Ao mesmo tempo que é uma homenagem ao cinema de terror funciona também como uma crítica a Hollywood e sua necessidade infinita de remakes, sequências e prequels.
O filme ao mesmo tempo que crítica essa mercantilização da nostalgia feita pela indústria de cinema, parece querer entender a necessidade das pessoas quererem ver a mesma história várias vezes, as mesmas fórmulas prontas do cinema, como se as pessoas estivessem buscando no cinema viajar para o seu próprio passado para tentar entender fases de suas vidas de uma perspectiva diferente, como se tentassem extrair dessas obras um significado muito maior do que elas foram construídas pra terem.
Mas isso não é somente uma crítica pura e simples, mas a pura constatação que o público é o responsável por transformar lixo em arte, ressignificando o lixo comercial em obras libertadoras que transcendem seu significado original. E os executivos aqui da indústria tentam entender isso apenas pelo viés comercial e ficam perdidos em criar discursos requentados politicamente corretos em obras que foram feitas pra serem polêmicas e cruas, ou criar algo excessivamente comercial, o famoso mais do mesmo, tolhendo ideias e conceitos, como se duvidasse da capacidade intelectual do público de entender metalinguagens ou críticas sociais.
E o subtítulo "Adolescência, Sexo e Morte", ganha novo significado, pensamos que seria apenas mais um terror de acampamento com jovens fazendo sexo e morrendo, mas parece ser na verdade uma linha do tempo sobre as três etapas da vida de uma pessoa e como tudo está sempre se repetindo em ciclo infinito, por isso a cena final desse filme é tão emblemática e diferente. Como se o verdadeiro vilão também pudesse ser o próprio público ( por isso tem várias cenas que ela assume a mesma visão do monstro) que está enterrado no fundo do lago preso para sempre nessa obsessão de repetir o mesmo ciclo. E ele vai ressuscitar, mais uma vez.
Na tentativa de mostrar o aprisionamento mental que a personagem principal se encontra, aprisionada em seus próprios traumas e nas expectativas alheias, o filme acaba criando uma experiência sensorial com alguns momentos de beleza ímpar (como na cena que ela e a filha escalam o "farol" do prédio).
Mas é também uma obra que faz nos sentir aprisionados junto com ela, isso poderia até ser bom se tivesse uma narrativa que estivesse na altura do projeto, mas o problema é que tudo parece andar em círculos pois ao não nos dar o aprofundamento que a personagem principal pedia ficamos totalmente reféns da fotografia e dos efeitos sonoros (que são tão destacados que parece até trilha sonora de filmes de terror) para desenvolver toda a narrativa, mesmo tendo seu charme, não conseguem sozinhos nos fazer sentir a emoção que tudo isso pedia, parecendo em alguns momentos mais um suspense equivocado do que um drama, fica o tempo todo a sensação que uma tragédia vai acontecer e quando acaba fica a sensação que faltou algo.
Ciente de que fez um filme confuso, no terceiro ato a história tenta se explicar excessivamente , mas sem nunca conseguir colocar a personagem principal no centro da narrativa, só vemos o trauma geracional ao seu redor, tudo parece muito frio e distante para atingir o público. Quando termina a sensação que fica é que é uma obra esteticamente bonita e tecnicamente bem feita, mas que também acaba truncada e nunca realmente atinge nenhum impacto duradouro fora de alguns belíssimos momentos pontuais. Faltou unir essas correntes.
É legal como o filme tem aquele clima de comédias românticas do começo dos anos 2000, o diretor segue todo o convencionalismo do formato dos filmes do gênero apenas para desconstruir seus padrões (adorei a cena final). O filme debocha da ideia de que a nova geração é hiperconsciente e inabalável. Elliot acredita que está sempre no comando, usando termos modernos e noções de consentimento e autonomia, mas é facilmente manipulado e desarmado por uma figura da geração anterior que domina o jogo psicológico real. Olivia Wilde está perfeita no papel e brilha muito o filme inteiro.
O problema principal da obra chega da metade pro final do filme, onde a sátira deixa de fazer sentido, ao priorizar a virada dramática da violação ética e do abuso no mundo da arte, o roteiro acaba enfraquecendo a crítica à Geração Z, deslocando-a de "tema central" para um mero "pano de fundo", pois o personagem principal passa a ser apenas uma vítima de abuso de poder e não estamos falando de tabu em relação ao sexo e sim de um crime sexual, o filme parece se perder com isso, então aquela sátira ao puritano metido a liberal que o filme estava construindo tão bem se desmorona por inteiro. Virando apenas um thriller genérico sobre os perigos da obsessão artística e aquele blá blá blá de sempre já visto um milhão de vezes no cinema.
O filme acaba sofrendo de uma crise de identidade: quer ser uma sátira sobre a postura da Geração Z em relação ao sexo, mas se fecha em um drama sobre exploração predatória onde a discussão geracional se torna secundária. Sem saber que caminho seguir a obra apresenta um criativo desfecho desconstruindo padrões de comédias românticas tradicionais, mas que chega tarde demais para salvar o roteiro que já estava há mais de meia hora boiando no mar.
Interessante como o filme foca nessa temática pra apenas abandonar ela, mas isso não é um ponto negativo, muito pelo contrário. Pois se pararem pra pensar é absurda essa proposta narrativa, coisa bem do interior essa obsessão pela vida amorosa e não importa muito afinal saber se tinha ou não namorados, sempre será encontrado defeitos em torno disso e motivos pra culpar a mulher por qualquer motivo. Se tivesse muitos namorados seria muito culpada, se tivesse apenas um também seria vista de forma problematizada como pessoa pouco experiente, se tivesse nenhum então piorou.
