No final da sessão de Hamnet, nova obra da talentosa Chloé Zhao, dentre suspiros e lágrimas do público que ali estava, enquanto os créditos finais rolavam, precisei de um tempo sentado, sentindo e respirando, deixando fluir pelo corpo toda aquela catarse emocional que havia tomado conta da minha mente e coração.
Fazia um tempo em que eu não me emocionava tanto. Quando eu falo que cinema é minha religião, me refiro a experiências cinematográficas como essa, o que Chloé Zhao faz aqui é de um nível espiritual.
São duas as mulheres presentes aqui, que se tornam verdadeiras forças da natureza.
A primeira é a própria diretora Chloé Zhao, que filma Hamnet com uma força e convicção ímpares. A viscelaridade da dor e angústia, apesar de nada sutis, funcionam com a intensidade certa. O que poderia facilmente ser um dramalhão, acaba na verdade sendo um aberto estudo da dor, do luto, da devastação da perda e seus ciclos, passando da negação e culpa, até a busca de formas de lidar com esse turbilhão de sentimentos.
Zhao traz esse vínculo entre a natureza, a vida e a morte, e a melancolia que habita nesses meios. A fotografia, aliada a direção, traz texturas, enquadramentos e momentos de contemplação, que exploram muito bem a beleza e a dor de se estar vivo. E o medo da iminência da morte, principalmente se envolver um filho. No meio disso tudo, há o amor.
A outra mulher que faz desse ser um filme memorável é a maravilhosa Jessie Buckley, que entrega uma atuação visceral e devastadora. A entonação da voz, o movimento corporal, o olhar, é uma entrega total, impactante e magnética. Para muito além da "esposa do Shakespeare", Buckley imprime uma personagem forte, difícil, quase uma wicka ou bruxa, nesse elo íntimo que tem com o ambiente ao redor, especialmente a natureza.
Paul Mescal e Emily Watson também estão muito bem, embora o filme de fato seja de Buckley. A trilha sonora é outro ponto extremamente positivo, em um dos melhores trabalhos sonoros de 2025.
Mas para muito além do luto, Hamnet é sobre a arte, e como o ser humano a usa para lidar com as malezas da vida, para canalizar a dor e descarregar a tristeza de forma poética. Arte é sobrevivência, é tentar entender a ambiguidade de se estar vivo, e o principal, saber seguir vivo. Eis o grande desafio. Ou parafraseando Shakespeare, "eis a questão".
Hamnet te devasta, te quebra em pedacinhos. Para então, naquele final arrebatador, você ter alguns dos pedaços recolocados. A arte abranda, a arte trata e cura. É como um caloroso abraço apertado de alguém que amamos. Bravo, e obrigado, Chloé Zhao.
Eu gostei de Amores Materialistas, com algumas ressalvas. Preciso dizer que apesar de amar o cinema como um todo, da obra infantil até o terror, são os romances e as comédias românticas os gêneros que menos assisto ou aprecio. Especialmente os clichês e "água com açúcar". Acredito que essa premissa de amor açucarado que supera tudo é irrealista, além de superficial, muito fantasiosa, me afastando de criar elo com as obras.
Há sim bons romances épicos e clichês, mas são raros os que me conecto. Prefiro romances mais dramáticos e realistas, geralmente agridoces ou amargos, tal qual a vida real. Aprecio muito Vidas Passadas, obra anterior de Celine Song, que com imensa sensibilidade, disserta muito bem sobre encontro de almas, hora errada, saudades e a não ressignificação nas relações. Então haviam expectativas em cima do seu novo longa.
Primeiramente, Amores Materialistas se vende mal, o marketing traz toda uma noção de romance tradicional ou comédia romântica leve, o que não é verdade, o que vai frustrar muita gente. Bem verdade, eu gosto de um filme "clickbait", que vende uma ideia tradicional, uma multidão vai ao cinema assistir e leva uma rasteira, um bom tapa na cara. Barbie é um belo exemplo. Materialists meio que faz isso, sendo bem mais "cabeça", maduro e realista do que a média do gênero, enganando muita gente, o que é legal.
Por outro lado, eu não gostei tanto do final, meio que quebrando a matemática da coisa toda. É quase um anticlímax pra crítica que vinha sendo construída. É interessante querer se discutir o papel do capitalismo nas relações, pena que é feito de forma superficial. A discussão é válida, havia espaço para explorar melhor isso, porém os arquétipos ficam no raso, tinha base para filosofar de forma mais profunda.
A direção de Celine Song é elegante, tem alguns enquadramentos sutilmente bonitos. É mais afastada, fria, impessoal, ampla, quando Dakota Johnson está com Pedro Pascal, nessa falta de sentimentos reais. E quando Dakota está com Chris Evans, os enquadramentos são mais fechados, closes nos rostos, é mais quente, mais solto e orgânico, há ritmo ali. Visualmente é uma obra toda simplista, mas elegante. Até a fotografia, nunca chamativa, mas sempre naturalista.
Eu não gostava de Dakota Johnson logo que surgiu, principalmente pelos problemáticos Cinquenta Tons de Cinza, mas do remake de Suspiria em diante, vez por outra ela entrega um papel muito interessante. Acho que aqui ela está muito bem, lindíssima aliás, numa personagem contida, mas bem desenhada, ela sabe o que quer, é ambiciosa, mas humana, reconhece as falhas.
Eu compreendo o personagem de Chris Evans, quebrado financeiramente e como isso também o quebra emocionalmente, inclusive na vida, já me vi nessa situação (sem os atributos físicos, é óbvio hahaha). Mas confesso que compreendo mais a persona da Dakota e sua visão mais matemática e pragmática (prática).
Vamos lá: por um lado o capitalismo atrapalha sim uma relação, digo nessa coisa de se comprar o sonho americano, as propagandas, os estilos de vida que influencers e selfies vendem, restaurantes, ter uma vida acima do confortável, viagens e todas as possibilidades que o dinheiro adquire. Se você anseia uma vida assim e quer dividir com alguém, a falta de grana irá te consumir.
Se fosse só isso, facilmente cairíamos no campo do interesse, mas tudo é mais complexo do que isso. Sim, há muitas pessoas interesseiras, materialistas por dinheiro e corpos perfeitos. Mas no caso da protagonista (Johnson), ela é ao mesmo tempo pragmática. Note que ela acredita no amor, no encanto. Mas ela não deixa a matemática de lado, os cálculos, as probabilidades e os periféricos que acompanham uma relação. A falta de dinheiro impede sonhos, o que causa frustração, o que levará à discussões, o que desgasta a relação.
Como qualquer "boa pessoa" realista/pessimista, ela enxerga lá adiante os resultados dos seus cálculos matemáticos de agora. Eu me identifico muito com isso, particularmente.
"Tudo na vida é sobre sexo, exceto o sexo, que é sobre poder", escreveu Oscar Wilde.
Acho muito interessante essa protagonista compreender o cinismo de um mundo capitalista, medir o amor com status, carteiras, estatísticas, nesses negócios comerciais chamados de casamento. É assim desde que o mundo é mundo, corpos e sonhos sendo vendidos e comprados, a gente só finge que não, até porque o amor envolve sentimentos belos no meio de toda essa "praticidade" feia.
Dinheiro não é tudo, não compra amor, mas não se romantiza pobreza, e a falta de grana corrói relações. Tente equilibrar isso no mundo de hoje, e boa sorte (rsrs).
Pena que o roteiro não termina a discussão que levanta, deixando o debate apenas jogado no campo das ideias, concluindo o filme de forma mais clichê e menos corajosa. Ok, seria muita polêmica.
Amores Materialistas é na sua maior parte bonito, tem uma protagonista intrigante, tem boas intenções na sua desconstrução de um romance, indo inicialmente na contramão do tradicional, para depois tentar uma reconciliação com a fantasia romântica. Poderia ser melhor desenvolvido e vendido.
Com Vidas Passadas e Materialists, Celine Song se revela uma romântica realista, que acredita sim no amor, mas em um amor que vem acompanhado de vários "mas" e "poréns", tal qual a vida real. Eu compreendo, me identifico com tudo isso.
Nota: 7
Obs: acredito que com o tempo, é um filme que vai crescer e se tornar um cult.
Não sou o maior fã do Superman, um homem indestrutível e "perfeito", com cores americanas no uniforme e muitas vezes retratado de forma endeusada, fria e apática. Reconheço obviamente a importância do clássico de 1978 com Christopher Reeve, a porta de entrada do cinema de heróis.
A missão do cineasta James Gunn não era fácil. Atualizar o mito do Homem de Aço, o maior herói dos quadrinhos, começar o novo universo cinematográfico da DC, escalonar todo um novo elenco, rumo e estilo. Ainda mais após o fracasso do universo anterior da DC, que foi definhando. Fora a saturação e desgaste dos filmes de super-heróis, onde até a "rainha Marvel" passa por dificuldades.
Mas James Gunn consegue, de novo!
Superman, de 2025, um dos filmes mais esperados do ano, é espalhafatoso e imperfeito, mas lapidado com muito bom coração e boa vontade. Não me impressionou de forma épica, mas me arrancou vários sorrisos singelos pela sua genuína sinceridade.
James Gunn é o cara. Ele sabe trabalhar muitas coisas ao mesmo tempo. Ele equilibra bem os elementos contraditórios: grotesco com doçura, humor e emoção, mortes e fofura. Ele abraça abertamente o bizarro, o lado B dos quadrinhos, o underground, e daí dá uma roupagem acessível. E traz essa narrativa dramática, humanizando aquilo que é estranho. Então nos pegamos torcendo por criaturas estranhas, graças à essa humanização dos rejeitados que Gunn aplica nos seus personagens. Foi assim com todos Guardiões da Galáxia, o segundo Esquadrão Suicida (esqueça aquele fraquíssimo primeiro, que não é do Gunn), etc.
Aqui, Gunn equilibra muito bem na sua maior parte, o mito do herói, a grandeza teórica, a ação e o visual em CGI, mas também traz humor, romance, elementos assumidamente excêntricos que beiram o trash, referências às HQ's e animações da DC (o filme por vezes parece um desenho animado irado), cenas tocantes que visam trazer leveza e fragilidade das personagens.
Nem tudo são flores. Há uma estranheza inicial de vermos um Superman tão diferente, tão abertamente fantasioso. Há um excesso de CGI em algumas cenas, poluindo visualmente. Mas ao menos a renderização gráfica é sim, boa.
O roteiro possui fragilidades, não reinventa a roda, é clichê e apressado, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, muita informação sendo despejada o tempo todo, são muitos personagens e aparições. Por ser o primeiro filme de uma nova saga, um novo momento da DC, e ao mesmo tempo chegar atrasado na "festa dos heróis", onde o cenário está desgastado, é "quase" um clima de fim de festa. A boa notícia é que é quase.
Existe uma pressa de ter um universo já estabelecido. Então não perde-se tempo apresentando toda a origem do herói. Clark já é o Superman, já tem um romance com Lois, já existem grupos de outros heróis e vilões metahumanos, dentre outras coisas. O filme já começa com meio caminho andado, com fome de te fazer entrar logo nessa nova abordagem já preestabelecida.
Porém ainda há um excesso de personagens e situações, faltando um pouco de respiro. Acredito que uma meia hora a mais, cadenciando melhor os acontecimentos, daria mais espaço para apego e desenvolvimento aos coadjuvantes, e daria talvez, melhor peso dramático.
Dito isso, o maior trunfo do filme é o elenco comprometido, e a interação das personagens. É sério gente, esse elenco é uma delícia. Fora ser um filme assumidamente político e crítico, o que é muito bem-vindo.
David Corenswet surpreende com um Superman com personalidade. Ele tem atitude, opinião própria, posicionamento político, tem uma pegada gostosa com a Lois, é pai de pet, tem uma relação doce com seus pais idosos, se posiciona contra o imperialismo americano, falha, cai apanha. Não temos um ser perfeito, mas um homem com sentimentos, ele se chateia, ama, é vulnerável, escolhe a gentileza em vez da violência, às vezes até mesmo sendo ingênuo diante a maldade. Ele segura bem esse papel dificílimo, e sinceramente, acaba de nascer um novo astro.
A maravilhosa Rachel Brosnahan entrega uma Lois enérgica, durona e espirituosa, tanto que sinceramente, queria mais dela, foi pouco. Aliás, eles tem química hein 🔥
Nicholas Hoult, numa nova, boa e versátil fase da carreira, entrega um bom Lex Luthor. De início achei que estava engessado e não chegaria lá, mas em dado momento ele entrega frieza e maldade, maltratando animais e matando pessoas, entrega um vilão de porte, e as cenas finais dele são fenomenais.
Nathan Fillion entrega um Lanterna Verde engraçadão e Edi Gathegi um Senhor Incrível imponente. O pouquíssimo que a maravilhosa Milly Alcock (Supergirl) aparece, dá uma palhinha do que esperar dela em produções futuras. O resto do elenco é operante.
E o cão Krypto é tudo que aparentava ser nos trailers: fofo, arteiro e sem controle, é legal que ele se movimenta como um animal de fato. Mas também é muito bem utilizado pelo roteiro. Não é só um acessório, mas tem importância e peso na narrativa. A interação entre ele e Superman é sensacional. Quando ele está em cena, o filme é dele, sendo bem utilizado até nas cenas de ação. Além disso, o novo designe do Krypto (aqui no Brasil chamado de "fiapo de manga"), inspirado num cãozinho adotado pelo próprio James Gunn, busca indiretamente conscientizar sobre a adoção de animais sem raça definida. É o vira-lata salvando o mundo, e a DC.
Superman é um filme que ao entrar nessa de humanizar esse universo, a obra brilha mesmo é nos seus momentos mais simples e humanos. As farpas e os amassos entre Clark e Lois, o abraço dele no seu pai, algum humor muito bem colocado aqui e ali. O arco da namorada do Lex é bem inesperado, não imaginava ver o Lex Luthor levar ... Bem não vou dar spoilers 🤭
No tom político, é muito válido o vilão ser um bilionário da tecnologia à lá Elon Musk, egocêntrico e irresponsável, se aliando com um político extremista caricato, uma mistura do Trump com o Netanyahu de Israel, envolvidos em uma guerra que lembra sim o genocídio em Gaza. E Superman chega como esse imigrante alienígena, defendendo não os interesses americanos, mas os inocentes que sofrem com esse conflito.
Assim esse novo Superman se atualiza, trazendo esperança e gentileza no cenário político atual, onde a desinformação, a IA e os bots de internet servem como influência para massa de manobra, afim de perpetuar guerras que geram lucro para os países mais poderosos, e os bilionários sacanas que os apoiam.
