Ozon, genial desde sempre! O curta é um exemplo de que não é preciso se estender para entregar uma obra significativa, digna de ser revista. As atuações são muito boas, assim como a montagem. O tema da fotografia sendo explorado com sensibilidade numa temática sempre oportuna, filho e pai e os conflitos que se desdobram a partir deste encontro.
Inicialmente achei que o título do filme indicasse ironia por não perceber beleza nas criaturas apresentadas sequer heroísmo, mas foi justamente a condução do roteiro que me fez perceber não haver ironia alguma. Pelo contrário: são belas em sua condição humana naturalmente agressiva e ao mesmo tempo construtiva. O filme representa um olhar e análise sinceros do diretor sobre os temas da amizade, vínculo e lealdade. O realismo com que as situações são apresentadas nos permite uma aproximação da dor do existir de cada um deles a seu modo. Questiono se é exagero dizer que a narrativa seria uma versão atualizada do Conta Comigo para o mundo de hoje, com os desafios que ele apresenta, mais ou menos próximo do que pessoas vivenciam. Por fim, não seria de se esperar pouca coisa se tratando do mesmo diretor de Corações de Pedra. Ambos os filmes a serem revistos. <3
Uma abordagem excelente sobre um tema psicológico difícil que é a presença da agressividade em uma relação de amor, ou, em outros termos, a hipótese de uma fusão entre as pulsões de morte com as libidinais. Este filme, "em outras mãos", poderia resultar em um retrato superficial de uma pessoa perturbada, mas o diretor conseguiu entregar uma boa adaptação literária cujas personagens são cativantes em sua profundidade e estranheza. O contraste entre os espaços abertos e a condição psicológica do casal, mostrada no mais íntimo deles é bem representada, sendo acompanhada pela trilha sonora que nos permite uma aproximação. E a partir desta, algum entendimento acerca do que os motivava à ação e aos fins passivos. Certamente uma história de amor cuja assimilação é difícil, mas que tem muito valor nos seus detalhes e na improbabilidade percebida desde o início.
Um retrato memorável que é lindo em sua sutileza e simplicidade. Não foi de todo surpresa pra mim porque já conhecia Arthur J. Bressan Jr. de "Buddies", mas que neste filme nos traz uma obra com menos diálogos, mas tão discursiva quanto! O autor devolve a naturidade que o sexo e o encontro físico entre dois homens nunca deveria ter deixado de ter. Em mais de um momento foi preciso me lembrar que se tratava de 1974, e quanto tempo ainda levaria para que esta compreensão do "natural da Vida" alcançasse o entendimento de tantas outras pessoas. Seria muito bom que este filme fosse mais conhecido. É para ser assistido (e revisitado) sem grandes expectativas e tão simplesmente para se perceber alguma coisa.
Faz uma semana que assisti, e as cenas ainda "fazem eco" na minha cabeça. Christian Petzold escreveu, assim como, mais uma vez, mostrou um valioso retrato da experiência humana. A personagem estava tão apegada à missão que escolheu para si, ao mesmo tempo em que distante dele mesmo e de quase tudo o que o rodeava. Isto é retratado de modo tão natural e honesto que somos levados à uma tentativa de aproximação da condição psicológica dele. Dá pra sentir a aridez do intelectualismo acadêmico, na qual não se vive nem se expressa criativamente. As atuações são memoráveis em sua simplicidade. Fica a sensação de que eles estavam interpretando eles mesmos, e o filme, se e quando revisto, certamente pode agregar uma experiência nova e significativa.
É curioso notar que o título original, se traduzido, ficaria “a audição”, mas o filme, por alguma razão (ou não), foi intitulado A Professora de Violino. Título que cai bem, dado que o roteiro é todo sobre ela: suas ações corriqueiras e as motivações por detrás das mesmas, a paixão que a impulsionava e sua constante transição entre os papeis de mãe e professora. O roteiro sugere que a busca pela perfeição e a compulsividade possam ser uma só coisa, ambas atividades de provável insucesso. É um rico estudo de personagem que se articula com a máxima freudiana segundo a qual pessoas melhores existiriam, caso não se esforçassem em ser tão boas. Assim é possível e mesmo fácil de senti-lo como um drama agridoce.
É uma história de amor perfeita por sua improbabilidade e por não oferecer a certeza da complementaridade. É dito no filme que somente a ausência é capaz de diferenciar o amor verdadeiro de uma paixão súbita. Assim, ainda que juntos, o casal-título vive separado em boa parte do roteiro. Esta separação, entrelaçada com o tema da morte, faz com que o desejo de ambos, de um pelo outro, não morra. Ademais, isto faz com que desejemos que eles fiquem juntos. É um filme belo, contemplativo e memorável.
