É um dos melhores fechamentos de série já feitos, pelos caminhos da narrativa em si, mas também se considerarmos a saída do Steve Carell. Os dois últimos eps resgatam e amarram detalhes preciosos. É também neles que as vulnerabilidades que só apareciam nos deslizes dos personagens ficam expostas, e é graças a elas que os personagens parecem mais humanos e entregam um final que emociona.
“There’s a lot of beauty in ordinary things. Isn’t that kind of the point?”
Confesso, só comecei instigado pelo combo Steven Yeun + A24 + ilustração do cartaz de divulgação, porque o título pt-br "Treta" é péssimo, muito Sessão da Tarde, e a sinopse parece reforçar isso. E que surpresa boa! Assisti todos os eps em um único dia, algo que não costumo fazer. O trabalho de localização contextual é muito bem feito. As atuações e a trilha são boas, e a fotografia é padrão A24. A produção é cuidadosa, o que se reflete na escolha dos title cards, das aberturas do eps. São ótimos. E os títulos escolhidos para os eps também. A cadência narrativa fisga ao oferecer variedade e previsibilidade ao mesmo tempo. Me fez rir e chorar e sentir raiva e piedade. Uma ode anti-good vibes only.
"It's like a void. But not. It's like empty but solid." 🎵 Mayonaise - Smashing Pumpkins
É como se Ken Loach dirigisse um crossover entre Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) e Devs (2020).
A temática e a discussão proposta me fisgaram. Até o momento (ep 5), excelente. Tem potencial para ser um dos melhores trabalhos de direção do Ben Stiller.
ps: Concluída hoje, 08/04. Uma das melhores séries de ficção dos últimos anos. Irretocável. Fotografia e roteiro magistrais. Plots bem posicionados na linha narrativa e muito surpreendentes. Os três últimos eps são uma aula sobre cadência. A direção é do Ben Stiller, mas quem brilha é Dan Erickson.
*O ep 9 me fez lembrar da falta que sentia em assistir algo segurando os gritos de tensão. Que satisfação.
Me parece que o problema aqui foi o excesso de camadas para a construção de uma narrativa coesa. Não tem sido raro: na pretensão de entregar uma obra complexa, profunda e multifacetada (sobretudo neste caso, com a adaptação de uma obra premiada de literatura), assume-se o risco de não conseguir amarrar as pontas ─ os elementos narrativos ─, e o resultado perde a potência, "não chega lá". Parece história mal contada. Como fã da Colman desde Tyrannosaur (que para mim segue sendo a sua melhor performance), senti como se a personagem Leda não fosse um match perfeito para ela. Ou quem sabe o problema tenha sido mais a direção, que embora pareça excelente de modo geral, marca a estréia da Gyllenhaal. E é uma pena, porque a tentativa de importar a potência dos personagens da obra original ─ não romantizados, verossímeis ─ acaba parecendo frágil, confusa. A sensação é de que o tema é forte, o casting e a fotografia são bons, mas falha em algum outro aspecto de execução.
O que me incomoda nesse "documentário" é que em muitos momentos ele só parece uma peça de marketing biográfico. Pouco se faz para humanizar Gates mostrando os seus "defeitos". O que nos mostram de seus defeitos mais parece resposta de entrevista de emprego do tipo "meu defeito é ser perfeccionista". Apesar dos projetos humanitários grandiosos, inquestionavelmente louváveis, não consegui ver e me conectar com a humanidade de Bill da maneira como esperava ─ talvez porque como ele mesmo diz, não faz o que faz pela emoção, mas pela otimização.
Que trabalho bem feito! Tecnicamente impecável, com uma direção de arte que se apropria de símbolos próprios da linguagem instagramer/tiktoker e um roteiro que funciona.
Encontrei muito da história de minha família aqui, mas senti falta de um trabalho mais cuidadoso com os detalhes históricos e antropológicos. Senti que foi um resumo superficial demais de uma cultura que irradiou sobretudo no sul do país, mas não só. Esperava uma maior riqueza de informações.