Superman tem vários defeitinhos esparsos, principalmente no excesso de informações em pouco tempo. Mas tem tanta leveza, tem cor, tem muitos pequenos e sutis acertos aqui e ali, possui boas intenções políticas e sociais, tem um elenco formidável, abraça o absurdo de uma forma genuína e despretensiosa, tem um final empolgante, tem tanta coisa pra se apreciar, que é preciso bastante mau humor pra negar a paixão pulsante que James Gunn tem pelos quadrinhos e esse universo.
Em um mundo cruel onde muitas vezes se vende uma falsa ideia de super-heróis patriotas, capazes de fazer tudo, é interessante ver um filme que dá alguns passos pra trás, no bom sentido. Desconstrói algumas coisas, homenageia em outras, honra as origens, mas atualiza sua mensagem, trazendo esperança, gentileza e empatia ao próximo. Obrigado James Gunn!
Superman de 1978 surpreendia o mundo mostrando que um homem podia voar. O Superman de 2025 pode surpreender por outro motivo, que o homem ainda é capaz de amar.
Este Extermínio 3 me dividiu, mas de um jeito provocante, o que acaba sendo um ponto positivo. Mas aquilo que vou pontuar como interessante, é justamente o que possivelmente vai fazer muita gente não gostar da obra.
Danny Boyle continua sendo um diretor que tenta ousar, tenta radicalizar, tenta dentro do mainstream, experimentar formas e narrativas. Ele e o roteirista (também diretor) Alex Garland já haviam experimentando crítica social com imagem desfocada no primeiro filme, e após não se envolverem no segundo, retornam para esse aguardado capítulo. Mas como ambos são artistas que não gostam do óbvio, aqui eles tentam muitas ideias. O pai dos zumbis, George Romero, estaria orgulhoso.
Nem todas tentativas funcionam, resultando numa obra imperfeita, mas isso é normal quando se arrisca muito. Porém é de aplaudir eles arriscarem um anticlímax tão grande dentro do que poderia ser uma mesmice de pós-apocalipse zumbi.
Filmado inteiramente com Iphones, eles utilizam a captação de paisagens naturais para contrapor o horror gráfico. E abusam de ângulos de câmeras, muitas vezes nada convencionais na escola de cinema, para junto de uma edição e montagem também fora do comum, desorientar o público. Recortes confusos, transições contraditórias, passagens quase vertiginosas, ajudam a criar essa atmosfera de caos e inquietação.
Há um humor sarcástico presente, até mesmo em decisões criativas que beiram o trash. Mas esse humor bizarro não é para apenas fazer rir, mas também tem a função de incomodar, é como se nos forçasse a pensar que aquilo ali não deveria estar em cena, e de fato não deveria, o diretor sabe disso e faz com o intuito da provocação.
Há decisões que me incomodaram um pouco, principalmente na cena do parto, e na cena final. Assim como o excesso de recortes na montagem também me desconectaram um pouco. Mas repito, reconheço que aqui é justamente o que querem, desconcertar como uma espécie de provocação artística. Genial, por exemplo, a utilização dos Teletubbies, sim, é isso mesmo que você leu, rsrs.
Jodie Comer e Ralph Fiennes estão sublimes, como sempre. Aliás, ambos personagens quebram expectativas de forma surpreendente na reta final, com uma delicadeza emocional arrebatadora. Mas é o jovem Alfie Williams que protagoniza esse longa com coração e alma pulsante. É muito corajoso colocar uma criança como centro de um filme desses.
Loucos? Certos estão os loucos, os sensíveis, os poetas, os filósofos. Insanos são os que normalizam a barbárie, o sangue derramado, as guerras, as bombas caindo. Em um mundo de violência, coragem é possuir afeto, refletir na existência, ter consciência das coisas. E deveríamos estar falando apenas de zumbis, não? Errado, Extermínio 3 está longe de ser sobre isso, mesmo sendo disso. É quase um filme anti-zumbis.
De tanto tentar e experimentar, acaba sendo uma obra imperfeita. Mas ao ser muito corajoso em trazer experimentos em imagem, som e narrativa, acaba sendo uma das grandes surpresas do ano.
Nota: 8,5 - e como é difícil dar uma nota pra um filme desses, que quer à todo custo ser fora da curva.
A Lenda de Ochi é uma bela fantasia independente. A A24 traz uma obra que até carece de ritmo, sinto que a edição e montagem das cenas poderiam ser mais interessantes e dinâmicas.
Porém, é louvável todo o trabalho visual mais artesanal, que tenta criar um encanto mágico e lúdico, mas com um pé na realidade, como se em algum lugar remoto da Terra, esses seres existissem e essa trama acontecesse.
De certa forma é um filme nostálgico que remete àquelas fantasias infantis um tanto sombrias e tristes, que muito se fez nos anos 80 e 90, tipo E.T. ou História sem Fim. Mas que tem aquele "ar indie" que o selo da A24 gosta de demarcar, um tipo de cinema alternativo que vai passar despercebido pela maioria, o que é uma pena. Um longa sobre aceitar o diferente, lidar com a perda e respeitar os seres incríveis da mãe natureza.
Os quatro filmes de John Wick compuseram a melhor franquia de ação da última década, é um fato. Trata-se de um equilíbrio em perfeccionismo estético e estilizado, um protagonista silencioso, um elegante e muito bem construído universo de assassinos, acrobacias brutais com uso de dublês, tudo culminando num verdadeiro balé sangrento, a arte da dança da morte.
O receio com esse novo filme é aquele de sempre, uma boa saga começa a ganhar inúmeras sequências, spin-offs, derivados, etc, e cai a qualidade. Também preocupou as extensas refilmagens, após o diretor inicial Len Wiseman (Anjos da Noite) sair, e Chad Stahelski (justamente de John Wick) assumir a finalização de Bailarina.
Para alívio, Bailarina é muito bom e eficiente. É incrível como esse submundo de John Wick é tão bem estruturado, que até os derivados são minimamente interessantes, como a série The Continental, lá na Prime Video.
Bailarina é melhor que a série citada, e levemente inferior aos filmes de Keanu Reeves. Essa troca de diretor é visível, dá pra "sentir" que tem dois cérebros e quatro mãos operando a obra. Por um lado temos sim um filme mais derivativo e que tenta achar sua própria voz, por outro temos também a constante validação do John Wick, seja na persona do próprio, seja no emular todo o estilo de ação característica da saga.
Porém, por um desses milagres que só o cinema pode proporcionar, essa visão híbrida do filme ajuda a compor a personagem central e a sua busca por uma identidade própria. De um lado, temos essa moça pequena e aparentemente frágil, que sangra os pés dançando balé, que sente saudades do pai, busca vingança e até mesmo vê no John Wick um exemplo, quase que justamente uma validação paterna. Ela quer ser como ele, mas para vingar seu pai biológico.
Mas de um outro lado, ela é mulher, jovem, ainda inexperiente e impulsiva, que gosta de improvisar pelo caminho. Enquanto o John Wick é mais sereno e elegante até na violência, ela é mais explosiva, bruta, é quase um trem saindo dos trilhos. Mas isso não é uma crítica, ela apenas está buscando seu próprio estilo e voz na arte da violência.
Chega a ser um contraponto interessante dela com ele, Eve utiliza métodos menos sutis, mas também eficientes. "Lute como uma garota", aconselham a ela. Então ela explode caras, dá marteladas em rostos, crava patins no crânio, destrói um viralejo com um lança-chamas (cena espetacular, por sinal). Essa é a força de uma garota, que poderia ser facilmente subestimada, foda!
A cubana Ana de Armas, uma das atrizes mais badaladas do momento, entrega muito, uma força bruta quebrando paradigmas em contraponto com sua fragilidade. Versátil, Ana coloca todas suas "Armas" na mesa - perdão o trocadilho rsrs - e dá conta das intensas cenas de ação, novamente muito bem coreografadas.
Apesar de imperfeito e não trazer nada de novo, Bailarina traz um elenco competente, liderados por uma protagonista que incendeia a tela. Dentre golpes e matanças, a protagonista e o filme bailam juntos em busca de uma identidade. E quando a encontram, só resta curtir o terceiro ato deste balé mortal.
Eu amo como o Wes Anderson pensa e executa o cinema. Ele é um desses cineastas autorais, que tem uma visão artística muito própria e que se recusa "a vender a alma pro Diabo", digo, ele se recusa a perder sua essência artística por causa de todo o dinheiro hollywoodiano.
Acima de autoral, ele é dessas personas raras que faz um trabalho de artesão de fato. Literalmente toda a mise-en-scène parece feita à mão: do cabelo e penteado, passando pelo figurino, a direção de arte arrojada, o set, a iluminação, o excelente trabalho de fotografia, até mesmo no uso de efeitos especiais práticos, com máquinas, cortes rápidos, efeitos de transição e aceleração de câmera, até mesmo engenhocas, tudo feito de forma que beira o caseiro, mas também com requinte de quem sabe fazer cinema.
Aqui em O Esquema Fenício, primeiro filme do Wes Anderson que consegui assistir na tela grande, ele faz aquilo que já fez antes. Para quem já conhece o trabalho dele e espera alguma renovação, pode se decepcionar, pois seus últimos filmes realmente foram todos meio parecidos nessa fórmula de termos personagens excêntricos numa situação aparentemente mundana, mas que é apresentada como uma caricatura, enquanto a câmera centraliza seres e objetos com um preciosismo estético e exuberante.
A fórmula não muda, mas é notável como Anderson mantém sua essência. Apesar do baixo orçamento, o filme mostra seu valor não apenas nesta estética impecável que mais parece uma obra de arte saída de outro tempo, outra época. Para além disso, o diretor agrega valor em sempre trazer um numeroso elenco, de dar inveja em muito filme de grande orçamento.
Benicio del Toro está bem, como sempre. Michael Cera ressurge hilário como há muito não se via. Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlett Johansson, Willem Dafoe e Bill Murray são coadjuvantes de luxo. Aliás são tantos bons atores que chega a faltar tempo para que todos brilhem adequadamente, às vezes você sente que tal ator/personagem poderia ser melhor utilizado.
Mas a grande surpresa é a Mia Threapleton (filha da Kate Winslet) como uma hilária freira. Que atuação engraçada, doce e controversa. Mas controversa de forma sutil.
Anderson repete sim a sua fórmula, e não é dos longas mais hábeis e perfeitos desse diretor. Mas diante um mar de mesmice e na falta de artistas com personalidade forte, o cineasta segue criando seu próprio "wesandersonverso" sem nunca trair aquilo que ele considera cinema e arte. Essa visão excêntrica, agridoce, artesanal, rústica, às vezes infantil, às vezes maliciosa de se contar uma trama banal e ao mesmo tempo lúdica.
É um tipo de filme que já não cabe mais nos tempos atuais, tempos estes tão dinâmicos e artificiais. E é justamente por isso, que esse tipo de filme contracorrente, imaginativo e desafiador se faz tão importante.
O cineasta Al Vargas, também um amigo pessoal, faz deste seu debut uma ode ao amor sincero, ao romance shakesperiano e ao cinema, aplicando cinematografia, trilha sonora e texto com simbolismos clássicos, de forma naturalista e atual. Homenageando a cidade de São Lourenço do Sul através da fotografia, paisagens, comércio local e cidadãos comuns, narra-se aqui o nascimento do amor. Amor este mundano, digo palpável, mas tratado com o carinho que merece.
Qualquer limitação de orçamento, tempo e deslocamento é superado com um olhar crítico de quem ama o cinema e sabe a quem referenciar. Nos créditos finais, o texto exibe quantos empregos locais o projeto gerou, de forma bem destacada. Al Vargas sabiamente saliente que cinema, além de arte, é trabalho duro, e fazer um filme ainda é muito difícil no nosso país. Acima de qualquer coisa, Catarina é um lembrete da capacidade de se fazer cinema e arte no nosso país, e no nosso Rio Grande do Sul.
Assistido em 21/04/2025 na estreia especial no familiar Cineart, de Pelotas.
Sinners (Pecadores) é uma obra-prima, já nasce como um clássico instantâneo, é o primeiro grande filme americano/hollywoodiano de 2025 e um dos maiores dos últimos anos. Eu tinha algumas expectativas, mas foram superadas em muito. É o tipo de filme que me lembra do porquê eu amo o cinema por toda a minha vida. É cinema transcendental, mas transcende em um nível espiritual mesmo.
Filmes como ele surgem somente de tempos em tempos, o que eu costumo chamar de um milagre cinematográfico: um filme de grande estúdio, uma superprodução de grande orçamento, mas que se nega a ser apenas mais um produto comercial, impondo uma luz artística muito bem definida e executada. Isso sem sacrificar a experiência cinematográfica, ainda é um filme de fácil acesso e compreensão para quase todos os dispostos, embora requeira uma certa bagagem cultural e social para se apreciar o todo, mas que nunca subestima a inteligência do público, que apesar de assumir ser uma obra de gênero bem definida, aqui o terror, nunca é bobo ou infantilizado. É um filme adulto, digo, para gente grande mentalmente.
Ao trazer um dos maiores clichês do gênero, vampiros, o excelente diretor Ryan Coogler faz aquilo que mais amo no cinema: múltiplos e pequenos filmes complexos dentro de um grande filme aparentemente simplista. É até difícil explicar isso, só assistindo para entender, que dentro de um filme simples habitam inúmeras complexidades habilmente costuradas no excelente roteiro.
Por um lado, Pecadores lembra pequenos detalhes de vários outros filmes. O bar diabólico de Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, onde lá nesse clássico já se falava sobre cultura ancestral, no caso mexicana. Também dá para citar Django Livre do Tarantino e a força da resistência preta. Poderia ainda lembrar do esquecido Vampiros de John Carpenter e a busca por vingança em uma espécie de "faroeste vampírico moderno". No drama Moonlight de Barry Jenkins, há a busca por pertencimento. Em Corra!, Nós e Não! Não Olhe!, Jordan Peele trabalha com terror racial e social de uma América dividida.
Por fim, os próprios filmes anteriores do Ryan Coogler trabalham com a vivência de um homem preto em um "mundo branco", seja no drama social Fruitvale Station, em um atleta negro ocupando o espaço de uma lenda no filme do Creed (sucessor do Rocky Balboa), ou até mesmo naquele afrofuturismo do Pantera Negra, não por acaso, os filmes com mais vida e mais elementos verdadeiramente cinematográficos de toda a Marvel.
