessoal envolvendo suas misteriosas novas capacidades.
Walken não é o único grande talento envolvido, o filme inteiro está em boas mãos – David Cronenberg capricha na sua direção mais convencional, uma dos poucos sem tentáculos e parasitas (um bizarro suicídio é o único toque com a cara do diretor); legendária produtora de horror Debra Hill está no barco; Stephen King, autor do livro, ficou satisfeito com as mudanças de Jeffrey Boam no roteiro (apesar de subestimado, vez ou outra o filme é lembrado como das boas adaptações de King); o grande Martin Sheen ainda aparece no ato final com um memorável vilão.
Charmoso, atmosférico e carregado pelo pathos do seu personagem principal, The Dead Zone tem foco: bem editadas direção e roteiro são sutis, colocando o necessário na tela com clareza. A curta e recompensadora jornada termina no climáx com minutos finais poderosos.
Cães de Aluguel
4.2 1,9K Assista AgoraUm icônico filme B de muitas formas, Cães de Aluguel é uma história hilária e ultraviolenta de uma locação só, conduzida por uma linguagem sensacionalista e por grandes atuações de um elenco de excelentes de antes e depois.
A violência e o teor racial de tantos diálogos foi mais chocante em 1992 do que é hoje, e o filme tem muitas características que seriam virtudes da carreira do Tarantino: o diálogo é hilário e descompromissado, mas não o suficiente para o filme virar uma comédia - ou seja, nunca sacrifica a tensão dos momentos de thriller. Homenagens a cultura pop em menções a música negra, séries de televisão antiga e outros filmes também aparecem.
Uma produção de baixo orçamento, acaba cedo demais, justo quando você pega o gosto pelas articulações dos personagens excêntricos. Fica o gosto de querer mais, e de muitas formas o diretor entrega no filme seguinte.
Anos depois, com superexposições do diretor que virou uma celebridade entrevistas, fica notável que todo personagem em Reservoir Dogs ou Pulp Fiction soa como uma versão exagerada do próprio Tarantino (o melhor de todos, Jackie Brown, foi um roteiro adaptado), o que sugere que o mesmo seja afinal um escritor limitado, baseado em gimmicks - seus filmes funcionando mais como esquetes noir do que como as obras profundas que o culto de personalidade sugerem. Mas dentro dessas concessões, ele é ainda é divertido demais e em 1992 não havia nada igual a Reservoir Dogs.
Viva: A Vida é Uma Festa
4.5 2,6K Assista AgoraEu amei esse filme. O formato e o tom é bem Disney, mas a roupagem das melodias e a entrega dos personagens é diferente - provavelmente pelo tanto talento mexicano por trás da produção. As músicas são discretas, mas o plot importa mais e trata de forma delicada e bondosa questões pesadas como morte e memória - apesar de ser diferente por ser completamente sinistro, me lembrou A Viagem de Chihiro pois contempla o espaço metafísico que pertence aos que já foram. É um filme cerebral, hilário e com ambientes deslumbrantes, água fresca depois de tanto reino nesses filmes. Eu não sou o público alvo de animações e gostei muito.
Contato
4.1 833 Assista AgoraÉ estranho que esse filme por um tempo teve uma reputação infame, sendo quase esquecido na discussão de épicos de Hollywood de ficção científica, ofuscados por alguns recentes bem inferiores (ou alguns antigos que envelheceram bem mais mau).
Comandado por uma atuação inesquecível da Jodie Foster, Contato revela informações aos poucos, começando minimalista como um thriller extraterrestre estilo Arquivo X, finalizando com viagens interdimensionais buscando o significado sobre tudo, estilo algum livro do Arthur C Clarke.
Mas é dum livro do Carl Seagan que é baseado, e debates sobre machismo na ciência, ciência vs religião, financiamento de pesquisas e um fundo de verdade bem pesquisado sobre uma ou outra parte também fazem parte.
Eu gosto como ele vai revelando aos poucos as informações, e em breve uma suástica recebida de sinais de rádio antigos do espaço sideral viram uma questão global de busca pela verdade na operação científica mais elaborada da humanidade. O filme promove o Ciência vs Fé sem diminuir a ciência e embora dando valor igual a fé, atacando o extremismo religioso sem pudor. É um em cima do muro que ainda faz as críticas que precisa.
