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Data de lançamento
8 Dez. 1999Duração
Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen foi diagnosticada como vítima de "Ordem Incerta de Personalidade" - uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, onde viveu nos 2 anos seguintes, ela conhece um novo mundo, de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa, uma charmosa sociopata que organiza uma fuga com Susanna, Daisy e Polly, com o intuito de retomarem suas vidas.
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Garota, Interrompida é um drama intenso que aborda a saúde mental com sensibilidade, explorando as complexidades da mente humana e os limites entre normalidade e sofrimento psíquico. Winona Ryder conduz a narrativa com delicadeza, mas é Angelina Jolie quem rouba a cena em uma atuação magnética e inesquecível, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com personagens complexas e um roteiro que privilegia os conflitos emocionais, o filme convida à reflexão sobre identidade, vulnerabilidade e o impacto das relações humanas no processo de recuperação.
É extremamente errado a forma como o borderline é retratado nesse filme. Eu me senti até ofendida com essa abordagem. O transtorno não se cura, aprende-se a lidar com ele. Ela não lida com as características dele, o TPB é complexo, é doloroso e não tem nada a ver com a interpretação da atriz.
Gostei desse filme. Ele trata de questões sérias sem pesar no melodrama.
Quando ouvia falar ou lia sobre, sempre percebi que comentavam acerca da Susanna e, principalmente, da Lisa (até por conta do Oscar que a Angelina Jolie conquistou com o papel), mas, para mim, a personagem que se destaca é a Val. Pessoas no papel de cuidar do próximo sempre me cativam, e é cristalino que ela não faz isso apenas pela profissão, mas porque realmente se importa com aquelas meninas (mesmo que isso inclua levar desaforo da parte delas).
Também gostei que esse é um filme com camadas. Ele apresenta a questão da doença, mas também traz o sexismo da época ao mostrar comportamentos que eram condenados como desvios mentais ou de comportamento, só porque eram reproduzidos por mulheres (mas o mesmo talvez não se aplicasse aos homens).
Enfim, deu vontade de ler o livro de memórias da Susanna verdadeira. Fiquei apegada às personagens e quero saber mais sobre elas...
Li o livro recentemente e resolvi revisitar essa obra que foi tão chocante para mim na minha pré-adolescência e a adolescência em si. Então, achei uma adaptação ok, nada mais que isso, que não faz jus ao livro. Principalmente na ambientação muito clean, deixou tudo muito limpo (não que deveriam estar na imundice, não é isso), mas não passou o ar do peso do livro e da história.
Vejam bem, é tudo muito empírico, pois o caos instalado nas mentes dessas meninas tem um dominador comum: patriarcado. Não dá para desvincular disso, todas ali têm suas dores e anseios inatos que se intensificam com o peso de ser mulher. Há muitas questões a serem discutidas, mas aqui não dá por conta do textão. É doloroso ler e sentir. Infelizmente não senti isso vendo o filme. Não acho que seja denso como dizem, acho apenas correto (e isso não é exatamente um elogio).
No mais, devo dizer que não curti tanto a atuação de Winona Ryder aqui e nem da Jolie, para ser sincero, e nem é por culpa dela. No livro, a Lisa é tempestiva por conta de sua condição, no filme, ficou muito mais como um capricho.
Esse é um filme muito denso. Eu diria que ele tem várias camadas.
Mas podemos dizer que são 2.
A primeira camada é a camada superficial.
É a história de uma adolescente que foi internada e que, após altos e baixos, conseguiu se curar e saiu da internação.
Se só analisarmos por essa camada, é um filme bom, mas nada demais (tirando a atuação da Angelina Jolie que teve a maior atuação de sua carreira neste filme). Já a segunda camada é muito mais poderosa e intrincada.
Logo nos primeiros minutos, durante a avaliação inicial de Susanna, o terapeuta faz uma pergunta que parece simples, mas funciona como uma armadilha diagnóstica clássica da psiquiatria da época: “Você já confundiu um sonho com a realidade, ou roubou algo quando tinha dinheiro pra comprar?”. Essa frase, inspirada nos critérios do DSM, testa sintomas como desrealização e impulsividade, traços centrais do transtorno de personalidade borderline diagnosticado em Susanna. Ela revela como a personagem vive uma desconexão profunda: para ela, suas ações não são patológicas, mas respostas lógicas a um mundo que parece absurdo, quase como um protesto existencial contra o vazio, lembrando o mito de Sísifo de Camus.
Isso se conecta diretamente à negação dela sobre a tentativa de suicídio. Quando questionada se tentou se matar, apesar de ter tomado um litro de vodka com um frasco inteiro de aspirina, Susanna simplesmente nega. Não é pura loucura, inocência adolescente ou mentira compulsiva isolada; é uma defesa complexa. Seu transtorno causa instabilidade de identidade, e ela descreve o ato como “uma dor de cabeça” que precisava curar, mostrando dissociação: o self observa o corpo como algo estranho. Há um traço de inocência forçada pela repressão social das mulheres nos anos 60, mas também uma recusa em ceder ao poder psiquiátrico que a rotularia. Quando ela diz “eu não tenho ossos na minha mão” e que as leis da física podem ser suspensas, isso é um pico de desrealização clássica do borderline. No olhar médico da época, sugere delírio ou psicose. Mas, para uma mente mais poética ou espiritualizada, soa como um insight místico, questionando o materialismo cartesiano: o que é loucura senão uma percepção alternativa da realidade?
