que a vida é sempre uma luta luta para viver, para permanecer bem e até para morrer. Os leões, então, não são apenas medos imaginados, mas símbolos das dificuldades concretas que atravessam a existência. Sonhar com leões é reconhecer que estamos constantemente diante de batalhas, internas e externas, e que viver exige coragem contínua. O sonho não suaviza o confronto, ele revela que a luta faz parte da própria condição de estar vivo.
Como sempre, os projetos de Denise Fraga são atravessados por uma sensibilidade rara e um cuidado profundo com as questões humanas. Em 'Livros Restantes', não poderia ser diferente.
No filme, Denise vive Ana, uma professora que decide recomeçar a vida e se mudar para Portugal. Amante da literatura, ela passa a devolver alguns livros que ganhou de pessoas próximas, livros com dedicatórias escritas à mão, gesto cada vez mais raro e precioso. Mas essas devoluções não são apenas um movimento de desapego ou de abrir espaço para o novo. Ana busca algo maior: uma reconexão com cada uma daquelas pessoas, com os afetos que ficaram impressos nas páginas e nas memórias.
porém, quase nunca corresponde às expectativas e isso a frustra.
Tal qual as belíssimas palavras de Hilda Hilst, do livro 'A obscena senhora D.', narradas por Denise em off no filme, somos lembrados “...do fardo quando envelhecemos. Do desaparecimento. Dessa coisa que não existe, mas é crua. É viva. O tempo”.
Ana buscava reviver conexões com pessoas, situações e momentos que já não existiam e talvez nem pudessem existir. Porque ninguém é o mesmo ao longo dos anos, nem ela permanecia intacta. O tempo, implacável e silencioso, encarrega-se de retirar alguns livros da nossa estante, mesmo quando tentamos segurá-los. Mas há também uma delicadeza nisso tudo: enquanto ainda houver tempo, sempre haverá espaço para novos livros, novas histórias, novos afetos.
O filme é desconfortante e pode gerar gatilhos em quem sofreu bullying na época da escola. O interessante é que a cena final confirma o que o pai diz pro menino no restaurante. Essa é uma fase em que tudo passa tão rápido para desperdiçar os momentos evitando ser quem se é de verdade. Em um dia tudo será apenas um borrão na memória, ainda sim, algo ficará marcado para sempre em você como uma praga.
O Sam Raimi sabe criar uma obra que prende e entretém do começo ao fim. O filme é divertidíssimo e muito bem atuado, com destaque especial para a Rachel!
'Hamnet' e 'Valor sentimental' tem muito em comum, ambas as obras se encontram na compreensão de que a arte não é um luxo, mas uma alternativa às situações fora de controle na vida. Ambas as obras partem de perdas, ausências e afetos interrompidos para afirmar que criar transcende. A arte é um gesto de resistência contra o apagamento. Quando a experiência cotidiana não basta, a arte surge como o espaço onde aquilo que não pôde ser vivido ou dito encontra forma e permanência.
Em 'Hamnet', a criação nasce diretamente do luto. A morte não é superada, mas transformada em linguagem. A arte não repara a perda, porém impede que ela se dissolva no silêncio absoluto. Já em 'Valor sentimental',
a criação funciona como reorganização tardia do afeto. Não há redenção plena, mas há um esforço de atribuir sentido ao que foi mal vivido, às relações que fracassaram no tempo certo. Em ambos os casos, a arte não salva da dor, mas salva da insignificância.
Assim, quando essas obras sugerem que a arte nos salva de um fim medíocre, elas não falam de glória ou consagração, mas de sentido. Criar é impedir que a existência termine como um ruído qualquer. É um encerramento digno. A vida não se resolve, a dor não se fecha, mas algo permanece. A arte fala uma vez, intensamente. Depois disso, todo o restante é silêncio que apenas a guarda.
transformou sua dor em arte e a projetou para que todo mundo (até hoje) pudesse sentir esse e outros lutos com ele e sua família. Isso é a maior prova de amor a alguém, é produzir arte que transcende o tempo e o espaço.
Que delicadeza! Muito bonito e emocionante. Curioso que a similaridade com o longa do Jean-Pierre Jeunet não é só no título e nome da personagem, mas também no tema. Ambos os filmes exaltam as coisas simples da vida e trazem essa nostalgia e elo com quem tem energia que bate com a nossa. Apaixonante!
Você solicitaria os serviços de uma agência de atores para preencher algum vazio em sua vida? Contrataria alguém para ser seu amigo de aluguel? Ou um(a) namorado(a) falso(a)? Ou deixaria previamente agendado um grupo de pessoas para comparecer ao seu velório e chorar por você? Pode soar absurdo, mas esse tipo de serviço existe em países asiáticos e reflete um contexto social de solidão urbana extrema, dificuldade em expressar afeto e pressão social e familiar constante. Esse é o ponto de partida do terno e cativante 'Família de Aluguel', atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, filme escrito e dirigido pela japonesa Hikari, uma das criadoras da excelente série 'Treta', disponível na Netflix.
Na história, Phillip, vivido pelo talentoso e carismático Brendan Fraser, é um ator norte-americano que se muda para o Japão acreditando estar prestes a se tornar uma estrela em ascensão, mas sua carreira está mais para estrela cadente. É então que, de forma inusitada, surge a oportunidade de trabalhar em uma agência de aluguel de atores. Diante desse choque cultural, Phillip encontra uma chance de se conectar com as pessoas ao seu redor e, de quebra, de afastar a solidão que já o acompanhava desde os tempos em que vivia nos Estados Unidos.
