Woody Allen pra mim é um diretor de altos e baixos, não sou muito fã da fase "noivo neurótico, noiva nervosa", mas essa fase aqui de "vicky cristina barcelona", "match point" e "meia noite em Paris" me pega em cheio.
Esse filme aqui em específico é uma coisa belíssima. Sério, uma das fotografias mais bonitas que já vi, atores, figurinos, diálogos, tudo é charmoso e sensual, cada detalhe, e sobretudo Barcelona, a cidade que atua como a terceira personagem da história ao lado de Vicky e de Cristina. Vejo muitos comentários que infelizmente analisam o filme por uma ótica totalmente moralista e engessada, como "romantização da traição" ou exposição do "esquerdomacho", mas eu o percebo como bem mais que isso.
Eu vejo a construção das personagens turistas americanas, Vicky e Cristina, que vão passar férias de verão na Europa com suas personalidades distintas, como uma forma de representar as dúvidas e incertezas sobre a vida por meio do amor. Vi um amigo até mesmo comentar que pode ser um "coming of age" tardio, claro, pq não?
A Vicky sendo a priori mais "conservadora" e com um plano de vida consolidado, acadêmica, que vai a Barcelona para elaborar sua tese, prestes a se casar com um americano médio, e que está sempre a julgar Cristina pela sua "imaturidade", vê toda a sua "arrogância" desabar quando se envolve com o artista catalão Juan Antonio. Um envolvimento amoroso tão forte que a fez questionar tudo que vivia. Já Cristina, que não sabe o que quer da vida e está em Barcelona para curtir e se encontrar com algo que a inspire, termina também se envolvendo com Juan Antonio e entrando em seu peculiar relacionamento de trisal com sua ex Maria Elena, saindo desse relacionamento quando achou adequado.
Woody allen conseguiu em apenas 96 min de filme nos mostrar inúmeros tipos de relacionamento: destrutivo (como no caso de Juan antonio e maria helena, que foram feitos um para o outro, mas simplesmente não funcionam juntos), estagnado/insatisfeito (como no caso de Vicky e seu noivo americano médio Doug), mutável (como no caso de Cristina), e por aí vai. O diretor nos traz por meio dessa pintura romântica europeia vivida por duas americanas um constraste entre culturas, entre modos de se viver, a experimentação sexual, o questionamento existencial da vida adulta, tudo narrado pelo próprio Woody Allen para que possamos "desligar" um pouco a mente e apenas assistir essa beleza de homenagem à Espanha e da forma libertária de se pensar tão bem representada pela cidade catalã.
O mais próximo de vontade de me matar que já senti na vida. Nem de brincadeira indiquem isso ou façam alguém assistir essa aberração. Um dejeto em forma audiovisual. A experiência de assistir essa porcaria é uma verdadeira tortura. Não é engraçado, não tem enredo, não tem atuação, não tem sentido. É o ponto mais baixo no qual a a humanidade já chegou em produção que deveria ser artística. Que morram todos os envolvidos nesse lixo.
Segundo filme do sean baker que assisto, sou extremamente fã de florida project, logo fui assistir essa obra aqui com grande expectativa e felizmente não me decepcionei.
O estilo de filme que esse diretor faz me agrada imensamente, principalmente a forma como ele curte criar narrativas de pessoas marginalizadas, fudidas, sem norte na vida, em meio ao sonho americano de uma forma que vai muito além de uma mera questão de ser pobre na terra do Tio Sam. É uma questão de GAP social, de abismo entre oportunidades e realidades no contraste entre a luxúria da riqueza da maior economia do mundo com a precariedade em que esses personagens que o diretor gosta de criar vivem.
Nesse caso aqui nos deparamos com a prostituta, dançarina (use o eufemismo que preferir) Anora, uma garota de ascêndencia russa que trabalha num strip club. Por acaso do destino ela calha de atender um jovem de família magnata oligarca russa chamado Ivan. A partir do atendimento feito onde a garota arrisca o seu russo aprendido com a avó a relação evolui até que o playboy solicite seus serviços de forma exclusiva, para passar uma semana com ele, viajam a Vegas, e por fim, ele tem a ideia de que se casem naqueles casamentos relâmpagos feitos em Vegas no estilo Rachel e Ross em Friends.
A primeira parte do filme consiste, portanto, nesse conto de fadas. Onde os dois estão curtindo, saindo com os amigos de Ivan, viajando, transando e usando drogas, uma lua de mel antecipada que culmina no ponto do casamento. Uma fala que representa esse conto de fadas vivido por Anora se dá no momento em que ela se despede das companheiras de trabalho do strip club, dizendo que almeja um casamento de "Cinderella" na disney, como se tivesse um princípe que finalmente achou o seu sapato de cristal. Sob inveja e comentários do tipo de "você ganhou na loteria", Anora não precisará mais ser puta, pois se casou com um verdadeiro príncipe russo, ou o seu Richard Gere de "Uma linda mulher".
Após o casamento o filme começa de verdade, a segunda parte tem a reação da família oligarca ao tomar conhecimento de que o seu filho se casou com uma prostituta americana. São enviados, portanto, os capangas da família até a residência da família em Nova York na qual ele estava vivendo com Anora para resolver a situação considerada uma "vergonha nacional". Através de uma longa trama que em muitos momentos se torna cômica os capangas da família buscam por Ivan, que foge, ao passo que tentam convencer Anora para que o casamento fosse anulado. Esses capangas embora nos lembrem em muitos momentos o estilo gângster clássico, algo meio família soprano, fogem um pouco do estereótipo brutamontes, e a personagem, por sua vez, embora conte com toda a malandragem e sagacidade da vida da noite se dá conta do que é lidar com o verdadeiro poder, com o dinheiro que manda em tudo.
Ao passo que percebe a sua impotência diante da influência e poder daquela família, evidenciada de vez quando os pais de Ivan chegam à América para resolver o que os capangas não conseguiram e solucionam de forma rápida, invalidando o casamento e suprimindo rapidamente qualquer reivindicação que a personagem pudesse ter, Anora também percebe a diferença grotesca entre ela e Ivan. Embora sejam dois jovens, ela está do lado dos que tem que trabalhar e pagar contas, dos que se não ganhar dinheiro trabalhando, vendendo seu corpo, não terá o que comer. Diferente de Ivan que é um eterno adolescente, e que sempre será, tudo aquilo para ele não passou de uma diversão.
Paralelamente ao tema da anulação do casamento o filme cria um romance entre o capanga Igor, o mais silencioso e gentil daqueles com Anora. Enquanto todos da família a tratam como mera prostituta aproveitadora (por mais que Anora estivesse querendo se aproveitar da situação não partiu dela a ideia de se casar), reduzindo-a a isso, Igor demonstra ser o único que sente pena e busca a confortar diante daquela saga.
A percepção que tive é que o diretor desenvolveu esse romance para nos demonstrar como Igor da mesma forma que Anora, está ali tentando ganhar a sua vida. Os capangas não são nada diante do poderio daquela família e tem o seu cargo ameaçado diretamente pela mãe de Ivan diante da incapacidade em conter a irresponsabilidade do filho de se casar com uma puta. Nas cenas finais fica nítido para mim como Anora demonstra a sua fragilidade, depois de tanto lutar (física, verbal e psicologicamente) pelo seu interesse (financeiro) naquele casamento. Em um mundo onde a nossa existência está condicionada ao dinheiro, e a viver correndo atrás dele, ela simplesmente desaba diante da singela gentileza e dose de romantismo do capanga Igor.
Deveria ter separação entre a versão de cinema e a versão estendida aqui. O que vale 5 estrelas é a versão estendida, cheia de cenas emblemáticas e importantíssimas para o entendimento da história que infelizmente tiveram que ser ceifadas para a versão de cinema.
A trilogia se trata de uma adaptação excelente que respeita a obra do Tolkien e deveria ser modelo para todas as outras adaptações de Senhor dos Anéis. Muito diferente de uma série podre aí que a amazon resolveu produzir com uma história nada canônica, de fanfic, tomando emprestado personagens e lugares da Terra Média, mudando completamente a característica desses, deturpando e alterando a ordem e os fatores de acontecimentos dos livros. Basta respeitar a obra original, não há necessidade de criar nada em cima, está tudo lá, todas as eras da Terra Média na vasta literatura que o Professor deixou para nós.
As poucas mudanças que o Peter Jackson fez ao longo dessa trilogia em relação aos livros são coisas pequenas, justificáveis e que fazem todo sentido pensando numa forma de exibição cinematográfica. Como, por exemplo, substituir o capítulo final do expurgo do Condado por uma morte mais prematura do Saruman (cena esta que foi cortada da versão de cinema para fúria do Christopher Lee). Outro exemplo foi a mudança da maior relevância da Arwen para que ela pudesse ser mais familiar para o espectador.
