O filme é mais um exercício experimental conceitual do que uma narrativa linear, embora seja dotado de enredo. É uma representação das relações humanas, da caoticidade do meio urbano e do completo absurdismo tecnológico. O experimentalismo aumenta conforme o filme progride. Existe uma forte crítica à dominação antiética da tecnologia, à sobreposição do lucro ao orgânico e também à corrupção, além de valorização do intelecto acima de quaisquer outros preceitos mesmo em momentos de crise. Muito metal, ruído, violência, sexo, tecnologia e colapso psicológico juntos.
A cena do supermercado é um clássico. A primeira manifestação de Pinocchio como ser humano. A incessante repetição maternal dos comportamentos de Himiko para com Pinocchio é comicamente didática e a atuação beira o teatral. É muito bonita. A casa de Himiko assemelha-se a um palco onde vemos a dinâmica dos dois florescer. A câmera em perspectiva faz o espectador sentir-se na própria Tóquio. Eu sempre acho o máximo filmagens no meio de transeuntes, ainda mais quando apresentado dessa forma visceral como no filme haha Contribui pro aspecto teatral, agora de intervenção. Mais apoio pela freneticidade visual e ângulos desfavoráveis nos rostos de atores, por favor! A estética anos 90 com o "cyberpunk retail store" deixa tudo muito charmoso, da melhor forma possível.
A atriz que interpreta Himiko faz um overacting que ao mesmo tempo é muito convincente. Todos os personagens deste "teatro dos absurdos" são caricatos, porém de uma forma muito honesta para com o filme. O ator que interpreta o "Pinocchio" é absurdamente cru e visceral. Nem imagino o quão desgastante foram as filmagens. O melhor exemplo dessa abordagem de atuação é a famosa cena de Himiko na estação de metrô.
O humor me lembrou o (bem mais recente) absurdismo de Shintaro Kago. Tem uma influência violenta de Cronenberg também. Quem é habituado ao nansensu japonês vai se deliciar. Tá todo mundo loco. Façam um favor a si mesmos: vejam as cenas dos créditos, haha
O filme é uma grande ode ao gênero italiano "giallo" e apresenta um sequenciamento de estudos estéticos a partir de diferentes abordagens e características que marcaram o movimento. Mais que uma narrativa linear, é um exercício de semiótica montado de forma fragmentada.
A passagem de Ana criança talvez seja para muitos o ápice do filme, embora eu prefira a segunda parte. Na anterior, testemunhamos Ana entrar em conflito com seres fantásticos, desenvolver traumas e processar o luto de seu avô. Cortes curtos, rápidos e multicromáticos acompanham a jovem lutando por sua integridade. Tudo muito barulhento, com ranger de portas e olhares atrás de fechaduras despertando a sensação de vigilância constante (que não inibem a jovem). Ana está sendo observada e simultaneamente aprendendo a observar.
A cena de Ana (agora adulta) caminhando com sua mãe é um show à parte. Ilustram as embaraçadas linhas afetuosas e os chamados individuais da carne. Tudo sendo filmado como um comercial de perfume da Ralph Lauren. O filme todo exala e emana "desejo". Existe a total dominância do olhar sobre tudo, como se a visão fosse quase um estudo sociológico. Habilidade essa, que Anna adquiriu ainda na infância e é compartilhada pelas outras personagens. Existe um certo primitivismo também que beira o frenético. Ânsia do que? Tudo é fisiológico. Tudo é tentação (e proteção e libertação). Até um pente fino vira organismo vivo. Há uma cena de percurso em um automóvel com as janelas abertas e Ana sentada em bancos de couro. Mais um comercial, dessa vez filmado por Kenneth Anger.
Os cortes presentes nas cenas com Ana refletem-se da infância para a vida adulta transmitindo uma constante lembrança. Lembrança da rigidez do solo, das roupas ao vento e a iluminação multi cromática. Focos diretos e delimitados a fim de expressar tais estados de espírito. Violência muito delicada. Êxtase natural (e estético).
A premissa é ótima. Um advogado de casos pequenos (Kevin, representado por Will Forte) recebe (involuntariamente) uma oportunidade única: promover justiça, no caso, contra BigTechs (representadas pela ACME). O julgamento e o senado caricatos têm uma forte conotação crítica também. Conforme vamos investigando, a proporção do caso aumenta, como acontece em episódios de grande repercussão legal. Coyote é a fonte de muitas risadas. Ele é mais complexo do que parece; passa (e promove) por um turbilhão de emoções junto de Kevin e a sobrinha estagiária dele. O trio forma um time perfeito. John Cena apresenta uma grande atuação como um dos antagonistas. Figurão. Achei a participação de outros membros da trupe do Looney Tunes totalmente dispensável. O secretário do John Cena não convence muito também. Piu-piu atua melhor que ele. Outros membros do escritório de Kevin também não causam uma grande impressão. Explosões, perseguições, mais explosões e, obviamente, muitas marteladas animadas. Rendeu boas risadas. Coyote se comunicar por cartazes foi genial. Animação muito bonita, mesmo que um pouco caótica! Coyote se movimenta anatomicamente como nos desenhos clássicos e a combinação entre real + ilustrado fluiu sem muitas distrações pra mim (totalmente leigo). Um bom filme. Plot legal para um adulto se entreter e ao mesmo tempo fácil para a criançada se engajar também. Aberto para todos os públicos.
Tudo que eu vejo sobre a(s) era(s) feudal(is) japonesa é de cortar o coração. A miséria e o puro desespero enquanto samurais dizimam e são dizimados. Acho que o filme retrata bem essas condições. A luta pela sobrevivência, a corrupção humana (até mesmo involuntária) e a visceralidade instintiva que se constrói até possuir o ser. A guerra reorganiza o próprio sistema em prol da sobrevivência. As melhores cenas são aquelas espontâneas, dominadas pelo primitivo e o vulnerável. Belíssimo ver a jovem atravessar o matagal correndo sem pensar duas vezes todas as noites. O matagal quase abre caminho pra ela. Um comportamento nas refeições que diz mil palavras. O desespero de saciar o apetite. Além disso, temos personagens gritando sozinhos e se jogando no chão, interagindo com o ambiente. Muito simbólico também. O filme frequentemente comunica estados psicológicos através de comportamentos que beiram o animalesco. Todas, manifestações sinceras daqueles que estão presos nessa realidade terrível.