Interessante como é um filme de amadurecimento que abandona sua própria temática e a investigação (sobre a tia nunca ter namorado) que começa com força total vai perdendo sua força ao longo do filme e ele vai crescendo justamente por causa disso. Até chegar no final, um dos momentos mais emblemáticos quando vemos que a temática do filme não fazia sentido é quando ele atinge sua potência total.
Quando o idoso que arrumava as ferramentas chama a tia avó dela de covarde por nunca ter namorado, acho que é no momento que ocorre A Morte de Joana, pois ela percebe que aquilo muitas vezes era uma imposição dos homens sobre as mulheres e não era sempre uma escolha autônoma delas mesmas. Talvez a recusa de Rosa em se casar e ter namorados não era uma "tristeza", mas uma escolha de vida e de autonomia feminina em um ambiente rural e conservador que não aceitava desvios das normas sociais.
Quando ela descobre que o problema não estava em sua avó, talvez seja quando o luto pela sua morte começa a diminuir e ela percebe que a sociedade começa a sufocar ela de várias formas (principalmente nas cenas de embate com sua mãe) e passa a se sentir como sua avó pode ter se sentido em vários momentos de sua vida.
Como principal ponto negativo achei que alguns atores não se soltavam o suficiente, falando de forma lenta ou até mesmo robótica demais, como se estivessem lendo um papel, mas não chega a atrapalhar o filme, são cenas bem pontuais como naquela que o rapaz convida a mulher pro culto. Mas no geral foi uma ótima experiência que rende muitas reflexões e quem é gaúcho vai se identificar muito com o filme por causa das referências regionais (Centro de Tradições Gaúchas, Bolo Cuca, gírias locais, etc..), destaque também para a pegada ambientalista da obra, muitas cenas fazem críticas ao descaso local com o meio ambiente.
Quem gostou do filme recomendo fortemente Guerra de Algodão (2018), um filme brasileiro com esse mesmo enredo de uma menina de 13 anos investigando sobre o passado da sua avó. Acredito que deva ter servido de inspiração para os realizadores desse aqui.
Joga muito no seguro, mas ainda assim é muito mais marcante e divertido que a porcaria do novo Deadpool que a Disney estragou.
Os atores aqui estão se divertindo muito em seus personagens (Elijah Wood, o Frodo da franquia Senhor dos Anéis, ficou sensacional parodiando o Pinguim do Batman, já o Kevin Bacon como o grande vilão ficou muito bom e rouba a atenção o tempo todo lembrando aqueles vilões caricatos dos desenhos animados dos anos 80 ), e a direção de arte é bem charmosa também (por mais que abusem nos efeitos digitais e que falte um refinamento neles, o visual e a interpretação da criatura ficou legal e usam também alguns gores bem cômicos e divertidos, tem também efeitos práticos como o divertido urubu mutante que fica aparecendo durante todo o filme).
O principal ponto negativo pra mim foi a pressa em contar a história, tudo é muito corrido e não conseguimos sentir a emoção que a obra acredita ter, falta uma pegada mais refinada também no sentido de fugir dos clichês enfadonhos de finais felizes e do tom familiar/paternal que destoa do resto mais pesado e cômico da narrativa, quando acaba a sensação que fica é que foi tudo mais do mesmo, embora muito mais divertido que qualquer filme da Marvel.
Obs: Existe uma cena adicional no começo e outra no final dos créditos satirizando as clássicas promessas de sequências das grandes franquias de heróis.
É muito surpreendente como os efeitos especiais estavam bons aqui (levando em conta que é um filme de 1998, já vi filmes atuais com efeitos bem piores).
Começa bem divertido, a trama até parece que tinha algo relevante pra dizer. Mas em algum momento a história se perde, tudo começa a ficar repetitivo e cansativo, focando apenas na ação de combater alienígenas, o clima de tensão em vez de crescer começa a reduzir, pois a partir do momento que sabemos como os monstros são o suspense acaba e vira um filme perdido, pois quando se explica o terror ele morre, o filme então tenta se levantar apostando nos exageros, tem momentos que beiram o Jurassic Park, mas o terror estava maior antes, quando os monstros eram desconhecidos e menores eram muito mais ameaçadores.
O terceiro ato se perde nos clichês dos filmes escolares, nem vi quem dirigiu o filme, mas com certeza foi um homem pois temos uma personagem que segue o perfil "garota rebelde" que diz claramente que estava fingindo que era lésbica o filme todo apenas pra chamar a atenção, para de usar preto do nada e começa a namorar com o atleta do time, a patricinha do nada também passa a namorar com o nerd da turma mesmo o tratando como lixo desde o começo, é como se todas as mulheres só estivessem a espera de um homem salvador pra mudar de vida, que ridículo.
A expectativa do estúdio era que ele fosse o "novo Pânico". Hoje em dia o filme está completamente esquecido, sem remakes ou continuações. Embora não tenha sido um fracasso total, também não foi um grande sucesso comercial e hoje virou uma obra que até nos divertimos assistindo em alguns momentos, mas sempre com o pensamento que tudo aqui nunca conseguiu atingir a potência que poderia ter sido. No fim, o filme é como o próprio monstro que apresenta, sendo um parasita de obras maiores, é como se tudo aqui já tivesse sido feito de forma muito melhor antes.
La Gradiva é como um vulcão prestes a entrar em erupção a qualquer momento. Para um primeiro projeto de direção está bom demais, destaque para o elenco que passa bastante realismo mesmo não tendo nenhum ator profissional fazendo parte do filme. O principal defeito do filme pra mim é a forma apressada do encerramento, destoando do resto da obra que é bem lenta, quase em estilo documental. Uma boa estreia na direção, apesar da diretora querer inserir muitas tramas ao mesmo tempo e nem tudo se sustenta (como a tentativa de gerar um clima de romance entre aluno e professora que parece apenas uma ideia perdida dentro da história).
