Honestamente, gostaria de ter tido uma experiência melhor com o filme, mas não foi o que aconteceu. Achei ele bastante interessante em alguns pontos, mas acabei perdendo interesse a cada cena de Making Off que aparecia e a medida que o filme levantava questões pertinentes e rapidamente as deixava de lado (um exemplo é a questão do culto The Woods, mesmo tendo sido explorado no final, foi de forma bastante pobre), acho que esperava um filme mais voltado para uma degradação relativa a inexistência de caráter e moralidade por parte do Host e em como o foco nessa paranormalidade, cenas "assustadoras" acabaram me tirando do filme, não nego que a cena final é muito boa mesmo e que as discussões entre ceticismo e sobrenatural tem um quê de instigante, mas nada se segura por muito tempo e rapidamente fui me entediando e como consequência me desconectei com o longa. Talvez porquê esperava algo e o filme tinha outra proposta, talvez porquê ele realmente teve problemas de condução, de qualquer modo, tem pontos interessantes e uma inventividade em lidar com características da trama de maneira bastante única, por outro lado, acaba fazendo isso de maneira bastante rasa e parece se esquivar de momentos mais decisivos e descamba para algo piegas e desinteressante.
Um dos melhores filmes do cinema e com certeza um dos maiores do Tarantino. Essa obra tem, possivelmente, uma das cenas finais mais satisfatórias do cinema, juntamente com AS cenas mais avassaladoras em termos de lidar com o acaso enquanto elemento transformador da trama e também é um dos primeiros que vi que levanta o tema da violência enquanto um desejo inerente ao ser humano e o tanto que esses atos horripilantes remontam visões bem mais filosóficas do que o filme pretende trazer, um exemplo claro é o General Hans Landa e sua estórias sobre ratos e esquilos. A violência troca de lado e moralidade como extensão também faz o mesmo, muito embora a justificativa de tal violência acabe recaindo em conceitos bem mais complexos e questões que não são tão simples quanto o filme às vezes busca trazer. O simples fato de trazer tais temas por si só já fazem desse filme um dos maiores do cinema, ainda tem uma fotografia muito característica e uma edição magistral. Bastardos Inglórios é uma obra provocadora, bem conduzidas e um dos grandes marcos do cinema.
Filme-denúncia sobre a incompetência dos aparatos de investigação da década de 70 frente a violência contra a mulher numa sociedade "moderna". Um retrato cruel, seco e visceral do mal que se agigantava num país mergulhado em violência, de homens (em sua grande maioria) doentios, quebrados e que viam seus papéis masculinos sendo gradativamente diminuídos, restando apenas os músculos e a truculência para manter poder num mundo cada vez mais plural, cada vez mais difuso. A conversa diretamente desse filme é sobre o papel feminino em sua própria emancipação enquanto indivíduo numa sociedade em progresso galopante e o véu de uma sociedade patriarcal pairando sobre todos os cantos, em todos os homens. Existe aqui diversas personas masculinas: o "amigo" inconveniente e oportunista, uma figura de poder midiático que trata mulheres como gado e se sente ofendido pela mera possibilidade de ter sua imbecilidade denunciada e um homem brutal, manipulador e muito bem articulado. São arquétipos diferentes entre si, mas todos recaem na mesma vontade de construção de personalidade: todos são homens que procuram poder em sua própria masculinidade. Suas características mais marcantes são serem homens e estarem impunes de qualquer mazela que possam gerar. Longa-metragem maravilhoso, com uma cadência boa e com cenas não só instigantes, mas muito bem construídas tanto em diálogos, estética, cenários e personagens.
Lamentável como a aura de Velozes & Furiosos parece estar contaminando outras franquias de diferentes gêneros, Premonição Bloodlines é possivelmente um dos filmes mais chatos e pouco inventivos da franquia inteira e ele precisou se esforçar para ultrapassar o quarto filme nesse quesito. Apesar de ter uma cena de abertura muito bacana e que realmente me prendeu, o restante inteiro do longa foi um sofrimento gerada por atalhos insuportáveis, tentativas pífias de construir comédia entorno de situações forçadas até para os parâmetros da saga e com personagens totalmente sem carisma. Ainda que o grande protagonista desses filmes seja A Morte (e as formas criativas e perturbadores que ela realiza seus débitos), nada me tira mais do filme do que conversas desinteressantes, conexões de cenas totalmente sem sal e momentos risíveis de tão mau elaborados. Tem seus pontos positivos (algumas construções de cenas e um bom início), uma pena a grande maioria deles serem afogados pelo restante mequetrefe do resto do longa.
Lindo do começo ao final e um daqueles filmes-lembrete de que estar vivo é apreciar tudo aquilo que é belo e vivenciar as dores da forma mais amena que o coração pode suportar. Talvez esse seja um dos filmes de animação da Pixar mais afastado do público infantil dentro da história do estúdio, mesmo tendo características típicas de uma animação infantil, o que persiste durante todo o longa é uma conversa complexa com temas diretamente interligados com o viver maduro, com a descoberta e a apreciação de um mundo inteiro imerso sob uma camada diáfana de incertezas e desejos e que, de alguma maneira, encontra seu caminho de encantamento e plenitude. Ainda que o filme parece sim um grande conto de autoajuda, nada tira seus méritos enquanto as conversas certeiras e muito bem desenvolvidas em termos poéticos, cômicos e adultos. Descrever Soul é quase uma tarefa paradoxal, não acho que esse seja um filme que cabe em meras palavras, assim como muitos outros não cabem, mas este carrega algo bastante especial dentro de si e usar a música de improviso mais bela desse mundo como mote desse centro emocional é de uma perspicácia certeira.
Já vi esse filme pelo menos umas três vezes e fui descobrir que se tratava de um filme do Pascal Laugier (Martys) só agora. Apesar das muitas falhas que esse filme contém (uma delas sendo atuações no mínimo questionáveis), a narrativa em si não é de todo ruim. É uma estória perturbadora, aterrorizante e criativa em certa medida. Tem cenas muito bem elaboradoras em termos de dinâmica gato-e-rato, trata de um ponto pouco explorado dentro de filme desse gênero que é o impacto da violência e o poder de dissociação do cérebro. O horror por si só resiste, em muitas cenas, mais no fato da fuga de uma personagem específica do que das cenas violentas em si (apesar dela serem horripilantes). Filme que se mantém até hoje em minha opinião como um dos mais aterrorizante do gênero horror, com reviravoltas bem elaboradas (e que eu particularmente nunca tinha visto em outro filme) e uma metalinguagem sobre terror e escrita.
Divertido e definitivamente irreverente dentro da temática brancos ricos ocultista tentando se perpetuar no poder enquanto brincam com a vida alheia. A construção dos personagens é bastante interessante por optar por personalidades quebradas, estúpidas e corrompidas, dando vazão a ideia de que a riqueza apodrece as pessoas e a perpetuação dessa vem atrelada a coisas aterradoras. Interessante também notar o desenrolar dos personagens Alex Danial, as razões pelas quais cada um chega em conclusões similares são bem diferentes. E a grande estrela do filme e vítima de uma família de lunáticos aristocratas tem momentos muito bons e bem cadenciados, é interessante acompanhar a batalha pela sobrevivência de uma personagem que realmente parece lutar pela vida de todas as formas possíveis. Tem algumas alegorias aqui e ali sobre esse arquétipo desses indivíduos extremamente ricos que recaem em críticas bastante pertinentes e interessante de se notarem, além de trazerem um ar cômico muitos vezes (propósito essencial do filme), levantam outros pontos mais reflexivos mesmo.
Queria dizer que amei, mas no máximo achei legal e um interessante rumo comparado ao caminho que o MCU apresentava, ainda sim, falta tanta coisa aqui pra funcionar. Me pareceu que o filme em algum momento iria aprofundar os temas apresentados e que iria entregar uma maior densidade entre os personagens, mas não. A maioria das informações e momentos de revelação acabam ficando entre o não-timing-cômico das piadas genéricas estilo Marvel e uma galhofa sem tamanho em momentos de maior teor sentimental. É curioso ver um filme que erra mesmo onde parece que vai acertar, falta substância às cenas e maior comprometimento nessa tentativa de criar algo que perambula entre os aspectos de drama e comédia. Para não ficar só na esculhambação o filme tem cenas de ação boas, apesar de previsíveis, tem coragem ao entregar e trabalhar em cima de personagens desagradáveis, mas com qualidades que vão pra além de um puritanismo tipicamente heroico, além de conseguir (em alguma medida) apresentar um mote que conduz a estória entorno de uma temática que além de muito sério é bastante atual. Uma pena que nada aqui parece conseguir sair do simples para o complexo, com isso não digo que fui buscando profundidade num filme da Marvel, mas me refiro ao fato de que ao apresentar um tema se espera progressão deste, uma progressão que consiga aos poucos acrescentar novas problemáticas e novidades, algo que se acontece, é uma maneira tão simplória que soa como uma ofensa. Ainda sim, é um material bem sólido e que de alguma forma pode ser maleado nas produções subsequentes, ainda que vá precisar de muito molho e audácia pra chegar num ponto certo, pra dar gosto de ver.
