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Duração
Um malandro carioca sai da prisão depois de longo tempo e, sem dinheiro, utiliza seu talento para trambiques para ganhar algum. Preocupado com o fim da malandragem carioca, ele planeja uma revanche entre os dois maiores jogadores de sinuca da época, Russo e Babalu. Mas Russo está internado em um hospício desde sua última derrota, e Babalu agora é um trabalhador controlado de perto pela esposa Vitória, o "prêmio" da disputa com Russo.
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A abertura já vale o filme inteiro.
Direção maravilhosa do Hugo Carvana! Aquela voz de locutor no início já faz a gente rir. [Spoilers] Direção de fotografia impecável de José Medeiros, os grãos na tela dos anos 70 também ajudam muito a levar a gente para a década, dá vontade de estar lá no bar com eles. Regis Monteiro acerta muito nos figurinos e cenografia. Cabelo bagunçado, camisa aberta, correntinha, calça flare e a atuação tão precisa do Carvana, nem parece que leu um roteiro, de tão boa você jura que ele é malandro. O enredo te prende do início ao fim. Ainda falando sobre o Hugo em cena, o cara se desdobra em mil facetas, um artista com repertório muito completo, entrega tudo, ex-presidiário, conquistador, comendador, padre (picareta), cachaceiro, filósofo, autoconfiante, negociador, até bondade. Vontade de ver as pessoas de quem gosta conquistando coisas (claro, pra ele não importa de onde esse dinheiro venha). Confesso que a pós-sincronização das vozes incomoda demais, eu tenho o hábito de estar atenta ao que está sendo dito, e muitas vezes os lábios não estavam sincronizados. Mas acredito que naquela época era mais cômodo e comum esse tipo de pós-edição de montagem e som. Não prejudicou o filme em nada. Algumas críticas sociais estão muito presentes, apesar de parecer ser um filme despreocupado, a cena em que eles falam sobre as empresas que vão tirar as pessoas de suas casas para fazerem construções. O momento em que o Dino rouba a grana, mas compra presentes e leva de volta para as crianças da vila que vivem nos barracos, quase um Robin Hood da malandragem. Eu adorei a cena em que ele e a Zezé Motta estão na casa dos patrões dela, ele abrindo as portas sincronizado com a música é bom demais, depois eles dois dançando Ella Fitzgerald. Eu queria namorar o Carvana em 1973 só pra ele dançar comigo igual ele dançou com a Shirley. Como pode um conquistador barato entregar mais momentos românticos do que a maioria dos homens? Essa cena foi muito leve. Inclusive, o Hugo nesse filme tem um charme em cena, não consigo imaginar outro ator no papel. Em 1 hora e meia de duração, perdi as contas de quantas pessoas ele paquerou (lembrando que não dá pra ignorar, apesar de ser engraçado no roteiro, também do contexto e da época, em alguns casos soa como assédio e o jeito que ele fala de mulheres com os amigos como machismo. Olhando do nosso contexto atual, falas como a de que o corpo da esposa tá se acabando (Babaloo), mulher como troféu de partida, ele pedindo pra ela expor o corpo em troca da pizza, são péssimas. Embora o próprio enredo traga certa redenção quando a gente vê que ele é gente boa, mas vale a menção). Algumas frases do nosso "filósofo" que me mataram de rir: "aquela ali é um bagulho perto de você minha santa", "Não desperta o gigante, não desperta o gigante", "cobra que não anda, não engole sapo", "Camões, comendador? Não. Dom Gustavo, poeta espanhol e aventureiro", "Dona Heloísa, me devoras o coração". A maior ironia é ele cantar "vai trabalhar, vagabundo" pra todo mundo, e ele mesmo não trabalha, e ainda responde "eu não vou que eu não sou louco. Ou sou?". Uma cena muito fluída é a que eles estão contando o que acontecia no passado no bar, eles andando e interagindo com o passado. Cinema! Outra que gostei foi no final, o bar é o elemento central físico, as sequências entregaram tudo: saudade, felicidade, tensão, brigas, silêncio, conveniência, tiroteio, bandidagem, romances. A direção das cenas com muitos atores em cena são muito boas. É um caos, mas muito bem organizado por quem sabe o que está fazendo. Nelson Xavier, Paulo César Peréio e Valentina Godoy também brilharam muito. E misericórdia, como essa Valentina é bonita, não conhecia essa atriz. O filme exala liberdade, liberdade de corpo, de alma, de mente. Isso é atraente demais. O roteiro conseguiu fazer duas pessoas comendo pizza e tomando cerveja ser extremamente sexy. O filme começa em p&b indicando a cor que a vida perde quando se está preso e se encerra com cores, calor, sorrisos na escadaria e no calçadão do rio. Que coisa linda! Esse filme merecia mais visibilidade, nunca fui ao Rio e me senti moradora de lá, mesmo caótico, é muito aconchegante. Na música final ouvi o nome dos personagens, fui pesquisar e vi que o Chico Buarque compôs especificamente para a obra, achei muito legal, gostei muito dessa energia toda de 1973. Se amanhã eu acordar querendo usar só calça flare, cabelo desleixado de rockstar dos anos 70 e passar o dia jogando sinuca, a culpa é desse filme.
26/03/2026
assistivel
Dino, o malandro de Hugo Carvana, é carisma puro, mas o filme não passa ileso pelo tempo. A ideia central — a recusa do trabalho formal como gesto de sobrevivência e deboche — é potente, afiada e profundamente brasileira. Quando acerta, acerta bonito: diálogos soltos, clima de rua, Rio vivido e não idealizado. É cinema que entende o ócio como provocação política, ainda mais num país que sempre quis domesticar corpos indóceis.
O problema é que o filme também se perde no próprio charme. A narrativa é frouxa demais, quase episódica, e em vários momentos parece confiar só no improviso e na lábia do protagonista. Funciona como retrato de época, mas nem sempre como obra fechada. Algumas situações envelheceram mal, especialmente na forma como as mulheres orbitam o Dino — mais função dramática do que presença real. Falta tensão, falta risco.
Ainda assim, é impossível ignorar sua importância. Carvana inaugura ali um tipo de anti-herói que desafia a moral do “cidadão de bem” décadas antes desse discurso virar mantra. Não é um clássico perfeito, mas é um filme necessário: sujo, preguiçoso por escolha estética e politicamente debochado.
Puro suco de Brasil!!!