Pompeia é uma cidade literalmente congelada por uma catástrofe. A vida dos jovens está em um momento de mudanças profundas, na espera de aprovação de universidades. Onde desejo, raiva, ciúme, vergonha e solidão vão se acumulando entre os estudantes até se tornarem quase tão imprevisíveis quanto uma erupção. Assim como o Vesúvio que representa uma espécie de pressão que não se vê até o momento em que explode.
Em Pompeia, o desastre transforma pessoas vivas em vestígios do passado; os adolescentes, ao contrário, estão tentando descobrir como não ficar presos no passado enquanto buscam por uma transição entre a infância e a vida adulta. Fase de descobertas, onde os mitos passam a ser questionados e toda a nossa identidade passa a ser reconstruída.
A viagem a Pompeia é quase uma investigação arqueológica sobre o próprio Toni. Ele começa procurando os restos de uma história de amor e encontra os restos de uma história de horror, desmoronando seu nacionalismo e sua identidade para sempre.
Esse filme tem um clima que parece que foi feito em outro universo.
Toda a simplicidade dos anos 80 reunida para homenagear o cinema de terror e ficção científica dos anos 50. E é visível o amor pelo projeto em todos os instantes, no visual carismático das criaturas, na direção de arte incrível até pros dias de hoje (a cena da Casa Maluca do parque de diversões é um espetáculo), nos personagens divertidos (mesmo o guarda abusivo soa divertido, rendendo os momentos mais divertidos da trama em sua tentativa de se manter cético até o fim).
Quando os protagonistas sobrevivem à explosão da nave e acham que estão salvos, tortas caem do céu diretamente em suas caras. Por um breve segundo, o público que prestou atenção no filme se pergunta: "Eles vão derreter como o guarda? No entanto, os personagens começam a rir e percebem que, desta vez, é apenas chantilly normal. É a piada final dos alienígenas, mostrando que mesmo após a derrota de seu líder, a essência do "espírito de palhaço" — a pegadinha — deu a última palavra.
É uma verdadeira relíquia e o tipo de obra que não surge apenas pra ser divertida, por trás de toda a diversão existe uma crítica bastante ácida sobre a sociedade americana e seu consumismo desenfreado, notem que todas as pessoas são usadas e passam a ser consumidas como meros produtos de mercado. Ao mesmo tempo em que as forças de segurança são autoritárias e inimigas dos jovens justamente por não conseguirem os controlar, retratando um conflito de gerações focado no autoritarismo e na ideia da repressão. E também podemos notar a crítica principal da obra que é sobre a sociedade do espetáculo, as pessoas correm em direção aos monstros sorrindo e batendo palmas, virando presas fáceis porque foram educadas a consumir o entretenimento de forma cega.
A grande ironia é que os palhaços usam exatamente a mesma tática dos irmãos vendedores de sorvetes: usam uma estética comercial, colorida e infantil (pipoca, algodão-doce) para atrair as pessoas. No final, o caminhão de sorvete dos jovens se torna a única coisa capaz de rivalizar com os palhaços porque ambos operam na mesma "frequência" da cultura de consumo americana. É por isso que os palhaços alienígenas obedecem cegamente as ordens dadas pelos jovens no sistema de som do veículo com rosto de palhaço gigante e se rendem, pois foram educados a obedecer seu líder supremo de forma cega.
Parece apenas fora do tom a tentativa de fazer chover humor em um filme que ao mesmo tempo quer chocar com a temática de abuso sexual. As jovens de 16 anos são pouco convincentes, todas as atrizes parecem adultas demais para interpretar menores de idade (a ideia de fazer uma delas viver abraçada com ursinho de pelúcia soa uma tentativa desesperada para fazer parecer mais realista o fato delas terem pouca idade, isso soa tão perdido e fora do tom como todo o resto da trama).
O filme consegue prender nossa atenção mesmo os personagens sendo todos insuportáveis, tenho que reconhecer que conseguiram tirar leita de pedra na arte de causar tensão e a batalha final (no melhor estilo franquia Pânico) parece ter sido feita pra divertir e proporcionar os momentos mais memoráveis, apesar do humor deslocado atrapalhar a tensão e a profundidade de que tudo isso poderia ter.
O final soa bastante previsível e tudo carece de momentos mais profundos e que explore realmente os personagens e não apenas os arquétipos deles, o desfecho acaba colocando uma mulher como a culpada principal de uma história sobre estupro contra mulher, outro ponto equivocado que acaba colocando pá de cal em tudo e serve apenas pra mostrar que o roteiro também morreu. Muitos podem nem ligar pra essas atuações vilanescas por ser um filme de terror B, mas senti que o filme não conseguiu sair do lugar comum e homenageou tanto os anos 80 que acabou ficando preso ideologicamente neles também, uma pena.
Mirou em Blade Runner (1982) e acertou em Angélica Zoando na TV (1999) com suas misturas de temas e estilos, aquela parte que eles vão pro espaço naquela nave colorida com o túnel espacial de luzes coloridas e os cristais rosas brilhando pelos cenários é a pura nostalgia em sua forma mais pura, os figurinos de roupas coloridas colantes dos astronautas futuristas, todos os personagens com suas sobrancelhas de Zé Bonitinho e cabelos de Sílvio Santos e as maquiagens toscas lembram o filme da Angélica também (tem até arminhas brilhantes que disparam raios coloridos).