A performance, às vezes, é a vida. Que obra delicada. Que obra potente. É delicada ao tratar os temas mais sensíveis e momentos de sofrimento com tanto esmero e um carinho aparente que chega a dor na gente a dor do outro. Não é uma mera projeção de empatia, é a tentativa cru de demonstrar que o que a gente sente é comunitário, se a dor alheia não te comove você deixou de ser gente, nem bicho é, porquê mesmo na natureza selvagem, no estado bruto do ser, uma coisa segue constante: se preserva aqueles que são como você. É aqui que entra a crueldade do nosso mundo vasto e inócuo, num lugar onde ser quem você é representa a repartição entre os teus, quem vai te enxergar como igual? Ser enxotado dentro do meio que deveria te trazer zelo deve ser uma das maiores dores que uma pessoa pode passar. Deve ser a morte encarnada num ato de mesquinharia e crueldade. E é nessa morte que entra a potência desse filme e dessa figura magnânima que é Ney Matogrosso. É preciso ter coragem para provocar, ainda mais coragem quando essa provação é representa na tua existência. O vigor e a atuação de Jesuíta Barbosa ao trazer a performance estonteante dos palcos que Ney entregava em cada movimento, nos elementos da vestimenta e em toda a produção do palco é uma ode à transgressão e a provocação daquilo que era tido como normal. Esse pulsar de morte que cresceu na vida dele, foi também o mote que o levou pra vida, essa entrega ativa e presente de respirar num ato de rebelião. Homem com H é a provocação num ato de vida, um filme que derrama emoção e que criar em nós um desejo profundo de amar, aos outros e a nós.
Crepúsculo. Como um filme que carrega um nome tão imponente pode ser considerado ruim? Pior que ele é, mas amo mesmo assim. Toda essa trama infantojuvenil de uma adolescente que se apaixona por um garoto misterioso e inacessível que aos poucos vai se aproximando da jovem tecendo linhas de uma relação impossível e excitante. É o tipo de obra que ganha um contorno totalmente diferente por fazer parte de uma época muito importante na vida de muitas pessoas, surgiu pra mim exatamente num momento de descoberta e confusão sobre sentimentos e relações e definitivamente causou um impacto suficientemente grande pra alterar muita coisa na minha vida. É um longa repleto de cenas idiotas e totalmente desconectadas de qualquer tipo de interação minimamente plausível entre pessoas (sejam elas humanas ou não)? Definitivamente. Tem momentos constrangedores de tão mal elaborados e com a densidade de uma criança? Certamente. E mesmo com todos os problemas do mundo, ainda tem personalidade e uma estética, no mínimo, provocadora. Cumprindo o papel de arte que falta em muito filme hoje em dia. Crepúsculo é um filme que encapsulou uma época tão bem que hoje ganha contornos de um romance-sobrenatural cult com legiões de fãs à despeito de sua qualidade ser questionável. Amo a cidade de Forks e todas as partes não gostáveis de um filme que pra mim representa muito bem todas as loucuras e idiotices presentes na cabeça de adolescentes introspectivos e cheios de tesão.
AQUELA cena nesse filme foi minha renovação de votos com o cinema. É quase como se de alguma forma o véu entre os dois mundos fosse rompido e pra além de ver, a composição inteira da cena faz com que você sinta. É uma passagem sem volta em direção ao maravilhamento que só a arte consegue causar. Apesar de uma cena ter ficado encrustada na minha mente, a obra tem muitíssimos outros pontos de qualidade desde a apresentação inicial que instiga o mistério logo nos primeiros minutos, passando pela introdução dos personagens principais cada qual com suas características denotadas nas cores que usam: um dos irmãos gêmeos cheio de vida e excitação e outro compenetrado e com um olhar mais deprimido e fadigado. Um dos pontos altos do filme pra mim é a utilização da música enquanto ferramenta crucial na construção do êxtase, tudo é belo e voluptuoso na mesma medida, é uma constante entre o céu e o inferno se chocando e misturando-se, num espetáculo que é angustiante e encantador. atributos muito condizentes com a proposta do horror presente na trama. A forma com que a direção mistura de maneira estupenda uma mitologia muito batida em todos os tipos de mídia com uma lenda local sobre o poder sobrenatural de canções que rompem o tecido entre o natural e o divino. Tudo é tão instigante e soa como uma convocação a mergulhar nesses entremeios difusos que acabam por gerar uma interpolação elementos: o vermelho comumente associado ao sangue e irá, também lembra o sol, essa chama que queima incessante no longínquo espaço e o azul, por outro lado, lembra o céu a perde de vista onde a estrela maior descansa, na mesma medida em que também lembra a palidez da noite na escuridão de anil que retém em si as criaturas noturnas. Sinners é uma obra gigantesca e que não se acaba em uma única experiência, é o tipo de filme que se revisita vez ou outra, tanto para recordar, quanto para descobrir. A própria ideia de pecado que é um grande norteador das relações entre os personagens e seus desejos é um tema quase inesgotável em discussões, o maior pecado de todos seja permitir ser levada pra longe de tudo aquilo que representa sua essência e permitir que isso aconteça. É aceitar o fado de uma crença que não te aceita e que renega os teus sonhos e a sua cultura. É viver no inferno porquê buscar o céu é um pecado. Que jeito melhor de virar um pecador se não na tentativa de atingir o lugar dos santos?
A ideia do manicômio é um dos muitos retratos da irracionalidade retroativa que permeia a consciência coletiva mesmo nos dias atuais. Hoje é possível ver um filme angustiante e desolador como esse e reconhecer nele o horror no seu grau mais elevado. No entanto, é um filme que retrata acontecimentos que possuem menos de 50 anos. Numa sociedade tão anêmica em ideias, como é a sociedade brasileira, no que diz respeito a imagem de pessoas com transtornos psicológicos. A ideia de prenderem uma pessoa compulsoriamente em função de um POSSÍVEL vício é de uma crueldade e de uma covardia tão grande que chegam a ser inomináveis. E pensar que ambientes que deveriam ser como um meio de zelo e reparação acabaram por se tornarem em câmaras de torturas e abatedouro de personalidades. Desligando as pessoas de quem elas poderiam ser e as conectando com retalhos de um ser que muito pouco se encontra no espelho. Existe um trecho nesse filme onde toca uma determinada música que é uma experiência que só a fenomenologia pode explicar: densa, claustrofóbica e de uma melancolia fustigante, do tipo que se espraia e inunda nossa mente. Longa-metragem extremamente importante e com caráter de denúncia e reflexão, envolto numa atmosfera de agonia e injustiça e produzida com um desleixo visual proposital ao contar e entregar o fracasso do estado enquanto instituição de regulação social e da sociedade enquanto entes alheios a vida e ao pensamento pra além do medo e da covardia. Não há horror maior do que ser visto como um monstro por bestas vestidas de bons senhores. O verdadeiro Bicho de Sete Cabeças é a ignorância e a insensatez de acreditar que o outro é tão pequeno que é possivel espreme-lo nos cantos mais indesejados desse mundo; e ainda sim alguns chamarão isso de "salvação".