Família de Aluguel pode até retratar uma cultura distante, mas se ancora em um sentimento universal para criar conexão e empatia. O filme não tem grandes pretensões e com leveza, ele convida o espectador a uma viagem interna em busca de um divino que está em nós e que nos possibilita uma relação mais honesta conosco e com o outro.
Todo o elenco está muito bem, mas Brendan Fraser é uma escolha especialmente feliz. Com seu olhar perdido, seu jeito tímido, desajeitado e deslocado, ele constrói um Phillip que foi ao Japão em busca de respostas que, no fundo, sempre estiveram dentro dele. São o tempo e as pessoas que cruzam nosso caminho que acabam nos guiando, silenciosamente, para onde precisamos estar.
De maneira mais leve e bem-humorada, o filme dialoga diretamente com o inquietante e melancólico 'Encontros e Desencontros'. Ambos falam sobre estrangeiros em terras desconhecidas, mas, sobretudo, sobre pessoas deslocadas dentro de si mesmas. Se no filme de Sofia Coppola a conexão surge do silêncio compartilhado, em 'Família de Aluguel' ela nasce do afeto ensaiado que, pouco a pouco, deixa de ser atuação e revela a verdade. Afinal, sentimento não se encena. No fim, estamos todos em busca de preencher o vazio e a solidão da vida e descobrimos que no outro, ainda que por instantes, é possível sentir que pertencemos a algum lugar.
O ponto de partida de Pillion está no próprio entendimento de seu título. A palavra, vinda do inglês e usada para designar o banco do carona de uma motocicleta, já antecipa simbolicamente o caminho que o melancólico filme de estreia do diretor britânico Harry Lighton se propõe a percorrer, e a ultrapassar. Trata se de uma experiência sensorial e emocional que dialoga diretamente com obras como O Fantasma (2000) e Shame (2011), ao explorar personagens aprisionados em dinâmicas de desejo, controle e isolamento emocional.
Na história, Colin (Harry Melling) é um jovem tímido, constantemente diminuído pelas pessoas ao seu redor, com exceção de sua família afetuosa. Ele conhece Ray (Alexander Skarsgård), um homem atraente e enigmático que enxerga em Colin exatamente as qualidades que busca em um parceiro. Quando Colin sobe na moto de Ray e ocupa o banco do carona, totalmente inexperiente, ele firma um acordo invisível entre os dois. Permite que Ray o conduza na velocidade que quiser e na direção que escolher. A partir daí, Colin aceita demais, cede demais e, pouco a pouco, desaparece demais.
O filme não faz juízo de valor, não é moralista e tampouco toma partidos. Ele apresenta os fatos e confia ao espectador a responsabilidade de analisá-los. Não há qualquer condenação das práticas BDSM. Pelo contrário, o longa é cuidadoso ao deixar claro que o problema não está na dinâmica em si, mas nas pessoas envolvidas. O que o filme expõe é a existência de dominadores que não sabem dominar. Ray não é cruel no sentido clássico. Ele é emocionalmente incapacitado, e isso o torna perigoso. Um dominador que não conhece seus próprios limites, que não é psicologicamente estável e que ignora que o BDSM exige cuidado com o submisso no pós, além de responsabilidade pelo impacto emocional da relação, tende a causar danos profundos, sobretudo à saúde mental do submisso.
É possível que haja uma razão para o modo como Ray age. Sua intimidade obscura parece carregar uma dor tão intensa que se revela de forma clara na cena do beijo. Aquele gesto no final, ao qual ele próprio não consegue resistir, introduz reciprocidade, humanidade e afeto, tudo aquilo que ele não é capaz de sustentar. O filme retrata esse momento com realismo e sensibilidade, sem romantizar a dor e sem criar vilões. Já Colin entra nesse universo completamente despreparado para reconhecer seus próprios limites e para distinguir entrega de apagamento. Seu desfecho talvez seja o mais triste. Mesmo com o desaparecimento de Ray, algo dentro dele já havia começado a se romper. Colin termina transformado, possivelmente anulado, reprimindo sentimentos que acredita não merecer sentir, não por prazer, mas por sobrevivência emocional. Afinal, pessoas confusas machucam pessoas incríveis.
Que filme difícil de ser visto. Uma pedrada. Mas muito importante o tema, precisamos discutir cada vez mais o assunto, educar as famílias, em especial as crianças e adolescentes, e fazer com que a lei seja efetivamente cumprida.
Ha certas situações que não se resolvem, apenas as atravessamos. E enquanto atravessamos, a vida acontece nesses instantes quase invisíveis, a chuva fria no rosto, o corpo andando sem pressa, a noite que não cobra explicações. Não é a felicidade no sentido clássico, é sentir que ainda estamos aqui.
Há pouco mais de dez anos, a ficção distópica deixou de ser advertência e passou a ser descrição. E o mais assustador em filmes como “Anniversary” é justamente o fato de serem reconhecíveis demais.
Dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, o qual tem uma visão muito interessante sobre o mundo atual e seus perigos e, mais do que isso, um talento singular para conduzir personagens em constante contraponto, escancarando suas hipocrisias, “Anniversary” é um retrato aterrador do rumo que os Estados Unidos tomou. Infelizmente, talvez por questões de tempo, o filme se apressa e se torna raso em alguns aspectos, o que não diminui a potência do alerta que oferece sobre o quão frágeis as democracias são e, por consequência, como ninguém sai ileso do que resulta desse desgaste. Ao optar por uma abordagem mais micro para contornar certas limitações, focando apenas na família Taylor, o filme não só aproxima o espectador da trama, criando laços, repulsa ou identificação, como também constrói cenas de suspense psicológico sufocantes, sustentadas por diálogos críveis, bem escritos e impecavelmente interpretados.
