Ah, sim: a grande mensagem do filme é "tenha um emprego CLT". Uma das maiores bobagens que eu já assisti numa tela: o mesmo arco narrativo de centenas de outros filmes estadunidenses - do sonhador indomável a alguém que deve assumir suas responsabilidades "naturais" -, só que com câmera frenética e ator do momento.
Uma ideia excelente que esbarra em um texto engessado, e em atuações que quase sempre ressaltam esse caráter. Rodrigo Santoro é abaixo da crítica, parece estar numa propaganda de escola de inglês ainda. É por aqui, sim, mas não é isso.
Não acho Também Somos Irmãos conservador, de forma alguma. Acho inclusive surpreendentemente ousado não só no conteúdo, mas na abordagem dada à questão do racismo: os limites do filme são os limites do entendimento social do impacto de falas e gestos racistas naquele momento histórico.
Inclusive, o final da obra é surpreendentemente acertado, pois aponta justamente à quebra de qualquer expectativa de conciliação que conseguiria acabar com o embate racial: a postura da irmã justamente nega o título do filme, mostrando que não: não se trata de pessoas que provêm do mesmo solo. Não há aqui o endosso à meritocracia, tampouco ao mito da democracia racial: há lições profundas e uma complexidade de personagens que, até mesmo hoje, não se acha tão facilmente.
Observo esta complexidade sobretudo no personagem de Grande Otelo que, sendo um antípoda moral de seu irmão - inclusive tendo discussões duríssimas com ele -, passa a perceber a importância da situação pela qual seu irmão passa, e intervém a seu favor utilizando-se dos métodos que conhece. O diretor não se posiciona a favor de um ou de outro personagem, mas mostra duas formas particulares de lidar com processos sociais amplos. Podemos contestar se essas formas são efetivas (e não, pois não articulam um discurso coletivo, mas é 1949), mas manifestam particularidades humanas, individualidades. O discurso aqui não julga e não avalia. Como hoje, inclusive, estamos acostumados, no pobre maniqueísmo de dezenas de narrativas.
Não perca seu tempo, eu te garanto que em 3h30 você consegue fazer coisas muito mais produtivas do que atravessar um deserto de ideias como esse. A primeira metade é razoável, parecendo que algo vai se delinear em direção a uma relação de analogia entre obra e pessoa; a segunda, no entanto, é sem cabimento nenhum, com uma condução totalmente frouxa dos personagens, um final abrupto e sem sentido, abandonando qualquer interesse maior em discussões sérias. O epílogo termina de enterrar o filme, colocando-o em uma narrativa triunfalista, que é a única coisa que os EUA têm a oferecer formalmente (ideologicamente, portanto). Sem cabimento.
Para mim, o pior de tudo é que o Brutalismo, que afinal dá título à obra, não se transforma de nenhuma maneira em nada além de mera curiosidade sobre a vida de um personagem - de novo, bem à moda americana. Não vira um símbolo de sua interioridade, não vira estrutura formal (nem narrativa nem de direção) para além dos subtítulos e créditos que apenas o estilizam. Laszlo poderia ser um arquiteto de absolutamente qualquer estilo, o filme seria feito da mesma maneira - e isso me parece um absoluto fracasso de concepção.
PS: Impressionante a necessidade de se colocar um intervalo em um filme de duração moderada como esse. Diz muito sobre o solo de onde provém.
Esse filme aponta para um futuro do cinema, não só brasileiro. Quantos anos levamos para conseguir simplesmente contar histórias, sem partir de um esquema moral prévio e projetá-lo nos comportamentos dos personagens - dispostos a serem o tempo todo avaliados, como no comentário abaixo, ou metaforizados. No cinema dessa geração de Minas Gerais vemos pessoas fazendo coisas, sendo contraditórias, se arrependendo, conversando de forma constrangedora ou interessada, não buscando o tempo todo um sentido profundo para experiência humana: vivendo. Em termos desta hora, podemos dizer que isso é de fato um acerto decolonial: conceber um tipo de existência sem uma alma de fundo, à espreita, pensar em palavras surjam das bocas que as falem e não de uma razão abstrata ou de uma esquema moralizante. É assim que eu vivo, e acredito que também você.
Por isso, enfim, a sensação que eu tenho sempre que termino (quase) qualquer obra da Filmes de Plástico é que, finalmente, estamos a falar de cinema brasileiro não só em conteúdo, mas também em forma.
