Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Encerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
Em seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Prosseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
Alguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
São poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Depois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.
Em "The Rip", acompanhamos o mais novo trabalho da dupla Ben Affleck/Matt Damon, que aqui estão como produtores e atores principais. Em uma mistura de suspense e ação que prende bem a atenção do espectador, a obra entrega um bom entretenimento para quem está zapeando o catálogo da Netflix e só quer algo para passar o tempo. No entanto, para aqueles que desejam uma história com maior profundidade e que fuja de clichês/fórmulas prontas talvez não seja a melhor escolha.
O diretor Joe Carnahan é competente, inclusive com o uso dos tons escuros, em criar o clima de suspense, até emulando um ambiente "noir" semelhante aos filmes dos anos 90, e na produção das cenas de ação. Por outro lado, os roteiristas não tem a mesma felicidade, ao montarem uma trama com potencial e alguns pontos positivos, porém com diversas escolhas previsíveis, desenvolvimento quase nulo das personagens e superficialidade na narrativa, que não ultrapassa aquele mesmo modelo de película já conhecido e visto inúmeras vezes e que derrapa bastante no final ao tentar colocar um plot twist atrás do outro.
Se não bastasse isso, ainda há a incessante necessidade, reconhecida pelos próprios produtores, de ter de, a cada dez minutos, gerar alguma cena impactante/reviravolta ou explicar ao público o que está acontecendo para evitar que aquele espectador que fica olhando pro celular durante o filme perca o fio da meada, o que empobrece a qualidade da obra. Em resumo, é um passatempo válido, mas, se é pra assistir algo nesse estilo, recomendo qualquer clássico dos anos 80 ou 90, pois, além de serem melhores, também possuem mais originalidade e carisma.
A primeira coisa a se dizer sobre "Cruzada" de Ridley Scott é que o diretor domina a arte de dirigir um épico histórico. Com belíssimos aspectos visuais e uma competente direção, o cineasta nos insere, mesmo que com algumas toleráveis imprecisões, ao contexto que antecedeu às Terceiras Cruzadas, em um momento de disputas, sobretudo, pela sagrada cidade de Jerusalém. No meio disso, temos uma história que mescla acontecimentos reais e fictícios e aborda temas complexos, o que é mais possível ser verificado na versão estendida, a qual recomendo a todos assistirem.
Em segundo lugar, quem pensar que o filme traz uma abordagem pró-cristã ou pró-islâmica estará equivocado. Na realidade, Scott não toma lados aqui, mas estabelece uma interessante abordagem ao explorar as contradições inerentes, para cristãos e muçulmanos, de uma guerra santa — um conflito mortal em nome de um deus todo-amoroso. Diante dessa carnificina, é o protagonista Balian, ironicamente um dos poucos sem qualquer religião, que toma as atitudes mais condizentes a aquilo que a religião, em tese, prega.
Por outro lado, este não é um filme contra a religião em si, sobretudo por mostrar não apenas como, durante um século, Jerusalém teve paz entre cristãos e muçulmanos, mas também a cordialidade e o respeito cultivados entre os reis Balduíno e Saladino. Tal qual é deixado bem claro pelo diretor, a paz somente é quebrada quando grupos radicais, dos dois lados, clamam pelo conflito. Portanto, a película não é anti-religião, e sim anti-extremismo - ou, contra aqueles que usam de motivos religiosos para mascarar interesses obscuros.
Sendo assim, Scott retrata personagens mais preocupados com poder, ascensão social e redenção pessoal do que com questões teológicas em si. Por exemplo, Balian, um ferreiro de uma aldeia na França, descobre que é filho ilegítimo de Sir Godfrey, que é um cavaleiro que retorna do Oriente Médio e descreve Jerusalém não em termos de uma guerra santa, mas em termos das oportunidades que oferece a um jovem ambicioso que quer recomeçar na vida. Além disso, existem as distintas facções políticas que rondam o rei de Jerusalém e tentam influenciá-lo não em nome de uma causa maior, e sim por interesses próprios.
Em meio aos complexos temas abordados e reflexões instigadas, o filme é, inegavelmente, muito bem produzido em seus aspectos técnicos. Direção, figurino e cinematografia são alguns dos elementos a serem aqui realçados, em especial as eletrizantes e épicas cenas de batalha, que, acompanhadas de grandes visual e trilha sonora, prendem a atenção do espectador do início ao fim - dentre tantas, a sequência que mostra o cerco de Jerusalém é espetacular.
Também merece destaque a atuação do elenco. Sobretudo, gostaria de fazer uma menção honrosa a Edward Norton, interpretando o rei Balduíno. O ator prova que não existem papéis pequenos, apenas atores pequenos, ao entregar, em um papel bem mais limitado, uma atuação muito mais memorável do que Bloom, que apresenta uma performance somente mediana e destoante dos outros atores. Como o um homem seriamente afetado pela lepra, Norton está coberto por uma máscara, então tudo o que ele tem para transmitir personalidade e emoção são seus olhos e sua voz. Muitos atores poderiam ter se sentido tentados a exagerar sob aquela máscara para compensar o rosto oculto, mas Norton não se deixa intimidar por isso e entrega o que é necessário.
Um dos melhores trabalhos de Scott, mas que, reafirmo, deve ser apreciado na versão estendida, bem superior à teatral. Recomendado.
Baseado no livro "Munich", de Robert Harris, o filme "No Limite da Guerra", tal qual a obra que o inspira, retrata uma história fictícia de dois diplomatas, um inglês e outro alemão. Como fundo para essa ficção, estão os acontecimentos reais que envolveram a Conferência de Munique, em 1938, e a tensão de uma Europa pré-guerra. Diferente de outras produções do gênero, esta película traz uma interessante abordagem focada no trabalho feito, nos bastidores, por funcionários dos governos, em seus mais variados setores.
Quanto aos aspectos técnicos, não dá para negar que o filme é muito bem produzido, desde o figurino até a ambientação da época, sob condução de uma competente direção. Os problemas residem no roteiro, que apresenta dificuldade em conciliar os dois arcos principais, isto é, os fatos reais e a ficção. Enquanto boa parte dos eventos verdadeiros é retratada com qualidade, a parte fictícia, convenhamos, não é tão interessante assim e, muitas vezes, é pouco útil à trama central envolvendo as negociações entre ingleses e alemães.
Além disso, o diretor, por algum motivo, opta por fazer um considerável revisionismo histórico na forma como Chamberlain é representado. O retrato, interpretado por Jeremy Irons, de um homem doce e sensível, que queria a paz a qualquer custo por conta dos amigos que perdeu na guerra, simplesmente não condiz com quem ele foi de fato. Na realidade, o político era, segundo diversas fontes, um senhor arrogante guiado pela ingênua noção de que poderia enganar Hitler. E se isso não bastasse, diferente do que o filme aponta, o fracassado acordo de Munique não "deu tempo" para a Inglaterra se preparar, e sim foi vital para fortalecer os alemães a um início avassalador na guerra.
A história de Tonya Harding - e de todo o escândalo envolvendo o "incidente" no qual esteve envolvida - é uma das mais bizarras e tragicômicas já vistas no esporte mundial, a um ponto em que alguns fatos reais retratados no filme são tão absurdos que até parecem ter sido inventados. Nesta obra, o diretor Craig Gillespie opta por contar esse estranho caso de uma forma semelhante a um "mockumentary", quebrando a quarta parede e com cada personagem contando a sua versão dos acontecimentos sob o seu próprio ponto de vista.
Essa maneira de apresentar a história é não somente interessante, mas também coerente com o caso aqui retratado, que, até os dias de hoje, possui inúmeras dúvidas e diferentes versões por parte dos indivíduos envolvidos. Sendo assim, tal qual a imprensa e as autoridades jamais conseguiram obter uma resposta definitiva quanto ao incidente abordado e o tamanho da participação de Tonya nele, o filme tampouco o consegue e nem faz questão disso, deixando bem claro, desde o começo, que alguns fatos mostrados não necessariamente ocorreram da forma descrita.
Um outro acerto da película reside na escolha de trazer uma abordagem que mistura, acompanhada de uma boa trilha sonora, drama e comédia. Afinal, apesar do ocorrido na vida da protagonista ser trágico, não dá para virar as costa para o ridículo presente nas ações dos personagens, que tomam uma decisão errada atrás da outra. O elenco, inclusive, realiza um grande trabalho, tanto na parte dramática quanto na cômica, com especial destaque para Margot Robbie, que aqui, provavelmente, encontra-se em sua grande performance da carreira.
A produção, no entanto, peca em não mostrar mais do que ocorre na vida dos envolvidos após o incidente, em especial nas investigações policiais e batalhas legais que o sucederam, sendo esse trecho bastante "apressado" - por exemplo, a protagonista, em uma cena, está do lado do ex-marido e, na outra, o entrega às autoridades. Da mesma maneira, o filme, que desde o princípio deixa claro que a história possui diversas imprecisões e versões, nitidamente realiza uma interpretação dos eventos mais favorável à Tonya, retratando-a como vítima.
Não me levem a mal, Tonya é, sem dúvida, vítima de uma infância pobre e cruel, de uma mãe abusiva, de um marido agressor e de pessoas incrivelmente estúpidas que a cercaram. Por outro lado, é também verdade que ela continuou o relacionamento com Jeff mesmo tendo ciência do seu comportamento e, além disso, apesar de não haver certeza até onde ia o conhecimento dela acerca do incidente, é fato que sabia que iriam fazer alguma coisa - recentes entrevistas e trechos da investigação mostram que a patinadora sabia mais do que admitia.
Logo, "Eu, Tonya" é uma boa "dramédia", acerca de como uma pessoa extremamente talentosa e esforçada pode ter a vida arruinada por pais irresponsáveis, más influências e, claro, por escolhas erradas. Um bom passatempo para quem curte filmes do gênero.
Tal qual é descrito na sinopse, "Otesánek" é um filme inspirado no conto de fadas tcheco criado por Karel Jaromír Erben, no século 19, que conta a história de um tronco de madeira vivo e constantemente faminto. Nesta produção, o folclore é adaptado a tempos modernos, com a "criatura" servindo como o "filho" para um casal infértil. Do ponto de vista técnico, a película tem os seus problemas, porém é, com certeza, uma das experiências cinematográficas mais interessantes e bizarras que já tive e um passatempo válido para quem quiser fugir da mesmice.
O roteiro, pelo menos durante o período em que Otik nasce e vai começando a aterrorizar a todos, prende bem a atenção do espectador, mas também tem os seus momentos previsíveis e peca em dividir o protagonismo da história entre o casal e a garotinha. De início, somos cativados pelo grau de bizarrice do filme, mas a produção falha em dar consistência a essa trama e em ir além do mero exótico.
De uma maneira geral, a película, entre erros e acertos, reúne elementos de fantasia, comédia e terror e, ao longo da história, vai se revezando entre eles, bem como alterna-se entre o real e a imaginação. No entanto, mesmo eu que normalmente aprecio obras nesse estilo, tenho que reconhecer que faltou mais competência, tanto na direção quanto no roteiro, em explorar a interessante proposta que aqui é apresentada.
Em "Dia de Treinamento", acompanhamos o primeiro dia do novato Jake Hoyt, que deveria ser somente uma formal introdução, à rotina do departamento de Narcóticos, na polícia de Los Angeles. Mais especificamente, à rotina do veterano agente Alonzo Harris, que utiliza métodos ilegais e moralmente questionáveis, para dizer o mínimo. Ao longo do filme, somos também inseridos ao submundo do crime, no qual traficantes e policiais corruptos pouco são diferentes, em uma trama bem elaborada, eletrizante e tensa que prende a atenção do espectador do início ao fim.
Esta é daquelas obras em que os personagens são tão reais, interessantes e bem construídos, que a história acaba fluindo naturalmente, com eles nos levando, a partir de suas ações, a esse mundo de crimes, corrupção e mentiras. Sendo assim, o roteiro é carregado pelos personagens nele inseridos e não o contrário. Por exemplo, Alonzo, é uma figura carismática e com uma personalidade forte e que, também em boa parte graças à grande atuação de Denzel Washington, imediatamente rouba a cena e se torna o centro das atenções na trama.
À princípio, podemos ser levados a crer que Alonzo é daqueles policiais que utilizam de métodos ilegais e "sujam as mãos" com o verdadeiro propósito de prender grandes traficantes e até podem possuir, no fundo, boas intenções, em um cenário no qual os fins justificariam os meios. Inclusive, o próprio novato, Hoyt, inicialmente também se deixa levar pela lábia do veterano e, embora continue não concordando, prossegue com seu treinamento, crendo que a recompensa de trabalhar nessa divisão e retirar as drogas das ruas seria suficiente para aturar toda a sujeira que presenciava.
Durante o filme, porém, aos poucos vão ficando cada vez mais claras as reais intenções de Alonzo, que pouco se importa em combater o crime ou as drogas, mas visa somente o benefício próprio. Sendo um verdadeiro manipulador e um sujeito sem escrúpulos, não mede esforços para conseguir o que quer e vê as pessoas ao seu redor como meros instrumentos para atingir os seus objetivos.