Na verdade tudo lembra esse clássico esquecido do cinema nacional, aí do nada parte para uma briga de filmes de máfias japonesas (que não faz o menor sentido com o resto da história), depois vira um terror slasher (sem terror e metaforicamente enfadonho), depois volta pra nave colorida da Xuxa, depois vira outra tentativa de filme, agora um pretensioso thriller erótico (mas sem erotismo é claro), depois volta pra tentar ser um filme de ficção científica com a turma colorida dos Menudos, depois vira uma luta no meio dos reinos de cristais do Didi, depois volta pro que sempre foi, o filme da Angélica Zoando na TV, não passou disso, iria dar zero, mas pela nostalgia boa, vou dar nota 0,5.
Na cena que o menininho tenta enganar seus amigos dizendo que o Pinóquio é feito de Inteligência Artificial dei muita risada e percebi a ironia da trama, roteiro satirizando sem dó os filmes com efeitos de CGI. Os efeitos especiais desse filme são tão deliciosamente toscos e divertidos, cada cena tem vida própria e é tudo divertido de ver, não tem aquela artificialidade dos efeitos exclusivamente digitais, o filme usa efeitos digitais misturados com efeitos práticos de modo muito equilibrado, muitos animatrônicos exclusivos e cenários reais construídos e não simulados no computador fazem toda a diferença na atmosfera.
Não tem aquelas cores cinzas artificiais quase obrigatórias nos filmes de terror de hoje em dia, aqui os caras usam tons coloridos sem dó, dando muito mais vida a história e passando de forma perfeita a atmosfera lúdica de contos de fadas sombrio, com direito até a liçãozinha de moral distorcida no final.
Obs: O Grilo Falante ficou a cara do Oscar Maroni.
Em vez de passarem o filme todo em um suspense tentando descobrir o diagnóstico da menina, seria tão interessante se o filme fizesse isso apenas até a metade e no resto do tempo começasse a partir da cena final, mostrando ela voltando a ser quem era aos poucos. Teríamos um potencial muito mais emocionante, não é mesmo?
Do modo como foi feito ficou parecendo aquelas produções televisivas que ficam tentando prender a audiência o tempo todo, apostando sempre em um suspense e no desespero dos seus personagens e quando acaba é aquela correria pra encerrar logo e frases de auto ajuda jogadas pra todo lado.
Mas apesar de todos os problemas discordo das críticas que falaram que a atriz principal está ruim no papel, sendo que a personagem dela perde totalmente a expressão facial da metade pro fim do filme, achei a atuação muito boa mesmo sem espaço pra ela atuar. O roteiro corrido e amador não explora direito quem ela era antes da doença e muito menos a parte da superação da doença e por isso não vemos muito ela no filme fora das cenas de angústia e pânico, achei até que ela estava atuando bem dentro do roteiro limitado.
Um pouco burocrático e tem personagens que aparecem apenas pra cumprir tabela, como o professor que fica visitando a sala de música no maior estilo Morgan Freeman para dar conselhos de Pedro Bial, rs. Já outros personagens funcionam muito e parecem bem mais verossímeis, como a colega de quarto dela e seus conselhos bem mais realistas.
Existem muitos bons momentos interessantes onde vemos as profundas diferenças culturais entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Mas infelizmente o filme foge de tons cômicos ou divertidos que poderiam fazer a gente amar mais seus personagens, mesmo ela tendo fugido de uma ditadura quase não vemos momentos alegres, são apenas momentos exaustivos e sufocantes, ela se depara com um país preconceituoso com imigrantes.
Eu gostei do roteiro focado no cotidiano e não em idealizações da vida perfeita. A obra aposta em um tom bem mais pessimista do que estava esperando, onde ela tenta o tempo todo apagar sua identidade cultural mudando até mesmo o seu sotaque. Tendo profunda vergonha de ser quem ela é. Como se fosse culpada pelos problemas e autoritarismo da Coreia do Norte, uma reflexão interessante sobre preconceitos contra imigrantes, mas esperava mais momentos divertidos e de alívio no drama que praticamente dura o filme todo, são problemas familiares, de identidade, conflitos culturais e até luto e assédio sexual, é tudo um pouco excessivo, mas sem deixar de ser uma obra relevante, mas repito que uma situação cômica não faria nada mal pro filme, ao aliviar um pouco esses dramas todos a obra só teria a ganhar ao trazer um pouco de esperança.
Mas é por causa de todos esses dramas que a cena final funciona tão bem. E é o único momento da trama que ela passa a ser vista e aceita como uma norte coreana legítima e sem ter vergonha de ser quem ela é. Uma pena que o filme simplesmente acaba quando ela finalmente parece se encontrar, merecíamos mais momentos assim.
Tédio no mar, uma obra minimalista demais pra conseguir ter impacto ou mesmo extrair algo dos atores. Acaba sendo um filme frio e que nunca vai pra lugar algum.
Eu demorei pra perceber que eles tinham viajado no tempo, pra mim não funcionou esse filme, fiquei achando estranho ele questionar o namoro lá do cara sendo que ele não precisava do cara pra nada, sei lá, acabei achando que ela estava com ciúmes, achei que o plot twist do filme seria que a viagem no tempo não aconteceu e que eles eram na verdade um casal gay, faria mais sentido, não?
Qual a reflexão mesmo dessa obra? É tudo sobre um luto coletivo de um vilarejo onde um barco com duas pessoas naufragou a milhares de anos atrás, saindo de uma vila que era mais próspera no passado e agora está abandonada já que o povo prefere pescar em outros lugares com mais peixes da rica Inglaterra, ah me poupe, filme chato e sem nada a dizer, onde o estilo visual comanda tudo e o filme parece só funcionar em torno da fotografia mesmo, o resto naufragou junto com o Rose of Nevada.