Fotografia absurda (magníficos cenários neozelandeses), o ponto certo de CGI (auge do artifício foi nos anos 2000) em sua dosagem com efeito prático, maquete e maquiagem. Atuações históricas repletas de lendas do cinema, ritmo ótimo, trilha sonora impecável
Por isso tudo o resultado de ter sido um dos maiores vencedores de oscar de todos os tempos é totalmente merecido. Para mim, se trata da melhor adaptação e melhor trilogia da história do cinema.
Filme muito potente. Aborda várias questões que já eram realidade dos anos 50 e conseguiram não mudar absolutamente nada nos dias de hoje. O espaço urbano do rio de janeiro sendo extremamente fragmentado com diversas realidades sociais distintas que caracterizam o seu apartheid não oficial.
A periferia, representada pela zona norte do rio de janeiro, sendo majoritariamente negra, abandonada, favelizada, com seus homicídios e crimes normalizados. O suburbano, por sua vez, se torna um indivíduo escanteado pela sociedade, marginalizado e afastado da cúpula branca da cultura elitizada da zona sul/centro tornando o sucesso de um artista extremamente talentoso infinitamente mais difícil ou impossível de ser alcançado.
Não bastassem todas as dificuldades da vida do Espírito, personagem magistralmente interpretado pelo grande otelo, faltou sorte de não ter conhecido pessoas que não quisessem só passar a perna nele. O talento era notório demais para passar despercebido como ficou claro na bela cena do samba com a Angela Maria, mas faltaram oportunidades, da mesma forma que acontece com tanta gente talentosa no nosso país.
"Os sambas do Espírito são criações autênticas: elas refletem o que o Espírito viu e sentiu."
Para um filme da década de 50, período extremamente reacionário e moralista da história dos EUA e do mundo, aborda questões muito interessantes sobre a mulher. Demonstra como sempre foi considerado normal para um homem mais velho se relacionar com uma mulher mais nova, como seria o caso do Harvey que a família e amigas de Cary esperavam que fosse seu par, e como por outro lado quando Cary decide se relacionar com o jardineiro mais novo isso é visto como algo enfadonho.
Além da diferença de idade também o relacionamento com o jardineiro acaba sendo julgado pela posição social inferior deste pretendente, que não tem o status dos demais, e também é trabalhada de forma interessante a forma como os filhos de Cary se intrometem em sua vida se posicionando contra este relacionamento como bons filhos egoístas que são.
Não bastasse trabalhar com um tema totalmente à frente do seu tempo o filme conta com uma belíssima imagem technicolor, mas infelizmente o finalzinho pastelão não permitiu que recebesse uma nota muito alta.
Pelo que percebi e busquei saber fica clara a mensagem de despedida do miyazaki sendo um filme autobiográfico com ele sendo o próprio tio-avô com toda uma fusão de suas obras anteriores por meio de inúmeras referências sendo representadas naquela torre. Porém, muito mais do que isso, o filme traz inúmeras temáticas sentimentais como luto, sociais sobre a forma que se organiza a sociedade japonesa no contexto de guerra e na encruzilhada tradição x modernidade, e até mesmo política representada pelos periquitos e sua clara representação de um líder fascista.
Por essa incapacidade de uma compreensão total da obra, por se tratar de um filme extremamente denso e difícil de interpretar, sobretudo para nós ocidentais que vivemos sobre outra visão de mundo e não temos a percepção e conhecimento de mundo de valores orientais. ficamos com sensação de incompletude e frustração, mas achei uma bela e digna despedida.
Bom filme. Nos faz pensar que por aqui no Brasil não fomos capazes nem de botar esses vagabundos torturadores da ditadura em uma cadeira de réu como fizeram na Argentina. Pelo contrário, os vagabundos militares por aqui fizeram a transição "lenda, gradual e segura", com anistia geral e se não bastasse isso são homenageados até hoje por outros vagabundos como o que ocupou a presidência nos últimos 4 anos.
Excelente adaptação da genial obra de Umberto Eco. Filme feito sob um cuidado meticuloso ao utilizar orientação acadêmica (Le goff para história) para reconstruir uma medievalidade mais próxima possível do tido como ideal. A trama consegue representar as tensões da multifacetada igreja medieval e suas diferentes ordens (mendicantes, monásticas, cléricas) em meio a uma narrativa ''policial'' medieval protagonizada pelo excelente personagem William de Baskerville e seu aprendiz Adso. Demorei muito a assistir por achar que não corresponderia ao nível do livro, mas, felizmente, me enganei.
Outubro está incluso na onda de movimento revolucionário cultural russo que acompanhou os acontecimentos políticos. Engraçado observar como neste filme, que foi lançado 10 anos após a revolução, Trotsky é retratado não diretamente como um traidor da revolução, já sob a batuta de Stalin, no comando da URSS.
Dentre os filmes bíblicos que buscam tratar da história de Jesus Cristo esse é um dos que apresenta mais pontos interessantes para mim.
Em primeiro lugar pela ideia de gravá-lo em aramaico, idioma do tempo da Judeia, com partes em latim, do império romano. Embora seja improvável que historicamente jesus tenha tido um diálogo em latim com Pôncio Pilatos essa busca de dar realidade a história através dessa retomada do idioma é interessante.
Outro ponto que me chama a atenção é a fotografia que o Mel gibson diz ter se inspirado nos vitrais góticos das igrejas, e de fato resultou em belas imagens.
Mel Gibson ainda retomou a pitada de anti-semitismo nesse filme, colocando os judeus como claros responsáveis pela morte de Jesus, coisa que em outros filmes desse tema é amortecida, culpando apenas uma pequena elite, fariseus, aqui o antisemitismo é claro, característico do Mel Gibson, que é um sujeito de caráter deverás duvidoso.
E por último, a violência descarada nesse trajeto da via sacra, que aliás, é a única parte da trajetória de jesus tratada no filme, sendo esse um elemento que chama bastante atenção. Fui assistir despretensiosamente, sem vontade, por não ter interesse por essa temática religiosa cristã e acabei sendo surpreendido por esses elementos, me levando a ver outros filmes que tratam sobre a vida de cristo para comparar as maneiras de reproduzir os evangelhos no cinema.
Excelente a crítica que o filme traz assim como a ideia central do seu roteiro. Tem tudo a ver com a realidade vivida nas cidades da américa latina. Em tempos que vivemos, particularmente, aqui no Brasil, percebemos inúmeras semelhanças com a história que esse filme se propõe a trazer. Desde a perpétua desigualdade suntuosa ao punitivismo dos sádicos justiceiros sociais.
A trama também me lembrou bastante a grande obra que sou fã, Som ao Redor, principalmente no que se trata do isolacionismo da classe média e das elites, em sua tentativa de ignorar os problemas sociais, dentre eles a violência, achando que ao se isolarem em sua bolha estarão se livrando de tais ameaças, embora estejam para sempre fadados a lidar com o som ao redor que muros não podem parar.
No entanto, apesar da ótima intenção que o filme tem, ele é mal executado. A ambientação é ruim e principalmente os atores são fracos, o que infelizmente não permite dar uma nota muito alta para o filme.
Na grande obra do novo cinema pernambucano O som ao redor de 2013, dirigido por Kleber Mendonça, temos uma crítica contínua do começo ao fim do filme às questões sociais do Brasil. Ambientado na grande Recife, o filme conta a história de um grupo de seguranças que aparece em um bairro de classe média alta da cidade para oferecer seu serviço de vigília. Os moradores que alegavam uma crescente insegurança com o aumento da criminalidade os contratam e a partir daí uma série de acontecimentos se desenrolam.
A trama conta com diversos núcleos, sendo o principal focando em João, um jovem corretor de imóveis e uma moça chamada Sofia, com a qual ele vive um romance. João é neto de Francisco, o proprietário de praticamente todos os imóveis da região. Somente por este cenário inicial apresentado, já é possível percebermos uma forte crítica a esta especulação imobiliária presente no colonialismo do grande proprietário de imóveis da região, assim como à classe média emergente que habita o bairro, em vários momentos da trama, o individualismo e o consumo desta classe média brasileira ficam evidentes, como na fútil discussão acerca do "mau serviço" do porteiro do prédio entre os moradores do condomínio de João, por dormir no trabalho, ou por entregar a revista veja fora do saco plástico.
Ao mesmo tempo em que faz essas críticas contemporâneas à sociedade brasileira, Kleber Mendonça dialoga com um passado colonial, coronelista e escravista. No começo da película são passadas cenas onde se apresentam grandes fazendas com plantações de cana de açúcar, famílias humildes em fileira e um senhor do engenho. Portanto, a crítica atual repete antigos vícios do passado. O som ao redor, literalmente falando, presente durante a trama, é o som que os moradores da classe mais favorecida não conseguem impedir que entrem em suas casas por meio de muros, grades ou seguranças.