Paul Thomas Anderson segue sendo um dos poucos diretores a construir uma narrativa envolvente e desenvolver uma densidade sublime em tudo que toca. Todo filme que vejo dele tenho as mesmas sensações: estou vendo uma das obras mais incríveis e singulares da minha vida e estou entendendo que tentar entender é uma tarefa quase de profanação dado o propósito que ele aparenta buscar com seus trabalhos. Se por um lado as estórias que ele conta sempre tangenciam uma vertente realista com golfadas de uma comicidade bem comedida, por outro possuí um teor de crueza e estresse que se engrenam de maneira bastante magistral. Acompanhar a jornada de um homem desumano e ganancioso com uma fome de poder nunca saciada. O retrato escarrado da alma do espírito capitalista: não se pode estar satisfeito sem a certeza de que a satisfação jamais chegue aos outros. É uma visão diminuta e traiçoeira que embota o pensamento e corrompe a índole, transformando os homens em bestas sedentas pelo sangue uns dos outros e não saciados dessa sede, começam a ceifar da terra o que ela não pode dar sem um dia não sobrar nada. A ideia de contrabalancear a visão arrogante e inflexível de Daniel Plainview com o comportamento sorrateiro e falsário do então missionário Eli Sunday é algo que desperta questionamentos sobre como dois homens distintos chegam no pináculo da bestialidade na esperança de alcançarem a glória, cada qual dentro de seus dogmas, cada qual em seus caminhos avarentos e malditos. "There Will Be Blood" é um conto sobre ganância e brutalidade, sobre a desumanização num processo contínuo de se sentir satisfeito num mundo repleto de fome. Fome de tudo.
Confesso que o filme me manteve instigado durante boa parte da trama, esteticamente é bastante interessante e narrativamente consegue construir boas discussões a partir de situações quase surrealistas, mas peca muito no desfecho e a pior parte é que a conclusão do filme acaba estragando bastante ele quase por inteiro. O filme busca trazer uma discussão justa sobre como um sentimento embotado tende a gerar uma derrocada psíquica a ponto de uma pessoa ver tamanho desinteresse na vida e passar a buscar valor em vidas alheias. É possível tranquilamente ler essa trama como uma critica bastante óbvia a indústria cultural gerando uma ideia de culpa recíproca entre aquele que observa e o observado. Até que ponto ver a vida alheia não nos desafoga da sensação insuportável que é viver fora das expectativas que temos para nós mesmos? Quando se torna muito fácil comparar sua vida com a de outros, desejar essas vidas se torna parte natural do processo de esquecimento. Acabando por gerar uma sensação de desligamento e de obsessão para com uma vida que você sequer sabe se é real, mas acaba a tornando dentro de uma perspectiva de telespectador. Dentro dessa temática o filme consegue sim ter um êxito em alguma medida, as imagens ao redor da narrativa corroboram no encadeamento dos eventos e ajuda a mergulhar dentro desse universo de loucura, desejo e perda. Uma pena que a conclusão do filme tenha sido tão covarde e tenha jogado boa parte dos méritos da trama na lata do lixo, mas ainda acho que vale apena ver pelas qualidades que acabam chamando a atenção e a gerar discussões que são, no mínimo, pertinentes.
Revendo algumas cenas o filme decaiu um pouco pra mim, continua sendo divertido e consegue agregar alguma criatividade para o que já foi realizado anteriormente. Utilizar a maternidade como um núcleo onde o horror vai ser concretizado e onde a aura demoníaca do filme vai se destacar é uma sacada interessante e que consegue se sustentar até certo ponto, só penso que deixa muito a desejar em outros pontos como na construção das cenas em si e na má utilização do cenário em si, muitos lugares-comuns e um desenvolvimento um tanto desconexo da trama faz com que ela perca uma desenvoltura que poderia muito bem ter, acho que esse filme se destaca mais pela comicidade mórbida do que por outras qualidades em si, se aproximando muito mais dos materiais originais da saga.
Três gerações de mulheres cada qual reféns das amarras de seus próprios tempos e de seus traumas e desilusões, diante do devorar constante da vida e da alegria que insiste em brotar mesmo nos terrenos mais inférteis. Um filme que conversa o tempo todo com a dor enquanto lugar de ressentimento e lidando com personagens calcadas numa realidade muito realista. São frequentes os momentos nos quais os sentimentos se transmutam de uma cena para outra, da ternura ao ódio e do ódio à ternura, como o cuidado e o desprezo se amalgamam frequentemente nesse laço estranho que é o amar. As filhas que viram mães e as mães que viram filhas, os sonhos inacabados e a prosperidade que é motivo de angústia. Um filme maravilhoso sobre como a dor pode servir como uma ferramenta de reparação, mas também de feridas abertas que acabam dilacerando a vida de outros pelo caminho, acima de qualquer coisa, Malu é sobre a persistência do carinho diante da destemperança e sobre como esse papel comumente é atribuído ao sexo feminino e que mesmo diante de tamanho determinismo se ergue a vontade de querer ser mais e de transformar uma amarra em um ponto de equilíbrio.
Por mais bobo que seja, a cor vermelha nesse filme é usada de uma forma tão bem executada que foi uma das coisas que mais mexeu comigo desde os primeiros minutos, é quase como uma mensagem clara de que a produção sabe muito bem o que esta fazendo e como vai fazer e isso fica cada vez mais nítido a medida que o longa avança, por falar em avançar: a não linearidade dos eventos é outra coisa que corrobora em muito pra tudo se encaixar da forma mais bem executada possível. Tem vários momentos em que pistas são cuidadosamente colocadas para espectadores com síndrome de Sherlock Holmes e elas funcionam tanto para enganar, quanto para pouco a pouco recompensar aqueles mais entusiasmados com o desenvolvimento da trama. A subversão ocupando um papel muito interessante e com níveis de características pensados especificamente para a proposta da narrativa e acrescentando camadas bastante peculiares e instigantes para um thriller com ares de Pearl, O Massacre da Serra Elétrica e Psicopata Americano (pensando na singularidade psíquica). Filmasso com sanguinolência, inventividade e singularidade. Tudo bem amarradinho e com um lindo envelopamento.
Quase um documento histórico do horror do desconhecido futuro que se alongava por todos os lados no início dos anos 2000. Se já é assustador analisar os meandros da internet atualmente, em 2025, com todos os seus lados podres e benefícios, quem dirá quando começava a germinar a ideia da interconectividade global? A perguntava que ecoo em 2001 é a mesma que reverbera agora. De que adianta a conexão humana ser facilitada se com ela vem uma nuvem de solidão e destruição? Esse é o primeiro filme do Kiyoshi Kurosawa que vejo e definitivamente não estava preparado para uma leitura tão peculiar do medo da internet e associação magistral feita com a solidão e o apagamento das relações no Japão hipertecnológico. A mistura de paranormalidade com um horror existencialista é algo muito similar ao que Jordan Peele fez com Corra (2019), dados as devidas proporções culturais de cada longa, mas preservando a semelhança na qualidade da narrativa e no desenrolar dos eventos que vão gradativamente se acentuando e ficando cada vez mais horrendos. Existe um tratamento de som nesse filme que beira algo de outro mundo, é um polimento que chega a arrepiar a espinha e ver esse filme a noite com fones de ouvido deve ser uma experiência aterradora, por diversas vezes me peguei perdido e sem compreender muitos pontos mostrados no filme, a medida que ele avançava mais kafkiano ficava pra mim. O medo da solidão tão presente na sociedade japonesa, a internet enquanto veículo de rompimento dos tecidos sociais e a estranheza que paira no ar no desaparecimento do fator humano nas relações entre as pessoas, quase como um desaparecimento generalizado do que compõe um povo. Essa pulsão de morte que parece se esgueirar pelas paredes e a sussurrar nos ouvidos dos personagens, sempre com um clamor de distanciamento e incitando o medo de estar sozinho e de permanecer sozinho, pouco a pouco tudo acaba decantando numa espiral de loucura e introspecção. A solidão é o fantasma de toda nação, nenhum lugar do mundo se sustenta sem a unidade social e levando em consideração uma sociedade tão utilitarista e que preza a coletividade quanto a japonesa, penso que os horrores aqui mostrados são o inferno mais dantesco possível quanto pensado sob essa perspectiva.
Estupidamente belo e reconfortante. Eu fiquei abismado com a qualidade das imagens construídas aqui, nem tanto só pelo rigor técnico empregado (que é abissal), mas sim pela mensagem enquanto imagem, o impacto dos sentimentos transcritos em cores e pulsão de movimento é de um deslumbramento lindo. Para além da parte visual, a narrativa constrói um temor íntimo e o projeta a nível cultural quando pensado sob a ótica da sociedade japonesa, é quase um convite ao enfrentamento de chagas antigas e persistentes, usando do relacionamento entre Souta e Suzume como um pilar de apoio e segurança. É muito bonito perceber o desenvolvimento da relação de ambos e em como, em certa medida, os dois protagonistas mergulham nas entranhas de seus próprios sentimentos e se fragilizam na esperança de atravessar um caminho que parecia instransponível. O amor e a dedicação servem como combustível para o amadurecimento dos protagonista e encontro com partes soterradas por traumas antigos. O papel da natureza e do misticismo na história evoca a ideia de antiguidade e profundidade que, de certa forma, também conversa com a trama principal que é focada em emoções e pensamentos esquecidos, mas que fazem parte do que nos compõe enquanto ser. Enfrentar o que nos amedronta e seguir em frente apesar dos caminhos tortuosos é a tarefa mais árdua que existe no viver, mas é o que mantém a beleza da vida. Lutar por si mesmo e pelos outros é a batalha infindável no campo da existência humana, sem isso nos tornamos meras cascas vazias esquecidas nos escombros do tempo.