O diretor é bastante competente ao realizar um ótimo contraste entre os dois policiais, nas diferentes formas de enxergar o mundo e nas moralidades completamente opostas. Igualmente, também repassa, ao espectador, a mesma sensação de tensão e choque sentidas por Hoyt, que, eventualmente, tem os seus princípios em rota de colisão com aquilo que Alonzo vê como normal e precisa escolher qual caminho, o que desencadeia uma grande cena final.
Um filmaço e um dos clássicos do gênero policial. Recomendado.
Sem dúvida, "Um Contratempo" é daqueles filmes em que o roteiro é o grande diferencial, envolvendo o espectador e prendendo a sua atenção até o último instante, em uma trama repleta de reviravoltas. Ao longo da história, somos apresentados a diferentes versões e possibilidades quanto a forma com a qual os acontecimentos ocorreram. À medida em que acompanhamos o desenrolar das distintas reconstituições, também conhecemos mais acerca dos personagens envolvidos e do que seriam ou não capazes de fazer para ter o que querem.
O grande mérito deste filme, em meio a tantos, é mostrar as várias versões da história de maneira em que, no momento em que são apresentadas, cada qual é perfeitamente válida e lógica até o momento em que aparece algum elemento que a anule. Dessa maneira, somos confundidos, propositalmente, pelo roteirista, a acreditar em diferentes possibilidades até que, no último instante, a verdade vem à tona, como um grande quebra cabeça em que as peças enfim se encaixam.
Para quem curte suspenses investigativos/policiais ou para quem simplesmente aprecia um roteiro inteligente e que instiga o público a pensar, esta é uma boa pedida e mais um belo exemplar do cinema espanhol.
Se tivéssemos que fazer uma lista dos melhores filmes de ação dos anos 90, seria impossível deixar "A Rocha", um dos clássicos desse período, de fora dessa discussão. Contendo ação, humor e drama na medida certa e uma história envolvente, esta produção consegue, também graças a boa direção de Michael Bay e um grande elenco, trazer um entretenimento, ao espectador, que cumpre bem aquilo que se propõe a fazer, de maneira, ao mesmo tempo, simples e marcante.
Em primeiro lugar, acho importante começar logo tecendo elogios ao tão criticado, na maioria das vezes com razão, Michael Bay. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, o cineasta mostra que é capaz de ir além do seu "festival" de explosões e ação psicodélicas e contar, no tom certo e de forma compreensível ao público, uma trama envolvente e bem escrita. Nesta película, Bay utiliza de suas habilidades para proporcionar, ao espectador, uma narrativa eletrizante, intensa e que prende a atenção de quem assiste, porém que também sabe quando frear um pouco o ritmo, "respirar" e permitir o desenvolvimento das personagens e da história.
Aliás, as personagens desse filme correspondem, sem dúvida, a um ponto a se destacar. Sendo interpretados com competência pelos atores envolvidos, são não somente personagens interessantes, carismáticos e que possuem uma boa conexão entre si, mas que igualmente têm motivações coerentes por trás de suas ações. Por exemplo, a dupla Mason e Goodspeed, muito bem representados por Connery e Cage, possuem, em meio às suas, digamos, diferenças de estilo, uma grande "química".
Também gostei da motivação do personagem de Ed Harris, que foge dos clichês que costumam pairar sob antagonistas em filmes de ação, que normalmente querem roubar dinheiro ou "destruir o mundo". Por um lado, ele tinha uma causa justa para buscar compensação para as famílias dos soldados que foram deixados para morrer propositalmente na Guerra do Golfo. Por outro, ele manteve reféns e ameaçou lançar foguetes contra civis, mas mesmo isso acabou sendo uma artimanha porque ele nunca realmente os machucaria. Na cena de abertura, inclusive, o General e os fuzileiros navais não matam um único soldado na instalação de armas químicas. Boas intenções e bons princípios, porém com procedimentos horríveis.
É bem verdade que, como a maioria das obras desse gênero, também tem os seus furos de roteiro, situações um tanto "forçadas" e a necessidade de fazer uma piadinha em momentos de grande tensão, mas nada que atrapalhe ou estrague o entretenimento. No geral, um bom filme de ação e, com méritos, um clássico dos anos 90.
Em "Frankenstein", o diretor Guilhermo del Toro realiza uma adaptação bastante "livre", para dizer o mínimo, da famosa obra da escritora Mary Shelley. Devido à liberdade da qual faz uso e do seu estilo marcante de direção, o autor foge de repetições presentes em outras adaptações do emblemático livro e nos apresenta uma história com elevado potencial e uma interessante perspectiva. No entanto, del Toro falha em diversas escolhas e pouco explora o potencial da trama que ele mesmo construiu.
Primeiramente, destaco os pontos positivos, dentre os quais é difícil não mencionar os aspectos técnicos, como figurino/maquiagem, fotografia e direção, que sempre são algo a se elogiar nos filmes do cineasta mexicano. Somado a isso, temos a grata surpresa de Jacob Elordi, que aqui entrega uma boa atuação e, sob a carcaça de um monstro, consegue transmitir uma feição humana e melancólica, o que se encaixa, perfeitamente, naquilo que tanto del Toro quanto Shelley compartilham de entendimento acerca do personagem em questão.
Aliás, a decisão de dedicar uma parte considerável da película a uma história narrada pela própria "criatura" é ótima e representa uma novidade extremamente bem vinda aos filmes que adaptam o livro, mesmo com vários elementos do enredo original sendo alterados. As cenas que reúnem a criatura e o idoso, presentes nesse segmento, são de uma beleza que não pode passar despercebida.
O problema é que, em meio a elementos interessantes e momentos bonitos, o filme também empilha diversos pontos negativos que, no final das contas, pesam bastante. O roteiro, por sua vez, é onde eles estão mais presentes, com várias cenas que pouco agregam à história principal, como a infância de Viktor, e inúmeros elementos explorados de forma superficial, incoerente e até "apressada". Por exemplo, a relação entre os dois irmãos e o fugaz romance entre Viktor e Elizabeth, que surge e depois desaparece na mesma velocidade.
Além disso, existe, obviamente, também a estranha e incoerente postura de Viktor perante a criatura. À princípio, o cientista a rejeita por ela não demonstrar, em sua visão, inteligência, porém, quando ela enfim demonstra grande capacidade de ser inteligente, ele a rejeita mesmo assim e até com mais veemência. E, no final, o doutor repentinamente se arrepende de tudo que havia feito contra sua criação, mesmo que estivesse a perseguindo a poucas horas antes.
Outro ponto que me desagradou foi a oportunidade perdida por del Toro de, considerando que a sua adaptação já é bastante diferente da obra de Shelley, explorar o aspecto de fantasia da criatura e da história como um todo. Inclusive, pareceu-me estranho o diretor dedicar metade do filme tentando dar um "ar científico" à trama, com o engenhoso processo empreendido por Viktor em sua criação, enquanto, no segundo ato, vemos a criatura sobrevivendo a golpes que deveriam ser fatais e tendo o poder de regeneração, que, por sua vez, seriam impossíveis do ponto de vista da ciência. Pessoalmente, prefiro a história original e considero que as alterações feitas mais prejudicaram do que ajudaram, mas, se é pra mudar, que seja feito com coerência.
Colocando tudo na balança, é um filme mediano. Tem os seus bons momentos, mas um elevado potencial desperdiçado e diversas escolhas questionáveis.
Inspirado nos assassinatos, conduzidos pelo Mossad, de pessoas ligadas ao atentado nas Olimpíadas de 1972, o filme, na realidade, utiliza, como base, a obra "Vengeance", de George Jonas. Este, por sua vez, é um livro que traz uma versão fictícia - apesar de possuir diversas informações verdadeiras - das atividades conduzidas pelos israelenses na busca pelos terroristas em questão. Sendo assim, a película, produzida sob a sempre competente direção de Spielberg, não é uma representação extremamente fiel aos fatos, mas um bom drama de espionagem, mesmo com algumas ressalvas.
Em primeiro lugar, vale destacar que os nomes dos terroristas na mira do Mossad estão corretos, bem como a forma como boa parte dos assassinatos foram conduzidos. Aliás, a maneira com a qual Spieberg mostra o passo a passo de cada operação é um dos pontos mais interessantes do filme e um prato cheio para quem gosta de obras de espionagem. O diretor realiza um grande trabalho em ambientar - e inserir - o espectador nesse clima de mistério e sigilo que caracteriza o mundo dos espiões, no qual ninguém confia em ninguém e a tensão é constante.
Por outro lado, o filme, assim como o livro, também inventa muita coisa que não existiu, excessivamente dramatiza determinados eventos e minimiza diversos detalhes importantes, como o fato da operação do serviço secreto israelense ter incluído um número bem maior de pessoas. Um outro exemplo de imprecisão é a figura de Louis, que é de uma suposta agência secreta privada e corresponde a um elemento central na trama, mas que, na verdade, é meramente um personagem fictício.
No entanto, mesmo se ignorarmos as discrepâncias em relação aos fatos reais, é justo fazer a crítica de que o protagonista poderia ter sido melhor desenvolvido, sobretudo devido a mudança final de sua postura quanto à Israel e ao seu trabalho ter sido um tanto repentina. A impressão foi que Spielberg queria passar a mensagem de que "todos somos iguais" e "guerra é ruim", que é perfeitamente válida, mas o fez de maneira apressada.
Em linhas gerais, um bom drama de espionagem, mas que, sem dúvida, não pode ser tratado como um documentário e que, mesmo sob competente direção, falha quando tenta ser mais do que realmente é.
Para quem for assistir "Setembro 5" esperando um filme sobre o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, talvez se decepcione um pouco. No entanto, a explicação para isso reside no simples fato desta produção não buscar retratar os trágicos eventos daquele dia - aliás, praticamente não temos imagens do acontecimento em si - e sim a cobertura da imprensa, mais especificamente do canal ABC, do ocorrido.
Sendo assim, o foco não é nos reféns ou nos terroristas, mas nos jornalistas e em toda a equipe do canal em questão na transmissão, ao vivo, de algo que, na época, jamais havia sido mostrado, dessa maneira, na televisão. A película realiza um bom trabalho em mostrar, com realismo e uma direção sóbria, os esforços, desafios e dilemas enfrentados por um grupo de profissionais da imprensa que estavam diante de um fato sem precedentes na história televisiva e, entre erros e acertos, procuraram reportar os acontecimentos da melhor maneira possível.
O principal problema de "El Camino" é, na realidade, bem óbvio, inclusive aos mais fanáticos fãs de "Breaking Bad", que é o fato deste filme ser desnecessário. A série, uma das melhores de todos os tempos, consegue concluir muito bem e até onde é possível, a trama e todos os arcos das principais personagens, o que torna esta produção um tanto "arrastada", com Vince Gilligan tentando extrair uma história de onde, claramente, não há mais nada a ser contado.
Sendo assim, o filme, apesar de até ter os seus bons momentos, acaba se apegando excessivamente a flashbacks e acrescentando pouca coisa nova. Além disso, tem algumas cenas que beiram o absurdo, como aquela em que Jesse e o "mecânico" travam um duelo mexicano por uma sacola cheia de dinheiro. A impressão que dá é que Vince queria contar a todos como Jesse termina a sua história e acreditou que a melhor de fazê-lo seria produzindo uma película em torno disso. No meio disso tudo, fez questão de mostrar, ao espectador, o quão psicopatas eram Todd e a gangue do Jack, algo que já tinha ficado bem claro na quinta temporada.
No geral, é mediano, mas vale pela boa direção/fotografia, pela nostalgia de rever os personagens icônicos da série e como um passatempo - apesar de determinadas cenas serem difíceis de assistir.
Apesar de não ser tão catastrófico e ruim quanto o seu predecessor, "28 Years Later" é outra produção que falha em dar continuidade, com qualidade, à obra original de Boyle, lançada há mais de vinte anos atrás. Se, por um lado, o filme apresenta uma premissa com potencial, ideias interessantes e momentos muito bem produzidos e assustadores, é impossível não ressaltar que, por outro, a história perde-se em uma trama estúpida e proporciona cenas que beiram ao absurdo.
Já começo ressaltando que gostei da ideia de uma comunidade completamente isolada e que possui uma espécie de "cerimônia de iniciação" a jovens que saem, pela primeira vez, da ilha, assim como da premissa de uma evolução entre os zumbis, com diferentes "graus" entre eles. Também achei muito bem feita a cena do primeiro encontro com o Alfa e a utilização do poema "Boots", que aqui encaixa-se perfeitamente e proporciona uma sensação de ansiedade e terror, ao espectador, antes mesmo de alguma coisa acontecer.
Os meus elogios, porém, param por aí, pois, por algum motivo, Boyle, cujo retorno à franquia foi tão celebrado, optou por levar a história por um caminho um tanto questionável, para dizer o mínimo. A trama de um menino de 12 anos, quase que completamente inexperiente e que havia tido um péssimo primeiro dia fora da ilha, levando a sua mãe para um continente repleto de zumbis, arriscando a vida de ambos, para se encontrar com um médico desconhecido, é inacreditável e inverossímil, inclusive pela própria lógica da personagem em questão, até mesmo para uma obra de ficção. E, somando-se a isso, existem ainda a famigerada cena da grávida zumbi e a loucura que foi aquilo no final.