Sou muito fã de A Corrente do Mal e gostei muito desse aqui. Vi várias pessoas falando que ele é apenas um drama e não um terror e acreditei, até que chegou aquela cena da cama e literalmente eu cai da cadeira, mó sustão e olha que não me assusto quase nunca com nada. Parece até mesmo uma obra derivada do mesmo universo e que assusta igualmente, embora A Corrente do Mal ainda seja mais assustador em todo o contexto misterioso da entidade, pois não tem como um filme derivado ganhar do original.
Esse filme subverteu as regras da criatura vista em Corrente do Mal para transformar o universo do filme em um thriller de terror psicológico voltado ao trauma e à repressão social. No universo de Leviticus, a criatura não escolhe aparências aleatórias igual em A Corrente do Mal; ela assume única e exclusivamente a forma física da pessoa que a vítima mais deseja e ama no mundo (fazendo com que os protagonistas Naim e Ryan vejam o monstro com o rosto um do outro). Isso transforma o medo físico em uma tortura emocional, onde o amor se torna a própria arma do crime. A criatura é gerada a partir da culpa, do medo e da dor resultantes de uma violenta "terapia de conversão" imposta por uma igreja conservadora. O monstro passa a ser a personificação da homofobia internalizada, tornando-se um fantasma psicológico que persegue os garotos por causa do preconceito de seus pais, amigos e comunidade.
O ato do monstro jogar pedras em suas vítimas antes de dar o bote final é uma referência literal e bíblica ao apedrejamento, a punição descrita no próprio Livro de Levítico (capítulo 20, versículo 13) para relações homoafetivas. Ver a imagem do namorado atirando pedras contra si reflete o conflito interno de sentir que o próprio amor é o seu maior agressor, mostrando que o medo e a paranoia é o maior combustível pra entidade maligna ganhar força. Acender uma chama arranca a criatura das sombras e desfaz os seus jogos de ilusão mental, expondo o perigo claramente já que a criatura não anda dentro dos padrões divinos, na verdade ela vai pelo sentido oposto, pois subverte a frase "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra", mostrando que ela apenas usa a Bíblia e a santidade como arma para fazer vítimas.
Caso ainda não tenha percebido, o monstro simboliza claramente a serpente (Satanás) que aparece no começo do filme, por isso ela mata as vítimas usando os braços enfiando na boca delas como uma cobra entrando dentro do corpo até engasgarem sufocadas até a morte. Portanto, mesmo que a entidade seja descrita como uma força espiritual de trauma, toda a sua mecânica de caça e execução foi desenhada para se comportar exatamente como uma cobra, ele arrasta as pessoas, enterra as pessoas nos buracos (como na cena da cabeça decepada escondida em uma cova), nas cenas de mortes a câmera está sempre rasteira para atacar suas vítimas como uma serpente em ação, aqui o Diabo usa o pecado como combustível para sufocar suas vítimas, usando como arma a própria Bíblia e a própria igreja, mas ao contrário do que diz o senso comum ele não consegue agir com total eficácia quando chega perto do fogo, pois aqui a mensagem da obra é que a purificação o enfraquece, mostrando que os garotos atordoaram o monstro com as mesmas armas que os fanáticos usaram contra eles, pois no momento que os planos malignos da Serpente foram descobertos pelos garotos ao pararem de se sentirem sufocados pelo pecado, a serpente foi obrigada a mudar de estratégia, por isso que quando pega fogo a sua última frase é "Isso é o que nós somos agora", tentando arrastar o relacionamento dos jovens para o mundo do pecado, da culpa e da vergonha para os sufocar novamente, esse é o seu último bote.
Enquanto o filme de 2014 deixa o espectador em pânico com quem está caminhando na rua, o de 2026 usa o ônibus em movimento para mostrar que, mesmo carregando cicatrizes pesadas, a única saída real é continuar avançando e deixar o passado para trás. Passado esse que não pode ser apagado em uma fogueira justamente por ter deixado traumas profundos, mas mesmo assim vira um final otimista, pois vemos o monstro ficando para trás e observando eles de longe pela janela, sem poder os alcançar naquele momento já que sua estratégia de ataque foi descoberta.
Obs: É triste constatar que esse grande filme de terror não chegará aos cinemas brasileiros, pois um casal gay em ação ainda é mais assustador que qualquer possessão demoníaca para as distribuidoras de cinema no Brasil
Senti que o filme foi corrido demais no final, um problema bem comum nas produções da Sony Animation.
Mas a escolha de fazer um musical em vez de um filme de animação comum foi um baita de um acerto e é muito raro ver um filme musical voltado para as crianças, a forma como homenageiam o folclore coreano é surreal de caprichada, desde as armas usadas pelas guerreiras que fazem uma criativa modernização das armas dos xamãs, a cultura dos talismãs de proteção, o mundo dos mortos e até detalhes que somente quem conhece a cultura de forma aprofundada vai entender, como a piada envolvendo o chapéu do tigre azul sendo roubado pela ave, o que me rendeu ótimas gargalhadas.
Músicas envolventes, direção de arte e qualidade da animação impecável, personagens muito carismáticos, a forma como a obra brinca com os doramas em vários momentos da trama é muito divertida, mesmo sendo uma produção dos EUA é visível o carinho e a admiração pela cultura sul coreana em todos os momentos.
Obs: Fico com dó das pessoas que foram assistir dublado, simplesmente perde toda a emoção em um musical. Sorte que os cinemas aqui da minha cidade mantiveram vários horários legendados, o que já é muito raro para filmes comuns aqui na minha city, ainda mais para uma animação. Ou seja, a cultura coreana realmente rompeu barreiras.