Os últimos trinta minutos são inquietantes e desoladores, sobretudo pela semelhança iminente com os tempos atuais. Há até algo de poético na forma criativa como a história se encerra, uma poesia fúnebre celebrada por opressores e aplaudida por marionetes que sequer percebem estar sendo manipuladas (basta observar os apoiadores da extrema direita no Brasil). Que permaneçamos alertas e vigilantes, garantindo que a democracia nasça e renasça a cada nova geração.
“Sentimental Value” não é um filme que entrega respostas fáceis. Grande parte do que ele pretende comunicar, e construir junto do público, está nos detalhes não verbais. É um olhar, um gesto, uma sombra… e tudo isso imerso em uma história tão triste quanto terna. Em primeiro plano, o filme discute o trauma quase como uma herança transmitida de geração em geração, e os erros sucessivos que mantêm esse ciclo vivo. Esse trauma funciona como uma rachadura na família dos protagonistas, entendedores, entenderão. Mas o filme dialoga de forma esperançosa com essa dor.
Assim como Ernest Hemingway disse: “o mundo quebra todo mundo, e depois alguns ficam fortes justamente nos lugares quebrados.” É exatamente no encontro com o outro, dentro dessa rachadura, que existe a chance de romper ciclos. Há também uma questão muito presente, tanto para o pai quanto para uma das filhas, sobre como eles buscam certa redenção diante de seus próprios fantasmas. Ambos recorrem à arte para lidar com seus traumas, compreendê-los, reconciliar-se com eles e com os outros, e finalmente seguir adiante. Afinal, como afirmou Paul Klee: “o propósito da arte é tornar o invisível visível.” Lindo, lindo, lindo, especialmente para quem tem irmãos. 🥰
Outro grande filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto talvez seja sua obra mais diferente, e também a mais importante até aqui. Ela tem força para mudar a forma como o cinema brasileiro é visto pelo resto do mundo e pode se tornar um divisor de águas na nossa produção audiovisual.
Denso, paciente e estiloso, o filme mergulha o espectador em um mundo estranhamente familiar. Embora se passe nos anos 1970, tudo ali ainda soa atual. Esse círculo vicioso, expresso, por exemplo, no diálogo entre a cena inicial e o desfecho, revela a linha tênue que separa o passado do presente brasileiro.
Com um toque “tarantinesco”, Kleber cria uma ficção embebida de realidade sem abandonar sua marca autoral, em diálogo direto com Retratos Fantasmas. O humor, as pequenas anedotas e as figuras populares carregam brasilidade em cada detalhe.
Dividido em capítulos e com mais de duas horas e meia de duração, o filme nunca se apressa, tampouco se torna cansativo. Seus personagens são complexos, cheios de camadas e humanidade. Destaque absoluto para Dona Sebastiana, interpretada magistralmente por Tânia Maria. Wagner Moura também brilha. Ele está tão à vontade em seu Marcelo que seria impossível imaginar outro ator no papel.
Talvez o único ponto que pode causar estranhamento seja o desfecho. Parte do público pode esperar uma resolução típica de filmes de ação, que nunca vem. Mas é justamente aí que Kleber eleva seu filme: o final é propositalmente anticlímax, incômodo e profundamente reflexivo. Ele dialoga com o início da narrativa e com o Brasil de ontem e de hoje.
A ausência de resolução simboliza o próprio país pós-anistia: aquele que reconhece os crimes da ditadura, mas nunca responsabilizou ninguém. O Agente Secreto é também um filme de memórias, tal qual Retratos Fantasmas, só que desta vez, as memórias dos corpos desaparecidos e das histórias interrompidas. Não é um filme sobre resolver o passado, e sim sobre expor o vazio que ele deixou.
Uma obra-prima urgente e necessária. Viva o cinema nacional! 🇧🇷👏🏼
“Uma Batalha Após a Outra”, em cartaz em todo o Brasil desde a última quinta-feira (25/09), é aquela fagulha (ou por que não explosão?) de esperança para um cinema pungente que encantou muita gente no passado, mas que parece ter sido deixado de lado nos últimos tempos diante de uma avalanche de sequências, remakes, reboots e de inúmeras narrativas sem originalidade ou bússola que aponte para o mundo real. Este é um filme que grita: o cinema ainda está vivo!
Inspirado no complexo e ousado romance Vineland, do escritor norte-americano Thomas Pynchon, Uma Batalha Após a Outra é uma interpretação brilhante e atual de Paul Thomas Anderson, na qual ele constrói um EUA distópico e, ainda assim, assustadoramente verossímil. É ainda mais horrível (e revoltante) lembrar de quantas pessoas estão atualmente sofrendo por situações semelhantes em várias partes do mundo.
Na história, Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) integra um grupo de ativistas revolucionários que lutam para libertar e proteger imigrantes das mazelas e violências de um Estado que, a cada ano, se torna mais segregador, eugenista e preconceituoso. A situação se complica quando sua filha passa a ser perseguida pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn, num papel intenso e dirigido com rigor), que coloca interesses pessoais acima dos objetivos nacionais.
