Altamente sensorial, Nosferatu de Robert Eggers é singular ao seu modo.
Nosferatu (2024) trata-se mais do que uma mera releitura do clássico de 1922, mas sim de uma obra que carrega sua singularidade, embalando uma narrativa gótica em que não se abre margem pra dúvidas: a estética se impõe como ponto alto da obra.
Não é exagero afirmar que a versão de Nosferatu dirigida por Robert Eggers se sustenta mais pela ambientação do que pela progressão narrativa em si. No entanto, não estamos falando de um enredo abstrato e sem corpo. Ele mantém fidelidade clássica ao enredo: tudo está no seu lugarzinho certo, desde o professor von Franz ao arrepiante navio que carrega o conde até sua indefesa – mas sexualmente latente – Ellen Hutter.
Esse universo ganha vida como se fosse a narrativa, o que já é traço recorrente na obra do diretor, frequentemente fruto de alguma controvérsia por esse motivo – já que seus filmes, se vistos da superfície, não aparentam debater grandes questões por seu foco mais estético. Mas, como já dito: essa estética fala por si só.
Assim, diante de uma história mais que centenária, amplamente conhecida e já contada em diversas versões, a escolha por investir na construção sensorial gótica-realista é a assinatura de Eggers que dá tom autoral único ao filme
Essa ambientação encanta desde a intensa exploração do jogo de luzes e sombras, que conferem uma atmosfera sombria inigualável, elevando-a tal ponto que a própria narrativa se torna secundária diante do encantamento sensorial.
Entre esses aspectos sensoriais que mais se destacam, além do conde quase sempre mostrado sorrateiramente, como se fosse uma entidade que não pertencesse aquele mundo, estão seus trejeitos cadavéricos e até seu marcante sotaque – aspectos que ganham força pela tímida trilha sonora, que se torna coadjuvante e amplifica os ruídos naturais daquele gélido mundo. Tudo remete a um tom quase onírico e sublime, em homenagem direta ao expressionismo alemão.
O design de arte, em geral, segue a linha gótica-vitoriana. Nessa linha, o castelo do conde Orlok é um espetáculo à parte. O retrato soturno é tão intensificado que ele jamais se mostra vívido, parecendo um grande monumento sobrenatural que, paradoxalmente, coexiste na realidade fática.
Quanto à trama em si, nota-se considerável fidedignidade ao clássico, embora o romantismo típico da tradição vampírica ganha um viés sexual latente e muitas vezes quase explícito na relação.
Essa relação funciona como metáfora para um mal inevitável, instaurado a partir do pacto sexual silencioso entre uma jovem moça e o vampiro – metáfora essa que reforça a dicotomia entre a virilidade sedutora do conde versus à bondade protetora de Thomas Hutter, o inseguro marido de Ellen que se aventurou pela amada.
No geral, Eggers não buscou reinventar roda, mas utilizando sua mão autoral conseguiu dar frescor a uma obra clássica, ainda que não tivesse, nada novo a contar. aparentemente. O bem sucedido sonho de Eggers em reproduzir esse clássico se realizou ao contar nosferatu de uma perspectiva gótica-realista, que carrega sua singularidade pelo traço autoral altamente atmosférico que ele consegue imprimir às suas obras.
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O que sobra quando a Escuridão Colapsa por Dentro e por Fora
O que parecia ser uma premissa fortemente estética e chamativa, o que já seria um bom chamariz para amantes de terror sobrenatural, se desenvolve numa narrativa assentada em conflitos resultantes de uma dissolução familiar pós-tragédia chegando a um melindroso enredo sobre temas sensíveis psicologicamente – mas, ainda assim, abarcando uma mensagem acalentadora sobre redenção na escuridão.
A inesperada chegada de uma misteriosa mulher de preto à fazenda do pequeno núcleo familiar debilitado, contando apenas com uma mãe recém-acidentada e seus filhos, sem o chefe de família recém falecido, dá o tom do senso de aprisionamento e insegurança, reforçando a vulnerabilidade frente à opressão que a figura misteriosa representa. O longa não se incomoda em incomodar e expõe, de forma potencialmente impactante a pessoas sensíveis, temas autodestrutivos.
Embora carente de maiores acontecimentos naquela vida bucólica, a montagem é suficientemente dinâmica, trabalhando o desenvolvimento das relações e tensões entre mãe e filhos, fazendo com que o ritmo não se torne maçante. No entanto, é inevitável considerar que o filme pode soar pretensioso ou elevado por beber do fenômeno denominado (controversialmente!) de pós-terror, que se agarra ao crescimento lento da atmosfera densa, assustadora e claustrofóbica — no filme, brilhantemente reforçado pela restrição dos cenários, basicamente, à isolada fazenda em que a família reside.
Se o visual totêmico da mulher de preto já impressiona per si, a estética da imersão dela à casa, trabalhando com um eficiente e assustador jogo de sombras, deixa o clima de terror latente, não apenas em seus bons e cabíveis jump scares, mas no senso geral de tomada de escuridão — que, metaforicamente, se entrelaça ao colapso mental que a protagonista, envolta em seus dilemas existenciais, enfrenta — sobretudo ao se ver impregnada a viver o sonho bucolicamente projetado pelo seu falecido marido.
No geral, embora curto em duração, não explorando o mundo ao redor — o que facilita a coesão do enredo —, é um competente thriller que discute uma perspectiva colapsante de temas como frustração conjugal e desafios da maternidade, abordando as inevitáveis consequências para os filhos. Tudo isso totemizado em uma assombração que materializa a pulsão de morte e os nada sutis acenos à depressão e ao suicídio. Ainda assim, apesar de centrado na chegada opressiva da escuridão tanto interna quanto externa, há também uma mensagem de esperança: a possibilidade de reconstrução a partir dos escombros, desde que haja alguma luz.
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Um filme que não se leva a sério e, por conta disso, prejudica o que poderiam ser seus bons momentos - principalmente pelos aspectos visuais e gráficos, que estão verdadeiramente assustadores.
No entanto, se as figuras monstruosas e a fotografia soturna estão bem arquitetadas, o roteiro está cheios de furo e forçações de barra para a história (rasa) funcionar.
Os backgrounds dos personagens são igualmente rasas e incapazes de sensibilizar o espectador, o que novamente atrapalha a construção de tensão nas cenas de terror.
De um modo geral, é um entretenimento razoável impulsionado, sobretudo, pelo bem desenvolvido aspecto gráfico e bons jump-scares, mas vazio de atmosfera aterrrorizante pela superficilidade da história e personagens.
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Um longo, profundo e tocante retrato realista do silenciamento e extermínio de uma minoria étnica em nome da ganância desmedida de um povo explorador contando com a complacência da negligência governamental.
KOTFM expõe a intriga e dissenso interno ocorrido nos EUA no início do século XX - que, por meio omissão e favorecimento aos exploradores brancos, em detrimento do culturalmente rico povo indígena OSAGE, permitiu um verdadeiro genocídio étnico indígena.
Scorsese não poupa a culpabilização americana pelo descaso e aniquilamento, construindo o enredo a partir da contradição daqueles que, de forma nitidamente hipócrita, fingiam cuidar mas exploravam a riqueza dos Osage - o ouro negro -, ao mesmo tempo.
Explorando um elenco rico e competente ao nível máximo da palavra, e desenvolvendo microhistórias de relacionamentos supostamente amistosos e amorosos e entre os Osage e americanos, desambiguando, posteriormente no aspecto investigativo do extermínio nada silencioso dos Osage, a narrativa é densa e carregada de violência - seja ela física com os assassinatos, embora não tão explícita, mas sobretudo emocional pelo violação étnica sofrida pelo povo indígena.
Para dar conta e ritmo das quase 3h30 de duração do longa, Scorsese apostou na apresentação dos 1º e 2º atos de forma mais dinâmica, empregando uma montagem com cenas mais ágeis - sobretudo as com ação envolvida - e diálogos não tão morosos - ritmo ao qual se soma e embala a presença da vívida trilha sonora com traços tribais e nada tímida.
No entanto, a aposta no 3º ato mais cadenciado, no qual se encaminhou o desfecho das frágeis consequências judiciais aos americanos, destoou da boa escolha de ritmo inicial e tornou e se mostrou morosa- embora sensivelmente tocante.
A retratação psicológica tanto do componente emocional do doloroso sofrimento dos Osage como dos dilemas psicológicos dos americanos, onde se questionou fortemente se aqueles que gostavam e cuidavam dos Osage que se relacionavam afetivamente somente o faziam por interesse financeiro, guiou o enredo e prendeu a atenção competentemente do início ao fim.
O peso dramático da narrativa ainda se viu fortalecido peso compromisso com a construção dos personagens e suas singularidades sem a criação de espantalhos de vilões e mocinhos contribuiu para o bem empregado realismo narrativo - brilhantemente espelhado em uma fotografia que destacava as belas paisagens campesinas do sul dos EUA e a deleitosa iluminação rústica do século XX nas vilas e fazendas americanas do velho oeste.