O título do filme propositalmente esta no plural, dado que a intranquilidade era a condição de todos os envolvidos. É um retrato sincero sobre uma condição psicopatológica, cuja cura era improvável, daí o desafio de manejar o possível. A construção de personagens foi realizada com primor, o que traz a sensação de sermos testemunhas em cada situação. O desenrolar do roteiro aponta para uma possibilidade de reestabelecimento físico e mental das personagens ao mesmo tempo que invalida a esperança de uma estabilidade. O desenvolvimento da personagem Leila é tão interessante quanto o do protagonista. A bem da verdade, sequer é necessário definir qual dentre os dois protagoniza a situação. Certamente ambos são apresentados enquanto humanos e vulneráveis, cuja demanda era a de serem cuidados.
É um bom melodrama oitentista sobre uma mulher que deseja ser amada. Lianna é a personagem-título e o filme é todo sobre ela: suas emoções, incertezas e seu processo de maturação. Ao mesmo tempo em que parece pouco crível se tratar de uma mãe de dois filhos com mais de trinta anos, é compreensível que a clausura matrimonial não lhe trouxera experiência do que seria viver fora do âmbito doméstico. Daí a semelhança da personagem com uma adolescente da época. Não se trata um dramalhão nem mesmo de uma crítica social acentuada. A atmosfera do filme esta mais para wood alleniana. E nesta possível leveza reside o valor da experiência de assisti-lo.
É uma autêntica LaBruce estória e, enquanto tal, esta sujeita à incompreensão. Os elementos estilísticos do diretor encontram-se todos presentes, tais como a relação entre o sagrado e o profano, o humor sobrenatural e o homoerotismo muitíssimo bem situado. O resultado é um trabalho que não demanda definição de gênero, que se sustenta pela fotografia e se faz interessante pela despretensão em ser levado totalmente a sério. Pode-se notar referências à Derek Jarman e o louvor ao corpo masculino por aquilo que ele é, fetichizado por sua natureza. Vale o questionamento se o diretor quis se fazer compreendido num roteiro que mistura o mitológico com o trash. De todo modo, com base nas avaliações, fica a impressão de que Bruce “veio para os seus e os seus não o receberam (bem)”.
O filme é excelente e o trio de personagens foi muito bem desenvolvido. Em menos de 90 minutos é entregue um roteiro no qual temas essenciais, como o valor da vida e o significado do trabalho, são abordados densamente, com profundidade e um certo humor. O medo de fracassar bem como a coragem estão bem representados nas tentativas das personagens em “fazer a vida dar certo”. Há um inevitável embate entre vocação e o princípio da realidade. Acima de tudo, é um filme sobre sonhos e os impasses para a materialização dos mesmos.
Um roteiro no qual é feita referência à Sunday Blood Sunday (1971) certamente seria significativo, mas não necessariamente constituiria um bom filme. Ainda que a temática de
, em forma de thriller, pareça datada aos dias de hoje, esta teve seu lugar na época do lançamento. No gênero escolhido retrata-se os temas da separação, do luto e, principalmente, do direito de amar a quem se deseja. A execução da proposta, no entanto, pode decepcionar. O roteiro é enigmático em seu início, tornando-se demasiado
explicativo no final. E ainda com acentuado teor moral em seu desfecho, na decisão do personagem em não matar o assassino e doar seu casaco ao mendigo.
Atualmente espera-se assistir casais gays sendo retratados em outros contextos, de forma que este filme pode se tornar desinteressante para ser revisto bem como enfadonho.
A construção de personagens é muito boa e por se tratar de um roteiro pautado em diálogos, torna-se mais interessante descobrir quem são eles. Os temas da separação e perda norteiam o roteiro e podem causar certo dissabor já que a atmosfera do filme é melancólica. É um retrato bom da solidão de homens gays após os 30 anos e da busca por uma complementaridade. Quanto a Jeff, que já encontrava-se em luto pela perda do amigo,
por fim, viu-se mais uma vez sozinho e possivelmente apaixonado. Não houve intenção alguma em se produzir um final feliz e irreal. Ainda assim, um desfecho talvez otimista, dada a possibilidade de reencontro.
Ao revê-lo mais de 10 anos depois, percebo que assisti-lo é uma experiência válida não exatamente por seu roteiro, atuações ou a produção em si mesma, mas por aquilo que ele pode despertar enquanto reflexão ou emoção. Ele é todo sobre memórias, daí que se coloca a possibilidade de que há aquelas que possam estar ou não associadas ao afeto correspondente ao que foi vivido. E nisso as pessoas se perdem. O filme então retrata essa possibilidade de se achar e se perder, mas sobretudo de não se desinteressar de descobrir a pessoa que se é. Neste contexto, aborda temas relevantes como a intolerância à homossexualidade expressa pela violência social bem como religiosa. A personagem sem memória era produto de um meio hostil e seu percurso era de autoconhecimento, tarefa que à cada um cabe a seu modo.