Os dois eps do "especial pandêmico" são uma aula de roteiro ─ mas não só. Longas sequências em plano fechado exigem muito da atuação, e aqui a combinação disso com um texto impecável e uma fotografia que segue no altíssimo nível da primeira temporada os tornam exemplares.
Uma obra completa, feita com muito cuidado, verdade e vulnerabilidade. O estilo novelesco pode causar um pouco de estranheza, mas foi ideal para reconstituir a aura de Cristina. Fotografia e montagem se destacam.
Antes mesmo do Leão de Ouro, em Veneza, minha expectativa era alta. A promessa de ver em tela o resultado de uma tríade composta pela atuação da McDormand, a direção de Zhao e o retrato da nova classe operária e a precarização de seu trabalho me encheu de esperança de que este fosse o grande título de 2020. Mas não foi exatamente assim. Tive dificuldade em entender a intenção de Zhao na condução da narrativa, diferentemente do que ela entregou em The Rider. Embora a classe operária e a precarização do trabalho estivessem ali retratadas, é uma apresentação amigável demais, a ponto de parecer apenas um "estilo de vida". A própria Zhao chegou a afirmar em entrevista que a intenção não foi fazer uma peça de crítica ─ e por si só, isso não seria um problema. Mas sem uma crítica com contornos mais explícitos, qual é a intenção do filme? Devido a recorrência do retorno à figura do marido, me perguntava se afinal não era essa a questão do filme: uma longa experiência de luto, e o nomadismo como pretexto, um mecanismo de defesa, de escape. Mesmo com a atuação sempre excelente de McDormand, achei difícil entender o universo interno da personagem, pelas poucas pistas de sua vida anterior. Em muitos dos seus momentos contemplativos, em que teoricamente está "tudo bem", surge uma expressão melancólica ou uma trilha sugerindo o contrário. E para mim foi difícil entender de onde isso estava vindo. Há uma resistência, por parte da personagem, em se adequar a uma "vida normal", mesmo quando essa é uma possibilidade à sua disposição. Afinal, Fern escolhe a vida que leva ou está sujeita às condições? Se ela escolhe, a sua melancolia não teria raiz na sua vida presente, escolhida, intencional, mas no passado. Mas se a única coisa de que ela recorda positivamente do passado é o próprio marido, parece que resta apenas o luto como raiz de sua melancolia. A ausência de uma crítica mais explícita sobre a vida laboral da nova classe operária faz parecer que o seu nomadismo é quase "estilo de vida" ─ de alguém que, afoito pela "liberdade", aceita o ônus dessa decisão ─, do que consequência de um sistema que arranca tudo que pode do trabalhador. De tal forma que a Amazon, retratada como um dos contextos em que está inserida essa nova classe, de repente se torna um local onde o trabalho precarizado POSSIBILITA esse "estilo de vida". Contraditório. Daí a minha frustração, que esperava algo mais próximo do que faz Ken Loach. Aqui, o excesso de camadas/falta de um foco narrativo mais me atrapalhou do que fez perceber o filme como uma obra multifacetada capaz de dar conta de amarrar tudo. Mas apesar disso, é um bom filme ao molde neorrealista, sensível, com uma atuação impactante da McDormand (que chegará ao Oscar com grandes chances) e bela fotografia.
Singelo. As atuações são ótimas, sobretudo entre os pares Alan Kim+Yoon Yuh Jung e Steven Yeun+Han Ye Ri. Fotografia delicada, sempre ajustada ao momento narrativo. A ausência de grandes momentos ou reviravoltas no roteiro pode causar estranheza, mas para mim só destaca as qualidades da obra. Se fosse uma pessoa, Minari seria aquela que surpreende não pela ousadia ou grandiosidade, mas pela autenticidade de ser quem é sem medo de decepcionar um público voraz por uma montanha-russa dramática.