O personagem do Matthew McConaughey aparecendo aleatoriamente por todo o filme distrai um pouco, tem um melodrama típico de blockbuster 90s que alguns vão amar e outros nem tanto mas a grande mancha pra mim é a manipulação de discursos do Bill Clinton da vida real, recortados para aparecer na história, e também o uso de figuras jornalísticas da CNN do mundo real em um produto entretenimento. Ambos são emblemáticos ao preceder questões como deep fakes e a machucada integridade jornalística no mundo "pós-verdade" de hoje.
Contato ainda é excelente.
Um Dia de Cão
4.2 771Apesar de uns 15-30 mins mais longo do que devia ser, Dog Day Afternoon é um excelente "siege film" (pessoas cercadas numa mesma locação por todo o filme), comandado por uma atuação estelar do Al Pacino. O assalto violento acaba sendo encarado num tom mais leve, amenizando o tema pesando e quase anulando a violência que um filme, como outros apelativos dessa época, teriam.
Logo o roteiro se politiza, falando também da polícia, da mídia e por identidade sexual. Ele é um estudo do Sonny, o personagem principal. O assaltante da história real (que foi solto acho que 5 anos depois), aparentemente uma pessoa curiosa e articulada como o personagem do filme, enviou uma carta ao NYT falando que, apesar de adorar a performance do Al Pacino, o filme só condiz em 30% com a verdade. A menina conseguiu sua cirurgia de mudança de sexo!
Ainda assim vale a pena, pra quem gosta dum certo tom contracultural, anti-autoritário do cinema americano dos anos 70.
Tropas Estelares
3.5 483 Assista AgoraComo Robocop e Showgirls, Verhoeven entrega uma crítica hilária ao fascismo e ao militarismo, mostrando um império humano completamente idiotizado e encantado por patriotismos baratos; audiências na época não conseguiam entender, e não dá para culpar pois em 1997 filmes com uma linguagem tão complexa (uma crítica mas em forma de deboche onde os protagonistas que a gente torce são totais idiotas? é um pouco demais mesmo, apesar de mais atual no cinema e TV de hoje).
Neil Patrick Harris vestido de soldado da SS, declarando que "assustaram" uma raça alien que os próprios humanos foram importunar, para a celebração geral, é inesquecível pra mim. Sim, assustaram, não mataram ou venceram, como se o terrorismo psicológico e a maldade fossem o objetivo principal das campanhas, não qualquer tipo de sobrevivencialismo.
Showgirls
3.0 219 Assista AgoraEu não poderia discordar mais do "Tão ruim que é bom"
Showgirls é um deboche escancarado com o capitalismo, a exploração não só do corpo das mulheres, mas de todos relacionados ao mercado de trabalho
É um filme tão sarcástico que chega a ser obnóxio às vezes, 20 anos depois a visão Verhoeven fica clara para mim, duma forma bem parecida com a ironia do Starship Troopers
Este já foi revisado como um filme debochado e altamente inteligente criticando o fascismo e o militarismo, infelizmente o Showgirls (pra mim quase filme-irmãos) ainda segue sendo odiado - ou apreciado de forma campy com o "tão ruim que é bom". Como Tarantino disse, é um filme "exploitative" (provavelmente escrevi errado mas tanto faz), seguindo lógica que foram populares nos anos 70, mas incorporando comentários embutidos através da ironia e do tom escrachado, de forma bem pós-moderna
Showgirls não é uma obra-prima pra mim só por causa de uma cena de estupro completamente deslocada e desnecessária, fácil a coisa mais violenta que vi num filme mainstream. Mas eu ainda amo esse filme, defendo contra tudo e todos, um dos filmes mais complexos que já vi, podem me xingar.
2001: Uma Odisseia no Espaço
4.2 2,4K Assista AgoraEnvelheceu mal mas foi um estrondo na época pelo que falam, não havia nada igual. Hoje é muito lento e sci-fi basic, mas tem que se lembrar que ele construiu a base pra tudo. O primeiro e o segundo ato são interessantes, mas talvez mais de debater as questões filosóficas no bar. O terceiro ato é o melhor, com uma viagem bem as que Arthur C Clarke fazia na parte final de tantos dos seus livros (ele escreveu o roteiro com Kubrick, ao mesmo tempo que escrevia o livro 2001), e o diretor caprichando no surrealismo totalmente inesperado. Filme fácil de respeitar mas difícil de sentar e rever, pelo menos pra mim.