No fim, aqueles vigilantes que foram contratados para realizar a segurança do bairro. Clodoaldo e seus parceiros, estavam ali justamente para vingar o passado, quando o seu pai foi assassinado por causa de brigas territoriais com o latifundiário Francisco, apesar de esta cena ser pouco explicada, remetemos à cena inicial das fazendas e dos coronéis e logo associamos Francisco a esse posto. Por fim, o longa se encerra com João e Sofia tomando um banho de cachoeira que se torna um banho de sangue.
Em Som ao Redor a repetição e os fantasmas do passado são justamente essas classes historicamente negligenciadas que se perpetuam no imaginário das classes privilegiadas como uma perturbação.
Atuação extraordinária da Isabelle Hupert e um absurdo completo o filme ter sido rejeitado ao oscar por ser ''amoral''. Voltamos aos anos 50?
Enfim, sobre a história, discordo completamente da visão que alguns comentários expõem sobre a romantização e o fetichismo do estupro supostamente retratados no filme.
Na minha leitura o filme aborda a relação entre estupro e poder. A dominação sobre o mais fraco que supera o prazer. Em nenhum momento Michèle gostou ou romantizou os estupros dos quais foi vítima. Pelo contrário, se sentiu vitimizada e inferiorizada por Patrick, pessoa que ela sentia atração sexual antes de saber que era o seu estuprador, só desejá-la através da violência e não de forma consensual.
A personalidade fria e seu aparente descaso referentes às violências que sofreu fazem parte dela. Os traumas aos quais foi exposta em sua infância pelo seu pai psicopata a tornaram uma pessoa extremamente pragmática, distante e calculista. Não vejo como se ela não tivesse se importado, mas para ela seria pior denunciar essa situação e voltar a ser o centro das atenções da mídia e da polícia após todo o trabalho que teve para reconstruir sua vida. Ainda mais por se tratar do momento em que seu pai havia acabado de morrer.
Ainda de acordo com a minha interpretação, Michèle, portanto, planeja que seu filho bobalhão os encontre naquela cena de violência sexual sabendo que ele reagiria e provavelmente colocaria um fim àquilo.
Acho que julgar as atitudes insensíveis de Michèle nessa história é desconsiderar os traumas psicológicos aos quais ela foi exposta durante sua infância que a afetaram por toda a sua vida, e desconsiderar, também, que o Patrick se aproveitou disso.
Garoto Selvagem se trata da história real de um menino encontrado por um grupo de caçadores em uma floresta francesa. Tendo provavelmente sido abandonado pelos pais por julgarem que tivesse algum tipo de deficiência, o rapaz sobrevive e cresce em meio a natureza selvagem, tendo que sobreviver com seus instintos e longe de qualquer contato com a sociedade.
Temos aqui a representação bestial do ser humano, uma criança que não fala, não anda e não possui qualquer costume tido como civilizado. Ao ser encontrado, é levado para a cidade com uma grande expectativa por parte da imprensa Parisiense, por pensarem que se trataria de uma criança monstruosa. Tal expectativa, no entanto, é frustrada pelo seu aspecto de ser humano comum. A repentina falta de interesse fez então com que a criança selvagem fosse deixada de lado e enviada para um instituto de surdo mudos, devido a sua indiferença quanto às interações dos homens civilizados, que assim o julgaram.
O médico humanista, Jean-Pierre Itard, interpretado genialmente pelo próprio Truffaut, vai contra essa falta de interesse com o menino e decide ele mesmo educá-lo e tentar torná-lo civilizado. O que é do ponto de vista das outras pessoas considerado um tempo perdido. Por meio de uma série de métodos, um tanto quanto rigorosos, o médico vai aos poucos conseguindo fazer com que o então o nomeado Victor apresente avanços rumo à sua civilização. Chegando ao ponto em que ele já é capaz até mesmo de pronunciar determinadas palavras e expressar os seus desejos, o que parecia totalmente impossível no começo.
Na última parte do filme é possível perceber ainda, que apesar de agora já parcialmente civilizado, Victor sempre terá em si algo que não pôde ser transformado, a sua natureza e a sua intimidade com a liberdade, longe dos rituais e padrões impostos por uma sociedade que se julga superior ao que é primitivo.
É interessante também destacar que apesar de ser um filme curto e direto em sua mensagem, é um material que rende muito debate e que é referência em diversas áreas das ciências como a antropologia (acho que o filme é um clichezão das aulas dessa matéria), sociologia, psicologia, etc. Essas discussões profundas que se pode fazer acerca da obra mostram o quão grandioso foi Truffaut ao dirigir esse filme, tomando como base os relatos médicos do acontecimento que aconteceu de verdade. Não é a toa que é um dos maiores diretores da história do cinema.
Filme belo e poético assim como os outros do Kar Wai Wong que já tive o prazer de assistir. Nesse aqui, em especial, me apaixonei pela filmagem da câmera incontrolável sempre buscando um sentido desesperado em torno dos personagens. Estes personagens são os anjos caídos, pessoas solitárias que perambulam pela noite em uma cidade gigante e totalmente influenciada pelo capitalismo e a cultura ocidental como é Hong Kong. Os McDonalds, Marlboro, 7up e outras marcas que representam essa dominação estão presentes por todo o filme. Por ser uma narrativa que mexe com os sentimentos do espectador, e não um padrão certinho e linear, eu admiro mais essa obra agora, após rever, do que da primeira vez que assisti. O assassino que não tem problema em matar ninguém, mas se perde em um romance inesperado com a ''loira''. Sua cúmplice misteriosa que limpa as suas impressões digitais, entra em sua casa e recolhe o seu lixo, protagonizando cenas de masturbação, e o delinquente mudo que vive com o pai e invade estabelecimentos comerciais a noite trabalhando como se fosse o dono, e em um desses trabalhos acaba por consolar uma mulher que passa sempre a chorar em seu ombro. Estes últimos que fazem parte da capa do fime em uma bela viagem de moto, acompanhada pela habitual banda sonora adequada aos ritmos da narrativa, onde a versão de "Only You" dos Flying Pickets toca e deixa a cena marcada na memória. É difícil tentar compreender tais personagens, a realidade é que não tem o que entender, apenas aceitar que eles vivem um conjunto de episódios definidores das suas vidas, num território cosmopolita paradoxal à solidão que apresentam.
Sétimo continente é uma porrada niilista. Como a existência e o convívio de uma família pode ser pautada numa rotina robótica, repetitiva, sem sentido. Todos os dias sendo o mesmo loop eterno. Um pai, uma mãe e uma filha aparentemente normais na visão da sociedade, mas que planejavam algo sinistro. Tem tantas críticas ao nosso modelo de viver nessa obra que fica até difícil de listar: sociedade consumista, burocratização da vida, conformismo, a crueldade que o ser humano pode ter com os fracassados segundo o modelo civilizatório em que vivemos, a riqueza material obtida nos países desenvolvidos e a consequente capacidade de não preencher o vazio que esta não necessidade de ascensão econômica e social deixa. E por fim, o não final feliz, que difere do que é passado numa fantasia utópica de felicidade. Com poucas falas e um silêncio incômodo, essa obra consegue nos transmitir todos esses pensamentos e reflexões, além de uma profunda angústia.
Seja pela estética de neorealismo italiano tendo em foco uma Milão em ebulição na sua recuperação pós guerra, ou pela história de cada irmão da família sulista que migra em busca de uma ascensão social no norte industrializado, cada um com suas características e ações que se transformam em consequências. (italiano representando família é genial) Seja ainda pelo triângulo amoroso constituído por Rocco, Simeone e Nadia, três excelentes personagens, por sinal, o bom, o mau e a dúbia. Triângulo amoroso esse que acaba por se tornar o foco principal do filme. Enfim, seja pelo que quiser, não sei nem dizer por quais destes aspectos o filme merece uma nota tão alta e um coraçãozinho, talvez por tudo isso junto. Filmaço.
Se eu desconsiderasse o fundo de verdade histórico que há neste filme, ele, ainda assim, seria gigantesco. Sua fotografia, direção, a atuação do Peter O'Toole, a evolução que o seu personagem vive, tudo isso faz com que seja um dos maiores filmes que já tive o prazer de assistir. No entanto, ainda temos como bônus esse detalhe histórico que há em seu enredo, a existência verídica de TE Lawrence, e o interesse do Reino Unido pela região das ''arábias'', que permitem a ele traçar o seu objetivo. O inicial pacato e grande conhecedor da região árabe começa uma jornada que busca a união dos povos beduínos e a formação de uma identidade árabe, através de alianças entre as tribos e confrontos com os otomanos. Gradativamente, vemos Lawrence construir vínculos, amizades, atingir um ápice como herói, e finalmente decair como um louco sádico coberto de areia da cabeça aos pés. Lawrence da Arábia é uma obra única, que nos traz a grandiosidade de uma aventura no deserto, seja nas batalhas, seja nos momentos de silêncio, muita ação durante as lutas, e a história intimista de TE Lawrence e de seus ideais.