De um modo geral, embora explore as contradições dos indivíduos, o filme estava muito mais interessado em apontar que o cerne do extermínio Osage se deu mais pela batalha étnica travada, denunciando a omissão governamental e os privilégios e que os americanos obtiveram para explorar e destruir um povo culturalmente rico e legitimamente defensor de suas terras sem a devida investigação policial - que, embora tardiamente tenha se dado, não fora compensatória aos danos gerados aos Osage.
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Beau Is Afraid - Beau tem Medo - é um longo, original e excêntrico abraço ao absurdo, mas inconstante em suas virtudes.
Trata-se de uma verdadeira odisseia paranoica retratando um homem solitário, cheio de inseguranças e ansiedades, numa mera visita à casa de sua mãe, que é milionária e excessivamente controladora.
Aster adota um tom cômico desde o início e, nos lança, sobre aquela realidade pitoresca, através de uma narrativa que explora uma montagem caótica e com ênfase na sátira dos singulares e excêntricos pensamentos de Beau - além das sensações paranoicas sobre o insano mundo urbano ao seu redor do personagem- interpretado dedicadamente por Joaquin Phoenix em atuação sutilmente passiva.
A partir dessa simplória realidade urbana, o longa ganha fortes ares de tragicomédia e segue o protagonista cinquentão e antissocial em uma verdadeira narrativa épica diante dos obstáculos internos e externos oriundos de sua fobia social - com o enredo atravessando, no 2º ato, por uma alegoria de autoconhecimento altamente surrealista e com ares oníricos, através do encontro de Beau com um grupo teatral itinerante na floresta, tecnicamente reforçado audiovisualmente tanto pela fotografia com tons psicodélicos, como pela trilha sonora aconchegante, sendo o único momento de tranquilidade e conforto da jornada tortuosa de Beau.
Em que pese a força narrativa da jornada épica, o tom melodramático do 3º ato parece ser o ponto fraco da obra, haja vista o espetáculo do julgamento da vida de Beau ser um grande anticlímax moroso e que não dialoga com a experiência sensorial provocada nos atos iniciais. Apenas nesse momento, onde se esperaria a recompensa pela jornada de desenvolvimento do personagem, a teatralidade do absurdo é abandonada em nome de um humor pastelão mais direto e vazio de mensagens complexas - ainda que intencional conforme o objetivo satírico/cômico da direção de Aster.
De uma maneira geral, é possível traçar paralelos do enredo com o Show de Truman (1999), diante do fato de que Beau estava numa realidade simulada e de ambiente controlado, sendo sua jornada de aflição e disfunções fruto do plano maquiavélico e perverso de sua matriarca desde sua infância. Ao mesmo tempo, a mentalidade dramática do personagem oscila entre pitadas do exagero absurdo kafkiano e de culpa judaica com vestígios da síndrome de Munchausen.
Por outra vista, o horror do filme reside, justamente, no controle doentio de uma mãe para com o filho, com a obra lançando reflexão sobre essa toxicidade danosa e quando isso influencia, determina e manipula a vivência da criança. Com forte aceno edipiano, Aster debate desde sexualidade, com a visão monstruosa do fálico, como os traumas familiares hereditários adquiridos. A obra é uma verdadeira sessão de psicanálise na telona.
Ao mesmo tempo, o constante desconforto dos sentimentos dramáticos e de culpa de Beau constituem um horror psicológico infindável, sobretudo pelo desfecho dos acontecimentos não evoluir e libertar o personagem de suas amarras psicológicas.
Entretanto, o longa não pertence a um gênero específico, pois transita entre drama, comédia e terror de forma singular e excêntrica, situando-se no que poderia se chamar de “comédia de pesadelo”. Não necessariamente apavora, mas incomoda. Assim como não é propositalmente hilário, mas causa risos nervosos.
Também não é convencional em duração, visto que o filme buscou desenvolver cada situação acessória à narrativa de maneira estendida - o que faz parte do propósito sensorial, onde se induz a ansiedade de quem assiste, bem como traça, de alguma forma, um paralelo com a eterna aflição do protagonista, gerando uma simbiose metalinguística entre a ansiedade da obra e do público.
Embora o enredo não pretenda apresentar uma jornada de desenvolvimento interno do protagonista, que do início ao fim transita no mesmo estado de culpa constante e não evolui, em termos de autoconhecimento, talvez aí residisse o caminho para uma experiência mais compensatória - o que não afastaria a proposta essencial do enredo e sua tortura psicológica ao ansioso Beau.
Ainda cumpre mencionar que, não obstante tenha-se empregado um realismo teatralizado que necessitava de sequências mais cruas para concretizar esse objetivo - aí caracterizados os traços autorais de Aster com suas longas e desconfortáveis - ou entediantes - sequências, a obra se arrastou em excesso deixando o filme excessivamente extenso e notadamente pretensioso e, por que não, auto-indulgente.
No fim das contas, Beau tem Medo calca sua proposta numa originalidade recheada de abraço ao absurdo, visando oferecer, sensorialmente, um constante incômodo visual e temático, amplificando o senso generalizado de ansiedade - onde se mostrou bem sucedido. No entanto, findou inconstante em suas virtudes ao prolongar momentos coadjuvantes, bem como um tanto vazio e/ou excessivamente enigmático/metafórico, denotando uma narrativa pedante e minimamente coesa em se tratando de substância fílmica.
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Retratar o simplório e bucólico cotidiano da vida pastoril de uma isolada ilha irlandesa e, ainda assim, ser fabulosamente encantador e estranhamente tocante é o grande mérito narrativo de The Banshees of Inisherin.
O longa competentemente dirigido e escrito por Martin McDonagh apresenta a simples história de um brusco rompimento de amizade entre dois camponeses da ilha irlandesa de Inisherin, em plena época da guerra civil local no início do século XX que ocorrera no país.
O ensaio que nos é lançado aos olhos , no entanto, ao contrário da suposta simplicidade da história, cativa e é intrigantemente estranho desde o seu início, seguindo a busca das razões da ruptura da amizade entre os protagonistas - Pádraic (Colin Farrell - destacadamente icônico) e Colm (Brendan Gleeson - sisudamente encantador )
A mensagem é vasta e permeada por melancolia em texto, áudio e imagens, haja vista as tomadas de cena explorando o vazio das vastas paisagens rurais da ilha irlandesa, além da demonstração do cotidiano repetitivo e trivial característico da vida insular.
Esse vazio da imensidão territorial da ilha dialoga com o vazio existencial de seus habitantes, tendo em vista a falta de propósito para além da vida cotidiana e banal que ela proporciona.
O desenvolvimento dos personagens atravessa o conflito interno e externo dos ex-amigos contrastando o sentimento de angústia, ocasionada pela ambição de um propósito para além de uma vida camponesa comum, em face da satisfação com a banalidade e casualidade de uma vida comum.
Paralelamente ao arco principal se conectam as histórias de familiares e alguns outros habitantes da vila, onde se destaca, em ambas, a sensação de desencaixe e desacerto de suas problemáticas e rudimentares vidas camponesas - destaca-se o quanto os rumos das vidas de Inisherin são compartilhadas e interligadas. Vale a menção para as coadjuvâncias de Siobhan, irmã de Pádraic (Kerry Condon - serenamente racional e deslumbrante) e Dominic, jovem tolo da ilha (incomodantemente cativante por Barry Keoghan).
O roteiro traça um paralelo entre falta de propósitoe e potencial depressão com a abordagem folclórica sobre os Banshees, espíritos de mulheres que fazem presságios sobre mortes vindouras. A mensagem deixada no ar reflete sobre as demais mortes possíveis além da física, indicando que o fim da existência também ocorre com a falta de senso de pertencimento ou objetivos de vida.
A trilha sonora melancólica e, estranhamente cômica, indica o rumo da história e seus ares tragicômicos, ao servir como pano de fundo para o avanço da loucura em meio a solidão, impulsionada pela possessividade - traçando, ainda que de forma sutil, um paralelo entre ambos.
Além do mais, há um certo flerte da narrativa com a fantasia ao explorar, na fotografia, cenários e simbologia sombria, indicando de forma tênua a influência folclórica celta sobre a realidade de Inisherin.
- oriunda de ações externas advindas de atos obsessivos -, indicam como a dependência emocional, aliada a falta de sentido na vida, tendem a, potencialmente, gerar conflitos infindáveis - comentário que, claramente é uma metáfora à guerra civil irlandesa. Além disso, é mostrado como na perspectiva individual, todos perdem com as partidas e despedidas forçadas, exceto aqueles que se encontram em si.
Há ainda que se destacar o aspecto cômico residente na criação de personagens extremamente caricatos, ainda que abordados em tom de humor ácido, bem como pelo senso de absurdo na proximidade sentimental dos habitantes com os animais da ilha, fortalecendo o tom fabular do enredo.
