Últimas opiniões enviadas
O filme borda alguns temas que eu gostaria explorar mais profundamente, como, por exemplo, o ato de deturpar algo hegemônico. Tipo, a Fada do Dente, tradicionalmente, não é considerada uma figura de terror, mas o filme parte justamente da premissa de transformar algo familiar e socialmente aceito em uma entidade assustadora. Pegando um símbolo já consolidado no imaginário popular e ressignificá-lo dentro do horror (que normalmente sempre funciona).
Não existe uma escala macro da assombração; raramente vemos jornais, televisão ou instituições acompanhando os acontecimentos, quando se trata de filmes assim. O horror quase sempre fica restrito ao núcleo dos personagens.
Além disso, existe o clichê do “contrato de perseguição”, que nesse filme não respeita. A Fada do Dente persegue crianças relacionadas à perda do último dente, mas, ao longo da narrativa, ela também mata pessoas aleatórias, que aparentemente não têm relação direta com isso. Isso parece funcionar mais como um mecanismo para criar cenas de susto e manter a tensão constante durante o filme. Mas vou tratar disso mais quando eu comentar do “delírio individual versus delírio coletivo”.
Outro aspecto interessante é a sensação de que a entidade fica mais forte ao longo do filme, embora isso nunca seja explicado claramente, e eu não gosto de filmes que tentam explicar o "inexplicavel", mas eu considero um grande problema desse filme. Também percebo uma dualidade muito explícita entre bem e mal, representada visualmente como luz versus trevas. A Fada do Dente teme a luz, então o filme constrói toda a tensão em torno da escuridão. Ao mesmo tempo, a entidade funciona como um predador implacável: ela nunca para de perseguir os personagens. Existe até uma sensação parecida com a de uma mosca perturbando constantemente alguém, ta ligado? Não existe exatamente uma escalada de poder explícita, mas a assombração parece ganhar força conforme os personagens interagem com ela ou tentam negá-la. Isso pode ser interpretado como uma lógica em que a negação fortalece a entidade, porém não consegui compreender como é explicado ao longo do filme.
Ao mesmo tempo, isso me faz pensar na ideia de “delírio individual versus delírio coletivo”, que reflete um recuo do horror para o espaço privado: o terror permanece no microcosmo, impedindo uma leitura mais ampla dos acontecimentos. Dessa forma, o filme pode até sugerir a interpretação de que o protagonista seria, na verdade, o assassino de todas as mortes que o filme apresentou.
No início da narrativa, o protagonista presencia um momento traumático: a morte da própria mãe pela Fada do Dente. Entretanto, a população da cidade o acusa de ser o responsável pelo assassinato. Quando ele retorna à cidade anos depois, um homem em um bar relembra a história e provoca uma briga, chamando-o de “assassino da própria mãe”. Coincidentemente, esse homem se torna a primeira vítima da entidade. A polícia imediatamente o coloca como principal suspeito e o leva para a cadeia. Porém, enquanto ele está preso, a Fada do Dente mata todos os policiais da delegacia, e apenas ele sobrevive. Isso reforça ainda mais a ambiguidade da narrativa, porque o espectador pode interpretar os acontecimentos tanto como manifestações sobrenaturais quanto como possíveis distorções da mente do protagonista. O motivo de seu retorno à cidade também é significativo. Seu primeiro amor de infância possui um irmão mais novo que sofre com pesadelos e não consegue dormir. Ela decide chamá-lo para conversar com o garoto, acreditando que ele poderia servir como conselheiro para superar o trauma do escuro, já que também passou por experiências traumáticas relacionadas ao medo e à insônia. Posteriormente, ele vai até o hospital onde a criança está internada para impedir que ela seja colocada em uma sala escura, procedimento utilizado como tentativa de fazê-la superar o medo. No entanto, justamente quando ele chega ao local, as pessoas do hospital começam a morrer. Isso reforça novamente a suspeita em torno do protagonista, ao mesmo tempo em que mantém a dúvida sobre a existência real da entidade
Também gostaria de analisar a estética do que eu chamaria de “monstro das lacunas”. Há momentos em que a luz protege os personagens, mas basta encostar minimamente na escuridão para a entidade atacar. Ao mesmo tempo, o filme cria regras visuais contraditórias: às vezes a criatura parece limitada pela luz de maneira absoluta; em outros momentos, ela consegue resistir à claridade temporariamente. No final, por exemplo, existe uma solução meio absurda em que o protagonista Kyle explode a entidade devido a "um soco flamejante", mesmo o filme inteiro tendo estabelecido que sua fraqueza é a luz ela resistiu nesse momento até explodir. Isso parece um recurso de criar regras sobrenaturais que depois são flexibilizadas para gerar um clímax mais espetacular.
Por fim, há o clichê romântico típico de muitos filmes de terror, principalmente desses estadunidenses, que o protagonista e a personagem feminina possuem uma relação mal resolvida, mas o trauma vivido ao longo da narrativa acaba funcionando como elemento de reconciliação ou união dos dois.