Indigesto, intrigante e introspectivo. Filme desconfortável de se acompanhar, muito pouco em função de cenas escabrosas ou polêmicas, o desconforto reside justamente na naturalidade e no ar denso repleto de incógnitas e angústias. O duo de atrizes faz um trabalho surreal em desenvolver uma relação inquietante em que uma se transmuta na outra, desde gestos até o tom da voz, tudo feito de uma maneira magistral pela Natalie Portman. A comunicação entre os personagens nas lacunas de tudo aquilo que não é dito e os gestos e posturas de todos envolvidos nessa trama incomum de um "romance" desfigurado montam um quadro bastante cativante e que acaba se tornando cada vez mais instigante a medida que avança, nos mostrando um pouquinho mais de cada um, desnudando partes de temas que exponencialmente se tornam mais e mais repulsivos. O longa possuí uma riqueza de detalhes bastante singular e é justamente o pilar que sustenta a trama, as vidas daquelas pessoas, os sentimentos (reprimidos e livres) são as características que ficam ecoando durante toda a duração e muito depois dos créditos acabarem. Me peguei pensando em muito sobre o personagem do Joe e na relação dele com as borboletas monarcas, considerando que talvez esse gesto e esse cuidado todo seja uma tentativa de observar de fora as etapas naturais de um ser vivo em seu desenvolvimento de vida, algo que agora é somente uma ideia para ele. São tantos momentos em que se identifica uma série de comportamentos de uma identidade machucada em de um tempo tolhido.
Um retrato sombrio e indigesto das mazelas do narcoestado carioca. Queria primeiro ressaltar a beleza exuberante da fotografia desse filme, os enquadramentos e escolhas dos cenários a serem filmados são de um primor de encher os olhos, é tudo muito lindo e suntuoso, contrastando em muito com a decadência e a obscuridade dos fatos ocorridos no filme, é quase como se o Rio de Janeiro fosse essa pintura estupenda manchada pelo descaso intencional dos transeuntes do tempo. "Vitória" constrói um caleidoscópio de assuntos de uma maneira tão bem integrada e honesta da realidade de uma senhora solitária, gentil e enfática que cansada de sobreviver à sombra da violência decide tomar medidas afim de encontrar paz e um pedacinho de dignidade numa rotina dominada pelo medo. Essencialmente denuncia a corrupção das corporações policiais, joga luz numa rotina escabrosa de real pra tantos brasileiros e lamentavelmente nos traz em tela, mais uma vez, a pior das perdas: a da juventude abandonada. Falando assim parece que o longa é uma tristeza e melancolia sem fim, mas sobram momentos de risadas dispersas - que funcionam em função da eloquência e verborragia de Fernanda Montenegro, bem como sua magnânima atuação - existem trechos de beleza pura em gestos honestos de carinho e cuidado. Momentos de calmaria e compreensão em meio a conflitos e ameaças. O fato desta obra ser baseada em um fato real engrandece em muito todo o ocorrido, mas existem momentos dramáticos e cômicos que só o cinema pode proporcionar e este aqui soube cadenciar bem o ritmo entre as três pontes do longa metragem, não diminuindo em nenhum momento o peso dos horrores que a protagonista vivencia (e que, por extensão, toda comunidade é representada naquela dor vivida), a "Vitória" no título muito pouco tem a remeter a meramente um nome, é uma constatação e um símbolo de força e resistência, um suspiro da vontade diante da vastidão do egoísmo e da ganância humana. Uma vitória que não se acaba ali, é um convite à perseverança e a humanidade, uma luta constante por tudo aquilo que se vale apena lutar.
O cinema soviético possui características bastante peculiares e únicas, duas delas é essa delicadeza e crueza ao construir suas obras, é uma fotografia e um som que te fazem sentir a umidade do ar e o peso da voz. A infância roubada e a vida que nunca será é a guerra que uma nação enfrenta no pós-guerra, das vidas perdidas, mas essencialmente das possíveis promessas para o futuro despedaçado. O olhar de Ivan é o de uma criança que esqueceu a muito tempo como é ser uma, curiosamente ainda sobram alguns momentos nos quais o lado lúdico dele se manifesta, mas a ludicidade é presente até no mais bruto dos homens, é um mecanismo de fuga da realidade e um sentimento que decorre da vontade de recordar. E essa recordação, esse reflexo longínquo do passado, acaba se turvando nas águas de uma vida manchada pelos horrores do campo de guerra e por um sentimento de ódio e vingança que draga qualquer mente a um declínio feroz do viver. Um longa que além de muito instigante e reflexivo (diversas passagens do filme rendem boas observações e indagações sobre o teor delas), consegue ser belíssimo em suas composições de cena e cenário, em seus personagens profundos e numa narrativa cativante e dolorosa, apesar de atenuar os cenários dantescos de uma guerra, ainda sim possuí momentos bastante indigestos.
Lindo. Maravilhoso. Doloroso. Um longa delicado e amargo, misturando um tom de drama com um suspense numa cadência fascinante tornando impossível não se conectar com tamanha desfortuna que assola a vida dos dois protagonista e a motivação que os impele a seguir em frente é tão familiar e poderosa. O sentimento de estranheza que repousou dentro da Alex e do Paco, cada qual com suas razões, é de uma melancolia arrebatadora; de um lado ela presa à um país do qual não se vê parte, pensando na terra natal que já não parece mais tão familiar, o lar se torna essa ideia vaga de algo longínquo e preso nas teias do tempo. De outro lado o Paco que procura um lar pra chamar de seu, pegando emprestado um amor por uma terra que nunca conheceu na esperança de sentir o acolhimento de casa e de apaziguar a culpa que invadiu sua vida. Toda a ideia de "estrangeiro" que mora em cada quadro desse filme é muita interessante de desnudar, essa ideia de algo estranho, fora do lugar e portanto em desconexão constante com aquele espaço. Os personagens sente-se assim o tempo todo e na busca por um ponto de apoio e de um lugar no mundo, encontram nos braços um do outro um canto para descansar e um motivo para lutar pelo pouco de vida que ainda resistiu nesse eterno descobrimento, nessa busca por algo que parece não existir mais. Ou talvez exista, embora já não seja mais o mesmo lar, engraçado como o sentimento de um lugar resiste a passagem do tempo e em como esse mesmo sentimento se desloca diante do espaço, sempre procurando... sempre à deriva.
O horror em seu estado mais viscoso. Esse longa esta na estante dos meus queridinhos do gênero ocupando hoje a posição de favorito, existem poucas coisas das quais desgosto desse filme e nenhuma delas diminui em nada meu apreço geral pela obra. Possui uma atmosfera bem construída, personagens que servem cada qual ao seu propósito, tem diversas referencias honrado o filme original e ainda consegue em muito superar este elevando o tom para algo bem mais diabólico e menos fanfarrão. Óbvio que existem exageros e é exatamente deles que os méritos vem, toda a sanguinolência, cenas escabrosas e uma pitada bem generosa de fantasia são justamente os elementos que fazem eu morrer de amores por esse filme - além de ter méritos enquanto filme de horror, possui uma fotografia maravilhosa e esteticamente divide os atos através de cores predominantes (verde - amarelo - vermelho) dando um toque especial e definitivamente elegante para o contexto geral da obra.
Entrevista com o Demônio
3.4 769 Assista AgoraHonestamente, gostaria de ter tido uma experiência melhor com o filme, mas não foi o que aconteceu. Achei ele bastante interessante em alguns pontos, mas acabei perdendo interesse a cada cena de Making Off que aparecia e a medida que o filme levantava questões pertinentes e rapidamente as deixava de lado (um exemplo é a questão do culto The Woods, mesmo tendo sido explorado no final, foi de forma bastante pobre), acho que esperava um filme mais voltado para uma degradação relativa a inexistência de caráter e moralidade por parte do Host e em como o foco nessa paranormalidade, cenas "assustadoras" acabaram me tirando do filme, não nego que a cena final é muito boa mesmo e que as discussões entre ceticismo e sobrenatural tem um quê de instigante, mas nada se segura por muito tempo e rapidamente fui me entediando e como consequência me desconectei com o longa. Talvez porquê esperava algo e o filme tinha outra proposta, talvez porquê ele realmente teve problemas de condução, de qualquer modo, tem pontos interessantes e uma inventividade em lidar com características da trama de maneira bastante única, por outro lado, acaba fazendo isso de maneira bastante rasa e parece se esquivar de momentos mais decisivos e descamba para algo piegas e desinteressante.