Esse potencial reflexivo, ainda ambientado em uma cinematografia que ressalta o vazio e os males do isolamento em uma pequena comunidade e a paradoxal proximidade entre seus habitantes que ela ocasiona, faz do longa uma poesia satiricamente dramática sobre os liames entre solidão e obsessão.
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A estreia de Charlotte Wells no cinema traz uma obra com linguagem intimista e que revisa e passeia por memórias afetivas infantis ressiginificadas ao olhar adulto.
A dinâmica entre filha e pai é construída e demonstrada como um fim em si mesmo, sem desambiguar numa trama a ser resolvida. O ritmo cadenciado em conjunto com uma montagem aparentemente aleatória evidencia como as memórias são construídas e reconstruídas ao olhar do tempo, sobretudo quando versam sobre passagens que unem nostalgias envoltas a traumas.
O olhar poético de Aftersun discute, ainda que não explicamente, de depressão a suicídio, do desabrochar da juventude à estranheza e beleza da intimidade entre pai e filha, usando, para tanto, uma narrativa crua, altamente melancólica e angustiante para destacar a singular beleza dos momentos vividos com ente queridos, sejam eles bons ou ruins.
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A DARK SONG - Drama de horror sutil e aterrorizante
Um terror cadenciado, com ar atmosférico sufocadamente carregado à medida que se desenvolve o ritual mágico de Abramelin, que centraliza a narrativa, trazendo reflexões acerca das consequências das ações humanas em um suposto plano espiritual e o poder da redenção.
O enredo é desenvolvido lentamente, apresentando a tensão na dinâmica entre os dois personagens principais - Joseph Solomon (Steve Oram), um enigmático professor de magia e Sophia (Catherine Walker), uma mulher que busca na magia a saciação de uma dor pessoal - como força motriz narrativo de um crescente e intrigante suspense.
A mensagem do filme apresenta as adversidades e os pormenores de se realizar um ritual mágico de invocação, sem necessariamente se ater à verossimilhança dos procedimentos ritualísticos, segundo as palavras do estreante diretor Liam Gavin.
Ainda assim, a narrativa expõe essa áurea ritualística de maneira singular - se comparado a demais clichês do gênero de terror, onde as invocações, intencionais ou não, acontecem sem maiores esforços ou desafios.
Salta aos olhos a dedicada e paciente construção de personagens, onde numa espécie de jogo de nuances entre eles se edifica um cenário que flerta com a loucura a medida que a desconfiança entre ambos se estabelece.
Em termos estilísticos, não é um apontamento clichê destacar o belo trabalho da fotografia, composta, em sua maioria, por tons azulados e alaranjados, recheado de simbologia esotérica e com uma distinta e predominante estética diurna, que, paradoxalmente, soa obscura.
Nesta linha o longa traz uma trilha sonora que por vezes mostra-se discreta, mas que se apresenta quando necessário e de modo tenebroso e desconfortável, com distorcidos sons graves de um violoncelo.
Dentre os pontos negativos, estão a lentidão rítimica, que, embora pretendida, por vezes torna-se maçante, além dos momentos onde o terror intecionalmente se torna visualmente assustador, fugindo um tanto do propósito sutil atmosférico.
Certa controvérsia também paira sobre final, que embora contenha uma catarse redentora, pode soar destoante do restante da abordagem sombria, principalmente perante o público leigo em relação ao conteúdo ocultista.
De maneira geral, enquanto uma obra de horror moderno e recheada de tensão psicológica, o filme tem seu charme por conta de sua narrativa enfocada na verossimilhança na abordagem dramática entre os personagens principais, o que potencializa os sustos sutis e os momentos intencionalmente e bem sucedidamente aterrorizantes, além de conter um singular final com ares catárticos.
A Dark Song é um convicente drama de horror, calcado em bases esotéricas, o que torna sua premissa intrigante, e, como bem executado, embora feito ao seu modo slow burn, assusta ao abordar o desconhecido com seu pretenso realismo narrativo.
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O filme é uma típica jornada gráfica e visceral de vingança com considerável reflexão sobre a monstruosidade nela contida, apresentando-se com variações de gênero entre ação, suspense e drama, mas soando negativamente exagerado tanto com suas hipérboles narrativas, como com suas soluções de roteiro inverossímeis em variados momentos do enredo.
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Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022) é uma autêntica obra com rótulo da A24, bem sucedidamente frenético, emocionante e excêntrico, mas exótico o suficiente a ponto de ocasionar reações de 8 ou 80 ao público. No geral, sua originalidade é satisfatoriamente agradável.
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Red Rocket é, acima de tudo, uma irreverente, agradável e divertida história excêntrica, sobretudo pelo destaque de seu pra lá de carismático ator pornô protagonista, com todos ares de anti-herói, brilhantamente encenado por Simon Rex.
Dirigido por Sean Baker, o filme se guia pela lógica de produção art-house da A24, que traz a tona filmes mais conceituais. Discute, em seu enredo, o retorno de um ex-ator pornô a uma região dos Estados Unidos amplamante conservadora, mas tratando a potencial problemática de forma satírica, em vez de sisuda.
Em suma, Red Rocket utiliza o clichê do típico arco dramático do sonho americano, a partir de uma ótica da decadência, para construir personagens com caráter residente numa zona cinzenta, em virtude de suas ações se caracterizarem como boas ou más, a depender do ponto de vista utilizado - resultando, como um todo, numa narrativa excêntrica mas estranhamente cativante.
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Uma grande produção recheada de cenas criativamente marcantes e com ares sofisticadamente épicos. Robbert Eggers conta sua história de vingança viking com a brutalidade e grandeza necessária para conquistar uma robusta imersão em mais uma história dos guerreiros nórdicos.
Embora tenha inspirado o clássico shakespeariano, a história de vingança do príncipe Amleth, que teve seu pai, o Rei Aurvandil, morto pelo tio Fjölnir, e sua mãe, a Rainha Gudrún, raptada também pelo seu tio, não apresentava, em vista rápida, grandes atrativos narrativos ou ampla potencialidade de simbolismos e discussões morais, aspectos marcantes da cenografia de Eggers.
E assim, desenvolvendo um enredo primordialmente voltado à aventura, o diretor trabalhou o longa, com exceção ao destaque dado ao entrelaçamento das crenças no fantástico e sobrenatural ao cotidiano dos vikings, além de uma certa abertura à discussão da honra enquanto valor maior dos históricos guerreiros escandinavos.
Ainda nessa linha de destacar a atenção do diretor a saga em si, há de se mencionar que o desenvolvimento de personagens não recebeu maior requinte em termos do desenrolar dos acontecimentos, tendo apenas o plow twist da conduta inesperada da mãe de Amleth como ponto chamativo no roteiro.
Dito isso, o grande destaque da obra recaiu essencialmente sobre a capacidade de direção de Eggers em contar uma convencional história viking com traços grandiosos e singulares. Não é exagero e nem clichê afirmar que o maior preciosismo do longa é sua estética viking altamente estilizada, seja com vilas fidedignamente recriadas ou com os figurinos deslumbrantes dos seres da mitologia nórdica.
O próprio diretor considera que o diferencial de sua obra consistiu em retratar uma história viking do ponto de vista mais realista possível. Para tanto, a esse visual impecavelmente robusto, somou-se uma viril trilha sonora, que guiou a saga com envolventes sons tribais vikings, impactando do início ao fim do filme.
No que se refere às atuações, a discreta atuação de Alexsander Skarsgard, embora recheada de virilidade, contrasta com a poderosa presença de cena de Anya Taylor-Joy, que interpretou Olga, escrava eslava que se torna par romântico do então escravo-príncipe. A mesma presença de cena vale ser mencionada para Willem Defoe, Bjork, Ralph Ineson e Nicole Kidman, que acessoriamente e coadjuvantemente entregaram atuações convincentes.
No geral, diversamente dos seus trabalhos anteriores, onde Eggers, além de se calcar na criação de atmosferas singulares, também discutiu simbologias e arquétipos com maior profundidade, em o Homem do Norte, o caráter aventuresco foi preponderante e agiu como fio condutor de uma narrativa projetada para deslumbrar.
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Honrar ao nostálgico clima setentista dos clássicos slasher's e apresentar uma narrativa dinâmica, divertida, excêntrica e chocante são algumas das virtudes de X, produção art house mais voltada ao entretenimento, um tanto diferenciada do padrão mais conceitual da A24.
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Há certas histórias que, devido à sua riqueza, merecem ser contadas e retratadas de modo singularmente compatível à grandeza que as constituem. A Tragédia de Macbeth é rica em teatralidade para atender tal demanda da pomposa obra Shakesperiana.
A virtuosidade do diretor Joel Coen em unir, na cenografia, certo tom de surrealismo alinhado com minimalismo, aplica à obra um estilo encantador e diferenciado, nos transmitindo a sensação de estarmos assistindo a um filme clássico do expressionismo alemão perdido no tempo.