Portanto, o veredito é que "28 Years Later" é mais uma oportunidade desperdiçada, apesar de ter os seus bons momentos no começo, de trazer uma sequência decente ao filme original. Vale pelos primeiros trinta minutos e só. No entanto, com certeza não é pior do que o filme que veio antes dele, que, por sua vez, sequer merece ser mencionado.
Em "Princesa Mononoke", presenciamos uma obra muito bem feita, e visualmente belíssima, como já é costume do elevado padrão apresentado pelas produções do Studio Ghibli. Indo além dos limites convencionais da animação, Miyazaki tece uma narrativa densa, onde a dualidade entre humanos e natureza é bastante explorada. Apesar do título, o real protagonista é Ashitaka, que age como um fio condutor moral, navegando entre facções conflitantes, enquanto a princesa, por sua vez, personifica a luta selvagem pela preservação ambiental.
Em primeiro lugar, maneira como a história apresenta-se é bem interessante, com a profundidade moral do filme sendo evidente nas complexidades dos personagens, todos com motivações e nuances que desafiam as simplificações típicas do bem e do mal. Miyazaki recusa-se a oferecer respostas fáceis, permitindo que os espectadores ponderem sobre as ramificações éticas das ações dos personagens, que apresentam qualidades e defeitos e argumentos tanto favoráveis quanto contrários às suas ações. De um lado, temos os humanos que tentam sobreviver retirando recursos da natureza, mas que se excedem ao destruir demasiadamente o meio ambiente. Por outro, os entes da floresta, que querem, com razão, proteger a natureza, mas desejam fazer isso pela destruição dos humanos, erroneamente vistos por eles como todos iguais.
Nesse sentido, Myazaki afasta-se do clichê, normalmente visto em muitos filmes, de que a natureza sempre representa o bom e o puro, enquanto o homem é intrinsecamente mal e destrutivo. Nesta obra, vemos como a natureza também pode ser, muitas vezes, cruel, implacável e até mesmo injusta, além de presenciarmos divisões e conflitos entre as diferentes tribos que habitam na floresta. A obra, logo, trata do inevitável dilema entre o desenvolvimento e a sobrevivência humanos e a intocabilidade da natureza, com a necessidade de um equilíbrio entre esses dois elementos. Nenhum dos dois lados, na trama, está plenamente com a razão e, quando ambos evitam ceder e são tomados pelo ódio, todos acabam por sofrer.
Em segundo lugar, a riqueza visual de "Princesa Mononoke", como já mencionei antes, é mais um testemunho da habilidade do Studio Ghibli, com paisagens exuberantes e criaturas fantásticas que transcendem a mera estética, refletindo os temas centrais do filme. A trilha sonora também merece ser destacada, intensificando a imersão emocional sentida pelo espectador.
Pessoalmente, creio que o único ponto que poderia ter sido melhor explorado é o relacionamento entre Ashitaka e Mononoke, que, em minha humilde opinião, não foi tão bem desenvolvido e, em determinados momentos, foi um tanto "apressado". Ainda por cima, o final foi pouco satisfatório quanto a relação entre os dois.
Sendo assim, "Princesa Mononoke" não é apenas uma animação; é uma exploração poética da relação complexa entre humanidade e natureza, empregando uma profundidade narrativa e visual que a eleva a categoria dos melhores trabalhos de Myazaki e dos melhores filmes animados. Recomendado.
Baseado em uma história em quadrinhos homônima, "Estrada para Perdição" é um bem produzido drama inserido no período da "antiga máfia" americana, que teve o auge no início dos anos 30, época da Grande Depressão e da Lei Seca. Apresentando-nos uma trama em que o protagonista, Michael Sullivan, foge de sua cidade com o intuito de tentar sobreviver, com o seu filho, de gângsteres com os quais previamente trabalhava, o aclamado cineasta Sam Mendes trata, com poucos diálogos e uma excelente direção, de temas como violência, vingança e o relacionamento pai-filho.
Em primeiro lugar, é importante destacar não somente a história em si, que é ótima, mas a forma como é contada. Apesar de ser um filme que se passa no violento e conturbado mundo dos mafiosos, a trama é contada de uma maneira "elegante", limitando a violência a pontuais atos - ao invés de uma carnificina gratuita - e com os personagens envolvidos comunicando-se com simplicidade e objetividade. Devido a isso, a película possui poucos diálogos, buscando explicar tanto os acontecimentos quanto as intenções e emoções dos personagens mais com o poder das expressões faciais do que propriamente com falas.
Naturalmente, presentes nessa tarefa, estão a sempre competente direção de Mendes e a ótima cinematografia de Conrad Hall, que aqui encontra-se em seu último trabalho antes do falecimento, sendo postumamente- e merecidamente - premiado com um Óscar. Logo, os visuais, a fotografia e as imagens são bastante exploradas para não apenas contar a história em si e prender a atenção do público, porém também para transmitir as mais diferentes emoções ao espectador. Além disso, as grandes atuações desse estrelado elenco colaboram a fim de alcançar esse objetivo, em especial Hanks e Newman, que estão sublimes na película, mesmo que em papéis difíceis e complexos.
Como dito antes, o filme é sobre vingança, mas, acima de tudo, sobre o relacionamento entre Michael Sullivan e o seu filho, que, inclusive, é o responsável pela narração não à toa. O protagonista tenta, ao máximo, esconder do seu progênito aquilo que faz e buscar não envolvê-lo em seus trabalhos, por não querer que o mesmo siga o caminho que ele próprio seguiu. Sendo assim, percebemos que Sullivan, responsável por violentos atos e crimes, não enxerga algo positivo na vida que leva, mantendo-se nessa profissão somente por lealdade a Rooney, levando-o a querer que o filho seja o mais diferente possível. Somente alcançando a sua vingança e garantindo um futuro distinto ao filho, Sullivan é capaz de obter a sua redenção.
Um filmaço para ver e rever, produzido com muita qualidade, roteiro bem amarrado, brilhantes direção e aspectos técnicos e ótimas performances do elenco. No meio disso tudo, uma história tensa, emocionante e pesada, porém belíssima. Recomendado.
Sendo um filme pouco conhecido, "Terra Selvagem" é, sem dúvida, daquelas produções que, mesmo não tendo adquirido grande sucesso, superam as expectativas e surpreendem pela qualidade. O competente diretor Taylor Sheridan consegue prender bem a atenção do espectador com um drama bem construído, que mistura crime, suspense e, na reta final, torna-se em um emocionante "western".
De uma maneira geral, a película, como o título em português perfeitamente descreve, busca uma retratar uma terra completamente esquecida. Coberta pela neve e assolada pelo frio durante a maior parte do tempo, a extensa área é pouco habitada e praticamente não tem policiais para monitorá-la, tornando-se local propício para a ocorrência de crimes, que, por sua vez, muitas vezes não são solucionados. Em outras palavras, é como se a região estivesse parada no tempo, mais especificamente na época do "velho oeste", sendo um território em que a lei escrita tem pouco significado.
Esse aspecto da "terra sem lei" é um dos pontos centrais do filme e proporciona uma interessante dinâmica entre os protagonistas. Enquanto a novata e inexperiente Jane tenta seguir os protocolos do FBI e a legislação, o atirador Cory, conhecedor daquela região e do povo local, sabe que, para solucionar o crime, deve-se ter o pensamento não de um policial buscando um bandido, mas de um caçador procurando a sua presa.
O filme realiza um bom trabalho no desenvolvimento das personagens e na construção do suspense, porém acredito que o ritmo, na primeira metade da história, é um tanto lento e monótono, com a película demorando para "engrenar" mais do que deveria. A reta final da trama, inclusive, é a melhor parte da obra, exatamente por nos trazer as respostas para o crime em questão e proporcionar sequências de ação muito bem feitas, como se fosse um "western" moderno.
Sendo assim, "Terra Selvagem" é, sem dúvida, um bom filme e cumpre bem o que se propõe a fazer, mas talvez se o diretor tivesse focado mais na parte do "western" e menos na investigação policial em si, o resultado final teria sido ainda melhor.
Baseado em um livro homônimo, "A Garota no Trem" nos apresenta um interessante thriller que aborda, dentre diversos temas, relacionamentos abusivos, alcoolismo e transtornos de obsessão. Na trama, temos três mulheres com características e vidas distintas, cuja ligação, aparentemente inexistente no começo, vai sendo gradativamente montada ao longo da história.
Apesar da película focar nessas três personagens principais em questão, a verdadeira protagonista é Rachel, uma alcoólatra que, em meio à dificuldade em superar o término de seu antigo relacionamento, cria uma espécie de ilusão particular quanto a um casal que sempre vê quando está andando de trem. Sem conhecer muito acerca dos dois, a mulher estabelece uma ideia acerca dessas duas pessoas, que, em sua imaginação, vivem um casamento amoroso e perfeito. Nesse sentido, busca utilizar essa felicidade que ela crê existir nesse casal para tentar superar os traumas e decepções de seu passado, acreditando que esse suposto relacionamento ideal era o que ela deveria ter e dela foi roubado e que, enquanto esses dois fossem felizes, ao menos ela poderia ter algo para se satisfazer, mesmo que apenas de forma ilusória.
O problema é que essa ilusão, inicialmente criada de maneira inocente e devido a sua fértil imaginação, torna-se, com o tempo, uma verdadeira obsessão quanto a vida desse casal, como se a sua vida inteira agora girasse em torno disso. Sendo assim, quando Rachel percebe que os dois podem estar passando por problemas no casamento, ela toma atitudes drásticas e tenta interferir, e, a partir daí, a trama começa a progredir para o seu verdadeiro plot, envolvendo outros personagens e uma longa investigação criminal.
Um ponto interessante, sendo mérito do diretor e dos roteiristas, é que acompanhamos toda essa história sob a confusa perspectiva de Rachel. Devido ao seu alcoolismo, suas memórias são desordenadas, sendo muitas vezes difícil, para ela própria, compreender suas ações passadas e separar aquilo que realmente ocorreu daquilo que é somente fruto de sua imaginação, abrindo inúmeras possibilidade para o espectador. À medida em que a protagonista vai lutando para entender suas memórias e clarificar sua mente, o público vai conhecendo, como se estivesse montando um quebra cabeça, mais das personagens e de fatos passados que podem ajudar a compreender o crime que está sendo investigado, em um bem construído clima de suspense.
O roteiro, porém, tem alguns furos e diversos aspectos mal explicados, como o fato de não terem sido detectadas as digitais de Tom em Megan ou o fato dele ter guardado o celular de sua amante, quando poderia ter simplesmente jogado fora. A parte final, inclusive, sem dúvida foi uma tentativa de estabelecer um plot twist e reviravolta final, mas, ao meu ver, foi um tanto forçado e poderia ter sido melhor elaborado, não fazendo jus ao interessante suspense que vinha sendo desenvolvido.
Além disso, se, por um lado, Rachel é uma personagem bem construída, o mesmo não pode ser dito de Anna e Megan, cujas intenções e ações muitas vezes são mal explicadas e excessivamente confusas. Por exemplo, Anna, em uma cena, está motivada a continuar em seu casamento, mesmo sabendo da infidelidade de Tom, e, poucos minutos depois, passa a confiar cegamente em Rachel e auxilia a matar o marido. Quanto a Megan, em um momento, diz não querer ter filhos por traumas do passado, e, depois, afirma querer dar a luz ao seu filho com Tom.
Sendo assim, é possível dizer que o filme tinha tudo para ser um ótimo suspense, como aparentava ser em sua primeira metade, mas que, mesmo com seus méritos e aspectos positivos, exagera na tentativa de estabelecer inúmeras reviravoltas na trama e falha em construir um decente desenvolvimento de algumas de suas personagens. A atuação de Emily Blunt é boa e merece destaque, porém não é suficiente para salvar esta película que, em linhas gerais, tem um grande potencial mal explorado e, no final das contas, é apenas razoável e longe de ser memorável.
13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi
3.5 322Em "13 Horas", Michael Bay demonstra que é capaz de, ao amenizar seus vícios, entregar um bom trabalho. Sob uma direção sóbria e competente, o cineasta dá aula de como conduzir um filme de ação, garantindo um ritmo eletrizante e, ao mesmo tempo, contando a história com clareza. Baseado no livro homônimo, de Mitchell Zuckoff, a obra retrata os acontecimentos reais do ataque terrorista ao centro diplomático americano na Líbia e como um pequeno grupo de indivíduos, que sequer pertenciam oficialmente ao governo, evitaram, de maneira heroica, o que seria um massacre.
Um dos aspectos mais interessantes desta película, em minha avaliação, é retratar os eventos em questão sob a perspectiva dos homens que participaram dos combates, aqui representados por um elenco que cumpre bem o seu papel. No caso, refiro-me ao grupo de combatentes paramilitares, contratados pelo governo dos EUA, encarregado da segurança de um complexo secreto da CIA em território líbio, e que acabaram no olho do furacão de um dos acontecimentos recentes mais trágicos da política externa americana.