Paul Thomas Anderson conduz com maestria uma trama de quase três horas de duração, mas que a cada segundo envolve e prende o espectador: personagens ricamente construídos, dilemas morais complexos, e uma atmosfera de tensão permanente. O suspense e a imprevisibilidade do roteiro também são armas usadas com habilidade para manter quem assiste na beira da poltrona, ansioso para descobrir o que vem a seguir. E acredite: o filme nunca aposta no clichê do herói salvador. Aqui, não há um “branco salvador” nem soluções fáceis. Cada personagem carrega suas contradições.
Além de dialogar com a obra de Pynchon, de fazer uma crítica incisiva à política americana (e por extensão global), e de oferecer entretenimento de primeira qualidade, 'Uma Batalha Após a Outra' se destaca por sua montagem precisa, trilha sonora impactante, e um elenco afiado do início ao fim. Mas o ponto que mais reverbera é algo quase característico do cinema do diretor PTA: a obsessão, no caso, de um líder pelo poder pessoal, que se torna tão intensa que acaba traindo os próprios valores que ele afirma defender.
Alguns amores são por inteiro em um universo muito particular e improvável… isso basta? Talvez não, mas a raridade dos fatos é o que os torna imunes ao próprio tempo.
Dirigido por Zach Cregger, o mesmo cineasta por trás do surpreendente 'Noites Brutais' (2022), 'A Hora do Mal' adota um estilo narrativo semelhante ao do seu antecessor, revelando o mistério sem pressa e com um suspense angustiante em progressão. Ao longo da trama, o diretor insere acontecimentos inesperados, peças de um quebra-cabeça que o espectador dificilmente anteciparia, mesmo após ler a sinopse ou assistir ao trailer.
Um dos pontos mais instigantes está na estrutura narrativa, que Cregger admite ter sido inspirada no clássico 'Magnólia' (1999): histórias aparentemente independentes que, em algum momento, colidem de forma surpreendente. Essa escolha, aliada a uma montagem precisa e engenhosa, mantém o filme em constante estado de tensão e fascínio.
Na história, acompanhamos Justine, professora do ensino fundamental interpretada com intensidade por Julia Garner, que se vê tragada para o centro de um mistério inquietante: todos os seus alunos, exceto um, desaparecem misteriosamente durante a noite, sem deixar pistas. Rapidamente, parte da comunidade volta sua desconfiança contra ela, levando Justine a investigar por conta própria para limpar seu nome, sem imaginar que o desaparecimento das crianças está ligado a algo muito mais perigoso e sombrio do que ela poderia conceber.
O título original, Weapons (“armas”, em tradução literal), carrega um simbolismo que vai além da superfície. Longe de se referir apenas a armamentos físicos, a metáfora do filme desloca o foco para o ato de “armar” alguém de forma psicológica e ideológica. A obra nos lembra que o dano mais devastador raramente vem do objeto em si, mas da mente e da intenção que o empunham. Pessoas podem ser transformadas em verdadeiras armas por meio de manipulação e controle emocional, tornando-se vetores da violência e perpetuando o mal dentro de uma comunidade.
Essa leitura ecoa de forma perturbadoramente atual. Não se trata de uma defesa ou crítica simplista às armas, mas de uma reflexão sobre como indivíduos, quando manipulados por forças políticas, ideológicas ou pessoais, podem ser usados como instrumentos para agendas obscuras. Muitas vezes sem sequer perceberem que estão sendo “empunhados” por alguém em posição de poder, em busca de mais poder ou objetivos ainda mais vis.
Atmosférico e inquietante, 'A Hora do Mal' constrói seu terror em camadas, mesclando tensão, absurdos e momentos de humor ácido que, paradoxalmente, apenas reforçam seu caráter macabro. À medida que avança para um clímax explosivo, talvez um dos desfechos mais intensos e alucinantes dos últimos anos, o filme se consolida não apenas como um exercício narrativo inteligente, mas como uma obra que dialoga diretamente com as ansiedades e fragilidades de nosso tempo.
Sem recorrer a clichês, é possível afirmar que este é, muito provavelmente, o filme de terror do ano.
Parece que a gente assistiu cada século da existência deles, e, pra ser sincero? Que tédio! O primeiro filme tinha uma ideia tão boa… e eles conseguiram estragar tudo! Tô torcendo pra que consigam fazer um terceiro e que realmente entreguem algo bem melhor do que esse desastre de continuação.
Tenso, intenso, macabro e bem triste. Este é mais um filme dessa leva de terror que usa o luto como ponto de partida para desenvolver uma história. Ele poderia ter se aprofundado mais na parte dramática e psicológica, que são muito boas, ainda sim consegue explorar um terror visceral e gore. As atuações são todas excelentes, em especial das crianças. E é interessante ver a Sally em um papel totalmente distante do que ela convencionalmente aceita.
Sonhar com Leões
3.7 18 Assista AgoraEm ‘Sonhar com Leões’, o título parece dialogar diretamente com a fala da protagonista na praia, quando ela afirma
que a vida é sempre uma luta luta para viver, para permanecer bem e até para morrer. Os leões, então, não são apenas medos imaginados, mas símbolos das dificuldades concretas que atravessam a existência. Sonhar com leões é reconhecer que estamos constantemente diante de batalhas, internas e externas, e que viver exige coragem contínua. O sonho não suaviza o confronto, ele revela que a luta faz parte da própria condição de estar vivo.
Livros Restantes
3.6 27Como sempre, os projetos de Denise Fraga são atravessados por uma sensibilidade rara e um cuidado profundo com as questões humanas. Em 'Livros Restantes', não poderia ser diferente.