Confesso que achei muito engraçado o discurso sobre pecado haha, mas se encaixa completamente dentro daquele mundo. Os valores ideológicos de outrora não são os da guerra. A moral se adapta. Filme cheio de ambiguidades também; físicas e morais. Obviamente não posso deixar de citar a ambientação, dotada de vida própria. A manifestação orgânica da guerra, transformando o habitat em caos e campo de batalha. Belíssima cinematografia, com a envergadura dos galhos acompanhando a psique de cada personagem. Me lembrou "In The Tall Grass", do Stephen King.
E a máscara... Sem palavras.
Fotografia e jogo de luz x sombra incríveis. Fazem os personagens parecerem presos entre corpo e espírito, entre animalidade e consciência. Hipnotizante. Boa ambientação sonora também; contribui para a espiral da loucura.
A melhor cena é da senhora com o samurai, em que ela diz "nunca ter conhecido o belo"; o desabafo de não haver a possibilidade de ter tido uma existência que não fosse organizada exclusivamente pela necessidade. Cortou meu coração.
O filme que me fez conferir toda a série posteriormente. O roteiro é ótimo, muita ação, momentos chocantes (e um particularmente perturbador), diálogos ótimos de todo o elenco principal e participações especiais que deixam qualquer fã do Morcego animado. Filme bem sombrio e sério também, salvo alguns alívios cômicos, como um bom Batman. O Coringa apresenta um nível considerável de crueldade (ainda mais para uma animação juvenil) e a Arlequina é uma ótima coadjuvante na "pequena ponta" (e um dos maiores clímax) do filme. Gostei da retratação do Bruce também, com um ar melancólico mas ainda cheio de esperança e procurando respostas. Conhecemos toda a sistêmica de McGinnis (o Batman) com Bruce, Alfred, sua família e namorada fornecendo uma verdadeira olhadela no "mundo real" dele. Achei legal. A trupe do Coringa é mais um coletivo de capangas qualquer, mas as caracterizações são boas.
Foi minha introdução ao mundo animado do homem-morcego e ainda acredito ser um dos melhores.
Inverossímil historicamente e culturalmente raso; porém, como disseram, maestria técnica. Uma verdadeira aula, mantém o olhar fixo na tela e o coração batendo forte. Esqueça a história e foque na frenética aventura! Uma estrelinha pela mensagem final.
O meio te convida (e nos influencia) constantemente a renegarmos nossos traumas e cicatrizes. Existe uma jornada humilhante de surtos e desabafos até que questões neurológicas sejam levadas a sério e, mesmo quando levadas em consideração, ainda é esperado que você seja funcional. O filme é sobre isso. Durante todo o filme o protagonista grita e constantemente escancara o problema. É o dilema psico/neurológico: sabemos que tem algo de errado conosco, mas o que? Trauma, doença, culpa? Ele vai atrás de respostas. Enquanto isso, o uso e abuso de cuidados sintomáticos, sem nunca investigar a causa. O filme é belo e trágico. O protagonista tem uma força e vigor descomunais, é inspirador. Enquanto lida com suas questões (que envolvem alucinações e um constante senso de perigo que o impedem de estabelecer um porto seguro a.k.a. "respirar"), é vítima de tudo e todos a sua volta.
Existe um constante feeling de "despair". Um dia que fica cada vez mais nublado. Bem nostálgico da cinematografia dos anos 90. Time-lapses com cortes perfeitos e bem elaborados. Atuação esplêndida de Tim Robbins, o protagonista. Filme corajoso e atemporal. Surpreendente. Me prendeu do início ao fim.
Temos um filme que apresenta um mundo à beira do colapso. Uma dinâmica entre três entidades representativas de poder na busca por dominação e influência. Cada um tem uma relação entre papel social e representação. Temos pluralidade religiosa, delírios de totalitarismo, conscientização social e fatalismo; tudo carregado de exagerada carga simbólica e performances. Da colonização a Brasília; da evocação da liberdade e dos direitos humanos ao ataque às nações; da resistência à autoafirmação dos detentores do poder. Ninguém é santo, mas uns são mais que os outros haha A obra mistura solenidade e um certo delírio de um jeito que, às vezes, beira o cômico.
As atuações são maravilhosas. Muita entrega mas com um pouquinho de overacting. Acredito que seja pelo aspecto performático do teatro, já que o filme tem esse feeling de "performance sendo assistida e filmada." Incrível como Brasília, as praias e os monumentos se encaixam no filme mais que os cenários feitos pela produção. O Brasil deixa de ser cenário e passa a ser personagem. Quando li que era uma "batalha entre deuses" imaginei algo visualmente opulento, mas a identidade de cada personagem não está nos figurinos, e sim na força de suas declamações. A alegoria não só não é enfraquecida como o discurso grita e reafirma cada posição.
Existe uma exagerada repetição de conceitos e declamações que podem ser um pouco too much. Entendo o ritualístico do ato da repetição e talvez aos olhos daquela época fosse um recurso necessário de propagação discursiva daqueles determinados ideais, mas confesso que achei um pouco maçante.
Belíssima obra! Ótima para se contemplar e se embriagar nas declamações.
É um documentário sobre a amizade entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e o pintor Carybé e a relação deles com o candomblé e a Bahia. Muito enriquecedor culturalmente e gostoso de assistir. Mostra a força cultural, que atravessa a literatura, música, pintura e religião, que é a Bahia. Toca em pontos históricos importantes para o desenvolvimento da religião, além de oferecer um panorama geral sobre ela. Também mostra o laço fortíssimo entre os três, com muitos comentários brincalhões e histórias de idas e vindas. Várias participações especiais como Gilberto Gil e Glauber Rocha.