Nesse sentido, o filme transmite, com competência, ao público, os mesmos sentimentos de tensão, confusão e ansiedades vivenciados, na pele, pelos soldados que lá estavam. Isso, por sua vez, ocorre graças ao trabalho de qualidade não somente do diretor, mas também da edição e som, prendendo a atenção do espectador, do começo ao fim, em uma narrativa angustiante e frenética. Por exemplo, em determinadas cenas, os soldados sequer sabem quem é inimigo e quem é aliado e encontram-se cercados por pessoas que não conhecem e não sabem se podem confiar, e o suspense gerado por esse fato é muito bem repassado a quem assiste.
No entanto, a ação eletrizante - e muito bem construída - não impede o longa de nos apresentar detalhes dos personagens, desenvolvê-lo e nos conectar a eles. A frase, dita por Jack, "Eu imagino o que minhas filhas pensariam de mim. Morrer em um local em que ele nem deveria estar, por uma causa que não compreendia e por um país que ele pouco se importava", é simplesmente brutal e resume bem o sentimento dos combatentes inseridos naquela trágica situação.
Mesmo incapazes de compreender, por completo, o que ocorria e abandonados por seus superiores, prosseguiam esforçando-se para cumprir a sua missão e em salvar as suas respectivas vidas e as daqueles ao seu redor. Se, por um lado, o grau de complexidade do contexto e a tensão sentida trazem um elemento dramático forte ao roteiro, igualmente engrandecem, por outro, o sacrifício e o heroísmo dos soldados presentes e trazem um maior impacto emocional às cenas de ação que, sem isso, seriam apenas meras cenas de ação.
O filme, além de cumprir todos os requisitos de um bom filme de ação, é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Michael Bay, que mostra como é capaz de entregar mais do que normalmente se vê em suas produções. No mais, serve como uma bela homenagem aos soldados, sobreviventes e mortos, participantes desses acontecimentos e um registro de erros graves cometidos pelo governo americano sob uma, naquele momento, desastrosa política externa comandada por Obama e Clinton.
Três é Demais
3.8 281 Assista AgoraEncerro a minha breve maratona de filmes do Wes Anderson com aquele que, embora não seja oficialmente o seu primeiro trabalho, é, sem dúvida, a porta de entrada ao excêntrico universo cinematográfico criado pelo diretor. Assisti a esse longa, pela primeira vez, há anos atrás e, apesar de ter considerado bom, não havia o entendido por completo. O curioso é que estava no colégio e tinha quase a mesma idade do protagonista, porém, talvez por ser ainda muito jovem, somente consegui devidamente apreciar a esta obra após reassistir um bom tempo depois e já estando mais velho.
Nesta produção, o então iniciante cineasta, apesar de ainda não abusar da simetria, já apresentava alguns dos seus marcantes elementos visuais. No caso, um senso de cor singular, focando principalmente em azuis, verdes e vermelhos para criar uma realidade intensificada. Não obstante, diferentemente do que irá ocorrer no restante da carreira de Anderson, na qual o visual excêntrico será o grande chamativo, aqui presenciamos uma versão mais "limpa" do diretor, com um foco maior no roteiro e nas personagens.
O roteiro, diga-se de passagem, começou a ser escrito por Wes e Owen Wilson, antigos colegas e amigos desde a faculdade, até bem antes do seu primeiro trabalho juntos - Bottle Rocket. Além disso, a história, incluindo características dos personagens, reúne diversos aspectos extraídos das suas respectivas juventudes e por experiências que passaram ao longo da vida. Por exemplo, Wilson, assim como o protagonista do filme, igualmente havia sido expulso do colégio.
De início, o personagem Max Fischer, muito bem interpretado por um Jason Schwartzman também em início de carreira, pode parecer simples, caricato e, em determinados momentos, até irritante. Repleto de energia e ambição, ele, por outro lado, carecia da mesma motivação nos seus estudos e de discernimento na vida acadêmica. Sempre tomando decisões impulsivas e distraindo-se em atividades extracurriculares enquanto suas notas encontravam-se no fundo do poço, Fischer estava constantemente a um fio de ser expulso.
No entanto, alguns detalhes cuidadosamente deixados pelos roteiristas nos ajudam a compreender melhor o protagonista, as suas motivações e uma escondida complexidade que, à princípio, pode passar despercebida. "Sic transit gloria". Essa é uma famosa expressão, em latim, que significa "assim passa a glória do mundo", indicando que a fama, o poder e as conquistas materiais são passageiras. Essa, não à toa, também é uma das primeiras coisas que Max diz à Sra Cross e uma frase presente na lápide de sua mãe.
Em outras palavras, Anderson deixa subentendido que a mãe de Marx era uma pessoa aventureira e sonhadora, mas que morreu ainda muito jovem antes de fazer tudo aquilo que gostaria. O protagonista, por sua vez, toma isso como uma espécie de aprendizado e busca viver a sua vida ao máximo, criando clubes, escrevendo peças e realizando o máximo de atividades que for possível.
No entanto, o principal tema do filme não é sobre "viver a vida ao máximo", e sim sobre amadurecimento e como esse processo, por vezes, pode ser tortuoso durante a juventude. Veja bem, Marx tem confiança, energia e ambição de sobra, mas sem o devido foco e maturidade, tudo isso, em dado momento, acaba se virando contra, com ele perdendo a garota que amava, os seus amigos e o seu futuro acadêmico. Isso tudo somente é recuperado quando ele amadurece, entende que não se pode ter tudo, que se deve valorizar boas amizades e que, muitas vezes, é necessário perdoar e seguir em frente.
Esse tema é explorado de maneira competente pelo filme, sob a forma de humor negro inserido em um romance. E a história flui naturalmente em um roteiro bem amarrado, divertido e acompanhado de trilha sonora composta por clássicos do rock britânico, que transmitem com perfeição o espírito do protagonista e do ambiente colegial. O elenco também merece elogios, pois, além de Jason, também brilham a deslumbrante Olivia Williams e o carismático Bill Murray, em uma de suas melhores atuações da carreira - e que iniciava uma longa parceria com o diretor.
Aliás, Murray merece uma menção especial, mesmo em um papel, em tese, coadjuvante. O seu personagem, Herman Blume, é um rico homem de meia idade, que enfrenta uma crise no casamento e vive uma vida tediosa, tornando-se amigo de Marx por admirar a sua confiança e enxergar nele todas as qualidades que gostaria de ver em si próprio e em seus filhos. Mesmo com todas as diferenças entre eles, incluindo a idade, ambos eram muito parecidos, por exemplo, em sua paixão à Sra Cross, que os levava a agir de forma irracional e até infantil - e rende talvez a melhor sequência do filme. Vale destacar que Anderson e Wilson criaram o personagem tendo o veterano ator em mente e ele não decepciona.
Em resumo, "Rushmore" é não apenas o primeiro vislumbre da realidade excêntrica criada por Wes Anderson, mas um dos melhores trabalhos do diretor e parada obrigatória para quem aprecia o seu estilo diferenciado. O filme diverte, emociona e nos traz um clima de nostalgia dos tempos de colégio e da juventude, assim como todas as descobertas, paixões e frustrações que vêm junto. Recomendado.
A Vida Marinha com Steve Zissou
3.8 456 Assista AgoraEm seu quarto trabalho como diretor, Wes Anderson nos apresenta mais uma criativa história que mistura comédia e drama. Neste caso, possui um tom, creio, mais dramático do que o habitual em suas obras - apesar de manter as cores vibrantes e humor seco característicos. Tendo adquirido um status "cult" com o passar do tempo, "Vida Aquática com Steve Zissou" não está dentre os melhores filmes do cineasta e não foi bem recebido na época, porém, dentre erros e acertos, ainda constituiu um filme agradável e mais profundo do que a maioria imagina.
Em primeiro lugar, importante deixar bem claro que qualquer um que assistir a essa película esperando uma grande aventura marítima durante a qual serão exploradas as profundezas dos oceanos - ao melhor estilo "20.000 léguas submarinas" - poderá se decepcionar um pouco. Por razões óbvias, existem varias cenas que nos imergem nos mais diversos ambientes marinhos, cuja natureza serve como pano de fundo para a história, mas o longa, fundamentalmente, não foca naquilo que ocorre dentro da água, e sim fora dela. Além disso, não é um filme sobre a vida aquática, e sim sobre a vida humana, e as aflições e complicações nela presentes.
Mais especificamente, este filme é sobre Steve Zissou, um cineasta, oceanógrafo e aventureiro, que funciona quase como uma paródia do famoso - e verdadeiro - explorador Jacques Costeau. Arrogante, orgulhoso e já no alto de seus 52 anos, Zissou, que havia construído fama e uma carreira de sucesso com documentários contando a sua jornada pelos sete mares, encara agora um declínio tanto em sua vida profissional quanto pessoal, bem como uma crise de meia idade. Do lado profissional, percebe filas cada vez menores para acompanhar os seus filmes e sente estar sendo esquecido pelo resto do mundo antes mesmo de se aposentar ou morrer. No quesito pessoal, vive um casamento em ruínas e que mantinha-se meramente nas aparências.
Diante desse contexto, Zissou, extremamente preocupado com a sua própria imagem e em ter o seu legado lembrado, já inicia esta película em um estado de melancolia e depressão ao perceber o interesse ao seu trabalho se esvaindo, os seus amigos o deixando e a esposa se afastando. Bill Murray, figurinha carimbada nos filmes de Anderson, encontra-se aqui perfeito em um papel que parece ter sido feito para ele. Em uma performance que, sob um certo ângulo, lembra "Lost in Translation", interpreta, com competência, um homem aterrorizado com o futuro e sofrendo com a inevitável passagem do tempo, no entanto que também prefere deixar tais sentimentos, em grande parte, internalizados.
Sendo assim, o filme acaba tendo o seu componente dramático se sobrepondo a comédia e se tornando talvez um dos mais tristes da carreira de Anderson. Tal fato se deve a essa luta constante de Zissou em resolver os inúmeros problemas que se acumulam em sua vida e a batalha contra um adversário que não pode ser vencido: o tempo. Esse arco principal, envolvendo o protagonista, é muito bem construído, e igualmente alavancado por Murray, cujo estilo de atuação - prepotente, cheio de si e com tons de humor sarcástico - encaixa-se ao personagem em questão.
O filme tem dificuldade, porém, em explorar alguns elementos da trama. Por exemplo, o relacionamento entre Steve e Ned, até proporciona algumas poucas boas cenas, mas nunca é realmente aprofundado de maneira proporcional a importância que deveria ter para a história. Além disso, a mudança de comportamento do protagonista e o seu "arco de redenção" não funcionam tão bem quanto em outras produções do diretor com arcos semelhantes. Sendo sincero, ocorre de maneira um tanto repentina e sequer dá para considerar uma mudança considerável. Outro aspecto que atrapalha é o ritmo da película, que, em diversas situações, torna-se excessivamente arrastado sem que tal demora para os eventos acontecerem, por sua vez, agregue algo de relevante ou benéfico a narrativa.
Por fim, o veredito é que o filme, apesar de não ser ruim como a terrível recepção que teve por parte de público e crítica há 20 anos possa fazer parecer, também esta longe da melhor versão de Wes Anderson, possuindo um roteiro, em determinados momentos, falho. No mais, vale ressaltar que a experiência é melhorada - de forma considerável - pelo belo visual e pela inusitada participação de Seu Jorge, que rouba a cena e fornece uma interessante atmosfera com o seu cover, em português, de músicas do David Bowie.
Viagem a Darjeeling
3.8 451 Assista AgoraProsseguindo em minha maratona pela cinematografia de Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling" divide opiniões e não está dentre os seus melhores trabalhos, porém ainda assim consegue entregar, com algumas ressalvas, um resultado satisfatório. A película acompanha três irmãos que embarcam em uma viagem de trem, pela Índia, com o objetivo de se reaproximarem e curarem feridas do passado. Nesta obra, o diretor, mesmo conservando muito do seu estilo característico, traz uma abordagem, em minha avaliação, mais focada nos personagens e suas relações do que propriamente no visual.
Quanto a esse último quesito, creio que talvez seja o grande diferencial do filme e o seu principal positivo, que é o foco no relacionamento entre os protagonistas. Inclusive, a a relação entre irmãos - e quem não for filho único sabe do que estou falando - é aqui muito bem representada. É uma complexa situação em que as pessoas envolvidas se amam e se preocupam umas com as outras, mas, em muitas oportunidades, têm dificuldade de expressar tais emoções, o que pode gerar um estranho distanciamento por vezes confundido com indiferença.
A fala "Será que seríamos amigos se não fôssemos irmãos?" sintetiza, com simplicidade e perfeição, esse complicado sentimento de irmandade, em que conhecer uma pessoa desde a infância e crescer junto com ela não necessariamente traz, de forma imediata, confiança e amizade. No caso, às vezes isso demora para ser construído ou até está presente durante a infância, porém depois se desfaz na fase adulta e precisa ser reatado - isto ocorre com os irmãos Whitman.