Logo de início se chama a atenção pela utilização do enquadramento de tela em proporção 4:3, bem como pelos constantes planos fechados, que buscam captar, a todo momento, o enclausuramento daquele mundo e expressões dos personagens, transmitindo intimidade e aproximação dos sentimentos envoltos por eles ao desenrolar da trama.
Esses enquadramentos detalhados beiram aos padrões novelescos - o que soa acertado diante de uma história que, arcaica como tal, poderia cair na vala do maçante e moroso se representada com longas contemplações ou momentos silenciosos, bem como se houvesse apelo sóbrio e realista em excesso para uma história rica em fantasia e mistério.
O diretor também acerta em não alongar a obra para além do núcleo dramático que decidiu abordar, qual seja a ascensão e consequente decadência de Macbeth e sua ardilosa e ludibriadora esposa, deixando de lado os meandros políticos que desambiguaram no conflito entre Inglaterra e Escócia para além do golpe.
Ainda em termos visuais, a fotografia encanta não somente pelo aspecto preto e branco, afinal tal escolha não fora um mero formalismo para remeter antiguidade.
O deslumbre se dá em virtude de a ambientação sombria se mostrar em consonância com o clima pré e pós golpe de Macbeth, dado que naquele mundo, marcado por artimanhas políticas e as tensões externas e internas decorrentes delas, tudo se mostrara obscuro - embora a iluminação intencionalmente saturada deixe às claras os personagens e suas emoções.
Todos esses aspectos técnicos são enriquecidos por um enredo que evolui o suspense à medida que a insurreição golpista de Macbeth se materializa, o que é potencializado por uma trilha sonora discreta, mas intrigante.
No entanto, as declamações e os diálogos teatrais excessivamente poéticos - sendo fiéis ao texto shakespeariano, ressalte-se -, certamente representam a maior dificuldade de convencimento do público à essa corajosa e bem sucedida adaptação do diretor.
Na obra se discute o valor da ambição inconsequente e os conflitos psicológicos internos decorrentes da sensação de ocupar um lugar de poder indevido, além do paradoxo entre os sentimentos de grandeza externa e mesquinhez interna.
Tais conflitos se entrelaçam ao misterioso mundo fantástico onde as bruxas - visualmente e impecavelmente sinistras - funcionam na narrativa como a externalização dos desejos golpistas e consequente remorso da consciência de Macbeth.
De um modo geral, Coen adapta a renomada obra shakespeariana à sétima arte de forma digna e singular, merecendo ser exaltado por suas habilidosas escolhas técnicas, que resultaram em um competente suspense de cunho dramático rico em teatralidade.
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O filme se trata de uma coesa e simbólica representação da jornada de um ambicioso homem e suas feridas do passado, capazes de o posicionar como anjo e monstro, conforme o contexto social mostre necessário, além de um retrato gótico realista da natureza ludibriadora dos vendedores de esperança.
Em sua temática a obra aborda de forma sagaz a picaretagem e o charlatanismo, mostrando como indivíduos golpistas, mercadores da fé, conseguem captar a fraqueza da crença em esperança daqueles que dela necessitam, avançando em suas astúcias de forma ardilosa e inconsequentemente irresponsável socialmente.
Além do mais, a construção da fábula gótica por Del Toro é fascinante visualmente, capaz de imergir o espectador aos encantos e assombros do mágico do mundo do circo, adicionando, ainda, a estética art déco marcante dos retratados meados do início do século XX - a isso se soma, para além do aspecto misterioso que confere ao destino do protagonista, a envolvente estética mística do tarot.
A aveludada e rebuscada fotografia noir/gótica, embora obscura, indo desde os cenários aos figurinos, privilegia a contrastante beleza de um mundo friamente vil e impuro, onde a feiura reside no âmago interno humano.
O apelo visual, sem dúvidas, é o fator mais atraente do longa, muito embora seu roteiro conciso, seguindo seu protagonista com ponto de partida claro, caminho e volta ao mesmo lugar de origem, assenta a agradável experiência de acompanhamento do filme em torno do bem sucedido desenrolar linear da trama.
A construção de personagens e sua importância para a trama também se consolidam como um ponto positivo. Temos uma narrativa que privilegia o núcleo protagonista, onde se desenvolve o enredo de mocinha e herói/vilão, mas que, entretanto, roubam a cena os coadjuvantes - desde o dono do circo à sua mística madame e a psicóloga, que influenciam consideravelmente nas decisões e visões de mundo dos protagonistas.
Por fim, não menos destacáveis são as deleitosas construções de cenas de tensão e suspense a partir da execução das artimanhas farsantes do protagonista e o risco constante de sua farsa ruir, que conferem à obra o título de um apavorante e bem construído suspense noir.
No frigir dos ovos, Del Toro construiu um competente suspense noir gótico calcado em um visual limpo e linearmente desintricado, mas denunciante da sujeira e podridão humana para além das aparências externas.
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Embora a obra milite politicamente rediscutindo o protagonismo feminino na mitologia azteca - o que não é um demérito, encanta sobretudo com seu sucesso narrativo pela criação de personagens marcantes numa história divertida, cativante e rica historicamente.
Apresenta um viés distinto das típicas narrativas de investigação criminosa, focando na jornada investigativa das mentes criminosas e não no mistério e trágico visual das atrocidades cometidas pelos criminosos.
É por esse caminho que o arco dramático é competentemente construído - porém, a obra pode ser desinteressante para os fãs do aspecto de suspense e visceralidade das tradicionais narrativas.
O espírito clichê do invencível vilão anti-protagonista se justifica na medida em que a obra formatou a vanguarda de psicopatas sanguinários e suas perseguições a indefesas vítimas nos subúrbios estadunidenses, fenômeno que transcendeu os ares cinematográficos, consolidando uma experiência cine-cultural de medo de tais maníacas figuras por sociedades mundo a fora.
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Rodrigo Aragão caminha por uma trilha inédita na sua carreira, com a criação de uma narrativa com maior apelo dramático, mas não deixa de lado sua marca sanguinária num competente trash.
Cemitério das Almas Perdidas nos apresenta seu arco dramático sustentado pela mitologia de São Cipriano e as ambições de seus devotos.
O pano de fundo histórico da chegada de jesuítas ao Brasil na época colonização portuguesa é retratada competentemente, sobretudo quando se entrelaça com a história de uma excêntrica companhia circense que explorava os rincões brasileiros.
Chama atenção, ainda, que a fotografia polida dos cenários e vestimentas dos tempos históricos de outrora geram um intrigante contraste com o tradicional gore da cinematografia do diretor, que se faz presente nos violentos combates presentes no longa.
De um modo geral, o filme equilibra bem as visuais intenções viscerais do diretor com o arco dramático advindo da mitologia colonial envolta à narrativa, conformando uma obra regular que tem algo a contar, além de mostrar.
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Uma aveludada experiência visual focada em reproduzir a ambientação sensorial de uma balada - longe da reprodução de uma balada comum, entretanto.
A simplicidade de cenários contrasta com a complexidade de múltiplos e confusos personagens.
Essa salada inteira desambigua numa narrativa incomum, mas que não convence e nem excita por sua excentricidade - ao menos em ser considerada uma pretensa obra "art house".
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Uma obra grandiosa e épica, consideravelmente sóbria e virtuosa para uma adaptação literária igualmente magna.
Duna encanta sobretudo pelos seus aspectos técnicos, desde a fotografia marcante do planeta desértico às maquiagens e figurinos voltadas ao realismo - e, por isso, atraentes, ao design de som impecável (que nos aproxima do ambiente daquele universo) e trilha sonora sutil.
O enredo foca numa típica jornada de herói, mas com maior apreço aos aspectos íntimos e psicólogos na construção dramática do jovem protagonista Paul Atreides - característica relevante de blockbusters que objetivam maior identificação com o drama, por óbvio.
De um modo geral, embora não tenha adentrado em aspectos políticos mais complexos do sistema intergaláctico envolto na história, Villeneuve reforçou esteriótipos nos personagens para apresentar o máximo de aspectos possíveis, introduzindo o universo de Duna satisfatoriamente tanto para os fãs como para o público em geral.
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Nosferatu
3.6 947 Assista AgoraAltamente sensorial, Nosferatu de Robert Eggers é singular ao seu modo.
Nosferatu (2024) trata-se mais do que uma mera releitura do clássico de 1922, mas sim de uma obra que carrega sua singularidade, embalando uma narrativa gótica em que não se abre margem pra dúvidas: a estética se impõe como ponto alto da obra.
Não é exagero afirmar que a versão de Nosferatu dirigida por Robert Eggers se sustenta mais pela ambientação do que pela progressão narrativa em si. No entanto, não estamos falando de um enredo abstrato e sem corpo. Ele mantém fidelidade clássica ao enredo: tudo está no seu lugarzinho certo, desde o professor von Franz ao arrepiante navio que carrega o conde até sua indefesa – mas sexualmente latente – Ellen Hutter.
