Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Encerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
Em seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Prosseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
Alguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
São poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Depois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.
Em "The Rip", acompanhamos o mais novo trabalho da dupla Ben Affleck/Matt Damon, que aqui estão como produtores e atores principais. Em uma mistura de suspense e ação que prende bem a atenção do espectador, a obra entrega um bom entretenimento para quem está zapeando o catálogo da Netflix e só quer algo para passar o tempo. No entanto, para aqueles que desejam uma história com maior profundidade e que fuja de clichês/fórmulas prontas talvez não seja a melhor escolha.
O diretor Joe Carnahan é competente, inclusive com o uso dos tons escuros, em criar o clima de suspense, até emulando um ambiente "noir" semelhante aos filmes dos anos 90, e na produção das cenas de ação. Por outro lado, os roteiristas não tem a mesma felicidade, ao montarem uma trama com potencial e alguns pontos positivos, porém com diversas escolhas previsíveis, desenvolvimento quase nulo das personagens e superficialidade na narrativa, que não ultrapassa aquele mesmo modelo de película já conhecido e visto inúmeras vezes e que derrapa bastante no final ao tentar colocar um plot twist atrás do outro.
Se não bastasse isso, ainda há a incessante necessidade, reconhecida pelos próprios produtores, de ter de, a cada dez minutos, gerar alguma cena impactante/reviravolta ou explicar ao público o que está acontecendo para evitar que aquele espectador que fica olhando pro celular durante o filme perca o fio da meada, o que empobrece a qualidade da obra. Em resumo, é um passatempo válido, mas, se é pra assistir algo nesse estilo, recomendo qualquer clássico dos anos 80 ou 90, pois, além de serem melhores, também possuem mais originalidade e carisma.
A primeira coisa a se dizer sobre "Cruzada" de Ridley Scott é que o diretor domina a arte de dirigir um épico histórico. Com belíssimos aspectos visuais e uma competente direção, o cineasta nos insere, mesmo que com algumas toleráveis imprecisões, ao contexto que antecedeu às Terceiras Cruzadas, em um momento de disputas, sobretudo, pela sagrada cidade de Jerusalém. No meio disso, temos uma história que mescla acontecimentos reais e fictícios e aborda temas complexos, o que é mais possível ser verificado na versão estendida, a qual recomendo a todos assistirem.
Em segundo lugar, quem pensar que o filme traz uma abordagem pró-cristã ou pró-islâmica estará equivocado. Na realidade, Scott não toma lados aqui, mas estabelece uma interessante abordagem ao explorar as contradições inerentes, para cristãos e muçulmanos, de uma guerra santa — um conflito mortal em nome de um deus todo-amoroso. Diante dessa carnificina, é o protagonista Balian, ironicamente um dos poucos sem qualquer religião, que toma as atitudes mais condizentes a aquilo que a religião, em tese, prega.
Por outro lado, este não é um filme contra a religião em si, sobretudo por mostrar não apenas como, durante um século, Jerusalém teve paz entre cristãos e muçulmanos, mas também a cordialidade e o respeito cultivados entre os reis Balduíno e Saladino. Tal qual é deixado bem claro pelo diretor, a paz somente é quebrada quando grupos radicais, dos dois lados, clamam pelo conflito. Portanto, a película não é anti-religião, e sim anti-extremismo - ou, contra aqueles que usam de motivos religiosos para mascarar interesses obscuros.
Sendo assim, Scott retrata personagens mais preocupados com poder, ascensão social e redenção pessoal do que com questões teológicas em si. Por exemplo, Balian, um ferreiro de uma aldeia na França, descobre que é filho ilegítimo de Sir Godfrey, que é um cavaleiro que retorna do Oriente Médio e descreve Jerusalém não em termos de uma guerra santa, mas em termos das oportunidades que oferece a um jovem ambicioso que quer recomeçar na vida. Além disso, existem as distintas facções políticas que rondam o rei de Jerusalém e tentam influenciá-lo não em nome de uma causa maior, e sim por interesses próprios.
Em meio aos complexos temas abordados e reflexões instigadas, o filme é, inegavelmente, muito bem produzido em seus aspectos técnicos. Direção, figurino e cinematografia são alguns dos elementos a serem aqui realçados, em especial as eletrizantes e épicas cenas de batalha, que, acompanhadas de grandes visual e trilha sonora, prendem a atenção do espectador do início ao fim - dentre tantas, a sequência que mostra o cerco de Jerusalém é espetacular.
Também merece destaque a atuação do elenco. Sobretudo, gostaria de fazer uma menção honrosa a Edward Norton, interpretando o rei Balduíno. O ator prova que não existem papéis pequenos, apenas atores pequenos, ao entregar, em um papel bem mais limitado, uma atuação muito mais memorável do que Bloom, que apresenta uma performance somente mediana e destoante dos outros atores. Como o um homem seriamente afetado pela lepra, Norton está coberto por uma máscara, então tudo o que ele tem para transmitir personalidade e emoção são seus olhos e sua voz. Muitos atores poderiam ter se sentido tentados a exagerar sob aquela máscara para compensar o rosto oculto, mas Norton não se deixa intimidar por isso e entrega o que é necessário.
Um dos melhores trabalhos de Scott, mas que, reafirmo, deve ser apreciado na versão estendida, bem superior à teatral. Recomendado.
Baseado no livro "Munich", de Robert Harris, o filme "No Limite da Guerra", tal qual a obra que o inspira, retrata uma história fictícia de dois diplomatas, um inglês e outro alemão. Como fundo para essa ficção, estão os acontecimentos reais que envolveram a Conferência de Munique, em 1938, e a tensão de uma Europa pré-guerra. Diferente de outras produções do gênero, esta película traz uma interessante abordagem focada no trabalho feito, nos bastidores, por funcionários dos governos, em seus mais variados setores.
Quanto aos aspectos técnicos, não dá para negar que o filme é muito bem produzido, desde o figurino até a ambientação da época, sob condução de uma competente direção. Os problemas residem no roteiro, que apresenta dificuldade em conciliar os dois arcos principais, isto é, os fatos reais e a ficção. Enquanto boa parte dos eventos verdadeiros é retratada com qualidade, a parte fictícia, convenhamos, não é tão interessante assim e, muitas vezes, é pouco útil à trama central envolvendo as negociações entre ingleses e alemães.
Além disso, o diretor, por algum motivo, opta por fazer um considerável revisionismo histórico na forma como Chamberlain é representado. O retrato, interpretado por Jeremy Irons, de um homem doce e sensível, que queria a paz a qualquer custo por conta dos amigos que perdeu na guerra, simplesmente não condiz com quem ele foi de fato. Na realidade, o político era, segundo diversas fontes, um senhor arrogante guiado pela ingênua noção de que poderia enganar Hitler. E se isso não bastasse, diferente do que o filme aponta, o fracassado acordo de Munique não "deu tempo" para a Inglaterra se preparar, e sim foi vital para fortalecer os alemães a um início avassalador na guerra.
A história de Tonya Harding - e de todo o escândalo envolvendo o "incidente" no qual esteve envolvida - é uma das mais bizarras e tragicômicas já vistas no esporte mundial, a um ponto em que alguns fatos reais retratados no filme são tão absurdos que até parecem ter sido inventados. Nesta obra, o diretor Craig Gillespie opta por contar esse estranho caso de uma forma semelhante a um "mockumentary", quebrando a quarta parede e com cada personagem contando a sua versão dos acontecimentos sob o seu próprio ponto de vista.
Essa maneira de apresentar a história é não somente interessante, mas também coerente com o caso aqui retratado, que, até os dias de hoje, possui inúmeras dúvidas e diferentes versões por parte dos indivíduos envolvidos. Sendo assim, tal qual a imprensa e as autoridades jamais conseguiram obter uma resposta definitiva quanto ao incidente abordado e o tamanho da participação de Tonya nele, o filme tampouco o consegue e nem faz questão disso, deixando bem claro, desde o começo, que alguns fatos mostrados não necessariamente ocorreram da forma descrita.
Um outro acerto da película reside na escolha de trazer uma abordagem que mistura, acompanhada de uma boa trilha sonora, drama e comédia. Afinal, apesar do ocorrido na vida da protagonista ser trágico, não dá para virar as costa para o ridículo presente nas ações dos personagens, que tomam uma decisão errada atrás da outra. O elenco, inclusive, realiza um grande trabalho, tanto na parte dramática quanto na cômica, com especial destaque para Margot Robbie, que aqui, provavelmente, encontra-se em sua grande performance da carreira.
A produção, no entanto, peca em não mostrar mais do que ocorre na vida dos envolvidos após o incidente, em especial nas investigações policiais e batalhas legais que o sucederam, sendo esse trecho bastante "apressado" - por exemplo, a protagonista, em uma cena, está do lado do ex-marido e, na outra, o entrega às autoridades. Da mesma maneira, o filme, que desde o princípio deixa claro que a história possui diversas imprecisões e versões, nitidamente realiza uma interpretação dos eventos mais favorável à Tonya, retratando-a como vítima.