Kes é um filme muito próximo ao clássico de Truffaut, os incompreendidos, e nos faz lembrar do filme durante todo minuto em que assistimos. Tornando quase impossível não se fazer comparações e denominá-lo como o incompreendidos britânico.
O tema da infância, tão presente no cinema é mais uma vez abordado nesta película. O diretor inglês Ken Loach apresenta com maestria uma história comovente e impactante, na qual Billy é o protagonista, e vive numa cidade mineira da Inglaterra na década de 60.
O rapazinho vive com uma mãe ausente que cuida dos seus próprios interesses, deixando o filho de lado, e com um irmão mais velho que trabalha nas minas da cidade e não perde a oportunidade de maltratá-lo. Se o cenário familiar é triste, na escola consegue ser tão ruim quanto, ou pior. Professores autoritários praticantes da palmatória, em uma instituição autoritária e cheia de regras, no melhor estilo The Wall do pink floyd, fazem com que ele se torne ainda mais desajustado.
No entanto, em seu tempo livre, na busca de uma atividade em que possa encontrar alguma felicidade, Billy se depara com o que viria a ser sua grande paixão, um filhote de gavião, o qual passa a treinar com muito afeto e dedicação, se tornando um perito no adestramento de sua pequena ave. Fato que parece devolver, de certa forma, o sentido de sua vida.
Se engana, no entanto, quem acredita que a mensagem do filme termina na relação de Billy com o seu animalzinho de estimação. Como ele mesmo explica a um dos seus professores, que seu interesse em cuidar da ave não tem nada a ver como um desejo de poder, de domesticar o animal, mas sim de observar seu crescimento, a intensificação da sua potência de existir. Ele explica que Kes não é e nunca será um bicho de estimação, ela pode voar em liberdade, e permanecer apenas enquanto desejar.
Essa relação demonstra uma crítica ao sistema de educação. Enquanto a instituição de ensino se prende ao lado autoritário da disciplina, Billy realiza o seu projeto plenamente, apenas por sua vontade própria.
A triste morte do seu falcão, realizada pelo seu irmão, pelo fato do rapaz ter usado o dinheiro do mesmo para comprar comida, ao invés de fazer a aposta que foi mandado, representa assim a morte da inocência do protagonista. O ponto que mostra que o sistema educacional atual é soberano. A condução dos estudos ao sistema em que somos obrigados a viver. Capaz de reduzir a nada a motivação e o sentido da existência.
Ikiru é uma das mais belas reflexões sobre o propósito da vida e do engajamento social da história do cinema.
Senhor Watanabe é um burocrata que passou toda a sua vida enclausurado em um escritório. Seu papel consiste em nada mais que carimbar papéis e juntá-los a uma pilha de outros papéis carimbados de casos que nunca irão se resolver. Uma existência mecanizada de uma grande indústria que é o Japão ocidentalizado pós-guerra.
Após descobrir que estava condenado a apenas poucos meses de vida por conta de um câncer no estômago, Watanabe toma consciência dessa condição em que vive, e do vazio que é a sua vida. Viúvo, com um filho que se distanciou e o trata com indiferença, e com uma trabalho inútil. Começa então uma desesperada procura por sentido em sua existência, em fazer algo realmente significativo.
Tal oportunidade é encontrada quando se depara com a possibilidade de resolver um caso específico do seu departamento público, que é a construção de um parque em meio a um terreno baldio, em uma área abandonada de um bairro pobre. A partir daí, o protagonista não mede esforços para que essa tarefa seja executada, e não apenas adiada como todas as outras.
A segunda parte do filme do filme se desenrola após a morte de Watanabe. Com uma reflexão por parte das pessoas próximas a ele, em busca do entendimento das razões que o fizeram agir de tal maneira. Sem saberem que ele já sabia da sua condição de saúde, sendo este o motivo que o fez mudar radicalmente de atitude. Uma cena especial é a que as famílias do bairro que ganhou o parque comparecem ao velório para agradecer a generosidade dele. O que gera desconforto por parte de seus companheiros de ofício. Que prometem até mesmo mudarem de atitude a partir de então, e agirem como Watanabe agiu em seus últimos dias. O que podemos constatar que nunca aconteceu, graças a cena final, em que toda a burocracia esta de volta ao seu lugar de sempre.
A cena mais emblemática do filme, sem dúvidas, é a capa do filme. O protagonista no balanço do parque que ajudou a ser feito. Em seus últimos momentos de vida, apreciando a obra que não seria possível sem o seu empenho.
É interessante destacar também a atuação de Takashi Shimura. Ator que na maioria das suas atuações ficou na sombra do também genial Toshiro Mifune. Como, por exemplo, em Sete Samurais, ou Rashomon. Neste filme, ele rouba os holofotes e nos mostra que não é menos gênio. Sua atuação consegue comover, e demonstrar o sentimento profundo de angústia que vive na trama.
Não sou fã de filme de romance, nunca fui, e provavelmente nunca serei. Mas o que é isso aqui? Isso é uma obra de arte, meus amigos. Que diálogos, que ambiente vivido, que cenários, puta que me pariu. Dois estranhos, estrangeiros, uma francesa e um americano, que se conhecem num trem pela Europa e fazem um acordo de uma ''saída'' por apenas um dia proposta pelo Jesse, com uma argumentação ´´genial´´ aceita por Celine. A partir daí os dois vivem um dia intenso. E leia-se um dia intenso sem necessariamente nenhuma ação explosiva. Intenso nos diálogos, intenso naquele amor leve e novo vivido pelos personagens sob o céu de Viena, a cidade na qual eles resolvem desembarcar e viver essa aventura, mesmo sem ter o mínimo conhecimento da língua alemã. Tudo nesse filme é bonito e grandioso, as mais simples conversas, os mais simples gestos, o primeiro beijo após longo conhecimento que um adquire sobre o outro, o temor do fim daquele momento mágico e da provável despedida de acordo com o combinado. Um dia que pode ser deixado para trás, mas nunca esquecido. Enfim, tudo nesse filme é lindo. Para mim, o melhor da trilogia também, apesar dos outros dois serem ótimos.
O enredo do filme gira em torno da questão existencial vivida pelo protagonista e a sua dúvida de como diferenciar a vida real daquela que existe somente em nossos sonhos. O mesmo vive um looping eterno de acordar de um sonho e estar dentro de outro. Como separar o que é real do que é sonho? Não é uma tarefa fácil de acordo com as questões levantas neste filme. Diversas questões maravilhosas são apontadas por diversos personagens peculiares e únicos que discutem com o protagonista assuntos totalmente aleatórios e abstratos. Da política, religião até as grandes conspirações globais. Presenciei nesse filme uma filosofia de boteco indescritível, frases e situações que sempre tive em minha mente, porém nunca soube como colocar em palavras. Ver esse filme foi um orgasmo mental, fiquei em êxtase absoluta. A técnica de filmagem engana muito, a princípio pensei que se tratava de uma animação, o que a primeira vista não me agradou, mas na verdade é muito mais do que isso: O filme é inteiramente filmado em rotoscópio, com cenas filmadas sobrepostas a uma película que imitam uma textura de animações flash. Um trabalho gigantesco que deve ser reconhecido, fazendo cada gravação de cena durar horas. É legal destacar também as referências que o filme faz, há uma cena com referência ao filme ''Sonhos'' do Akira Kurosawa, a da preleção feita pelo macaco. Há também a participação de Ethan Hawke e Julie Delpy, atores do filme anterior, e também maravilhoso, do Linklater: ''Antes do amanhecer''. Há ainda várias outras referências que merecem destaque, mas para não me prolongar muito vou citar apenas essas duas.
Afinal, somos conscientes enquanto dormimos, ou sonâmbulos enquanto acordados?
Vicky Cristina Barcelona
3.8 2,2K Assista AgoraWoody Allen pra mim é um diretor de altos e baixos, não sou muito fã da fase "noivo neurótico, noiva nervosa", mas essa fase aqui de "vicky cristina barcelona", "match point" e "meia noite em Paris" me pega em cheio.
Esse filme aqui em específico é uma coisa belíssima. Sério, uma das fotografias mais bonitas que já vi, atores, figurinos, diálogos, tudo é charmoso e sensual, cada detalhe, e sobretudo Barcelona, a cidade que atua como a terceira personagem da história ao lado de Vicky e de Cristina. Vejo muitos comentários que infelizmente analisam o filme por uma ótica totalmente moralista e engessada, como "romantização da traição" ou exposição do "esquerdomacho", mas eu o percebo como bem mais que isso.