Filmaço, e uma decorrência natural da obra de Miguel Gomes: não se fazem apenas narrativas, mas histórias que comentam a si mesmas e à genealogia do cinema. E o mais fantástico é que o diretor consegue fazer isso sem cair em uma espécie de comentário sarcástico e distanciado de seus objetos (à la Tarantino), mas embebido de afetividade, sobretudo no viés documental, e de críticas com alvos bem definidos - por exemplo, a um colonialismo e à história de suas imagens de naturalização e glamour, o que é também a grande parte da história do cinema na primeira metade do séc.XX.
Não entender isso é desconhecer o projeto estético aqui em jogo, em filmes como Redemption ou Tabu. Ou simplesmente agir com má vontade mesmo.
Acho bem reducionista dizer que este filme se baseia na "beleza do cotidiano", porque isso significaria aceitar as formas de violência impostas por aqueles que dizem o que é o normal. Quando nosso personagem é forçado a fazer dois turnos de serviço, por exemplo - numa escolha muito acertada do roteiro -, toda a suposta beleza inerente ao cotidiano simplesmente desaparece: para ter acesso à sensibilidade, é necessário tempo e disposição - não só vontade -, algo que, sem dúvidas, os correlatos brasileiros de Hirayama têm bem menos do que ele.
Não é uma celebração do cotidiano: estamos na celebração de um personagem, em suas condições próprias de vida e maneiras particulares de lidar com elas. Não é uma experiência universal, como a (boa) arte não pretende ser.
Pior filme da obra de Petrus, de longe e infelizmente. Nem as atuações se salvam, nem o roteiro faz um mínimo esforço para ser crível - que dizer de todos os personagens com acento típico do sudeste em pleno interior do Ceará?
Sim, um filme fortemente abalado por suas circunstâncias de produção, mas ainda assim, entrega bem menos do que prometia.
Acho muito interessante como Burlan aqui utiliza a repórter - isto é, aquela que tem uma ética da imagem e da linguagem da violência totalmente oposta à de um filme que não fetichiza a atrocidade - como aliada em busca de uma punição ao criminoso. Acho isso duplamente sintomático: primeiro, porque mostra que a dinâmica da punição em nossa sociedade não cabe na lógica de construção estética e sensível, mas extrapola a ela, torna-se um elemento estranho e um fim para o qual a arte é incompatível; depois, porque talvez aponte para uma conciliação possível entre linguagem cinematográfica e mídia de massas, o que o cartaz ao final da obra parece sinalizar. Isto é um argumento forte, mas realmente não sei em que medida justo: se o filme em si já funciona como uma vingança, a punição poderá ser, um dia, simplesmente justiça? Isto é, em qual momento vingança e justiça conseguem desembolar esse nó e tornar-se coisas distintas com ajuda da linguagem?
Os pagãos são sempre os outros: mais um filme que faz exatamente aquilo que tenta criticar. Quase todo o gênero "terror" existe para defender valores pretensamente universais, contra manifestações desviantes, aberrações - no filme inclusive personificadas - e absurdos. Nenhuma novidade aqui.
Compasso de Espera tem seus 50 de lançamento e consegue discutir com mais profundidade, atualidade e interesse estético todas as questões que esse arremedo de filme tenta trazer. Baita desserviço.
Marty Supreme
3.6 360 Assista AgoraAh, sim: a grande mensagem do filme é "tenha um emprego CLT". Uma das maiores bobagens que eu já assisti numa tela: o mesmo arco narrativo de centenas de outros filmes estadunidenses - do sonhador indomável a alguém que deve assumir suas responsabilidades "naturais" -, só que com câmera frenética e ator do momento.
Marty Supreme
3.6 360 Assista AgoraNão sei como alguém acha normal um filme com um ritmo desses, eu quase tive uma SÍNCOPE no cinema.
O Último Azul
3.7 218 Assista AgoraUma ideia excelente que esbarra em um texto engessado, e em atuações que quase sempre ressaltam esse caráter. Rodrigo Santoro é abaixo da crítica, parece estar numa propaganda de escola de inglês ainda. É por aqui, sim, mas não é isso.
Um é Pouco, Dois é Bom
4.0 3Pode assistir sem medo à novíssima e espetacular restauração, filme engraçadíssimo e extremamente importante na nossa genealogia.
Dormir de Olhos Abertos
3.1 11Ótimo filme, muito sensível e respeitoso com seus personagens.