No início, Francis prepara um verdadeiro planejamento para a viagem, com um itinerário meticulosamente organizado a fim de fazê-los passar por todos os locais sagrados e rituais supostamente necessários para a "transformação espiritual" que almejava estabelecer. A ironia, por sua vez, reside no fato de que foi somente na ocorrência de imprevistos pelo caminho que os três irmãos verdadeiramente conseguiram reatar os laços.
Nesse sentido, a moral da história é que qualquer jornada espiritual não ocorre apenas se apropriando de vestimentas específicas, imitando rituais e visitando locais específicos. Esse processo, logo, tem de ser algo interno, e não forçado de fora para dentro. Tem de ser algo genuíno, natural e até inesperado, e não preparado artificialmente. Ao longo da trama, é através das situações mais inusitadas que os protagonistas se aproximam, de maneira gradativa e bem desenvolvida por Anderson, junto a uma excelente trilha sonora.
No entanto, o filme também tem os seus problemas, com dois em particular que me incomodaram. O primeiro reside no trio de atores principal, que, em minha humilde opinião, não consegue trazer a profundidade que o filme tenta alcançar - Schwartzman e, sobretudo, Bordy, até se esforçam, mas Wilson é incapaz de entregar algo além do genérico. O segundo encontra-se em diversos elementos no roteiro que não são bem desenvolvidos, como a relação com a mãe - que aparece pouquíssimo - e o que motivou o afastamento entre os irmãos.
Em resumo, o filme, apesar de bom e eficiente em seu arco principal, falha em aprofundar outros temas e personagens secundários, bem como é prejudicado por atuações medianas do elenco. Levando tudo em consideração, vale a pena, mas recomendo assisti-lo somente após ver "Hotel Chevalier", um curta que funciona como prólogo e ao qual algumas referências são feitas.
O Fantástico Sr. Raposo
4.2 961 Assista AgoraAlguns artistas têm uma maneira de cativar o nosso olhar com a certeza do que fazem, seja pela temática da obra, pelo estilo ou por outro motivo às vezes inexplicável. Pois bem, Wes Anderson encaixa-se, perfeitamente, nessa definição. Baseado no livro homônimo escrito por Roald Dahl, "O Fantástico Sr Raposo" é mais um desses trabalhos do diretor que conseguem contar uma interessante história de maneira divertida, leve e excêntrica, porém sem deixar de abordar assuntos complexos e provocar reflexões.
Isso vai parecer um tanto estranho, mas um dos elementos que tornam este longa tão bom é o "paradoxo" que o compõe, isto é, como as suas ideias e escolhas são aparentemente conflituosas entre si e, não obstante, como coeso o resultado final acaba se tornando. Para início de conversa, temos um filme infantil cujo protagonista está passando por uma crise de meia idade. No caso, uma raposa, atualmente colunista em um jornal, que se vê paralisada pela passagem do tempo, encontrando-se diante tanto de um temor em relação ao futuro - pois está chegando ao final da vida - e de uma nostalgia acerca do passado. Então, ele decide retomar o que fazia durante a juventude, ou seja, roubar galinhas - dessa vez, no entanto, em uma escala muito maior, pois os alvos serão os poderosos fazendeiros Boggis, Bunce e Bean.
O problema é o risco que isso envolve, pois poderia não somente, após tantos anos longe de sua "rotina criminosa", ser capturado, como também colocar em perigo sua família e amigos. Analisando apenas pelo que foi descrito até aqui, muitos seriam levados a crer que se trata de uma espécie de drama familiar - e é, de certa forma. Porém, Wes Anderson, com o seu estilo característico, traz um tom lúdico e infantil para a história de um adulto em crise. Aliás, mais do que montar essa "salada" de elementos, o diretor consegue balancear o drama e a comédia de tal maneira que um não ofusca o outro e cada qual se encontra na medida certa. O filme é divertido e hilário, e, quando preciso, igualmente emocionante e profundo.
Verdade seja dita, utilizar animais selvagens para explorar a natureza humana não é algo novo - na verdade, bastante comum em filmes animados. O grande diferencial desta película é a forma como isso é feito. Ao prestar um pouco de atenção nos detalhes, percebemos que os animais se vestem como se estivessem nos anos 50, possuem empregos respeitáveis, comunicam-se com educação e polidez e agem com um grau civilizado. Enquanto isso, os poderosos fazendeiros, por sua vez, comportam-se de maneira mais animalesca e furiosa do que qualquer animal que aqui é retratado. No entanto, os animais são cientes do seus instintos e de sua natureza, enquanto os humanos, por outro lado, não percebem a destruição que provocam ao seu redor.
Obviamente, resumir esta obra somente a partir da velha dicotomia "animais vs humanos" seria muito pouco, pois o filme aborda inúmeros temas. É sobre valorizar aquilo que temos no presente, ao invés de alimentar uma cobiça constante por mais riquezas materiais no futuro ou um desejo obsessivo der retornar ao passado. É sobre encontrar a sua própria identidade, não se preocupando em ser "diferente" ou não dos outros, e sim reconhecendo que temos distintas personalidades e habilidades. E é sobre sobrevivência, mencionada no discurso final, isto é, nossa paixão e impulso para fazer com que o mundo crie um espaço para nós, em vez de deixarmos que o mundo nos coloque em um lugar para sua própria conveniência.
Isso me faz retornar, neste comentário que já está se tornando longo, ao que havia dito antes: o belo paradoxo que este filme representa. Mesmo sendo uma obra destinada ao público infantil e com uma trama, a rigor, simples, provoca várias reflexões, sendo que algumas podem até passar despercebidas perante todas as aventuras e piadas presentes na história e o ritmo dinâmico estabelecido por Anderson. De igual maneira, também pode passar despercebido o esforço gigantesco por trás da produção, que utilizou uma das mais antigas formas de animação, o "stop motion", em que a construção de um único frame já é um trabalho extremamente cansativo - porém que compensa no final.
Aliás, todo o estilo do filme é um verdadeiro deleite aos nossos sentidos. Além de todas as características às quais já estamos acostumados na cinematografia do diretor, a animação confere, dentre outras coisas, uma textura diferenciada - os pelos dos animais, por exemplo, são bem realistas. E, claro, os competentes efeitos visuais, a incrível trilha sonora e a belíssima fotografia, que, combinadas com maestria, constituem um filme que reúne elementos de pintura e de teatro de bonecos simultaneamente. Em linhas gerais, com um humor eficiente e uma complexidade que, paradoxalmente, reside em sua simplicidade, este é um dos melhores trabalhos de Wes Anderson e uma obra que cativa públicos de todas idades.
Tron: O Legado
3.2 1,8K Assista AgoraSão poucas as vezes em que uma sequência consegue superar a obra que a precedeu, mas este, com certeza, é um desses casos. Enquanto o original foi revolucionário quanto a temática abordada e a tecnologia empregada - porém com um enredo mediano, esta produção consegue conciliar o deslumbrante e futurista visual com uma história, apesar de algumas ressalvas, mais sólida. Com espetaculares efeitos visuais e sonoros, "Tron: O Legado" é não somente um bom filme, mas uma verdadeira experiência cinematográfica, levando o universo criado por Steven Lisberger a um outro patamar.
Um dos aspectos que mais me agradou na história, além de toda a expansão feita em comparação ao primeiro filme, é a relação entre Kevin, o criador desse mundo digital, e Clu, a sua réplica virtual, criada com a missão de ajudá-lo a construir um "mundo perfeito". O problema é que o significado de "perfeição" pode ser, muitas vezes, complexo e difícil de definir, sendo algo que, nas palavras do próprio criador, sequer ele sabia descrever quando criou a sua cópia.
Alguns enxergam na presença de ordem e organização o ápice da perfeição, enquanto outros, por outro lado, entendem a desordem e a liberdade como elementos intrínsecos para o perfeito. Na ausência de uma definição clara, Clu opta pelo que considera ser o correto, que é controlando o mundo digital sob a forma de uma tirania, na qual qualquer coisa considerada imperfeição teria de ser eliminada, bem como qualquer obstáculo no caminho, inclusive o próprio Kevin. Logo, o antagonista não se enxerga fazendo o mal, e sim cumprindo a tarefa que foi designada a ele, o que dá complexidade ao personagem e à trama.
Acompanhando essa interessante história, estão os incríveis efeitos visuais, que realizam uma completa imersão, ao espectador, no mundo digital de Tron e proporcionam um deleite aos olhos de quem assiste ao filme. Também não dá para deixar de mencionar a eletrizante trilha sonora composta pelo Daft Punk, que contribui na ambientação de um universo futurista e "techo-noir". A combinação desses dois elementos, sem dúvida, garantem uma identidade marcante ao longa e, por si só, já tornam válida a experiência.
Os pontos negativos, no entanto, residem no roteiro, que, mesmo indiscutivelmente superior ao da obra original, tem falhas e um grande potencial desperdiçado, sobretudo na segunda metade. Primeiro, o plano de Clu, não obstante o fato de ser um personagem interessante, é bastante superficial e genérico, caindo no velho clichê de "vilão que quer dominar o mundo de alguma forma". Segundo, Zuse e Tron - cujo retorno é mal explicado - são personagens completamente descartáveis e que tomam decisões incoerentes, apenas ocupando um tempo que poderia ter sido melhor aproveitado com mais cenas da Korra.
Em resumo, é um bom filme e uma continuação que supera, por muito, o original. Porém, fiquei com a sensação de que diversos elementos do roteiro poderiam ter sido melhor desenvolvidos e, no final das contas, o que realmente se destaca é o visual e a trilha sonora.
Os Excêntricos Tenenbaums
4.1 865 Assista AgoraDepois de muito tempo, decidi reassistir a esse filme e, sem dúvida, foi uma decisão acertada. Sendo apenas o terceiro longa da carreira de Wes Anderson, é possível perceber que ele ainda aperfeiçoava os seus toques característicos — uma mistura de humor sofisticado e rasteiro, simetria, pathos mórbido e um grande elenco. Apesar disso, não seria exagero dizer que esta obra, que aborda temas familiares delicados e provoca reflexões de uma forma lúdica e divertida, é também um dos melhores trabalhos do diretor.
No início, somos logo apresentados a uma breve introdução do passado dos Tenenbaums e das características de cada um dos personagens. De maneira eficiente, Anderson nos mostra as personalidades dos excêntricos indivíduos que irão fazer parte da história, os traumas que carregam e como tais elementos influenciaram - e continuam influenciando - em suas vidas e ajudaram a montar uma grande e disfuncional família. Um pai ausente, uma mãe que deu pouca liberdade aos filhos e crianças superdotadas e talentosas - mas que se tornaram adultos fracassados. Aliás, o elenco, de uma maneira geral, realiza uma grande performance na representação dessas interessantes figuras
Mas quem realmente faz o filme brilhar é Gene Hackman. O lendário vencedor do Oscar interpreta Royal Tenenbaum, o patriarca distante e moralmente flexível, que, agora falido e sozinho, tenta retomar a família. Hackman não queria participar dessa produção, odiou as filmagens e não entende Wes Anderson nem um pouco — e atua como se estivesse em um filme de Gene Hackman o tempo todo. E é isso que o torna especialmente "cru" e perfeito no papel — e sutilmente hilário.
Ao longo da trama, acompanhamos os percalços enfrentados por Royal ao tentar reatar os laços com os seus familiares, bem como o complicado relacionamento entre os próprios irmãos. À medida em que vai se tornando clara a presença de uma sólida barreira entre ele e sua família, fica igualmente evidente, para si, o estrago que o fato de ter sido um péssimo marido e um pai ausente fizeram a ele e a todos ao seu redor. Esse arco principal, graças a um roteiro bem elaborado, flui naturalmente, mesclando humor e drama na medida certa, e é acompanhado por bons arcos secundários, como aquele entre Richie e Margot, que, em dado momento, até toma para si o protagonismo da película.
Vale também destacar os aspectos técnicos, tais quais a eficiente edição, uma belíssima fotografia e uma trilha sonora espetacular, que tornam a experiência do espectador, mesmo em alguns momentos mais dramáticos, extremamente agradável e divertida. Em resumo, uma dramédia excêntrica e criativa que mostra como até a mais estranha e disfuncional família pode ter, com o devido esforço, solução.
Curiosidades:
O falcão chamado Mordecai foi sequestrado no meio das filmagens, e precisou ser trocado. Foi exigido dinheiro para devolver a ave, e, para não correr o risco das negociações atrasarem o processo de gravação, a equipe optou por substituir o falcão. É possível notar como, da metade para o final do filme, a ave possui mais penas brancas do que visto anteriormente, isso aconteceu pois são falcões diferentes.
O roteiro de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) começou a ser escrito inspirado no divórcio dos pais do cineasta Wes Anderson: Melver e Texas Anderson. Contudo, conforme o processo de escrita foi fluindo, muitas características foram alteradas e o filme acabou não sendo tão fiel à realidade, apenas se assemelhou na profissão da mãe do cineasta e da personagem Etheline: arqueóloga.