Obs 2: Outra barreira cultural que foi rompida é que a produção de maior sucesso da história da Netflix é justamente um filme musical e totalmente assumido, acabou com o senso comum que vivia dizendo que o povo não gosta de musicais (filmes musicais recentes até chegaram a esconder que eram do gênero em materiais de divulgação como Meninas Malvadas, A Cor Púrpura e Wonka).
Não consegue ir além de um filme padrão de faroeste, a crítica a violência contra a mulher não é profunda pois a obra caminha sempre dependendo da violência pra avançar, o filme nunca se aprofunda realmente nas questões psicológicas e nem na crítica religiosa pois fica preso em um ciclo vicioso mostrando várias cenas de violências uma atrás da outra como se isso bastasse por si só pra criticar a misoginia e a perda da autonomia feminina.
O diretor parece saber que as cenas violentas vão perdendo seu impacto após serem repetidas, então dobra a aposta e está sempre aumentando a intensidade delas, enquanto o vilão não tem nuance nenhuma que possa levar a algo além da maldade pela maldade, o ator interpreta muito bem e ele tem um estilo até interessante que beira o sobrenatural, mas sem trazer o aprofundamento que o personagem precisava, é como um vilão de filme B, bem interpretado dentro dos clichês padrões do gênero Western, mas sem nunca soar memorável ou como objeto de estudo.
A expressão mulheres sem voz foi levada a sério demais pelo diretor, duas vezes seguidas ainda.
Acho que o diretor pensou, vamos colocar duas mulheres perdendo a língua, uma língua só cortada fora poderia passar despercebida nas duas horas e meia de filme.
Não tem nenhuma sutileza nessa obra, mesmo nas cenas que as mulheres estão se apoiando não vemos nenhuma tentativa de dar uma leveza na trama, até mesmo nas cenas que ela está sozinha com sua filha pequena não vemos praticamente momentos engraçados, leves ou minimamente memoráveis. As cenas memoráveis são apenas as violentas mesmo, no fim é como se o vilão tivesse vencido em todos os momentos, até quando não estava por perto.
Destaque para a atuação da Dakota e do vilão principal, apesar da simplicidade da trama eles possuem atuações muito boas que conseguem passar tensão e uma sensação constante de urgência na história. Mas é uma pena que todo o filme tá sempre preso nessa ciclo constante que beira o inferno cristão e que queima no fogo eterno a profundidade de tudo. Só não consegue incendiar totalmente as barreiras do bom e velho clichê de velho oeste, embora fique em muitos momentos bem extenuante e vazio.
Nossa, achei esse filme muito parecido com Aftersun. Blue Heron tem suas qualidades e constrói uma atmosfera intimista interessante, só que é mais focado nos dramas e conflitos, já o trabalho de direção de Charlotte Wells em Aftersun é focado no humor e nos momentos divertidos e opera em um nível quase impecável de sensibilidade e linguagem cinematográfica.
O que faz Aftersun se destacar tanto é a forma como ele lida com a memória e o subtexto. O filme não entrega respostas mastigadas sobre a dor de Calum (Paul Mescal) igual Blue Heron faz com o protagonista; em vez disso, força o espectador a reconstruir aquele vínculo junto com Sophie adulta, usando gravações caseiras e flashes de memória. A cena final ao som de Under Pressure do Queen é uma das sequências mais devastadoras e brilhantemente editadas do cinema recente.
Blue Heron entrega uma experiência envolvente e que apresenta reflexões interessantes sobre como os problemas de saúde mental eram tratados nos anos 90, mas da metade pro final do filme perdemos totalmente o vínculo com o aprofundamento do rapaz pois a história deixa de se passar no passado e passa a ser nos tempos atuais, com poucos momentos em que o rapaz realmente aparece nela, vemos muito pouco dele e ele passa a ser totalmente coadjuvante na trama, perdendo o impacto emocional que tudo poderia ter. Já Aftersun permanece com você por dias em sua memória, justamente por colocar eles como protagonistas da história, focando mais na relação de vínculos e no que ficou não dito entre um pai e uma filha.
Que trilha sonora impecável, locações maravilhosas (filmar na Itália de verdade e não em estúdio fez toda a diferença, deixou o filme cheio de brilho e vivo), figurinos incríveis, fotografia belíssima e a atuação da Kaitlyn Dever é a alma do filme, excelente atriz, ela simplesmente consegue ser sarcástica do começo ao fim do filme sem virar uma personagem chata.
A peça original de Shakespeare imortalizou Romeu e Julieta como o ápice da paixão. O filme desconstrói essa ideia mostrando que esse "amor épico" é, na verdade, uma impulsividade adolescente imatura e superficial. Em suma, o filme usa o humor e o anacronismo (comportamentos e linguagem modernos dentro de um cenário renascentista) para questionar o quanto a sociedade historicamente limitou os sonhos das mulheres e vendeu a dependência emocional como o único "final feliz" possível.
A sátira no final de Rosalina é brilhante porque subverte completamente a tragédia mais famosa da literatura, transformando um duplo suicídio sombrio em uma grande cena de humor. O filme escancara que o amor tragicamente "perfeito" de Romeu e Julieta só parecia tão intenso porque durou apenas três dias e foi alimentado pelo drama. Quando a realidade bate à porta, eles viram apenas dois jovens impulsivos presos num relacionamento sem futuro!