A nuance de toda a sistêmica que molda o Shinji e leva ele ao estado mental apresentado durante o filme foi totalmente perdida. Vê-se um Shinji triste, raivoso e indignado com o mundo, mas tudo isso é apresentado sem exploração nenhuma ou porquês. Totalmente superficial. A aproximação entre os personagens acontece tão rapidamente que alguém que não conhece a obra dificilmente entenderia como esses vínculos surgiram tão de repente.
Até as "dream sequences" são na velocidade dobrada, perdendo parte de sua função.
Existem também menções constantes de um "grande plano" ou de um "mistério maior" que será revelado adiante, sempre apresentadas de forma excessivamente explícita, quase didática.
Para uma franquia marcada por tanta delicadeza e sensibilidade, acompanhadas de tamanha ação visceral, a falta de tato constante nas três áreas é um grande turn off.
Vale a pena assistir em alta qualidade todas as lutas, que ganharam uma boa remasterização. A reconstrução dos anjos está incrível! Pule e vá direto para as lutas.
Múltiplas histórias fragmentadas contadas de maneira absurdamente profunda, sem confundir o espectador e prendendo-o durante toda a narrativa. As diferentes tramas são permeadas por momentos de intimidade, como a dinâmica de uma família, casais ou amizades, e num geral são relativamente pesadas, expondo um dos objetivos do diretor, o de mostrar a realidade em toda a sua complexidade: a violência e a empatia que coexistem no ser humano. Além disso, Iñarritu desata os nós dessas múltiplas histórias aos poucos. A fragmentação vai além do mero recurso narrativo. À medida que o filme avança, o mesmo acontecimento ganha novos sentidos conforme a perspectiva muda. O objetivo está em expor como indivíduos reagem ao mundo e às circunstâncias que compartilham, mais do que seguir uma linearidade com um desfecho decisivo.
A paleta de cores é bem sombria, reforçando tanto o caos emocional quanto a violência social presentes na narrativa; existe também, de forma bem evidente, o uso de cortes bruscos que intensificam o choque emocional e a adrenalina.
Trilha sonora absolutamente maravilhosa. Cada música encanta e complementa com mansidão as diferentes tramas que se desenrolam, trazendo um pouco de leveza e sensibilidade a um filme que por vezes pode ser bem "sufocante."
Fui assistir só sabendo que era o favorito de Bergman, porque remetia à percepção dele sobre seus anos de criação. Assim como o filme, trago uma percepção subjetiva da minha criação.
Logo na primeira parte eu tive uma ligação muito forte com as personagens, me deu vontade de estar com toda a minha família reunida (assim como no filme, costumamos reunir boa parte do pessoal e fazer uma grande festa em alguns natais. As cenas de ti-ti-ti e fofoquinhas, tios bêbados e molecada aprontando também me lembram muito a realidade das nossas festas). Uma verdadeira (e sincera) celebração. O ambiente é acolhedor e, justamente por isso, parece incentivar a criatividade, a autoconfiança e a relação mútua entre todos que preenchem aquele espaço. A liberdade para serem fiéis às suas essências. Um ambiente dos sonhos (literalmente) para a criação de filhos. A chegada do clérigo e a mudança brusca na ambientação (e consequentemente dinâmica) de Fanny e Alexander é sentida nos ossos. Paisagem muda, paleta de cores muda, tudo muda. Vemos o desenvolvimento de Alexander progredir (através de outros estímulos) e o trauma continuado da irmã (por estímulos semelhantes). Tudo muito pesado, mas muito fiel. Quem foi criado em um ambiente dotado de religiosidade – e ainda mais fervorosa – sabe bem como é. De qualquer forma, é belíssimo prestigiar a metamorfose de Alexander. Temos também sequências fantásticas compostas por personagens alegóricas que trabalham como projeção de figuras familiares e referências para abstração infantil a fim de obter entendimentos, à própria maneira de Alexander, sobre seu estado atual e o mundo ao seu redor (dentre as personagens, ênfase na visita de um antigo parente). Passagem fantástica. Sem estragar o final, é um filme feito para ser contemplado. Carregado de simbolismo, montagem e cenários impecáveis, atuações ótimas e super sensíveis.
Uma verdadeira ode ao conceito (para mim) de família idealizada: aquelas de sistêmica forte, em que a rede sempre permanece amarrada e proporciona um ambiente que fornece o melhor... A oportunidade de ser humano. Me lembrou muito AMARCORD, do Fellini!
Eu gostei muito, apesar da considerável "lentidão". Este é um filme feito para se observar e realmente, mesmo lento, os enquadramentos são tão perfeitos e os elementos dos quadros são tão polidos que te prendem. Cenas que ilustram isso bem são a da caixa de supermercado teclando os códigos dos produtos (daquela forma mecânica e estética super clean) e a da filha e colegas de escola pulando o cavalo na aula de educação física. O filme brinca com essa ideia do ser humano ser uma extensão da própria rotina, ao invés do contrário, e com toda a mecanicidade dessa extensão. O jantar (em que o irmão chora) tem aquele silêncio constrangedor em que as pessoas estão desconexas e para "não ficar chato" começam a falar do tempero. Até que o irmão desaba, trazendo a desordem pra dentro da casa da família. É um tipo de rotina que não permite vulnerabilidade. O restante é tudo muito casual mesmo e a falta de conflito contribui pra essa casualidade. Engraçado que não parece uma normatividade forçada, parece que eles simplesmente são assim (mostrando a falha da idealização desse estilo de vida, talvez?).
Quando a bomba estoura aí já era. Acho que o ato de quebrarem a casa toda, rasgarem todo o dinheiro e tal não precisa de resposta. É um ritual de suicídio, cada suicida tem o seu. Falando novamente em enquadramento, a cena dos três mortos deitados no fim com a tv chiando daria um legítimo quadro! Belíssima!
O Haneke tem uma capacidade impressionante de construir planos que ficam na nossa cabeça tempos depois. Enfim, recomendo! Muito bonito e o Haneke mais leve que assisti até agora.