Dona von Trotta é uma visionária que desde seus primeiros filmes revelava um olhar sobre as relações humanas para além da condição limítrofe de um tempo. Sua abordagem sobre o feminismo é realista, nada piegas e ultrapassa barreiras culturais. Em Heller Wahn ela denuncia uma condição socialmente firmada de “mulher para um homem”, de forma que suas personagens transcendem essa condição. A recusa de um papel convencional e aprisionante as leva ao encontro de outras possibilidades para o feminino. Há lugar para o ensino, a literatura, a amizade e a loucura, em síntese, para o discurso de mulheres plurais. Obra memorável em sua direção segura num roteiro que convoca à reflexão e a atenção às sutilezas dos olhares e do não-dito.
O título do filme no Brasil é ingrato, pois sugere um conto de fadas ou mesmo um romance comercial. Não é nada disso. Trata-se de uma abordagem madura sobre as diferenças de classes e do desafio de transposição de uma posição à outra. Ainda que piegas, o título traduzido pode deter certa ironia já que a personagem estava, em partes, tolhida de costurar seus próprios sonhos. É nítido que o desejo individual de ascensão esta condicionado a variáveis sociais. É curioso notar como a lei que determina lugares não é apenas externa, mas encontra-se introjetada no sujeito. Logo, na condição de empregada, à personagem cabia não apenas obedecer e servir mas também dirigir-se ao patrão como “sir”. Para ela, neste lugar, nenhum outro significante era concebível.
Trata-se de uma perspectiva redentora, idílica e emocionante feito o homem aos pés da cruz. Faltou pouco para que fosse dito literalmente: “ainda acredito muito no ser humano”. É curioso notar como no cinema escandinavo algumas vezes se repetem temas das produções americanas, tais como a tentativa de resolução da vida de pessoas mentalmente perturbadas. Ora, não há dúvida de que as quatro personagens não batiam bem da cabeça. Assim beira o assustador estes seres colocados nas posições de pai e mãe. Seria um ótimo roteiro, se mais cru, com ênfase nas questões psicológicas dos protagonistas sem torná-los pessoas irreais. É dinamarquês, mas é novelão.
Não há dúvida de que a abordagem do filme é pertinente e atual, causa desconforto e, consequentemente, deve ser debatida. Ainda assim, um dos problemas das produções estado-unidenses é que tudo é filmado dentro de um “filtro hollywoodiano”. Assim, invariavelmente algumas situações são exacerbadas enquanto outras amenizadas para culminar em um final digerível com música solene. É curioso que isso aconteça quando a proposta é apresentar um retrato minimamente fiel da realidade.
O roteiro se apoia na temática de uma conversão. Seja uma “cura gay” seja transcendê-la e tornar-se livre. Embora baseado em fatos reais, é pouco crível o amadurecimento do personagem principal assim como sua ruptura com uma herança familiar. No geral, embora irrealista, o filme tem o seu lugar para talvez inspirar todo aquele (ou aquela) que vivencia um ambiente hostil e opressor quanto o retratado. Diferente do “novelão” apresentado, todos sabem que a luta diária de lgbts transcende a atmosfera quase idílica e com direito a uma mãe perua e purpurinizada conforme se vê no filme. Em síntese, trata-se de uma narrativa rasa sobre o sofrimento humano. Este mesmo tema encontra melhor desenvolvimento no filme “Salvem-me” (2003).
Xavier Dolan seria a promessa de salvação do roteiro, o que não aconteceu.
Este filme é uma oportunidade ímpar para reflexão e análise do que aconteceu com o mundo dezoito anos após o ano 2000. Pode parecer profético ou mesmo pessimista, mas não, o roteiro é reflexo de uma visão pessoal acerca de possíveis caminhos que as relações humanas teriam. As referências literárias são sublimes. O relacionamento do casal é apreciável. Acima de tudo é um filme sobre paixões: pelo cinema, pela literatura, pelos encontros, pelo sexo, pelo corpo do outro, entre outras.
Em sua abordagem sobre o tempo, fomenta um questionamento quanto ao que tem sido perdido com o desenrolar de um novo milênio. A tecnologia sendo colocada de forma paradoxal. Ao mesmo tempo em que uma câmera de mão acompanha o percurso de um jovem cineasta, tão logo um celular seria fixado às bundas dos futuros escravos. Entre ganhos e perdas, o filme aponta algo de essencial que diz respeito às trocas interpessoais, ao envolvimento, ao diálogo, àquilo que deveria continuar a existir a despeito de transformações já previstas.