Esse universo ganha vida como se fosse a narrativa, o que já é traço recorrente na obra do diretor, frequentemente fruto de alguma controvérsia por esse motivo – já que seus filmes, se vistos da superfície, não aparentam debater grandes questões por seu foco mais estético. Mas, como já dito: essa estética fala por si só.
Assim, diante de uma história mais que centenária, amplamente conhecida e já contada em diversas versões, a escolha por investir na construção sensorial gótica-realista é a assinatura de Eggers que dá tom autoral único ao filme
Essa ambientação encanta desde a intensa exploração do jogo de luzes e sombras, que conferem uma atmosfera sombria inigualável, elevando-a tal ponto que a própria narrativa se torna secundária diante do encantamento sensorial.
Entre esses aspectos sensoriais que mais se destacam, além do conde quase sempre mostrado sorrateiramente, como se fosse uma entidade que não pertencesse aquele mundo, estão seus trejeitos cadavéricos e até seu marcante sotaque – aspectos que ganham força pela tímida trilha sonora, que se torna coadjuvante e amplifica os ruídos naturais daquele gélido mundo. Tudo remete a um tom quase onírico e sublime, em homenagem direta ao expressionismo alemão.
O design de arte, em geral, segue a linha gótica-vitoriana. Nessa linha, o castelo do conde Orlok é um espetáculo à parte. O retrato soturno é tão intensificado que ele jamais se mostra vívido, parecendo um grande monumento sobrenatural que, paradoxalmente, coexiste na realidade fática.
Quanto à trama em si, nota-se considerável fidedignidade ao clássico, embora o romantismo típico da tradição vampírica ganha um viés sexual latente e muitas vezes quase explícito na relação.
Essa relação funciona como metáfora para um mal inevitável, instaurado a partir do pacto sexual silencioso entre uma jovem moça e o vampiro – metáfora essa que reforça a dicotomia entre a virilidade sedutora do conde versus à bondade protetora de Thomas Hutter, o inseguro marido de Ellen que se aventurou pela amada.
No geral, Eggers não buscou reinventar roda, mas utilizando sua mão autoral conseguiu dar frescor a uma obra clássica, ainda que não tivesse, nada novo a contar. aparentemente. O bem sucedido sonho de Eggers em reproduzir esse clássico se realizou ao contar nosferatu de uma perspectiva gótica-realista, que carrega sua singularidade pelo traço autoral altamente atmosférico que ele consegue imprimir às suas obras.
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A Mulher no Jardim
2.6 183 Assista AgoraO que sobra quando a Escuridão Colapsa por Dentro e por Fora
O que parecia ser uma premissa fortemente estética e chamativa, o que já seria um bom chamariz para amantes de terror sobrenatural, se desenvolve numa narrativa assentada em conflitos resultantes de uma dissolução familiar pós-tragédia chegando a um melindroso enredo sobre temas sensíveis psicologicamente – mas, ainda assim, abarcando uma mensagem acalentadora sobre redenção na escuridão.
A inesperada chegada de uma misteriosa mulher de preto à fazenda do pequeno núcleo familiar debilitado, contando apenas com uma mãe recém-acidentada e seus filhos, sem o chefe de família recém falecido, dá o tom do senso de aprisionamento e insegurança, reforçando a vulnerabilidade frente à opressão que a figura misteriosa representa. O longa não se incomoda em incomodar e expõe, de forma potencialmente impactante a pessoas sensíveis, temas autodestrutivos.
Embora carente de maiores acontecimentos naquela vida bucólica, a montagem é suficientemente dinâmica, trabalhando o desenvolvimento das relações e tensões entre mãe e filhos, fazendo com que o ritmo não se torne maçante. No entanto, é inevitável considerar que o filme pode soar pretensioso ou elevado por beber do fenômeno denominado (controversialmente!) de pós-terror, que se agarra ao crescimento lento da atmosfera densa, assustadora e claustrofóbica — no filme, brilhantemente reforçado pela restrição dos cenários, basicamente, à isolada fazenda em que a família reside.
Se o visual totêmico da mulher de preto já impressiona per si, a estética da imersão dela à casa, trabalhando com um eficiente e assustador jogo de sombras, deixa o clima de terror latente, não apenas em seus bons e cabíveis jump scares, mas no senso geral de tomada de escuridão — que, metaforicamente, se entrelaça ao colapso mental que a protagonista, envolta em seus dilemas existenciais, enfrenta — sobretudo ao se ver impregnada a viver o sonho bucolicamente projetado pelo seu falecido marido.
No geral, embora curto em duração, não explorando o mundo ao redor — o que facilita a coesão do enredo —, é um competente thriller que discute uma perspectiva colapsante de temas como frustração conjugal e desafios da maternidade, abordando as inevitáveis consequências para os filhos. Tudo isso totemizado em uma assombração que materializa a pulsão de morte e os nada sutis acenos à depressão e ao suicídio. Ainda assim, apesar de centrado na chegada opressiva da escuridão tanto interna quanto externa, há também uma mensagem de esperança: a possibilidade de reconstrução a partir dos escombros, desde que haja alguma luz.
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Cabo do Medo
3.8 947 Assista AgoraO Ghost me trouxe aqui.
Ghost: Rite Here Rite Now
4.6 13Visto na estreia mundial!! 20/04/2024
O Tarô da Morte
2.3 220 Assista AgoraUm filme que não se leva a sério e, por conta disso, prejudica o que poderiam ser seus bons momentos - principalmente pelos aspectos visuais e gráficos, que estão verdadeiramente assustadores.
No entanto, se as figuras monstruosas e a fotografia soturna estão bem arquitetadas, o roteiro está cheios de furo e forçações de barra para a história (rasa) funcionar.
Os backgrounds dos personagens são igualmente rasas e incapazes de sensibilizar o espectador, o que novamente atrapalha a construção de tensão nas cenas de terror.
De um modo geral, é um entretenimento razoável impulsionado, sobretudo, pelo bem desenvolvido aspecto gráfico e bons jump-scares, mas vazio de atmosfera aterrrorizante pela superficilidade da história e personagens.
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Por Rômulo Gomes, crítico de cinema Accirn.
Assassinos da Lua das Flores
4.0 667 Assista AgoraA FOTOGRAFIA DE UMA GANANCIOSA TRAGÉDIA ÉTNICA
Um longo, profundo e tocante retrato realista do silenciamento e extermínio de uma minoria étnica em nome da ganância desmedida de um povo explorador contando com a complacência da negligência governamental.
KOTFM expõe a intriga e dissenso interno ocorrido nos EUA no início do século XX - que, por meio omissão e favorecimento aos exploradores brancos, em detrimento do culturalmente rico povo indígena OSAGE, permitiu um verdadeiro genocídio étnico indígena.
Scorsese não poupa a culpabilização americana pelo descaso e aniquilamento, construindo o enredo a partir da contradição daqueles que, de forma nitidamente hipócrita, fingiam cuidar mas exploravam a riqueza dos Osage - o ouro negro -, ao mesmo tempo.
Explorando um elenco rico e competente ao nível máximo da palavra, e desenvolvendo microhistórias de relacionamentos supostamente amistosos e amorosos e entre os Osage e americanos, desambiguando, posteriormente no aspecto investigativo do extermínio nada silencioso dos Osage, a narrativa é densa e carregada de violência - seja ela física com os assassinatos, embora não tão explícita, mas sobretudo emocional pelo violação étnica sofrida pelo povo indígena.
Para dar conta e ritmo das quase 3h30 de duração do longa, Scorsese apostou na apresentação dos 1º e 2º atos de forma mais dinâmica, empregando uma montagem com cenas mais ágeis - sobretudo as com ação envolvida - e diálogos não tão morosos - ritmo ao qual se soma e embala a presença da vívida trilha sonora com traços tribais e nada tímida.
No entanto, a aposta no 3º ato mais cadenciado, no qual se encaminhou o desfecho das frágeis consequências judiciais aos americanos, destoou da boa escolha de ritmo inicial e tornou e se mostrou morosa- embora sensivelmente tocante.
A retratação psicológica tanto do componente emocional do doloroso sofrimento dos Osage como dos dilemas psicológicos dos americanos, onde se questionou fortemente se aqueles que gostavam e cuidavam dos Osage que se relacionavam afetivamente somente o faziam por interesse financeiro, guiou o enredo e prendeu a atenção competentemente do início ao fim.
O peso dramático da narrativa ainda se viu fortalecido peso compromisso com a construção dos personagens e suas singularidades sem a criação de espantalhos de vilões e mocinhos contribuiu para o bem empregado realismo narrativo - brilhantemente espelhado em uma fotografia que destacava as belas paisagens campesinas do sul dos EUA e a deleitosa iluminação rústica do século XX nas vilas e fazendas americanas do velho oeste.
