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Existem filmes que assustam pelo que mostram e outros que incomodam pelo quanto parecem possíveis. “O Aniversário” pertence à segunda categoria: um thriller político que transforma a ascensão de um movimento autoritário na destruição gradual de uma família. Sua força está em mostrar que uma ditadura não começa necessariamente com tanques nas ruas, mas pode avançar enquanto as pessoas discutem, relativizam, se calam e acreditam que nada daquilo chegará perto demais. E Dylan O’Brien mostra, mais uma vez, como consegue transitar por personagens muito diferentes.
Tudo começa durante a comemoração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul Taylor, uma família privilegiada que parece ter construído uma vida estável apesar das diferenças entre seus integrantes. A reunião ganha outra dimensão quando Josh, filho do casal, apresenta Liz, sua namorada e antiga aluna de Ellen. Liz está prestes a lançar, com a colaboração de Josh, um livro que propõe uma transformação radical da sociedade, defendendo um novo modelo de organização política. O que inicialmente parece apenas uma divergência ideológica começa a contaminar as relações familiares, especialmente quando as ideias do livro deixam de ser uma provocação intelectual e passam a alimentar um movimento nacional chamado “A Mudança”. Ao longo de cinco anos, acompanhamos a transformação do país e a deterioração dos vínculos entre pais, filhos e irmãos. A cada novo aniversário, o ambiente familiar está diferente, as conversas se tornam mais perigosas e aquilo que antes parecia impensável começa a ser tratado como normal. A política deixa de ser uma discussão distante e passa a determinar quem pode falar, quem deve se calar e quem será sacrificado em nome de uma suposta ordem.
A crítica social mais interessante está na maneira como o autoritarismo se apresenta como solução. Em vez de surgir anunciando abertamente a repressão, “A Mudança” se apoia em promessas de união, estabilidade e renovação, enquanto enfraquece gradualmente o espaço para o contraditório. O filme mostra como o medo, o ressentimento e a polarização podem ser explorados para legitimar medidas cada vez mais extremas. A ditadura, nessa perspectiva, não é apenas um governo que concentra poder, mas um sistema que redefine o aceitável, transforma opositores em ameaças e faz a população participar da própria submissão. O mais perturbador é perceber que a normalização da violência pode acontecer antes mesmo de todos reconhecerem o perigo.
Josh é uma das figuras mais interessantes dessa transformação. Dylan O’Brien interpreta um homem cuja relação com a família, suas frustrações e sua necessidade de pertencimento ajudam a tornar compreensível sua aproximação com um movimento que acaba contribuindo para a destruição daquele mesmo núcleo familiar. O personagem ganha força justamente pela possibilidade de alguém que não começa necessariamente como um monstro terminar envolvido em algo muito maior do que suas justificativas iniciais. Diane Lane sustenta o contraponto intelectual e moral como Ellen, enquanto Phoebe Dynevor constrói em Liz uma presença capaz de alterar o equilíbrio de toda a família. O filme, porém, poderia aprofundar melhor algumas motivações e dar mais espaço às transformações individuais.
Um dos aspectos mais interessantes é como o filme manipula nossos olhares e percepções. As reuniões familiares, os diálogos aparentemente banais e as mudanças sutis de comportamento fazem com que o espectador perceba o avanço do autoritarismo quase junto com os personagens. O desconforto nasce quando uma fala que antes parecia apenas provocativa ganha outro significado alguns anos depois. A estrutura temporal transforma os aniversários em marcos de deterioração: a mesma família, reunida em ocasiões semelhantes, revela uma realidade progressivamente irreconhecível. A direção de Jan Komasa aposta nessa tensão doméstica, embora a quantidade de temas e personagens impeça algumas ideias de receberem toda a profundidade que mereciam.
O maior potencial de “O Aniversário” está na capacidade de provocar uma reflexão que ultrapassa a ficção. O filme poderia ser ainda mais poderoso se acompanhasse com maior profundidade a construção ideológica do movimento e os mecanismos institucionais que permitem sua consolidação. Em certos momentos, parece querer condensar em pouco tempo um processo político e social complexo. Ainda assim, sua escolha de observar a transformação de um país através de uma família é eficiente: torna íntimo aquilo que normalmente enxergamos apenas como notícia, estatística ou disputa partidária.
“O Aniversário” é um thriller político que permanece na cabeça porque entende que a erosão da liberdade não depende apenas de quem deseja controlar a sociedade, mas também de quem aceita pequenas concessões para preservar o próprio conforto. Sua crítica à ditadura, à manipulação ideológica e à passividade social ganha força quando percebemos que os personagens não precisam reconhecer imediatamente o abismo para continuar caminhando em sua direção. É uma obra ambiciosa, inquietante e com potencial para render discussões muito além dos créditos. E Dylan O’Brien reforça a impressão de que sua carreira reúne escolhas bem mais variadas do que muitos imaginam.
Nota: 9,2
Horas de Desespero é um título que combina com o tipo de suspense em que a tensão depende menos da ação em si e mais das decisões tomadas sob pressão. Vou considerar o filme de 2015, dirigido por John Erick Dowdle e estrelado por Owen Wilson, sequestro e sobrevivência em um país estrangeiro.
O que torna Horas de Desespero eficiente é a maneira como transforma uma situação cotidiana em um pesadelo sem saída. Jack Dwyer não é um agente treinado nem um herói de ação convencional: é um homem comum que precisa reagir quando tudo ao seu redor desmorona. O filme encontra sua força justamente nesse contraste entre a fragilidade humana e a brutalidade de um cenário fora de controle.