Em Pecadores, tudo isso é amarrado, o que poderia resultar numa "salada de frutas" que não daria certo. Mas nossa! Tudo simplesmente dá certo com maestria e precisão. Graças a um roteiro que simplesmente unifica tudo com naturalidade à partir de situações simples que circulam o cotidiano da vivência do negro americano da década de 30, em um Sul segregado, com a Ku Klux Klan matando minorias, o filme funciona em cada esfera a que se propõe tratar.
E repito, em nenhum momento deixa de ser um grande filme de gênero, digo, terror e ação, com direito a banhos de sangue e uma surpreendente sensualidade, seja na química do elenco, seja em alguns diálogos safados engenhosamente bem escritos, que só dão mais nuances às personagens. Por trás de toda tragédia, é um filme que pulsa vida, pulsa tesão, pulsa alma.
Michael B. Jordan torna-se cada vez mais um dos grandes astros da nova geração, e aqui em dose dupla, dá nuances para cada um dos gêmeos. A maneira como lida com a violência, por exemplo, ou mesmo com cada uma das suas mulheres, ele tem uma dinâmica diferente, e muita química com ambas. Aliás, tanto a Hailee Steinfeld quanto a Wunmi Mosaku estão maravilhosas, cada qual como o coração e contraponto da balança emocional de cada um dos gêmeos. Ainda destaco o novato Miles Caton e o veterano Delroy Lindo, esses servindo como elo geracional para um outro elemento muito importante no filme, na verdade o maior: a música.
Além de fazer um malabarismo inacreditável de trabalhar tão bem com tantas temáticas sem se repetir ou deixar o ritmo cair, o que se faz aqui é na verdade uma obra que fala sobre sonhos, desejos, senso de pertencimento, música, herança cultural, espiritualidade e ancestralidade africana. É sobre o preto trazido da África escravizado, depois "liberto", mas segregado, caçado e morto. Esse preto que precisa de uma válvula de escape, um lugar para celebrar suas raízes e existência. Sobre como o branco acaba admirando e consequentemente roubando (se apropriando) dessa cultura, essa música, essa herança.
" - Eles adoram nossa música, mas não gostam de quem a faz.", diz o personagem de Delroy Lindo. É um filme de vampiros incrível. Mas não é sobre isso, é sobre esse vampirismo/parasitismo cultural e social do homem branco que insiste em separar o negro, em não deixar "ele entrar" (parafraseando o misticismo do vampiro), e que suga e mata. Mas que também existe esse ponto de virada onde o vampiro mítico não é o único monstro, quando há os supremacistas brancos no mundo real.
Há outros povos originários ou imigrantes, como nativo americanos e chineses, que assim como os negros, também são renegados, deixados de lado, são "pecadores", conforme o excelente título do filme sugere, todos aqueles que fogem do senso tradicional de uma sociedade branca, é julgado como um pecador, alguém que está com o Diabo. O que esquece-se é que na maioria das vezes, o pecador tem sua razão, dependendo da carga de vida e cultural de quem julga. Ainda sobre o título, também brinca-se sobre como todos pecam e em algum momento, dançam de certa forma, com o Diabo. Isso pode ser libertador, ou talvez uma maldição.
Caberá a você julgar tudo que está sendo mostrado.
Ryan Coogler cria um épico de terror emocionante, lindamente filmado e fotografado, divertido, sagaz nos comentários, safado e sexy no ponto certo, onde começa lento e vai queimando, até tudo pegar fogo. Suor, sexo e sangue em forma de grito de resistência, de desespero, de injustiças e por fim, também de orgulho e esperança. Além da maravilhosa trilha sonora do sueco Ludwig Göransson, penetrante em cada cena, a música de matriz africana, mais precisamente o Blues, talvez seja a grande protagonista e verdadeira narradora desse conto.
É a música que canaliza e liga espiritualmente à todos, seja para a luz ou para as trevas. O Blues é literalmente um guia espiritual nessa jornada. É em uma canção no meio do filme, onde tudo muda e tudo pega fogo, que todos os pontos centrais da obra se encontram, a ancestralidade aflora, a felicidade e os desejos extrapolam, as trevas surgem, o concreto e o abstrato coabitam no mesmo espaço-tempo, numa verdadeira aula de cultura, história e luta, em uma das mais belas e arrepiantes cenas que tive o prazer de ver no cinema recente.
É uma experiência para ser assistida no cinema, é lindo e empolgante, e vá com a mente aberta. É uma experiência cinematográfica completa e recompensadora, que transcende as telas e fica acompanhando você após a sessão. Isso é raro. Isso é cinema de verdade.
Brutalismo: estilo arquitetônico pós-guerra, ancorado principalmente na suntuosidade das formas geométricas, e principalmente, a crueza, a frieza e o cinzento do concreto bruto. Assim é o filme.
Épico de 3 horas e meia de duração, com um elegante intervalo de 15 minutos, remetendo um cinema à moda antiga que não se faz mais, O Brutalista me impressionou muito mais do que imaginei que iria.
Atuação formidável de Adrien Brody, que vive aqui László, um visionário arquiteto húngaro/judeu, que imigra para os Estados Unidos em busca do tão vendido "sonho americano", enquanto lida com seus traumas do holocausto, vícios e fraquezas. Seu estilo brutalista de trabalhar traz esse cinza do concreto, remetendo à frieza dos campos de concentração.
Seria justo dizer que ele é o favorito ao Oscar de Melhor Ator, em um desempenho tão complexo e poderoso quanto aquele que já rendeu o prêmio ao ator, em O Pianista. Em ambos filmes, Brody dá vida com maestria a um homem solitário e quebrado, que busca na sua obsessão pela arte, a força para encarar a crueldade da humanidade. Me identifico com tais personagens.
Na metade final, a sempre ótima Felicity Jones entra como o coração do filme. A mulher forte por trás do homem genial, aquela que de fato conhece as camadas complexas daquele arquiteto. Mas uma mulher também ferida pela guerra, por uma doença, por ser imigrante em um país que na verdade quer a mão de obra, mas não o indivíduo em si.
No final das contas, O Brutalista é sobre seres "brutalizados" pela humanidade, explorados por suas habilidades profissionais, mas negados como indivíduos. No início, na chegada na América, vemos a Estátua da Liberdade de cabeça para baixo. Excelente metáfora para esse país, que vende esse sonho americano de sucesso e liberdade, mas que é tudo invertido na prática. De chegada, László já fica impactado de como os Estados Unidos trata o próprio povo americano, como negros e pobres passando fome.
A direção de Brady Corbet é perfeccionista, por vezes morosa e pesada, opressora. Ele quer fazer do filme, sua peça de "concreto bruto", na forma como cadencia os acontecimentos, principalmente aqueles mais chocantes. A espetacular trilha sonora ajuda nessa construção de "grandiosidade" versus o realismo cru.
Assim, O Brutalista é aquilo que ele referencia, é um filme difícil, longo, denso e pesado, tal qual o concreto bruto. Tal qual uma América exploradora e arrogante, que vende no seu marketing muitas formas geométricas, mas que estilhaça sonhos e seres. Concreto esmagando corpos e almas.
É uma animação de orçamento modesto feita no Blender (software de baixo custo), do jovem cineasta Gints Zilbalodis. Só aí já é um feito impressionante perto das animações de grandes estúdios. Representando pela primeira vez a Letônia no Oscar de Melhor Filme Internacional e favorito a ganhar o Oscar de Melhor Animação, Flow carrega nas suas belas imagens uma força da natureza. Isso é primordial para a obra, visto não ter diálogos.
Ao retratar um gato e outros animais sobrevivendo em uma inundação cataclísmica, o filme utiliza da imagética para ressiginicar várias crenças, dilemas e medos que permeiam a mente humana. Mas faz isso com animais agindo como tal, sem os tornar humanizados demais.
Gints cria uma obra com conceitos muito poderosos. A criançada até vai se encantar com as aventuras dos bichinhos, mas são os adultos que terão o maior deleite com o longa. É rico visualmente e traz na sua camada mais simplista, lições de esperança, luta e trabalho em equipe. Mas nas suas camadas mais profundas, é um filme que levanta questionamentos mais complexos.
Remete à elementos bíblicos ou proféticos ao trazer um dilúvio pós-apocalíptico. Já não há mais humanos, apenas a natureza tomando conta de lugares onde outrora existiram civilizações. Aqui no universo do filme, teria o homem já se exterminado, sobrando apenas os animais? É um prenúncio do nosso fim? Seria um reinício da mãe natureza?
A baleia mística, diferente das baleias que conhecemos, causa fascínio e medo numa mesma intensidade no nosso protagonista gatuno. Está ali implícito: nossos medos nos impulsionam. Note que cada animal é de um lugar diferente do mundo, reforçando assim a mensagem universal da obra, tanto nessa parábola sobre a mãe natureza ser uma só, quanto nesta universalidade dos medos e sobrevivência de todos os seres.
Há também aquela passagem magnética espiritual, fora que o pássaro secretário do filme, em algumas culturas, também possui um folclore espiritualizado. A água, agente do medo, também é um agente de purificação. O nosso herói é um gato preto, um ser muitas vezes ligado à superstições. Por fim, o ciclo da vida representado pelo elo da vida e da morte.
Flow é emocionante, belo e por vezes assombroso. É daqueles raros exemplos de filmes que transcendem a tela do cinema. Há algo mais ali, algo que vai te acompanhar. É uma experiência sensorial. A arte mais poderosa é aquela que muda ou toca alguma coisa na nossa mente e no nosso coração.
Talvez como um conto do Nosferatu, Conde Orlok, ou Conde Drácula, o nome que você preferir, essa nova adaptação dirigida pelo perfeccionista Robert Eggers não chega a desconstruir a mitologia, tampouco reinventa a roda. Isso pode frustrar alguns que esperam uma novidade.
O que me ganhou nessa versão é essa obsessão estética atmosférica que Eggers orquestra com maestria, um verdadeiro artesão ao recriar épicos sombrios, vide A Bruxa, O Farol, O Homem do Norte e este Nosferatu. Quatro obras em uma curta carreira até aqui, quatro cinematografias impressionantes. Já dá para chamá-lo de rei da atmosfera e do gótico moderno.
A preciosidade estética é tão impecável que chega a ser opressora, implacável, tal qual o próprio Nosferatu. Quase dá para sentir o mau cheiro dos ratos e cadáveres, as texturas dos figurinos de época, a pedra fria dos velhos casarões. Os ângulos de câmera, a fotografia e a trilha sonora bem conduzida ajudam a criar toda essa mise em scène obscura e intensa. Grande trabalho vocal de Bill Skarsgård e excelente entrega física de Lily-Rose Depp, papel dificílimo.
Para além da técnica, Eggers costura as motivações de todas personagens com o mesmo elemento: o desejo. E é aí que o cineasta tenta dar sua própria pegada. A luxúria, a cobiça, a obsessão pela posse, a fome, a busca por algo. Todos correm incessantemente atrás de um objeto do desejo.
Thomas quer riqueza, deixando sozinha Ellen, que possui um distúrbio sexual que a deixa em chamas, o que atrai Orlok, que quer possuí-la e quem sabe alcançar uma amante eterna, e assim por diante. Até os coadjuvantes possuem suas vontades irredutíveis.
Loucura, manipulação, descrença, vergonha, medo e impulsos se entrelaçam. Nesse romance gótico intenso, com vertente psicosexual, possuir significará perder, e todos sucumbem diante os seus próprios desejos.
Ainda Estou Aqui é o novo longa brasileiro de Walter Salles (Central do Brasil). Já passou por vários festivais de cinema pelo mundo, ganhando prêmios, é forte candidato ao Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional, e é realmente tudo que a crítica anda falando, e muito mais.
Um dos mais importantes filmes nacionais dos últimos anos, atual líder de bilheteria no Brasil e uma aula de se fazer cinema, é um drama com uma grife técnica, superior a muita coisa que Hollywood anda fazendo inclusive. Mas sem deixar de ser tupiniquim, de trazer toda uma brasilidade cultural e cênica.
Acima de tudo, é o melhor tipo de cinema, o cinema memória. Que fotografa um período da história, que não deixa esquecermos de um capítulo horrível de nosso país, que busca redenção para aqueles que foram silenciados, que rememoriza a felicidade de uma família despedaçada. Que resgata pessoas, humanos, indivíduos que não merecem serem esquecidos.
Fernanda Torres é uma força da natureza. Em um tour de force transcendental, Torres incendeia a tela com uma entrega carregada de simbolismos, de um humanismo dilacerante. Eunice Paiva é o retrato de uma mulher corajosa e resiliente, que resiste ao sistema opressor "da arma e coturno", que transforma dor em luta. Em nenhum momento ela explode de fato. A dor fica na garganta, mas não sai. O choro é no olhar, o grito é silencioso. A sua missão é primeiro proteger os filhos, mas após isso, uma vida dedicada aos direitos civis, especialmente dos indígenas.
A ditadura militar destruiu ou oprimiu milhares de famílias. Aqui temos a realidade de apenas uma dessas famílias, e já torna-se inadmissível constitucionalizar a barbárie, burocratizar o assassinato, a tortura e a desumanidade. E pensar que "mitos" (mentiras) modernos defendem o indefensável.
Walter Salles dirige com firmeza, com uma câmera nervosa como que querendo nos trazer uma imersão daquela família feliz, daquele Rio de Janeiro ensolarado, da bela recriação dos anos 70. Após isso, sua câmera mais estática nos faz confrontar a tragédia, o frio, pelambulando o vazio dos cômodos da casa.
Selton Mello, sempre absurdamente carismático, nos ganha o pouco que aparece, para daí Fernanda Torres brilhar e comandar a obra. E Fernanda Montenegro, nos minutos finais, nada fala em palavras, mas muito grita no olhar, nas sutilezas, na luta por lembrar literalmente, por causa do alzheimer. O filme em si, assim como ambas Fernandas, representam bem o país: gigantes pela própria natureza.
Ainda sobre o resgate da memória, o cinema é o registro de seu tempo, o estudo de tempos passados e não erroneamente, acerta muito sobre o futuro. Assim como a família Paiva faz fotos e vídeos como recordação, a sétima arte busca essa reconciliação entre "o ver e o gravar", o registro daquele tempo e espaço particulares, afim de não esquecermos.
Extremamente espetacular e emocionante, um filme importante e atual, uma das melhores obras de arte de 2024, que chega ressoando a força do cinema nacional e um lembrete de que vozes de resistência não serão silenciadas. Ainda estaremos aqui.