Nas duas primeiras partes do filme, fica difícil decidir dentre qual dos dois protagonistas, boys versáteis discretos, é o mais boring. Tem-se uma acirrada disputa para a conquista do troféu "picolé de chuchu". Já na terceira parte, com a entrada da personagem de Jesuíta Barbosa, o roteiro indica tornar-se promissor. Ainda assim, fica apenas a promessa. Poderia ser uma abordagem pertinente e realista sobre a separação e os efeitos do tempo nos relacionamentos humanos. Mas não, nota-se apenas o apego ao modelo europeu de fazer cinema com o uso do silêncio e uma boa fotografia que, nesta produção, dizem tão pouco.
O filme é pretencioso e tão somente consegue ser "raso no profundo". Por se tratar da relação de irmãos brasilidades é ainda mais fácil identificar o quanto o reencontro de ambos não é nada crível, seja pela forma como este se deu, seja por nada desenvolverem desde então. Faltou construção de personagens e diálogos bem escritos. Acima de tudo, faltou decidir entre produzir um trabalho para concorrer a premiações ou a criação de uma abordagem aprofundada que viesse agregar ao cinema gay brasileiro.
Um exemplo de que é possível produzir um trabalho simples com profundidade. O roteiro faz uso da metáfora do peixe fora d'água para abordar a realidade daqueles que são jogados para fora do aquário, ao qual lhes é atribuído um não-lugar, designando-os a uma posição de assujeitamento. Obra que pode ser designada como "ousada" justamente por não se deter em modelos de filmes gays tampouco a esteriótipos cosmopolitas de LGBTs. Causa estranhamento a "ausência de purpurina" como um todo: homossexuais despidos das referências hegemônicas de moda; música sertaneja na trilha e a simplicidade na decoração dos ambientes. Esta estética somada ao fato das atuações parecerem espontâneas indica a possível intenção exitosa dos diretores de mostrar uma realidade como ela é.
Enquanto em algumas cidades do mundo fala-se hoje em agênero, vê-se, pelo filme, que outras estão absolutamente distantes desta compreensão, de forma que o afeto entre dois homens continua sendo concebido como total disparate. Os três protagonistas, cada um a seu modo, são guerreiros. Eles refletem garra, resistência e autenticidade. Certamente representam a realidade daqueles que vivem em cidades interioranas, bem como os que se (re)afirmam em pequenos núcleos familiares, que pagam o preço por não atenderem a uma expectativa familiar heteronormativa.
É certo que um filme com esta abordagem precisava ser produzido nos moldes em que foi feito. Realista e de algum modo poético. Fica o inquérito se o futuro reserva cidades assim, áridas, excludentes e ignorantes, ou se uma perspectiva nova poderá nascer a partir destes que ousam construir um outro tipo de laço.
Espera-se uma abordagem coerente sobre psicopatologia e o que se encontra é o retrato de um marido desorientado, ciumento e machista. O tema do transtorno mental se desfoca num roteiro bastante episódico, fragmentado e sem profundidade alguma no que diz respeito ao cotidiano de uma pessoa com sintomas de depressão. O filme tão apenas se detém em apresentar a realidade conturbada de uma família de classe média e imiscuir certa poesia no caos. Até aí, nada agrega.
Tanto a doença mental da protagonista quanto ela em si ficam em segundo plano num roteiro onde prevalece a posição do marido e seu desafio de lidar com a falta de controle da dinâmica familiar. Isto não apenas anula o tema principal como sugere a repetição de uma visão datada e paternalista do homem como o eixo do lar e responsável por sua estrutura.
O empoderamento de uma mulher. Filme esplêndido cujo título não poderia ser mais apropriado. Este sintetiza a atitude de uma mulher transsexual frente não apenas a uma realidade hostil, mas a uma sociedade intolerante a tudo aquilo que diverge de suas rasas concepções de masculino e feminino. É possível que não mais se precise de produções sobre "autoaceitação gay" e "saída do armário", mas sim roteiros como este, que retratem o cotidiano daqueles que escolheram vivenciar uma sexualidade livre. Marina Vidal reflete a condição de "dar a cara a bater" e expressa força, resiliência e autenticidade. Certamente representa a realidade de LGBTs em suas lutas diárias, a despeito de diferenças econômicas e sociais.
Obra mais que pertinente para a reflexão sobre a pluralidade de gêneros. O espelho colocado no lugar do sexo é uma excelente metáfora para anunciar que ser uma mulher não diz respeito à presença ou ausência de um pênis, mas sim a uma construção pessoal, à busca por uma singularidade, por um modo de se fazer presente no mundo.
A Pequena Morte
3.5 9Ozon, genial desde sempre!
O curta é um exemplo de que não é preciso se estender para entregar uma obra significativa, digna de ser revista. As atuações são muito boas, assim como a montagem. O tema da fotografia sendo explorado com sensibilidade numa temática sempre oportuna, filho e pai e os conflitos que se desdobram a partir deste encontro.