Depois dos risos nervosos com Chewing Gum, Coel entrega outro trabalho impecável, agora forjado no sofrimento. Mais uma vez, não há separação entre criação e criadora. É o trauma da autora que é encarnado por ela própria em Arabella. O resultado é desconfortante e verossímil. Coel é exemplar no uso de metalinguagem, e gosto da forma como faz isso, por ela e pelo público: a série é como um processo terapêutico não apenas no sentido "literal", em que a autora forja a obra a partir da sua experiência de dor, para se livrar dela, mas também no sentido metanarrativo, com muitas idas e vindas e questionamentos da personagem. Temos um retrato das atribulações psicológicas recorrentes das vítimas, que ora percebem/aceitam o lugar de vítima (no sentido de não-negação), e ora se culpam/responsabilizam pelo ocorrido, em dissonância cognitiva. O título "I may destroy you" joga com as possiblidades: o crescente desejo de vingança/justiça de Arabella contra seu abusador, e a sua desintegração subjetiva sob os efeitos destrutívos do abuso. Qual pode se consumar primeiro? Coel não se rende a uma "moral millennial", maniqueísta na leitura dos acontecimentos, e explora também algumas autorreflexões ─ o conjunto de representações de vítima e algoz são trabalhadas em profundidade, fugindo de simplificações que pudessem "achatá-las". Tudo funciona bem, roteiro, casting, fotografia, trilha sonora, locações, maquiagem e figurino.
*Michaela Coel e Phoebe Waller-Bridge, dois nomes que prometem para os próximos anos.
Uma bela história. Alguns documentários são transformadores por desvelarem a realidade com todo o horror, a tragédia, o sofrimento. Mas há também aqueles que transformam pela sutileza dos afetos. Nos permitem ouvir as palavras trocadas quase que em sussuros, os dedos que se tocam discretamente, os olhares que se encontram e falam no silêncio. Aqui, o título parece sugerir um tom político mais carregado, o que não ocorre ─ e também não é um problema. E é bonito porque é genuíno. Pelo contexto da época, Pat e Terry foram forçadas a viver uma história escondidas do mundo, mas a despeito disso foram verdadeiras desde o primeiro momento, consigo mesmas e entre si. Gosto de me sentir ali na sala, junto delas, quando discutem para onde irão, ou quando os ânimos se agitam com alguém da família. Porque é genuíno. Nos faz pensar sobre a importância daqueles que envelhecem ao nosso lado. Chris Bolan, que bom que você acreditou que essa história valia ser compatilhada.
O documentário é muito bem construído, e isso é o máximo que posso dizer de positivo aqui, porque a natureza do que nos é retratado é hedionda, cruel e perversa. Tive muita dificuldade em seguir até o fim. A riqueza de detalhes nos faz imergir nas cenas, e aquilo que poderia ser entendido como nada menos que louvável na narrativa me despertou uma enorme angústia e sensação de impotência. Algo insustentável. Como se estivesse ali, ao lado de Gabriel, em cada momento narrado. Acompanhar um pouco do que esse menino passou nos últimos 8 meses de vida é aceitarmos experimentar, nós mesmos, uma pitada dessa tortura. Junto disso, há também a incapacidade de compreender, de digerir, os desdobramentos da história. Como é possível tantos envolvidos mas ninguém capaz de mudar os rumos dessa história? O gosto da indignação é amargo. E resulta disso a "tortura" que é assistir ao documentário: tentar conciliar tanto sofrimento perpetrado pelos próprios pais a uma criança indefesa com a incapacidade ou indiferença daqueles que poderiam tê-la salvo, mas pouco ou nada fizeram. Mantive firme, até os últimos minutos, a esperança de que veria um sinal de arrependimento ou remorso nos rostos do casal. Mas nada. Um vazio assustador. Você não imagina a dor que me dá não poder te salvar, menino.