Exercícios cinematográficos e metalinguagem ligados no 220v. O diálogo de Beatrice com Charlotte é ótimo, casual e banal, ao mesmo tempo em que toca em questões socioculturais relevantes. É um filme sobre gente. O filme discorre sobre o egocentrismo e a falta de empatia no meio artístico enquanto explora novas formas de fazer cinema, como a duplicidade de câmeras sugerindo múltiplos universos e a filmagem do voyeur enquanto o próprio é filmado. Vários momentos cômicos baseados na megalomania de todos os envolvidos. O estopim é a "catarse epiléptica" da última parte. Ela se inicia aos gritos no que parece uma mesa redonda onde nenhum dos integrantes gostaria de estar, até culminar na performance totalmente trágica de Charlotte. Como disse Beatrice no início da obra... "Os fins justificam os meios."
Mysterious Skin é um filme de reação pós-trauma. No caso, como o acontecimento molda a identidade, a personalidade e futuro dos indivíduos submetidos por ele.
É um filme corajoso, pois muito se fala no sofrimento causado a vítimas de abuso, mas pouco se fala das consequências reais (e por muitas vezes, instantâneas) que passam a fazer parte do cotidiano destas pessoas.
Dois jovens destoam em percepção e na forma com que digerem o que aconteceu. O filme não estabelece uma resposta 'correta' ao trauma; acompanha, com enorme sensibilidade, como cada um constrói mecanismos próprios para continuar vivendo. Características fisiológicas como narizes sangrando e episódios de desligamento fazem parte do processo de manifestação do trauma, assim como uma hipersexualidade que grita advinda de um sentimento de autodestruição.
Gregg Araki usa componentes lúdicos na construção narrativa, mas o filme é cru. Pesado. Não poupa nada, nem as cenas mais violentas e explícitas das histórias dos dois garotos. Muitos diretores e roteiristas utilizam do histórico de sofrimento de uma personagem como plano de fundo ou construção histórica. Esse filme não é nada disso. O filme todo é sobre o sofrimento e a realidade que é fruto dele.
Gostaria de fazer menção rápida a passagens que me chamaram atenção: a relação desconexa entre os pais e os personagens principais e uma frase: “ele estava apaixonado por mim. Eu era o favorito dele.”
Não sei se deu pra perceber, mas eu amei o filme. Foi o mais fiel que eu já vi na forma de retratar o assunto. Assisti “Happiness” do Todd Solondz e “Má Educação” do Almodóvar... Estava esperando algo do tipo.
Quanta humanidade! Almodóvar constrói um universo onde a empatia atravessa todos os espaços: o teatro, os camarins, os apartamentos, as ruas e os encontros improváveis. Pessoas profundamente diferentes entre si se reconhecem pela dor, pelo afeto, pelas suas vivências peculiares e pela disposição em continuar vivendo, mesmo quando a vida está prestes a desmoronar. O que mais me impressionou foi a forma como o filme acolhe a pluralidade de experiências sem reduzir ninguém a uma categoria ou condição. Todos os personagens possuem contradições, fragilidades, desejos e uma dignidade muito própria. Não há caricaturas; há pessoas.
Visualmente, é tudo o que se espera de Almodóvar: cores vibrantes, cenários impecáveis, enquadramentos elegantes e uma teatralidade assumida que não afasta da realidade nua e crua das temáticas apresentadas. Pelo contrário, o diretor não apenas se recusa a retirar o véu cinematográfico, como o recobre novamente com exagero, humor e melodrama. O filme olha para temas difíceis como luto, prostituição e dependência química com sensibilidade, humor e uma enorme generosidade.
Apesar das tragédias, existe um movimento constante em direção à vida. As personagens sofrem, erram, amam, cuidam umas das outras e seguem em frente. Poucos filmes conseguem transmitir tanto calor humano. Terminei o filme com a sensação de que gostaria de sentar à mesa com aquelas pessoas e passar mais algumas horas ouvindo suas histórias. Tudo com muitas risadas e champagne barato.
Filme maravilhoso! Longa-metragem do gênero thriller de narrativa linear e cinematografia mais clássica. Incrível como certos acontecimentos históricos parecem ter saídos de roteiros cinematográficos. Esse é um deles.
Jovens burgueses idealistas de esquerda juntam-se à uma brigada revolucionária e planejam sequestrar o embaixador americano como forma de libertarem presos políticos e divulgarem seu manifesto. O filme foca na humanidade das personagens e não na simbologia histórica que cada uma carrega. Vemos a arquitetura do plano tomar forma, o êxito e em seguida a parte mais importante do filme... "E agora?" Os envolvidos oscilam constantemente entre o papel revolucionário e suas vidas particulares e o filme também expõe a falta de preparo de todas as partes envolvidas. Questionamentos surgem acerca do propósito do plano, o propósito da tortura (tentativa rasa de ao menos retratar que todos possuem uma vida para além desse circo dos horrores, incluindo os militares) e o quanto um embaixador, figura de lei, representa uma posição alegórica e não está a par dos acontecimentos do país que habita (ou será que está?)
O filme é um breath of fresh air, pois o cinema histórico às vezes cai na armadilha de transformar todo mundo em símbolos: O revolucionário vira "A Revolução". O militar vira "A Ditadura". O diplomata vira "O Imperialismo". Ao invés disso, o filme retrata essas personagens como pessoas normais, dotadas de conflitos internos e vivendo aos trancos e barrancos.
Os últimos 20 minutos de filme são um choque de realidade, para um filme relativamente leve até então. Foi a constatação do diretor de: "lembram-se com o que estamos lidando?" - e o clima pesa.
Ao final, fica a constatação de que o objetivo nunca foi apenas o embaixador. Era também "fazer o mundo olhar para o Brasil."
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964 Pinocchio
2.9 57O filme é mais um exercício experimental conceitual do que uma narrativa linear, embora seja dotado de enredo. É uma representação das relações humanas, da caoticidade do meio urbano e do completo absurdismo tecnológico.
O experimentalismo aumenta conforme o filme progride.
Existe uma forte crítica à dominação antiética da tecnologia, à sobreposição do lucro ao orgânico e também à corrupção, além de valorização do intelecto acima de quaisquer outros preceitos mesmo em momentos de crise.
Muito metal, ruído, violência, sexo, tecnologia e colapso psicológico juntos.
A cena do supermercado é um clássico. A primeira manifestação de Pinocchio como ser humano.