Não me levem a mal, Tonya é, sem dúvida, vítima de uma infância pobre e cruel, de uma mãe abusiva, de um marido agressor e de pessoas incrivelmente estúpidas que a cercaram. Por outro lado, é também verdade que ela continuou o relacionamento com Jeff mesmo tendo ciência do seu comportamento e, além disso, apesar de não haver certeza até onde ia o conhecimento dela acerca do incidente, é fato que sabia que iriam fazer alguma coisa - recentes entrevistas e trechos da investigação mostram que a patinadora sabia mais do que admitia.
Logo, "Eu, Tonya" é uma boa "dramédia", acerca de como uma pessoa extremamente talentosa e esforçada pode ter a vida arruinada por pais irresponsáveis, más influências e, claro, por escolhas erradas. Um bom passatempo para quem curte filmes do gênero.
Tal qual é descrito na sinopse, "Otesánek" é um filme inspirado no conto de fadas tcheco criado por Karel Jaromír Erben, no século 19, que conta a história de um tronco de madeira vivo e constantemente faminto. Nesta produção, o folclore é adaptado a tempos modernos, com a "criatura" servindo como o "filho" para um casal infértil. Do ponto de vista técnico, a película tem os seus problemas, porém é, com certeza, uma das experiências cinematográficas mais interessantes e bizarras que já tive e um passatempo válido para quem quiser fugir da mesmice.
O roteiro, pelo menos durante o período em que Otik nasce e vai começando a aterrorizar a todos, prende bem a atenção do espectador, mas também tem os seus momentos previsíveis e peca em dividir o protagonismo da história entre o casal e a garotinha. De início, somos cativados pelo grau de bizarrice do filme, mas a produção falha em dar consistência a essa trama e em ir além do mero exótico.
De uma maneira geral, a película, entre erros e acertos, reúne elementos de fantasia, comédia e terror e, ao longo da história, vai se revezando entre eles, bem como alterna-se entre o real e a imaginação. No entanto, mesmo eu que normalmente aprecio obras nesse estilo, tenho que reconhecer que faltou mais competência, tanto na direção quanto no roteiro, em explorar a interessante proposta que aqui é apresentada.
Em "Dia de Treinamento", acompanhamos o primeiro dia do novato Jake Hoyt, que deveria ser somente uma formal introdução, à rotina do departamento de Narcóticos, na polícia de Los Angeles. Mais especificamente, à rotina do veterano agente Alonzo Harris, que utiliza métodos ilegais e moralmente questionáveis, para dizer o mínimo. Ao longo do filme, somos também inseridos ao submundo do crime, no qual traficantes e policiais corruptos pouco são diferentes, em uma trama bem elaborada, eletrizante e tensa que prende a atenção do espectador do início ao fim.
Esta é daquelas obras em que os personagens são tão reais, interessantes e bem construídos, que a história acaba fluindo naturalmente, com eles nos levando, a partir de suas ações, a esse mundo de crimes, corrupção e mentiras. Sendo assim, o roteiro é carregado pelos personagens nele inseridos e não o contrário. Por exemplo, Alonzo, é uma figura carismática e com uma personalidade forte e que, também em boa parte graças à grande atuação de Denzel Washington, imediatamente rouba a cena e se torna o centro das atenções na trama.
À princípio, podemos ser levados a crer que Alonzo é daqueles policiais que utilizam de métodos ilegais e "sujam as mãos" com o verdadeiro propósito de prender grandes traficantes e até podem possuir, no fundo, boas intenções, em um cenário no qual os fins justificariam os meios. Inclusive, o próprio novato, Hoyt, inicialmente também se deixa levar pela lábia do veterano e, embora continue não concordando, prossegue com seu treinamento, crendo que a recompensa de trabalhar nessa divisão e retirar as drogas das ruas seria suficiente para aturar toda a sujeira que presenciava.
Durante o filme, porém, aos poucos vão ficando cada vez mais claras as reais intenções de Alonzo, que pouco se importa em combater o crime ou as drogas, mas visa somente o benefício próprio. Sendo um verdadeiro manipulador e um sujeito sem escrúpulos, não mede esforços para conseguir o que quer e vê as pessoas ao seu redor como meros instrumentos para atingir os seus objetivos.
O diretor é bastante competente ao realizar um ótimo contraste entre os dois policiais, nas diferentes formas de enxergar o mundo e nas moralidades completamente opostas. Igualmente, também repassa, ao espectador, a mesma sensação de tensão e choque sentidas por Hoyt, que, eventualmente, tem os seus princípios em rota de colisão com aquilo que Alonzo vê como normal e precisa escolher qual caminho, o que desencadeia uma grande cena final.
Um filmaço e um dos clássicos do gênero policial. Recomendado.
Sem dúvida, "Um Contratempo" é daqueles filmes em que o roteiro é o grande diferencial, envolvendo o espectador e prendendo a sua atenção até o último instante, em uma trama repleta de reviravoltas. Ao longo da história, somos apresentados a diferentes versões e possibilidades quanto a forma com a qual os acontecimentos ocorreram. À medida em que acompanhamos o desenrolar das distintas reconstituições, também conhecemos mais acerca dos personagens envolvidos e do que seriam ou não capazes de fazer para ter o que querem.
O grande mérito deste filme, em meio a tantos, é mostrar as várias versões da história de maneira em que, no momento em que são apresentadas, cada qual é perfeitamente válida e lógica até o momento em que aparece algum elemento que a anule. Dessa maneira, somos confundidos, propositalmente, pelo roteirista, a acreditar em diferentes possibilidades até que, no último instante, a verdade vem à tona, como um grande quebra cabeça em que as peças enfim se encaixam.
Para quem curte suspenses investigativos/policiais ou para quem simplesmente aprecia um roteiro inteligente e que instiga o público a pensar, esta é uma boa pedida e mais um belo exemplar do cinema espanhol.
Se tivéssemos que fazer uma lista dos melhores filmes de ação dos anos 90, seria impossível deixar "A Rocha", um dos clássicos desse período, de fora dessa discussão. Contendo ação, humor e drama na medida certa e uma história envolvente, esta produção consegue, também graças a boa direção de Michael Bay e um grande elenco, trazer um entretenimento, ao espectador, que cumpre bem aquilo que se propõe a fazer, de maneira, ao mesmo tempo, simples e marcante.
Em primeiro lugar, acho importante começar logo tecendo elogios ao tão criticado, na maioria das vezes com razão, Michael Bay. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, o cineasta mostra que é capaz de ir além do seu "festival" de explosões e ação psicodélicas e contar, no tom certo e de forma compreensível ao público, uma trama envolvente e bem escrita. Nesta película, Bay utiliza de suas habilidades para proporcionar, ao espectador, uma narrativa eletrizante, intensa e que prende a atenção de quem assiste, porém que também sabe quando frear um pouco o ritmo, "respirar" e permitir o desenvolvimento das personagens e da história.
Aliás, as personagens desse filme correspondem, sem dúvida, a um ponto a se destacar. Sendo interpretados com competência pelos atores envolvidos, são não somente personagens interessantes, carismáticos e que possuem uma boa conexão entre si, mas que igualmente têm motivações coerentes por trás de suas ações. Por exemplo, a dupla Mason e Goodspeed, muito bem representados por Connery e Cage, possuem, em meio às suas, digamos, diferenças de estilo, uma grande "química".
Também gostei da motivação do personagem de Ed Harris, que foge dos clichês que costumam pairar sob antagonistas em filmes de ação, que normalmente querem roubar dinheiro ou "destruir o mundo". Por um lado, ele tinha uma causa justa para buscar compensação para as famílias dos soldados que foram deixados para morrer propositalmente na Guerra do Golfo. Por outro, ele manteve reféns e ameaçou lançar foguetes contra civis, mas mesmo isso acabou sendo uma artimanha porque ele nunca realmente os machucaria. Na cena de abertura, inclusive, o General e os fuzileiros navais não matam um único soldado na instalação de armas químicas. Boas intenções e bons princípios, porém com procedimentos horríveis.
É bem verdade que, como a maioria das obras desse gênero, também tem os seus furos de roteiro, situações um tanto "forçadas" e a necessidade de fazer uma piadinha em momentos de grande tensão, mas nada que atrapalhe ou estrague o entretenimento. No geral, um bom filme de ação e, com méritos, um clássico dos anos 90.
Em "Frankenstein", o diretor Guilhermo del Toro realiza uma adaptação bastante "livre", para dizer o mínimo, da famosa obra da escritora Mary Shelley. Devido à liberdade da qual faz uso e do seu estilo marcante de direção, o autor foge de repetições presentes em outras adaptações do emblemático livro e nos apresenta uma história com elevado potencial e uma interessante perspectiva. No entanto, del Toro falha em diversas escolhas e pouco explora o potencial da trama que ele mesmo construiu.