Belas Criaturas
3.9 17 Assista AgoraInicialmente achei que o título do filme indicasse ironia por não perceber beleza nas criaturas apresentadas sequer heroísmo, mas foi justamente a condução do roteiro que me fez perceber não haver ironia alguma. Pelo contrário: são belas em sua condição humana naturalmente agressiva e ao mesmo tempo construtiva. O filme representa um olhar e análise sinceros do diretor sobre os temas da amizade, vínculo e lealdade. O realismo com que as situações são apresentadas nos permite uma aproximação da dor do existir de cada um deles a seu modo. Questiono se é exagero dizer que a narrativa seria uma versão atualizada do Conta Comigo para o mundo de hoje, com os desafios que ele apresenta, mais ou menos próximo do que pessoas vivenciam.
Por fim, não seria de se esperar pouca coisa se tratando do mesmo diretor de Corações de Pedra. Ambos os filmes a serem revistos. <3
Kelly + Victor
2.4 43Uma abordagem excelente sobre um tema psicológico difícil que é a presença da agressividade em uma relação de amor, ou, em outros termos, a hipótese de uma fusão entre as pulsões de morte com as libidinais. Este filme, "em outras mãos", poderia resultar em um retrato superficial de uma pessoa perturbada, mas o diretor conseguiu entregar uma boa adaptação literária cujas personagens são cativantes em sua profundidade e estranheza. O contraste entre os espaços abertos e a condição psicológica do casal, mostrada no mais íntimo deles é bem representada, sendo acompanhada pela trilha sonora que nos permite uma aproximação. E a partir desta, algum entendimento acerca do que os motivava à ação e aos fins passivos. Certamente uma história de amor cuja assimilação é difícil, mas que tem muito valor nos seus detalhes e na improbabilidade percebida desde o início.
Passing Strangers
4.0 4Um retrato memorável que é lindo em sua sutileza e simplicidade. Não foi de todo surpresa pra mim porque já conhecia Arthur J. Bressan Jr. de "Buddies", mas que neste filme nos traz uma obra com menos diálogos, mas tão discursiva quanto! O autor devolve a naturidade que o sexo e o encontro físico entre dois homens nunca deveria ter deixado de ter. Em mais de um momento foi preciso me lembrar que se tratava de 1974, e quanto tempo ainda levaria para que esta compreensão do "natural da Vida" alcançasse o entendimento de tantas outras pessoas. Seria muito bom que este filme fosse mais conhecido. É para ser assistido (e revisitado) sem grandes expectativas e tão simplesmente para se perceber alguma coisa.
Não nos deveria surpreender que até uma punheta pode ser poética?!
Afire
3.8 63 Assista AgoraFaz uma semana que assisti, e as cenas ainda "fazem eco" na minha cabeça. Christian Petzold escreveu, assim como, mais uma vez, mostrou um valioso retrato da experiência humana. A personagem estava tão apegada à missão que escolheu para si, ao mesmo tempo em que distante dele mesmo e de quase tudo o que o rodeava. Isto é retratado de modo tão natural e honesto que somos levados à uma tentativa de aproximação da condição psicológica dele. Dá pra sentir a aridez do intelectualismo acadêmico, na qual não se vive nem se expressa criativamente.
As atuações são memoráveis em sua simplicidade. Fica a sensação de que eles estavam interpretando eles mesmos, e o filme, se e quando revisto, certamente pode agregar uma experiência nova e significativa.
A Professora de Violino
3.4 8 Assista AgoraÉ curioso notar que o título original, se traduzido, ficaria “a audição”, mas o filme, por alguma razão (ou não), foi intitulado A Professora de Violino. Título que cai bem, dado que o roteiro é todo sobre ela: suas ações corriqueiras e as motivações por detrás das mesmas, a paixão que a impulsionava e sua constante transição entre os papeis de mãe e professora. O roteiro sugere que a busca pela perfeição e a compulsividade possam ser uma só coisa, ambas atividades de provável insucesso. É um rico estudo de personagem que se articula com a máxima freudiana segundo a qual pessoas melhores existiriam, caso não se esforçassem em ser tão boas. Assim é possível e mesmo fácil de senti-lo como um drama agridoce.
Alice e Martin
3.3 6É uma história de amor perfeita por sua improbabilidade e por não oferecer a certeza da complementaridade. É dito no filme que somente a ausência é capaz de diferenciar o amor verdadeiro de uma paixão súbita. Assim, ainda que juntos, o casal-título vive separado em boa parte do roteiro. Esta separação, entrelaçada com o tema da morte, faz com que o desejo de ambos, de um pelo outro, não morra. Ademais, isto faz com que desejemos que eles fiquem juntos. É um filme belo, contemplativo e memorável.