A incessante repetição maternal dos comportamentos de Himiko para com Pinocchio é comicamente didática e a atuação beira o teatral. É muito bonita. A casa de Himiko assemelha-se a um palco onde vemos a dinâmica dos dois florescer.
A câmera em perspectiva faz o espectador sentir-se na própria Tóquio. Eu sempre acho o máximo filmagens no meio de transeuntes, ainda mais quando apresentado dessa forma visceral como no filme haha
Contribui pro aspecto teatral, agora de intervenção.
Mais apoio pela freneticidade visual e ângulos desfavoráveis nos rostos de atores, por favor!
A estética anos 90 com o "cyberpunk retail store" deixa tudo muito charmoso, da melhor forma possível.
A atriz que interpreta Himiko faz um overacting que ao mesmo tempo é muito convincente. Todos os personagens deste "teatro dos absurdos" são caricatos, porém de uma forma muito honesta para com o filme. O ator que interpreta o "Pinocchio" é absurdamente cru e visceral. Nem imagino o quão desgastante foram as filmagens.
O melhor exemplo dessa abordagem de atuação é a famosa cena de Himiko na estação de metrô.
O humor me lembrou o (bem mais recente) absurdismo de Shintaro Kago.
Tem uma influência violenta de Cronenberg também.
Quem é habituado ao nansensu japonês vai se deliciar. Tá todo mundo loco.
Façam um favor a si mesmos: vejam as cenas dos créditos, haha
Amargo
3.6 45O filme é uma grande ode ao gênero italiano "giallo" e apresenta um sequenciamento de estudos estéticos a partir de diferentes abordagens e características que marcaram o movimento. Mais que uma narrativa linear, é um exercício de semiótica montado de forma fragmentada.
A passagem de Ana criança talvez seja para muitos o ápice do filme, embora eu prefira a segunda parte. Na anterior, testemunhamos Ana entrar em conflito com seres fantásticos, desenvolver traumas e processar o luto de seu avô. Cortes curtos, rápidos e multicromáticos acompanham a jovem lutando por sua integridade. Tudo muito barulhento, com ranger de portas e olhares atrás de fechaduras despertando a sensação de vigilância constante (que não inibem a jovem). Ana está sendo observada e simultaneamente aprendendo a observar.
A cena de Ana (agora adulta) caminhando com sua mãe é um show à parte. Ilustram as embaraçadas linhas afetuosas e os chamados individuais da carne. Tudo sendo filmado como um comercial de perfume da Ralph Lauren. O filme todo exala e emana "desejo".
Existe a total dominância do olhar sobre tudo, como se a visão fosse quase um estudo sociológico. Habilidade essa, que Anna adquiriu ainda na infância e é compartilhada pelas outras personagens.
Existe um certo primitivismo também que beira o frenético.
Ânsia do que?
Tudo é fisiológico. Tudo é tentação (e proteção e libertação).
Até um pente fino vira organismo vivo.
Há uma cena de percurso em um automóvel com as janelas abertas e Ana sentada em bancos de couro. Mais um comercial, dessa vez filmado por Kenneth Anger.
Os cortes presentes nas cenas com Ana refletem-se da infância para a vida adulta transmitindo uma constante lembrança. Lembrança da rigidez do solo, das roupas ao vento e a iluminação multi cromática.
Focos diretos e delimitados a fim de expressar tais estados de espírito.
Violência muito delicada.
Êxtase natural (e estético).
Coyote vs. Acme
3.8 77A premissa é ótima.
Um advogado de casos pequenos (Kevin, representado por Will Forte) recebe (involuntariamente) uma oportunidade única: promover justiça, no caso, contra BigTechs (representadas pela ACME). O julgamento e o senado caricatos têm uma forte conotação crítica também.
Conforme vamos investigando, a proporção do caso aumenta, como acontece em episódios de grande repercussão legal.
Coyote é a fonte de muitas risadas. Ele é mais complexo do que parece; passa (e promove) por um turbilhão de emoções junto de Kevin e a sobrinha estagiária dele. O trio forma um time perfeito.
John Cena apresenta uma grande atuação como um dos antagonistas. Figurão.
Achei a participação de outros membros da trupe do Looney Tunes totalmente dispensável. O secretário do John Cena não convence muito também. Piu-piu atua melhor que ele. Outros membros do escritório de Kevin também não causam uma grande impressão.
Explosões, perseguições, mais explosões e, obviamente, muitas marteladas animadas. Rendeu boas risadas. Coyote se comunicar por cartazes foi genial.
Animação muito bonita, mesmo que um pouco caótica! Coyote se movimenta anatomicamente como nos desenhos clássicos e a combinação entre real + ilustrado fluiu sem muitas distrações pra mim (totalmente leigo).
Um bom filme. Plot legal para um adulto se entreter e ao mesmo tempo fácil para a criançada se engajar também. Aberto para todos os públicos.
ps. O discurso final do Frangolino é de arrepiar.
Onibaba: A Mulher Demônio
4.1 134 Assista AgoraTudo que eu vejo sobre a(s) era(s) feudal(is) japonesa é de cortar o coração. A miséria e o puro desespero enquanto samurais dizimam e são dizimados.
Acho que o filme retrata bem essas condições.
A luta pela sobrevivência, a corrupção humana (até mesmo involuntária) e a visceralidade instintiva que se constrói até possuir o ser. A guerra reorganiza o próprio sistema em prol da sobrevivência.
As melhores cenas são aquelas espontâneas, dominadas pelo primitivo e o vulnerável. Belíssimo ver a jovem atravessar o matagal correndo sem pensar duas vezes todas as noites. O matagal quase abre caminho pra ela.
Um comportamento nas refeições que diz mil palavras. O desespero de saciar o apetite.
Além disso, temos personagens gritando sozinhos e se jogando no chão, interagindo com o ambiente. Muito simbólico também. O filme frequentemente comunica estados psicológicos através de comportamentos que beiram o animalesco.
Todas, manifestações sinceras daqueles que estão presos nessa realidade terrível.
Confesso que achei muito engraçado o discurso sobre pecado haha, mas se encaixa completamente dentro daquele mundo. Os valores ideológicos de outrora não são os da guerra. A moral se adapta.