Outro bom trabalho de Garland. O diretor segue com a mesma dupla de Ex Machina e Aniquilação tanto na fotografia quanto na composição sonora. Mas não é só nisso que os títulos se assemelham. Em Ex Machina, também temos um programador (Caleb) que vence um concurso e passa uma semana junto ao seu superior (Nathan), testando uma IA robótica ─ um projeto secreto. A fórmula parece ter funcionado. Sobre os contras, me incomodou o 3D, que nem sempre convence. De modo geral, é uma narrativa equilibrada sobre livre-arbítrio x determinismo, sem pesar a mão na tecnologia, com boa fotografia, composição sonora, atuações e ritmo. Vejamos as habilidades de Garland para o fechamento, nos dois últimos episódios.
Monstro
4.2 398 Assista AgoraSingelo, íntimo e arrebatador de uma forma que só Koreeda sabe fazer.
The Office (9ª Temporada)
4.3 684É um dos melhores fechamentos de série já feitos, pelos caminhos da narrativa em si, mas também se considerarmos a saída do Steve Carell. Os dois últimos eps resgatam e amarram detalhes preciosos. É também neles que as vulnerabilidades que só apareciam nos deslizes dos personagens ficam expostas, e é graças a elas que os personagens parecem mais humanos e entregam um final que emociona.
“There’s a lot of beauty in ordinary things. Isn’t that kind of the point?”
Treta (1ª Temporada)
4.1 346 Assista AgoraConfesso, só comecei instigado pelo combo Steven Yeun + A24 + ilustração do cartaz de divulgação, porque o título pt-br "Treta" é péssimo, muito Sessão da Tarde, e a sinopse parece reforçar isso. E que surpresa boa! Assisti todos os eps em um único dia, algo que não costumo fazer. O trabalho de localização contextual é muito bem feito. As atuações e a trilha são boas, e a fotografia é padrão A24. A produção é cuidadosa, o que se reflete na escolha dos title cards, das aberturas do eps. São ótimos. E os títulos escolhidos para os eps também. A cadência narrativa fisga ao oferecer variedade e previsibilidade ao mesmo tempo. Me fez rir e chorar e sentir raiva e piedade. Uma ode anti-good vibes only.
"It's like a void. But not. It's like empty but solid."
🎵 Mayonaise - Smashing Pumpkins
Ruptura (1ª Temporada)
4.5 876 Assista AgoraÉ como se Ken Loach dirigisse um crossover entre Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) e Devs (2020).
A temática e a discussão proposta me fisgaram. Até o momento (ep 5), excelente. Tem potencial para ser um dos melhores trabalhos de direção do Ben Stiller.
ps: Concluída hoje, 08/04. Uma das melhores séries de ficção dos últimos anos. Irretocável. Fotografia e roteiro magistrais. Plots bem posicionados na linha narrativa e muito surpreendentes. Os três últimos eps são uma aula sobre cadência. A direção é do Ben Stiller, mas quem brilha é Dan Erickson.
*O ep 9 me fez lembrar da falta que sentia em assistir algo segurando os gritos de tensão. Que satisfação.
Euphoria (2ª Temporada)
4.0 557Parece inacreditável, mas até o momento, Carl é dono do arco narrativo mais interessante da temporada.
A Filha Perdida
3.6 583Me parece que o problema aqui foi o excesso de camadas para a construção de uma narrativa coesa. Não tem sido raro: na pretensão de entregar uma obra complexa, profunda e multifacetada (sobretudo neste caso, com a adaptação de uma obra premiada de literatura), assume-se o risco de não conseguir amarrar as pontas ─ os elementos narrativos ─, e o resultado perde a potência, "não chega lá". Parece história mal contada. Como fã da Colman desde Tyrannosaur (que para mim segue sendo a sua melhor performance), senti como se a personagem Leda não fosse um match perfeito para ela. Ou quem sabe o problema tenha sido mais a direção, que embora pareça excelente de modo geral, marca a estréia da Gyllenhaal. E é uma pena, porque a tentativa de importar a potência dos personagens da obra original ─ não romantizados, verossímeis ─ acaba parecendo frágil, confusa. A sensação é de que o tema é forte, o casting e a fotografia são bons, mas falha em algum outro aspecto de execução.