Wes Anderson comentou em entrevistas sobre ter escrito o papel de Royal Tenenbaum pensando especificamente em Gene Hackman, porém, o ator quase recusou o convite. Segundo Hackman, ao ler o roteiro, se sentiu mal, pois enxergou muito do jeito frio e insensível do personagem nele mesmo, e achou que poderia desagradar a família ao interpretá-lo. No entanto, os familiares apoiaram Hackman a aceitar a oferta.
Dinheiro Suspeito
3.4 140 Assista AgoraEm "The Rip", acompanhamos o mais novo trabalho da dupla Ben Affleck/Matt Damon, que aqui estão como produtores e atores principais. Em uma mistura de suspense e ação que prende bem a atenção do espectador, a obra entrega um bom entretenimento para quem está zapeando o catálogo da Netflix e só quer algo para passar o tempo. No entanto, para aqueles que desejam uma história com maior profundidade e que fuja de clichês/fórmulas prontas talvez não seja a melhor escolha.
O diretor Joe Carnahan é competente, inclusive com o uso dos tons escuros, em criar o clima de suspense, até emulando um ambiente "noir" semelhante aos filmes dos anos 90, e na produção das cenas de ação. Por outro lado, os roteiristas não tem a mesma felicidade, ao montarem uma trama com potencial e alguns pontos positivos, porém com diversas escolhas previsíveis, desenvolvimento quase nulo das personagens e superficialidade na narrativa, que não ultrapassa aquele mesmo modelo de película já conhecido e visto inúmeras vezes e que derrapa bastante no final ao tentar colocar um plot twist atrás do outro.
Se não bastasse isso, ainda há a incessante necessidade, reconhecida pelos próprios produtores, de ter de, a cada dez minutos, gerar alguma cena impactante/reviravolta ou explicar ao público o que está acontecendo para evitar que aquele espectador que fica olhando pro celular durante o filme perca o fio da meada, o que empobrece a qualidade da obra. Em resumo, é um passatempo válido, mas, se é pra assistir algo nesse estilo, recomendo qualquer clássico dos anos 80 ou 90, pois, além de serem melhores, também possuem mais originalidade e carisma.
Cruzada
3.4 654 Assista AgoraA primeira coisa a se dizer sobre "Cruzada" de Ridley Scott é que o diretor domina a arte de dirigir um épico histórico. Com belíssimos aspectos visuais e uma competente direção, o cineasta nos insere, mesmo que com algumas toleráveis imprecisões, ao contexto que antecedeu às Terceiras Cruzadas, em um momento de disputas, sobretudo, pela sagrada cidade de Jerusalém. No meio disso, temos uma história que mescla acontecimentos reais e fictícios e aborda temas complexos, o que é mais possível ser verificado na versão estendida, a qual recomendo a todos assistirem.
Em segundo lugar, quem pensar que o filme traz uma abordagem pró-cristã ou pró-islâmica estará equivocado. Na realidade, Scott não toma lados aqui, mas estabelece uma interessante abordagem ao explorar as contradições inerentes, para cristãos e muçulmanos, de uma guerra santa — um conflito mortal em nome de um deus todo-amoroso. Diante dessa carnificina, é o protagonista Balian, ironicamente um dos poucos sem qualquer religião, que toma as atitudes mais condizentes a aquilo que a religião, em tese, prega.
Por outro lado, este não é um filme contra a religião em si, sobretudo por mostrar não apenas como, durante um século, Jerusalém teve paz entre cristãos e muçulmanos, mas também a cordialidade e o respeito cultivados entre os reis Balduíno e Saladino. Tal qual é deixado bem claro pelo diretor, a paz somente é quebrada quando grupos radicais, dos dois lados, clamam pelo conflito. Portanto, a película não é anti-religião, e sim anti-extremismo - ou, contra aqueles que usam de motivos religiosos para mascarar interesses obscuros.
Sendo assim, Scott retrata personagens mais preocupados com poder, ascensão social e redenção pessoal do que com questões teológicas em si. Por exemplo, Balian, um ferreiro de uma aldeia na França, descobre que é filho ilegítimo de Sir Godfrey, que é um cavaleiro que retorna do Oriente Médio e descreve Jerusalém não em termos de uma guerra santa, mas em termos das oportunidades que oferece a um jovem ambicioso que quer recomeçar na vida. Além disso, existem as distintas facções políticas que rondam o rei de Jerusalém e tentam influenciá-lo não em nome de uma causa maior, e sim por interesses próprios.
Em meio aos complexos temas abordados e reflexões instigadas, o filme é, inegavelmente, muito bem produzido em seus aspectos técnicos. Direção, figurino e cinematografia são alguns dos elementos a serem aqui realçados, em especial as eletrizantes e épicas cenas de batalha, que, acompanhadas de grandes visual e trilha sonora, prendem a atenção do espectador do início ao fim - dentre tantas, a sequência que mostra o cerco de Jerusalém é espetacular.
Também merece destaque a atuação do elenco. Sobretudo, gostaria de fazer uma menção honrosa a Edward Norton, interpretando o rei Balduíno. O ator prova que não existem papéis pequenos, apenas atores pequenos, ao entregar, em um papel bem mais limitado, uma atuação muito mais memorável do que Bloom, que apresenta uma performance somente mediana e destoante dos outros atores. Como o um homem seriamente afetado pela lepra, Norton está coberto por uma máscara, então tudo o que ele tem para transmitir personalidade e emoção são seus olhos e sua voz. Muitos atores poderiam ter se sentido tentados a exagerar sob aquela máscara para compensar o rosto oculto, mas Norton não se deixa intimidar por isso e entrega o que é necessário.
Um dos melhores trabalhos de Scott, mas que, reafirmo, deve ser apreciado na versão estendida, bem superior à teatral. Recomendado.
Munique: No Limite da Guerra
3.5 63 Assista AgoraBaseado no livro "Munich", de Robert Harris, o filme "No Limite da Guerra", tal qual a obra que o inspira, retrata uma história fictícia de dois diplomatas, um inglês e outro alemão. Como fundo para essa ficção, estão os acontecimentos reais que envolveram a Conferência de Munique, em 1938, e a tensão de uma Europa pré-guerra. Diferente de outras produções do gênero, esta película traz uma interessante abordagem focada no trabalho feito, nos bastidores, por funcionários dos governos, em seus mais variados setores.
Quanto aos aspectos técnicos, não dá para negar que o filme é muito bem produzido, desde o figurino até a ambientação da época, sob condução de uma competente direção. Os problemas residem no roteiro, que apresenta dificuldade em conciliar os dois arcos principais, isto é, os fatos reais e a ficção. Enquanto boa parte dos eventos verdadeiros é retratada com qualidade, a parte fictícia, convenhamos, não é tão interessante assim e, muitas vezes, é pouco útil à trama central envolvendo as negociações entre ingleses e alemães.
Além disso, o diretor, por algum motivo, opta por fazer um considerável revisionismo histórico na forma como Chamberlain é representado. O retrato, interpretado por Jeremy Irons, de um homem doce e sensível, que queria a paz a qualquer custo por conta dos amigos que perdeu na guerra, simplesmente não condiz com quem ele foi de fato. Na realidade, o político era, segundo diversas fontes, um senhor arrogante guiado pela ingênua noção de que poderia enganar Hitler. E se isso não bastasse, diferente do que o filme aponta, o fracassado acordo de Munique não "deu tempo" para a Inglaterra se preparar, e sim foi vital para fortalecer os alemães a um início avassalador na guerra.
Eu, Tonya
4.1 1,4K Assista AgoraA história de Tonya Harding - e de todo o escândalo envolvendo o "incidente" no qual esteve envolvida - é uma das mais bizarras e tragicômicas já vistas no esporte mundial, a um ponto em que alguns fatos reais retratados no filme são tão absurdos que até parecem ter sido inventados. Nesta obra, o diretor Craig Gillespie opta por contar esse estranho caso de uma forma semelhante a um "mockumentary", quebrando a quarta parede e com cada personagem contando a sua versão dos acontecimentos sob o seu próprio ponto de vista.
Essa maneira de apresentar a história é não somente interessante, mas também coerente com o caso aqui retratado, que, até os dias de hoje, possui inúmeras dúvidas e diferentes versões por parte dos indivíduos envolvidos. Sendo assim, tal qual a imprensa e as autoridades jamais conseguiram obter uma resposta definitiva quanto ao incidente abordado e o tamanho da participação de Tonya nele, o filme tampouco o consegue e nem faz questão disso, deixando bem claro, desde o começo, que alguns fatos mostrados não necessariamente ocorreram da forma descrita.
Um outro acerto da película reside na escolha de trazer uma abordagem que mistura, acompanhada de uma boa trilha sonora, drama e comédia. Afinal, apesar do ocorrido na vida da protagonista ser trágico, não dá para virar as costa para o ridículo presente nas ações dos personagens, que tomam uma decisão errada atrás da outra. O elenco, inclusive, realiza um grande trabalho, tanto na parte dramática quanto na cômica, com especial destaque para Margot Robbie, que aqui, provavelmente, encontra-se em sua grande performance da carreira.
A produção, no entanto, peca em não mostrar mais do que ocorre na vida dos envolvidos após o incidente, em especial nas investigações policiais e batalhas legais que o sucederam, sendo esse trecho bastante "apressado" - por exemplo, a protagonista, em uma cena, está do lado do ex-marido e, na outra, o entrega às autoridades. Da mesma maneira, o filme, que desde o princípio deixa claro que a história possui diversas imprecisões e versões, nitidamente realiza uma interpretação dos eventos mais favorável à Tonya, retratando-a como vítima.
Não me levem a mal, Tonya é, sem dúvida, vítima de uma infância pobre e cruel, de uma mãe abusiva, de um marido agressor e de pessoas incrivelmente estúpidas que a cercaram. Por outro lado, é também verdade que ela continuou o relacionamento com Jeff mesmo tendo ciência do seu comportamento e, além disso, apesar de não haver certeza até onde ia o conhecimento dela acerca do incidente, é fato que sabia que iriam fazer alguma coisa - recentes entrevistas e trechos da investigação mostram que a patinadora sabia mais do que admitia.
Logo, "Eu, Tonya" é uma boa "dramédia", acerca de como uma pessoa extremamente talentosa e esforçada pode ter a vida arruinada por pais irresponsáveis, más influências e, claro, por escolhas erradas. Um bom passatempo para quem curte filmes do gênero.
Otesánek
3.9 106Tal qual é descrito na sinopse, "Otesánek" é um filme inspirado no conto de fadas tcheco criado por Karel Jaromír Erben, no século 19, que conta a história de um tronco de madeira vivo e constantemente faminto. Nesta produção, o folclore é adaptado a tempos modernos, com a "criatura" servindo como o "filho" para um casal infértil. Do ponto de vista técnico, a película tem os seus problemas, porém é, com certeza, uma das experiências cinematográficas mais interessantes e bizarras que já tive e um passatempo válido para quem quiser fugir da mesmice.
O roteiro, pelo menos durante o período em que Otik nasce e vai começando a aterrorizar a todos, prende bem a atenção do espectador, mas também tem os seus momentos previsíveis e peca em dividir o protagonismo da história entre o casal e a garotinha. De início, somos cativados pelo grau de bizarrice do filme, mas a produção falha em dar consistência a essa trama e em ir além do mero exótico.
De uma maneira geral, a película, entre erros e acertos, reúne elementos de fantasia, comédia e terror e, ao longo da história, vai se revezando entre eles, bem como alterna-se entre o real e a imaginação. No entanto, mesmo eu que normalmente aprecio obras nesse estilo, tenho que reconhecer que faltou mais competência, tanto na direção quanto no roteiro, em explorar a interessante proposta que aqui é apresentada.
Dia de Treinamento
3.9 763 Assista AgoraEm "Dia de Treinamento", acompanhamos o primeiro dia do novato Jake Hoyt, que deveria ser somente uma formal introdução, à rotina do departamento de Narcóticos, na polícia de Los Angeles. Mais especificamente, à rotina do veterano agente Alonzo Harris, que utiliza métodos ilegais e moralmente questionáveis, para dizer o mínimo. Ao longo do filme, somos também inseridos ao submundo do crime, no qual traficantes e policiais corruptos pouco são diferentes, em uma trama bem elaborada, eletrizante e tensa que prende a atenção do espectador do início ao fim.
Esta é daquelas obras em que os personagens são tão reais, interessantes e bem construídos, que a história acaba fluindo naturalmente, com eles nos levando, a partir de suas ações, a esse mundo de crimes, corrupção e mentiras. Sendo assim, o roteiro é carregado pelos personagens nele inseridos e não o contrário. Por exemplo, Alonzo, é uma figura carismática e com uma personalidade forte e que, também em boa parte graças à grande atuação de Denzel Washington, imediatamente rouba a cena e se torna o centro das atenções na trama.
À princípio, podemos ser levados a crer que Alonzo é daqueles policiais que utilizam de métodos ilegais e "sujam as mãos" com o verdadeiro propósito de prender grandes traficantes e até podem possuir, no fundo, boas intenções, em um cenário no qual os fins justificariam os meios. Inclusive, o próprio novato, Hoyt, inicialmente também se deixa levar pela lábia do veterano e, embora continue não concordando, prossegue com seu treinamento, crendo que a recompensa de trabalhar nessa divisão e retirar as drogas das ruas seria suficiente para aturar toda a sujeira que presenciava.