Seven: Os Sete Crimes Capitais
4.3 2,8K Assista AgoraGrande estética, quase não precisando de roteiro escrito, tamanha a história visual é contada pecado por pecado. Desde o momento que fulano tal entra em tal lugar no terceiro ato do filme, é de ficar na cadeira. O twist é um para os livros. Dois leads espetaculares, um segredo bem guardado (até nos promos quando saiu em 1995), um filme famoso e super influente que é surpreendentemente muito simples, Se7en é um clássico neo-neoir e minha única reclamação é a cena extra esperançosa completamente sem sentido no final - devia ter acabado no deserto.
Clube da Luta
4.5 4,9K Assista AgoraHoje é meio vergoinha gostar desse filme né, os ciNEfilos pegaram como objeto de culto (igual Pulp Fiction e outros) e o alt-right entendeu tudo errado, Tyler Durden sendo uma espécie de herói incel. A verdade é que essa é uma obra super complexa, escrita por um autor homossexual, que toca na relação entre masculinidade, consumismo e fascismo.
O livro do Palahnuik (que nem é um dos melhores dele) é mais cômico, com o roteiro (brilhantemente adaptado, sendo melhor que o livro, por um cara que nem sei o nome) aliado a cinetamografia e a ressonância emocional das imagens acabam deixando o filme um pouco mais pesado e pessoal, embora ainda humoroso. Ele rende tanta discussão de qualquer forma, e é hilário (e digno de investigação séria) que ele e o Matrix, também de 1999, também escrito por LGBTs, tenham virado ícones da extrema-direita (não que outras pessoas também não cultuem)
Fincher segue uma sequencia legendária se firmando como esteticista único, o estilo de escrita do Palahnuik (ainda mais fantástico em livros que vieram depois como o Invisible Monsters), a grande adaptação do roteiro, a música underground dos fantásticos produtores The Dust Brothers (infelizmente sumiram), Brad e Edward jovens, dando um tom homoerótico, tudo em Fight Club tá no topo e pode ser um filme que muda sua vida, se ao invés de ouvir os personagens perdidos, você vá pesquisar a fundo sobre as interpretações profundamente políticas dos seus temas.
Réquiem para um Sonho
4.3 4,4K Assista AgoraAlgumas edições da direção parecendo videoclipes, umas atmosferas que parecem um pesadelo e a música e efeitos sonoros são realmente icônicas e ficam na minha memória, mas não consigo aplaudir esse filme. A guerra as drogas e o problema com dependência química é muito mais complexo que isso, Requiem para um Sonho faz parecer que os personagens são mau caráteres que sucumbiram à tentações, tentaram ser mais espertos com todo mundo ao brincar com algo terrivelmente errado.
Drogas não funcionam assim, mesmo as que matam, e há uma série de problemas sociais e psicológicos que legam ao vício em drogas. Esse é um filme bem careta, conservador e quase cristão, uma propaganda que usa apelações emocionais para fazer um ponto muito raso de que o problema das drogas se resume a elas fazerem mal, reduzindo questões a uma disputa de bem vs mal como é típico de reacionários. O plot da mãe é completamente implausível e eles misturarem a trajetória dela com a dos jovens me faz perguntar se eles fizeram alguma pesquisa médica pra escrever isso? O misery porn de ser um filme onde só tudo dá errado o tempo todo também não ajuda.
Queria que o diretor usasse essas estéticas e sons dream/pesadelo-like em algum trabalho menos pedante e superficial. O tempo passa e continuam endeusando Requiem para um Sonho, prova de que a apresentação duma ideia às vezes vale mais do que a substância dela (sem trocadilho hehe).
Três Anúncios Para um Crime
4.2 2,0K Assista AgoraFilme sólido, com boas atuações, mas que por algum motivo não me toca. Não funciona como comédia, nem como drama e não consigo me investir nos personagens. A crítica social a cultura de estupro e as tragédias pessoais não atingiu o ponto pra mim. Mas é só minha opiniao
Fargo: Uma Comédia de Erros
3.9 989 Assista AgoraFargo é um filme quase impossível de não amar. Uma história de crime de curta duração, com cinematografia inesquecível em um setting atmosférico, é daqueles filmes que os protagonistas são amáveis, os vilões são hilários, é violento mas nada é tão dark ou tão sério, é hilário e ás vezes adorável. Cena por cena você não sabe o que esperar, o filme de atinge com surpresas e reviravoltas o tempo todo. McDormand mereceu o Oscar e não bastasse a grande influência em tantos outros filmes, ainda ganhou uma belíssima adaptação como antologia na TV duas décadas depois.