Primeiramente, destaco os pontos positivos, dentre os quais é difícil não mencionar os aspectos técnicos, como figurino/maquiagem, fotografia e direção, que sempre são algo a se elogiar nos filmes do cineasta mexicano. Somado a isso, temos a grata surpresa de Jacob Elordi, que aqui entrega uma boa atuação e, sob a carcaça de um monstro, consegue transmitir uma feição humana e melancólica, o que se encaixa, perfeitamente, naquilo que tanto del Toro quanto Shelley compartilham de entendimento acerca do personagem em questão.
Aliás, a decisão de dedicar uma parte considerável da película a uma história narrada pela própria "criatura" é ótima e representa uma novidade extremamente bem vinda aos filmes que adaptam o livro, mesmo com vários elementos do enredo original sendo alterados. As cenas que reúnem a criatura e o idoso, presentes nesse segmento, são de uma beleza que não pode passar despercebida.
O problema é que, em meio a elementos interessantes e momentos bonitos, o filme também empilha diversos pontos negativos que, no final das contas, pesam bastante. O roteiro, por sua vez, é onde eles estão mais presentes, com várias cenas que pouco agregam à história principal, como a infância de Viktor, e inúmeros elementos explorados de forma superficial, incoerente e até "apressada". Por exemplo, a relação entre os dois irmãos e o fugaz romance entre Viktor e Elizabeth, que surge e depois desaparece na mesma velocidade.
Além disso, existe, obviamente, também a estranha e incoerente postura de Viktor perante a criatura. À princípio, o cientista a rejeita por ela não demonstrar, em sua visão, inteligência, porém, quando ela enfim demonstra grande capacidade de ser inteligente, ele a rejeita mesmo assim e até com mais veemência. E, no final, o doutor repentinamente se arrepende de tudo que havia feito contra sua criação, mesmo que estivesse a perseguindo a poucas horas antes.
Outro ponto que me desagradou foi a oportunidade perdida por del Toro de, considerando que a sua adaptação já é bastante diferente da obra de Shelley, explorar o aspecto de fantasia da criatura e da história como um todo. Inclusive, pareceu-me estranho o diretor dedicar metade do filme tentando dar um "ar científico" à trama, com o engenhoso processo empreendido por Viktor em sua criação, enquanto, no segundo ato, vemos a criatura sobrevivendo a golpes que deveriam ser fatais e tendo o poder de regeneração, que, por sua vez, seriam impossíveis do ponto de vista da ciência. Pessoalmente, prefiro a história original e considero que as alterações feitas mais prejudicaram do que ajudaram, mas, se é pra mudar, que seja feito com coerência.
Colocando tudo na balança, é um filme mediano. Tem os seus bons momentos, mas um elevado potencial desperdiçado e diversas escolhas questionáveis.
Inspirado nos assassinatos, conduzidos pelo Mossad, de pessoas ligadas ao atentado nas Olimpíadas de 1972, o filme, na realidade, utiliza, como base, a obra "Vengeance", de George Jonas. Este, por sua vez, é um livro que traz uma versão fictícia - apesar de possuir diversas informações verdadeiras - das atividades conduzidas pelos israelenses na busca pelos terroristas em questão. Sendo assim, a película, produzida sob a sempre competente direção de Spielberg, não é uma representação extremamente fiel aos fatos, mas um bom drama de espionagem, mesmo com algumas ressalvas.
Em primeiro lugar, vale destacar que os nomes dos terroristas na mira do Mossad estão corretos, bem como a forma como boa parte dos assassinatos foram conduzidos. Aliás, a maneira com a qual Spieberg mostra o passo a passo de cada operação é um dos pontos mais interessantes do filme e um prato cheio para quem gosta de obras de espionagem. O diretor realiza um grande trabalho em ambientar - e inserir - o espectador nesse clima de mistério e sigilo que caracteriza o mundo dos espiões, no qual ninguém confia em ninguém e a tensão é constante.
Por outro lado, o filme, assim como o livro, também inventa muita coisa que não existiu, excessivamente dramatiza determinados eventos e minimiza diversos detalhes importantes, como o fato da operação do serviço secreto israelense ter incluído um número bem maior de pessoas. Um outro exemplo de imprecisão é a figura de Louis, que é de uma suposta agência secreta privada e corresponde a um elemento central na trama, mas que, na verdade, é meramente um personagem fictício.
No entanto, mesmo se ignorarmos as discrepâncias em relação aos fatos reais, é justo fazer a crítica de que o protagonista poderia ter sido melhor desenvolvido, sobretudo devido a mudança final de sua postura quanto à Israel e ao seu trabalho ter sido um tanto repentina. A impressão foi que Spielberg queria passar a mensagem de que "todos somos iguais" e "guerra é ruim", que é perfeitamente válida, mas o fez de maneira apressada.
Em linhas gerais, um bom drama de espionagem, mas que, sem dúvida, não pode ser tratado como um documentário e que, mesmo sob competente direção, falha quando tenta ser mais do que realmente é.
Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Sendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
De todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Para quem for assistir "Setembro 5" esperando um filme sobre o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, talvez se decepcione um pouco. No entanto, a explicação para isso reside no simples fato desta produção não buscar retratar os trágicos eventos daquele dia - aliás, praticamente não temos imagens do acontecimento em si - e sim a cobertura da imprensa, mais especificamente do canal ABC, do ocorrido.
Sendo assim, o foco não é nos reféns ou nos terroristas, mas nos jornalistas e em toda a equipe do canal em questão na transmissão, ao vivo, de algo que, na época, jamais havia sido mostrado, dessa maneira, na televisão. A película realiza um bom trabalho em mostrar, com realismo e uma direção sóbria, os esforços, desafios e dilemas enfrentados por um grupo de profissionais da imprensa que estavam diante de um fato sem precedentes na história televisiva e, entre erros e acertos, procuraram reportar os acontecimentos da melhor maneira possível.
Retratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Em sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Retratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.
13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi
3.5 322Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Três é Demais
3.8 281 Assista AgoraEncerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
A Vida Marinha com Steve Zissou
3.8 456 Assista AgoraEm seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Viagem a Darjeeling
3.8 451 Assista AgoraProsseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
O Fantástico Sr. Raposo
4.2 961 Assista AgoraAlguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
Tron: O Legado
3.2 1,8K Assista AgoraSão poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Os Excêntricos Tenenbaums
4.1 865 Assista AgoraDepois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.
Dinheiro Suspeito
3.4 140 Assista AgoraEm "The Rip", acompanhamos o mais novo trabalho da dupla Ben Affleck/Matt Damon, que aqui estão como produtores e atores principais. Em uma mistura de suspense e ação que prende bem a atenção do espectador, a obra entrega um bom entretenimento para quem está zapeando o catálogo da Netflix e só quer algo para passar o tempo. No entanto, para aqueles que desejam uma história com maior profundidade e que fuja de clichês/fórmulas prontas talvez não seja a melhor escolha.
O diretor Joe Carnahan é competente, inclusive com o uso dos tons escuros, em criar o clima de suspense, até emulando um ambiente "noir" semelhante aos filmes dos anos 90, e na produção das cenas de ação. Por outro lado, os roteiristas não tem a mesma felicidade, ao montarem uma trama com potencial e alguns pontos positivos, porém com diversas escolhas previsíveis, desenvolvimento quase nulo das personagens e superficialidade na narrativa, que não ultrapassa aquele mesmo modelo de película já conhecido e visto inúmeras vezes e que derrapa bastante no final ao tentar colocar um plot twist atrás do outro.
Se não bastasse isso, ainda há a incessante necessidade, reconhecida pelos próprios produtores, de ter de, a cada dez minutos, gerar alguma cena impactante/reviravolta ou explicar ao público o que está acontecendo para evitar que aquele espectador que fica olhando pro celular durante o filme perca o fio da meada, o que empobrece a qualidade da obra. Em resumo, é um passatempo válido, mas, se é pra assistir algo nesse estilo, recomendo qualquer clássico dos anos 80 ou 90, pois, além de serem melhores, também possuem mais originalidade e carisma.
Cruzada
3.4 654 Assista AgoraA primeira coisa a se dizer sobre "Cruzada" de Ridley Scott é que o diretor domina a arte de dirigir um épico histórico. Com belíssimos aspectos visuais e uma competente direção, o cineasta nos insere, mesmo que com algumas toleráveis imprecisões, ao contexto que antecedeu às Terceiras Cruzadas, em um momento de disputas, sobretudo, pela sagrada cidade de Jerusalém. No meio disso, temos uma história que mescla acontecimentos reais e fictícios e aborda temas complexos, o que é mais possível ser verificado na versão estendida, a qual recomendo a todos assistirem.
Em segundo lugar, quem pensar que o filme traz uma abordagem pró-cristã ou pró-islâmica estará equivocado. Na realidade, Scott não toma lados aqui, mas estabelece uma interessante abordagem ao explorar as contradições inerentes, para cristãos e muçulmanos, de uma guerra santa — um conflito mortal em nome de um deus todo-amoroso. Diante dessa carnificina, é o protagonista Balian, ironicamente um dos poucos sem qualquer religião, que toma as atitudes mais condizentes a aquilo que a religião, em tese, prega.