Jack Dwyer (Owen Wilson) aceita um emprego no Sudeste Asiático e viaja com a esposa, Annie (Lake Bell), e as duas filhas pequenas, Lucy e Beeze, para começar uma nova etapa da vida. A chegada, porém, acontece em um momento terrível: um golpe de Estado explode em violência, as comunicações são interrompidas e estrangeiros passam a ser perseguidos e executados. Quando Jack sai do hotel para procurar um jornal, acaba no meio de um confronto armado e percebe que a situação é muito mais perigosa do que imaginava. Ao tentar voltar para a família, encontra uma cidade tomada pelo caos, sem saber em quem confiar ou para onde fugir. O hotel, que deveria ser um refúgio, transforma-se em uma armadilha, e cada deslocamento exige decisões rápidas, muitas vezes sem uma alternativa segura. Com as filhas vulneráveis e a esposa igualmente aterrorizada, Jack precisa improvisar para mantê-las vivas. Nesse cenário, surge Hammond (Pierce Brosnan), um britânico experiente que pode ajudá-los a escapar. Mas conhecer o terreno não significa ter controle sobre uma situação em que qualquer erro pode ser fatal.
O roteiro aposta em uma escalada constante de perigo, com perseguições, esconderijos improvisados e decisões desesperadas. A tensão funciona porque a família não dispõe de recursos extraordinários: sobreviver depende de instinto, coragem e sorte. Em contrapartida, algumas situações parecem exageradas e certas coincidências facilitam a progressão da fuga. Além disso, o contexto político é apresentado de forma simplificada, servindo mais como motor para a ação do que como conflito aprofundado.
Owen Wilson surpreende ao abandonar seu registro habitual e transmitir o medo de um pai acuado, sem transformar Jack em um herói invulnerável. Lake Bell contribui para a sensação de desespero, enquanto Pierce Brosnan traz presença e mistério a Hammond. As crianças reforçam a vulnerabilidade da família, embora o filme às vezes as utilize principalmente para aumentar o sofrimento e a urgência das cenas.
Horas de Desespero não reinventa o suspense de sobrevivência, mas entende o que precisa fazer para manter o espectador tenso: retirar gradualmente qualquer sensação de segurança. Mesmo com simplificações no roteiro e pouca profundidade política, entrega uma experiência intensa, brutal e angustiante, sustentada pelo medo de que a próxima decisão seja a última.
Nota: 6,7
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Era Uma Vez em… Hollywood reúne um elenco impressionante e uma ambientação capaz de transportar o espectador para a indústria cinematográfica do fim dos anos 1960. Quentin Tarantino recria uma Hollywood em transformação, dividida entre o glamour de uma época que está desaparecendo e o surgimento de uma nova geração. O problema é que, por trás de tanta personalidade e beleza visual, existe uma narrativa que pode parecer muito menos interessante do que promete.
A história acompanha Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator de televisão que começa a perceber que sua carreira está perdendo força. Conhecido por interpretar personagens durões, ele enfrenta a possibilidade de se tornar irrelevante em uma indústria que já não parece ter espaço para ele. Ao seu lado está Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê, amigo e companheiro de trabalho, que leva uma vida mais despreocupada, embora também carregue um passado misterioso. Enquanto Rick tenta encontrar novas oportunidades e recuperar sua confiança, Cliff circula por uma Los Angeles repleta de figuras excêntricas, encontros inesperados e situações que nem sempre parecem conduzir a algum lugar. Paralelamente, Sharon Tate (Margot Robbie), atriz em ascensão e esposa do cineasta Roman Polanski, representa o lado mais promissor e luminoso daquele universo. As trajetórias dos personagens se desenvolvem em meio a gravações, festas, conversas casuais e passeios pela cidade, enquanto o filme insinua a aproximação de acontecimentos históricos sombrios. Entretanto, em vez de avançar por uma trama tradicional, a narrativa prefere acompanhar fragmentos da rotina desses personagens, construindo lentamente um retrato de época cuja conexão dramática só se torna mais evidente perto do desfecho.
O principal problema é justamente a sensação de que muita coisa acontece sem que a história realmente avance. As cenas podem ser interessantes isoladamente, mas nem sempre acrescentam profundidade aos conflitos ou desenvolvem uma trama envolvente. Tarantino privilegia a atmosfera, as referências e os pequenos momentos, sacrificando parte da progressão narrativa. Para quem não se conecta com esse estilo, o filme pode parecer longo e disperso.
DiCaprio entrega uma atuação expressiva, tornando Rick um personagem inseguro, contraditório e humanamente vulnerável. Brad Pitt tem carisma e presença, muitas vezes dominando a tela com naturalidade. Margot Robbie, por sua vez, recebe menos desenvolvimento do que sua importância sugere. O elenco é um dos grandes atrativos, mas a qualidade das interpretações não resolve a falta de profundidade de alguns personagens.
No fim, Era Uma Vez em… Hollywood parece mais interessado em fazer o espectador passear por uma época do que em contar uma história com progressão consistente. A reconstituição histórica, o carisma do elenco e o desfecho marcante têm valor, mas não apagam a irregularidade do caminho até lá. É um filme cheio de talento e personalidade que, para quem procura conflitos bem construídos e uma narrativa que avance, pode deixar a impressão de que havia muito mais potencial do que resultado.
Nota: 6,5