Jackie Brown
3.8 765 Assista AgoraQuem diria que Tarantino é melhor escritor de roteiro adaptado que original, no único adaptado que ele escreveu? Ele corta os excessos e fanboyzismos das coisas originais dele e conseguiu dirigir um filme com total sutileza e respeito por estética e o material fonte. O livro do grande Elmore Leonard é cerebral e incrivelmente bem escrito, especialmente os diálogos. O Tarantino pega as estéticas dos filmes black exploitation (inclusive a atriz principal), como a música soul e as fotografias, mas deixa a parte de exploitation totalmente pra trás ao usar Leonard para se atualizar. É o filme que mais olha pra frente do diretor, que nos bons filmes Kill Bill e Once Upon a Time In Hollywood, por exemplo, pode ser acusado de reacionário, além das homenagens grindhouse, ao querer viver e voltar ao passado demais.
Jackie Brown tem raízes no passado mas soa como uma atualização, com todos personagens complexos e humanos demais para serem estereótipos raciais, e sua protagonista uma mulher empoderada simplesmente espetacular. Se nos outros trabalhos do Tarantino todos os personagens parecem uma versão dele, aqui cada um parece um ser humano completamente desenvolvido, cortesia do grande Leonard que sabe escrever personagens.
Você junta isso com um elenco absolutamente matador em todas suas performances - Grier, Forster, Jackson, De Niro, Fonda - e você tem não só o melhor filme do Tarantino, mas o mais maduro (sem perder o aspecto diversão). Os filmes de ação que vieram depois foram todos bons, mas isso aqui sugere que, não fosse o fracasso comercial e crítico, ele poderia ter dado passo a frente e ter sido um cineasta dez vezes mais complexo. Jackie Brown é sutilmente espetacular
Jerry Seinfeld: 23 Hours To Kill
3.6 18 Assista AgoraBom standup, observacional como sempre. Uma atualização do velho estilo dele para o mundo atual, o que é interessante de ver após os antigos falarem tanto deu m mundo pré internet e etc. São 60 minutos bons de gastar
Coringa
4.4 4,1K Assista AgoraNão curto esses filmes que a esquerda acha que é uma crítica social foda ao capitalismo e o alt-right acha anti-sistema, achei Joker bem Bolsominion
JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar
3.9 166 Assista AgoraÉ normal boiar, o ponto de JFK não é provar o que aconteceu no assassinato do presidente, mas ilustrar uma cultura de teorias da conspiração que se formou nessa época e hoje é uma parte significante do imaginário político da sociedade. As colagens com monólogos foram iconicamente estilosas; grandes atuações, direção e um tom incrivelmente provocador levaram as autoridades dos EUA a liberarem documentos do caso JFK, mesmo com o boicote da imprensa à esse filme
JFK talvez tenha feito mais mal que bem para o mundo, já que hoje convivemos com negacionistas do holocausto, terraplanistas e anti-vacinas que seguem retóricas similares; e é bem verdade a homofobia no ápice do plot, mas é uma peça não apenas do cinema, mas do pensamento social determinante para entender o mundo de hoje. Se você abstrair, também é pura diversão pulp.
Estrelas: Gary Oldman, mesmo só aparecendo em flashbacks; Oliver Stone; John Williams.
Os Bons Companheiros
4.4 1,2K Assista AgoraO Poderoso Chefão pode ser eternamente lembrado no gênero máfia, mas o pace mais literário e o foco em família, tradição e honras talvez o afaste de definir o gênero tanto quanto Goodfellas. Os ítalo-americanos como conhecemos de tantos outros filmes (e de The Sopranos que tanto deve a essa série), com aquele humor bizarro, risadas forçadas, comilança exagerada, péssimo temperamento, mal gosto pela ascensão financeira e tudo mais são moldados nesse que é o filme de máfia essencial. A ascensão e queda de um gangster em NY, analisando aspectos sociais, familiares e consumistas não é só baita entretenimento (graças a um grande elenco e um roteiro com muito humor), mas um retrato que contém bastante de realidade também.
Afinal, não apenas Nicolas Pilleggi, repórter criminal que entrevistou e escreveu a biografia de Henry Hill, que o filme é baseado, mas todos os diretores e atores tem ascendência ítalo-americana (alguns como Tony Sirico até foram da máfia), cresceram em meios similares e certamente tem um poderoso espaço de fala para contar esse tipo de história.