De um modo geral, embora explore as contradições dos indivíduos, o filme estava muito mais interessado em apontar que o cerne do extermínio Osage se deu mais pela batalha étnica travada, denunciando a omissão governamental e os privilégios e que os americanos obtiveram para explorar e destruir um povo culturalmente rico e legitimamente defensor de suas terras sem a devida investigação policial - que, embora tardiamente tenha se dado, não fora compensatória aos danos gerados aos Osage.
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Por Rômulo Gomes, crítico de cinema Accirn.
Beau Tem Medo
3.2 443Beau Is Afraid - Beau tem Medo - é um longo, original e excêntrico abraço ao absurdo, mas inconstante em suas virtudes.
Trata-se de uma verdadeira odisseia paranoica retratando um homem solitário, cheio de inseguranças e ansiedades, numa mera visita à casa de sua mãe, que é milionária e excessivamente controladora.
Aster adota um tom cômico desde o início e, nos lança, sobre aquela realidade pitoresca, através de uma narrativa que explora uma montagem caótica e com ênfase na sátira dos singulares e excêntricos pensamentos de Beau - além das sensações paranoicas sobre o insano mundo urbano ao seu redor do personagem- interpretado dedicadamente por Joaquin Phoenix em atuação sutilmente passiva.
A partir dessa simplória realidade urbana, o longa ganha fortes ares de tragicomédia e segue o protagonista cinquentão e antissocial em uma verdadeira narrativa épica diante dos obstáculos internos e externos oriundos de sua fobia social - com o enredo atravessando, no 2º ato, por uma alegoria de autoconhecimento altamente surrealista e com ares oníricos, através do encontro de Beau com um grupo teatral itinerante na floresta, tecnicamente reforçado audiovisualmente tanto pela fotografia com tons psicodélicos, como pela trilha sonora aconchegante, sendo o único momento de tranquilidade e conforto da jornada tortuosa de Beau.
Em que pese a força narrativa da jornada épica, o tom melodramático do 3º ato parece ser o ponto fraco da obra, haja vista o espetáculo do julgamento da vida de Beau ser um grande anticlímax moroso e que não dialoga com a experiência sensorial provocada nos atos iniciais. Apenas nesse momento, onde se esperaria a recompensa pela jornada de desenvolvimento do personagem, a teatralidade do absurdo é abandonada em nome de um humor pastelão mais direto e vazio de mensagens complexas - ainda que intencional conforme o objetivo satírico/cômico da direção de Aster.
De uma maneira geral, é possível traçar paralelos do enredo com o Show de Truman (1999), diante do fato de que Beau estava numa realidade simulada e de ambiente controlado, sendo sua jornada de aflição e disfunções fruto do plano maquiavélico e perverso de sua matriarca desde sua infância. Ao mesmo tempo, a mentalidade dramática do personagem oscila entre pitadas do exagero absurdo kafkiano e de culpa judaica com vestígios da síndrome de Munchausen.
Por outra vista, o horror do filme reside, justamente, no controle doentio de uma mãe para com o filho, com a obra lançando reflexão sobre essa toxicidade danosa e quando isso influencia, determina e manipula a vivência da criança. Com forte aceno edipiano, Aster debate desde sexualidade, com a visão monstruosa do fálico, como os traumas familiares hereditários adquiridos. A obra é uma verdadeira sessão de psicanálise na telona.
Ao mesmo tempo, o constante desconforto dos sentimentos dramáticos e de culpa de Beau constituem um horror psicológico infindável, sobretudo pelo desfecho dos acontecimentos não evoluir e libertar o personagem de suas amarras psicológicas.
Entretanto, o longa não pertence a um gênero específico, pois transita entre drama, comédia e terror de forma singular e excêntrica, situando-se no que poderia se chamar de “comédia de pesadelo”. Não necessariamente apavora, mas incomoda. Assim como não é propositalmente hilário, mas causa risos nervosos.
Também não é convencional em duração, visto que o filme buscou desenvolver cada situação acessória à narrativa de maneira estendida - o que faz parte do propósito sensorial, onde se induz a ansiedade de quem assiste, bem como traça, de alguma forma, um paralelo com a eterna aflição do protagonista, gerando uma simbiose metalinguística entre a ansiedade da obra e do público.
Embora o enredo não pretenda apresentar uma jornada de desenvolvimento interno do protagonista, que do início ao fim transita no mesmo estado de culpa constante e não evolui, em termos de autoconhecimento, talvez aí residisse o caminho para uma experiência mais compensatória - o que não afastaria a proposta essencial do enredo e sua tortura psicológica ao ansioso Beau.
Ainda cumpre mencionar que, não obstante tenha-se empregado um realismo teatralizado que necessitava de sequências mais cruas para concretizar esse objetivo - aí caracterizados os traços autorais de Aster com suas longas e desconfortáveis - ou entediantes - sequências, a obra se arrastou em excesso deixando o filme excessivamente extenso e notadamente pretensioso e, por que não, auto-indulgente.
No fim das contas, Beau tem Medo calca sua proposta numa originalidade recheada de abraço ao absurdo, visando oferecer, sensorialmente, um constante incômodo visual e temático, amplificando o senso generalizado de ansiedade - onde se mostrou bem sucedido. No entanto, findou inconstante em suas virtudes ao prolongar momentos coadjuvantes, bem como um tanto vazio e/ou excessivamente enigmático/metafórico, denotando uma narrativa pedante e minimamente coesa em se tratando de substância fílmica.
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Os Banshees de Inisherin
3.9 596 Assista AgoraRetratar o simplório e bucólico cotidiano da vida pastoril de uma isolada ilha irlandesa e, ainda assim, ser fabulosamente encantador e estranhamente tocante é o grande mérito narrativo de The Banshees of Inisherin.
O longa competentemente dirigido e escrito por Martin McDonagh apresenta a simples história de um brusco rompimento de amizade entre dois camponeses da ilha irlandesa de Inisherin, em plena época da guerra civil local no início do século XX que ocorrera no país.
O ensaio que nos é lançado aos olhos , no entanto, ao contrário da suposta simplicidade da história, cativa e é intrigantemente estranho desde o seu início, seguindo a busca das razões da ruptura da amizade entre os protagonistas - Pádraic (Colin Farrell - destacadamente icônico) e Colm (Brendan Gleeson - sisudamente encantador )
A mensagem é vasta e permeada por melancolia em texto, áudio e imagens, haja vista as tomadas de cena explorando o vazio das vastas paisagens rurais da ilha irlandesa, além da demonstração do cotidiano repetitivo e trivial característico da vida insular.
Esse vazio da imensidão territorial da ilha dialoga com o vazio existencial de seus habitantes, tendo em vista a falta de propósito para além da vida cotidiana e banal que ela proporciona.
O desenvolvimento dos personagens atravessa o conflito interno e externo dos ex-amigos contrastando o sentimento de angústia, ocasionada pela ambição de um propósito para além de uma vida camponesa comum, em face da satisfação com a banalidade e casualidade de uma vida comum.
Paralelamente ao arco principal se conectam as histórias de familiares e alguns outros habitantes da vila, onde se destaca, em ambas, a sensação de desencaixe e desacerto de suas problemáticas e rudimentares vidas camponesas - destaca-se o quanto os rumos das vidas de Inisherin são compartilhadas e interligadas. Vale a menção para as coadjuvâncias de Siobhan, irmã de Pádraic (Kerry Condon - serenamente racional e deslumbrante) e Dominic, jovem tolo da ilha (incomodantemente cativante por Barry Keoghan).
O roteiro traça um paralelo entre falta de propósitoe e potencial depressão com a abordagem folclórica sobre os Banshees, espíritos de mulheres que fazem presságios sobre mortes vindouras. A mensagem deixada no ar reflete sobre as demais mortes possíveis além da física, indicando que o fim da existência também ocorre com a falta de senso de pertencimento ou objetivos de vida.
A trilha sonora melancólica e, estranhamente cômica, indica o rumo da história e seus ares tragicômicos, ao servir como pano de fundo para o avanço da loucura em meio a solidão, impulsionada pela possessividade - traçando, ainda que de forma sutil, um paralelo entre ambos.
Além do mais, há um certo flerte da narrativa com a fantasia ao explorar, na fotografia, cenários e simbologia sombria, indicando de forma tênua a influência folclórica celta sobre a realidade de Inisherin.
O desfecho trágico,
que inclui automutilação
Há ainda que se destacar o aspecto cômico residente na criação de personagens extremamente caricatos, ainda que abordados em tom de humor ácido, bem como pelo senso de absurdo na proximidade sentimental dos habitantes com os animais da ilha, fortalecendo o tom fabular do enredo.
Esse potencial reflexivo, ainda ambientado em uma cinematografia que ressalta o vazio e os males do isolamento em uma pequena comunidade e a paradoxal proximidade entre seus habitantes que ela ocasiona, faz do longa uma poesia satiricamente dramática sobre os liames entre solidão e obsessão.