O Código Bill Gates
4.2 26 Assista AgoraO que me incomoda nesse "documentário" é que em muitos momentos ele só parece uma peça de marketing biográfico. Pouco se faz para humanizar Gates mostrando os seus "defeitos". O que nos mostram de seus defeitos mais parece resposta de entrevista de emprego do tipo "meu defeito é ser perfeccionista". Apesar dos projetos humanitários grandiosos, inquestionavelmente louváveis, não consegui ver e me conectar com a humanidade de Bill da maneira como esperava ─ talvez porque como ele mesmo diz, não faz o que faz pela emoção, mas pela otimização.
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
4.0 496Que trabalho bem feito! Tecnicamente impecável, com uma direção de arte que se apropria de símbolos próprios da linguagem instagramer/tiktoker e um roteiro que funciona.
Japanese Style Originator
4.4 2Obrigatório na programação das bachan
Legado Italiano
3.5 11 Assista AgoraEncontrei muito da história de minha família aqui, mas senti falta de um trabalho mais cuidadoso com os detalhes históricos e antropológicos. Senti que foi um resumo superficial demais de uma cultura que irradiou sobretudo no sul do país, mas não só. Esperava uma maior riqueza de informações.
Sussurros do Coração
4.3 502 Assista AgoraA Shizuku aceita casar "no futuro" com o Seiji, que ela mal conhece. Que doida, parece eu.
ps.: em 2020, o estúdio anunciou a sequência do título, em live-action, situada 10 anos depois, e ainda sem data para estrear.
O Som do Silêncio
4.1 1,0K Assista AgoraPara um estreante, Darius Marder surpreende na direção e roteiro, mas isso só se evidencia com a ótima atuação de Riz Ahmed.
Euphoria: Trouble Don't Last Always
4.3 157Os dois eps do "especial pandêmico" são uma aula de roteiro ─ mas não só. Longas sequências em plano fechado exigem muito da atuação, e aqui a combinação disso com um texto impecável e uma fotografia que segue no altíssimo nível da primeira temporada os tornam exemplares.
Veneno
4.8 181 Assista AgoraUma obra completa, feita com muito cuidado, verdade e vulnerabilidade. O estilo novelesco pode causar um pouco de estranheza, mas foi ideal para reconstituir a aura de Cristina. Fotografia e montagem se destacam.