Por outro lado, este não é um filme contra a religião em si, sobretudo por mostrar não apenas como, durante um século, Jerusalém teve paz entre cristãos e muçulmanos, mas também a cordialidade e o respeito cultivados entre os reis Balduíno e Saladino. Tal qual é deixado bem claro pelo diretor, a paz somente é quebrada quando grupos radicais, dos dois lados, clamam pelo conflito. Portanto, a película não é anti-religião, e sim anti-extremismo - ou, contra aqueles que usam de motivos religiosos para mascarar interesses obscuros.
Sendo assim, Scott retrata personagens mais preocupados com poder, ascensão social e redenção pessoal do que com questões teológicas em si. Por exemplo, Balian, um ferreiro de uma aldeia na França, descobre que é filho ilegítimo de Sir Godfrey, que é um cavaleiro que retorna do Oriente Médio e descreve Jerusalém não em termos de uma guerra santa, mas em termos das oportunidades que oferece a um jovem ambicioso que quer recomeçar na vida. Além disso, existem as distintas facções políticas que rondam o rei de Jerusalém e tentam influenciá-lo não em nome de uma causa maior, e sim por interesses próprios.
Em meio aos complexos temas abordados e reflexões instigadas, o filme é, inegavelmente, muito bem produzido em seus aspectos técnicos. Direção, figurino e cinematografia são alguns dos elementos a serem aqui realçados, em especial as eletrizantes e épicas cenas de batalha, que, acompanhadas de grandes visual e trilha sonora, prendem a atenção do espectador do início ao fim - dentre tantas, a sequência que mostra o cerco de Jerusalém é espetacular.
Também merece destaque a atuação do elenco. Sobretudo, gostaria de fazer uma menção honrosa a Edward Norton, interpretando o rei Balduíno. O ator prova que não existem papéis pequenos, apenas atores pequenos, ao entregar, em um papel bem mais limitado, uma atuação muito mais memorável do que Bloom, que apresenta uma performance somente mediana e destoante dos outros atores. Como o um homem seriamente afetado pela lepra, Norton está coberto por uma máscara, então tudo o que ele tem para transmitir personalidade e emoção são seus olhos e sua voz. Muitos atores poderiam ter se sentido tentados a exagerar sob aquela máscara para compensar o rosto oculto, mas Norton não se deixa intimidar por isso e entrega o que é necessário.
Um dos melhores trabalhos de Scott, mas que, reafirmo, deve ser apreciado na versão estendida, bem superior à teatral. Recomendado.
Munique: No Limite da Guerra
3.5 63 Assista AgoraBaseado no livro "Munich", de Robert Harris, o filme "No Limite da Guerra", tal qual a obra que o inspira, retrata uma história fictícia de dois diplomatas, um inglês e outro alemão. Como fundo para essa ficção, estão os acontecimentos reais que envolveram a Conferência de Munique, em 1938, e a tensão de uma Europa pré-guerra. Diferente de outras produções do gênero, esta película traz uma interessante abordagem focada no trabalho feito, nos bastidores, por funcionários dos governos, em seus mais variados setores.
Quanto aos aspectos técnicos, não dá para negar que o filme é muito bem produzido, desde o figurino até a ambientação da época, sob condução de uma competente direção. Os problemas residem no roteiro, que apresenta dificuldade em conciliar os dois arcos principais, isto é, os fatos reais e a ficção. Enquanto boa parte dos eventos verdadeiros é retratada com qualidade, a parte fictícia, convenhamos, não é tão interessante assim e, muitas vezes, é pouco útil à trama central envolvendo as negociações entre ingleses e alemães.
Além disso, o diretor, por algum motivo, opta por fazer um considerável revisionismo histórico na forma como Chamberlain é representado. O retrato, interpretado por Jeremy Irons, de um homem doce e sensível, que queria a paz a qualquer custo por conta dos amigos que perdeu na guerra, simplesmente não condiz com quem ele foi de fato. Na realidade, o político era, segundo diversas fontes, um senhor arrogante guiado pela ingênua noção de que poderia enganar Hitler. E se isso não bastasse, diferente do que o filme aponta, o fracassado acordo de Munique não "deu tempo" para a Inglaterra se preparar, e sim foi vital para fortalecer os alemães a um início avassalador na guerra.
Eu, Tonya
4.1 1,4K Assista AgoraA história de Tonya Harding - e de todo o escândalo envolvendo o "incidente" no qual esteve envolvida - é uma das mais bizarras e tragicômicas já vistas no esporte mundial, a um ponto em que alguns fatos reais retratados no filme são tão absurdos que até parecem ter sido inventados. Nesta obra, o diretor Craig Gillespie opta por contar esse estranho caso de uma forma semelhante a um "mockumentary", quebrando a quarta parede e com cada personagem contando a sua versão dos acontecimentos sob o seu próprio ponto de vista.
Essa maneira de apresentar a história é não somente interessante, mas também coerente com o caso aqui retratado, que, até os dias de hoje, possui inúmeras dúvidas e diferentes versões por parte dos indivíduos envolvidos. Sendo assim, tal qual a imprensa e as autoridades jamais conseguiram obter uma resposta definitiva quanto ao incidente abordado e o tamanho da participação de Tonya nele, o filme tampouco o consegue e nem faz questão disso, deixando bem claro, desde o começo, que alguns fatos mostrados não necessariamente ocorreram da forma descrita.
Um outro acerto da película reside na escolha de trazer uma abordagem que mistura, acompanhada de uma boa trilha sonora, drama e comédia. Afinal, apesar do ocorrido na vida da protagonista ser trágico, não dá para virar as costa para o ridículo presente nas ações dos personagens, que tomam uma decisão errada atrás da outra. O elenco, inclusive, realiza um grande trabalho, tanto na parte dramática quanto na cômica, com especial destaque para Margot Robbie, que aqui, provavelmente, encontra-se em sua grande performance da carreira.
A produção, no entanto, peca em não mostrar mais do que ocorre na vida dos envolvidos após o incidente, em especial nas investigações policiais e batalhas legais que o sucederam, sendo esse trecho bastante "apressado" - por exemplo, a protagonista, em uma cena, está do lado do ex-marido e, na outra, o entrega às autoridades. Da mesma maneira, o filme, que desde o princípio deixa claro que a história possui diversas imprecisões e versões, nitidamente realiza uma interpretação dos eventos mais favorável à Tonya, retratando-a como vítima.
Não me levem a mal, Tonya é, sem dúvida, vítima de uma infância pobre e cruel, de uma mãe abusiva, de um marido agressor e de pessoas incrivelmente estúpidas que a cercaram. Por outro lado, é também verdade que ela continuou o relacionamento com Jeff mesmo tendo ciência do seu comportamento e, além disso, apesar de não haver certeza até onde ia o conhecimento dela acerca do incidente, é fato que sabia que iriam fazer alguma coisa - recentes entrevistas e trechos da investigação mostram que a patinadora sabia mais do que admitia.
Logo, "Eu, Tonya" é uma boa "dramédia", acerca de como uma pessoa extremamente talentosa e esforçada pode ter a vida arruinada por pais irresponsáveis, más influências e, claro, por escolhas erradas. Um bom passatempo para quem curte filmes do gênero.
Otesánek
3.9 106Tal qual é descrito na sinopse, "Otesánek" é um filme inspirado no conto de fadas tcheco criado por Karel Jaromír Erben, no século 19, que conta a história de um tronco de madeira vivo e constantemente faminto. Nesta produção, o folclore é adaptado a tempos modernos, com a "criatura" servindo como o "filho" para um casal infértil. Do ponto de vista técnico, a película tem os seus problemas, porém é, com certeza, uma das experiências cinematográficas mais interessantes e bizarras que já tive e um passatempo válido para quem quiser fugir da mesmice.
O roteiro, pelo menos durante o período em que Otik nasce e vai começando a aterrorizar a todos, prende bem a atenção do espectador, mas também tem os seus momentos previsíveis e peca em dividir o protagonismo da história entre o casal e a garotinha. De início, somos cativados pelo grau de bizarrice do filme, mas a produção falha em dar consistência a essa trama e em ir além do mero exótico.
De uma maneira geral, a película, entre erros e acertos, reúne elementos de fantasia, comédia e terror e, ao longo da história, vai se revezando entre eles, bem como alterna-se entre o real e a imaginação. No entanto, mesmo eu que normalmente aprecio obras nesse estilo, tenho que reconhecer que faltou mais competência, tanto na direção quanto no roteiro, em explorar a interessante proposta que aqui é apresentada.
Dia de Treinamento
3.9 763 Assista AgoraEm "Dia de Treinamento", acompanhamos o primeiro dia do novato Jake Hoyt, que deveria ser somente uma formal introdução, à rotina do departamento de Narcóticos, na polícia de Los Angeles. Mais especificamente, à rotina do veterano agente Alonzo Harris, que utiliza métodos ilegais e moralmente questionáveis, para dizer o mínimo. Ao longo do filme, somos também inseridos ao submundo do crime, no qual traficantes e policiais corruptos pouco são diferentes, em uma trama bem elaborada, eletrizante e tensa que prende a atenção do espectador do início ao fim.