Na minha sessão em Pelotas: sala lotada, silêncio respeitoso, e ao final da projeção, lágrimas e aplausos. Uma das grandes experiências cinematográficas da vida.
Não considero nenhum dos filmes dessa franquia uma total perda de tempo, sinceramente, esse universo é sempre minimamente interessante. Aqui nesse novo longa, conceitualmente, fazer uma obra de baixo orçamento voltada para o terror escapista, aliada a uma fidelidade mais simplista do personagem nos quadrinhos, é sim muito interessante.
Não é de todo ruim, tenta transpor um terror orgânico, com elementos do folk horror e de bruxaria. Tampouco sente-se falta de ação e efeitos especiais caros, quando aceita-se a proposta. O "menos é mais" cai bem aqui. Embora o geralmente alucinado Brian Taylor faça filmes frenéticos e surtados, aqui ele está calmo até demais, com uma "barriga" e falta de ritmo na fita.
Às atuações são fracas, Jack Kesy até tenta, mas o protagonista é meio apagado. Mesmo tentando-se emular um Hellboy investigador com estilo suspense à la noir, o roteiro e a direção não trabalham bem os personagens e ambientação, resultando em um filme com simbolismos de terror até bons, mas sem força devido a falta de atmosfera.
Nitidamente a deculpagem, a edição e montagem das cenas foram feitas às pressas, resultando em uma obra amadora, quase um fan filme. Quase porque é um orçamento baixo para o personagem, mas nem tanto para uma obra independente. Os cortes bruscos ou com transições anticlimáticas às vezes parecem de um piloto de uma série para TV.
Hellboy e o Homem Torto acerta na tentativa válida de terror e fidelidade com a HQ, não chega a desrespeitar o personagem, mas é levemente inferior ao outro reboot de 2019. Aquele ao menos se utilizava de um estilo mais abusado e "revoltado" (palavrões, sangue, heavy metal). Mas ambos são inferiores às belas duas primeiras adaptações do Guillermo dele Toro, cheias de poesia, efeitos bonitos e virtuosismo.
Quem sabe um dia receberemos o cancelado último filme do del Toro, para o mestre finalizar sua trilogia. E falando em esse aqui parecer um piloto de TV, também cairia bem uma série live-actiton nas mãos de uma produtora decente, quem sabe na HBO, Apple TV ou Prime Video. Sonhemos.
Épico, monumental, de tirar o fôlego. Uma aula de como se fazer cinema. Beleza e fúria transcendentes em imagem e som.
Por muito tempo, os livros de Duna de Frank Herbert foram considerados infilmáveis, tamanha complexidade. Mas o filme de 2021, no qual defendo muito, conseguiu trazer de forma palpável a atmosfera e densidade necessárias, por mais que seja uma obra incompleta, que serve apenas de introdução e contemplação à este universo. Meu medo era a continuação trazer apenas uma ação genérica e um desfecho apressado. Mas o que Denis Villeneuve faz é dobrar as apostas em tudo.
Efeitos especiais perfeitos, trilha sonora ensurdecedora e ação arrebatadora marcam presença. Mesmo assim, Villeneuve não simplifica nada, e o roteiro, as atuações, a complexidade e a urgência são elevadas ao máximo, em um dos filmes mais impactantes do cinema recente. É uma experiência elaborada para a tela grande e imersiva do cinema. Cada frame é pensado e enquadrado para o cinema! A direção de Villeneuve, a fotografia de Greig Fraser e a trilha sonora de Hans Zimmer trabalham em uníssono. São três deuses, três mestres no seu ápice.
Timothée Chalamet e Zendaya retornam liderando com convicção. Ele passa a insegurança de alguém franzino que teme o poder, mas que precisa tomar decisões difíceis que afetarão a todos. Ela passa a postura de guerreira, mas que duvida da profecia de se crer nesse salvador. A maravilhosa Rebecca Ferguson segue enigmática, roubando a cena com a personagem mais complexa da trama. Austin Butler é uma adição arrebatadora como o grande inimigo do protagonista, um vilão sádico e assustador, quase um "Coringa do espaço". Todo o elenco é estelar, coisa linda ver uma obra que não desperdiça um elenco desses, todos entregando muito.
Política, fanatismo religioso e a crença em um messias acabam sendo o ponto de partida para alegorias interessantes, sobre massas de manobra, genocídio, falsos messias e interpretações proféticas distorcidas, de acordo com a ambição de quem estiver "enxergando" o milagre. Tudo é denso, não existem saídas fáceis e o roteiro não nos poupa nada.
A contemplação, o peso das máquinas e vermes gigantes, o retumbar das explosões e corpos caindo, o som das partículas da areia ao vento, está tudo ali, mas com mais impacto do que nunca. Cinematografia espetacular, montagem frenética e crescente, é cinema bruto e puro exercício da imagética.
Uma ficção científica que marcará a nova geração e converterá muitos jovens em cinéfilos. Um milagre cinematográfico de crítica e público, um exemplo do porque a sétima arte é tão poderosa e sempre irá sobreviver. Oscar 2024 ainda nem aconteceu, e já temos o primeiro grande candidato ao Oscar 2025.
Cinema não fica melhor, não é mais cinema do que isso aqui. Um dos grandes filmes de 2024!
Novo filme do Studio Ghibli e do lendário Hayao Miyazaki, é mais uma obra inventiva narrativamente e linda visualmente, belamente rabiscada e animada.
Ao lidar com temáticas como amadurecimento, luto e perdão na infância, Miyazaki orquestra um anime maduro, mas que mantém o imaginário lúdico.
Existe um humor tragicômico presente em algumas cenas um tanto excêntricas, mas que são balanceadas com passagens emocionantes, conforme o protagonista vai se aprofundando nesse universo fantástico - e se auto descobrindo no caminho.
O roteiro não traz um vilão declarado, mas situações difíceis que precisam ser desenroladas, exigindo decisões e consequências. No mundo de fantasia, paradoxos são criados com o mundo humano real.
O Menino e a Garça será o provável campeão na categoria de Melhor Animação no Oscar 2024. E não é para menos. É mais um lembrete de como o cinema é uma linguagem e expressão artística universal, furando a bolha de Hollywood e dos Estados Unidos. Viva o cinema internacional.
Ou, anatomia de uma relação falida. Ou, anatomia de um relacionamento tóxico. Ainda em tempo, anatomia de como julgamos o outro.
Ele caiu, se jogou ou foi jogado? Pouco importa! O que a potente diretora Justine Triet deseja aqui é dissecar, desmembrar, colocar uma lupa em como nós, expectadores (um júri), julgamos aquilo que só sabemos superficialmente, muitas vezes cegos por ideias pré-concebidas. Desconhecemos no próximo aquilo que ele enfrenta entre quatro paredes.
Espetacular atuação de Sandra Hüller, madura, complexa e que abriga camadas. Camadas estas que vão sendo descascadas conforme o roteiro costura a anatomia da obra. A direção de Justine e a atuação de Sandra são um combo e um grande lembrete da força feminina, diante e atrás das câmeras.
Fotografia belíssima e passagens tocantes contemplam esse thriller dramático, sempre sofisticado e pungente. Uma obra densa, difícil de digerir e que merece a aclamação que vem recebendo desde o último Festival de Cannes.
Obs: melhor atuação canina de 2023, tem uma cena de apertar o coração.
O drama de Jonathan Glazer talvez até careça de um pouco de ritmo na sua metade final, mas talvez este seja um dos mais aterrorizantes longas feitos recentemente.
Acompanhamos uma bela família cuidando da sua vida, das crianças e do jardim. Eles são nazistas, vizinhos de um campo de concentração. Eles ignoram gritos, fumaças e sinais do horror ao seu lado. E apesar de se passar no holocausto, ele é sobre algo mais. Sobre nossa inércia diante toda forma de crueldade.
Ora, se eu tenho que trabalhar, horários à cumprir, sustentar a família, cuidar de um familiar doente; se estou cansado, com contas à pagar, dentre outros compromissos, porque me importar? Se não faço parte de uma minoria, grupo étnico, religião ou núcleo que está sofrendo algum tipo de violência ou perseguição, porque me posicionar?
Mas ao ignorar as trevas ao meu redor, racismos, preconceitos, abismos sociais, não estou sendo negligente, perpetuando a maldade? Ao ignorar a dor alheia, não estou fazendo parte da opressão?
É fácil cuidar da própria vida, enquanto o mau cresce ao nosso redor. Difícil será não ter culpa, não fazer parte das trevas que nos negamos a lutar contra.
Zona de Interesse é sobre a banalidade da decadência humana. E essa banalidade está mais perto do que nunca, disfarçada sob um véu de família, fé, patriotismo, dentre outras coisas.
Em 'Vidas Passadas', surpreendente longa de estreia de Celine Song, somos envolvidos em uma trama sutil e delicada, sobre reencontros, lembranças e questionamentos sobre as probabilidades. E se?
Dois amigos de infância se reencontram anos depois, reacendendo nostalgia, saudades, senso de pertencimento e leveza. Um causa no outro sensações outrora perdidas, ou ignoradas. Mas hoje, cada um tem sua vida e relacionamentos. Tal reencontro é um esbarrão, um nó, uma probabilidade no espaço-tempo no microcosmo de cada uma de suas personas.
Na vida, temos contato com certas almas que não conseguimos ficar juntos, mas elas sempre serão uma parte importante do que moldou nossa jornada. São nós impossíveis de desatar ou ignorar. Mas isso não significa que serão parte do nosso futuro. Reencontros não são necessariamente uma ressignificação do passado.
Um dos filmes mais delicados de 2023, uma história de amor que foge do óbvio e te transporta para uma reflexão introspectiva sobre aqueles que tocaram a sua vida até aqui, nessa parte da sua, e da minha jornada.
Excelentes atuações, cinematografia naturalista e decupagem enxuta contemplam as características técnicas desta pequena gema.
'Pobres Criaturas' é brilhante, ousado, excêntrico, surrealista, sensual, teatral, ácido e ultrajante.
Emma Stone é uma força da natureza, em um tour de force espetacular. O roteiro é muito bem costurado, fazendo críticas ácidas à sociedade de forma pouco convencional, em um humor sem pudor e que flerta com o bizarro.
Fotografia, figurino, direção de arte e toda mise en scène trazem um lúdico e teatral lindo de se ver em cada frame. E a trilha sonora é uma das mais marcantes da temporada.
Sexo e a arte: é impressionante como os filmes estão cada vez mais infantilizados e pasteurizados. E nisso, muito se fala sobre não precisar ter cenas de sexo nas obras. Tolice. A arte (livros, filmes) abordam todos os periféricos da vida, incluindo o sexo. Ele e os corpos nus existem, estão presentes o tempo todo, afinal a humanidade vem à existência através disso. É bizarro como colocam tabu em algo que todos buscam.
É aí que filmes como 'Pobres Criaturas' se tornam importantes, indo na contramão e utilizando a sensualidade como porta de discussão para vários aspectos, como a liberdade sexual feminina, e em como isso está ligado à busca por uma identidade e lugar no mundo.
Uma mulher livre sexualmente e socialmente, com opinião própria e livros (conhecimento) na mão, amedrontam os homens e a sociedade que eles tentam conservar.
'Pobres Criaturas' é genial, um dos melhores filmes de 2023 e um dos mais fortes concorrentes nessa temporada de Oscar.
Aos 76 anos de idade, com mais de 50 de carreira e quase 40 longas como diretor (fora as dezenas como produtor), Steven Spielberg já não deve mais nada ao cinema. De Tubarão a E.T., de Indiana Jones a Jurassic Park, de A Lista de Schindler a O Resgate do Soldado Ryan, para citar apenas alguns, Spielberg é um dos mestres da manipulação de emoções, tensão e pura magia cinematográfica.
Mas com seu novo filme, ele usa a fictícia família Fabelmans para narrar sua própria biografia, sua infância e seu amor pelo cinema. Aqui, ele não revela apenas a si próprio, mas também coloca seus pais diante do reflexo do espelho.
Nostálgico, com aquela magia do mestre, ao mesmo tempo é triste e introspectivo. De sua obsessão quando criança, passando a ser sua paixão quando mais velho, Sam (ou Spielberg) encontra seu refúgio atrás da câmera cada vez que a vida machuca. Seja pela relação conturbada de seus pais, ou por sofrer perseguição na escola por ser judeu, cada vez que ele está quebrado, é no fazer cinema em que ele se reconstrói.
Algumas verdades são ditas àqueles que amam a arte: ela dá frutos, mas também causa solidão. O tio avisa: "família, arte, isso vai dividir você." De certa forma o filme mostra que quem vive pela arte precisa fazer sacrifícios inevitáveis.
Isso é brilhantemente retratado pela figura da mãe, Mitzi, que tem uma fome de arte, de viver, é um estado de espírito que Sam (Spielberg) herdou. A mente criativa de Mitzi, lindamente atuada por Michelle Williams, é tão eufórica quanto desesperada, talvez aguardando uma espécie de milagre, um milagre que somente a arte pode suprir.
Com carga emocional, The Fabelmans é sobre o amor à arte, ao cinema, à família. E é sobre a dor da vida que habita no meio desses amores. Com atuações impecáveis, duas participações especiais de deixar um sorriso no rosto, tecnicamente perfeito em imagem e som, Spielberg faz o seu Cinema Paradiso (que por sinal é meu filme favorito), mas com suas próprias percepções da vida, retratada sob as lentes da câmera.
É difícil não me identificar. Amar a arte não é um hobby, é um estado de espírito: lindo, excitante, solitário e devastador.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.1 427 Assista AgoraNo final da sessão de Hamnet, nova obra da talentosa Chloé Zhao, dentre suspiros e lágrimas do público que ali estava, enquanto os créditos finais rolavam, precisei de um tempo sentado, sentindo e respirando, deixando fluir pelo corpo toda aquela catarse emocional que havia tomado conta da minha mente e coração.
Fazia um tempo em que eu não me emocionava tanto. Quando eu falo que cinema é minha religião, me refiro a experiências cinematográficas como essa, o que Chloé Zhao faz aqui é de um nível espiritual.
São duas as mulheres presentes aqui, que se tornam verdadeiras forças da natureza.
A primeira é a própria diretora Chloé Zhao, que filma Hamnet com uma força e convicção ímpares. A viscelaridade da dor e angústia, apesar de nada sutis, funcionam com a intensidade certa. O que poderia facilmente ser um dramalhão, acaba na verdade sendo um aberto estudo da dor, do luto, da devastação da perda e seus ciclos, passando da negação e culpa, até a busca de formas de lidar com esse turbilhão de sentimentos.