Bastardos Inglórios
4.4 4,9K Assista AgoraUm dos melhores filmes do cinema e com certeza um dos maiores do Tarantino. Essa obra tem, possivelmente, uma das cenas finais mais satisfatórias do cinema, juntamente com AS cenas mais avassaladoras em termos de lidar com o acaso enquanto elemento transformador da trama e também é um dos primeiros que vi que levanta o tema da violência enquanto um desejo inerente ao ser humano e o tanto que esses atos horripilantes remontam visões bem mais filosóficas do que o filme pretende trazer, um exemplo claro é o General Hans Landa e sua estórias sobre ratos e esquilos. A violência troca de lado e moralidade como extensão também faz o mesmo, muito embora a justificativa de tal violência acabe recaindo em conceitos bem mais complexos e questões que não são tão simples quanto o filme às vezes busca trazer. O simples fato de trazer tais temas por si só já fazem desse filme um dos maiores do cinema, ainda tem uma fotografia muito característica e uma edição magistral. Bastardos Inglórios é uma obra provocadora, bem conduzidas e um dos grandes marcos do cinema.
A Garota da Vez
3.1 251 Assista AgoraFilme-denúncia sobre a incompetência dos aparatos de investigação da década de 70 frente a violência contra a mulher numa sociedade "moderna". Um retrato cruel, seco e visceral do mal que se agigantava num país mergulhado em violência, de homens (em sua grande maioria) doentios, quebrados e que viam seus papéis masculinos sendo gradativamente diminuídos, restando apenas os músculos e a truculência para manter poder num mundo cada vez mais plural, cada vez mais difuso. A conversa diretamente desse filme é sobre o papel feminino em sua própria emancipação enquanto indivíduo numa sociedade em progresso galopante e o véu de uma sociedade patriarcal pairando sobre todos os cantos, em todos os homens. Existe aqui diversas personas masculinas: o "amigo" inconveniente e oportunista, uma figura de poder midiático que trata mulheres como gado e se sente ofendido pela mera possibilidade de ter sua imbecilidade denunciada e um homem brutal, manipulador e muito bem articulado. São arquétipos diferentes entre si, mas todos recaem na mesma vontade de construção de personalidade: todos são homens que procuram poder em sua própria masculinidade. Suas características mais marcantes são serem homens e estarem impunes de qualquer mazela que possam gerar.
Longa-metragem maravilhoso, com uma cadência boa e com cenas não só instigantes, mas muito bem construídas tanto em diálogos, estética, cenários e personagens.
Premonição 6: Laços de Sangue
3.3 732 Assista AgoraLamentável como a aura de Velozes & Furiosos parece estar contaminando outras franquias de diferentes gêneros, Premonição Bloodlines é possivelmente um dos filmes mais chatos e pouco inventivos da franquia inteira e ele precisou se esforçar para ultrapassar o quarto filme nesse quesito. Apesar de ter uma cena de abertura muito bacana e que realmente me prendeu, o restante inteiro do longa foi um sofrimento gerada por atalhos insuportáveis, tentativas pífias de construir comédia entorno de situações forçadas até para os parâmetros da saga e com personagens totalmente sem carisma. Ainda que o grande protagonista desses filmes seja A Morte (e as formas criativas e perturbadores que ela realiza seus débitos), nada me tira mais do filme do que conversas desinteressantes, conexões de cenas totalmente sem sal e momentos risíveis de tão mau elaborados. Tem seus pontos positivos (algumas construções de cenas e um bom início), uma pena a grande maioria deles serem afogados pelo restante mequetrefe do resto do longa.
Soul
4.3 1,4KLindo do começo ao final e um daqueles filmes-lembrete de que estar vivo é apreciar tudo aquilo que é belo e vivenciar as dores da forma mais amena que o coração pode suportar. Talvez esse seja um dos filmes de animação da Pixar mais afastado do público infantil dentro da história do estúdio, mesmo tendo características típicas de uma animação infantil, o que persiste durante todo o longa é uma conversa complexa com temas diretamente interligados com o viver maduro, com a descoberta e a apreciação de um mundo inteiro imerso sob uma camada diáfana de incertezas e desejos e que, de alguma maneira, encontra seu caminho de encantamento e plenitude. Ainda que o filme parece sim um grande conto de autoajuda, nada tira seus méritos enquanto as conversas certeiras e muito bem desenvolvidas em termos poéticos, cômicos e adultos. Descrever Soul é quase uma tarefa paradoxal, não acho que esse seja um filme que cabe em meras palavras, assim como muitos outros não cabem, mas este carrega algo bastante especial dentro de si e usar a música de improviso mais bela desse mundo como mote desse centro emocional é de uma perspicácia certeira.
A Casa do Medo: Incidente em Ghostland
3.5 783Já vi esse filme pelo menos umas três vezes e fui descobrir que se tratava de um filme do Pascal Laugier (Martys) só agora.
Apesar das muitas falhas que esse filme contém (uma delas sendo atuações no mínimo questionáveis), a narrativa em si não é de todo ruim. É uma estória perturbadora, aterrorizante e criativa em certa medida. Tem cenas muito bem elaboradoras em termos de dinâmica gato-e-rato, trata de um ponto pouco explorado dentro de filme desse gênero que é o impacto da violência e o poder de dissociação do cérebro. O horror por si só resiste, em muitas cenas, mais no fato da fuga de uma personagem específica do que das cenas violentas em si (apesar dela serem horripilantes).
Filme que se mantém até hoje em minha opinião como um dos mais aterrorizante do gênero horror, com reviravoltas bem elaboradas (e que eu particularmente nunca tinha visto em outro filme) e uma metalinguagem sobre terror e escrita.
Casamento Sangrento
3.5 1,1K Assista AgoraDivertido e definitivamente irreverente dentro da temática brancos ricos ocultista tentando se perpetuar no poder enquanto brincam com a vida alheia. A construção dos personagens é bastante interessante por optar por personalidades quebradas, estúpidas e corrompidas, dando vazão a ideia de que a riqueza apodrece as pessoas e a perpetuação dessa vem atrelada a coisas aterradoras. Interessante também notar o desenrolar dos personagens Alex Danial, as razões pelas quais cada um chega em conclusões similares são bem diferentes. E a grande estrela do filme e vítima de uma família de lunáticos aristocratas tem momentos muito bons e bem cadenciados, é interessante acompanhar a batalha pela sobrevivência de uma personagem que realmente parece lutar pela vida de todas as formas possíveis. Tem algumas alegorias aqui e ali sobre esse arquétipo desses indivíduos extremamente ricos que recaem em críticas bastante pertinentes e interessante de se notarem, além de trazerem um ar cômico muitos vezes (propósito essencial do filme), levantam outros pontos mais reflexivos mesmo.
Thunderbolts*
3.4 453 Assista AgoraQueria dizer que amei, mas no máximo achei legal e um interessante rumo comparado ao caminho que o MCU apresentava, ainda sim, falta tanta coisa aqui pra funcionar.
Me pareceu que o filme em algum momento iria aprofundar os temas apresentados e que iria entregar uma maior densidade entre os personagens, mas não. A maioria das informações e momentos de revelação acabam ficando entre o não-timing-cômico das piadas genéricas estilo Marvel e uma galhofa sem tamanho em momentos de maior teor sentimental. É curioso ver um filme que erra mesmo onde parece que vai acertar, falta substância às cenas e maior comprometimento nessa tentativa de criar algo que perambula entre os aspectos de drama e comédia.
Para não ficar só na esculhambação o filme tem cenas de ação boas, apesar de previsíveis, tem coragem ao entregar e trabalhar em cima de personagens desagradáveis, mas com qualidades que vão pra além de um puritanismo tipicamente heroico, além de conseguir (em alguma medida) apresentar um mote que conduz a estória entorno de uma temática que além de muito sério é bastante atual.