Filme cheio de ambiguidades também; físicas e morais.
Obviamente não posso deixar de citar a ambientação, dotada de vida própria. A manifestação orgânica da guerra, transformando o habitat em caos e campo de batalha. Belíssima cinematografia, com a envergadura dos galhos acompanhando a psique de cada personagem. Me lembrou "In The Tall Grass", do Stephen King.
E a máscara... Sem palavras.
Fotografia e jogo de luz x sombra incríveis. Fazem os personagens parecerem presos entre corpo e espírito, entre animalidade e consciência. Hipnotizante.
Boa ambientação sonora também; contribui para a espiral da loucura.
A melhor cena é da senhora com o samurai, em que ela diz "nunca ter conhecido o belo"; o desabafo de não haver a possibilidade de ter tido uma existência que não fosse organizada exclusivamente pela necessidade. Cortou meu coração.
Batman do Futuro - O Retorno do Coringa
3.5 83O filme que me fez conferir toda a série posteriormente.
O roteiro é ótimo, muita ação, momentos chocantes (e um particularmente perturbador), diálogos ótimos de todo o elenco principal e participações especiais que deixam qualquer fã do Morcego animado. Filme bem sombrio e sério também, salvo alguns alívios cômicos, como um bom Batman.
O Coringa apresenta um nível considerável de crueldade (ainda mais para uma animação juvenil) e a Arlequina é uma ótima coadjuvante na "pequena ponta" (e um dos maiores clímax) do filme.
Gostei da retratação do Bruce também, com um ar melancólico mas ainda cheio de esperança e procurando respostas.
Conhecemos toda a sistêmica de McGinnis (o Batman) com Bruce, Alfred, sua família e namorada fornecendo uma verdadeira olhadela no "mundo real" dele. Achei legal.
A trupe do Coringa é mais um coletivo de capangas qualquer, mas as caracterizações são boas.
Foi minha introdução ao mundo animado do homem-morcego e ainda acredito ser um dos melhores.
Apocalypto
3.8 911 Assista AgoraInverossímil historicamente e culturalmente raso; porém, como disseram, maestria técnica. Uma verdadeira aula, mantém o olhar fixo na tela e o coração batendo forte. Esqueça a história e foque na frenética aventura!
Uma estrelinha pela mensagem final.
Alucinações do Passado
3.9 277 Assista AgoraO meio te convida (e nos influencia) constantemente a renegarmos nossos traumas e cicatrizes.
Existe uma jornada humilhante de surtos e desabafos até que questões neurológicas sejam levadas a sério e, mesmo quando levadas em consideração, ainda é esperado que você seja funcional. O filme é sobre isso.
Durante todo o filme o protagonista grita e constantemente escancara o problema. É o dilema psico/neurológico: sabemos que tem algo de errado conosco, mas o que? Trauma, doença, culpa? Ele vai atrás de respostas.
Enquanto isso, o uso e abuso de cuidados sintomáticos, sem nunca investigar a causa.
O filme é belo e trágico. O protagonista tem uma força e vigor descomunais, é inspirador. Enquanto lida com suas questões (que envolvem alucinações e um constante senso de perigo que o impedem de estabelecer um porto seguro a.k.a. "respirar"), é vítima de tudo e todos a sua volta.
Existe um constante feeling de "despair". Um dia que fica cada vez mais nublado. Bem nostálgico da cinematografia dos anos 90.
Time-lapses com cortes perfeitos e bem elaborados.
Atuação esplêndida de Tim Robbins, o protagonista.
Filme corajoso e atemporal.
Surpreendente. Me prendeu do início ao fim.
Estrelinha pela pontinha do Macaulay Culkin!
A Idade da Terra
3.6 55Temos um filme que apresenta um mundo à beira do colapso.
Uma dinâmica entre três entidades representativas de poder na busca por dominação e influência.
Cada um tem uma relação entre papel social e representação.
Temos pluralidade religiosa, delírios de totalitarismo, conscientização social e fatalismo; tudo carregado de exagerada carga simbólica e performances.
Da colonização a Brasília; da evocação da liberdade e dos direitos humanos ao ataque às nações; da resistência à autoafirmação dos detentores do poder.
Ninguém é santo, mas uns são mais que os outros haha
A obra mistura solenidade e um certo delírio de um jeito que, às vezes, beira o cômico.
As atuações são maravilhosas. Muita entrega mas com um pouquinho de overacting. Acredito que seja pelo aspecto performático do teatro, já que o filme tem esse feeling de "performance sendo assistida e filmada."
Incrível como Brasília, as praias e os monumentos se encaixam no filme mais que os cenários feitos pela produção. O Brasil deixa de ser cenário e passa a ser personagem.
Quando li que era uma "batalha entre deuses" imaginei algo visualmente opulento, mas a identidade de cada personagem não está nos figurinos, e sim na força de suas declamações. A alegoria não só não é enfraquecida como o discurso grita e reafirma cada posição.
Existe uma exagerada repetição de conceitos e declamações que podem ser um pouco too much. Entendo o ritualístico do ato da repetição e talvez aos olhos daquela época fosse um recurso necessário de propagação discursiva daqueles determinados ideais, mas confesso que achei um pouco maçante.
Belíssima obra! Ótima para se contemplar e se embriagar nas declamações.
3 Obás de Xangô
4.2 10 Assista AgoraÉ um documentário sobre a amizade entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e o pintor Carybé e a relação deles com o candomblé e a Bahia. Muito enriquecedor culturalmente e gostoso de assistir. Mostra a força cultural, que atravessa a literatura, música, pintura e religião, que é a Bahia. Toca em pontos históricos importantes para o desenvolvimento da religião, além de oferecer um panorama geral sobre ela. Também mostra o laço fortíssimo entre os três, com muitos comentários brincalhões e histórias de idas e vindas. Várias participações especiais como Gilberto Gil e Glauber Rocha.
Evangelion: 1.11 Você (Não) Está Sozinho
4.2 106Evangelion no 2.0x
A nuance de toda a sistêmica que molda o Shinji e leva ele ao estado mental apresentado durante o filme foi totalmente perdida. Vê-se um Shinji triste, raivoso e indignado com o mundo, mas tudo isso é apresentado sem exploração nenhuma ou porquês. Totalmente superficial.