Zhao traz esse vínculo entre a natureza, a vida e a morte, e a melancolia que habita nesses meios. A fotografia, aliada a direção, traz texturas, enquadramentos e momentos de contemplação, que exploram muito bem a beleza e a dor de se estar vivo. E o medo da iminência da morte, principalmente se envolver um filho. No meio disso tudo, há o amor.
A outra mulher que faz desse ser um filme memorável é a maravilhosa Jessie Buckley, que entrega uma atuação visceral e devastadora. A entonação da voz, o movimento corporal, o olhar, é uma entrega total, impactante e magnética. Para muito além da "esposa do Shakespeare", Buckley imprime uma personagem forte, difícil, quase uma wicka ou bruxa, nesse elo íntimo que tem com o ambiente ao redor, especialmente a natureza.
Paul Mescal e Emily Watson também estão muito bem, embora o filme de fato seja de Buckley. A trilha sonora é outro ponto extremamente positivo, em um dos melhores trabalhos sonoros de 2025.
Mas para muito além do luto, Hamnet é sobre a arte, e como o ser humano a usa para lidar com as malezas da vida, para canalizar a dor e descarregar a tristeza de forma poética. Arte é sobrevivência, é tentar entender a ambiguidade de se estar vivo, e o principal, saber seguir vivo. Eis o grande desafio. Ou parafraseando Shakespeare, "eis a questão".
Hamnet te devasta, te quebra em pedacinhos. Para então, naquele final arrebatador, você ter alguns dos pedaços recolocados. A arte abranda, a arte trata e cura. É como um caloroso abraço apertado de alguém que amamos. Bravo, e obrigado, Chloé Zhao.
Amores Materialistas
3.1 390 Assista AgoraÉ amor, capitalismo ou pragmatismo?
Eu gostei de Amores Materialistas, com algumas ressalvas. Preciso dizer que apesar de amar o cinema como um todo, da obra infantil até o terror, são os romances e as comédias românticas os gêneros que menos assisto ou aprecio. Especialmente os clichês e "água com açúcar". Acredito que essa premissa de amor açucarado que supera tudo é irrealista, além de superficial, muito fantasiosa, me afastando de criar elo com as obras.
Há sim bons romances épicos e clichês, mas são raros os que me conecto. Prefiro romances mais dramáticos e realistas, geralmente agridoces ou amargos, tal qual a vida real. Aprecio muito Vidas Passadas, obra anterior de Celine Song, que com imensa sensibilidade, disserta muito bem sobre encontro de almas, hora errada, saudades e a não ressignificação nas relações. Então haviam expectativas em cima do seu novo longa.
Primeiramente, Amores Materialistas se vende mal, o marketing traz toda uma noção de romance tradicional ou comédia romântica leve, o que não é verdade, o que vai frustrar muita gente. Bem verdade, eu gosto de um filme "clickbait", que vende uma ideia tradicional, uma multidão vai ao cinema assistir e leva uma rasteira, um bom tapa na cara. Barbie é um belo exemplo. Materialists meio que faz isso, sendo bem mais "cabeça", maduro e realista do que a média do gênero, enganando muita gente, o que é legal.
Por outro lado, eu não gostei tanto do final, meio que quebrando a matemática da coisa toda. É quase um anticlímax pra crítica que vinha sendo construída. É interessante querer se discutir o papel do capitalismo nas relações, pena que é feito de forma superficial. A discussão é válida, havia espaço para explorar melhor isso, porém os arquétipos ficam no raso, tinha base para filosofar de forma mais profunda.
A direção de Celine Song é elegante, tem alguns enquadramentos sutilmente bonitos. É mais afastada, fria, impessoal, ampla, quando Dakota Johnson está com Pedro Pascal, nessa falta de sentimentos reais. E quando Dakota está com Chris Evans, os enquadramentos são mais fechados, closes nos rostos, é mais quente, mais solto e orgânico, há ritmo ali.
Visualmente é uma obra toda simplista, mas elegante. Até a fotografia, nunca chamativa, mas sempre naturalista.
Eu não gostava de Dakota Johnson logo que surgiu, principalmente pelos problemáticos Cinquenta Tons de Cinza, mas do remake de Suspiria em diante, vez por outra ela entrega um papel muito interessante. Acho que aqui ela está muito bem, lindíssima aliás, numa personagem contida, mas bem desenhada, ela sabe o que quer, é ambiciosa, mas humana, reconhece as falhas.
Eu compreendo o personagem de Chris Evans, quebrado financeiramente e como isso também o quebra emocionalmente, inclusive na vida, já me vi nessa situação (sem os atributos físicos, é óbvio hahaha). Mas confesso que compreendo mais a persona da Dakota e sua visão mais matemática e pragmática (prática).
Vamos lá: por um lado o capitalismo atrapalha sim uma relação, digo nessa coisa de se comprar o sonho americano, as propagandas, os estilos de vida que influencers e selfies vendem, restaurantes, ter uma vida acima do confortável, viagens e todas as possibilidades que o dinheiro adquire. Se você anseia uma vida assim e quer dividir com alguém, a falta de grana irá te consumir.
Se fosse só isso, facilmente cairíamos no campo do interesse, mas tudo é mais complexo do que isso. Sim, há muitas pessoas interesseiras, materialistas por dinheiro e corpos perfeitos. Mas no caso da protagonista (Johnson), ela é ao mesmo tempo pragmática. Note que ela acredita no amor, no encanto. Mas ela não deixa a matemática de lado, os cálculos, as probabilidades e os periféricos que acompanham uma relação. A falta de dinheiro impede sonhos, o que causa frustração, o que levará à discussões, o que desgasta a relação.
Como qualquer "boa pessoa" realista/pessimista, ela enxerga lá adiante os resultados dos seus cálculos matemáticos de agora. Eu me identifico muito com isso, particularmente.
"Tudo na vida é sobre sexo, exceto o sexo, que é sobre poder", escreveu Oscar Wilde.
Acho muito interessante essa protagonista compreender o cinismo de um mundo capitalista, medir o amor com status, carteiras, estatísticas, nesses negócios comerciais chamados de casamento. É assim desde que o mundo é mundo, corpos e sonhos sendo vendidos e comprados, a gente só finge que não, até porque o amor envolve sentimentos belos no meio de toda essa "praticidade" feia.
Dinheiro não é tudo, não compra amor, mas não se romantiza pobreza, e a falta de grana corrói relações. Tente equilibrar isso no mundo de hoje, e boa sorte (rsrs).
Pena que o roteiro não termina a discussão que levanta, deixando o debate apenas jogado no campo das ideias, concluindo o filme de forma mais clichê e menos corajosa. Ok, seria muita polêmica.
Amores Materialistas é na sua maior parte bonito, tem uma protagonista intrigante, tem boas intenções na sua desconstrução de um romance, indo inicialmente na contramão do tradicional, para depois tentar uma reconciliação com a fantasia romântica. Poderia ser melhor desenvolvido e vendido.
Com Vidas Passadas e Materialists, Celine Song se revela uma romântica realista, que acredita sim no amor, mas em um amor que vem acompanhado de vários "mas" e "poréns", tal qual a vida real. Eu compreendo, me identifico com tudo isso.
Nota: 7
Obs: acredito que com o tempo, é um filme que vai crescer e se tornar um cult.
Superman
3.6 916 Assista AgoraEsse é um filme que tenho bastante o que dizer.
Não sou o maior fã do Superman, um homem indestrutível e "perfeito", com cores americanas no uniforme e muitas vezes retratado de forma endeusada, fria e apática. Reconheço obviamente a importância do clássico de 1978 com Christopher Reeve, a porta de entrada do cinema de heróis.
A missão do cineasta James Gunn não era fácil. Atualizar o mito do Homem de Aço, o maior herói dos quadrinhos, começar o novo universo cinematográfico da DC, escalonar todo um novo elenco, rumo e estilo. Ainda mais após o fracasso do universo anterior da DC, que foi definhando. Fora a saturação e desgaste dos filmes de super-heróis, onde até a "rainha Marvel" passa por dificuldades.
Mas James Gunn consegue, de novo!
Superman, de 2025, um dos filmes mais esperados do ano, é espalhafatoso e imperfeito, mas lapidado com muito bom coração e boa vontade. Não me impressionou de forma épica, mas me arrancou vários sorrisos singelos pela sua genuína sinceridade.
James Gunn é o cara. Ele sabe trabalhar muitas coisas ao mesmo tempo. Ele equilibra bem os elementos contraditórios: grotesco com doçura, humor e emoção, mortes e fofura. Ele abraça abertamente o bizarro, o lado B dos quadrinhos, o underground, e daí dá uma roupagem acessível. E traz essa narrativa dramática, humanizando aquilo que é estranho. Então nos pegamos torcendo por criaturas estranhas, graças à essa humanização dos rejeitados que Gunn aplica nos seus personagens. Foi assim com todos Guardiões da Galáxia, o segundo Esquadrão Suicida (esqueça aquele fraquíssimo primeiro, que não é do Gunn), etc.
Aqui, Gunn equilibra muito bem na sua maior parte, o mito do herói, a grandeza teórica, a ação e o visual em CGI, mas também traz humor, romance, elementos assumidamente excêntricos que beiram o trash, referências às HQ's e animações da DC (o filme por vezes parece um desenho animado irado), cenas tocantes que visam trazer leveza e fragilidade das personagens.
Nem tudo são flores. Há uma estranheza inicial de vermos um Superman tão diferente, tão abertamente fantasioso. Há um excesso de CGI em algumas cenas, poluindo visualmente. Mas ao menos a renderização gráfica é sim, boa.
O roteiro possui fragilidades, não reinventa a roda, é clichê e apressado, há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, muita informação sendo despejada o tempo todo, são muitos personagens e aparições. Por ser o primeiro filme de uma nova saga, um novo momento da DC, e ao mesmo tempo chegar atrasado na "festa dos heróis", onde o cenário está desgastado, é "quase" um clima de fim de festa. A boa notícia é que é quase.
Existe uma pressa de ter um universo já estabelecido. Então não perde-se tempo apresentando toda a origem do herói. Clark já é o Superman, já tem um romance com Lois, já existem grupos de outros heróis e vilões metahumanos, dentre outras coisas. O filme já começa com meio caminho andado, com fome de te fazer entrar logo nessa nova abordagem já preestabelecida.
Porém ainda há um excesso de personagens e situações, faltando um pouco de respiro. Acredito que uma meia hora a mais, cadenciando melhor os acontecimentos, daria mais espaço para apego e desenvolvimento aos coadjuvantes, e daria talvez, melhor peso dramático.
Dito isso, o maior trunfo do filme é o elenco comprometido, e a interação das personagens. É sério gente, esse elenco é uma delícia. Fora ser um filme assumidamente político e crítico, o que é muito bem-vindo.
David Corenswet surpreende com um Superman com personalidade. Ele tem atitude, opinião própria, posicionamento político, tem uma pegada gostosa com a Lois, é pai de pet, tem uma relação doce com seus pais idosos, se posiciona contra o imperialismo americano, falha, cai apanha. Não temos um ser perfeito, mas um homem com sentimentos, ele se chateia, ama, é vulnerável, escolhe a gentileza em vez da violência, às vezes até mesmo sendo ingênuo diante a maldade. Ele segura bem esse papel dificílimo, e sinceramente, acaba de nascer um novo astro.
A maravilhosa Rachel Brosnahan entrega uma Lois enérgica, durona e espirituosa, tanto que sinceramente, queria mais dela, foi pouco. Aliás, eles tem química hein 🔥
Nicholas Hoult, numa nova, boa e versátil fase da carreira, entrega um bom Lex Luthor. De início achei que estava engessado e não chegaria lá, mas em dado momento ele entrega frieza e maldade, maltratando animais e matando pessoas, entrega um vilão de porte, e as cenas finais dele são fenomenais.
Nathan Fillion entrega um Lanterna Verde engraçadão e Edi Gathegi um Senhor Incrível imponente. O pouquíssimo que a maravilhosa Milly Alcock (Supergirl) aparece, dá uma palhinha do que esperar dela em produções futuras. O resto do elenco é operante.
E o cão Krypto é tudo que aparentava ser nos trailers: fofo, arteiro e sem controle, é legal que ele se movimenta como um animal de fato. Mas também é muito bem utilizado pelo roteiro. Não é só um acessório, mas tem importância e peso na narrativa. A interação entre ele e Superman é sensacional. Quando ele está em cena, o filme é dele, sendo bem utilizado até nas cenas de ação. Além disso, o novo designe do Krypto (aqui no Brasil chamado de "fiapo de manga"), inspirado num cãozinho adotado pelo próprio James Gunn, busca indiretamente conscientizar sobre a adoção de animais sem raça definida. É o vira-lata salvando o mundo, e a DC.
Superman é um filme que ao entrar nessa de humanizar esse universo, a obra brilha mesmo é nos seus momentos mais simples e humanos. As farpas e os amassos entre Clark e Lois, o abraço dele no seu pai, algum humor muito bem colocado aqui e ali. O arco da namorada do Lex é bem inesperado, não imaginava ver o Lex Luthor levar ... Bem não vou dar spoilers 🤭
No tom político, é muito válido o vilão ser um bilionário da tecnologia à lá Elon Musk, egocêntrico e irresponsável, se aliando com um político extremista caricato, uma mistura do Trump com o Netanyahu de Israel, envolvidos em uma guerra que lembra sim o genocídio em Gaza. E Superman chega como esse imigrante alienígena, defendendo não os interesses americanos, mas os inocentes que sofrem com esse conflito.
Assim esse novo Superman se atualiza, trazendo esperança e gentileza no cenário político atual, onde a desinformação, a IA e os bots de internet servem como influência para massa de manobra, afim de perpetuar guerras que geram lucro para os países mais poderosos, e os bilionários sacanas que os apoiam.
Superman tem vários defeitinhos esparsos, principalmente no excesso de informações em pouco tempo. Mas tem tanta leveza, tem cor, tem muitos pequenos e sutis acertos aqui e ali, possui boas intenções políticas e sociais, tem um elenco formidável, abraça o absurdo de uma forma genuína e despretensiosa, tem um final empolgante, tem tanta coisa pra se apreciar, que é preciso bastante mau humor pra negar a paixão pulsante que James Gunn tem pelos quadrinhos e esse universo.
Em um mundo cruel onde muitas vezes se vende uma falsa ideia de super-heróis patriotas, capazes de fazer tudo, é interessante ver um filme que dá alguns passos pra trás, no bom sentido. Desconstrói algumas coisas, homenageia em outras, honra as origens, mas atualiza sua mensagem, trazendo esperança, gentileza e empatia ao próximo. Obrigado James Gunn!