Os Intranquilos
3.3 6O título do filme propositalmente esta no plural, dado que a intranquilidade era a condição de todos os envolvidos. É um retrato sincero sobre uma condição psicopatológica, cuja cura era improvável, daí o desafio de manejar o possível. A construção de personagens foi realizada com primor, o que traz a sensação de sermos testemunhas em cada situação. O desenrolar do roteiro aponta para uma possibilidade de reestabelecimento físico e mental das personagens ao mesmo tempo que invalida a esperança de uma estabilidade. O desenvolvimento da personagem Leila é tão interessante quanto o do protagonista. A bem da verdade, sequer é necessário definir qual dentre os dois protagoniza a situação. Certamente ambos são apresentados enquanto humanos e vulneráveis, cuja demanda era a de serem cuidados.
Lianna
3.1 13É um bom melodrama oitentista sobre uma mulher que deseja ser amada. Lianna é a personagem-título e o filme é todo sobre ela: suas emoções, incertezas e seu processo de maturação. Ao mesmo tempo em que parece pouco crível se tratar de uma mãe de dois filhos com mais de trinta anos, é compreensível que a clausura matrimonial não lhe trouxera experiência do que seria viver fora do âmbito doméstico. Daí a semelhança da personagem com uma adolescente da época. Não se trata um dramalhão nem mesmo de uma crítica social acentuada. A atmosfera do filme esta mais para wood alleniana. E nesta possível leveza reside o valor da experiência de assisti-lo.
Saint-Narcisse
2.8 20 Assista AgoraÉ uma autêntica LaBruce estória e, enquanto tal, esta sujeita à incompreensão. Os elementos estilísticos do diretor encontram-se todos presentes, tais como a relação entre o sagrado e o profano, o humor sobrenatural e o homoerotismo muitíssimo bem situado. O resultado é um trabalho que não demanda definição de gênero, que se sustenta pela fotografia e se faz interessante pela despretensão em ser levado totalmente a sério.
Pode-se notar referências à Derek Jarman e o louvor ao corpo masculino por aquilo que ele é, fetichizado por sua natureza. Vale o questionamento se o diretor quis se fazer compreendido num roteiro que mistura o mitológico com o trash. De todo modo, com base nas avaliações, fica a impressão de que Bruce “veio para os seus e os seus não o receberam (bem)”.
Vivre me tue
3.0 2O filme é excelente e o trio de personagens foi muito bem desenvolvido. Em menos de 90 minutos é entregue um roteiro no qual temas essenciais, como o valor da vida e o significado do trabalho, são abordados densamente, com profundidade e um certo humor. O medo de fracassar bem como a coragem estão bem representados nas tentativas das personagens em “fazer a vida dar certo”. Há um inevitável embate entre vocação e o princípio da realidade. Acima de tudo, é um filme sobre sonhos e os impasses para a materialização dos mesmos.
”This is your dreams”, contudo “nós não somos um sonho”.
Urbania
2.9 15Um roteiro no qual é feita referência à Sunday Blood Sunday (1971) certamente seria significativo, mas não necessariamente constituiria um bom filme. Ainda que a temática de
assassinato gay
explicativo no final. E ainda com acentuado teor moral em seu desfecho, na decisão do personagem em não matar o assassino e doar seu casaco ao mendigo.
Ciao
3.5 56A construção de personagens é muito boa e por se tratar de um roteiro pautado em diálogos, torna-se mais interessante descobrir quem são eles. Os temas da separação e perda norteiam o roteiro e podem causar certo dissabor já que a atmosfera do filme é melancólica. É um retrato bom da solidão de homens gays após os 30 anos e da busca por uma complementaridade.
Quanto a Jeff, que já encontrava-se em luto pela perda do amigo,
por fim, viu-se mais uma vez sozinho e possivelmente apaixonado. Não houve intenção alguma em se produzir um final feliz e irreal. Ainda assim, um desfecho talvez otimista, dada a possibilidade de reencontro.
Amnésia - O Enigma de James Brighton
3.0 20Ao revê-lo mais de 10 anos depois, percebo que assisti-lo é uma experiência válida não exatamente por seu roteiro, atuações ou a produção em si mesma, mas por aquilo que ele pode despertar enquanto reflexão ou emoção. Ele é todo sobre memórias, daí que se coloca a possibilidade de que há aquelas que possam estar ou não associadas ao afeto correspondente ao que foi vivido. E nisso as pessoas se perdem. O filme então retrata essa possibilidade de se achar e se perder, mas sobretudo de não se desinteressar de descobrir a pessoa que se é. Neste contexto, aborda temas relevantes como a intolerância à homossexualidade expressa pela violência social bem como religiosa. A personagem sem memória era produto de um meio hostil e seu percurso era de autoconhecimento, tarefa que à cada um cabe a seu modo.