No filme, Denise vive Ana, uma professora que decide recomeçar a vida e se mudar para Portugal. Amante da literatura, ela passa a devolver alguns livros que ganhou de pessoas próximas, livros com dedicatórias escritas à mão, gesto cada vez mais raro e precioso. Mas essas devoluções não são apenas um movimento de desapego ou de abrir espaço para o novo. Ana busca algo maior: uma reconexão com cada uma daquelas pessoas, com os afetos que ficaram impressos nas páginas e nas memórias.
O que ela encontra,
porém, quase nunca corresponde às expectativas e isso a frustra.
Ana buscava reviver conexões com pessoas, situações e momentos que já não existiam e talvez nem pudessem existir. Porque ninguém é o mesmo ao longo dos anos, nem ela permanecia intacta. O tempo, implacável e silencioso, encarrega-se de retirar alguns livros da nossa estante, mesmo quando tentamos segurá-los. Mas há também uma delicadeza nisso tudo: enquanto ainda houver tempo, sempre haverá espaço para novos livros, novas histórias, novos afetos.
Belíssimo.
The Plague
3.3 21O filme é desconfortante e pode gerar gatilhos em quem sofreu bullying na época da escola.
O interessante é que a cena final confirma o que o pai diz pro menino no restaurante.
Essa é uma fase em que tudo passa tão rápido para desperdiçar os momentos evitando ser quem se é de verdade. Em um dia tudo será apenas um borrão na memória, ainda sim, algo ficará marcado para sempre em você como uma praga.
Socorro!
3.3 201O Sam Raimi sabe criar uma obra que prende e entretém do começo ao fim.
O filme é divertidíssimo e muito bem atuado, com destaque especial para a Rachel!
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.2 409 Assista Agora'Hamnet' e 'Valor sentimental' tem muito em comum, ambas as obras se encontram na compreensão de que a arte não é um luxo, mas uma alternativa às situações fora de controle na vida. Ambas as obras partem de perdas, ausências e afetos interrompidos para afirmar que criar transcende. A arte é um gesto de resistência contra o apagamento. Quando a experiência cotidiana não basta, a arte surge como o espaço onde aquilo que não pôde ser vivido ou dito encontra forma e permanência.
Em 'Hamnet', a criação nasce diretamente do luto. A morte não é superada, mas transformada em linguagem. A arte não repara a perda, porém impede que ela se dissolva no silêncio absoluto. Já em 'Valor sentimental',
a criação funciona como reorganização tardia do afeto. Não há redenção plena, mas há um esforço de atribuir sentido ao que foi mal vivido, às relações que fracassaram no tempo certo. Em ambos os casos, a arte não salva da dor, mas salva da insignificância.
Assim, quando essas obras sugerem que a arte nos salva de um fim medíocre, elas não falam de glória ou consagração, mas de sentido. Criar é impedir que a existência termine como um ruído qualquer. É um encerramento digno. A vida não se resolve, a dor não se fecha, mas algo permanece. A arte fala uma vez, intensamente. Depois disso, todo o restante é silêncio que apenas a guarda.
É lindo lindo lindo ver no final como o William
transformou sua dor em arte e a projetou para que todo mundo (até hoje) pudesse sentir esse e outros lutos com ele e sua família. Isso é a maior prova de amor a alguém, é produzir arte que transcende o tempo e o espaço.
A Pequena Amélie
3.9 46Que delicadeza! Muito bonito e emocionante.
Curioso que a similaridade com o longa do Jean-Pierre Jeunet não é só no título e nome da personagem, mas também no tema. Ambos os filmes exaltam as coisas simples da vida e trazem essa nostalgia e elo com quem tem energia que bate com a nossa. Apaixonante!
Família de Aluguel
3.8 43 Assista AgoraVocê solicitaria os serviços de uma agência de atores para preencher algum vazio em sua vida? Contrataria alguém para ser seu amigo de aluguel? Ou um(a) namorado(a) falso(a)? Ou deixaria previamente agendado um grupo de pessoas para comparecer ao seu velório e chorar por você?
Pode soar absurdo, mas esse tipo de serviço existe em países asiáticos e reflete um contexto social de solidão urbana extrema, dificuldade em expressar afeto e pressão social e familiar constante.
Esse é o ponto de partida do terno e cativante 'Família de Aluguel', atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, filme escrito e dirigido pela japonesa Hikari, uma das criadoras da excelente série 'Treta', disponível na Netflix.
Na história, Phillip, vivido pelo talentoso e carismático Brendan Fraser, é um ator norte-americano que se muda para o Japão acreditando estar prestes a se tornar uma estrela em ascensão, mas sua carreira está mais para estrela cadente. É então que, de forma inusitada, surge a oportunidade de trabalhar em uma agência de aluguel de atores.
Diante desse choque cultural, Phillip encontra uma chance de se conectar com as pessoas ao seu redor e, de quebra, de afastar a solidão que já o acompanhava desde os tempos em que vivia nos Estados Unidos.
Família de Aluguel pode até retratar uma cultura distante, mas se ancora em um sentimento universal para criar conexão e empatia. O filme não tem grandes pretensões e com leveza, ele convida o espectador a uma viagem interna em busca de um divino que está em nós e que nos possibilita uma relação mais honesta conosco e com o outro.
Todo o elenco está muito bem, mas Brendan Fraser é uma escolha especialmente feliz. Com seu olhar perdido, seu jeito tímido, desajeitado e deslocado, ele constrói um Phillip que foi ao Japão em busca de respostas que, no fundo, sempre estiveram dentro dele. São o tempo e as pessoas que cruzam nosso caminho que acabam nos guiando, silenciosamente, para onde precisamos estar.