Superman de 1978 surpreendia o mundo mostrando que um homem podia voar. O Superman de 2025 pode surpreender por outro motivo, que o homem ainda é capaz de amar.
Nota: 8
Extermínio: A Evolução
3.1 567 Assista AgoraEste Extermínio 3 me dividiu, mas de um jeito provocante, o que acaba sendo um ponto positivo. Mas aquilo que vou pontuar como interessante, é justamente o que possivelmente vai fazer muita gente não gostar da obra.
Danny Boyle continua sendo um diretor que tenta ousar, tenta radicalizar, tenta dentro do mainstream, experimentar formas e narrativas. Ele e o roteirista (também diretor) Alex Garland já haviam experimentando crítica social com imagem desfocada no primeiro filme, e após não se envolverem no segundo, retornam para esse aguardado capítulo. Mas como ambos são artistas que não gostam do óbvio, aqui eles tentam muitas ideias. O pai dos zumbis, George Romero, estaria orgulhoso.
Nem todas tentativas funcionam, resultando numa obra imperfeita, mas isso é normal quando se arrisca muito. Porém é de aplaudir eles arriscarem um anticlímax tão grande dentro do que poderia ser uma mesmice de pós-apocalipse zumbi.
Filmado inteiramente com Iphones, eles utilizam a captação de paisagens naturais para contrapor o horror gráfico. E abusam de ângulos de câmeras, muitas vezes nada convencionais na escola de cinema, para junto de uma edição e montagem também fora do comum, desorientar o público. Recortes confusos, transições contraditórias, passagens quase vertiginosas, ajudam a criar essa atmosfera de caos e inquietação.
Há um humor sarcástico presente, até mesmo em decisões criativas que beiram o trash. Mas esse humor bizarro não é para apenas fazer rir, mas também tem a função de incomodar, é como se nos forçasse a pensar que aquilo ali não deveria estar em cena, e de fato não deveria, o diretor sabe disso e faz com o intuito da provocação.
Há decisões que me incomodaram um pouco, principalmente na cena do parto, e na cena final. Assim como o excesso de recortes na montagem também me desconectaram um pouco. Mas repito, reconheço que aqui é justamente o que querem, desconcertar como uma espécie de provocação artística. Genial, por exemplo, a utilização dos Teletubbies, sim, é isso mesmo que você leu, rsrs.
Jodie Comer e Ralph Fiennes estão sublimes, como sempre. Aliás, ambos personagens quebram expectativas de forma surpreendente na reta final, com uma delicadeza emocional arrebatadora. Mas é o jovem Alfie Williams que protagoniza esse longa com coração e alma pulsante. É muito corajoso colocar uma criança como centro de um filme desses.
Loucos? Certos estão os loucos, os sensíveis, os poetas, os filósofos. Insanos são os que normalizam a barbárie, o sangue derramado, as guerras, as bombas caindo. Em um mundo de violência, coragem é possuir afeto, refletir na existência, ter consciência das coisas. E deveríamos estar falando apenas de zumbis, não? Errado, Extermínio 3 está longe de ser sobre isso, mesmo sendo disso. É quase um filme anti-zumbis.
De tanto tentar e experimentar, acaba sendo uma obra imperfeita. Mas ao ser muito corajoso em trazer experimentos em imagem, som e narrativa, acaba sendo uma das grandes surpresas do ano.
Nota: 8,5 - e como é difícil dar uma nota pra um filme desses, que quer à todo custo ser fora da curva.
Confuso? Um pouco, e adoro isso.
A Lenda de Ochi
2.9 22 Assista AgoraA Lenda de Ochi é uma bela fantasia independente. A A24 traz uma obra que até carece de ritmo, sinto que a edição e montagem das cenas poderiam ser mais interessantes e dinâmicas.
Porém, é louvável todo o trabalho visual mais artesanal, que tenta criar um encanto mágico e lúdico, mas com um pé na realidade, como se em algum lugar remoto da Terra, esses seres existissem e essa trama acontecesse.
De certa forma é um filme nostálgico que remete àquelas fantasias infantis um tanto sombrias e tristes, que muito se fez nos anos 80 e 90, tipo E.T. ou História sem Fim. Mas que tem aquele "ar indie" que o selo da A24 gosta de demarcar, um tipo de cinema alternativo que vai passar despercebido pela maioria, o que é uma pena. Um longa sobre aceitar o diferente, lidar com a perda e respeitar os seres incríveis da mãe natureza.
Nota: 7
Bailarina
3.4 299 Assista AgoraOs quatro filmes de John Wick compuseram a melhor franquia de ação da última década, é um fato. Trata-se de um equilíbrio em perfeccionismo estético e estilizado, um protagonista silencioso, um elegante e muito bem construído universo de assassinos, acrobacias brutais com uso de dublês, tudo culminando num verdadeiro balé sangrento, a arte da dança da morte.
O receio com esse novo filme é aquele de sempre, uma boa saga começa a ganhar inúmeras sequências, spin-offs, derivados, etc, e cai a qualidade. Também preocupou as extensas refilmagens, após o diretor inicial Len Wiseman (Anjos da Noite) sair, e Chad Stahelski (justamente de John Wick) assumir a finalização de Bailarina.
Para alívio, Bailarina é muito bom e eficiente. É incrível como esse submundo de John Wick é tão bem estruturado, que até os derivados são minimamente interessantes, como a série The Continental, lá na Prime Video.
Bailarina é melhor que a série citada, e levemente inferior aos filmes de Keanu Reeves. Essa troca de diretor é visível, dá pra "sentir" que tem dois cérebros e quatro mãos operando a obra. Por um lado temos sim um filme mais derivativo e que tenta achar sua própria voz, por outro temos também a constante validação do John Wick, seja na persona do próprio, seja no emular todo o estilo de ação característica da saga.
Porém, por um desses milagres que só o cinema pode proporcionar, essa visão híbrida do filme ajuda a compor a personagem central e a sua busca por uma identidade própria. De um lado, temos essa moça pequena e aparentemente frágil, que sangra os pés dançando balé, que sente saudades do pai, busca vingança e até mesmo vê no John Wick um exemplo, quase que justamente uma validação paterna. Ela quer ser como ele, mas para vingar seu pai biológico.
Mas de um outro lado, ela é mulher, jovem, ainda inexperiente e impulsiva, que gosta de improvisar pelo caminho. Enquanto o John Wick é mais sereno e elegante até na violência, ela é mais explosiva, bruta, é quase um trem saindo dos trilhos. Mas isso não é uma crítica, ela apenas está buscando seu próprio estilo e voz na arte da violência.
Chega a ser um contraponto interessante dela com ele, Eve utiliza métodos menos sutis, mas também eficientes. "Lute como uma garota", aconselham a ela. Então ela explode caras, dá marteladas em rostos, crava patins no crânio, destrói um viralejo com um lança-chamas (cena espetacular, por sinal). Essa é a força de uma garota, que poderia ser facilmente subestimada, foda!
A cubana Ana de Armas, uma das atrizes mais badaladas do momento, entrega muito, uma força bruta quebrando paradigmas em contraponto com sua fragilidade. Versátil, Ana coloca todas suas "Armas" na mesa - perdão o trocadilho rsrs - e dá conta das intensas cenas de ação, novamente muito bem coreografadas.
Apesar de imperfeito e não trazer nada de novo, Bailarina traz um elenco competente, liderados por uma protagonista que incendeia a tela. Dentre golpes e matanças, a protagonista e o filme bailam juntos em busca de uma identidade. E quando a encontram, só resta curtir o terceiro ato deste balé mortal.
Nota: 8
O Esquema Fenício
3.1 85 Assista AgoraEu amo como o Wes Anderson pensa e executa o cinema. Ele é um desses cineastas autorais, que tem uma visão artística muito própria e que se recusa "a vender a alma pro Diabo", digo, ele se recusa a perder sua essência artística por causa de todo o dinheiro hollywoodiano.
Acima de autoral, ele é dessas personas raras que faz um trabalho de artesão de fato. Literalmente toda a mise-en-scène parece feita à mão: do cabelo e penteado, passando pelo figurino, a direção de arte arrojada, o set, a iluminação, o excelente trabalho de fotografia, até mesmo no uso de efeitos especiais práticos, com máquinas, cortes rápidos, efeitos de transição e aceleração de câmera, até mesmo engenhocas, tudo feito de forma que beira o caseiro, mas também com requinte de quem sabe fazer cinema.
Aqui em O Esquema Fenício, primeiro filme do Wes Anderson que consegui assistir na tela grande, ele faz aquilo que já fez antes. Para quem já conhece o trabalho dele e espera alguma renovação, pode se decepcionar, pois seus últimos filmes realmente foram todos meio parecidos nessa fórmula de termos personagens excêntricos numa situação aparentemente mundana, mas que é apresentada como uma caricatura, enquanto a câmera centraliza seres e objetos com um preciosismo estético e exuberante.
A fórmula não muda, mas é notável como Anderson mantém sua essência. Apesar do baixo orçamento, o filme mostra seu valor não apenas nesta estética impecável que mais parece uma obra de arte saída de outro tempo, outra época. Para além disso, o diretor agrega valor em sempre trazer um numeroso elenco, de dar inveja em muito filme de grande orçamento.
Benicio del Toro está bem, como sempre. Michael Cera ressurge hilário como há muito não se via. Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlett Johansson, Willem Dafoe e Bill Murray são coadjuvantes de luxo. Aliás são tantos bons atores que chega a faltar tempo para que todos brilhem adequadamente, às vezes você sente que tal ator/personagem poderia ser melhor utilizado.
Mas a grande surpresa é a Mia Threapleton (filha da Kate Winslet) como uma hilária freira. Que atuação engraçada, doce e controversa. Mas controversa de forma sutil.
Anderson repete sim a sua fórmula, e não é dos longas mais hábeis e perfeitos desse diretor. Mas diante um mar de mesmice e na falta de artistas com personalidade forte, o cineasta segue criando seu próprio "wesandersonverso" sem nunca trair aquilo que ele considera cinema e arte. Essa visão excêntrica, agridoce, artesanal, rústica, às vezes infantil, às vezes maliciosa de se contar uma trama banal e ao mesmo tempo lúdica.
É um tipo de filme que já não cabe mais nos tempos atuais, tempos estes tão dinâmicos e artificiais. E é justamente por isso, que esse tipo de filme contracorrente, imaginativo e desafiador se faz tão importante.
Nota: 8
Catarina
4.0 1O cineasta Al Vargas, também um amigo pessoal, faz deste seu debut uma ode ao amor sincero, ao romance shakesperiano e ao cinema, aplicando cinematografia, trilha sonora e texto com simbolismos clássicos, de forma naturalista e atual. Homenageando a cidade de São Lourenço do Sul através da fotografia, paisagens, comércio local e cidadãos comuns, narra-se aqui o nascimento do amor. Amor este mundano, digo palpável, mas tratado com o carinho que merece.
Qualquer limitação de orçamento, tempo e deslocamento é superado com um olhar crítico de quem ama o cinema e sabe a quem referenciar. Nos créditos finais, o texto exibe quantos empregos locais o projeto gerou, de forma bem destacada. Al Vargas sabiamente saliente que cinema, além de arte, é trabalho duro, e fazer um filme ainda é muito difícil no nosso país. Acima de qualquer coisa, Catarina é um lembrete da capacidade de se fazer cinema e arte no nosso país, e no nosso Rio Grande do Sul.
Assistido em 21/04/2025 na estreia especial no familiar Cineart, de Pelotas.
Pecadores
4.0 1,2K Assista AgoraSinners (Pecadores) é uma obra-prima, já nasce como um clássico instantâneo, é o primeiro grande filme americano/hollywoodiano de 2025 e um dos maiores dos últimos anos. Eu tinha algumas expectativas, mas foram superadas em muito. É o tipo de filme que me lembra do porquê eu amo o cinema por toda a minha vida. É cinema transcendental, mas transcende em um nível espiritual mesmo.
Filmes como ele surgem somente de tempos em tempos, o que eu costumo chamar de um milagre cinematográfico: um filme de grande estúdio, uma superprodução de grande orçamento, mas que se nega a ser apenas mais um produto comercial, impondo uma luz artística muito bem definida e executada. Isso sem sacrificar a experiência cinematográfica, ainda é um filme de fácil acesso e compreensão para quase todos os dispostos, embora requeira uma certa bagagem cultural e social para se apreciar o todo, mas que nunca subestima a inteligência do público, que apesar de assumir ser uma obra de gênero bem definida, aqui o terror, nunca é bobo ou infantilizado. É um filme adulto, digo, para gente grande mentalmente.
Ao trazer um dos maiores clichês do gênero, vampiros, o excelente diretor Ryan Coogler faz aquilo que mais amo no cinema: múltiplos e pequenos filmes complexos dentro de um grande filme aparentemente simplista. É até difícil explicar isso, só assistindo para entender, que dentro de um filme simples habitam inúmeras complexidades habilmente costuradas no excelente roteiro.
Por um lado, Pecadores lembra pequenos detalhes de vários outros filmes. O bar diabólico de Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, onde lá nesse clássico já se falava sobre cultura ancestral, no caso mexicana. Também dá para citar Django Livre do Tarantino e a força da resistência preta. Poderia ainda lembrar do esquecido Vampiros de John Carpenter e a busca por vingança em uma espécie de "faroeste vampírico moderno". No drama Moonlight de Barry Jenkins, há a busca por pertencimento. Em Corra!, Nós e Não! Não Olhe!, Jordan Peele trabalha com terror racial e social de uma América dividida.
Por fim, os próprios filmes anteriores do Ryan Coogler trabalham com a vivência de um homem preto em um "mundo branco", seja no drama social Fruitvale Station, em um atleta negro ocupando o espaço de uma lenda no filme do Creed (sucessor do Rocky Balboa), ou até mesmo naquele afrofuturismo do Pantera Negra, não por acaso, os filmes com mais vida e mais elementos verdadeiramente cinematográficos de toda a Marvel.
Em Pecadores, tudo isso é amarrado, o que poderia resultar numa "salada de frutas" que não daria certo. Mas nossa! Tudo simplesmente dá certo com maestria e precisão. Graças a um roteiro que simplesmente unifica tudo com naturalidade à partir de situações simples que circulam o cotidiano da vivência do negro americano da década de 30, em um Sul segregado, com a Ku Klux Klan matando minorias, o filme funciona em cada esfera a que se propõe tratar.