Durante o filme, porém, aos poucos vão ficando cada vez mais claras as reais intenções de Alonzo, que pouco se importa em combater o crime ou as drogas, mas visa somente o benefício próprio. Sendo um verdadeiro manipulador e um sujeito sem escrúpulos, não mede esforços para conseguir o que quer e vê as pessoas ao seu redor como meros instrumentos para atingir os seus objetivos.
O diretor é bastante competente ao realizar um ótimo contraste entre os dois policiais, nas diferentes formas de enxergar o mundo e nas moralidades completamente opostas. Igualmente, também repassa, ao espectador, a mesma sensação de tensão e choque sentidas por Hoyt, que, eventualmente, tem os seus princípios em rota de colisão com aquilo que Alonzo vê como normal e precisa escolher qual caminho, o que desencadeia uma grande cena final.
Um filmaço e um dos clássicos do gênero policial. Recomendado.
Um Contratempo
4.2 2,0KSem dúvida, "Um Contratempo" é daqueles filmes em que o roteiro é o grande diferencial, envolvendo o espectador e prendendo a sua atenção até o último instante, em uma trama repleta de reviravoltas. Ao longo da história, somos apresentados a diferentes versões e possibilidades quanto a forma com a qual os acontecimentos ocorreram. À medida em que acompanhamos o desenrolar das distintas reconstituições, também conhecemos mais acerca dos personagens envolvidos e do que seriam ou não capazes de fazer para ter o que querem.
O grande mérito deste filme, em meio a tantos, é mostrar as várias versões da história de maneira em que, no momento em que são apresentadas, cada qual é perfeitamente válida e lógica até o momento em que aparece algum elemento que a anule. Dessa maneira, somos confundidos, propositalmente, pelo roteirista, a acreditar em diferentes possibilidades até que, no último instante, a verdade vem à tona, como um grande quebra cabeça em que as peças enfim se encaixam.
Para quem curte suspenses investigativos/policiais ou para quem simplesmente aprecia um roteiro inteligente e que instiga o público a pensar, esta é uma boa pedida e mais um belo exemplar do cinema espanhol.
A Rocha
3.5 294 Assista AgoraSe tivéssemos que fazer uma lista dos melhores filmes de ação dos anos 90, seria impossível deixar "A Rocha", um dos clássicos desse período, de fora dessa discussão. Contendo ação, humor e drama na medida certa e uma história envolvente, esta produção consegue, também graças a boa direção de Michael Bay e um grande elenco, trazer um entretenimento, ao espectador, que cumpre bem aquilo que se propõe a fazer, de maneira, ao mesmo tempo, simples e marcante.
Em primeiro lugar, acho importante começar logo tecendo elogios ao tão criticado, na maioria das vezes com razão, Michael Bay. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, o cineasta mostra que é capaz de ir além do seu "festival" de explosões e ação psicodélicas e contar, no tom certo e de forma compreensível ao público, uma trama envolvente e bem escrita. Nesta película, Bay utiliza de suas habilidades para proporcionar, ao espectador, uma narrativa eletrizante, intensa e que prende a atenção de quem assiste, porém que também sabe quando frear um pouco o ritmo, "respirar" e permitir o desenvolvimento das personagens e da história.
Aliás, as personagens desse filme correspondem, sem dúvida, a um ponto a se destacar. Sendo interpretados com competência pelos atores envolvidos, são não somente personagens interessantes, carismáticos e que possuem uma boa conexão entre si, mas que igualmente têm motivações coerentes por trás de suas ações. Por exemplo, a dupla Mason e Goodspeed, muito bem representados por Connery e Cage, possuem, em meio às suas, digamos, diferenças de estilo, uma grande "química".
Também gostei da motivação do personagem de Ed Harris, que foge dos clichês que costumam pairar sob antagonistas em filmes de ação, que normalmente querem roubar dinheiro ou "destruir o mundo". Por um lado, ele tinha uma causa justa para buscar compensação para as famílias dos soldados que foram deixados para morrer propositalmente na Guerra do Golfo. Por outro, ele manteve reféns e ameaçou lançar foguetes contra civis, mas mesmo isso acabou sendo uma artimanha porque ele nunca realmente os machucaria. Na cena de abertura, inclusive, o General e os fuzileiros navais não matam um único soldado na instalação de armas químicas. Boas intenções e bons princípios, porém com procedimentos horríveis.
É bem verdade que, como a maioria das obras desse gênero, também tem os seus furos de roteiro, situações um tanto "forçadas" e a necessidade de fazer uma piadinha em momentos de grande tensão, mas nada que atrapalhe ou estrague o entretenimento. No geral, um bom filme de ação e, com méritos, um clássico dos anos 90.
Frankenstein
3.7 596 Assista AgoraEm "Frankenstein", o diretor Guilhermo del Toro realiza uma adaptação bastante "livre", para dizer o mínimo, da famosa obra da escritora Mary Shelley. Devido à liberdade da qual faz uso e do seu estilo marcante de direção, o autor foge de repetições presentes em outras adaptações do emblemático livro e nos apresenta uma história com elevado potencial e uma interessante perspectiva. No entanto, del Toro falha em diversas escolhas e pouco explora o potencial da trama que ele mesmo construiu.
Primeiramente, destaco os pontos positivos, dentre os quais é difícil não mencionar os aspectos técnicos, como figurino/maquiagem, fotografia e direção, que sempre são algo a se elogiar nos filmes do cineasta mexicano. Somado a isso, temos a grata surpresa de Jacob Elordi, que aqui entrega uma boa atuação e, sob a carcaça de um monstro, consegue transmitir uma feição humana e melancólica, o que se encaixa, perfeitamente, naquilo que tanto del Toro quanto Shelley compartilham de entendimento acerca do personagem em questão.
Aliás, a decisão de dedicar uma parte considerável da película a uma história narrada pela própria "criatura" é ótima e representa uma novidade extremamente bem vinda aos filmes que adaptam o livro, mesmo com vários elementos do enredo original sendo alterados. As cenas que reúnem a criatura e o idoso, presentes nesse segmento, são de uma beleza que não pode passar despercebida.
O problema é que, em meio a elementos interessantes e momentos bonitos, o filme também empilha diversos pontos negativos que, no final das contas, pesam bastante. O roteiro, por sua vez, é onde eles estão mais presentes, com várias cenas que pouco agregam à história principal, como a infância de Viktor, e inúmeros elementos explorados de forma superficial, incoerente e até "apressada". Por exemplo, a relação entre os dois irmãos e o fugaz romance entre Viktor e Elizabeth, que surge e depois desaparece na mesma velocidade.
Além disso, existe, obviamente, também a estranha e incoerente postura de Viktor perante a criatura. À princípio, o cientista a rejeita por ela não demonstrar, em sua visão, inteligência, porém, quando ela enfim demonstra grande capacidade de ser inteligente, ele a rejeita mesmo assim e até com mais veemência. E, no final, o doutor repentinamente se arrepende de tudo que havia feito contra sua criação, mesmo que estivesse a perseguindo a poucas horas antes.
Outro ponto que me desagradou foi a oportunidade perdida por del Toro de, considerando que a sua adaptação já é bastante diferente da obra de Shelley, explorar o aspecto de fantasia da criatura e da história como um todo. Inclusive, pareceu-me estranho o diretor dedicar metade do filme tentando dar um "ar científico" à trama, com o engenhoso processo empreendido por Viktor em sua criação, enquanto, no segundo ato, vemos a criatura sobrevivendo a golpes que deveriam ser fatais e tendo o poder de regeneração, que, por sua vez, seriam impossíveis do ponto de vista da ciência. Pessoalmente, prefiro a história original e considero que as alterações feitas mais prejudicaram do que ajudaram, mas, se é pra mudar, que seja feito com coerência.
Colocando tudo na balança, é um filme mediano. Tem os seus bons momentos, mas um elevado potencial desperdiçado e diversas escolhas questionáveis.
Munique
3.7 270 Assista AgoraInspirado nos assassinatos, conduzidos pelo Mossad, de pessoas ligadas ao atentado nas Olimpíadas de 1972, o filme, na realidade, utiliza, como base, a obra "Vengeance", de George Jonas. Este, por sua vez, é um livro que traz uma versão fictícia - apesar de possuir diversas informações verdadeiras - das atividades conduzidas pelos israelenses na busca pelos terroristas em questão. Sendo assim, a película, produzida sob a sempre competente direção de Spielberg, não é uma representação extremamente fiel aos fatos, mas um bom drama de espionagem, mesmo com algumas ressalvas.
Em primeiro lugar, vale destacar que os nomes dos terroristas na mira do Mossad estão corretos, bem como a forma como boa parte dos assassinatos foram conduzidos. Aliás, a maneira com a qual Spieberg mostra o passo a passo de cada operação é um dos pontos mais interessantes do filme e um prato cheio para quem gosta de obras de espionagem. O diretor realiza um grande trabalho em ambientar - e inserir - o espectador nesse clima de mistério e sigilo que caracteriza o mundo dos espiões, no qual ninguém confia em ninguém e a tensão é constante.
Por outro lado, o filme, assim como o livro, também inventa muita coisa que não existiu, excessivamente dramatiza determinados eventos e minimiza diversos detalhes importantes, como o fato da operação do serviço secreto israelense ter incluído um número bem maior de pessoas. Um outro exemplo de imprecisão é a figura de Louis, que é de uma suposta agência secreta privada e corresponde a um elemento central na trama, mas que, na verdade, é meramente um personagem fictício.
No entanto, mesmo se ignorarmos as discrepâncias em relação aos fatos reais, é justo fazer a crítica de que o protagonista poderia ter sido melhor desenvolvido, sobretudo devido a mudança final de sua postura quanto à Israel e ao seu trabalho ter sido um tanto repentina. A impressão foi que Spielberg queria passar a mensagem de que "todos somos iguais" e "guerra é ruim", que é perfeitamente válida, mas o fez de maneira apressada.
Em linhas gerais, um bom drama de espionagem, mas que, sem dúvida, não pode ser tratado como um documentário e que, mesmo sob competente direção, falha quando tenta ser mais do que realmente é.
Setembro 5
3.4 91 Assista AgoraPara quem for assistir "Setembro 5" esperando um filme sobre o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, talvez se decepcione um pouco. No entanto, a explicação para isso reside no simples fato desta produção não buscar retratar os trágicos eventos daquele dia - aliás, praticamente não temos imagens do acontecimento em si - e sim a cobertura da imprensa, mais especificamente do canal ABC, do ocorrido.
Sendo assim, o foco não é nos reféns ou nos terroristas, mas nos jornalistas e em toda a equipe do canal em questão na transmissão, ao vivo, de algo que, na época, jamais havia sido mostrado, dessa maneira, na televisão. A película realiza um bom trabalho em mostrar, com realismo e uma direção sóbria, os esforços, desafios e dilemas enfrentados por um grupo de profissionais da imprensa que estavam diante de um fato sem precedentes na história televisiva e, entre erros e acertos, procuraram reportar os acontecimentos da melhor maneira possível.
El Camino: Um Filme de Breaking Bad
3.7 853O principal problema de "El Camino" é, na realidade, bem óbvio, inclusive aos mais fanáticos fãs de "Breaking Bad", que é o fato deste filme ser desnecessário. A série, uma das melhores de todos os tempos, consegue concluir muito bem e até onde é possível, a trama e todos os arcos das principais personagens, o que torna esta produção um tanto "arrastada", com Vince Gilligan tentando extrair uma história de onde, claramente, não há mais nada a ser contado.
Sendo assim, o filme, apesar de até ter os seus bons momentos, acaba se apegando excessivamente a flashbacks e acrescentando pouca coisa nova. Além disso, tem algumas cenas que beiram o absurdo, como aquela em que Jesse e o "mecânico" travam um duelo mexicano por uma sacola cheia de dinheiro. A impressão que dá é que Vince queria contar a todos como Jesse termina a sua história e acreditou que a melhor de fazê-lo seria produzindo uma película em torno disso. No meio disso tudo, fez questão de mostrar, ao espectador, o quão psicopatas eram Todd e a gangue do Jack, algo que já tinha ficado bem claro na quinta temporada.
No geral, é mediano, mas vale pela boa direção/fotografia, pela nostalgia de rever os personagens icônicos da série e como um passatempo - apesar de determinadas cenas serem difíceis de assistir.
Extermínio: A Evolução
3.1 556 Assista AgoraApesar de não ser tão catastrófico e ruim quanto o seu predecessor, "28 Years Later" é outra produção que falha em dar continuidade, com qualidade, à obra original de Boyle, lançada há mais de vinte anos atrás. Se, por um lado, o filme apresenta uma premissa com potencial, ideias interessantes e momentos muito bem produzidos e assustadores, é impossível não ressaltar que, por outro, a história perde-se em uma trama estúpida e proporciona cenas que beiram ao absurdo.