Uma pena que nada aqui parece conseguir sair do simples para o complexo, com isso não digo que fui buscando profundidade num filme da Marvel, mas me refiro ao fato de que ao apresentar um tema se espera progressão deste, uma progressão que consiga aos poucos acrescentar novas problemáticas e novidades, algo que se acontece, é uma maneira tão simplória que soa como uma ofensa.
Ainda sim, é um material bem sólido e que de alguma forma pode ser maleado nas produções subsequentes, ainda que vá precisar de muito molho e audácia pra chegar num ponto certo, pra dar gosto de ver.
Homem com H
4.2 518 Assista AgoraA performance, às vezes, é a vida.
Que obra delicada. Que obra potente. É delicada ao tratar os temas mais sensíveis e momentos de sofrimento com tanto esmero e um carinho aparente que chega a dor na gente a dor do outro. Não é uma mera projeção de empatia, é a tentativa cru de demonstrar que o que a gente sente é comunitário, se a dor alheia não te comove você deixou de ser gente, nem bicho é, porquê mesmo na natureza selvagem, no estado bruto do ser, uma coisa segue constante: se preserva aqueles que são como você. É aqui que entra a crueldade do nosso mundo vasto e inócuo, num lugar onde ser quem você é representa a repartição entre os teus, quem vai te enxergar como igual? Ser enxotado dentro do meio que deveria te trazer zelo deve ser uma das maiores dores que uma pessoa pode passar. Deve ser a morte encarnada num ato de mesquinharia e crueldade. E é nessa morte que entra a potência desse filme e dessa figura magnânima que é Ney Matogrosso.
É preciso ter coragem para provocar, ainda mais coragem quando essa provação é representa na tua existência. O vigor e a atuação de Jesuíta Barbosa ao trazer a performance estonteante dos palcos que Ney entregava em cada movimento, nos elementos da vestimenta e em toda a produção do palco é uma ode à transgressão e a provocação daquilo que era tido como normal. Esse pulsar de morte que cresceu na vida dele, foi também o mote que o levou pra vida, essa entrega ativa e presente de respirar num ato de rebelião.
Homem com H é a provocação num ato de vida, um filme que derrama emoção e que criar em nós um desejo profundo de amar, aos outros e a nós.
Crepúsculo
2.5 4,2K Assista AgoraCrepúsculo. Como um filme que carrega um nome tão imponente pode ser considerado ruim? Pior que ele é, mas amo mesmo assim.
Toda essa trama infantojuvenil de uma adolescente que se apaixona por um garoto misterioso e inacessível que aos poucos vai se aproximando da jovem tecendo linhas de uma relação impossível e excitante. É o tipo de obra que ganha um contorno totalmente diferente por fazer parte de uma época muito importante na vida de muitas pessoas, surgiu pra mim exatamente num momento de descoberta e confusão sobre sentimentos e relações e definitivamente causou um impacto suficientemente grande pra alterar muita coisa na minha vida.
É um longa repleto de cenas idiotas e totalmente desconectadas de qualquer tipo de interação minimamente plausível entre pessoas (sejam elas humanas ou não)? Definitivamente. Tem momentos constrangedores de tão mal elaborados e com a densidade de uma criança? Certamente. E mesmo com todos os problemas do mundo, ainda tem personalidade e uma estética, no mínimo, provocadora. Cumprindo o papel de arte que falta em muito filme hoje em dia.
Crepúsculo é um filme que encapsulou uma época tão bem que hoje ganha contornos de um romance-sobrenatural cult com legiões de fãs à despeito de sua qualidade ser questionável.
Amo a cidade de Forks e todas as partes não gostáveis de um filme que pra mim representa muito bem todas as loucuras e idiotices presentes na cabeça de adolescentes introspectivos e cheios de tesão.
Pecadores
4.0 1,2K Assista AgoraAQUELA cena nesse filme foi minha renovação de votos com o cinema. É quase como se de alguma forma o véu entre os dois mundos fosse rompido e pra além de ver, a composição inteira da cena faz com que você sinta. É uma passagem sem volta em direção ao maravilhamento que só a arte consegue causar. Apesar de uma cena ter ficado encrustada na minha mente, a obra tem muitíssimos outros pontos de qualidade desde a apresentação inicial que instiga o mistério logo nos primeiros minutos, passando pela introdução dos personagens principais cada qual com suas características denotadas nas cores que usam: um dos irmãos gêmeos cheio de vida e excitação e outro compenetrado e com um olhar mais deprimido e fadigado.
Um dos pontos altos do filme pra mim é a utilização da música enquanto ferramenta crucial na construção do êxtase, tudo é belo e voluptuoso na mesma medida, é uma constante entre o céu e o inferno se chocando e misturando-se, num espetáculo que é angustiante e encantador. atributos muito condizentes com a proposta do horror presente na trama. A forma com que a direção mistura de maneira estupenda uma mitologia muito batida em todos os tipos de mídia com uma lenda local sobre o poder sobrenatural de canções que rompem o tecido entre o natural e o divino. Tudo é tão instigante e soa como uma convocação a mergulhar nesses entremeios difusos que acabam por gerar uma interpolação elementos: o vermelho comumente associado ao sangue e irá, também lembra o sol, essa chama que queima incessante no longínquo espaço e o azul, por outro lado, lembra o céu a perde de vista onde a estrela maior descansa, na mesma medida em que também lembra a palidez da noite na escuridão de anil que retém em si as criaturas noturnas.
Sinners é uma obra gigantesca e que não se acaba em uma única experiência, é o tipo de filme que se revisita vez ou outra, tanto para recordar, quanto para descobrir. A própria ideia de pecado que é um grande norteador das relações entre os personagens e seus desejos é um tema quase inesgotável em discussões, o maior pecado de todos seja permitir ser levada pra longe de tudo aquilo que representa sua essência e permitir que isso aconteça. É aceitar o fado de uma crença que não te aceita e que renega os teus sonhos e a sua cultura. É viver no inferno porquê buscar o céu é um pecado. Que jeito melhor de virar um pecador se não na tentativa de atingir o lugar dos santos?
Bicho de Sete Cabeças
4.0 1,2K Assista AgoraA ideia do manicômio é um dos muitos retratos da irracionalidade retroativa que permeia a consciência coletiva mesmo nos dias atuais. Hoje é possível ver um filme angustiante e desolador como esse e reconhecer nele o horror no seu grau mais elevado. No entanto, é um filme que retrata acontecimentos que possuem menos de 50 anos. Numa sociedade tão anêmica em ideias, como é a sociedade brasileira, no que diz respeito a imagem de pessoas com transtornos psicológicos.
A ideia de prenderem uma pessoa compulsoriamente em função de um POSSÍVEL vício é de uma crueldade e de uma covardia tão grande que chegam a ser inomináveis. E pensar que ambientes que deveriam ser como um meio de zelo e reparação acabaram por se tornarem em câmaras de torturas e abatedouro de personalidades. Desligando as pessoas de quem elas poderiam ser e as conectando com retalhos de um ser que muito pouco se encontra no espelho.
Existe um trecho nesse filme onde toca uma determinada música que é uma experiência que só a fenomenologia pode explicar: densa, claustrofóbica e de uma melancolia fustigante, do tipo que se espraia e inunda nossa mente.
Longa-metragem extremamente importante e com caráter de denúncia e reflexão, envolto numa atmosfera de agonia e injustiça e produzida com um desleixo visual proposital ao contar e entregar o fracasso do estado enquanto instituição de regulação social e da sociedade enquanto entes alheios a vida e ao pensamento pra além do medo e da covardia. Não há horror maior do que ser visto como um monstro por bestas vestidas de bons senhores. O verdadeiro Bicho de Sete Cabeças é a ignorância e a insensatez de acreditar que o outro é tão pequeno que é possivel espreme-lo nos cantos mais indesejados desse mundo; e ainda sim alguns chamarão isso de "salvação".
Sangue Negro
4.3 1,2K Assista AgoraPaul Thomas Anderson segue sendo um dos poucos diretores a construir uma narrativa envolvente e desenvolver uma densidade sublime em tudo que toca. Todo filme que vejo dele tenho as mesmas sensações: estou vendo uma das obras mais incríveis e singulares da minha vida e estou entendendo que tentar entender é uma tarefa quase de profanação dado o propósito que ele aparenta buscar com seus trabalhos.