E repito, em nenhum momento deixa de ser um grande filme de gênero, digo, terror e ação, com direito a banhos de sangue e uma surpreendente sensualidade, seja na química do elenco, seja em alguns diálogos safados engenhosamente bem escritos, que só dão mais nuances às personagens. Por trás de toda tragédia, é um filme que pulsa vida, pulsa tesão, pulsa alma.
Michael B. Jordan torna-se cada vez mais um dos grandes astros da nova geração, e aqui em dose dupla, dá nuances para cada um dos gêmeos. A maneira como lida com a violência, por exemplo, ou mesmo com cada uma das suas mulheres, ele tem uma dinâmica diferente, e muita química com ambas. Aliás, tanto a Hailee Steinfeld quanto a Wunmi Mosaku estão maravilhosas, cada qual como o coração e contraponto da balança emocional de cada um dos gêmeos. Ainda destaco o novato Miles Caton e o veterano Delroy Lindo, esses servindo como elo geracional para um outro elemento muito importante no filme, na verdade o maior: a música.
Além de fazer um malabarismo inacreditável de trabalhar tão bem com tantas temáticas sem se repetir ou deixar o ritmo cair, o que se faz aqui é na verdade uma obra que fala sobre sonhos, desejos, senso de pertencimento, música, herança cultural, espiritualidade e ancestralidade africana. É sobre o preto trazido da África escravizado, depois "liberto", mas segregado, caçado e morto. Esse preto que precisa de uma válvula de escape, um lugar para celebrar suas raízes e existência. Sobre como o branco acaba admirando e consequentemente roubando (se apropriando) dessa cultura, essa música, essa herança.
" - Eles adoram nossa música, mas não gostam de quem a faz.", diz o personagem de Delroy Lindo. É um filme de vampiros incrível. Mas não é sobre isso, é sobre esse vampirismo/parasitismo cultural e social do homem branco que insiste em separar o negro, em não deixar "ele entrar" (parafraseando o misticismo do vampiro), e que suga e mata. Mas que também existe esse ponto de virada onde o vampiro mítico não é o único monstro, quando há os supremacistas brancos no mundo real.
Há outros povos originários ou imigrantes, como nativo americanos e chineses, que assim como os negros, também são renegados, deixados de lado, são "pecadores", conforme o excelente título do filme sugere, todos aqueles que fogem do senso tradicional de uma sociedade branca, é julgado como um pecador, alguém que está com o Diabo. O que esquece-se é que na maioria das vezes, o pecador tem sua razão, dependendo da carga de vida e cultural de quem julga. Ainda sobre o título, também brinca-se sobre como todos pecam e em algum momento, dançam de certa forma, com o Diabo. Isso pode ser libertador, ou talvez uma maldição.
Caberá a você julgar tudo que está sendo mostrado.
Ryan Coogler cria um épico de terror emocionante, lindamente filmado e fotografado, divertido, sagaz nos comentários, safado e sexy no ponto certo, onde começa lento e vai queimando, até tudo pegar fogo. Suor, sexo e sangue em forma de grito de resistência, de desespero, de injustiças e por fim, também de orgulho e esperança. Além da maravilhosa trilha sonora do sueco Ludwig Göransson, penetrante em cada cena, a música de matriz africana, mais precisamente o Blues, talvez seja a grande protagonista e verdadeira narradora desse conto.
É a música que canaliza e liga espiritualmente à todos, seja para a luz ou para as trevas. O Blues é literalmente um guia espiritual nessa jornada. É em uma canção no meio do filme, onde tudo muda e tudo pega fogo, que todos os pontos centrais da obra se encontram, a ancestralidade aflora, a felicidade e os desejos extrapolam, as trevas surgem, o concreto e o abstrato coabitam no mesmo espaço-tempo, numa verdadeira aula de cultura, história e luta, em uma das mais belas e arrepiantes cenas que tive o prazer de ver no cinema recente.
É uma experiência para ser assistida no cinema, é lindo e empolgante, e vá com a mente aberta. É uma experiência cinematográfica completa e recompensadora, que transcende as telas e fica acompanhando você após a sessão. Isso é raro. Isso é cinema de verdade.
Nota: 10
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraMeses depois de ter me emocionado, voltei aqui só pra dizer:
Devidamente Oscarizado e aclamado mundialmente.
O Brutalista
3.6 307 Assista AgoraBrutalismo: estilo arquitetônico pós-guerra, ancorado principalmente na suntuosidade das formas geométricas, e principalmente, a crueza, a frieza e o cinzento do concreto bruto. Assim é o filme.
Épico de 3 horas e meia de duração, com um elegante intervalo de 15 minutos, remetendo um cinema à moda antiga que não se faz mais, O Brutalista me impressionou muito mais do que imaginei que iria.
Atuação formidável de Adrien Brody, que vive aqui László, um visionário arquiteto húngaro/judeu, que imigra para os Estados Unidos em busca do tão vendido "sonho americano", enquanto lida com seus traumas do holocausto, vícios e fraquezas.
Seu estilo brutalista de trabalhar traz esse cinza do concreto, remetendo à frieza dos campos de concentração.
Seria justo dizer que ele é o favorito ao Oscar de Melhor Ator, em um desempenho tão complexo e poderoso quanto aquele que já rendeu o prêmio ao ator, em O Pianista. Em ambos filmes, Brody dá vida com maestria a um homem solitário e quebrado, que busca na sua obsessão pela arte, a força para encarar a crueldade da humanidade. Me identifico com tais personagens.
Na metade final, a sempre ótima Felicity Jones entra como o coração do filme. A mulher forte por trás do homem genial, aquela que de fato conhece as camadas complexas daquele arquiteto. Mas uma mulher também ferida pela guerra, por uma doença, por ser imigrante em um país que na verdade quer a mão de obra, mas não o indivíduo em si.
No final das contas, O Brutalista é sobre seres "brutalizados" pela humanidade, explorados por suas habilidades profissionais, mas negados como indivíduos. No início, na chegada na América, vemos a Estátua da Liberdade de cabeça para baixo. Excelente metáfora para esse país, que vende esse sonho americano de sucesso e liberdade, mas que é tudo invertido na prática. De chegada, László já fica impactado de como os Estados Unidos trata o próprio povo americano, como negros e pobres passando fome.
A direção de Brady Corbet é perfeccionista, por vezes morosa e pesada, opressora. Ele quer fazer do filme, sua peça de "concreto bruto", na forma como cadencia os acontecimentos, principalmente aqueles mais chocantes. A espetacular trilha sonora ajuda nessa construção de "grandiosidade" versus o realismo cru.
Assim, O Brutalista é aquilo que ele referencia, é um filme difícil, longo, denso e pesado, tal qual o concreto bruto. Tal qual uma América exploradora e arrogante, que vende no seu marketing muitas formas geométricas, mas que estilhaça sonhos e seres. Concreto esmagando corpos e almas.
Flow
4.2 576Há algo de místico e enigmático em Flow.
É uma animação de orçamento modesto feita no Blender (software de baixo custo), do jovem cineasta Gints Zilbalodis. Só aí já é um feito impressionante perto das animações de grandes estúdios. Representando pela primeira vez a Letônia no Oscar de Melhor Filme Internacional e favorito a ganhar o Oscar de Melhor Animação, Flow carrega nas suas belas imagens uma força da natureza. Isso é primordial para a obra, visto não ter diálogos.
Ao retratar um gato e outros animais sobrevivendo em uma inundação cataclísmica, o filme utiliza da imagética para ressiginicar várias crenças, dilemas e medos que permeiam a mente humana. Mas faz isso com animais agindo como tal, sem os tornar humanizados demais.
Gints cria uma obra com conceitos muito poderosos. A criançada até vai se encantar com as aventuras dos bichinhos, mas são os adultos que terão o maior deleite com o longa. É rico visualmente e traz na sua camada mais simplista, lições de esperança, luta e trabalho em equipe. Mas nas suas camadas mais profundas, é um filme que levanta questionamentos mais complexos.
Remete à elementos bíblicos ou proféticos ao trazer um dilúvio pós-apocalíptico. Já não há mais humanos, apenas a natureza tomando conta de lugares onde outrora existiram civilizações. Aqui no universo do filme, teria o homem já se exterminado, sobrando apenas os animais? É um prenúncio do nosso fim? Seria um reinício da mãe natureza?
A baleia mística, diferente das baleias que conhecemos, causa fascínio e medo numa mesma intensidade no nosso protagonista gatuno. Está ali implícito: nossos medos nos impulsionam. Note que cada animal é de um lugar diferente do mundo, reforçando assim a mensagem universal da obra, tanto nessa parábola sobre a mãe natureza ser uma só, quanto nesta universalidade dos medos e sobrevivência de todos os seres.
Há também aquela passagem magnética espiritual, fora que o pássaro secretário do filme, em algumas culturas, também possui um folclore espiritualizado. A água, agente do medo, também é um agente de purificação. O nosso herói é um gato preto, um ser muitas vezes ligado à superstições. Por fim, o ciclo da vida representado pelo elo da vida e da morte.
Flow é emocionante, belo e por vezes assombroso. É daqueles raros exemplos de filmes que transcendem a tela do cinema. Há algo mais ali, algo que vai te acompanhar. É uma experiência sensorial. A arte mais poderosa é aquela que muda ou toca alguma coisa na nossa mente e no nosso coração.
Nosferatu
3.6 942 Assista AgoraUm conto sobre desejos.
Talvez como um conto do Nosferatu, Conde Orlok, ou Conde Drácula, o nome que você preferir, essa nova adaptação dirigida pelo perfeccionista Robert Eggers não chega a desconstruir a mitologia, tampouco reinventa a roda. Isso pode frustrar alguns que esperam uma novidade.
O que me ganhou nessa versão é essa obsessão estética atmosférica que Eggers orquestra com maestria, um verdadeiro artesão ao recriar épicos sombrios, vide A Bruxa, O Farol, O Homem do Norte e este Nosferatu. Quatro obras em uma curta carreira até aqui, quatro cinematografias impressionantes. Já dá para chamá-lo de rei da atmosfera e do gótico moderno.
A preciosidade estética é tão impecável que chega a ser opressora, implacável, tal qual o próprio Nosferatu. Quase dá para sentir o mau cheiro dos ratos e cadáveres, as texturas dos figurinos de época, a pedra fria dos velhos casarões. Os ângulos de câmera, a fotografia e a trilha sonora bem conduzida ajudam a criar toda essa mise em scène obscura e intensa. Grande trabalho vocal de Bill Skarsgård e excelente entrega física de Lily-Rose Depp, papel dificílimo.
Para além da técnica, Eggers costura as motivações de todas personagens com o mesmo elemento: o desejo. E é aí que o cineasta tenta dar sua própria pegada. A luxúria, a cobiça, a obsessão pela posse, a fome, a busca por algo. Todos correm incessantemente atrás de um objeto do desejo.
Thomas quer riqueza, deixando sozinha Ellen, que possui um distúrbio sexual que a deixa em chamas, o que atrai Orlok, que quer possuí-la e quem sabe alcançar uma amante eterna, e assim por diante. Até os coadjuvantes possuem suas vontades irredutíveis.
Loucura, manipulação, descrença, vergonha, medo e impulsos se entrelaçam. Nesse romance gótico intenso, com vertente psicosexual, possuir significará perder, e todos sucumbem diante os seus próprios desejos.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraCinema Memória
Ainda Estou Aqui é o novo longa brasileiro de Walter Salles (Central do Brasil). Já passou por vários festivais de cinema pelo mundo, ganhando prêmios, é forte candidato ao Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional, e é realmente tudo que a crítica anda falando, e muito mais.
Um dos mais importantes filmes nacionais dos últimos anos, atual líder de bilheteria no Brasil e uma aula de se fazer cinema, é um drama com uma grife técnica, superior a muita coisa que Hollywood anda fazendo inclusive. Mas sem deixar de ser tupiniquim, de trazer toda uma brasilidade cultural e cênica.
Acima de tudo, é o melhor tipo de cinema, o cinema memória. Que fotografa um período da história, que não deixa esquecermos de um capítulo horrível de nosso país, que busca redenção para aqueles que foram silenciados, que rememoriza a felicidade de uma família despedaçada. Que resgata pessoas, humanos, indivíduos que não merecem serem esquecidos.
Fernanda Torres é uma força da natureza. Em um tour de force transcendental, Torres incendeia a tela com uma entrega carregada de simbolismos, de um humanismo dilacerante. Eunice Paiva é o retrato de uma mulher corajosa e resiliente, que resiste ao sistema opressor "da arma e coturno", que transforma dor em luta. Em nenhum momento ela explode de fato. A dor fica na garganta, mas não sai. O choro é no olhar, o grito é silencioso. A sua missão é primeiro proteger os filhos, mas após isso, uma vida dedicada aos direitos civis, especialmente dos indígenas.
A ditadura militar destruiu ou oprimiu milhares de famílias. Aqui temos a realidade de apenas uma dessas famílias, e já torna-se inadmissível constitucionalizar a barbárie, burocratizar o assassinato, a tortura e a desumanidade. E pensar que "mitos" (mentiras) modernos defendem o indefensável.
Walter Salles dirige com firmeza, com uma câmera nervosa como que querendo nos trazer uma imersão daquela família feliz, daquele Rio de Janeiro ensolarado, da bela recriação dos anos 70. Após isso, sua câmera mais estática nos faz confrontar a tragédia, o frio, pelambulando o vazio dos cômodos da casa.
Selton Mello, sempre absurdamente carismático, nos ganha o pouco que aparece, para daí Fernanda Torres brilhar e comandar a obra. E Fernanda Montenegro, nos minutos finais, nada fala em palavras, mas muito grita no olhar, nas sutilezas, na luta por lembrar literalmente, por causa do alzheimer. O filme em si, assim como ambas Fernandas, representam bem o país: gigantes pela própria natureza.
Ainda sobre o resgate da memória, o cinema é o registro de seu tempo, o estudo de tempos passados e não erroneamente, acerta muito sobre o futuro. Assim como a família Paiva faz fotos e vídeos como recordação, a sétima arte busca essa reconciliação entre "o ver e o gravar", o registro daquele tempo e espaço particulares, afim de não esquecermos.
Extremamente espetacular e emocionante, um filme importante e atual, uma das melhores obras de arte de 2024, que chega ressoando a força do cinema nacional e um lembrete de que vozes de resistência não serão silenciadas. Ainda estaremos aqui.
Na minha sessão em Pelotas: sala lotada, silêncio respeitoso, e ao final da projeção, lágrimas e aplausos. Uma das grandes experiências cinematográficas da vida.