De maneira mais leve e bem-humorada, o filme dialoga diretamente com o inquietante e melancólico 'Encontros e Desencontros'. Ambos falam sobre estrangeiros em terras desconhecidas, mas, sobretudo, sobre pessoas deslocadas dentro de si mesmas. Se no filme de Sofia Coppola a conexão surge do silêncio compartilhado, em 'Família de Aluguel' ela nasce do afeto ensaiado que, pouco a pouco, deixa de ser atuação e revela a verdade. Afinal, sentimento não se encena.
No fim, estamos todos em busca de preencher o vazio e a solidão da vida e descobrimos que no outro, ainda que por instantes, é possível sentir que pertencemos a algum lugar.
Pillion
3.2 63O ponto de partida de Pillion está no próprio entendimento de seu título. A palavra, vinda do inglês e usada para designar o banco do carona de uma motocicleta, já antecipa simbolicamente o caminho que o melancólico filme de estreia do diretor britânico Harry Lighton se propõe a percorrer, e a ultrapassar. Trata se de uma experiência sensorial e emocional que dialoga diretamente com obras como O Fantasma (2000) e Shame (2011), ao explorar personagens aprisionados em dinâmicas de desejo, controle e isolamento emocional.
Na história, Colin (Harry Melling) é um jovem tímido, constantemente diminuído pelas pessoas ao seu redor, com exceção de sua família afetuosa. Ele conhece Ray (Alexander Skarsgård), um homem atraente e enigmático que enxerga em Colin exatamente as qualidades que busca em um parceiro. Quando Colin sobe na moto de Ray e ocupa o banco do carona, totalmente inexperiente, ele firma um acordo invisível entre os dois. Permite que Ray o conduza na velocidade que quiser e na direção que escolher. A partir daí, Colin aceita demais, cede demais e, pouco a pouco, desaparece demais.
O filme não faz juízo de valor, não é moralista e tampouco toma partidos. Ele apresenta os fatos e confia ao espectador a responsabilidade de analisá-los. Não há qualquer condenação das práticas BDSM. Pelo contrário, o longa é cuidadoso ao deixar claro que o problema não está na dinâmica em si, mas nas pessoas envolvidas. O que o filme expõe é a existência de dominadores que não sabem dominar. Ray não é cruel no sentido clássico. Ele é emocionalmente incapacitado, e isso o torna perigoso. Um dominador que não conhece seus próprios limites, que não é psicologicamente estável e que ignora que o BDSM exige cuidado com o submisso no pós, além de responsabilidade pelo impacto emocional da relação, tende a causar danos profundos, sobretudo à saúde mental do submisso.
É possível que haja uma razão para o modo como Ray age. Sua intimidade obscura parece carregar uma dor tão intensa que se revela de forma clara na cena do beijo. Aquele gesto no final, ao qual ele próprio não consegue resistir, introduz reciprocidade, humanidade e afeto, tudo aquilo que ele não é capaz de sustentar. O filme retrata esse momento com realismo e sensibilidade, sem romantizar a dor e sem criar vilões. Já Colin entra nesse universo completamente despreparado para reconhecer seus próprios limites e para distinguir entrega de apagamento. Seu desfecho talvez seja o mais triste. Mesmo com o desaparecimento de Ray, algo dentro dele já havia começado a se romper. Colin termina transformado, possivelmente anulado, reprimindo sentimentos que acredita não merecer sentir, não por prazer, mas por sobrevivência emocional. Afinal, pessoas confusas machucam pessoas incríveis.
Manas
4.2 136 Assista AgoraQue filme difícil de ser visto.
Uma pedrada.
Mas muito importante o tema, precisamos discutir cada vez mais o assunto, educar as famílias, em especial as crianças e adolescentes, e fazer com que a lei seja efetivamente cumprida.
Sorry, Baby
3.7 48 Assista AgoraHa certas situações que não se resolvem, apenas as atravessamos. E enquanto atravessamos, a vida acontece nesses instantes quase invisíveis, a chuva fria no rosto, o corpo andando sem pressa, a noite que não cobra explicações. Não é a felicidade no sentido clássico, é sentir que ainda estamos aqui.
Anniversary
3.4 15Há pouco mais de dez anos, a ficção distópica deixou de ser advertência e passou a ser descrição. E o mais assustador em filmes como “Anniversary” é justamente o fato de serem reconhecíveis demais.
Dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, o qual tem uma visão muito interessante sobre o mundo atual e seus perigos e, mais do que isso, um talento singular para conduzir personagens em constante contraponto, escancarando suas hipocrisias, “Anniversary” é um retrato aterrador do rumo que os Estados Unidos tomou. Infelizmente, talvez por questões de tempo, o filme se apressa e se torna raso em alguns aspectos, o que não diminui a potência do alerta que oferece sobre o quão frágeis as democracias são e, por consequência, como ninguém sai ileso do que resulta desse desgaste. Ao optar por uma abordagem mais micro para contornar certas limitações, focando apenas na família Taylor, o filme não só aproxima o espectador da trama, criando laços, repulsa ou identificação, como também constrói cenas de suspense psicológico sufocantes, sustentadas por diálogos críveis, bem escritos e impecavelmente interpretados.
Os últimos trinta minutos são inquietantes e desoladores, sobretudo pela semelhança iminente com os tempos atuais. Há até algo de poético na forma criativa como a história se encerra, uma poesia fúnebre celebrada por opressores e aplaudida por marionetes que sequer percebem estar sendo manipuladas (basta observar os apoiadores da extrema direita no Brasil). Que permaneçamos alertas e vigilantes, garantindo que a democracia nasça e renasça a cada nova geração.