Se por um lado as estórias que ele conta sempre tangenciam uma vertente realista com golfadas de uma comicidade bem comedida, por outro possuí um teor de crueza e estresse que se engrenam de maneira bastante magistral. Acompanhar a jornada de um homem desumano e ganancioso com uma fome de poder nunca saciada. O retrato escarrado da alma do espírito capitalista: não se pode estar satisfeito sem a certeza de que a satisfação jamais chegue aos outros. É uma visão diminuta e traiçoeira que embota o pensamento e corrompe a índole, transformando os homens em bestas sedentas pelo sangue uns dos outros e não saciados dessa sede, começam a ceifar da terra o que ela não pode dar sem um dia não sobrar nada. A ideia de contrabalancear a visão arrogante e inflexível de Daniel Plainview com o comportamento sorrateiro e falsário do então missionário Eli Sunday é algo que desperta questionamentos sobre como dois homens distintos chegam no pináculo da bestialidade na esperança de alcançarem a glória, cada qual dentro de seus dogmas, cada qual em seus caminhos avarentos e malditos. "There Will Be Blood" é um conto sobre ganância e brutalidade, sobre a desumanização num processo contínuo de se sentir satisfeito num mundo repleto de fome. Fome de tudo.
Observadores
3.0 481 Assista AgoraConfesso que o filme me manteve instigado durante boa parte da trama, esteticamente é bastante interessante e narrativamente consegue construir boas discussões a partir de situações quase surrealistas, mas peca muito no desfecho e a pior parte é que a conclusão do filme acaba estragando bastante ele quase por inteiro. O filme busca trazer uma discussão justa sobre como um sentimento embotado tende a gerar uma derrocada psíquica a ponto de uma pessoa ver tamanho desinteresse na vida e passar a buscar valor em vidas alheias. É possível tranquilamente ler essa trama como uma critica bastante óbvia a indústria cultural gerando uma ideia de culpa recíproca entre aquele que observa e o observado. Até que ponto ver a vida alheia não nos desafoga da sensação insuportável que é viver fora das expectativas que temos para nós mesmos? Quando se torna muito fácil comparar sua vida com a de outros, desejar essas vidas se torna parte natural do processo de esquecimento. Acabando por gerar uma sensação de desligamento e de obsessão para com uma vida que você sequer sabe se é real, mas acaba a tornando dentro de uma perspectiva de telespectador. Dentro dessa temática o filme consegue sim ter um êxito em alguma medida, as imagens ao redor da narrativa corroboram no encadeamento dos eventos e ajuda a mergulhar dentro desse universo de loucura, desejo e perda. Uma pena que a conclusão do filme tenha sido tão covarde e tenha jogado boa parte dos méritos da trama na lata do lixo, mas ainda acho que vale apena ver pelas qualidades que acabam chamando a atenção e a gerar discussões que são, no mínimo, pertinentes.
A Morte do Demônio: A Ascensão
3.3 874 Assista AgoraRevendo algumas cenas o filme decaiu um pouco pra mim, continua sendo divertido e consegue agregar alguma criatividade para o que já foi realizado anteriormente. Utilizar a maternidade como um núcleo onde o horror vai ser concretizado e onde a aura demoníaca do filme vai se destacar é uma sacada interessante e que consegue se sustentar até certo ponto, só penso que deixa muito a desejar em outros pontos como na construção das cenas em si e na má utilização do cenário em si, muitos lugares-comuns e um desenvolvimento um tanto desconexo da trama faz com que ela perca uma desenvoltura que poderia muito bem ter, acho que esse filme se destaca mais pela comicidade mórbida do que por outras qualidades em si, se aproximando muito mais dos materiais originais da saga.
Malu
4.1 71 Assista AgoraTrês gerações de mulheres cada qual reféns das amarras de seus próprios tempos e de seus traumas e desilusões, diante do devorar constante da vida e da alegria que insiste em brotar mesmo nos terrenos mais inférteis. Um filme que conversa o tempo todo com a dor enquanto lugar de ressentimento e lidando com personagens calcadas numa realidade muito realista. São frequentes os momentos nos quais os sentimentos se transmutam de uma cena para outra, da ternura ao ódio e do ódio à ternura, como o cuidado e o desprezo se amalgamam frequentemente nesse laço estranho que é o amar. As filhas que viram mães e as mães que viram filhas, os sonhos inacabados e a prosperidade que é motivo de angústia. Um filme maravilhoso sobre como a dor pode servir como uma ferramenta de reparação, mas também de feridas abertas que acabam dilacerando a vida de outros pelo caminho, acima de qualquer coisa, Malu é sobre a persistência do carinho diante da destemperança e sobre como esse papel comumente é atribuído ao sexo feminino e que mesmo diante de tamanho determinismo se ergue a vontade de querer ser mais e de transformar uma amarra em um ponto de equilíbrio.
Desconhecidos
3.5 309 Assista AgoraPor mais bobo que seja, a cor vermelha nesse filme é usada de uma forma tão bem executada que foi uma das coisas que mais mexeu comigo desde os primeiros minutos, é quase como uma mensagem clara de que a produção sabe muito bem o que esta fazendo e como vai fazer e isso fica cada vez mais nítido a medida que o longa avança, por falar em avançar: a não linearidade dos eventos é outra coisa que corrobora em muito pra tudo se encaixar da forma mais bem executada possível.
Tem vários momentos em que pistas são cuidadosamente colocadas para espectadores com síndrome de Sherlock Holmes e elas funcionam tanto para enganar, quanto para pouco a pouco recompensar aqueles mais entusiasmados com o desenvolvimento da trama.
A subversão ocupando um papel muito interessante e com níveis de características pensados especificamente para a proposta da narrativa e acrescentando camadas bastante peculiares e instigantes para um thriller com ares de Pearl, O Massacre da Serra Elétrica e Psicopata Americano (pensando na singularidade psíquica).
Filmasso com sanguinolência, inventividade e singularidade. Tudo bem amarradinho e com um lindo envelopamento.
Kairo
3.4 192Quase um documento histórico do horror do desconhecido futuro que se alongava por todos os lados no início dos anos 2000. Se já é assustador analisar os meandros da internet atualmente, em 2025, com todos os seus lados podres e benefícios, quem dirá quando começava a germinar a ideia da interconectividade global? A perguntava que ecoo em 2001 é a mesma que reverbera agora. De que adianta a conexão humana ser facilitada se com ela vem uma nuvem de solidão e destruição?
Esse é o primeiro filme do Kiyoshi Kurosawa que vejo e definitivamente não estava preparado para uma leitura tão peculiar do medo da internet e associação magistral feita com a solidão e o apagamento das relações no Japão hipertecnológico. A mistura de paranormalidade com um horror existencialista é algo muito similar ao que Jordan Peele fez com Corra (2019), dados as devidas proporções culturais de cada longa, mas preservando a semelhança na qualidade da narrativa e no desenrolar dos eventos que vão gradativamente se acentuando e ficando cada vez mais horrendos. Existe um tratamento de som nesse filme que beira algo de outro mundo, é um polimento que chega a arrepiar a espinha e ver esse filme a noite com fones de ouvido deve ser uma experiência aterradora, por diversas vezes me peguei perdido e sem compreender muitos pontos mostrados no filme, a medida que ele avançava mais kafkiano ficava pra mim. O medo da solidão tão presente na sociedade japonesa, a internet enquanto veículo de rompimento dos tecidos sociais e a estranheza que paira no ar no desaparecimento do fator humano nas relações entre as pessoas, quase como um desaparecimento generalizado do que compõe um povo. Essa pulsão de morte que parece se esgueirar pelas paredes e a sussurrar nos ouvidos dos personagens, sempre com um clamor de distanciamento e incitando o medo de estar sozinho e de permanecer sozinho, pouco a pouco tudo acaba decantando numa espiral de loucura e introspecção. A solidão é o fantasma de toda nação, nenhum lugar do mundo se sustenta sem a unidade social e levando em consideração uma sociedade tão utilitarista e que preza a coletividade quanto a japonesa, penso que os horrores aqui mostrados são o inferno mais dantesco possível quanto pensado sob essa perspectiva.
Suzume
3.9 138 Assista AgoraEstupidamente belo e reconfortante.