Já começo ressaltando que gostei da ideia de uma comunidade completamente isolada e que possui uma espécie de "cerimônia de iniciação" a jovens que saem, pela primeira vez, da ilha, assim como da premissa de uma evolução entre os zumbis, com diferentes "graus" entre eles. Também achei muito bem feita a cena do primeiro encontro com o Alfa e a utilização do poema "Boots", que aqui encaixa-se perfeitamente e proporciona uma sensação de ansiedade e terror, ao espectador, antes mesmo de alguma coisa acontecer.
Os meus elogios, porém, param por aí, pois, por algum motivo, Boyle, cujo retorno à franquia foi tão celebrado, optou por levar a história por um caminho um tanto questionável, para dizer o mínimo. A trama de um menino de 12 anos, quase que completamente inexperiente e que havia tido um péssimo primeiro dia fora da ilha, levando a sua mãe para um continente repleto de zumbis, arriscando a vida de ambos, para se encontrar com um médico desconhecido, é inacreditável e inverossímil, inclusive pela própria lógica da personagem em questão, até mesmo para uma obra de ficção. E, somando-se a isso, existem ainda a famigerada cena da grávida zumbi e a loucura que foi aquilo no final.
Portanto, o veredito é que "28 Years Later" é mais uma oportunidade desperdiçada, apesar de ter os seus bons momentos no começo, de trazer uma sequência decente ao filme original. Vale pelos primeiros trinta minutos e só. No entanto, com certeza não é pior do que o filme que veio antes dele, que, por sua vez, sequer merece ser mencionado.
Princesa Mononoke
4.4 972 Assista AgoraEm "Princesa Mononoke", presenciamos uma obra muito bem feita, e visualmente belíssima, como já é costume do elevado padrão apresentado pelas produções do Studio Ghibli. Indo além dos limites convencionais da animação, Miyazaki tece uma narrativa densa, onde a dualidade entre humanos e natureza é bastante explorada. Apesar do título, o real protagonista é Ashitaka, que age como um fio condutor moral, navegando entre facções conflitantes, enquanto a princesa, por sua vez, personifica a luta selvagem pela preservação ambiental.
Em primeiro lugar, maneira como a história apresenta-se é bem interessante, com a profundidade moral do filme sendo evidente nas complexidades dos personagens, todos com motivações e nuances que desafiam as simplificações típicas do bem e do mal. Miyazaki recusa-se a oferecer respostas fáceis, permitindo que os espectadores ponderem sobre as ramificações éticas das ações dos personagens, que apresentam qualidades e defeitos e argumentos tanto favoráveis quanto contrários às suas ações. De um lado, temos os humanos que tentam sobreviver retirando recursos da natureza, mas que se excedem ao destruir demasiadamente o meio ambiente. Por outro, os entes da floresta, que querem, com razão, proteger a natureza, mas desejam fazer isso pela destruição dos humanos, erroneamente vistos por eles como todos iguais.
Nesse sentido, Myazaki afasta-se do clichê, normalmente visto em muitos filmes, de que a natureza sempre representa o bom e o puro, enquanto o homem é intrinsecamente mal e destrutivo. Nesta obra, vemos como a natureza também pode ser, muitas vezes, cruel, implacável e até mesmo injusta, além de presenciarmos divisões e conflitos entre as diferentes tribos que habitam na floresta. A obra, logo, trata do inevitável dilema entre o desenvolvimento e a sobrevivência humanos e a intocabilidade da natureza, com a necessidade de um equilíbrio entre esses dois elementos. Nenhum dos dois lados, na trama, está plenamente com a razão e, quando ambos evitam ceder e são tomados pelo ódio, todos acabam por sofrer.
Em segundo lugar, a riqueza visual de "Princesa Mononoke", como já mencionei antes, é mais um testemunho da habilidade do Studio Ghibli, com paisagens exuberantes e criaturas fantásticas que transcendem a mera estética, refletindo os temas centrais do filme. A trilha sonora também merece ser destacada, intensificando a imersão emocional sentida pelo espectador.
Pessoalmente, creio que o único ponto que poderia ter sido melhor explorado é o relacionamento entre Ashitaka e Mononoke, que, em minha humilde opinião, não foi tão bem desenvolvido e, em determinados momentos, foi um tanto "apressado". Ainda por cima, o final foi pouco satisfatório quanto a relação entre os dois.
Sendo assim, "Princesa Mononoke" não é apenas uma animação; é uma exploração poética da relação complexa entre humanidade e natureza, empregando uma profundidade narrativa e visual que a eleva a categoria dos melhores trabalhos de Myazaki e dos melhores filmes animados. Recomendado.
Estrada para Perdição
3.9 416Baseado em uma história em quadrinhos homônima, "Estrada para Perdição" é um bem produzido drama inserido no período da "antiga máfia" americana, que teve o auge no início dos anos 30, época da Grande Depressão e da Lei Seca. Apresentando-nos uma trama em que o protagonista, Michael Sullivan, foge de sua cidade com o intuito de tentar sobreviver, com o seu filho, de gângsteres com os quais previamente trabalhava, o aclamado cineasta Sam Mendes trata, com poucos diálogos e uma excelente direção, de temas como violência, vingança e o relacionamento pai-filho.
Em primeiro lugar, é importante destacar não somente a história em si, que é ótima, mas a forma como é contada. Apesar de ser um filme que se passa no violento e conturbado mundo dos mafiosos, a trama é contada de uma maneira "elegante", limitando a violência a pontuais atos - ao invés de uma carnificina gratuita - e com os personagens envolvidos comunicando-se com simplicidade e objetividade. Devido a isso, a película possui poucos diálogos, buscando explicar tanto os acontecimentos quanto as intenções e emoções dos personagens mais com o poder das expressões faciais do que propriamente com falas.
Naturalmente, presentes nessa tarefa, estão a sempre competente direção de Mendes e a ótima cinematografia de Conrad Hall, que aqui encontra-se em seu último trabalho antes do falecimento, sendo postumamente- e merecidamente - premiado com um Óscar. Logo, os visuais, a fotografia e as imagens são bastante exploradas para não apenas contar a história em si e prender a atenção do público, porém também para transmitir as mais diferentes emoções ao espectador. Além disso, as grandes atuações desse estrelado elenco colaboram a fim de alcançar esse objetivo, em especial Hanks e Newman, que estão sublimes na película, mesmo que em papéis difíceis e complexos.
Como dito antes, o filme é sobre vingança, mas, acima de tudo, sobre o relacionamento entre Michael Sullivan e o seu filho, que, inclusive, é o responsável pela narração não à toa. O protagonista tenta, ao máximo, esconder do seu progênito aquilo que faz e buscar não envolvê-lo em seus trabalhos, por não querer que o mesmo siga o caminho que ele próprio seguiu. Sendo assim, percebemos que Sullivan, responsável por violentos atos e crimes, não enxerga algo positivo na vida que leva, mantendo-se nessa profissão somente por lealdade a Rooney, levando-o a querer que o filho seja o mais diferente possível. Somente alcançando a sua vingança e garantindo um futuro distinto ao filho, Sullivan é capaz de obter a sua redenção.
Um filmaço para ver e rever, produzido com muita qualidade, roteiro bem amarrado, brilhantes direção e aspectos técnicos e ótimas performances do elenco. No meio disso tudo, uma história tensa, emocionante e pesada, porém belíssima. Recomendado.
Terra Selvagem
3.8 625 Assista AgoraSendo um filme pouco conhecido, "Terra Selvagem" é, sem dúvida, daquelas produções que, mesmo não tendo adquirido grande sucesso, superam as expectativas e surpreendem pela qualidade. O competente diretor Taylor Sheridan consegue prender bem a atenção do espectador com um drama bem construído, que mistura crime, suspense e, na reta final, torna-se em um emocionante "western".
De uma maneira geral, a película, como o título em português perfeitamente descreve, busca uma retratar uma terra completamente esquecida. Coberta pela neve e assolada pelo frio durante a maior parte do tempo, a extensa área é pouco habitada e praticamente não tem policiais para monitorá-la, tornando-se local propício para a ocorrência de crimes, que, por sua vez, muitas vezes não são solucionados. Em outras palavras, é como se a região estivesse parada no tempo, mais especificamente na época do "velho oeste", sendo um território em que a lei escrita tem pouco significado.
Esse aspecto da "terra sem lei" é um dos pontos centrais do filme e proporciona uma interessante dinâmica entre os protagonistas. Enquanto a novata e inexperiente Jane tenta seguir os protocolos do FBI e a legislação, o atirador Cory, conhecedor daquela região e do povo local, sabe que, para solucionar o crime, deve-se ter o pensamento não de um policial buscando um bandido, mas de um caçador procurando a sua presa.
O filme realiza um bom trabalho no desenvolvimento das personagens e na construção do suspense, porém acredito que o ritmo, na primeira metade da história, é um tanto lento e monótono, com a película demorando para "engrenar" mais do que deveria. A reta final da trama, inclusive, é a melhor parte da obra, exatamente por nos trazer as respostas para o crime em questão e proporcionar sequências de ação muito bem feitas, como se fosse um "western" moderno.
Sendo assim, "Terra Selvagem" é, sem dúvida, um bom filme e cumpre bem o que se propõe a fazer, mas talvez se o diretor tivesse focado mais na parte do "western" e menos na investigação policial em si, o resultado final teria sido ainda melhor.
A Garota no Trem
3.6 1,6K Assista AgoraBaseado em um livro homônimo, "A Garota no Trem" nos apresenta um interessante thriller que aborda, dentre diversos temas, relacionamentos abusivos, alcoolismo e transtornos de obsessão. Na trama, temos três mulheres com características e vidas distintas, cuja ligação, aparentemente inexistente no começo, vai sendo gradativamente montada ao longo da história.
Apesar da película focar nessas três personagens principais em questão, a verdadeira protagonista é Rachel, uma alcoólatra que, em meio à dificuldade em superar o término de seu antigo relacionamento, cria uma espécie de ilusão particular quanto a um casal que sempre vê quando está andando de trem. Sem conhecer muito acerca dos dois, a mulher estabelece uma ideia acerca dessas duas pessoas, que, em sua imaginação, vivem um casamento amoroso e perfeito. Nesse sentido, busca utilizar essa felicidade que ela crê existir nesse casal para tentar superar os traumas e decepções de seu passado, acreditando que esse suposto relacionamento ideal era o que ela deveria ter e dela foi roubado e que, enquanto esses dois fossem felizes, ao menos ela poderia ter algo para se satisfazer, mesmo que apenas de forma ilusória.
O problema é que essa ilusão, inicialmente criada de maneira inocente e devido a sua fértil imaginação, torna-se, com o tempo, uma verdadeira obsessão quanto a vida desse casal, como se a sua vida inteira agora girasse em torno disso. Sendo assim, quando Rachel percebe que os dois podem estar passando por problemas no casamento, ela toma atitudes drásticas e tenta interferir, e, a partir daí, a trama começa a progredir para o seu verdadeiro plot, envolvendo outros personagens e uma longa investigação criminal.
Um ponto interessante, sendo mérito do diretor e dos roteiristas, é que acompanhamos toda essa história sob a confusa perspectiva de Rachel. Devido ao seu alcoolismo, suas memórias são desordenadas, sendo muitas vezes difícil, para ela própria, compreender suas ações passadas e separar aquilo que realmente ocorreu daquilo que é somente fruto de sua imaginação, abrindo inúmeras possibilidade para o espectador. À medida em que a protagonista vai lutando para entender suas memórias e clarificar sua mente, o público vai conhecendo, como se estivesse montando um quebra cabeça, mais das personagens e de fatos passados que podem ajudar a compreender o crime que está sendo investigado, em um bem construído clima de suspense.
O roteiro, porém, tem alguns furos e diversos aspectos mal explicados, como o fato de não terem sido detectadas as digitais de Tom em Megan ou o fato dele ter guardado o celular de sua amante, quando poderia ter simplesmente jogado fora. A parte final, inclusive, sem dúvida foi uma tentativa de estabelecer um plot twist e reviravolta final, mas, ao meu ver, foi um tanto forçado e poderia ter sido melhor elaborado, não fazendo jus ao interessante suspense que vinha sendo desenvolvido.
Além disso, se, por um lado, Rachel é uma personagem bem construída, o mesmo não pode ser dito de Anna e Megan, cujas intenções e ações muitas vezes são mal explicadas e excessivamente confusas. Por exemplo, Anna, em uma cena, está motivada a continuar em seu casamento, mesmo sabendo da infidelidade de Tom, e, poucos minutos depois, passa a confiar cegamente em Rachel e auxilia a matar o marido. Quanto a Megan, em um momento, diz não querer ter filhos por traumas do passado, e, depois, afirma querer dar a luz ao seu filho com Tom.
Sendo assim, é possível dizer que o filme tinha tudo para ser um ótimo suspense, como aparentava ser em sua primeira metade, mas que, mesmo com seus méritos e aspectos positivos, exagera na tentativa de estabelecer inúmeras reviravoltas na trama e falha em construir um decente desenvolvimento de algumas de suas personagens. A atuação de Emily Blunt é boa e merece destaque, porém não é suficiente para salvar esta película que, em linhas gerais, tem um grande potencial mal explorado e, no final das contas, é apenas razoável e longe de ser memorável.