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Desde o primeiro anúncio, Mārama já me capturou pela fotografia. Tinha ali, de cara, uma beleza sombria, quase hipnótica, que me puxou antes mesmo de eu entender exatamente para onde o filme iria. No trailer, a trilha sonora e aquela atmosfera carregada me ganharam imediatamente. E, conforme o contexto foi se revelando — uma jovem indígena maori em uma mansão gótica na Inglaterra vitoriana —, eu já sabia que precisava assistir. Como alguém que sempre naturalmente se encantou pela cultura maori, aquela mistura me pareceu uma premissa perfeita para um filme de terror.
Mas Mārama é muito mais do que uma boa premissa. É uma obra belíssima, intensa e profundamente política. Taratoa Stappard usa o terror gótico não só como estética, mas como linguagem para falar de apagamento, violência colonial, abuso, memória e retomada de identidade. A mansão, os corredores, os silêncios e os objetos roubados não estão ali apenas para compor cenário. Tudo parece contaminado por uma história que insiste em ser revelada.
Ariāna Osborne é magnífica como Mary/Mārama. A atuação dela carrega descoberta, dor, desconfiança e orgulho de um jeito muito bonito. A personagem não atravessa aquele mundo de forma ingênua. Ela observa, sente, percebe e, pouco a pouco, compreende. Nada realmente engana Mārama. Ela vê. Ela descobre. Ela recorda.
Também gostei muito de como o filme trabalha a força feminina sem precisar transformar isso em discurso óbvio. O empoderamento de Mārama nasce da recuperação da própria história, do próprio nome, do próprio corpo e da própria ancestralidade.
A violência e o abuso aparecem como parte de uma estrutura colonial e patriarcal, mas o filme não reduz sua protagonista ao sofrimento. Pelo contrário: há algo muito potente em vê-la transformar dor em consciência, medo em ação e memória em força.
A trilha sonora merece destaque à parte. Ela não está ali só para criar tensão ou sustentar a atmosfera. Ela conduz emocionalmente o filme e reforça essa sensação constante de que algo antigo, ferido e poderoso está tentando voltar à superfície.
E eu adorei a forma como o sobrenatural entra na história. Os poderes, as visões e a dimensão espiritual aparecem na medida certa, sem exagero e sem esvaziar o mistério. O filme entende que o horror não precisa explicar tudo o tempo todo. Às vezes basta deixar a sensação de que o passado está vivo, observando, cobrando e guiando Mārama.
O ponto alto, para mim, é o haka. É uma cena de arrepiar, não apenas pela força visual ou dramática, mas porque parece vir da alma. Tem coração, corpo, ancestralidade e fúria. Foi impossível não me emocionar. O filme transforma a descoberta do passado em um gesto de afirmação, como se a personagem finalmente pudesse se reconhecer inteira diante de tudo que tentaram apagar.
A tensão anticolonial está em cada quadro, em cada diálogo, em cada sombra daquela mansão. E é justamente isso que faz o horror funcionar tão bem: o medo não vem só do sobrenatural ou da atmosfera gótica, mas daquilo que a História fez — e tentou esconder.
Que filme maravilhoso. Daqueles que deixam a gente com a sensação rara de ter visto algo bonito, doloroso e necessário. Quisera eu poder revê-lo pela primeira vez.
A adaptação de Frankenstein dirigida por Guillermo del Toro incomoda não por ousar reinterpretar Mary Shelley, mas por alterar pontos estruturais de uma obra que é, antes de tudo, ética, trágica e profundamente feminina. O problema não está em humanizar a criatura — Shelley já faz isso com enorme sensibilidade —, mas em mexer justamente no processo pelo qual essa humanidade é construída.
No romance original, a criatura aprende sozinha. Observa, escuta, lê, sente. Encanta-se com a arte, com a música e com a caridade recebida do cego na cabana. Shelley deixa claro que existe ali uma inclinação à empatia, à sensibilidade e até ao apreço pelo belo humano. Mas a criatura não se torna humana. Pelo contrário: quanto mais compreende os homens, mais se enoja de sua crueldade. Ela ama o que é belo na humanidade, mas rejeita o humano enquanto espécie — e essa tensão é central para a obra.