A trilha sonora reforça esses temas de escapismo. Quando as meninas fogem para a sorveteria ao som de “Downtown”, de Petula Clark, com a letra dizendo que basta ir ao centro da cidade para esquecer as preocupações e tudo ficar bem, o filme mostra um escapismo efêmero. O bulício urbano anestesia a solidão e o caos interno, uma alienação voluntária que clareia a mente por um instante, mas é ilusória: elas voltam ao confinamento. É tanto estratégia de enfrentamento (coping) quanto rebelião temporária contra o hospital.
Outros detalhes simbólicos são brilhantes. O taxista que leva Susanna ao internato no início está desgrenhado, cabeludo, representando a contracultura hippie de 1967, a rebelião que ela anseia. No final, em 1968, ele aparece arrumado, simbolizando a conformidade, o “fim da inocência” da era ou a própria percepção alterada de Susanna, agora mais “normalizada” após a cura.
Susanna expressa claramente seu medo de repetir o padrão da mãe: “não quero acabar como minha mãe”, uma dona de casa suburbana presa em papéis tradicionais dos anos 50/60. Ela diz que “hoje as mulheres têm mais opções”, uma referência ao feminismo da segunda onda, à pílula anticoncepcional e aos direitos emergentes. Mas ironicamente, é internada justamente por não se encaixar nessas opções. Sua ambivalência entre liberdade e segurança é uma crítica sutil ao patriarcado.
A dinâmica familiar também aparece na negação da mãe quando o terapeuta menciona a alta probabilidade de herança transgeracional no borderline: ela interrompe a conversa para não se implicar, revelando como famílias perpetuam traumas ao evitar a introspecção.
O filme usa “O Mágico de Oz” como uma metáfora poderosa. Susanna é como Dorothy, transportada para um mundo paralelo (o hospital Claymoore) após um colapso. Lisa é a Bruxa Má do Oeste, manipuladora e carismática, enquanto as outras pacientes representam figuras como o Leão Covarde (Polly, traumatizada e queimada) ou o Espantalho (Daisy, oca por dentro). O hospital é Oz: colorido, mas perigoso. No final, a TV mostra Dorothy aprendendo que “sempre pôde voltar para casa”, o poder de cura estava nela o tempo todo, paralelo à jornada de Susanna, que descobre sua agência interna.
Daisy Randone é outro caso trágico. Seu incesto implícito com o pai biológico (visitas “especiais”, controle financeiro) explica a bulimia/anorexia: só come frango do pai e usa laxantes para “purgar” a culpa e o trauma. Esconder carcaças de frango debaixo da cama simboliza o segredo reprimido que apodrece internamente. Quando exposto por Lisa, leva ao suicídio. A “alta” dela é irônica: confessa o abuso, sai, mas continua presa no ciclo.
Lisa, a sociopata, projeta fraqueza nas outras (“Vocês são gente fraca! São todas vítimas!”), mas no fundo inclui a si mesma. Ela cutuca feridas alheias, mas nega as próprias (negligenciada, abandonada). Sua visão cínica da psiquiatria, “quanto mais confessa, mais pensam em soltar você; se não tiver segredo, fica internada a vida toda”, é perigosa, pois pode induzir pacientes a fabricarem traumas, mas acerta ao criticar o modelo confessional que patologiza a normalidade.
O coração do filme está num diálogo poderoso entre Susanna e Valerie após o suicídio de Daisy. Susanna expressa empatia profunda: “Que eu não sabia como era a vida dela, mas que sabia como era querer morrer, como dói sorrir, como você tenta se ajustar e não consegue, como você se fere por fora tentando matar o que tem dentro.” Valerie incentiva expressão, escrever, pôr para fora, e Susanna reflete sobre crescer perdendo uma “casca”, sentir tudo de novo e usar o lugar para falar. Lisa vê nisso um “dom” de enxergar verdades; o filme mostra que a loucura pode oferecer insight, mas a cura vem da autenticidade, não de confissão forçada.
No final, Susanna revisita sua desrealização inicial (“sem ossos na mão”): ao abrir a mão, ela parece mais humana, as veias saltadas mostram vitalidade, a memória se transforma. Segundo Freud, está sadia. Mas o filme questiona: cura é rótulo ou processo contínuo? Ela prefere o mundo lá fora, cheio de mentirosos e ignorantes, ao internato, porque é liberdade imperfeita.
Garota, Interrompida não é só sobre doença mental; é sobre a linha tênue entre sanidade e insanidade, construída socialmente, e a jornada de integrar fragmentos do self em meio a um sistema que tanto ajuda quanto controla. Um filme que perturba, mas também liberta.