A Caminho da Loucura
3.6 1Dona von Trotta é uma visionária que desde seus primeiros filmes revelava um olhar sobre as relações humanas para além da condição limítrofe de um tempo. Sua abordagem sobre o feminismo é realista, nada piegas e ultrapassa barreiras culturais. Em Heller Wahn ela denuncia uma condição socialmente firmada de “mulher para um homem”, de forma que suas personagens transcendem essa condição. A recusa de um papel convencional e aprisionante as leva ao encontro de outras possibilidades para o feminino. Há lugar para o ensino, a literatura, a amizade e a loucura, em síntese, para o discurso de mulheres plurais. Obra memorável em sua direção segura num roteiro que convoca à reflexão e a atenção às sutilezas dos olhares e do não-dito.
A Costureira de Sonhos
3.6 16 Assista AgoraO título do filme no Brasil é ingrato, pois sugere um conto de fadas ou mesmo um romance comercial. Não é nada disso. Trata-se de uma abordagem madura sobre as diferenças de classes e do desafio de transposição de uma posição à outra. Ainda que piegas, o título traduzido pode deter certa ironia já que a personagem estava, em partes, tolhida de costurar seus próprios sonhos. É nítido que o desejo individual de ascensão esta condicionado a variáveis sociais. É curioso notar como a lei que determina lugares não é apenas externa, mas encontra-se introjetada no sujeito. Logo, na condição de empregada, à personagem cabia não apenas obedecer e servir mas também dirigir-se ao patrão como “sir”. Para ela, neste lugar, nenhum outro significante era concebível.
Segunda Chance
3.5 80 Assista AgoraTrata-se de uma perspectiva redentora, idílica e emocionante feito o homem aos pés da cruz. Faltou pouco para que fosse dito literalmente: “ainda acredito muito no ser humano”. É curioso notar como no cinema escandinavo algumas vezes se repetem temas das produções americanas, tais como a tentativa de resolução da vida de pessoas mentalmente perturbadas. Ora, não há dúvida de que as quatro personagens não batiam bem da cabeça. Assim beira o assustador estes seres colocados nas posições de pai e mãe.
Seria um ótimo roteiro, se mais cru, com ênfase nas questões psicológicas dos protagonistas sem torná-los pessoas irreais. É dinamarquês, mas é novelão.
Boy Erased: Uma Verdade Anulada
3.6 421 Assista AgoraNão há dúvida de que a abordagem do filme é pertinente e atual, causa desconforto e, consequentemente, deve ser debatida. Ainda assim, um dos problemas das produções estado-unidenses é que tudo é filmado dentro de um “filtro hollywoodiano”. Assim, invariavelmente algumas situações são exacerbadas enquanto outras amenizadas para culminar em um final digerível com música solene. É curioso que isso aconteça quando a proposta é apresentar um retrato minimamente fiel da realidade.
O roteiro se apoia na temática de uma conversão. Seja uma “cura gay” seja transcendê-la e tornar-se livre. Embora baseado em fatos reais, é pouco crível o amadurecimento do personagem principal assim como sua ruptura com uma herança familiar. No geral, embora irrealista, o filme tem o seu lugar para talvez inspirar todo aquele (ou aquela) que vivencia um ambiente hostil e opressor quanto o retratado. Diferente do “novelão” apresentado, todos sabem que a luta diária de lgbts transcende a atmosfera quase idílica e com direito a uma mãe perua e purpurinizada conforme se vê no filme. Em síntese, trata-se de uma narrativa rasa sobre o sofrimento humano. Este mesmo tema encontra melhor desenvolvimento no filme “Salvem-me” (2003).
Xavier Dolan seria a promessa de salvação do roteiro, o que não aconteceu.
Caminhos Perigosos
3.6 267 Assista AgoraO melhor do filme é o Harvey Keitel sem camisa.
Jonas e Lila, Até Amanhã
3.6 1Este filme é uma oportunidade ímpar para reflexão e análise do que aconteceu com o mundo dezoito anos após o ano 2000. Pode parecer profético ou mesmo pessimista, mas não, o roteiro é reflexo de uma visão pessoal acerca de possíveis caminhos que as relações humanas teriam. As referências literárias são sublimes. O relacionamento do casal é apreciável. Acima de tudo é um filme sobre paixões: pelo cinema, pela literatura, pelos encontros, pelo sexo, pelo corpo do outro, entre outras.
Em sua abordagem sobre o tempo, fomenta um questionamento quanto ao que tem sido perdido com o desenrolar de um novo milênio. A tecnologia sendo colocada de forma paradoxal. Ao mesmo tempo em que uma câmera de mão acompanha o percurso de um jovem cineasta, tão logo um celular seria fixado às bundas dos futuros escravos. Entre ganhos e perdas, o filme aponta algo de essencial que diz respeito às trocas interpessoais, ao envolvimento, ao diálogo, àquilo que deveria continuar a existir a despeito de transformações já previstas.