Valor Sentimental
3.9 366 Assista Agora“Sentimental Value” não é um filme que entrega respostas fáceis. Grande parte do que ele pretende comunicar, e construir junto do público, está nos detalhes não verbais. É um olhar, um gesto, uma sombra… e tudo isso imerso em uma história tão triste quanto terna. Em primeiro plano, o filme discute o trauma quase como uma herança transmitida de geração em geração, e os erros sucessivos que mantêm esse ciclo vivo. Esse trauma funciona como uma rachadura na família dos protagonistas, entendedores, entenderão. Mas o filme dialoga de forma esperançosa com essa dor.
Assim como Ernest Hemingway disse: “o mundo quebra todo mundo, e depois alguns ficam fortes justamente nos lugares quebrados.” É exatamente no encontro com o outro, dentro dessa rachadura, que existe a chance de romper ciclos. Há também uma questão muito presente, tanto para o pai quanto para uma das filhas, sobre como eles buscam certa redenção diante de seus próprios fantasmas. Ambos recorrem à arte para lidar com seus traumas, compreendê-los, reconciliar-se com eles e com os outros, e finalmente seguir adiante. Afinal, como afirmou Paul Klee: “o propósito da arte é tornar o invisível visível.”
Lindo, lindo, lindo, especialmente para quem tem irmãos. 🥰
Frankenstein
3.7 596 Assista Agora"E assim o coração ha de se partir, mas partido, ainda viverá"
esse filme me fez sentir tanta falta de Penny Dreadful.
O Agente Secreto
3.9 1,0K Assista AgoraOutro grande filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto talvez seja sua obra mais diferente, e também a mais importante até aqui. Ela tem força para mudar a forma como o cinema brasileiro é visto pelo resto do mundo e pode se tornar um divisor de águas na nossa produção audiovisual.
Denso, paciente e estiloso, o filme mergulha o espectador em um mundo estranhamente familiar. Embora se passe nos anos 1970, tudo ali ainda soa atual. Esse círculo vicioso, expresso, por exemplo, no diálogo entre a cena inicial e o desfecho, revela a linha tênue que separa o passado do presente brasileiro.
Com um toque “tarantinesco”, Kleber cria uma ficção embebida de realidade sem abandonar sua marca autoral, em diálogo direto com Retratos Fantasmas. O humor, as pequenas anedotas e as figuras populares carregam brasilidade em cada detalhe.
Dividido em capítulos e com mais de duas horas e meia de duração, o filme nunca se apressa, tampouco se torna cansativo. Seus personagens são complexos, cheios de camadas e humanidade. Destaque absoluto para Dona Sebastiana, interpretada magistralmente por Tânia Maria. Wagner Moura também brilha. Ele está tão à vontade em seu Marcelo que seria impossível imaginar outro ator no papel.
Talvez o único ponto que pode causar estranhamento seja o desfecho. Parte do público pode esperar uma resolução típica de filmes de ação, que nunca vem. Mas é justamente aí que Kleber eleva seu filme: o final é propositalmente anticlímax, incômodo e profundamente reflexivo. Ele dialoga com o início da narrativa e com o Brasil de ontem e de hoje.
A ausência de resolução simboliza o próprio país pós-anistia: aquele que reconhece os crimes da ditadura, mas nunca responsabilizou ninguém. O Agente Secreto é também um filme de memórias, tal qual Retratos Fantasmas, só que desta vez, as memórias dos corpos desaparecidos e das histórias interrompidas. Não é um filme sobre resolver o passado, e sim sobre expor o vazio que ele deixou.
Uma obra-prima urgente e necessária. Viva o cinema nacional! 🇧🇷👏🏼
Task: Unidade Especial (1ª Temporada)
4.0 76 Assista AgoraNossa! O 5 episódio foi de tirar o fôlego.
Que série tensa!
Uma Batalha Após a Outra
3.7 652 Assista Agora“Uma Batalha Após a Outra”, em cartaz em todo o Brasil desde a última quinta-feira (25/09), é aquela fagulha (ou por que não explosão?) de esperança para um cinema pungente que encantou muita gente no passado, mas que parece ter sido deixado de lado nos últimos tempos diante de uma avalanche de sequências, remakes, reboots e de inúmeras narrativas sem originalidade ou bússola que aponte para o mundo real. Este é um filme que grita: o cinema ainda está vivo!
Inspirado no complexo e ousado romance Vineland, do escritor norte-americano Thomas Pynchon, Uma Batalha Após a Outra é uma interpretação brilhante e atual de Paul Thomas Anderson, na qual ele constrói um EUA distópico e, ainda assim, assustadoramente verossímil. É ainda mais horrível (e revoltante) lembrar de quantas pessoas estão atualmente sofrendo por situações semelhantes em várias partes do mundo.
Na história, Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) integra um grupo de ativistas revolucionários que lutam para libertar e proteger imigrantes das mazelas e violências de um Estado que, a cada ano, se torna mais segregador, eugenista e preconceituoso. A situação se complica quando sua filha passa a ser perseguida pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn, num papel intenso e dirigido com rigor), que coloca interesses pessoais acima dos objetivos nacionais.