Também Somos Irmãos
3.8 15Não acho Também Somos Irmãos conservador, de forma alguma. Acho inclusive surpreendentemente ousado não só no conteúdo, mas na abordagem dada à questão do racismo: os limites do filme são os limites do entendimento social do impacto de falas e gestos racistas naquele momento histórico.
Inclusive, o final da obra é surpreendentemente acertado, pois aponta justamente à quebra de qualquer expectativa de conciliação que conseguiria acabar com o embate racial: a postura da irmã justamente nega o título do filme, mostrando que não: não se trata de pessoas que provêm do mesmo solo. Não há aqui o endosso à meritocracia, tampouco ao mito da democracia racial: há lições profundas e uma complexidade de personagens que, até mesmo hoje, não se acha tão facilmente.
Observo esta complexidade sobretudo no personagem de Grande Otelo que, sendo um antípoda moral de seu irmão - inclusive tendo discussões duríssimas com ele -, passa a perceber a importância da situação pela qual seu irmão passa, e intervém a seu favor utilizando-se dos métodos que conhece. O diretor não se posiciona a favor de um ou de outro personagem, mas mostra duas formas particulares de lidar com processos sociais amplos. Podemos contestar se essas formas são efetivas (e não, pois não articulam um discurso coletivo, mas é 1949), mas manifestam particularidades humanas, individualidades. O discurso aqui não julga e não avalia. Como hoje, inclusive, estamos acostumados, no pobre maniqueísmo de dezenas de narrativas.
O Rancho Da Goiabada, Ou Pois É Meu Camarada, Fácil, …
3.8 3O grande filme nacional que vi este ano, sem nenhuma sombra de dúvidas. Toda coragem seja sempre louvada.
O Brutalista
3.6 308 Assista AgoraNão perca seu tempo, eu te garanto que em 3h30 você consegue fazer coisas muito mais produtivas do que atravessar um deserto de ideias como esse. A primeira metade é razoável, parecendo que algo vai se delinear em direção a uma relação de analogia entre obra e pessoa; a segunda, no entanto, é sem cabimento nenhum, com uma condução totalmente frouxa dos personagens, um final abrupto e sem sentido, abandonando qualquer interesse maior em discussões sérias. O epílogo termina de enterrar o filme, colocando-o em uma narrativa triunfalista, que é a única coisa que os EUA têm a oferecer formalmente (ideologicamente, portanto). Sem cabimento.
Para mim, o pior de tudo é que o Brutalismo, que afinal dá título à obra, não se transforma de nenhuma maneira em nada além de mera curiosidade sobre a vida de um personagem - de novo, bem à moda americana. Não vira um símbolo de sua interioridade, não vira estrutura formal (nem narrativa nem de direção) para além dos subtítulos e créditos que apenas o estilizam. Laszlo poderia ser um arquiteto de absolutamente qualquer estilo, o filme seria feito da mesma maneira - e isso me parece um absoluto fracasso de concepção.
PS: Impressionante a necessidade de se colocar um intervalo em um filme de duração moderada como esse. Diz muito sobre o solo de onde provém.
O Dia Que Te Conheci
3.5 48Esse filme aponta para um futuro do cinema, não só brasileiro. Quantos anos levamos para conseguir simplesmente contar histórias, sem partir de um esquema moral prévio e projetá-lo nos comportamentos dos personagens - dispostos a serem o tempo todo avaliados, como no comentário abaixo, ou metaforizados. No cinema dessa geração de Minas Gerais vemos pessoas fazendo coisas, sendo contraditórias, se arrependendo, conversando de forma constrangedora ou interessada, não buscando o tempo todo um sentido profundo para experiência humana: vivendo. Em termos desta hora, podemos dizer que isso é de fato um acerto decolonial: conceber um tipo de existência sem uma alma de fundo, à espreita, pensar em palavras surjam das bocas que as falem e não de uma razão abstrata ou de uma esquema moralizante. É assim que eu vivo, e acredito que também você.
Por isso, enfim, a sensação que eu tenho sempre que termino (quase) qualquer obra da Filmes de Plástico é que, finalmente, estamos a falar de cinema brasileiro não só em conteúdo, mas também em forma.
Grand Tour
3.4 7Filmaço, e uma decorrência natural da obra de Miguel Gomes: não se fazem apenas narrativas, mas histórias que comentam a si mesmas e à genealogia do cinema. E o mais fantástico é que o diretor consegue fazer isso sem cair em uma espécie de comentário sarcástico e distanciado de seus objetos (à la Tarantino), mas embebido de afetividade, sobretudo no viés documental, e de críticas com alvos bem definidos - por exemplo, a um colonialismo e à história de suas imagens de naturalização e glamour, o que é também a grande parte da história do cinema na primeira metade do séc.XX.