A aproximação entre os personagens acontece tão rapidamente que alguém que não conhece a obra dificilmente entenderia como esses vínculos surgiram tão de repente.
Até as "dream sequences" são na velocidade dobrada, perdendo parte de sua função.
Existem também menções constantes de um "grande plano" ou de um "mistério maior" que será revelado adiante, sempre apresentadas de forma excessivamente explícita, quase didática.
Para uma franquia marcada por tanta delicadeza e sensibilidade, acompanhadas de tamanha ação visceral, a falta de tato constante nas três áreas é um grande turn off.
Vale a pena assistir em alta qualidade todas as lutas, que ganharam uma boa remasterização. A reconstrução dos anjos está incrível! Pule e vá direto para as lutas.
Amores Brutos
4.2 838 Assista AgoraMúltiplas histórias fragmentadas contadas de maneira absurdamente profunda, sem confundir o espectador e prendendo-o durante toda a narrativa.
As diferentes tramas são permeadas por momentos de intimidade, como a dinâmica de uma família, casais ou amizades, e num geral são relativamente pesadas, expondo um dos objetivos do diretor, o de mostrar a realidade em toda a sua complexidade: a violência e a empatia que coexistem no ser humano.
Além disso, Iñarritu desata os nós dessas múltiplas histórias aos poucos. A fragmentação vai além do mero recurso narrativo. À medida que o filme avança, o mesmo acontecimento ganha novos sentidos conforme a perspectiva muda. O objetivo está em expor como indivíduos reagem ao mundo e às circunstâncias que compartilham, mais do que seguir uma linearidade com um desfecho decisivo.
A paleta de cores é bem sombria, reforçando tanto o caos emocional quanto a violência social presentes na narrativa; existe também, de forma bem evidente, o uso de cortes bruscos que intensificam o choque emocional e a adrenalina.
Trilha sonora absolutamente maravilhosa. Cada música encanta e complementa com mansidão as diferentes tramas que se desenrolam, trazendo um pouco de leveza e sensibilidade a um filme que por vezes pode ser bem "sufocante."
Fanny e Alexander
4.3 223 Assista AgoraFui assistir só sabendo que era o favorito de Bergman, porque remetia à percepção dele sobre seus anos de criação. Assim como o filme, trago uma percepção subjetiva da minha criação.
Logo na primeira parte eu tive uma ligação muito forte com as personagens, me deu vontade de estar com toda a minha família reunida (assim como no filme, costumamos reunir boa parte do pessoal e fazer uma grande festa em alguns natais. As cenas de ti-ti-ti e fofoquinhas, tios bêbados e molecada aprontando também me lembram muito a realidade das nossas festas). Uma verdadeira (e sincera) celebração.
O ambiente é acolhedor e, justamente por isso, parece incentivar a criatividade, a autoconfiança e a relação mútua entre todos que preenchem aquele espaço. A liberdade para serem fiéis às suas essências. Um ambiente dos sonhos (literalmente) para a criação de filhos.
A chegada do clérigo e a mudança brusca na ambientação (e consequentemente dinâmica) de Fanny e Alexander é sentida nos ossos. Paisagem muda, paleta de cores muda, tudo muda. Vemos o desenvolvimento de Alexander progredir (através de outros estímulos) e o trauma continuado da irmã (por estímulos semelhantes). Tudo muito pesado, mas muito fiel. Quem foi criado em um ambiente dotado de religiosidade – e ainda mais fervorosa – sabe bem como é. De qualquer forma, é belíssimo prestigiar a metamorfose de Alexander.
Temos também sequências fantásticas compostas por personagens alegóricas que trabalham como projeção de figuras familiares e referências para abstração infantil a fim de obter entendimentos, à própria maneira de Alexander, sobre seu estado atual e o mundo ao seu redor (dentre as personagens, ênfase na visita de um antigo parente). Passagem fantástica.
Sem estragar o final, é um filme feito para ser contemplado. Carregado de simbolismo, montagem e cenários impecáveis, atuações ótimas e super sensíveis.
Uma verdadeira ode ao conceito (para mim) de família idealizada: aquelas de sistêmica forte, em que a rede sempre permanece amarrada e proporciona um ambiente que fornece o melhor... A oportunidade de ser humano.
Me lembrou muito AMARCORD, do Fellini!
O Sétimo Continente
4.0 187Eu gostei muito, apesar da considerável "lentidão".
Este é um filme feito para se observar e realmente, mesmo lento, os enquadramentos são tão perfeitos e os elementos dos quadros são tão polidos que te prendem. Cenas que ilustram isso bem são a da caixa de supermercado teclando os códigos dos produtos (daquela forma mecânica e estética super clean) e a da filha e colegas de escola pulando o cavalo na aula de educação física. O filme brinca com essa ideia do ser humano ser uma extensão da própria rotina, ao invés do contrário, e com toda a mecanicidade dessa extensão.
O jantar (em que o irmão chora) tem aquele silêncio constrangedor em que as pessoas estão desconexas e para "não ficar chato" começam a falar do tempero. Até que o irmão desaba, trazendo a desordem pra dentro da casa da família. É um tipo de rotina que não permite vulnerabilidade.
O restante é tudo muito casual mesmo e a falta de conflito contribui pra essa casualidade. Engraçado que não parece uma normatividade forçada, parece que eles simplesmente são assim (mostrando a falha da idealização desse estilo de vida, talvez?).
Quando a bomba estoura aí já era. Acho que o ato de quebrarem a casa toda, rasgarem todo o dinheiro e tal não precisa de resposta. É um ritual de suicídio, cada suicida tem o seu.
Falando novamente em enquadramento, a cena dos três mortos deitados no fim com a tv chiando daria um legítimo quadro! Belíssima!
O Haneke tem uma capacidade impressionante de construir planos que ficam na nossa cabeça tempos depois.
Enfim, recomendo! Muito bonito e o Haneke mais leve que assisti até agora.