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Aftersun
4.0 795A estreia de Charlotte Wells no cinema traz uma obra com linguagem intimista e que revisa e passeia por memórias afetivas infantis ressiginificadas ao olhar adulto.
A dinâmica entre filha e pai é construída e demonstrada como um fim em si mesmo, sem desambiguar numa trama a ser resolvida. O ritmo cadenciado em conjunto com uma montagem aparentemente aleatória evidencia como as memórias são construídas e reconstruídas ao olhar do tempo, sobretudo quando versam sobre passagens que unem nostalgias envoltas a traumas.
O olhar poético de Aftersun discute, ainda que não explicamente, de depressão a suicídio, do desabrochar da juventude à estranheza e beleza da intimidade entre pai e filha, usando, para tanto, uma narrativa crua, altamente melancólica e angustiante para destacar a singular beleza dos momentos vividos com ente queridos, sejam eles bons ou ruins.
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Vozes da Escuridão
3.2 260A DARK SONG - Drama de horror sutil e aterrorizante
Um terror cadenciado, com ar atmosférico sufocadamente carregado à medida que se desenvolve o ritual mágico de Abramelin, que centraliza a narrativa, trazendo reflexões acerca das consequências das ações humanas em um suposto plano espiritual e o poder da redenção.
O enredo é desenvolvido lentamente, apresentando a tensão na dinâmica entre os dois personagens principais - Joseph Solomon (Steve Oram), um enigmático professor de magia e Sophia (Catherine Walker), uma mulher que busca na magia a saciação de uma dor pessoal - como força motriz narrativo de um crescente e intrigante suspense.
A mensagem do filme apresenta as adversidades e os pormenores de se realizar um ritual mágico de invocação, sem necessariamente se ater à verossimilhança dos procedimentos ritualísticos, segundo as palavras do estreante diretor Liam Gavin.
Ainda assim, a narrativa expõe essa áurea ritualística de maneira singular - se comparado a demais clichês do gênero de terror, onde as invocações, intencionais ou não, acontecem sem maiores esforços ou desafios.
Salta aos olhos a dedicada e paciente construção de personagens, onde numa espécie de jogo de nuances entre eles se edifica um cenário que flerta com a loucura a medida que a desconfiança entre ambos se estabelece.
Em termos estilísticos, não é um apontamento clichê destacar o belo trabalho da fotografia, composta, em sua maioria, por tons azulados e alaranjados, recheado de simbologia esotérica e com uma distinta e predominante estética diurna, que, paradoxalmente, soa obscura.
Nesta linha o longa traz uma trilha sonora que por vezes mostra-se discreta, mas que se apresenta quando necessário e de modo tenebroso e desconfortável, com distorcidos sons graves de um violoncelo.
Dentre os pontos negativos, estão a lentidão rítimica, que, embora pretendida, por vezes torna-se maçante, além dos momentos onde o terror intecionalmente se torna visualmente assustador, fugindo um tanto do propósito sutil atmosférico.
Certa controvérsia também paira sobre final, que embora contenha uma catarse redentora, pode soar destoante do restante da abordagem sombria, principalmente perante o público leigo em relação ao conteúdo ocultista.
De maneira geral, enquanto uma obra de horror moderno e recheada de tensão psicológica, o filme tem seu charme por conta de sua narrativa enfocada na verossimilhança na abordagem dramática entre os personagens principais, o que potencializa os sustos sutis e os momentos intencionalmente e bem sucedidamente aterrorizantes, além de conter um singular final com ares catárticos.
A Dark Song é um convicente drama de horror, calcado em bases esotéricas, o que torna sua premissa intrigante, e, como bem executado, embora feito ao seu modo slow burn, assusta ao abordar o desconhecido com seu pretenso realismo narrativo.
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Eu Vi o Diabo
4.1 1,1K Assista AgoraO filme é uma típica jornada gráfica e visceral de vingança com considerável reflexão sobre a monstruosidade nela contida, apresentando-se com variações de gênero entre ação, suspense e drama, mas soando negativamente exagerado tanto com suas hipérboles narrativas, como com suas soluções de roteiro inverossímeis em variados momentos do enredo.
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Tudo em Todo O Lugar ao Mesmo Tempo
4.0 2,1K Assista AgoraTudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022) é uma autêntica obra com rótulo da A24, bem sucedidamente frenético, emocionante e excêntrico, mas exótico o suficiente a ponto de ocasionar reações de 8 ou 80 ao público. No geral, sua originalidade é satisfatoriamente agradável.
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Red Rocket
3.6 90 Assista AgoraRed Rocket é, acima de tudo, uma irreverente, agradável e divertida história excêntrica, sobretudo pelo destaque de seu pra lá de carismático ator pornô protagonista, com todos ares de anti-herói, brilhantamente encenado por Simon Rex.
Dirigido por Sean Baker, o filme se guia pela lógica de produção art-house da A24, que traz a tona filmes mais conceituais. Discute, em seu enredo, o retorno de um ex-ator pornô a uma região dos Estados Unidos amplamante conservadora, mas tratando a potencial problemática de forma satírica, em vez de sisuda.
Em suma, Red Rocket utiliza o clichê do típico arco dramático do sonho americano, a partir de uma ótica da decadência, para construir personagens com caráter residente numa zona cinzenta, em virtude de suas ações se caracterizarem como boas ou más, a depender do ponto de vista utilizado - resultando, como um todo, numa narrativa excêntrica mas estranhamente cativante.
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Era Uma Vez um Gênio
3.5 177 Assista AgoraA julgar pelo trailer, será uma loucura encantadora característica da direção do George Miller! Ansiedade define
O Homem do Norte
3.7 1,0K Assista AgoraUma grande produção recheada de cenas criativamente marcantes e com ares sofisticadamente épicos. Robbert Eggers conta sua história de vingança viking com a brutalidade e grandeza necessária para conquistar uma robusta imersão em mais uma história dos guerreiros nórdicos.
Embora tenha inspirado o clássico shakespeariano, a história de vingança do príncipe Amleth, que teve seu pai, o Rei Aurvandil, morto pelo tio Fjölnir, e sua mãe, a Rainha Gudrún, raptada também pelo seu tio, não apresentava, em vista rápida, grandes atrativos narrativos ou ampla potencialidade de simbolismos e discussões morais, aspectos marcantes da cenografia de Eggers.
E assim, desenvolvendo um enredo primordialmente voltado à aventura, o diretor trabalhou o longa, com exceção ao destaque dado ao entrelaçamento das crenças no fantástico e sobrenatural ao cotidiano dos vikings, além de uma certa abertura à discussão da honra enquanto valor maior dos históricos guerreiros escandinavos.
Ainda nessa linha de destacar a atenção do diretor a saga em si, há de se mencionar que o desenvolvimento de personagens não recebeu maior requinte em termos do desenrolar dos acontecimentos, tendo apenas o plow twist da conduta inesperada da mãe de Amleth como ponto chamativo no roteiro.
Dito isso, o grande destaque da obra recaiu essencialmente sobre a capacidade de direção de Eggers em contar uma convencional história viking com traços grandiosos e singulares. Não é exagero e nem clichê afirmar que o maior preciosismo do longa é sua estética viking altamente estilizada, seja com vilas fidedignamente recriadas ou com os figurinos deslumbrantes dos seres da mitologia nórdica.
O próprio diretor considera que o diferencial de sua obra consistiu em retratar uma história viking do ponto de vista mais realista possível. Para tanto, a esse visual impecavelmente robusto, somou-se uma viril trilha sonora, que guiou a saga com envolventes sons tribais vikings, impactando do início ao fim do filme.
No que se refere às atuações, a discreta atuação de Alexsander Skarsgard, embora recheada de virilidade, contrasta com a poderosa presença de cena de Anya Taylor-Joy, que interpretou Olga, escrava eslava que se torna par romântico do então escravo-príncipe. A mesma presença de cena vale ser mencionada para Willem Defoe, Bjork, Ralph Ineson e Nicole Kidman, que acessoriamente e coadjuvantemente entregaram atuações convincentes.
No geral, diversamente dos seus trabalhos anteriores, onde Eggers, além de se calcar na criação de atmosferas singulares, também discutiu simbologias e arquétipos com maior profundidade, em o Homem do Norte, o caráter aventuresco foi preponderante e agiu como fio condutor de uma narrativa projetada para deslumbrar.
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X: A Marca da Morte
3.4 1,3K Assista AgoraHonrar ao nostálgico clima setentista dos clássicos slasher's e apresentar uma narrativa dinâmica, divertida, excêntrica e chocante são algumas das virtudes de X, produção art house mais voltada ao entretenimento, um tanto diferenciada do padrão mais conceitual da A24.
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A Tragédia de Macbeth
3.7 198 Assista AgoraHá certas histórias que, devido à sua riqueza, merecem ser contadas e retratadas de modo singularmente compatível à grandeza que as constituem. A Tragédia de Macbeth é rica em teatralidade para atender tal demanda da pomposa obra Shakesperiana.