Não entender isso é desconhecer o projeto estético aqui em jogo, em filmes como Redemption ou Tabu. Ou simplesmente agir com má vontade mesmo.
As Linhas Da Minha Mão
2.8 3Não entendi qual interesse esse filme conseguiria trazer, salvo trilha e direção (que infelizmente não pairam no vazio).
Baile Perfumado
3.6 80 Assista AgoraQuase todos os defeitos apontados aqui são qualidades do filme.
Saudosa Maloca
3.3 46Linda homenagem aos Trapalhões.
Orgia ou O Homem que Deu Cria
3.7 13Talvez o melhor final de filme que eu conheça.
Dias Perfeitos
4.2 604 Assista AgoraAcho bem reducionista dizer que este filme se baseia na "beleza do cotidiano", porque isso significaria aceitar as formas de violência impostas por aqueles que dizem o que é o normal. Quando nosso personagem é forçado a fazer dois turnos de serviço, por exemplo - numa escolha muito acertada do roteiro -, toda a suposta beleza inerente ao cotidiano simplesmente desaparece: para ter acesso à sensibilidade, é necessário tempo e disposição - não só vontade -, algo que, sem dúvidas, os correlatos brasileiros de Hirayama têm bem menos do que ele.
Não é uma celebração do cotidiano: estamos na celebração de um personagem, em suas condições próprias de vida e maneiras particulares de lidar com elas. Não é uma experiência universal, como a (boa) arte não pretende ser.
República da Traição
3.4 3Que desperdício de Zózimo Bulbul.
A Dupla Vida de Véronique
4.1 290 Assista AgoraO pior filme de Kieslowski, sendo apenas muito bom (aí já se vê).
Sul, Amor e Liberdade
4.0 3 Assista AgoraÉ mole entrar aqui é ler que os musicais de Piazzolla são desinteressantes e cansativos? Que século, meu deus.
Mais Pesado é o Céu
3.5 15Pior filme da obra de Petrus, de longe e infelizmente. Nem as atuações se salvam, nem o roteiro faz um mínimo esforço para ser crível - que dizer de todos os personagens com acento típico do sudeste em pleno interior do Ceará?
Sim, um filme fortemente abalado por suas circunstâncias de produção, mas ainda assim, entrega bem menos do que prometia.
Elegia de um Crime
3.7 8Dentre muita coisa a dizer, vou enfatizar uma:
Acho muito interessante como Burlan aqui utiliza a repórter - isto é, aquela que tem uma ética da imagem e da linguagem da violência totalmente oposta à de um filme que não fetichiza a atrocidade - como aliada em busca de uma punição ao criminoso. Acho isso duplamente sintomático: primeiro, porque mostra que a dinâmica da punição em nossa sociedade não cabe na lógica de construção estética e sensível, mas extrapola a ela, torna-se um elemento estranho e um fim para o qual a arte é incompatível; depois, porque talvez aponte para uma conciliação possível entre linguagem cinematográfica e mídia de massas, o que o cartaz ao final da obra parece sinalizar. Isto é um argumento forte, mas realmente não sei em que medida justo: se o filme em si já funciona como uma vingança, a punição poderá ser, um dia, simplesmente justiça? Isto é, em qual momento vingança e justiça conseguem desembolar esse nó e tornar-se coisas distintas com ajuda da linguagem?
Cabaret Mineiro
3.0 35Esse filme não é um meme: esse filme é MUITO bom. Abra os olhos e veja.
Midsommar: O Mal Não Espera a Noite
3.6 2,9K Assista AgoraOs pagãos são sempre os outros: mais um filme que faz exatamente aquilo que tenta criticar. Quase todo o gênero "terror" existe para defender valores pretensamente universais, contra manifestações desviantes, aberrações - no filme inclusive personificadas - e absurdos. Nenhuma novidade aqui.
Retrato de uma Jovem em Chamas
4.4 963 Assista AgoraLiteralidade é o único pecado artístico indefensável.
Medida Provisória
3.5 447Compasso de Espera tem seus 50 de lançamento e consegue discutir com mais profundidade, atualidade e interesse estético todas as questões que esse arremedo de filme tenta trazer. Baita desserviço.