Lux Æterna
3.4 70Exercícios cinematográficos e metalinguagem ligados no 220v.
O diálogo de Beatrice com Charlotte é ótimo, casual e banal, ao mesmo tempo em que toca em questões socioculturais relevantes.
É um filme sobre gente.
O filme discorre sobre o egocentrismo e a falta de empatia no meio artístico enquanto explora novas formas de fazer cinema, como a duplicidade de câmeras sugerindo múltiplos universos e a filmagem do voyeur enquanto o próprio é filmado.
Vários momentos cômicos baseados na megalomania de todos os envolvidos.
O estopim é a "catarse epiléptica" da última parte. Ela se inicia aos gritos no que parece uma mesa redonda onde nenhum dos integrantes gostaria de estar, até culminar na performance totalmente trágica de Charlotte. Como disse Beatrice no início da obra... "Os fins justificam os meios."
Prefiro a clássica "Trilogia da Carne" de Noé.
Mistérios da Carne
4.1 1,0K Assista AgoraMysterious Skin é um filme de reação pós-trauma. No caso, como o acontecimento molda a identidade, a personalidade e futuro dos indivíduos submetidos por ele.
É um filme corajoso, pois muito se fala no sofrimento causado a vítimas de abuso, mas pouco se fala das consequências reais (e por muitas vezes, instantâneas) que passam a fazer parte do cotidiano destas pessoas.
Dois jovens destoam em percepção e na forma com que digerem o que aconteceu. O filme não estabelece uma resposta 'correta' ao trauma; acompanha, com enorme sensibilidade, como cada um constrói mecanismos próprios para continuar vivendo. Características fisiológicas como narizes sangrando e episódios de desligamento fazem parte do processo de manifestação do trauma, assim como uma hipersexualidade que grita advinda de um sentimento de autodestruição.
Gregg Araki usa componentes lúdicos na construção narrativa, mas o filme é cru. Pesado. Não poupa nada, nem as cenas mais violentas e explícitas das histórias dos dois garotos. Muitos diretores e roteiristas utilizam do histórico de sofrimento de uma personagem como plano de fundo ou construção histórica. Esse filme não é nada disso. O filme todo é sobre o sofrimento e a realidade que é fruto dele.
Gostaria de fazer menção rápida a passagens que me chamaram atenção: a relação desconexa entre os pais e os personagens principais e uma frase: “ele estava apaixonado por mim. Eu era o favorito dele.”
Não sei se deu pra perceber, mas eu amei o filme. Foi o mais fiel que eu já vi na forma de retratar o assunto. Assisti “Happiness” do Todd Solondz e “Má Educação” do Almodóvar... Estava esperando algo do tipo.
Ganhei um soco no estômago. Recomendadíssimo.
Tudo Sobre Minha Mãe
4.2 1,3K Assista AgoraQuanta humanidade!
Almodóvar constrói um universo onde a empatia atravessa todos os espaços: o teatro, os camarins, os apartamentos, as ruas e os encontros improváveis. Pessoas profundamente diferentes entre si se reconhecem pela dor, pelo afeto, pelas suas vivências peculiares e pela disposição em continuar vivendo, mesmo quando a vida está prestes a desmoronar.
O que mais me impressionou foi a forma como o filme acolhe a pluralidade de experiências sem reduzir ninguém a uma categoria ou condição. Todos os personagens possuem contradições, fragilidades, desejos e uma dignidade muito própria. Não há caricaturas; há pessoas.
Visualmente, é tudo o que se espera de Almodóvar: cores vibrantes, cenários impecáveis, enquadramentos elegantes e uma teatralidade assumida que não afasta da realidade nua e crua das temáticas apresentadas. Pelo contrário, o diretor não apenas se recusa a retirar o véu cinematográfico, como o recobre novamente com exagero, humor e melodrama.
O filme olha para temas difíceis como luto, prostituição e dependência química com sensibilidade, humor e uma enorme generosidade.
Apesar das tragédias, existe um movimento constante em direção à vida. As personagens sofrem, erram, amam, cuidam umas das outras e seguem em frente. Poucos filmes conseguem transmitir tanto calor humano.
Terminei o filme com a sensação de que gostaria de sentar à mesa com aquelas pessoas e passar mais algumas horas ouvindo suas histórias. Tudo com muitas risadas e champagne barato.
O Que é Isso, Companheiro?
3.8 388 Assista AgoraFilme maravilhoso! Longa-metragem do gênero thriller de narrativa linear e cinematografia mais clássica.
Incrível como certos acontecimentos históricos parecem ter saídos de roteiros cinematográficos. Esse é um deles.
Jovens burgueses idealistas de esquerda juntam-se à uma brigada revolucionária e planejam sequestrar o embaixador americano como forma de libertarem presos políticos e divulgarem seu manifesto.
O filme foca na humanidade das personagens e não na simbologia histórica que cada uma carrega.
Vemos a arquitetura do plano tomar forma, o êxito e em seguida a parte mais importante do filme... "E agora?"
Os envolvidos oscilam constantemente entre o papel revolucionário e suas vidas particulares e o filme também expõe a falta de preparo de todas as partes envolvidas.
Questionamentos surgem acerca do propósito do plano, o propósito da tortura (tentativa rasa de ao menos retratar que todos possuem uma vida para além desse circo dos horrores, incluindo os militares) e o quanto um embaixador, figura de lei, representa uma posição alegórica e não está a par dos acontecimentos do país que habita (ou será que está?)
O filme é um breath of fresh air, pois o cinema histórico às vezes cai na armadilha de transformar todo mundo em símbolos:
O revolucionário vira "A Revolução".
O militar vira "A Ditadura".
O diplomata vira "O Imperialismo".
Ao invés disso, o filme retrata essas personagens como pessoas normais, dotadas de conflitos internos e vivendo aos trancos e barrancos.
Os últimos 20 minutos de filme são um choque de realidade, para um filme relativamente leve até então. Foi a constatação do diretor de: "lembram-se com o que estamos lidando?" - e o clima pesa.
Ao final, fica a constatação de que o objetivo nunca foi apenas o embaixador. Era também "fazer o mundo olhar para o Brasil."