Na peça original de Shakespeare, Rosalina é apenas mencionada no Primeiro Ato como a garota por quem Romeu era obcecado até ver a Julieta. Ela sequer tem falas na peça! O filme pega essa "injustiça" histórica e transforma em piada na cena final quando o casal comenta que nem querem saber se eles serão lembrados. Rosalina e Dario ficam com a vida real: liberdade, um relacionamento maduro e zero drama familiar. Enquanto a sociedade prefere romantizar a tragédia e o drama jovem, transformando poemas vazios em uma profundidade que não se sustenta quando a poesia acaba e a vida real começa (como vimos na cena final do barco, onde o romance praticamente já tinha acabado.)
Pode não ser denso, mas na leveza e no humor também existe sua profundidade e o filme aqui está muito acima da média das comédias românticas em todos os aspectos, essa comédia romântica tinha tudo pra virar um clássico do cinema se tivesse uma melhor divulgação e quem sabe uma estreia nos cinemas.
Melhor que o remake recente de Corra que a Polícia Vem Aí com toda certeza é, mas ainda assim é inferior a todos os outros filmes da franquia Todo Mundo em Pânico (tirando o 5 que continua o pior de todos) e muito inferior ao cult As Branquelas.
São várias esquetes e piadas forçadas, enquanto assistia eu ficava pensando que algumas das piadas não eram realmente ruins e devem ter ficado realmente ótimas no papel, mas na hora de ver na tela parece apenas algo vazio jogado ali de qualquer maneira apressada e que não causa risos, tem poucos momentos realmente criativos, o destaque mesmo foram as cenas parodiando A Substância, Guerreiras do K-Pop e o final parodiando os encerramentos de todos os filmes recentes da franquia Pânico, essas cenas me lembraram levemente dos velhos tempos da franquia por alguns poucos minutos.
Mas no resto do filme só ficava pensando em que momento tudo se perdeu e virou humor de churrasco pra tiozões, tudo parece apenas algo formulaico e infantil, antes parecia ser mais engraçado, ousado e tinha uma espécie de sátira social contínua e não apenas piadas soltas e totalmente isoladas querendo atirar pra todos os lados e sem atingir ninguém, no final toda aquela ousadia vendida pelo marketing de que "o filme iria trazer os bons tempos do humor politicamente incorreto de volta" ficou tão vazia como promessa de campanha de político.
O primeiro Todo Mundo em Pânico (2000) funcionava muito bem porque ele respeitava a estrutura de um filme de terror/suspense; as piadas ganhavam força justamente por quebrar a tensão de uma cena que parecia assustadora de verdade (como esquecer da cena do silicone ficando preso na faca do Ghostface? se fosse só essa cena sem todo o clima de perseguição ela não causaria quase nenhum riso). Quando um filme de paródia se transforma em uma metralhadora de esquete, disparando piadas sem respiro, o humor acaba saturando porque não há contraste. E aqui temos uma verdadeira metralhadora de piadas automáticas e sem impacto, quando acaba já esquecemos todo o filme.
Esse filme canadense de baixo orçamento pode parecer meio perdido em seu passeio por vários tipos de filmes de terror diferentes, mas achei bem coerente em sua crítica ao machismo, a religião e todo o conceito patriarcal que se esconde por trás das comunidades religiosas e de como eles sempre culpam as mulheres de serem livres enquanto os homens são parabenizados por serem selvagens. Destaque para a atuação da Summer no papel principal (nossa futura Carrie - A Estranha, outra obra com temática de opressão religiosa que chega no Halloween desse ano), que resgata bastante a tensão de uma adolescente vivendo sob a ótica da opressão, é criticada por tudo que para os homens da sua idade é normal, até mesmo ler Histórias em Quadrinhos.
Com elementos típicos de Folk Horror, desde a comunidade isolada e assassinatos misteriosos, até o comportamento das meninas que ao se depararem com o medo, o luto e o trauma, aos poucos vão voltando para um estado primitivo e ancestral do comportamento humano e ao visual da criatura apresentada como uma mistura de humano com árvore e que aparece para várias meninas que estão sozinhas na floresta.
Ao vermos que o assassino é apenas um humano de carne e osso, o tom do filme muda drasticamente dos tons sombrios de contos de fadas sobrenatural com elementos de folk horror para o horror real, sangrento e visceral de um terror policial de sobrevivência, encerrando a mensagem da temática de amadurecimento do filme, do monstro saindo pra dar lugar ao homem, os pesadelos infantis da menina indo embora ao se deparar com a realidade bruta e cruel. Mostrando que o tempo todo a criatura que espreitava na floresta e aparecia em vários momentos emblemáticos do filme realmente existia e não era um Homem Árvore e sim um simples caçador humano disfarçado com vegetações e pronto para fazer novas presas.
Se reparar no começo do filme na cena da abordagem policial ela visualiza um cara estranho ao lado da viatura, reparem bem nele, logo depois esse mesmo cara atravessa a rua e ela desvia o carro, ele é o assassino abusador que aparece no final do filme. Ao passar pela viatura, o olhar dela cruza com o dele. Os adultos ignoram aquela figura periférica, mas ela, com a intuição e o medo aguçados, fixa os olhos no homem e percebe que há algo de profundamente errado e ameaçador nele. O roteiro planta esse momento de forma genial: a resposta para o mistério estava literalmente na cara da polícia e sob os olhos da protagonista desde o início do filme, mas a comunidade preferiu ignorar o perigo real que andava entre eles, forçando as garotas a buscarem suas próprias respostas na floresta. O fato de ela ser a única a conseguir enxergá-lo no começo do filme amarra perfeitamente toda a psicologia da história por dois motivos principais: O primeiro deles é O "Sexto Sentido" do Trauma: como a protagonista já carrega uma bagagem de vulnerabilidade, luto e medo daquele ambiente opressor, a mente dela funciona quase como um radar para o perigo real. Enquanto os outros estão cegos pela rotina ou pela falsa sensação de segurança da comunidade, ela capta a presença da ameaça rondando os limites da floresta. O segundo deles é A Projeção do Monstro: Isso explica perfeitamente por que ela lidera a criação do "mito" e do ritual. Como ela viu aquele homem bizarro e ameaçador, mas provavelmente não conseguiu processar ou expressar isso de forma racional para os adultos (que não acreditariam ou a reprimiriam), a mente dela transformou aquela figura assustadora na floresta no "monstro sobrenatural" e sua amiga que perdeu a melhor amiga pro assassino é a única que acredita inicialmente nela.