Eu vejo a construção das personagens turistas americanas, Vicky e Cristina, que vão passar férias de verão na Europa com suas personalidades distintas, como uma forma de representar as dúvidas e incertezas sobre a vida por meio do amor. Vi um amigo até mesmo comentar que pode ser um "coming of age" tardio, claro, pq não?
A Vicky sendo a priori mais "conservadora" e com um plano de vida consolidado, acadêmica, que vai a Barcelona para elaborar sua tese, prestes a se casar com um americano médio, e que está sempre a julgar Cristina pela sua "imaturidade", vê toda a sua "arrogância" desabar quando se envolve com o artista catalão Juan Antonio. Um envolvimento amoroso tão forte que a fez questionar tudo que vivia. Já Cristina, que não sabe o que quer da vida e está em Barcelona para curtir e se encontrar com algo que a inspire, termina também se envolvendo com Juan Antonio e entrando em seu peculiar relacionamento de trisal com sua ex Maria Elena, saindo desse relacionamento quando achou adequado.
Woody allen conseguiu em apenas 96 min de filme nos mostrar inúmeros tipos de relacionamento: destrutivo (como no caso de Juan antonio e maria helena, que foram feitos um para o outro, mas simplesmente não funcionam juntos), estagnado/insatisfeito (como no caso de Vicky e seu noivo americano médio Doug), mutável (como no caso de Cristina), e por aí vai. O diretor nos traz por meio dessa pintura romântica europeia vivida por duas americanas um constraste entre culturas, entre modos de se viver, a experimentação sexual, o questionamento existencial da vida adulta, tudo narrado pelo próprio Woody Allen para que possamos "desligar" um pouco a mente e apenas assistir essa beleza de homenagem à Espanha e da forma libertária de se pensar tão bem representada pela cidade catalã.
Internet: O Filme
1.5 317O mais próximo de vontade de me matar que já senti na vida. Nem de brincadeira indiquem isso ou façam alguém assistir essa aberração. Um dejeto em forma audiovisual.
A experiência de assistir essa porcaria é uma verdadeira tortura. Não é engraçado, não tem enredo, não tem atuação, não tem sentido. É o ponto mais baixo no qual a a humanidade já chegou em produção que deveria ser artística. Que morram todos os envolvidos nesse lixo.
Nosferatu
3.6 945 Assista AgoraNão ironicamente o filme perdeu estrelas na minha avaliação por terem colocado um BIGODE no nosferatu.
Anora
3.4 1,2K Assista AgoraSegundo filme do sean baker que assisto, sou extremamente fã de florida project, logo fui assistir essa obra aqui com grande expectativa e felizmente não me decepcionei.
O estilo de filme que esse diretor faz me agrada imensamente, principalmente a forma como ele curte criar narrativas de pessoas marginalizadas, fudidas, sem norte na vida, em meio ao sonho americano de uma forma que vai muito além de uma mera questão de ser pobre na terra do Tio Sam. É uma questão de GAP social, de abismo entre oportunidades e realidades no contraste entre a luxúria da riqueza da maior economia do mundo com a precariedade em que esses personagens que o diretor gosta de criar vivem.
Nesse caso aqui nos deparamos com a prostituta, dançarina (use o eufemismo que preferir) Anora, uma garota de ascêndencia russa que trabalha num strip club. Por acaso do destino ela calha de atender um jovem de família magnata oligarca russa chamado Ivan. A partir do atendimento feito onde a garota arrisca o seu russo aprendido com a avó a relação evolui até que o playboy solicite seus serviços de forma exclusiva, para passar uma semana com ele, viajam a Vegas, e por fim, ele tem a ideia de que se casem naqueles casamentos relâmpagos feitos em Vegas no estilo Rachel e Ross em Friends.
A primeira parte do filme consiste, portanto, nesse conto de fadas. Onde os dois estão curtindo, saindo com os amigos de Ivan, viajando, transando e usando drogas, uma lua de mel antecipada que culmina no ponto do casamento. Uma fala que representa esse conto de fadas vivido por Anora se dá no momento em que ela se despede das companheiras de trabalho do strip club, dizendo que almeja um casamento de "Cinderella" na disney, como se tivesse um princípe que finalmente achou o seu sapato de cristal. Sob inveja e comentários do tipo de "você ganhou na loteria", Anora não precisará mais ser puta, pois se casou com um verdadeiro príncipe russo, ou o seu Richard Gere de "Uma linda mulher".
Após o casamento o filme começa de verdade, a segunda parte tem a reação da família oligarca ao tomar conhecimento de que o seu filho se casou com uma prostituta americana. São enviados, portanto, os capangas da família até a residência da família em Nova York na qual ele estava vivendo com Anora para resolver a situação considerada uma "vergonha nacional". Através de uma longa trama que em muitos momentos se torna cômica os capangas da família buscam por Ivan, que foge, ao passo que tentam convencer Anora para que o casamento fosse anulado. Esses capangas embora nos lembrem em muitos momentos o estilo gângster clássico, algo meio família soprano, fogem um pouco do estereótipo brutamontes, e a personagem, por sua vez, embora conte com toda a malandragem e sagacidade da vida da noite se dá conta do que é lidar com o verdadeiro poder, com o dinheiro que manda em tudo.
Ao passo que percebe a sua impotência diante da influência e poder daquela família, evidenciada de vez quando os pais de Ivan chegam à América para resolver o que os capangas não conseguiram e solucionam de forma rápida, invalidando o casamento e suprimindo rapidamente qualquer reivindicação que a personagem pudesse ter, Anora também percebe a diferença grotesca entre ela e Ivan. Embora sejam dois jovens, ela está do lado dos que tem que trabalhar e pagar contas, dos que se não ganhar dinheiro trabalhando, vendendo seu corpo, não terá o que comer. Diferente de Ivan que é um eterno adolescente, e que sempre será, tudo aquilo para ele não passou de uma diversão.
Paralelamente ao tema da anulação do casamento o filme cria um romance entre o capanga Igor, o mais silencioso e gentil daqueles com Anora. Enquanto todos da família a tratam como mera prostituta aproveitadora (por mais que Anora estivesse querendo se aproveitar da situação não partiu dela a ideia de se casar), reduzindo-a a isso, Igor demonstra ser o único que sente pena e busca a confortar diante daquela saga.
A percepção que tive é que o diretor desenvolveu esse romance para nos demonstrar como Igor da mesma forma que Anora, está ali tentando ganhar a sua vida. Os capangas não são nada diante do poderio daquela família e tem o seu cargo ameaçado diretamente pela mãe de Ivan diante da incapacidade em conter a irresponsabilidade do filho de se casar com uma puta. Nas cenas finais fica nítido para mim como Anora demonstra a sua fragilidade, depois de tanto lutar (física, verbal e psicologicamente) pelo seu interesse (financeiro) naquele casamento. Em um mundo onde a nossa existência está condicionada ao dinheiro, e a viver correndo atrás dele, ela simplesmente desaba diante da singela gentileza e dose de romantismo do capanga Igor.
O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
4.5 1,8K Assista AgoraDeveria ter separação entre a versão de cinema e a versão estendida aqui. O que vale 5 estrelas é a versão estendida, cheia de cenas emblemáticas e importantíssimas para o entendimento da história que infelizmente tiveram que ser ceifadas para a versão de cinema.
A trilogia se trata de uma adaptação excelente que respeita a obra do Tolkien e deveria ser modelo para todas as outras adaptações de Senhor dos Anéis. Muito diferente de uma série podre aí que a amazon resolveu produzir com uma história nada canônica, de fanfic, tomando emprestado personagens e lugares da Terra Média, mudando completamente a característica desses, deturpando e alterando a ordem e os fatores de acontecimentos dos livros. Basta respeitar a obra original, não há necessidade de criar nada em cima, está tudo lá, todas as eras da Terra Média na vasta literatura que o Professor deixou para nós.
As poucas mudanças que o Peter Jackson fez ao longo dessa trilogia em relação aos livros são coisas pequenas, justificáveis e que fazem todo sentido pensando numa forma de exibição cinematográfica. Como, por exemplo, substituir o capítulo final do expurgo do Condado por uma morte mais prematura do Saruman (cena esta que foi cortada da versão de cinema para fúria do Christopher Lee). Outro exemplo foi a mudança da maior relevância da Arwen para que ela pudesse ser mais familiar para o espectador.
Fotografia absurda (magníficos cenários neozelandeses), o ponto certo de CGI (auge do artifício foi nos anos 2000) em sua dosagem com efeito prático, maquete e maquiagem. Atuações históricas repletas de lendas do cinema, ritmo ótimo, trilha sonora impecável
Por isso tudo o resultado de ter sido um dos maiores vencedores de oscar de todos os tempos é totalmente merecido. Para mim, se trata da melhor adaptação e melhor trilogia da história do cinema.