Esta é daquelas obras em que os personagens são tão reais, interessantes e bem construídos, que a história acaba fluindo naturalmente, com eles nos levando, a partir de suas ações, a esse mundo de crimes, corrupção e mentiras. Sendo assim, o roteiro é carregado pelos personagens nele inseridos e não o contrário. Por exemplo, Alonzo, é uma figura carismática e com uma personalidade forte e que, também em boa parte graças à grande atuação de Denzel Washington, imediatamente rouba a cena e se torna o centro das atenções na trama.
À princípio, podemos ser levados a crer que Alonzo é daqueles policiais que utilizam de métodos ilegais e "sujam as mãos" com o verdadeiro propósito de prender grandes traficantes e até podem possuir, no fundo, boas intenções, em um cenário no qual os fins justificariam os meios. Inclusive, o próprio novato, Hoyt, inicialmente também se deixa levar pela lábia do veterano e, embora continue não concordando, prossegue com seu treinamento, crendo que a recompensa de trabalhar nessa divisão e retirar as drogas das ruas seria suficiente para aturar toda a sujeira que presenciava.
Durante o filme, porém, aos poucos vão ficando cada vez mais claras as reais intenções de Alonzo, que pouco se importa em combater o crime ou as drogas, mas visa somente o benefício próprio. Sendo um verdadeiro manipulador e um sujeito sem escrúpulos, não mede esforços para conseguir o que quer e vê as pessoas ao seu redor como meros instrumentos para atingir os seus objetivos.
O diretor é bastante competente ao realizar um ótimo contraste entre os dois policiais, nas diferentes formas de enxergar o mundo e nas moralidades completamente opostas. Igualmente, também repassa, ao espectador, a mesma sensação de tensão e choque sentidas por Hoyt, que, eventualmente, tem os seus princípios em rota de colisão com aquilo que Alonzo vê como normal e precisa escolher qual caminho, o que desencadeia uma grande cena final.
Um filmaço e um dos clássicos do gênero policial. Recomendado.
Um Contratempo
4.2 2,0KSem dúvida, "Um Contratempo" é daqueles filmes em que o roteiro é o grande diferencial, envolvendo o espectador e prendendo a sua atenção até o último instante, em uma trama repleta de reviravoltas. Ao longo da história, somos apresentados a diferentes versões e possibilidades quanto a forma com a qual os acontecimentos ocorreram. À medida em que acompanhamos o desenrolar das distintas reconstituições, também conhecemos mais acerca dos personagens envolvidos e do que seriam ou não capazes de fazer para ter o que querem.
O grande mérito deste filme, em meio a tantos, é mostrar as várias versões da história de maneira em que, no momento em que são apresentadas, cada qual é perfeitamente válida e lógica até o momento em que aparece algum elemento que a anule. Dessa maneira, somos confundidos, propositalmente, pelo roteirista, a acreditar em diferentes possibilidades até que, no último instante, a verdade vem à tona, como um grande quebra cabeça em que as peças enfim se encaixam.
Para quem curte suspenses investigativos/policiais ou para quem simplesmente aprecia um roteiro inteligente e que instiga o público a pensar, esta é uma boa pedida e mais um belo exemplar do cinema espanhol.
A Rocha
3.5 294 Assista AgoraSe tivéssemos que fazer uma lista dos melhores filmes de ação dos anos 90, seria impossível deixar "A Rocha", um dos clássicos desse período, de fora dessa discussão. Contendo ação, humor e drama na medida certa e uma história envolvente, esta produção consegue, também graças a boa direção de Michael Bay e um grande elenco, trazer um entretenimento, ao espectador, que cumpre bem aquilo que se propõe a fazer, de maneira, ao mesmo tempo, simples e marcante.
Em primeiro lugar, acho importante começar logo tecendo elogios ao tão criticado, na maioria das vezes com razão, Michael Bay. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, o cineasta mostra que é capaz de ir além do seu "festival" de explosões e ação psicodélicas e contar, no tom certo e de forma compreensível ao público, uma trama envolvente e bem escrita. Nesta película, Bay utiliza de suas habilidades para proporcionar, ao espectador, uma narrativa eletrizante, intensa e que prende a atenção de quem assiste, porém que também sabe quando frear um pouco o ritmo, "respirar" e permitir o desenvolvimento das personagens e da história.
Aliás, as personagens desse filme correspondem, sem dúvida, a um ponto a se destacar. Sendo interpretados com competência pelos atores envolvidos, são não somente personagens interessantes, carismáticos e que possuem uma boa conexão entre si, mas que igualmente têm motivações coerentes por trás de suas ações. Por exemplo, a dupla Mason e Goodspeed, muito bem representados por Connery e Cage, possuem, em meio às suas, digamos, diferenças de estilo, uma grande "química".
Também gostei da motivação do personagem de Ed Harris, que foge dos clichês que costumam pairar sob antagonistas em filmes de ação, que normalmente querem roubar dinheiro ou "destruir o mundo". Por um lado, ele tinha uma causa justa para buscar compensação para as famílias dos soldados que foram deixados para morrer propositalmente na Guerra do Golfo. Por outro, ele manteve reféns e ameaçou lançar foguetes contra civis, mas mesmo isso acabou sendo uma artimanha porque ele nunca realmente os machucaria. Na cena de abertura, inclusive, o General e os fuzileiros navais não matam um único soldado na instalação de armas químicas. Boas intenções e bons princípios, porém com procedimentos horríveis.
É bem verdade que, como a maioria das obras desse gênero, também tem os seus furos de roteiro, situações um tanto "forçadas" e a necessidade de fazer uma piadinha em momentos de grande tensão, mas nada que atrapalhe ou estrague o entretenimento. No geral, um bom filme de ação e, com méritos, um clássico dos anos 90.
Frankenstein
3.7 596 Assista AgoraEm "Frankenstein", o diretor Guilhermo del Toro realiza uma adaptação bastante "livre", para dizer o mínimo, da famosa obra da escritora Mary Shelley. Devido à liberdade da qual faz uso e do seu estilo marcante de direção, o autor foge de repetições presentes em outras adaptações do emblemático livro e nos apresenta uma história com elevado potencial e uma interessante perspectiva. No entanto, del Toro falha em diversas escolhas e pouco explora o potencial da trama que ele mesmo construiu.
Primeiramente, destaco os pontos positivos, dentre os quais é difícil não mencionar os aspectos técnicos, como figurino/maquiagem, fotografia e direção, que sempre são algo a se elogiar nos filmes do cineasta mexicano. Somado a isso, temos a grata surpresa de Jacob Elordi, que aqui entrega uma boa atuação e, sob a carcaça de um monstro, consegue transmitir uma feição humana e melancólica, o que se encaixa, perfeitamente, naquilo que tanto del Toro quanto Shelley compartilham de entendimento acerca do personagem em questão.
Aliás, a decisão de dedicar uma parte considerável da película a uma história narrada pela própria "criatura" é ótima e representa uma novidade extremamente bem vinda aos filmes que adaptam o livro, mesmo com vários elementos do enredo original sendo alterados. As cenas que reúnem a criatura e o idoso, presentes nesse segmento, são de uma beleza que não pode passar despercebida.
O problema é que, em meio a elementos interessantes e momentos bonitos, o filme também empilha diversos pontos negativos que, no final das contas, pesam bastante. O roteiro, por sua vez, é onde eles estão mais presentes, com várias cenas que pouco agregam à história principal, como a infância de Viktor, e inúmeros elementos explorados de forma superficial, incoerente e até "apressada". Por exemplo, a relação entre os dois irmãos e o fugaz romance entre Viktor e Elizabeth, que surge e depois desaparece na mesma velocidade.
Além disso, existe, obviamente, também a estranha e incoerente postura de Viktor perante a criatura. À princípio, o cientista a rejeita por ela não demonstrar, em sua visão, inteligência, porém, quando ela enfim demonstra grande capacidade de ser inteligente, ele a rejeita mesmo assim e até com mais veemência. E, no final, o doutor repentinamente se arrepende de tudo que havia feito contra sua criação, mesmo que estivesse a perseguindo a poucas horas antes.
Outro ponto que me desagradou foi a oportunidade perdida por del Toro de, considerando que a sua adaptação já é bastante diferente da obra de Shelley, explorar o aspecto de fantasia da criatura e da história como um todo. Inclusive, pareceu-me estranho o diretor dedicar metade do filme tentando dar um "ar científico" à trama, com o engenhoso processo empreendido por Viktor em sua criação, enquanto, no segundo ato, vemos a criatura sobrevivendo a golpes que deveriam ser fatais e tendo o poder de regeneração, que, por sua vez, seriam impossíveis do ponto de vista da ciência. Pessoalmente, prefiro a história original e considero que as alterações feitas mais prejudicaram do que ajudaram, mas, se é pra mudar, que seja feito com coerência.