Cinema memória, cinema histórico, cinema denúncia, cinema resistência. Cinema.
Obra-prima.
Nota 10
Doctor Jekyll
1.9 3Existe um bom potencial, inclusive ao tecer comentários sociais. Mas falta técnica e bom roteiro. Ruim.
Saudades da Hammer ❤️
Hellboy e o Homem Torto
2.2 127Não considero nenhum dos filmes dessa franquia uma total perda de tempo, sinceramente, esse universo é sempre minimamente interessante. Aqui nesse novo longa, conceitualmente, fazer uma obra de baixo orçamento voltada para o terror escapista, aliada a uma fidelidade mais simplista do personagem nos quadrinhos, é sim muito interessante.
Não é de todo ruim, tenta transpor um terror orgânico, com elementos do folk horror e de bruxaria. Tampouco sente-se falta de ação e efeitos especiais caros, quando aceita-se a proposta. O "menos é mais" cai bem aqui. Embora o geralmente alucinado Brian Taylor faça filmes frenéticos e surtados, aqui ele está calmo até demais, com uma "barriga" e falta de ritmo na fita.
Às atuações são fracas, Jack Kesy até tenta, mas o protagonista é meio apagado. Mesmo tentando-se emular um Hellboy investigador com estilo suspense à la noir, o roteiro e a direção não trabalham bem os personagens e ambientação, resultando em um filme com simbolismos de terror até bons, mas sem força devido a falta de atmosfera.
Nitidamente a deculpagem, a edição e montagem das cenas foram feitas às pressas, resultando em uma obra amadora, quase um fan filme. Quase porque é um orçamento baixo para o personagem, mas nem tanto para uma obra independente. Os cortes bruscos ou com transições anticlimáticas às vezes parecem de um piloto de uma série para TV.
Hellboy e o Homem Torto acerta na tentativa válida de terror e fidelidade com a HQ, não chega a desrespeitar o personagem, mas é levemente inferior ao outro reboot de 2019. Aquele ao menos se utilizava de um estilo mais abusado e "revoltado" (palavrões, sangue, heavy metal). Mas ambos são inferiores às belas duas primeiras adaptações do Guillermo dele Toro, cheias de poesia, efeitos bonitos e virtuosismo.
Quem sabe um dia receberemos o cancelado último filme do del Toro, para o mestre finalizar sua trilogia. E falando em esse aqui parecer um piloto de TV, também cairia bem uma série live-actiton nas mãos de uma produtora decente, quem sabe na HBO, Apple TV ou Prime Video. Sonhemos.
Nota: 5
Duna: Parte Dois
4.2 861 Assista AgoraDuna - Parte 2
This is cinema! (Martin Scorsese)
Épico, monumental, de tirar o fôlego. Uma aula de como se fazer cinema. Beleza e fúria transcendentes em imagem e som.
Por muito tempo, os livros de Duna de Frank Herbert foram considerados infilmáveis, tamanha complexidade. Mas o filme de 2021, no qual defendo muito, conseguiu trazer de forma palpável a atmosfera e densidade necessárias, por mais que seja uma obra incompleta, que serve apenas de introdução e contemplação à este universo. Meu medo era a continuação trazer apenas uma ação genérica e um desfecho apressado. Mas o que Denis Villeneuve faz é dobrar as apostas em tudo.
Efeitos especiais perfeitos, trilha sonora ensurdecedora e ação arrebatadora marcam presença. Mesmo assim, Villeneuve não simplifica nada, e o roteiro, as atuações, a complexidade e a urgência são elevadas ao máximo, em um dos filmes mais impactantes do cinema recente. É uma experiência elaborada para a tela grande e imersiva do cinema. Cada frame é pensado e enquadrado para o cinema! A direção de Villeneuve, a fotografia de Greig Fraser e a trilha sonora de Hans Zimmer trabalham em uníssono. São três deuses, três mestres no seu ápice.
Timothée Chalamet e Zendaya retornam liderando com convicção. Ele passa a insegurança de alguém franzino que teme o poder, mas que precisa tomar decisões difíceis que afetarão a todos. Ela passa a postura de guerreira, mas que duvida da profecia de se crer nesse salvador. A maravilhosa Rebecca Ferguson segue enigmática, roubando a cena com a personagem mais complexa da trama. Austin Butler é uma adição arrebatadora como o grande inimigo do protagonista, um vilão sádico e assustador, quase um "Coringa do espaço". Todo o elenco é estelar, coisa linda ver uma obra que não desperdiça um elenco desses, todos entregando muito.
Política, fanatismo religioso e a crença em um messias acabam sendo o ponto de partida para alegorias interessantes, sobre massas de manobra, genocídio, falsos messias e interpretações proféticas distorcidas, de acordo com a ambição de quem estiver "enxergando" o milagre. Tudo é denso, não existem saídas fáceis e o roteiro não nos poupa nada.
A contemplação, o peso das máquinas e vermes gigantes, o retumbar das explosões e corpos caindo, o som das partículas da areia ao vento, está tudo ali, mas com mais impacto do que nunca. Cinematografia espetacular, montagem frenética e crescente, é cinema bruto e puro exercício da imagética.
Uma ficção científica que marcará a nova geração e converterá muitos jovens em cinéfilos. Um milagre cinematográfico de crítica e público, um exemplo do porque a sétima arte é tão poderosa e sempre irá sobreviver. Oscar 2024 ainda nem aconteceu, e já temos o primeiro grande candidato ao Oscar 2025.
Cinema não fica melhor, não é mais cinema do que isso aqui. Um dos grandes filmes de 2024!
Nota: 10
O Menino e a Garça
3.9 329Novo filme do Studio Ghibli e do lendário Hayao Miyazaki, é mais uma obra inventiva narrativamente e linda visualmente, belamente rabiscada e animada.
Ao lidar com temáticas como amadurecimento, luto e perdão na infância, Miyazaki orquestra um anime maduro, mas que mantém o imaginário lúdico.
Existe um humor tragicômico presente em algumas cenas um tanto excêntricas, mas que são balanceadas com passagens emocionantes, conforme o protagonista vai se aprofundando nesse universo fantástico - e se auto descobrindo no caminho.
O roteiro não traz um vilão declarado, mas situações difíceis que precisam ser desenroladas, exigindo decisões e consequências. No mundo de fantasia, paradoxos são criados com o mundo humano real.
O Menino e a Garça será o provável campeão na categoria de Melhor Animação no Oscar 2024. E não é para menos. É mais um lembrete de como o cinema é uma linguagem e expressão artística universal, furando a bolha de Hollywood e dos Estados Unidos. Viva o cinema internacional.
Nota: 9
Anatomia de uma Queda
4.0 978 Assista AgoraAnatomia de Uma Queda
Ou, anatomia de uma relação falida. Ou, anatomia de um relacionamento tóxico. Ainda em tempo, anatomia de como julgamos o outro.
Ele caiu, se jogou ou foi jogado? Pouco importa! O que a potente diretora Justine Triet deseja aqui é dissecar, desmembrar, colocar uma lupa em como nós, expectadores (um júri), julgamos aquilo que só sabemos superficialmente, muitas vezes cegos por ideias pré-concebidas. Desconhecemos no próximo aquilo que ele enfrenta entre quatro paredes.
Espetacular atuação de Sandra Hüller, madura, complexa e que abriga camadas.
Camadas estas que vão sendo descascadas conforme o roteiro costura a anatomia da obra. A direção de Justine e a atuação de Sandra são um combo e um grande lembrete da força feminina, diante e atrás das câmeras.
Fotografia belíssima e passagens tocantes contemplam esse thriller dramático, sempre sofisticado e pungente. Uma obra densa, difícil de digerir e que merece a aclamação que vem recebendo desde o último Festival de Cannes.
Obs: melhor atuação canina de 2023, tem uma cena de apertar o coração.
Nota: 9
Zona de Interesse
3.6 698 Assista AgoraIgnore o mau, e torne-se parte dele.
O drama de Jonathan Glazer talvez até careça de um pouco de ritmo na sua metade final, mas talvez este seja um dos mais aterrorizantes longas feitos recentemente.
Acompanhamos uma bela família cuidando da sua vida, das crianças e do jardim. Eles são nazistas, vizinhos de um campo de concentração. Eles ignoram gritos, fumaças e sinais do horror ao seu lado. E apesar de se passar no holocausto, ele é sobre algo mais. Sobre nossa inércia diante toda forma de crueldade.
Ora, se eu tenho que trabalhar, horários à cumprir, sustentar a família, cuidar de um familiar doente; se estou cansado, com contas à pagar, dentre outros compromissos, porque me importar? Se não faço parte de uma minoria, grupo étnico, religião ou núcleo que está sofrendo algum tipo de violência ou perseguição, porque me posicionar?
Mas ao ignorar as trevas ao meu redor, racismos, preconceitos, abismos sociais, não estou sendo negligente, perpetuando a maldade? Ao ignorar a dor alheia, não estou fazendo parte da opressão?
É fácil cuidar da própria vida, enquanto o mau cresce ao nosso redor. Difícil será não ter culpa, não fazer parte das trevas que nos negamos a lutar contra.
Zona de Interesse é sobre a banalidade da decadência humana. E essa banalidade está mais perto do que nunca, disfarçada sob um véu de família, fé, patriotismo, dentre outras coisas.
Ignore o mau, e torne-se parte dele.
Nota: 9
Vidas Passadas
4.1 949 Assista AgoraEm 'Vidas Passadas', surpreendente longa de estreia de Celine Song, somos envolvidos em uma trama sutil e delicada, sobre reencontros, lembranças e questionamentos sobre as probabilidades. E se?
Dois amigos de infância se reencontram anos depois, reacendendo nostalgia, saudades, senso de pertencimento e leveza. Um causa no outro sensações outrora perdidas, ou ignoradas. Mas hoje, cada um tem sua vida e relacionamentos. Tal reencontro é um esbarrão, um nó, uma probabilidade no espaço-tempo no microcosmo de cada uma de suas personas.
Na vida, temos contato com certas almas que não conseguimos ficar juntos, mas elas sempre serão uma parte importante do que moldou nossa jornada. São nós impossíveis de desatar ou ignorar. Mas isso não significa que serão parte do nosso futuro. Reencontros não são necessariamente uma ressignificação do passado.
Um dos filmes mais delicados de 2023, uma história de amor que foge do óbvio e te transporta para uma reflexão introspectiva sobre aqueles que tocaram a sua vida até aqui, nessa parte da sua, e da minha jornada.
Excelentes atuações, cinematografia naturalista e decupagem enxuta contemplam as características técnicas desta pequena gema.
Nota: 9
Pobres Criaturas
4.1 1,3K Assista Agora'Pobres Criaturas' é brilhante, ousado, excêntrico, surrealista, sensual, teatral, ácido e ultrajante.
Emma Stone é uma força da natureza, em um tour de force espetacular. O roteiro é muito bem costurado, fazendo críticas ácidas à sociedade de forma pouco convencional, em um humor sem pudor e que flerta com o bizarro.
Fotografia, figurino, direção de arte e toda mise en scène trazem um lúdico e teatral lindo de se ver em cada frame. E a trilha sonora é uma das mais marcantes da temporada.
Sexo e a arte: é impressionante como os filmes estão cada vez mais infantilizados e pasteurizados. E nisso, muito se fala sobre não precisar ter cenas de sexo nas obras. Tolice. A arte (livros, filmes) abordam todos os periféricos da vida, incluindo o sexo. Ele e os corpos nus existem, estão presentes o tempo todo, afinal a humanidade vem à existência através disso. É bizarro como colocam tabu em algo que todos buscam.
É aí que filmes como 'Pobres Criaturas' se tornam importantes, indo na contramão e utilizando a sensualidade como porta de discussão para vários aspectos, como a liberdade sexual feminina, e em como isso está ligado à busca por uma identidade e lugar no mundo.
Uma mulher livre sexualmente e socialmente, com opinião própria e livros (conhecimento) na mão, amedrontam os homens e a sociedade que eles tentam conservar.
'Pobres Criaturas' é genial, um dos melhores filmes de 2023 e um dos mais fortes concorrentes nessa temporada de Oscar.
Nota: 10
Succession (4ª Temporada)
4.5 251 Assista AgoraObra-prima!
Os Fabelmans
4.0 431The Fabelmans
Aos 76 anos de idade, com mais de 50 de carreira e quase 40 longas como diretor (fora as dezenas como produtor), Steven Spielberg já não deve mais nada ao cinema. De Tubarão a E.T., de Indiana Jones a Jurassic Park, de A Lista de Schindler a O Resgate do Soldado Ryan, para citar apenas alguns, Spielberg é um dos mestres da manipulação de emoções, tensão e pura magia cinematográfica.
Mas com seu novo filme, ele usa a fictícia família Fabelmans para narrar sua própria biografia, sua infância e seu amor pelo cinema. Aqui, ele não revela apenas a si próprio, mas também coloca seus pais diante do reflexo do espelho.
Nostálgico, com aquela magia do mestre, ao mesmo tempo é triste e introspectivo. De sua obsessão quando criança, passando a ser sua paixão quando mais velho, Sam (ou Spielberg) encontra seu refúgio atrás da câmera cada vez que a vida machuca. Seja pela relação conturbada de seus pais, ou por sofrer perseguição na escola por ser judeu, cada vez que ele está quebrado, é no fazer cinema em que ele se reconstrói.
Algumas verdades são ditas àqueles que amam a arte: ela dá frutos, mas também causa solidão. O tio avisa: "família, arte, isso vai dividir você." De certa forma o filme mostra que quem vive pela arte precisa fazer sacrifícios inevitáveis.
Isso é brilhantemente retratado pela figura da mãe, Mitzi, que tem uma fome de arte, de viver, é um estado de espírito que Sam (Spielberg) herdou. A mente criativa de Mitzi, lindamente atuada por Michelle Williams, é tão eufórica quanto desesperada, talvez aguardando uma espécie de milagre, um milagre que somente a arte pode suprir.
Com carga emocional, The Fabelmans é sobre o amor à arte, ao cinema, à família. E é sobre a dor da vida que habita no meio desses amores. Com atuações impecáveis, duas participações especiais de deixar um sorriso no rosto, tecnicamente perfeito em imagem e som, Spielberg faz o seu Cinema Paradiso (que por sinal é meu filme favorito), mas com suas próprias percepções da vida, retratada sob as lentes da câmera.
É difícil não me identificar. Amar a arte não é um hobby, é um estado de espírito: lindo, excitante, solitário e devastador.
Nota 10