Rio, Zona Norte
4.2 70Filme muito potente. Aborda várias questões que já eram realidade dos anos 50 e conseguiram não mudar absolutamente nada nos dias de hoje. O espaço urbano do rio de janeiro sendo extremamente fragmentado com diversas realidades sociais distintas que caracterizam o seu apartheid não oficial.
A periferia, representada pela zona norte do rio de janeiro, sendo majoritariamente negra, abandonada, favelizada, com seus homicídios e crimes normalizados. O suburbano, por sua vez, se torna um indivíduo escanteado pela sociedade, marginalizado e afastado da cúpula branca da cultura elitizada da zona sul/centro tornando o sucesso de um artista extremamente talentoso infinitamente mais difícil ou impossível de ser alcançado.
Não bastassem todas as dificuldades da vida do Espírito, personagem magistralmente interpretado pelo grande otelo, faltou sorte de não ter conhecido pessoas que não quisessem só passar a perna nele. O talento era notório demais para passar despercebido como ficou claro na bela cena do samba com a Angela Maria, mas faltaram oportunidades, da mesma forma que acontece com tanta gente talentosa no nosso país.
"Os sambas do Espírito são criações autênticas: elas refletem o que o Espírito viu e sentiu."
Tudo o Que o Céu Permite
4.0 100Filme estava muito bom até chegar no desfecho totalmente cafona e clichê
que foi o acidente do jardineiro
Para um filme da década de 50, período extremamente reacionário e moralista da história dos EUA e do mundo, aborda questões muito interessantes sobre a mulher. Demonstra como sempre foi considerado normal para um homem mais velho se relacionar com uma mulher mais nova, como seria o caso do Harvey que a família e amigas de Cary esperavam que fosse seu par, e como por outro lado quando Cary decide se relacionar com o jardineiro mais novo isso é visto como algo enfadonho.
Além da diferença de idade também o relacionamento com o jardineiro acaba sendo julgado pela posição social inferior deste pretendente, que não tem o status dos demais, e também é trabalhada de forma interessante a forma como os filhos de Cary se intrometem em sua vida se posicionando contra este relacionamento como bons filhos egoístas que são.
Não bastasse trabalhar com um tema totalmente à frente do seu tempo o filme conta com uma belíssima imagem technicolor, mas infelizmente o finalzinho pastelão não permitiu que recebesse uma nota muito alta.
O Menino e a Garça
3.9 329Pelo que percebi e busquei saber fica clara a mensagem de despedida do miyazaki sendo um filme autobiográfico com ele sendo o próprio tio-avô com toda uma fusão de suas obras anteriores por meio de inúmeras referências sendo representadas naquela torre. Porém, muito mais do que isso, o filme traz inúmeras temáticas sentimentais como luto, sociais sobre a forma que se organiza a sociedade japonesa no contexto de guerra e na encruzilhada tradição x modernidade, e até mesmo política representada pelos periquitos e sua clara representação de um líder fascista.
Por essa incapacidade de uma compreensão total da obra, por se tratar de um filme extremamente denso e difícil de interpretar, sobretudo para nós ocidentais que vivemos sobre outra visão de mundo e não temos a percepção e conhecimento de mundo de valores orientais. ficamos com sensação de incompletude e frustração, mas achei uma bela e digna despedida.
Argentina, 1985
4.3 340Bom filme. Nos faz pensar que por aqui no Brasil não fomos capazes nem de botar esses vagabundos torturadores da ditadura em uma cadeira de réu como fizeram na Argentina. Pelo contrário, os vagabundos militares por aqui fizeram a transição "lenda, gradual e segura", com anistia geral e se não bastasse isso são homenageados até hoje por outros vagabundos como o que ocupou a presidência nos últimos 4 anos.
O Nome da Rosa
3.9 785 Assista AgoraExcelente adaptação da genial obra de Umberto Eco.
Filme feito sob um cuidado meticuloso ao utilizar orientação acadêmica (Le goff para história) para reconstruir uma medievalidade mais próxima possível do tido como ideal.
A trama consegue representar as tensões da multifacetada igreja medieval e suas diferentes ordens (mendicantes, monásticas, cléricas) em meio a uma narrativa ''policial'' medieval protagonizada pelo excelente personagem William de Baskerville e seu aprendiz Adso.
Demorei muito a assistir por achar que não corresponderia ao nível do livro, mas, felizmente, me enganei.
Outubro
4.0 54 Assista AgoraOutubro está incluso na onda de movimento revolucionário cultural russo que acompanhou os acontecimentos políticos. Engraçado observar como neste filme, que foi lançado 10 anos após a revolução, Trotsky é retratado não diretamente como um traidor da revolução, já sob a batuta de Stalin, no comando da URSS.
A Paixão de Cristo
3.7 1,2K Assista AgoraDentre os filmes bíblicos que buscam tratar da história de Jesus Cristo esse é um dos que apresenta mais pontos interessantes para mim.
Em primeiro lugar pela ideia de gravá-lo em aramaico, idioma do tempo da Judeia, com partes em latim, do império romano. Embora seja improvável que historicamente jesus tenha tido um diálogo em latim com Pôncio Pilatos essa busca de dar realidade a história através dessa retomada do idioma é interessante.
Outro ponto que me chama a atenção é a fotografia que o Mel gibson diz ter se inspirado nos vitrais góticos das igrejas, e de fato resultou em belas imagens.
Mel Gibson ainda retomou a pitada de anti-semitismo nesse filme, colocando os judeus como claros responsáveis pela morte de Jesus, coisa que em outros filmes desse tema é amortecida, culpando apenas uma pequena elite, fariseus, aqui o antisemitismo é claro, característico do Mel Gibson, que é um sujeito de caráter deverás duvidoso.
E por último, a violência descarada nesse trajeto da via sacra, que aliás, é a única parte da trajetória de jesus tratada no filme, sendo esse um elemento que chama bastante atenção. Fui assistir despretensiosamente, sem vontade, por não ter interesse por essa temática religiosa cristã e acabei sendo surpreendido por esses elementos, me levando a ver outros filmes que tratam sobre a vida de cristo para comparar as maneiras de reproduzir os evangelhos no cinema.
Zona do Crime
3.8 30Excelente a crítica que o filme traz assim como a ideia central do seu roteiro. Tem tudo a ver com a realidade vivida nas cidades da américa latina. Em tempos que vivemos, particularmente, aqui no Brasil, percebemos inúmeras semelhanças com a história que esse filme se propõe a trazer. Desde a perpétua desigualdade suntuosa ao punitivismo dos sádicos justiceiros sociais.
A trama também me lembrou bastante a grande obra que sou fã, Som ao Redor, principalmente no que se trata do isolacionismo da classe média e das elites, em sua tentativa de ignorar os problemas sociais, dentre eles a violência, achando que ao se isolarem em sua bolha estarão se livrando de tais ameaças, embora estejam para sempre fadados a lidar com o som ao redor que muros não podem parar.
No entanto, apesar da ótima intenção que o filme tem, ele é mal executado. A ambientação é ruim e principalmente os atores são fracos, o que infelizmente não permite dar uma nota muito alta para o filme.
O Som ao Redor
3.8 1,2K Assista AgoraNa grande obra do novo cinema pernambucano O som ao redor de 2013, dirigido por Kleber Mendonça, temos uma crítica contínua do começo ao fim do filme às questões sociais do Brasil. Ambientado na grande Recife, o filme conta a história de um grupo de seguranças que aparece em um bairro de classe média alta da cidade para oferecer seu serviço de vigília. Os moradores que alegavam uma crescente insegurança com o aumento da criminalidade os contratam e a partir daí uma série de acontecimentos se desenrolam.
A trama conta com diversos núcleos, sendo o principal focando em João, um jovem corretor de imóveis e uma moça chamada Sofia, com a qual ele vive um romance. João é neto de Francisco, o proprietário de praticamente todos os imóveis da região. Somente por este cenário inicial apresentado, já é possível percebermos uma forte crítica a esta especulação imobiliária presente no colonialismo do grande proprietário de imóveis da região, assim como à classe média emergente que habita o bairro, em vários momentos da trama, o individualismo e o consumo desta classe média brasileira ficam evidentes, como na fútil discussão acerca do "mau serviço" do porteiro do prédio entre os moradores do condomínio de João, por dormir no trabalho, ou por entregar a revista veja fora do saco plástico.