Colocando tudo na balança, é um filme mediano. Tem os seus bons momentos, mas um elevado potencial desperdiçado e diversas escolhas questionáveis.
Munique
3.7 270 Assista AgoraInspirado nos assassinatos, conduzidos pelo Mossad, de pessoas ligadas ao atentado nas Olimpíadas de 1972, o filme, na realidade, utiliza, como base, a obra "Vengeance", de George Jonas. Este, por sua vez, é um livro que traz uma versão fictícia - apesar de possuir diversas informações verdadeiras - das atividades conduzidas pelos israelenses na busca pelos terroristas em questão. Sendo assim, a película, produzida sob a sempre competente direção de Spielberg, não é uma representação extremamente fiel aos fatos, mas um bom drama de espionagem, mesmo com algumas ressalvas.
Em primeiro lugar, vale destacar que os nomes dos terroristas na mira do Mossad estão corretos, bem como a forma como boa parte dos assassinatos foram conduzidos. Aliás, a maneira com a qual Spieberg mostra o passo a passo de cada operação é um dos pontos mais interessantes do filme e um prato cheio para quem gosta de obras de espionagem. O diretor realiza um grande trabalho em ambientar - e inserir - o espectador nesse clima de mistério e sigilo que caracteriza o mundo dos espiões, no qual ninguém confia em ninguém e a tensão é constante.
Por outro lado, o filme, assim como o livro, também inventa muita coisa que não existiu, excessivamente dramatiza determinados eventos e minimiza diversos detalhes importantes, como o fato da operação do serviço secreto israelense ter incluído um número bem maior de pessoas. Um outro exemplo de imprecisão é a figura de Louis, que é de uma suposta agência secreta privada e corresponde a um elemento central na trama, mas que, na verdade, é meramente um personagem fictício.
No entanto, mesmo se ignorarmos as discrepâncias em relação aos fatos reais, é justo fazer a crítica de que o protagonista poderia ter sido melhor desenvolvido, sobretudo devido a mudança final de sua postura quanto à Israel e ao seu trabalho ter sido um tanto repentina. A impressão foi que Spielberg queria passar a mensagem de que "todos somos iguais" e "guerra é ruim", que é perfeitamente válida, mas o fez de maneira apressada.
Em linhas gerais, um bom drama de espionagem, mas que, sem dúvida, não pode ser tratado como um documentário e que, mesmo sob competente direção, falha quando tenta ser mais do que realmente é.
Vinland Saga (2ª Temporada)
4.3 48Em sua segunda temporada, "Vinland Saga" inicia, verdadeiramente, a história de Thorffin, que, enfim, assume o real protagonismo da trama. Adotando um tom diferente, o seriado pode desagradar aqueles que gostariam de ver mais ação, e novamente, em diversos momentos, adota um ritmo lento que exige paciência do público. Porém, assim como na primeira temporada, a série cresce bastante no decorrer dos episódios e entrega um produto final muito bom, desta vez aprofundando o desenvolvimento do protagonista e até elevando o nível outrora atingido.
De início, somos apresentados a Thorffin, de fato, somente no segundo episódio, com o personagem, em um estado visualmente perceptível, ainda abalado pelos eventos ocorridos anteriormente. Após a perda de seu pai, ele transformou o desejo por vingança contra Askeladd no único motor de sua vida e em uma verdadeira obsessão. No entanto, com a morte do pirata pelas mãos de um outro homem, a sua vingança jamais seria completa e o desejo por ela, dentro de seu coração, seria substituído pelo mais completo vazio. Deprimido e agora na condição de escravo, ele encontra-se incapaz de sentir qualquer emoção ou de ter alguma motivação. Sendo assim, aquele que antes era um guerreiro persistente e repleto de energia, não possuía mais sequer a vontade em viver e resumia-se a um homem vazio e assombrado pelo passado.
Esse cenário, todavia, lentamente começa a mudar com a chegada de Einar, um fazendeiro que se tornou escravo após a invasão de seu vilarejo. Diferente de Thorffin, que já havia perdido qualquer esperança, o novo integrante da história ainda cultivava, de maneira latente, o sonho da liberdade e de um futuro melhor. Tamanho é o "fogo", dentro de Einar, por reconquistar uma vida livre, que, junto a sua bondade e amizade, irradiou no protagonista, servindo como o pontapé inicial para um despertar que parecia impossível.
Sendo assim, Thorffin, aos poucos, passa a vislumbrar a possibilidade de um recomeço, mas com a noção de que tal processo somente poderá acontecer se acompanhado por uma mudança em seu espírito e na conquista de um estado de paz interior. Enquanto, na temporada prévia, nos acostumamos a vê-lo em constantes duelos e batalhas físicas, aqui, na primeira metade da história, acompanhamos uma luta interna do protagonista, que vive um conflito psicológico e espiritual.
Diante disso, o seriado realiza um bom trabalho em dar o tempo necessário, mesmo que tendo que adotar um ritmo mais lento, à transformação sofrida pelo personagem principal. Afinal, levando em consideração a dor por ele vivenciada, não faria sentido que deixasse isso para trás de forma rápida e fácil. Tendo que enfrentar todos os seus "fantasmas" e traumas do passado, Thorffin passa por um processo dolorido, difícil e tortuoso até que, finalmente, não apenas conseguisse superar a sua tragédia pessoal, mas também encontrasse um novo sentido a sua vida, que seria agora dedicada a salvar outras pessoas em condição igual a sua.
É fundamental pontuar que "Vinland Saga" não busca vangloriar a guerra, mas, na realidade, mostrar como ela pode ser cruel, brutal e destrutiva para a grande maioria das pessoas que a vivenciam. Por trás da glória dos guerreiros vikings e da mitologia criada ao seu redor, existe um rastro de vilarejos incendiados, mulheres estupradas e homens mortos ou gravemente feridos, isto é, um rastro de vida arruinadas e condenadas à morte ou à escravidão. Quanto a isso, basta relembrar que Thorffin, quando criança, sonhava em ser um soldado, porém ele, agora já tendo participado de várias batalhas e matado incontáveis pessoais, não sentia qualquer orgulho de suas ações, restando apenas pesadelos e arrependimentos.
Inclusive, esse talvez seja o ponto de grande discordância entre os espectadores da série. Aqueles maiores apreciadores das cenas de ação e das batalhas poderão achar essa primeira metade da temporada "chata" ou monótona, no entanto é importante ressaltar que estes episódios são os mais importantes para a compreensão da história e daquilo que ela se propõe a apresentar. É um processo lento, mas essa lentidão é o que dá a noção do seu peso, bem como do tamanho dos traumas carregados pelo protagonista.
Da mesma maneira, é a crueldade do mundo mostrada no seriado que torna a escolha de Thorffin por fazer o bem tão especial, pois ele, como um habilidoso guerreiro, poderia simplesmente continuar matando e tendo sucesso nesse trabalho, mas rejeita tudo isso e opta por um caminho diferente, em que a violência será somente o último recurso. O roteiro, novamente muito bem escrito, é competente em fazer uso desses contrastes e das diferenças entre as personagens, aliado aos ótimos aspectos visuais e sonoros, para dar a dimensão daquilo que é mostrado na trama.
Paralelamente, também temos a continuidade do arco de Canuto, um dos personagens mais interessantes, que aqui torna-se o rei de um vasto e crescente império, abrangendo a Dinamarca e a Inglaterra. O jovem monarca, uma figura extremamente complexa, persiste em seus planos de estabelecer um "paraíso na terra", no entanto, à medida em que torna-se evidente que tal utopia dependerá de mais territórios conquistados, mais guerras travadas e, por consequência, de mais destruição, ele se vê na inevitável reflexão acerca dos fins justificarem os meios ou não.
Mesmo com objetivos "nobres", Canuto vai praticando métodos que vão o assemelhando cada vez mais ao pai, o que gera um conflito interno, com a "cabeça imaginária" do rei Sweyn sendo o ótimo artifício utilizado para representar isso. Canuto prossegue com as conquistas de terra, porém proíbe a pilhagem. Planeja confiscar fazendas, mas também procura evitar conflitos armados desnecessários. É impiedoso contra quem precisa matar, mas misericordioso contra inocentes. Em outras palavras, torna-se mais cruel e frio, mas ainda se mantém agarrado a princípios, visando não sofrer da mesma corrupção de seu pai.
Além disso, é também fascinante analisar as semelhanças e diferenças entre os objetivos de Thorffin e Canuto, com ambos buscando salvar pessoas, obter paz e construir utopias de prosperidade, porém com meios completamente distintos e que, eventualmente, entram em rota de colisão em uma eletrizante segunda metade de temporada. O primeiro busca estabelecer um refúgio para aqueles desamparados na Terra, como escravos e refugiados, que fogem da destruição da guerra. O segundo busca construir um paraíso para aqueles proibidos de entrar no céu, como os guerreiros vikings, cuja salvação divina é inalcançável devido aos seus terríveis pecados.