Paul Thomas Anderson conduz com maestria uma trama de quase três horas de duração, mas que a cada segundo envolve e prende o espectador: personagens ricamente construídos, dilemas morais complexos, e uma atmosfera de tensão permanente. O suspense e a imprevisibilidade do roteiro também são armas usadas com habilidade para manter quem assiste na beira da poltrona, ansioso para descobrir o que vem a seguir. E acredite: o filme nunca aposta no clichê do herói salvador. Aqui, não há um “branco salvador” nem soluções fáceis. Cada personagem carrega suas contradições.
Além de dialogar com a obra de Pynchon, de fazer uma crítica incisiva à política americana (e por extensão global), e de oferecer entretenimento de primeira qualidade, 'Uma Batalha Após a Outra' se destaca por sua montagem precisa, trilha sonora impactante, e um elenco afiado do início ao fim. Mas o ponto que mais reverbera é algo quase característico do cinema do diretor PTA: a obsessão, no caso, de um líder pelo poder pessoal, que se torna tão intensa que acaba traindo os próprios valores que ele afirma defender.
As consequências disso são a ruína dele, e de um país frágil, feito de porcelana, que ele e seus compatriotas aspiram comandar.
Obs: Aquele final não é recomendado para quem tem labirintite, rs.
Por inteiro
2.9 30Alguns amores são por inteiro em um universo muito particular e improvável… isso basta? Talvez não, mas a raridade dos fatos é o que os torna imunes ao próprio tempo.
O Som ao Redor
3.8 1,2K Assista AgoraInquietante e um choque de realidade!
Idiocracia
3.1 634Isso é tão 2025!
Sweet Revenge
2.7 6Que demais!
Merecia um longa.
A Hora do Mal
3.7 1,0K Assista AgoraO que eu entendi do filme e do título original dele (weapons = armas), com spoilers:
Dirigido por Zach Cregger, o mesmo cineasta por trás do surpreendente 'Noites Brutais' (2022), 'A Hora do Mal' adota um estilo narrativo semelhante ao do seu antecessor, revelando o mistério sem pressa e com um suspense angustiante em progressão. Ao longo da trama, o diretor insere acontecimentos inesperados, peças de um quebra-cabeça que o espectador dificilmente anteciparia, mesmo após ler a sinopse ou assistir ao trailer.
Um dos pontos mais instigantes está na estrutura narrativa, que Cregger admite ter sido inspirada no clássico 'Magnólia' (1999): histórias aparentemente independentes que, em algum momento, colidem de forma surpreendente. Essa escolha, aliada a uma montagem precisa e engenhosa, mantém o filme em constante estado de tensão e fascínio.
Na história, acompanhamos Justine, professora do ensino fundamental interpretada com intensidade por Julia Garner, que se vê tragada para o centro de um mistério inquietante: todos os seus alunos, exceto um, desaparecem misteriosamente durante a noite, sem deixar pistas. Rapidamente, parte da comunidade volta sua desconfiança contra ela, levando Justine a investigar por conta própria para limpar seu nome, sem imaginar que o desaparecimento das crianças está ligado a algo muito mais perigoso e sombrio do que ela poderia conceber.
O título original, Weapons (“armas”, em tradução literal), carrega um simbolismo que vai além da superfície. Longe de se referir apenas a armamentos físicos, a metáfora do filme desloca o foco para o ato de “armar” alguém de forma psicológica e ideológica. A obra nos lembra que o dano mais devastador raramente vem do objeto em si, mas da mente e da intenção que o empunham. Pessoas podem ser transformadas em verdadeiras armas por meio de manipulação e controle emocional, tornando-se vetores da violência e perpetuando o mal dentro de uma comunidade.
Essa leitura ecoa de forma perturbadoramente atual. Não se trata de uma defesa ou crítica simplista às armas, mas de uma reflexão sobre como indivíduos, quando manipulados por forças políticas, ideológicas ou pessoais, podem ser usados como instrumentos para agendas obscuras. Muitas vezes sem sequer perceberem que estão sendo “empunhados” por alguém em posição de poder, em busca de mais poder ou objetivos ainda mais vis.
Atmosférico e inquietante, 'A Hora do Mal' constrói seu terror em camadas, mesclando tensão, absurdos e momentos de humor ácido que, paradoxalmente, apenas reforçam seu caráter macabro. À medida que avança para um clímax explosivo, talvez um dos desfechos mais intensos e alucinantes dos últimos anos, o filme se consolida não apenas como um exercício narrativo inteligente, mas como uma obra que dialoga diretamente com as ansiedades e fragilidades de nosso tempo.
Sem recorrer a clichês, é possível afirmar que este é, muito provavelmente, o filme de terror do ano.
Diários de um Robô-Assassino (1ª Temporada)
3.8 37 Assista AgoraQue série cativante!
O final é emocionante!!
Ansioso pela segunda temporada.
The Old Guard 2
2.5 107 Assista AgoraParece que a gente assistiu cada século da existência deles, e, pra ser sincero? Que tédio! O primeiro filme tinha uma ideia tão boa… e eles conseguiram estragar tudo!
Tô torcendo pra que consigam fazer um terceiro e que realmente entreguem algo bem melhor do que esse desastre de continuação.
Faça Ela Voltar
3.8 755 Assista AgoraTenso, intenso, macabro e bem triste.
Este é mais um filme dessa leva de terror que usa o luto como ponto de partida para desenvolver uma história.
Ele poderia ter se aprofundado mais na parte dramática e psicológica, que são muito boas, ainda sim consegue explorar um terror visceral e gore.
As atuações são todas excelentes, em especial das crianças. E é interessante ver a Sally em um papel totalmente distante do que ela convencionalmente aceita.