Últimas opiniões enviadas
Para começar: sim, eu li o livro. A diferença primordial é que eu entendo que existem diversas formas de adaptar uma obra além da "literal" transposição para tela, como muito têm se cobrado aqui por parte do público. Essa requisição de fidelidade, pra mim é apenas birra de fã chato, afinal temos diversas e inúmeras versões do Morro dos Ventos Uivantes, de diferentes propostas, que vão de séries de televisão até adaptações de cinema japonesas. Além disso, o marketing forçado dos atores principais serviu como um publicidade "negativa" gerando o Hate-watching por parte do público.
Não estou nem aí para o marketing, ele não faz parte do filme. Malmente vejo trailers. E segundo: absolutamente nenhum filme tem o dever de me satisfazer, ser o que eu espero, ou principalmente: me fazer avaliá-lo pelo que ele poderia ser.
Se removermos esses principais fatores de hate ao marketing, adaptação fiel, e baboseiras e falatórios sobre a obra principal, removeremos a esmagadora maioria das críticas. E pasme: dos principais críticos com visibilidade e alcance no Brasil.
Após esse disclaimer com a incompetência dos profissionais, confesso que esperava bem mais inventividade do que realmente teve.
Isso porque o filme adota a postura de adaptação de releitura da obra, ou seja, manteremos a essência da obra original. E essa essência foi respeitada aqui? Ao meu ver? Sim. A história de amor de duas pessoas que nunca conseguiram ficar juntas.
E quanto as modificações da obra original? Fiquem à vontade de revisitar o livro, ele estará sempre lá inalterado. Gosto bastante, mas ele pouco interessa nesse momento.
O amor dos dois que no livro fica apenas em elipse, devido talvez limitações de censura ao seu tempo, aqui é explicitado em tela para todos sentirem visualmente essa transposição. E para mim, parece real.
Por outro lado, a dissonância musical criada pela diretora combina perfeitamente com a plasticidade dos figurinos e fotografia após o casamento da Cathy. E isso conversa perfeitamente com nossa geração ao mostrar essa felicidade artificial provocada pelo bens de consumo. Tudo ali parece extravagante, mas irremediavelmente falso. Falso como a vida da Cathy foi após sua escolha fatídica em deixar Heathcliff.
Em paralelo vemos como a escuridão toma conta do Morro dos Ventos Uivantes e como isso é contado pela imagem que contrasta os dois mundos de apenas 8 quilômetros de distância.
E após a irremediável perda do Heathcliff- essa distância parece ser infindável.
Histórica ao seu tempo acho a série excelente na construção de universo e mistérios. Uma pena ela ter um "barriga" na segunda temporada, que claramente foi responsável pela perda de qualidade narrativa por interferências do estúdio.
Após a forçada revelação de quem matou o Laura Palmer a série perde muito tempo em arcos narrativos desinteressantes e que não acrescentam nada a trama principal. Porém, quando volta aos trancos e o Lynch pega de volta o controle criativo e direção da parte final, volta a ser sensacional.
O que mais gostei nessas duas temporadas "originais" é autenticidade dos personagens e carisma. Twin Peaks parece uma cidade viva, com pessoas reais, com personalidade própria sendo a verdadeira protagonista da história. Cooper está longe de ser o policial clichê amargurado das séries de investigação, é magnético em captar a atenção para ele.
Claro que resumir em poucas palavras tudo que absorvi da série é uma atividade árdua principalmente porque são muitos episódios e nuances, mas não posso deixar de falar do quão acho ousado esse final de temporada completamente simbólico. Cooper falha ao percorrer o labirinto psicológico do Black Lodge, ele falha em enfrentar o seu Doppelgängers, e sua sombra.
Twin Peaks é uma série inteiramente voltada a conceito Junguiano de sombra, até o próprio nome da cidade é relativo a esse conceito de "duplo". Os personagens íntegros e puros em suas superfícies, apresentam "sombras" de personalidades contestáveis em suas vidas privadas. Cada um deles. E medida que eles negam a ela, esse "mal" vai crescendo ali, coletivamente.
A próprio Laura Palmer é símbolo disso, e é constantemente descontruída conforme vamos descobrindo sua sombra. O foto dela em cada final de episódio, que exala inocência de apenas uma garota do colegial vai sendo "corroída" em nosso imaginário conforme os episódios avançam.
O final dessa temporada é tão simbólico e importante porque ele mostra a consequência mais severa de negar nossas projeções do que não aceitamos em nós mesmos. E o Lynch pega nosso personagem tão amado e integro e nos fala em imagem: até o mais puro entre os impuros apresenta falhas morais que precisam ser encaradas.
Cooper falha no teste. Ele não era intocável, apenas aparentava ser. E também tinha uma sombra e como todos ali, falhou a confrontá-la ao invés de reconhece-la.
Últimos recados
Amizade mais que aceita Matheus! Bora nos filmes!! 👊🏼
Oi, Matheus, obrigado pela minha curtida da lista de Artes Plásticas e espero que tenha gostado dela. Abraços.
Oxe, fui seguir você, mas já somos amigos aqui :)
Odiado em sua época, Lynch permaneceu fiel até o fim no acreditava. Nunca fez questão de satisfazer o público, muito ao menos se render a ele.
Apesar deu ter gostado o filme perde um bom tempo de tela em uma narrativa vil. Parece um grande prólogo, para começar só depois de 30 minutos.
Nesse longa, Lynch está - bem - mais Lynch. Das diversas formas de se interpretar sobre o que é o trauma da Laura Palmer, eu não sou tão adepto do mal visto apenas como entidade literal. O que me faz "desgostar" dessa abordagem é que dilui as diversas formas de interpretar o BOB e o trauma da Laura Palmer.
Para mim, toda ficção serve para fazer alusões do nosso mundo real, em paralelo como ele é. O Bob como uma resposta ao trauma da Laura faz mais sentido para mim, quando isso surge como uma resposta aos seus abusos sofridos pelo próprio pai. Ela "desvincula" sua figura paterna como uma resposta a esse trauma. Tanto é que por mais que os atos sejam praticados pelo Leland, é o Bob que sempre leva a culpa. Ao seguirmos a narrativa pela Laura, o seu pai nunca é "vilão" ele também é uma vítima da entidade. Tudo para fugir da destino fatídico de ser abusada pelo próprio pai, ao criar seu próprio monstro externo.
E evidente que depois de todo esse processo de autodestruição da Laura que hipersexualiza seu estilo de vida e abuso de drogas, gera um terreno fértil para Bob "entrar" e a possuí-la (aqui já encarado como a própria depressão)
O mais genial e lindo desse final é que apesar da Laura morrer, ela vence, e vence nas diferentes versões. Seja o Bob um demônio, trauma ou depressão, Laura não cede a possessão, e não se torna o monstro que tanto a atormentou.