Nomadland
3.9 917 Assista AgoraAntes mesmo do Leão de Ouro, em Veneza, minha expectativa era alta. A promessa de ver em tela o resultado de uma tríade composta pela atuação da McDormand, a direção de Zhao e o retrato da nova classe operária e a precarização de seu trabalho me encheu de esperança de que este fosse o grande título de 2020. Mas não foi exatamente assim. Tive dificuldade em entender a intenção de Zhao na condução da narrativa, diferentemente do que ela entregou em The Rider. Embora a classe operária e a precarização do trabalho estivessem ali retratadas, é uma apresentação amigável demais, a ponto de parecer apenas um "estilo de vida". A própria Zhao chegou a afirmar em entrevista que a intenção não foi fazer uma peça de crítica ─ e por si só, isso não seria um problema. Mas sem uma crítica com contornos mais explícitos, qual é a intenção do filme? Devido a recorrência do retorno à figura do marido, me perguntava se afinal não era essa a questão do filme: uma longa experiência de luto, e o nomadismo como pretexto, um mecanismo de defesa, de escape. Mesmo com a atuação sempre excelente de McDormand, achei difícil entender o universo interno da personagem, pelas poucas pistas de sua vida anterior. Em muitos dos seus momentos contemplativos, em que teoricamente está "tudo bem", surge uma expressão melancólica ou uma trilha sugerindo o contrário. E para mim foi difícil entender de onde isso estava vindo. Há uma resistência, por parte da personagem, em se adequar a uma "vida normal", mesmo quando essa é uma possibilidade à sua disposição. Afinal, Fern escolhe a vida que leva ou está sujeita às condições? Se ela escolhe, a sua melancolia não teria raiz na sua vida presente, escolhida, intencional, mas no passado. Mas se a única coisa de que ela recorda positivamente do passado é o próprio marido, parece que resta apenas o luto como raiz de sua melancolia. A ausência de uma crítica mais explícita sobre a vida laboral da nova classe operária faz parecer que o seu nomadismo é quase "estilo de vida" ─ de alguém que, afoito pela "liberdade", aceita o ônus dessa decisão ─, do que consequência de um sistema que arranca tudo que pode do trabalhador. De tal forma que a Amazon, retratada como um dos contextos em que está inserida essa nova classe, de repente se torna um local onde o trabalho precarizado POSSIBILITA esse "estilo de vida". Contraditório. Daí a minha frustração, que esperava algo mais próximo do que faz Ken Loach. Aqui, o excesso de camadas/falta de um foco narrativo mais me atrapalhou do que fez perceber o filme como uma obra multifacetada capaz de dar conta de amarrar tudo. Mas apesar disso, é um bom filme ao molde neorrealista, sensível, com uma atuação impactante da McDormand (que chegará ao Oscar com grandes chances) e bela fotografia.
Era Uma Vez um Sonho
3.5 455 Assista AgoraSe tirar a Amy Adams e a Gleen Close, sobra alguma coisa desse filme?
Minari - Em Busca da Felicidade
3.9 561 Assista AgoraSingelo. As atuações são ótimas, sobretudo entre os pares Alan Kim+Yoon Yuh Jung e Steven Yeun+Han Ye Ri. Fotografia delicada, sempre ajustada ao momento narrativo. A ausência de grandes momentos ou reviravoltas no roteiro pode causar estranheza, mas para mim só destaca as qualidades da obra. Se fosse uma pessoa, Minari seria aquela que surpreende não pela ousadia ou grandiosidade, mas pela autenticidade de ser quem é sem medo de decepcionar um público voraz por uma montanha-russa dramática.
Mr. Robot (2ª Temporada)
4.4 514Mr. Robot S02E03 God scene. Vale a temporada (que é a pior das quatro).
I May Destroy You
4.5 279 Assista AgoraDepois dos risos nervosos com Chewing Gum, Coel entrega outro trabalho impecável, agora forjado no sofrimento. Mais uma vez, não há separação entre criação e criadora. É o trauma da autora que é encarnado por ela própria em Arabella. O resultado é desconfortante e verossímil. Coel é exemplar no uso de metalinguagem, e gosto da forma como faz isso, por ela e pelo público: a série é como um processo terapêutico não apenas no sentido "literal", em que a autora forja a obra a partir da sua experiência de dor, para se livrar dela, mas também no sentido metanarrativo, com muitas idas e vindas e questionamentos da personagem. Temos um retrato das atribulações psicológicas recorrentes das vítimas, que ora percebem/aceitam o lugar de vítima (no sentido de não-negação), e ora se culpam/responsabilizam pelo ocorrido, em dissonância cognitiva. O título "I may destroy you" joga com as possiblidades: o crescente desejo de vingança/justiça de Arabella contra seu abusador, e a sua desintegração subjetiva sob os efeitos destrutívos do abuso. Qual pode se consumar primeiro? Coel não se rende a uma "moral millennial", maniqueísta na leitura dos acontecimentos, e explora também algumas autorreflexões ─ o conjunto de representações de vítima e algoz são trabalhadas em profundidade, fugindo de simplificações que pudessem "achatá-las". Tudo funciona bem, roteiro, casting, fotografia, trilha sonora, locações, maquiagem e figurino.