A estrutura do filme foi muito legal, ele se auto regula na linhagem da dor universal, todos possuem uma história triste,
no começo eu achei que ia seguir o monomito, mas fui pego de surpresa que não, depois achei que ia ser uma leitura de pocahontas/avatar, mas também não
Últimos recados
O novo app do Filmow é oficial!
Olá, cinéfilo!
Depois de 2 meses em beta, o novo app do Filmow agora é oficial e 100% funcional.
Baixe aqui:
Android: https://filmow.s.gy/vIEnVo
iPhone: https://filmow.s.gy/esyxMU
Queremos ouvir você: gostou? O que falta? Como melhoramos?
Chama no WhatsApp +55 11 97103-8686 ou avalia direto na loja.
Bons filmes!
Equipe Filmow
obrigado
ola
O protagonista, o policial Howie, representa o sujeito disciplinado do Estado protestante britânico: policial, sexualmente reprimido, cristão devoto e agente da ordem institucional vigente. Já a ilha de Summerisle representa uma sociedade organizada em torno de outra lógica econômica e espiritual: fertilidade, ritual agrícola, coletividade orgânica e pragmatismo religioso. O horror do filme nasce do fato de que ambos os lados acreditam estar moralmente corretos.
E o filme também traz paranoia, horror e uma estética de terror folk. As fantasias de animais e os produtos da loja de doces também possuem essa estética de horror, o que culmina para tornar o filme especial e influenciar uma caralhada de obras audiovisuais posteriormente. Escolhi a palavra “audiovisual” porque muitos clipes musicais pegaram dessa estética; me vêm à mente Florence + the Machine e Björk. Não só por ser um filme de terror musical, né?
A estética de terror folk é a famosa estética do terror à luz do dia, que Ari Aster usou como inspiração e rima visual no filme Midsommar. E eu acreditava ser algo autoral, porém eles seguem caminhos distintos, e esse meu comentário não estraga a experiência de ambas as obras. O que fica são paisagens ensolaradas em vez de escuridão gótica, música alegre em cenas perturbadoras, nudez e festividade associadas ao horror, e beleza rural escondendo violência sistêmica. O medo vem da normalidade social.
O Reino Unido dos anos 1970 atravessava crise econômica, enfraquecimento do cristianismo institucional, decadência do Império Britânico e crescimento de movimentos contraculturais ligados ao neopaganismo, ocultismo, sexualidade libertária e retorno ao folclore celta. O filme absorve diretamente esse contexto histórico, e esses movimentos aparecem como reação ao conservadorismo do pós-guerra, ao cristianismo institucional e à moral sexual rígida de uma sociedade disciplinadora, que era o Reino Unido.
O filme dialoga diretamente com o crescimento dos movimentos hippie, da Wicca e do ocultismo moderno de Aleister Crowley, com o famoso “Faça o que tu queres”. Praticamente toda a ilha funciona sob essa lógica neopagã: celebração da colheita, erotismo ritualístico, sacrifício ligado à fertilidade, festas sazonais, máscaras de animais e danças ritualísticas.
O simbolismo da repetição cíclica, como “o ciclo da pena, da cama e da morte”, reforça a ideia de um determinismo histórico, da qual eu compreendo, porém não sei descrever em palavras. Foi algo que achei interessante e quis mencionar esse trecho. Se alguém quiser debater isso, com certeza irei ler, kkkkkk.
Aos meus olhos, acredito que se trata de um dos filmes mais importantes da história do horror, porque ele reorganiza a função ideológica do terror moderno. Em vez de tratar o “mal” como algo externo, monstruoso ou sobrenatural, o filme desloca o horror para a própria estrutura social, para a tradição institucionalizada e para o choque entre sistemas de crença incompatíveis.
E o filme segue por essa narrativa misturando paranoia com músicas folclóricas, que também funcionam como forma de narrativa dentro do filme. Digo isso porque as músicas servem como declarações das intenções dos personagens.
Na cena da dança da Willow, que é um dos pontos-chave do filme, não existe apenas sedução; existe um ataque simbólico à estrutura ideológica de Howie. Ele resiste sexualmente, mas essa resistência ajuda a consolidar sua função sacrificial. O filme sugere que a pureza moral do protagonista o transforma na vítima ideal.
Ele também faz uma crítica muito ambígua, porque mostra como uma comunidade aparentemente libertária também pode se tornar autoritária e manipuladora.
Nas pesquisas de músicas que fiz para conhecer mais dessa estética dos anos 1970, encontrei Pentangle, que é o puro suco do folk setentista, com canções que lembram músicas rurais antigas e muita mitologia celta.
No fim, Howie morre acreditando que sua fé triunfará moralmente. Summerisle acredita que o sacrifício salvará a colheita. E a gente percebe gradualmente que não está assistindo a uma investigação, mas a uma cerimônia.