Em linhas gerais, a segunda temporada de "Vinland Saga" eleva o já bom nível mostrado anteriormente e traz um dos melhores desenvolvimentos de personagem apresentados em um anime, com o arco do protagonista Thorffin se aprofundando de maneira excelente. Se isso não bastasse, também propõe ótimas reflexões sobre redenção e recomeços e acerca dos males da guerra, bem como traz diversos momentos de leveza e humor, algo pouco presente na primeira temporada, que ajudam a suavizar o cruel mundo em que a história se passa. Recomendado.
Vinland Saga (1ª Temporada)
4.3 69 Assista AgoraSendo situado durante a Era Viking, a série retrata os conflitos entre os nórdicos e os ingleses, e a posterior expansão desse povo em terras britânicas. Além dos fatos históricos representados, a animação também aborda diversas questões filosóficas, existenciais e, inclusive, religiosas, em um roteiro bem elaborado. No entanto, sem dúvida, "Vinland Saga" é o tipo de anime que "não é para qualquer um", pois possui um tom sombrio e um ritmo, em determinados momentos, um tanto lento, exigindo paciência do espectador, que, nos episódios finais, é mais do que recompensado.
À princípio, vale ressaltar que esta primeira temporada deve ser vista como um prólogo, isto é, como uma espécie de história anterior à trama que, verdadeiramente, irá corresponder a principal e que será mostrada nos capítulos seguintes. Sendo assim, o protagonista, Thorffin, com a exceção dos episódios iniciais, acaba assumindo, na maioria das ocasiões, uma posição até secundária em meio a acontecimentos muito maiores do que o seu arco particular. Prova disso é como, em muitos episódios, ele mal possui falas e pouco aparece - e, quando o faz, geralmente encontra-se duelando ou gritando.
Nesse sentido, quem ocupa a posição de destaque, de fato, é Askeladd, que, não à toa, também é o personagem mais interessante e fascinante de toda a temporada. Calculista, frio e misterioso, o pirata sempre tem um plano em mente e deixa claro ao seu grupo de fiéis seguidores que possui controle até das situações mais complicadas, porém sempre toma cuidado para não ter as suas intenções reveladas, bem como o seu secreto passado. Diferente de outros nórdicos, ele não vê prazer na guerra, na luta ou na matança, mas apenas faz uso de tais artifícios quando realmente precisa. Por outro lado, se necessário, é capaz de exterminar um vilarejo inteiro para atingir os seus objetivos, demonstrando absoluta crueldade.
Estando sempre vários passos à frente de seus adversários, ele, apesar de ser muito forte, não possui a força física como a sua principal qualidade, mas a inteligência, a paciência e uma incrível capacidade de traçar estratégias e prever as ações dos outros. Em outras palavras, equivale ao exato oposto de Thorffin, que é, devido a sua juventude, teimosia e desejo de vingança, extremamente impaciente e emotivo, o que prejudica as suas habilidades de combate e o leva a tomar decisões inconsequentes e previsíveis.
No entanto, quando nos é mostrado o trágico passado de Askeladd, fica evidente como esses dois personagens, que não poderiam parecer mais diferentes, possuem origens tão semelhantes. Sendo assim, é impressionante como o desejo de vingança de Thorffin o acaba unindo, de maneira firme, ao homem que matou o seu pai, que, ironicamente, acaba servindo como uma segunda figura paterna a ele, o ensinando até mais do que Thors, que teve pouco tempo para isso. A sua sede em se vingar é o que faz aquela doce criança que viu o pai ser assassinado continuar viva e, ao mesmo tempo, o que completamente "mata" aquele jovem garoto e coloca, no lugar, um feroz assassino que possui a vingança como o seu único objetivo. É a sua chama e o seu veneno.
Enquanto isso, temos uma grande disputa política pelo trono da Dinamarca, travada entre os filhos do rei, Canute e Harald, e as facções que os apoiam e buscam poder, em meio a longa guerra entre nórdicos e ingleses. Esta parte também é uma das mais interessantes, pois, se o arco envolvendo os protagonistas é fictício, aqui, por outro lado, estamos diante de eventos que verdadeiramente aconteceram - ou, pelo menos, em maior parte. Assim, acompanhamos o jogo de xadrez pela coroa e como os personagens da saga são encaixados na trama, preenchendo partes da história cujos detalhes até hoje são incertos, como, por exemplo, a morte do monarca.
Aliás, Canute é também uma das figuras mais complexas desta saga, estando apenas atrás de Askeladd. Sendo inicialmente apresentado como um príncipe frágil e despreparado, ele, após passar por eventos traumáticos durante a guerra, rapidamente se torna um líder forte, corajoso e capaz de juntar seguidores, elevando a sua estatura na luta pelo trono. Ao encarar os horrores e crueldades de um mundo que não conhecia, tem sua fé abalada e percebe que não adianta se esconder dos problemas, sendo necessário lutar para corrigí-los em um meio de homens que travam guerras e derramam sangue sem um sentido maior por trás. O seu objetivo será lutar para trazer uma paz longa ao seu povo e garantir um paraíso na terra, mesmo que tenha que sujar as mãos para tal, ao invés de seguir o que seu pai vem fazendo, que é travar batalhas intermináveis.
O roteiro, muito bem elaborado, realiza um excelente papel em unir o arco de Canute com os que haviam sido previamente mostrados, detalhando, com competência, as motivações e origens de cada um dos personagens, não para justificar as suas ações, mas para explicar por que eles são quem realmente são e deixando o julgamento ao espectador. O único problema é o ritmo do seriado, que, sobretudo durante a metade, realmente torna a trama bastante arrastada e, às vezes, até um tanto repetitiva. A reta final da temporada, no entanto, compensa, trazendo um encerramento eletrizante e surpreendente, com todas as peças se encaixando e a conclusão do prólogo da saga de Thorffin, e de tudo o que o moldou, sendo alcançada.
Avatar: A Lenda de Aang (3ª Temporada)
4.7 326 Assista AgoraDe todas as temporadas, esta é, sem dúvida, a que coloca o seriado em um outro patamar dentre tantas produções do gênero. Em seu capítulo final, "Avatar" reúne todos os ingredientes que já haviam se destacado antes, com humor, ação, romance e drama na medida certa. No entanto, aqui presenciamos a história indo além, com o aprofundamento da trama, que vai se tornando até mais complexa do que aquilo que se esperaria de uma obra ao público infantil, o excelente desenvolvimento das personagens e uma conclusão à altura da qualidade da série.
No "Livro do Fogo", é possível acompanhar Aang tendo que apressar o encerramento do seu treinamento, à medida em que o momento do seu confronto com o Ozai se aproxima. Ainda não tendo dominado, com perfeição, todos os elementos e triste devido a sua derrota no "season finale" passado, o protagonista deve, custe o que custar, encarar todos os seus medos, inseguranças e aflições de modo a salvar o mundo. O peso de ser o Avatar, com toda a grande responsabilidade que isso carrega, vai o afetando cada vez mais.
Em paralelo, temos a continuação de um dos arcos mais interessantes e complexos do seriado, que é o do príncipe Zuko. Após finalmente ser aceito de volta a sua terra natal e de ter "reconquistado" a honra perante o seu pai, ele logo percebe que as coisas não se tornam tão boas quanto gostaria. O seu retorno ao reino não o traz felicidade ou cura os seus problemas interiores, com ele prosseguindo insatisfeito e com raiva.
Dessa maneira, Zuko, enfim, percebe que o seu tio estava certo o tempo todo. A sua raiva não era contra o avatar, ou mesmo contra o seu pai, mas contra ele mesmo, pois não conseguia encontrar um rumo na vida. O seu destino não era aquele que o impuseram - no caso, a captura do Avatar - e sim um que ainda teria que descobrir por conta própria, e que seria exatamente o oposto daquilo que originalmente tanto procurava. A jornada do dobrador de fogo em busca de sua paz interior viria após muitos fracassos, sofrimento e arrependimento, mas seria um processo necessário e, ao final, recompensador, marcando uma grande e bela trajetória de redenção e perseverança.
Aliás, os caminhos percorridos por Aang e Zuko, dois personagens com tantas diferenças e que iniciaram essa saga em lados tão opostos, apresentam inúmeras semelhanças. Tendo que carregar, nas costas, grandes cobranças e responsabilidades, apesar de serem extremamente jovens, ambos tem de lutar bastante para alcançarem os seus objetivos e definirem quem são, colocando-se, ao final, em uma posição na qual, mesmo escutando conselhos e sabedorias alheias, decidem o seu destino e suas ações por conta própria. No caso de Aang, o protagonista encara o temido líder do Fogo de forma a respeitar as suas convicções e princípios, porém cumprindo a sua missão de encerrar a guerra, em uma cena surpreendente e impressionante.