Ao mesmo tempo em que faz essas críticas contemporâneas à sociedade brasileira, Kleber Mendonça dialoga com um passado colonial, coronelista e escravista. No começo da película são passadas cenas onde se apresentam grandes fazendas com plantações de cana de açúcar, famílias humildes em fileira e um senhor do engenho. Portanto, a crítica atual repete antigos vícios do passado. O som ao redor, literalmente falando, presente durante a trama, é o som que os moradores da classe mais favorecida não conseguem impedir que entrem em suas casas por meio de muros, grades ou seguranças.
No fim, aqueles vigilantes que foram contratados para realizar a segurança do bairro. Clodoaldo e seus parceiros, estavam ali justamente para vingar o passado, quando o seu pai foi assassinado por causa de brigas territoriais com o latifundiário Francisco, apesar de esta cena ser pouco explicada, remetemos à cena inicial das fazendas e dos coronéis e logo associamos Francisco a esse posto. Por fim, o longa se encerra com João e Sofia tomando um banho de cachoeira que se torna um banho de sangue.
Em Som ao Redor a repetição e os fantasmas do passado são justamente essas classes historicamente negligenciadas que se perpetuam no imaginário das classes privilegiadas como uma perturbação.
Elle
3.8 882Atuação extraordinária da Isabelle Hupert e um absurdo completo o filme ter sido rejeitado ao oscar por ser ''amoral''. Voltamos aos anos 50?
Enfim, sobre a história, discordo completamente da visão que alguns comentários expõem sobre a romantização e o fetichismo do estupro supostamente retratados no filme.
Na minha leitura o filme aborda a relação entre estupro e poder. A dominação sobre o mais fraco que supera o prazer. Em nenhum momento Michèle gostou ou romantizou os estupros dos quais foi vítima. Pelo contrário, se sentiu vitimizada e inferiorizada por Patrick, pessoa que ela sentia atração sexual antes de saber que era o seu estuprador, só desejá-la através da violência e não de forma consensual.
A personalidade fria e seu aparente descaso referentes às violências que sofreu fazem parte dela. Os traumas aos quais foi exposta em sua infância pelo seu pai psicopata a tornaram uma pessoa extremamente pragmática, distante e calculista. Não vejo como se ela não tivesse se importado, mas para ela seria pior denunciar essa situação e voltar a ser o centro das atenções da mídia e da polícia após todo o trabalho que teve para reconstruir sua vida. Ainda mais por se tratar do momento em que seu pai havia acabado de morrer.
Ainda de acordo com a minha interpretação, Michèle, portanto, planeja que seu filho bobalhão os encontre naquela cena de violência sexual sabendo que ele reagiria e provavelmente colocaria um fim àquilo.
Acho que julgar as atitudes insensíveis de Michèle nessa história é desconsiderar os traumas psicológicos aos quais ela foi exposta durante sua infância que a afetaram por toda a sua vida, e desconsiderar, também, que o Patrick se aproveitou disso.
O Garoto Selvagem
3.8 92Garoto Selvagem se trata da história real de um menino encontrado por um grupo de caçadores em uma floresta francesa. Tendo provavelmente sido abandonado pelos pais por julgarem que tivesse algum tipo de deficiência, o rapaz sobrevive e cresce em meio a natureza selvagem, tendo que sobreviver com seus instintos e longe de qualquer contato com a sociedade.
Temos aqui a representação bestial do ser humano, uma criança que não fala, não anda e não possui qualquer costume tido como civilizado. Ao ser encontrado, é levado para a cidade com uma grande expectativa por parte da imprensa Parisiense, por pensarem que se trataria de uma criança monstruosa. Tal expectativa, no entanto, é frustrada pelo seu aspecto de ser humano comum. A repentina falta de interesse fez então com que a criança selvagem fosse deixada de lado e enviada para um instituto de surdo mudos, devido a sua indiferença quanto às interações dos homens civilizados, que assim o julgaram.
O médico humanista, Jean-Pierre Itard, interpretado genialmente pelo próprio Truffaut, vai contra essa falta de interesse com o menino e decide ele mesmo educá-lo e tentar torná-lo civilizado. O que é do ponto de vista das outras pessoas considerado um tempo perdido. Por meio de uma série de métodos, um tanto quanto rigorosos, o médico vai aos poucos conseguindo fazer com que o então o nomeado Victor apresente avanços rumo à sua civilização. Chegando ao ponto em que ele já é capaz até mesmo de pronunciar determinadas palavras e expressar os seus desejos, o que parecia totalmente impossível no começo.
Na última parte do filme é possível perceber ainda, que apesar de agora já parcialmente civilizado, Victor sempre terá em si algo que não pôde ser transformado, a sua natureza e a sua intimidade com a liberdade, longe dos rituais e padrões impostos por uma sociedade que se julga superior ao que é primitivo.
É interessante também destacar que apesar de ser um filme curto e direto em sua mensagem, é um material que rende muito debate e que é referência em diversas áreas das ciências como a antropologia (acho que o filme é um clichezão das aulas dessa matéria), sociologia, psicologia, etc. Essas discussões profundas que se pode fazer acerca da obra mostram o quão grandioso foi Truffaut ao dirigir esse filme, tomando como base os relatos médicos do acontecimento que aconteceu de verdade. Não é a toa que é um dos maiores diretores da história do cinema.
Anjos Caídos
4.0 298 Assista AgoraFilme belo e poético assim como os outros do Kar Wai Wong que já tive o prazer de assistir. Nesse aqui, em especial, me apaixonei pela filmagem da câmera incontrolável sempre buscando um sentido desesperado em torno dos personagens. Estes personagens são os anjos caídos, pessoas solitárias que perambulam pela noite em uma cidade gigante e totalmente influenciada pelo capitalismo e a cultura ocidental como é Hong Kong. Os McDonalds, Marlboro, 7up e outras marcas que representam essa dominação estão presentes por todo o filme.
Por ser uma narrativa que mexe com os sentimentos do espectador, e não um padrão certinho e linear, eu admiro mais essa obra agora, após rever, do que da primeira vez que assisti.
O assassino que não tem problema em matar ninguém, mas se perde em um romance inesperado com a ''loira''. Sua cúmplice misteriosa que limpa as suas impressões digitais, entra em sua casa e recolhe o seu lixo, protagonizando cenas de masturbação, e o delinquente mudo que vive com o pai e invade estabelecimentos comerciais a noite trabalhando como se fosse o dono, e em um desses trabalhos acaba por consolar uma mulher que passa sempre a chorar em seu ombro. Estes últimos que fazem parte da capa do fime em uma bela viagem de moto, acompanhada pela habitual banda sonora adequada aos ritmos da narrativa, onde a versão de "Only You" dos Flying Pickets toca e deixa a cena marcada na memória.
É difícil tentar compreender tais personagens, a realidade é que não tem o que entender, apenas aceitar que eles vivem um conjunto de episódios definidores das suas vidas, num território cosmopolita paradoxal à solidão que apresentam.
O Sétimo Continente
4.0 184Sétimo continente é uma porrada niilista.
Como a existência e o convívio de uma família pode ser pautada numa rotina robótica, repetitiva, sem sentido. Todos os dias sendo o mesmo loop eterno. Um pai, uma mãe e uma filha aparentemente normais na visão da sociedade, mas que planejavam algo sinistro.
Tem tantas críticas ao nosso modelo de viver nessa obra que fica até difícil de listar: sociedade consumista, burocratização da vida, conformismo, a crueldade que o ser humano pode ter com os fracassados segundo o modelo civilizatório em que vivemos, a riqueza material obtida nos países desenvolvidos e a consequente capacidade de não preencher o vazio que esta não necessidade de ascensão econômica e social deixa. E por fim, o não final feliz, que difere do que é passado numa fantasia utópica de felicidade.
Com poucas falas e um silêncio incômodo, essa obra consegue nos transmitir todos esses pensamentos e reflexões, além de uma profunda angústia.
Rocco e Seus Irmãos
4.3 132Seja pela estética de neorealismo italiano tendo em foco uma Milão em ebulição na sua recuperação pós guerra, ou pela história de cada irmão da família sulista que migra em busca de uma ascensão social no norte industrializado, cada um com suas características e ações que se transformam em consequências. (italiano representando família é genial) Seja ainda pelo triângulo amoroso constituído por Rocco, Simeone e Nadia, três excelentes personagens, por sinal, o bom, o mau e a dúbia. Triângulo amoroso esse que acaba por se tornar o foco principal do filme. Enfim, seja pelo que quiser, não sei nem dizer por quais destes aspectos o filme merece uma nota tão alta e um coraçãozinho, talvez por tudo isso junto. Filmaço.
Lawrence da Arábia
4.2 451 Assista AgoraSe eu desconsiderasse o fundo de verdade histórico que há neste filme, ele, ainda assim, seria gigantesco. Sua fotografia, direção, a atuação do Peter O'Toole, a evolução que o seu personagem vive, tudo isso faz com que seja um dos maiores filmes que já tive o prazer de assistir.