*Michaela Coel e Phoebe Waller-Bridge, dois nomes que prometem para os próximos anos.
I Know This Much Is True
4.3 113 Assista AgoraI Know This Much Is 2020.
Killing Eve - Dupla Obsessão (3ª Temporada)
3.8 175 Assista Agora"Are You Leading Or Am I?"
A temporada foi da Fiona Shaw, embora a Jodie siga com tudo.
Secreto e Proibido
4.4 116Uma bela história. Alguns documentários são transformadores por desvelarem a realidade com todo o horror, a tragédia, o sofrimento. Mas há também aqueles que transformam pela sutileza dos afetos. Nos permitem ouvir as palavras trocadas quase que em sussuros, os dedos que se tocam discretamente, os olhares que se encontram e falam no silêncio. Aqui, o título parece sugerir um tom político mais carregado, o que não ocorre ─ e também não é um problema. E é bonito porque é genuíno. Pelo contexto da época, Pat e Terry foram forçadas a viver uma história escondidas do mundo, mas a despeito disso foram verdadeiras desde o primeiro momento, consigo mesmas e entre si. Gosto de me sentir ali na sala, junto delas, quando discutem para onde irão, ou quando os ânimos se agitam com alguém da família. Porque é genuíno. Nos faz pensar sobre a importância daqueles que envelhecem ao nosso lado. Chris Bolan, que bom que você acreditou que essa história valia ser compatilhada.
O Caso Gabriel Fernandez
4.3 148 Assista AgoraO documentário é muito bem construído, e isso é o máximo que posso dizer de positivo aqui, porque a natureza do que nos é retratado é hedionda, cruel e perversa. Tive muita dificuldade em seguir até o fim. A riqueza de detalhes nos faz imergir nas cenas, e aquilo que poderia ser entendido como nada menos que louvável na narrativa me despertou uma enorme angústia e sensação de impotência. Algo insustentável. Como se estivesse ali, ao lado de Gabriel, em cada momento narrado. Acompanhar um pouco do que esse menino passou nos últimos 8 meses de vida é aceitarmos experimentar, nós mesmos, uma pitada dessa tortura. Junto disso, há também a incapacidade de compreender, de digerir, os desdobramentos da história. Como é possível tantos envolvidos mas ninguém capaz de mudar os rumos dessa história? O gosto da indignação é amargo. E resulta disso a "tortura" que é assistir ao documentário: tentar conciliar tanto sofrimento perpetrado pelos próprios pais a uma criança indefesa com a incapacidade ou indiferença daqueles que poderiam tê-la salvo, mas pouco ou nada fizeram. Mantive firme, até os últimos minutos, a esperança de que veria um sinal de arrependimento ou remorso nos rostos do casal. Mas nada. Um vazio assustador. Você não imagina a dor que me dá não poder te salvar, menino.
Devs
4.0 72 Assista AgoraOutro bom trabalho de Garland. O diretor segue com a mesma dupla de Ex Machina e Aniquilação tanto na fotografia quanto na composição sonora. Mas não é só nisso que os títulos se assemelham. Em Ex Machina, também temos um programador (Caleb) que vence um concurso e passa uma semana junto ao seu superior (Nathan), testando uma IA robótica ─ um projeto secreto. A fórmula parece ter funcionado. Sobre os contras, me incomodou o 3D, que nem sempre convence. De modo geral, é uma narrativa equilibrada sobre livre-arbítrio x determinismo, sem pesar a mão na tecnologia, com boa fotografia, composição sonora, atuações e ritmo. Vejamos as habilidades de Garland para o fechamento, nos dois últimos episódios.
16/04: bom fechamento!