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"Depois do fogo" é um filme esteticamente lindo, com fotografia contemplativa, sensível e humanizante, sobre migrantes ambientais no contexto de desastres socioambientais.
Retrata bem a complexidade dos direitos das populações atingidas por essas catástrofes, o que pra mim tem como um dos pontos altos a cena do gerente constrangido em dizer que o banco não pode conceder crédito ao dono da propriedade atingida pelo incêndio, e que o motivo disso é que esse proprietário não pode fornecer garantia (e ele não pode fornecer garantia exatamente porque a propriedade dele foi tomada pelo fogo e o banco considera que a terra perdeu o valor porque a produtividade dela nos próximos anos vai ser próxima a zero em razão do incêndio).
Isso é exatamente a marca da ausência de uma política de resposta de emergência às pessoas atingidas.
Em uma sociedade que se preocupa com o Direito dos Desastres, a preocupação com a resposta de emergência está já na segunda etapa da política pública (sendo que a primeira é a própria prevenção do evento).
Outro ponto alto do filme é exatamente a ilustração da ideia de que as etapas, no Direito dos Desastres, vêm em ciclo (não em linha), porque a última etapa (reconstrução da comunidade atingida) já funciona como prevenção quanto ao próximo desastre (primeira etapa).
No filme isso fica implícito quando a comunidade reflete sobre se reconstruir na mesma terra onde ocorreu o incêndio (para onde o banco negou crédito, então eles precisam se virar pra ver como reconstruir). E então percebem que existe o risco de dali a 10 anos ocorrer o mesmo desastre. E a interrogação que o filme deixa nessa reflexão é o que dá às boas-vindas ao conceito de "gestão do risco" enquanto reunião das etapas de prevenção, resposta de emergência, compensação e reconstrução da comunidade.
Acho que o título "Rebuilding" deveria ter sido mantido na tradução literal "Reconstruindo", já que a resposta e a reparação (em outras palavras, a reconstrução) são mesmo etapas inerentes ao Direito dos Desastres, que é exatamente a linha teórica que organiza o tratamento jurídico em eventos catastróficos.
O filme é sintomático porque a formação de um Direito dos Desastres de fato é forte nos Estados Unidos e vem se desenvolvendo no Brasil (é o caso das indenizações às vítimas dos rompimentos das barragens de Brumadinho e Mariana e tantas outras).
A narrativa ilustra exatamente a ideia de que o desastre não se esgota com seu acontecimento, não é um infortúnio isolado. Ele vai se desenovelando com o tempo.
Como se não bastasse, os personagens são cativantes, com destaque pra Callie-Rose, uma criança tão profunda que se a gente não tomar cuidado pensa que ela já nasceu com 50 anos.
Enfim, um filme contemplativo (me lembrou Dias Perfeitos quanto ao passar do tempo lento), sobre uma temática importante e pesada (os migrantes ambientais), mas com diversos elementos de leveza e prazer, o que vem nos personagens e na fotografia principalmente.
Diretamente de onde surgiu a Declaração de Independência dos EUA, que, em 1776, previu que, quando qualquer forma de governo se torna destrutiva dos direitos inalienáveis, é direito do povo alterá-la ou aboli-la, para a captura desses conceitos por um movimento político e ideológico extremista, atuante por meio de campanhas de manipulação de massa financiadas por uma grande corporação, incubadora de "think tanks" políticos, pra parecerem orgânicas, que é o que a prática do astroturfing faz ao se embasar em discursos fáceis, generalizantes, anticlassificatórios, que servem de fachada pra instaurar um regime totalitário e proteger nada mais que os próprios interesses comerciais e políticos.
Esse é o suspense mais avassalador que eu já vi nos últimos anos.
As ideias de vigilância aplicadas a tecnologias militares são sentidas como uma predição do que pode resultar da mistura entre a estranha atração que uma sociedade opressora tem por tendências fascistas e seu incremento pelo poder econômico das novas tecnologias.
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Bons filmes!
Equipe Filmow
O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!
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Nada mais do que uma ilustração da busca pela gestão de uma pessoa idosa com os moldes do biopoder, uma forma de poder que administra e controla a vida, com a ideia de produzir um corpo economicamente ativo (que guarda o patrimônio a uma eventual herança que, inclusive, demorou - e que bom - a chegar) e politicamente dóceis (nada de palavrões para Martha). <br/><br/>Nítido o emprego da disciplina (controle do corpo da Martha, que se recusa a dizer as palavras "garrafa, martelo e bengala") e da biopolítica (uma ideia de gestão de populações como ela).