A virtuosidade do diretor Joel Coen em unir, na cenografia, certo tom de surrealismo alinhado com minimalismo, aplica à obra um estilo encantador e diferenciado, nos transmitindo a sensação de estarmos assistindo a um filme clássico do expressionismo alemão perdido no tempo.
Logo de início se chama a atenção pela utilização do enquadramento de tela em proporção 4:3, bem como pelos constantes planos fechados, que buscam captar, a todo momento, o enclausuramento daquele mundo e expressões dos personagens, transmitindo intimidade e aproximação dos sentimentos envoltos por eles ao desenrolar da trama.
Esses enquadramentos detalhados beiram aos padrões novelescos - o que soa acertado diante de uma história que, arcaica como tal, poderia cair na vala do maçante e moroso se representada com longas contemplações ou momentos silenciosos, bem como se houvesse apelo sóbrio e realista em excesso para uma história rica em fantasia e mistério.
O diretor também acerta em não alongar a obra para além do núcleo dramático que decidiu abordar, qual seja a ascensão e consequente decadência de Macbeth e sua ardilosa e ludibriadora esposa, deixando de lado os meandros políticos que desambiguaram no conflito entre Inglaterra e Escócia para além do golpe.
Ainda em termos visuais, a fotografia encanta não somente pelo aspecto preto e branco, afinal tal escolha não fora um mero formalismo para remeter antiguidade.
O deslumbre se dá em virtude de a ambientação sombria se mostrar em consonância com o clima pré e pós golpe de Macbeth, dado que naquele mundo, marcado por artimanhas políticas e as tensões externas e internas decorrentes delas, tudo se mostrara obscuro - embora a iluminação intencionalmente saturada deixe às claras os personagens e suas emoções.
Todos esses aspectos técnicos são enriquecidos por um enredo que evolui o suspense à medida que a insurreição golpista de Macbeth se materializa, o que é potencializado por uma trilha sonora discreta, mas intrigante.
No entanto, as declamações e os diálogos teatrais excessivamente poéticos - sendo fiéis ao texto shakespeariano, ressalte-se -, certamente representam a maior dificuldade de convencimento do público à essa corajosa e bem sucedida adaptação do diretor.
Na obra se discute o valor da ambição inconsequente e os conflitos psicológicos internos decorrentes da sensação de ocupar um lugar de poder indevido, além do paradoxo entre os sentimentos de grandeza externa e mesquinhez interna.
Tais conflitos se entrelaçam ao misterioso mundo fantástico onde as bruxas - visualmente e impecavelmente sinistras - funcionam na narrativa como a externalização dos desejos golpistas e consequente remorso da consciência de Macbeth.
De um modo geral, Coen adapta a renomada obra shakespeariana à sétima arte de forma digna e singular, merecendo ser exaltado por suas habilidosas escolhas técnicas, que resultaram em um competente suspense de cunho dramático rico em teatralidade.
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O Beco do Pesadelo
3.5 524 Assista AgoraO filme se trata de uma coesa e simbólica representação da jornada de um ambicioso homem e suas feridas do passado, capazes de o posicionar como anjo e monstro, conforme o contexto social mostre necessário, além de um retrato gótico realista da natureza ludibriadora dos vendedores de esperança.
Em sua temática a obra aborda de forma sagaz a picaretagem e o charlatanismo, mostrando como indivíduos golpistas, mercadores da fé, conseguem captar a fraqueza da crença em esperança daqueles que dela necessitam, avançando em suas astúcias de forma ardilosa e inconsequentemente irresponsável socialmente.
Além do mais, a construção da fábula gótica por Del Toro é fascinante visualmente, capaz de imergir o espectador aos encantos e assombros do mágico do mundo do circo, adicionando, ainda, a estética art déco marcante dos retratados meados do início do século XX - a isso se soma, para além do aspecto misterioso que confere ao destino do protagonista, a envolvente estética mística do tarot.
A aveludada e rebuscada fotografia noir/gótica, embora obscura, indo desde os cenários aos figurinos, privilegia a contrastante beleza de um mundo friamente vil e impuro, onde a feiura reside no âmago interno humano.
O apelo visual, sem dúvidas, é o fator mais atraente do longa, muito embora seu roteiro conciso, seguindo seu protagonista com ponto de partida claro, caminho e volta ao mesmo lugar de origem, assenta a agradável experiência de acompanhamento do filme em torno do bem sucedido desenrolar linear da trama.
A construção de personagens e sua importância para a trama também se consolidam como um ponto positivo. Temos uma narrativa que privilegia o núcleo protagonista, onde se desenvolve o enredo de mocinha e herói/vilão, mas que, entretanto, roubam a cena os coadjuvantes - desde o dono do circo à sua mística madame e a psicóloga, que influenciam consideravelmente nas decisões e visões de mundo dos protagonistas.
Por fim, não menos destacáveis são as deleitosas construções de cenas de tensão e suspense a partir da execução das artimanhas farsantes do protagonista e o risco constante de sua farsa ruir, que conferem à obra o título de um apavorante e bem construído suspense noir.
No frigir dos ovos, Del Toro construiu um competente suspense noir gótico calcado em um visual limpo e linearmente desintricado, mas denunciante da sujeira e podridão humana para além das aparências externas.
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Maya e os 3 Guerreiros (1ª Temporada)
4.1 15Embora a obra milite politicamente rediscutindo o protagonismo feminino na mitologia azteca - o que não é um demérito, encanta sobretudo com seu sucesso narrativo pela criação de personagens marcantes numa história divertida, cativante e rica historicamente.
Mindhunter (1ª Temporada)
4.4 813 Assista AgoraApresenta um viés distinto das típicas narrativas de investigação criminosa, focando na jornada investigativa das mentes criminosas e não no mistério e trágico visual das atrocidades cometidas pelos criminosos.
É por esse caminho que o arco dramático é competentemente construído - porém, a obra pode ser desinteressante para os fãs do aspecto de suspense e visceralidade das tradicionais narrativas.
Halloween: A Noite do Terror
3.7 1,2K Assista AgoraO espírito clichê do invencível vilão anti-protagonista se justifica na medida em que a obra formatou a vanguarda de psicopatas sanguinários e suas perseguições a indefesas vítimas nos subúrbios estadunidenses, fenômeno que transcendeu os ares cinematográficos, consolidando uma experiência cine-cultural de medo de tais maníacas figuras por sociedades mundo a fora.
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O Cemitério das Almas Perdidas
3.1 73Rodrigo Aragão caminha por uma trilha inédita na sua carreira, com a criação de uma narrativa com maior apelo dramático, mas não deixa de lado sua marca sanguinária num competente trash.
Cemitério das Almas Perdidas nos apresenta seu arco dramático sustentado pela mitologia de São Cipriano e as ambições de seus devotos.
O pano de fundo histórico da chegada de jesuítas ao Brasil na época colonização portuguesa é retratada competentemente, sobretudo quando se entrelaça com a história de uma excêntrica companhia circense que explorava os rincões brasileiros.
Chama atenção, ainda, que a fotografia polida dos cenários e vestimentas dos tempos históricos de outrora geram um intrigante contraste com o tradicional gore da cinematografia do diretor, que se faz presente nos violentos combates presentes no longa.
De um modo geral, o filme equilibra bem as visuais intenções viscerais do diretor com o arco dramático advindo da mitologia colonial envolta à narrativa, conformando uma obra regular que tem algo a contar, além de mostrar.
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Clímax
3.6 1,2K Assista AgoraUma aveludada experiência visual focada em reproduzir a ambientação sensorial de uma balada - longe da reprodução de uma balada comum, entretanto.
A simplicidade de cenários contrasta com a complexidade de múltiplos e confusos personagens.
Essa salada inteira desambigua numa narrativa incomum, mas que não convence e nem excita por sua excentricidade - ao menos em ser considerada uma pretensa obra "art house".
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Duna
3.8 1,7K Assista AgoraUma obra grandiosa e épica, consideravelmente sóbria e virtuosa para uma adaptação literária igualmente magna.
Duna encanta sobretudo pelos seus aspectos técnicos, desde a fotografia marcante do planeta desértico às maquiagens e figurinos voltadas ao realismo - e, por isso, atraentes, ao design de som impecável (que nos aproxima do ambiente daquele universo) e trilha sonora sutil.
O enredo foca numa típica jornada de herói, mas com maior apreço aos aspectos íntimos e psicólogos na construção dramática do jovem protagonista Paul Atreides - característica relevante de blockbusters que objetivam maior identificação com o drama, por óbvio.
De um modo geral, embora não tenha adentrado em aspectos políticos mais complexos do sistema intergaláctico envolto na história, Villeneuve reforçou esteriótipos nos personagens para apresentar o máximo de aspectos possíveis, introduzindo o universo de Duna satisfatoriamente tanto para os fãs como para o público em geral.
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