Produções como Penny Dreadful entenderam isso muito bem. A série desenvolve a interioridade do monstro sem deturpar sua essência. Ele constrói sua ética a partir da solidão, cria paralelos morais internos e passa a exercer uma justiça própria baseada no que vivenciou e aprendeu sozinho. Há empatia, mas também repulsa. Há lirismo, mas nunca assimilação plena.
Na versão de Del Toro, essa trajetória é encurtada. Ao tornar a criatura esteticamente bela e emocionalmente próxima do espectador desde o início, o filme elimina o estranhamento, a ambiguidade e boa parte do horror moral. O monstro deixa de ser um espelho perturbador da humanidade e passa a ser alguém que o público é convidado a amar imediatamente. Com isso, perde-se a tragédia.
O mesmo acontece com Victor Frankenstein. No livro, ele não é um personagem moldado por abuso ou trauma, mas por privilégio, amor familiar e vaidade intelectual. Sua culpa é consequência da obsessão e assim do orgulho excessivo, da arrogância, não da dor carregada. Ao transformá-lo em alguém marcado por conflitos familiares, o filme desloca a responsabilidade moral e cria justificativas emocionais que Shelley deliberadamente recusou.
Essa descaracterização se aprofunda na figura de Elizabeth. No romance, ela representa estabilidade, afeto e humanidade — e
sua morte é o ápice da vingança da criatura e da culpa irreversível de Victor
“Elizabeth passa a se envolver diretamente com a criação e com a criatura”, o que rompe o eixo simbólico da narrativa e dilui o terror. A dinâmica, na minha opinião forçada, que o filme constrói entre ela e o monstro desloca completamente o sentido da escolha da vítima, que no livro é friamente calculada e devastadora, e aqui se aproxima mais do melodrama do que da tragédia.
Frankenstein não é uma história sobre criar vida. É uma história sobre abandonar aquilo que se cria. O horror não está na criatura, mas no gesto inicial de repulsa, no olhar que enoja, no cuidado que nunca veio. Shelley construiu uma tragédia em que tudo poderia ter sido diferente se, no momento da criação, Victor tivesse permanecido.
Del Toro ama seus monstros — e isso funciona lindamente em muitos de seus filmes. Mas Frankenstein não pede amor imediato. Pede responsabilidade. Pede culpa. E é justamente aí que essa adaptação perde o terror ético que tornou a obra de Mary Shelley atemporal.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
É muito frustrante acompanhar o cinema atual e ver que qualquer tentativa de fazer algo diferente com uma protagonista feminina é tratada com uma lupa implacável. Dá uma tristeza enorme ver o ciclo se repetir: lança-se uma obra que ousa fugir da fórmula engessada, ela é abraçada por quem busca frescor, mas acaba soterrada por uma campanha de desvalorização que dita a regra antes mesmo de o público conseguir respirar. Foi exatamente isso o que tentaram fazer com Supergirl: Woman of Tomorrow.
E o que mais indigna é que o filme é genuinamente bom.
Diferente de grande parte das produções de heróis que inundaram o mercado, Supergirl não tenta copiar aquela cartilha saturada de piadinhas automáticas ou o tom corporativo de franquias. O longa tem uma atmosfera própria, com um clima de road movie espacial, um toque de faroeste melancólico e escolhas dramáticas que eu diria serem bem corajosas.
O grande mérito da história é tratar a vulnerabilidade e a revolta da Kara Zor-El sem infantilizar a personagem. A trama lida com temas densos e urgentes —
como a busca por justiça diante de abusos e de exploração
Apesar disso, os números frios da bilheteria — que fecharam em torno de US$ 126 milhões — foram imediatamente instrumentalizados por bolhas virtuais e manchetes sensacionalistas para decretar, com pressa, que "filmes de heroínas não dão lucro". É um duplo padrão revoltante: quando um filme estrelado por homens falha, a culpa é do roteiro ou da fadiga do gênero; quando o protagonismo é feminino, o fracasso vira arma ideológica para justificar o corte de futuros investimentos.
Sabotar a recepção de um projeto que ousa tratar mulheres como sujeitos complexos, e não como enfeites, é uma forma velada de controle cultural. O filme merecia muito mais do que o rótulo injusto que tentaram colar nele. Para quem assistiu de mente aberta, fica a certeza de que a entrega e a sensibilidade da direção mereciam aplausos, e não esse cerco misógino disfarçado de crítica cinematográfica.