Eu fiquei abismado com a qualidade das imagens construídas aqui, nem tanto só pelo rigor técnico empregado (que é abissal), mas sim pela mensagem enquanto imagem, o impacto dos sentimentos transcritos em cores e pulsão de movimento é de um deslumbramento lindo. Para além da parte visual, a narrativa constrói um temor íntimo e o projeta a nível cultural quando pensado sob a ótica da sociedade japonesa, é quase um convite ao enfrentamento de chagas antigas e persistentes, usando do relacionamento entre Souta e Suzume como um pilar de apoio e segurança. É muito bonito perceber o desenvolvimento da relação de ambos e em como, em certa medida, os dois protagonistas mergulham nas entranhas de seus próprios sentimentos e se fragilizam na esperança de atravessar um caminho que parecia instransponível. O amor e a dedicação servem como combustível para o amadurecimento dos protagonista e encontro com partes soterradas por traumas antigos. O papel da natureza e do misticismo na história evoca a ideia de antiguidade e profundidade que, de certa forma, também conversa com a trama principal que é focada em emoções e pensamentos esquecidos, mas que fazem parte do que nos compõe enquanto ser. Enfrentar o que nos amedronta e seguir em frente apesar dos caminhos tortuosos é a tarefa mais árdua que existe no viver, mas é o que mantém a beleza da vida. Lutar por si mesmo e pelos outros é a batalha infindável no campo da existência humana, sem isso nos tornamos meras cascas vazias esquecidas nos escombros do tempo.
Segredos de um Escândalo
3.4 396 Assista AgoraIndigesto, intrigante e introspectivo.
Filme desconfortável de se acompanhar, muito pouco em função de cenas escabrosas ou polêmicas, o desconforto reside justamente na naturalidade e no ar denso repleto de incógnitas e angústias. O duo de atrizes faz um trabalho surreal em desenvolver uma relação inquietante em que uma se transmuta na outra, desde gestos até o tom da voz, tudo feito de uma maneira magistral pela Natalie Portman. A comunicação entre os personagens nas lacunas de tudo aquilo que não é dito e os gestos e posturas de todos envolvidos nessa trama incomum de um "romance" desfigurado montam um quadro bastante cativante e que acaba se tornando cada vez mais instigante a medida que avança, nos mostrando um pouquinho mais de cada um, desnudando partes de temas que exponencialmente se tornam mais e mais repulsivos. O longa possuí uma riqueza de detalhes bastante singular e é justamente o pilar que sustenta a trama, as vidas daquelas pessoas, os sentimentos (reprimidos e livres) são as características que ficam ecoando durante toda a duração e muito depois dos créditos acabarem.
Me peguei pensando em muito sobre o personagem do Joe e na relação dele com as borboletas monarcas, considerando que talvez esse gesto e esse cuidado todo seja uma tentativa de observar de fora as etapas naturais de um ser vivo em seu desenvolvimento de vida, algo que agora é somente uma ideia para ele. São tantos momentos em que se identifica uma série de comportamentos de uma identidade machucada em de um tempo tolhido.
Vitória
3.7 248 Assista AgoraUm retrato sombrio e indigesto das mazelas do narcoestado carioca. Queria primeiro ressaltar a beleza exuberante da fotografia desse filme, os enquadramentos e escolhas dos cenários a serem filmados são de um primor de encher os olhos, é tudo muito lindo e suntuoso, contrastando em muito com a decadência e a obscuridade dos fatos ocorridos no filme, é quase como se o Rio de Janeiro fosse essa pintura estupenda manchada pelo descaso intencional dos transeuntes do tempo.
"Vitória" constrói um caleidoscópio de assuntos de uma maneira tão bem integrada e honesta da realidade de uma senhora solitária, gentil e enfática que cansada de sobreviver à sombra da violência decide tomar medidas afim de encontrar paz e um pedacinho de dignidade numa rotina dominada pelo medo. Essencialmente denuncia a corrupção das corporações policiais, joga luz numa rotina escabrosa de real pra tantos brasileiros e lamentavelmente nos traz em tela, mais uma vez, a pior das perdas: a da juventude abandonada. Falando assim parece que o longa é uma tristeza e melancolia sem fim, mas sobram momentos de risadas dispersas - que funcionam em função da eloquência e verborragia de Fernanda Montenegro, bem como sua magnânima atuação - existem trechos de beleza pura em gestos honestos de carinho e cuidado. Momentos de calmaria e compreensão em meio a conflitos e ameaças. O fato desta obra ser baseada em um fato real engrandece em muito todo o ocorrido, mas existem momentos dramáticos e cômicos que só o cinema pode proporcionar e este aqui soube cadenciar bem o ritmo entre as três pontes do longa metragem, não diminuindo em nenhum momento o peso dos horrores que a protagonista vivencia (e que, por extensão, toda comunidade é representada naquela dor vivida), a "Vitória" no título muito pouco tem a remeter a meramente um nome, é uma constatação e um símbolo de força e resistência, um suspiro da vontade diante da vastidão do egoísmo e da ganância humana. Uma vitória que não se acaba ali, é um convite à perseverança e a humanidade, uma luta constante por tudo aquilo que se vale apena lutar.
A Infância de Ivan
4.3 164 Assista AgoraO cinema soviético possui características bastante peculiares e únicas, duas delas é essa delicadeza e crueza ao construir suas obras, é uma fotografia e um som que te fazem sentir a umidade do ar e o peso da voz. A infância roubada e a vida que nunca será é a guerra que uma nação enfrenta no pós-guerra, das vidas perdidas, mas essencialmente das possíveis promessas para o futuro despedaçado. O olhar de Ivan é o de uma criança que esqueceu a muito tempo como é ser uma, curiosamente ainda sobram alguns momentos nos quais o lado lúdico dele se manifesta, mas a ludicidade é presente até no mais bruto dos homens, é um mecanismo de fuga da realidade e um sentimento que decorre da vontade de recordar. E essa recordação, esse reflexo longínquo do passado, acaba se turvando nas águas de uma vida manchada pelos horrores do campo de guerra e por um sentimento de ódio e vingança que draga qualquer mente a um declínio feroz do viver. Um longa que além de muito instigante e reflexivo (diversas passagens do filme rendem boas observações e indagações sobre o teor delas), consegue ser belíssimo em suas composições de cena e cenário, em seus personagens profundos e numa narrativa cativante e dolorosa, apesar de atenuar os cenários dantescos de uma guerra, ainda sim possuí momentos bastante indigestos.
Terra Estrangeira
4.0 219 Assista AgoraLindo. Maravilhoso. Doloroso.
Um longa delicado e amargo, misturando um tom de drama com um suspense numa cadência fascinante tornando impossível não se conectar com tamanha desfortuna que assola a vida dos dois protagonista e a motivação que os impele a seguir em frente é tão familiar e poderosa. O sentimento de estranheza que repousou dentro da Alex e do Paco, cada qual com suas razões, é de uma melancolia arrebatadora; de um lado ela presa à um país do qual não se vê parte, pensando na terra natal que já não parece mais tão familiar, o lar se torna essa ideia vaga de algo longínquo e preso nas teias do tempo. De outro lado o Paco que procura um lar pra chamar de seu, pegando emprestado um amor por uma terra que nunca conheceu na esperança de sentir o acolhimento de casa e de apaziguar a culpa que invadiu sua vida. Toda a ideia de "estrangeiro" que mora em cada quadro desse filme é muita interessante de desnudar, essa ideia de algo estranho, fora do lugar e portanto em desconexão constante com aquele espaço. Os personagens sente-se assim o tempo todo e na busca por um ponto de apoio e de um lugar no mundo, encontram nos braços um do outro um canto para descansar e um motivo para lutar pelo pouco de vida que ainda resistiu nesse eterno descobrimento, nessa busca por algo que parece não existir mais. Ou talvez exista, embora já não seja mais o mesmo lar, engraçado como o sentimento de um lugar resiste a passagem do tempo e em como esse mesmo sentimento se desloca diante do espaço, sempre procurando... sempre à deriva.
A Morte do Demônio
3.2 3,9K Assista AgoraO horror em seu estado mais viscoso. Esse longa esta na estante dos meus queridinhos do gênero ocupando hoje a posição de favorito, existem poucas coisas das quais desgosto desse filme e nenhuma delas diminui em nada meu apreço geral pela obra. Possui uma atmosfera bem construída, personagens que servem cada qual ao seu propósito, tem diversas referencias honrado o filme original e ainda consegue em muito superar este elevando o tom para algo bem mais diabólico e menos fanfarrão. Óbvio que existem exageros e é exatamente deles que os méritos vem, toda a sanguinolência, cenas escabrosas e uma pitada bem generosa de fantasia são justamente os elementos que fazem eu morrer de amores por esse filme - além de ter méritos enquanto filme de horror, possui uma fotografia maravilhosa e esteticamente divide os atos através de cores predominantes (verde - amarelo - vermelho) dando um toque especial e definitivamente elegante para o contexto geral da obra.