No entanto, ainda temos como bônus esse detalhe histórico que há em seu enredo, a existência verídica de TE Lawrence, e o interesse do Reino Unido pela região das ''arábias'', que permitem a ele traçar o seu objetivo. O inicial pacato e grande conhecedor da região árabe começa uma jornada que busca a união dos povos beduínos e a formação de uma identidade árabe, através de alianças entre as tribos e confrontos com os otomanos. Gradativamente, vemos Lawrence construir vínculos, amizades, atingir um ápice como herói, e finalmente decair como um louco sádico coberto de areia da cabeça aos pés.
Lawrence da Arábia é uma obra única, que nos traz a grandiosidade de uma aventura no deserto, seja nas batalhas, seja nos momentos de silêncio, muita ação durante as lutas, e a história intimista de TE Lawrence e de seus ideais.
Kes
4.2 147Kes é um filme muito próximo ao clássico de Truffaut, os incompreendidos, e nos faz lembrar do filme durante todo minuto em que assistimos. Tornando quase impossível não se fazer comparações e denominá-lo como o incompreendidos britânico.
O tema da infância, tão presente no cinema é mais uma vez abordado nesta película. O diretor inglês Ken Loach apresenta com maestria uma história comovente e impactante, na qual Billy é o protagonista, e vive numa cidade mineira da Inglaterra na década de 60.
O rapazinho vive com uma mãe ausente que cuida dos seus próprios interesses, deixando o filho de lado, e com um irmão mais velho que trabalha nas minas da cidade e não perde a oportunidade de maltratá-lo. Se o cenário familiar é triste, na escola consegue ser tão ruim quanto, ou pior. Professores autoritários praticantes da palmatória, em uma instituição autoritária e cheia de regras, no melhor estilo The Wall do pink floyd, fazem com que ele se torne ainda mais desajustado.
No entanto, em seu tempo livre, na busca de uma atividade em que possa encontrar alguma felicidade, Billy se depara com o que viria a ser sua grande paixão, um filhote de gavião, o qual passa a treinar com muito afeto e dedicação, se tornando um perito no adestramento de sua pequena ave. Fato que parece devolver, de certa forma, o sentido de sua vida.
Se engana, no entanto, quem acredita que a mensagem do filme termina na relação de Billy com o seu animalzinho de estimação. Como ele mesmo explica a um dos seus professores, que seu interesse em cuidar da ave não tem nada a ver como um desejo de poder, de domesticar o animal, mas sim de observar seu crescimento, a intensificação da sua potência de existir. Ele explica que Kes não é e nunca será um bicho de estimação, ela pode voar em liberdade, e permanecer apenas enquanto desejar.
Essa relação demonstra uma crítica ao sistema de educação. Enquanto a instituição de ensino se prende ao lado autoritário da disciplina, Billy realiza o seu projeto plenamente, apenas por sua vontade própria.
A triste morte do seu falcão, realizada pelo seu irmão, pelo fato do rapaz ter usado o dinheiro do mesmo para comprar comida, ao invés de fazer a aposta que foi mandado, representa assim a morte da inocência do protagonista. O ponto que mostra que o sistema educacional atual é soberano. A condução dos estudos ao sistema em que somos obrigados a viver. Capaz de reduzir a nada a motivação e o sentido da existência.
Viver
4.4 168 Assista AgoraIkiru é uma das mais belas reflexões sobre o propósito da vida e do engajamento social da história do cinema.
Senhor Watanabe é um burocrata que passou toda a sua vida enclausurado em um escritório. Seu papel consiste em nada mais que carimbar papéis e juntá-los a uma pilha de outros papéis carimbados de casos que nunca irão se resolver. Uma existência mecanizada de uma grande indústria que é o Japão ocidentalizado pós-guerra.
Após descobrir que estava condenado a apenas poucos meses de vida por conta de um câncer no estômago, Watanabe toma consciência dessa condição em que vive, e do vazio que é a sua vida. Viúvo, com um filho que se distanciou e o trata com indiferença, e com uma trabalho inútil. Começa então uma desesperada procura por sentido em sua existência, em fazer algo realmente significativo.
Tal oportunidade é encontrada quando se depara com a possibilidade de resolver um caso específico do seu departamento público, que é a construção de um parque em meio a um terreno baldio, em uma área abandonada de um bairro pobre. A partir daí, o protagonista não mede esforços para que essa tarefa seja executada, e não apenas adiada como todas as outras.
A segunda parte do filme do filme se desenrola após a morte de Watanabe. Com uma reflexão por parte das pessoas próximas a ele, em busca do entendimento das razões que o fizeram agir de tal maneira. Sem saberem que ele já sabia da sua condição de saúde, sendo este o motivo que o fez mudar radicalmente de atitude. Uma cena especial é a que as famílias do bairro que ganhou o parque comparecem ao velório para agradecer a generosidade dele. O que gera desconforto por parte de seus companheiros de ofício. Que prometem até mesmo mudarem de atitude a partir de então, e agirem como Watanabe agiu em seus últimos dias. O que podemos constatar que nunca aconteceu, graças a cena final, em que toda a burocracia esta de volta ao seu lugar de sempre.
A cena mais emblemática do filme, sem dúvidas, é a capa do filme. O protagonista no balanço do parque que ajudou a ser feito. Em seus últimos momentos de vida, apreciando a obra que não seria possível sem o seu empenho.
É interessante destacar também a atuação de Takashi Shimura. Ator que na maioria das suas atuações ficou na sombra do também genial Toshiro Mifune. Como, por exemplo, em Sete Samurais, ou Rashomon. Neste filme, ele rouba os holofotes e nos mostra que não é menos gênio. Sua atuação consegue comover, e demonstrar o sentimento profundo de angústia que vive na trama.
Antes do Amanhecer
4.3 2,0K Assista AgoraNão sou fã de filme de romance, nunca fui, e provavelmente nunca serei. Mas o que é isso aqui? Isso é uma obra de arte, meus amigos.
Que diálogos, que ambiente vivido, que cenários, puta que me pariu.
Dois estranhos, estrangeiros, uma francesa e um americano, que se conhecem num trem pela Europa e fazem um acordo de uma ''saída'' por apenas um dia proposta pelo Jesse, com uma argumentação ´´genial´´ aceita por Celine.
A partir daí os dois vivem um dia intenso. E leia-se um dia intenso sem necessariamente nenhuma ação explosiva. Intenso nos diálogos, intenso naquele amor leve e novo vivido pelos personagens sob o céu de Viena, a cidade na qual eles resolvem desembarcar e viver essa aventura, mesmo sem ter o mínimo conhecimento da língua alemã.
Tudo nesse filme é bonito e grandioso, as mais simples conversas, os mais simples gestos, o primeiro beijo após longo conhecimento que um adquire sobre o outro, o temor do fim daquele momento mágico e da provável despedida de acordo com o combinado. Um dia que pode ser deixado para trás, mas nunca esquecido.
Enfim, tudo nesse filme é lindo. Para mim, o melhor da trilogia também, apesar dos outros dois serem ótimos.
Acordar para a Vida
4.3 783O enredo do filme gira em torno da questão existencial vivida pelo protagonista e a sua dúvida de como diferenciar a vida real daquela que existe somente em nossos sonhos. O mesmo vive um looping eterno de acordar de um sonho e estar dentro de outro.
Como separar o que é real do que é sonho? Não é uma tarefa fácil de acordo com as questões levantas neste filme. Diversas questões maravilhosas são apontadas por diversos personagens peculiares e únicos que discutem com o protagonista assuntos totalmente aleatórios e abstratos. Da política, religião até as grandes conspirações globais.
Presenciei nesse filme uma filosofia de boteco indescritível, frases e situações que sempre tive em minha mente, porém nunca soube como colocar em palavras. Ver esse filme foi um orgasmo mental, fiquei em êxtase absoluta.
A técnica de filmagem engana muito, a princípio pensei que se tratava de uma animação, o que a primeira vista não me agradou, mas na verdade é muito mais do que isso: O filme é inteiramente filmado em rotoscópio, com cenas filmadas sobrepostas a uma película que imitam uma textura de animações flash. Um trabalho gigantesco que deve ser reconhecido, fazendo cada gravação de cena durar horas.
É legal destacar também as referências que o filme faz, há uma cena com referência ao filme ''Sonhos'' do Akira Kurosawa, a da preleção feita pelo macaco. Há também a participação de Ethan Hawke e Julie Delpy, atores do filme anterior, e também maravilhoso, do Linklater: ''Antes do amanhecer''. Há ainda várias outras referências que merecem destaque, mas para não me prolongar muito vou citar apenas essas duas.
Afinal, somos conscientes enquanto dormimos, ou sonâmbulos enquanto acordados?