Praia do Futuro
3.4 937 Assista AgoraNas duas primeiras partes do filme, fica difícil decidir dentre qual dos dois protagonistas, boys versáteis discretos, é o mais boring. Tem-se uma acirrada disputa para a conquista do troféu "picolé de chuchu". Já na terceira parte, com a entrada da personagem de Jesuíta Barbosa, o roteiro indica tornar-se promissor. Ainda assim, fica apenas a promessa. Poderia ser uma abordagem pertinente e realista sobre a separação e os efeitos do tempo nos relacionamentos humanos. Mas não, nota-se apenas o apego ao modelo europeu de fazer cinema com o uso do silêncio e uma boa fotografia que, nesta produção, dizem tão pouco.
O filme é pretencioso e tão somente consegue ser "raso no profundo". Por se tratar da relação de irmãos brasilidades é ainda mais fácil identificar o quanto o reencontro de ambos não é nada crível, seja pela forma como este se deu, seja por nada desenvolverem desde então. Faltou construção de personagens e diálogos bem escritos. Acima de tudo, faltou decidir entre produzir um trabalho para concorrer a premiações ou a criação de uma abordagem aprofundada que viesse agregar ao cinema gay brasileiro.
A Cidade do Futuro
3.1 55Um exemplo de que é possível produzir um trabalho simples com profundidade.
O roteiro faz uso da metáfora do peixe fora d'água para abordar a realidade daqueles que são jogados para fora do aquário, ao qual lhes é atribuído um não-lugar, designando-os a uma posição de assujeitamento. Obra que pode ser designada como "ousada" justamente por não se deter em modelos de filmes gays tampouco a esteriótipos cosmopolitas de LGBTs. Causa estranhamento a "ausência de purpurina" como um todo: homossexuais despidos das referências hegemônicas de moda; música sertaneja na trilha e a simplicidade na decoração dos ambientes. Esta estética somada ao fato das atuações parecerem espontâneas indica a possível intenção exitosa dos diretores de mostrar uma realidade como ela é.
Enquanto em algumas cidades do mundo fala-se hoje em agênero, vê-se, pelo filme, que outras estão absolutamente distantes desta compreensão, de forma que o afeto entre dois homens continua sendo concebido como total disparate. Os três protagonistas, cada um a seu modo, são guerreiros. Eles refletem garra, resistência e autenticidade. Certamente representam a realidade daqueles que vivem em cidades interioranas, bem como os que se (re)afirmam em pequenos núcleos familiares, que pagam o preço por não atenderem a uma expectativa familiar heteronormativa.
É certo que um filme com esta abordagem precisava ser produzido nos moldes em que foi feito. Realista e de algum modo poético. Fica o inquérito se o futuro reserva cidades assim, áridas, excludentes e ignorantes, ou se uma perspectiva nova poderá nascer a partir destes que ousam construir um outro tipo de laço.
Canção da Volta
3.3 29Espera-se uma abordagem coerente sobre psicopatologia e o que se encontra é o retrato de um marido desorientado, ciumento e machista. O tema do transtorno mental se desfoca num roteiro bastante episódico, fragmentado e sem profundidade alguma no que diz respeito ao cotidiano de uma pessoa com sintomas de depressão. O filme tão apenas se detém em apresentar a realidade conturbada de uma família de classe média e imiscuir certa poesia no caos. Até aí, nada agrega.
Tanto a doença mental da protagonista quanto ela em si ficam em segundo plano num roteiro onde prevalece a posição do marido e seu desafio de lidar com a falta de controle da dinâmica familiar. Isto não apenas anula o tema principal como sugere a repetição de uma visão datada e paternalista do homem como o eixo do lar e responsável por sua estrutura.
Uma Mulher Fantástica
4.1 429 Assista AgoraO empoderamento de uma mulher. Filme esplêndido cujo título não poderia ser mais apropriado. Este sintetiza a atitude de uma mulher transsexual frente não apenas a uma realidade hostil, mas a uma sociedade intolerante a tudo aquilo que diverge de suas rasas concepções de masculino e feminino. É possível que não mais se precise de produções sobre "autoaceitação gay" e "saída do armário", mas sim roteiros como este, que retratem o cotidiano daqueles que escolheram vivenciar uma sexualidade livre. Marina Vidal reflete a condição de "dar a cara a bater" e expressa força, resiliência e autenticidade. Certamente representa a realidade de LGBTs em suas lutas diárias, a despeito de diferenças econômicas e sociais.
Obra mais que pertinente para a reflexão sobre a pluralidade de gêneros. O espelho colocado no lugar do sexo é uma excelente metáfora para anunciar que ser uma mulher não diz respeito à presença ou ausência de um pênis, mas sim a uma construção pessoal, à busca por uma singularidade, por um modo de se fazer presente no mundo.