Embora a temporada, de uma forma geral, seja bem mais consistente e densa que as anteriores, que vale destacar que já haviam sido boas, são os seis episódios finais que, sem dúvida, alçam esta série ao panteão das grandes obras de animação, com uma forte combinação de efeitos visuais, trilha sonora e um enredo bem elaborado e que conclui todos os arcos com maestria. Seu encerramento entrega tudo aquilo que os fãs desejavam sem ter que forçar a barra, mas sim com naturalidade. O único problema de "Avatar" é que os episódios são muito curtos e as temporadas são poucas, pois, com certeza, ficamos com uma sensação de "quero mais" após assistir o último episódio.
Recomendado para todas as idades.
Setembro 5
3.4 91 Assista AgoraPara quem for assistir "Setembro 5" esperando um filme sobre o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, talvez se decepcione um pouco. No entanto, a explicação para isso reside no simples fato desta produção não buscar retratar os trágicos eventos daquele dia - aliás, praticamente não temos imagens do acontecimento em si - e sim a cobertura da imprensa, mais especificamente do canal ABC, do ocorrido.
Sendo assim, o foco não é nos reféns ou nos terroristas, mas nos jornalistas e em toda a equipe do canal em questão na transmissão, ao vivo, de algo que, na época, jamais havia sido mostrado, dessa maneira, na televisão. A película realiza um bom trabalho em mostrar, com realismo e uma direção sóbria, os esforços, desafios e dilemas enfrentados por um grupo de profissionais da imprensa que estavam diante de um fato sem precedentes na história televisiva e, entre erros e acertos, procuraram reportar os acontecimentos da melhor maneira possível.
Spartacus: Sangue e Areia (1ª Temporada)
4.5 645 Assista AgoraRetratando a saga do guerreiro trácio que se tornou gladiador e liderou a maior - e mais famosa - revolta de escravos da República romana, "Spartacus" realiza, ao contrário de outras obras inspiradas nessa rebelião, uma representação mais moderna dos acontecimentos. Com uma trilha sonora eletrizante e abusando do sangue, nudez e câmera lenta, o seriado, que em muitos momentos lembra o filme "300" de Snyder, toma as suas liberdades artísticas. Porém, mantém-se fiel à história original e garante entretenimento e emoção ao espectador, que aqui jamais poderá reclamar de tédio.
A trama acompanha o personagem principal, cujo nome verdadeiro não conhecemos, desde as suas origens em território trácio até a sua escravidão, após ter recusado ordens de tropas romanas que traíram a ele e aos outros membros de sua tribo. Repleto de raiva contra Roma e o comandante Glauber, que o traiu, porém também triste pelo ocorrido com os seus companheiros, o guerreiro não deseja lutar como gladiador ou entreter os romanos que o apunhalaram nas costas, mas apenas anseia por reencontrar sua amada esposa e se vingar dos responsáveis pelo seu sofrimento.
Após um certo tempo e sendo agora conhecido como "Spartacus", ele logo percebe que o único caminho para concretizar os seus desejos é conquistando vitórias na arena de batalha, na expectativa de que Lentulus Batiatus, o dono da escola de gladiadores a qual pertence, irá, como recompensa, o reunir novamente a sua esposa e ajudar em sua liberdade. Este, por sua vez, manipula o gladiador com mentiras e falsas promessas, em uma tentativa de fazê-lo ganhar a sua confiança e continuar lutando e trazendo dinheiro.
Vale destacar que Batiatus, brilhantemente interpretado por John Hannah, é talvez um dos personagens mais interessantes do seriado. Carregando o nome de uma família com tradição no ramo, ele administra uma Casa de gladiadores afundada em dívidas. Em uma tentativa desesperada de reerguer os seus negócios, Lentulus utiliza de todos os artifícios para subir na sociedade romana, seja por meio de seus melhores lutadores ou seja por meio dos contatos de sua insaciável esposa Lucrétia na elite. À medida em que ele vai galgando o seu lugar no topo, vai se revelando cada vez mais brutal e ambicioso.
O seriado realiza um excelente papel ao retratar as intrigas, desconfianças e traições que marcavam a alta sociedade de Roma e como a busca por um lugar de destaque nesse meio pode ser tão sanguinária quanto as batalhas que ocorrem na arena. As falsidades e disputas por poder que marcam a elite são contrastadas pela irmandade, que também não é imune às suas intrigas, entre os gladiadores. Mesmo lutando pelo topo na Casa de Batiatus e não escondendo suas diferenças, os guerreiros ainda nutrem um mínimo de respeito entre si, enquanto, nas classes mais altas e supostamente mais "nobres", é onde a carnificina verdadeiramente impera e as pessoas fingem ser amigas somente para tirar proveito umas das outras.
O roteiro, mesmo com alguns elementos que poderiam ter sido melhor elaborados no início, é escrito com boa qualidade, com o desenvolvimento de cada personagem sendo mostrado com competência e as suas respectivas motivações sendo bem definidas ao longo da série. Na primeira metade, isso pode até não ser o caso, com a trama demorando para engatar, mas, do meio pra frente, o seriado cresce bastante em todos os aspectos e surpreende o espectador com uma trama mais complexa e emocionante do que parecia ser.
A direção, porém, é o ponto fraco da produção, com a parte técnica, talvez pelo baixo orçamento disponível, deixando a desejar em alguns momentos. E, apesar de ser ridículo reclamar da presença de nudez e de violência em uma obra sobre gladiadores romanos, é fato que determinadas cenas desse tipo foram um tanto desnecessárias.
Em linhas gerais, os pontos positivos superam os negativos, com "Spartacus" entregando uma história envolvente e eletrizante, sobretudo na reta final. A série surpreende, entrega bem mais do que somente sexo e sangue e deixa o espectador na expectativa pela continuação.
Roma (2ª Temporada)
4.4 103 Assista AgoraEm sua segunda temporada, "Roma" dá continuidade às disputas de poder e às intrigas que marcaram o fim da República Romana, tendo início no momento exatamente posterior ao assassinato de César e mostrando como tal acontecimento impactou a todos. Tal qual esperado, a série mostra-se novamente impecável nos aspectos técnicos e na representação da época, porém, desta vez, com um roteiro melhor amarrado, o que, sem dúvida, fez a produção elevar do já bom nível previamente apresentado.
Devido ao fato de ter menos episódios, porém retratar um período ainda mais abrangente e repleto de importantes eventos, o seriado foi obrigado a ter um maior foco no arco principal - envolvendo a política romana - e menor em histórias secundárias e de inferior relevância, o que me agradou. O clima "novelesco" e as imprecisões históricas persistem, porém em reduzida quantidade quando comparado ao visto na primeira temporada.
Naturalmente, se, por um lado, o número menor de episódios obriga o enredo a ser mais enxuto, direto e sem tramas desnecessárias, é fato que, por outro, alguns elementos da história não foram tão bem explorados, como a guerra final entre Otávio e Marco Aurélio, que aqui é limitada a poucas cenas. Em compensação, a série, enfim, dá mais espaço às cenas de batalha, que são dirigidas com qualidade, e proporciona, mais uma vez, ótimas performances por parte do elenco.
Em linhas gerais, é possível dizer que o seriado melhora em relação ao mostrado na primeira temporada, ampliando os aspectos que já haviam dado certo anteriormente e reduzindo os pontos negativos, sobretudo quanto ao roteiro. Um belo encerramento a essa produção, deixando o gosto, no espectador, de que a HBO poderia ter renovado a série para mais temporadas.
Roma (1ª Temporada)
4.4 154 Assista AgoraRetratando o fim da decadente República romana e o início da fase imperial, "Roma" claramente não se dispõe, em seu roteiro, a ser um documentário ou um retrato fiel dos acontecimentos, mas sim uma dramatização de um dos períodos mais conturbados da história dessa grande civilização, com foco, sobretudo, nas disputas políticas. Nos aspectos técnicos, no entanto, o seriado praticamente nos faz voltar no tempo, com excelente produção de figurino, cenários e fotografia, que aqui se destacam.
Ao longo desta primeira temporada, acompanhamos uma verdadeira guerra civil, com a disputa entre os outrora amigos Pompeu Magno e Júlio César pelo poder, culminando na ascensão do último à posição de ditador e deixando marcas na sociedade romana, que começava a ver a República, um dos seus grandes símbolos, aos poucos ruir. Os roteiristas optam, como mencionei antes, por focar no aspecto político, o que não é necessariamente algo negativo, mas ter ignorado, por completo, as batalhas e embates militares me pareceu uma escolha equivocada.
Aliás, o enredo toma, em minha avaliação, alguns caminhos um tanto questionáveis. Por exemplo, ter explorado pouco a relação de César com Cleópatra e, no lugar disso, ter ocupado tempo significativo com tramas secundárias irrelevantes e excessivas cenas de nudez foi, definitivamente, um caminho que eu não teria trilhado.
Por outro lado, a série compensa com brilhantes aspectos técnicos, grande atuação do elenco, uma representação fidedigna de diversos eventos históricos importantes e várias cenas icônicas e bem dirigidas. Em linhas gerais, tem mais acertos do que erros e vale a pena assistir.