Scarface
4.4 1,8K Assista AgoraUm dos melhores filmes de crime de todos os tempos, com Al Pacino no ápice, mostra a ascensão e queda de Tony Montana, um dos personagens mais psicopáticos protagonizando um filme mainstream até ali. Diálogo, roteiro, ação, fotografia em Miami, é tudo icônico e é daqueles filmes de 3 horas que parecem passar em 30 minutos. Poucos filmes de crime tem um climáx tão perfeitamente localizado justo nas cenas finais. A quantidade brutal de violência e abuso explícito de drogas afastou os críticos quando saiu, mas eles foram forçados a reavaliar o filme que não só inspirou dezenas de outros filmes (e séries como Breaking Bad), mas o hip hop e a cultura de rua a partir dali. Também lançou a carreira do tão controverso Oliver Stone, aqui roteirista.
É o conto de um homem que ascende ao topo através de blefe, truculência, culhão e cocaína, e quando chega lá, mal consegue aproveitar o império que construiu e ironicamente,
ele cai por cometer seu único errohonesto ao se recusar a matar criança e esposa inocentes de um alvo.
Bacurau
4.3 2,8K Assista AgoraAntes de tudo, Fora Bozo e #Lula2022. Essa é minha postura política, para deixar claro para quem tá lendo que não sou dos bots do energúmeno do presidente que aparecem para negativar o filme pelos motivos errados.
Bacurau, para mim, é uma falha interessante ao invés da obra-prima de esquerda que tanta gente sugere. Fotografia, atores e diretor são acima da média. O roteiro é a calcanhar de Aquiles do filme.
Que não sabe se decidir se é um filme cult cheio de coisas em aberto, um protesto político ou uma homenagem aos filmes apelativos dos anos 70. Bacurau monta a cidade homônima como uma locação western, isolada e fora do mapa no interior de Pernambuco. Faz representações da cultura nordestina e tem bonitas paisagens.
Então, como um slasher de locadora, americanos começam a executar seus moradores. Não explica porquê, mas eles recebem satisfação e prazer sexual da morte dessas pessoas. Há brasileiros do Sudeste participando. Não tem comentário sobre neocolonialismo ou imperialismo (fora uma boa cena sobre viralatismo): os americanos são sádicos e malvados. E é isso, vago e insatisfatório assim. Americanos fodem nosso país há décadas por motivos políticos e econômicos, reduzir isso a esse simplismo, que parece sair de uma fantasia adolescente, não faz lá muito serviço a discussão política. É uma associação boba e preguiçosa, parece como a extrema-direita vê as paranoias da esquerda.
Fica pior: formulaico, o ato final tem a defesa de Bacurau contra seus agressores. E aí que nem parece ser um western apelativo ele serve: li comentários sobre o excesso de violência, mas a verdade é que CINCO dos 6 vilões morrem off-screen! Cadê os tiros na cara? O climáx é uma decepção enorme pelo quão ruim a ação é conduzida.
E o final transcendental. O vilão do Udo Kier, a melhor coisa desse filme, não é massacrado por Bacurau. Um tom bizarramente contemplativo e respeitoso entre ele e os moradores da cidade precede sua morte off-screen. Ele não gosta de ser chamado de nazista, mas mata cães, mas não mata mulheres, mas mata os próprios aliados. É para ele ser gostável?
Impossível saber, Bacurau não faz a mínima ideia do que quer dizer e usa de estéticas, não ideias, progressistas para se afirmar.
Coração Selvagem
3.7 355Lynch estava no topo do mundo em 1990 - um dos diretores mais respeitáveis de Hollywood após Blue Velvet, sua série Twin Peaks era um fenômeno da cultura pop com audiências na casa das dezenas de milhões, artista plástico respeitável, Lynch era visto como uma powerhouse da arte pop e da criatividade, não apenas como um exemplo de técnica.
Sua aguardada sequel a Blue Velvet leva seu tom pós-moderno, surrealista a uma otimista, embora completamente insana e as vezes perturbadora, história de amor no formato de um road movie. Acho que esse filme também teve grande influência pelo resto da década, abrindo caminho para outras modernizações do formato Bonnie & Clyde como Thelma & Louise e Natural Born Killers.
A revolução de Blue Velvet e Twin Peaks não é repetida, mas Wild at Heart é altamente satisfatório, desenvolve mais da cabeça do diretor e tem o final mais "aww", de esquentar o coração da filmografia do Lynch.