Encerrando com chave de ouro podemos ouvir "Whole Wide World do Wreckless Eric", clássico dos anos 70 sobre a solidão de um homem que resolve dar a volta ao mundo para procurar a garota que esconderam. Combinando com a temática do filme da menina amiga dela que queria fugir do vilarejo e conhecer o mundo e aqui a mensagem musical da obra adquire novas camadas quando a letra realça "a garota que esconderam" realçando a mensagem de liberdade e empoderamento feminino e união das mulheres pra romperem as normas sociais da opressão.
Que filmaço, não dava nada pra essa lenda da internet. Mas fiquei agoniado em todos os minutos, ele não é tão assustador igual Obsessão, mas é perturbador de uma forma totalmente diferente e nos consegue passar muita claustrofobia enquanto nos sentimos presos nessas salas e corredores infinitos.
Embora a metáfora sobre depressão seja óbvia e com muitos momentos em que o filme se explica de forma exageradamente didática pra audiência (como a cena da reunião com a terapeuta em volta da mesa), gostei demais de ter visto ele e superou muito minhas expectativas que estavam bem baixas, pois quem está acostumado a assistir adaptações de games para os cinemas sabe como elas ficam bem ruins.
Aqui embora a direção de arte fica bem acima em qualidade do que o resto do filme, funcionou muito bem em causar vertigem e nos deixar com a sensação de sufocamento e acabou fazendo um paralelo perfeito com os sintomas e sensações de uma depressão e o plot twist é simplesmente perfeito.
Na psicologia da depressão, existe um fenômeno muito comum que é a falsa melhora ou a sensação temporária de que "tudo passou" e o encerramento do filme é o puro suco disso e funciona muito, sua metáfora também é muito boa ao mostrar que até mesmo os profissionais de saúde mental mais renomados podem estar presos em um "loop infinito" sem perceberem.
Obs: Precisam urgente chamar a A24 pra dirigir Silent Hill e resgatar essa franquia do buraco (da Backrooms) em que ela se encontra.
É previsível e entediante, como se a diretora tivesse construído um enredo do nada apenas pra criar cenas sem uma narrativa forte que as acompanhem. Como um diretor de cinema de terror criando personagens apenas pra inserir violência gráfica neles.
Na ânsia de ser um romance teen pra geração que não pode se frustrar e muito menos se chocar com nada, a obra esquece até do clipe de 2015 que pretendia homenagear (que era muito mais impactante e melhor que esse filme todo aqui).
Não tem conflitos (só briguinhas clichês amorosas), nem mesmo política, nem ao menos machismo (só em cenas realmente bem pequenas e suavizadas, até mesmo o pai que a abandonou é retratado como bonzinho) e nem mesmo aparece a temida homofobia (mesmo sendo um filme que se passa em 2006, antes da legalização do casamento gay nos EUA, o máximo que vemos de homofobia aqui é o rapaz dizendo pra namorada não passar creme rosa no seu corpo que é coisa de gay), a sensação é como um grande Filme Conforto, ou seja, um romance interminável repleto de momentos vazios, como se o filme não tivesse tido a coragem de contar os reais motivos da demora de uma assumir o namoro com a outra, que deveria ser o ponto central da narrativa (fica até parecendo que sua namorada é a vilã da história).
Ainda quero uma adaptação do clipe, dessa vez nas mãos de uma direção especializada em cinema e que tenha coragem de descer a lenha na sociedade, pois jogar no seguro não significa nada além de falta de coragem pra fazer críticas ácidas. Nada contra a estrela pop e seus milhões de seguidores, mas vamos chamar de volta os temidos diretores de cinema odiados e com poucos seguidores pra dirigir os filmes.
Como ponto positivo eu gostei da fotografia e seu verão ensolarado, do clima nostálgico do começo dos anos 2000 e as atrizes até que tentaram salvar tudo, mas andorinhas sozinhas não podem trazer o verão. Falando em verão, vale ver o filme lésbico australiano "Meu Primeiro Verão", esse sim consegue fazer um filme sáfico feliz, mas sem ser covarde, é sim memorável e ainda trata de traumas, de lutos e tem densidade emocional fortíssima mesmo sendo um filme leve, seus momentos contemplativos são belos, não apenas entediantes como nesse filme clichê aqui.
O filme funciona tão bem pois Owen não é apenas um rapaz abobalhado, ele precisa ser assim, pois o personagem dele é a representação do amor idealizado e a sua ingenuidade é a sua maior fraqueza mas também sua melhor e mais poderosa arma, enquanto o personagem de Emily é a pura representação do cinismo arromântico e ao fugir da ingenuidade acaba ignorando que não existe maturidade sem a vulnerabilidade emocional.
Por mais que seja clichê a premissa dos "opostos se atraem" aqui funciona bem pois vemos duas ideologias diferentes entrando em conflito o tempo todo e com isso acabam se completando entre erros e acertos e a direção do filme equilibra muito bem isso impulsionada pelo carisma dos personagens e da trilha sonora que é muito linda.
Reparem como o quarto do rapaz é todo bagunçado, cheio de instrumentos musicais jogados pelos cantos, enquanto o dela é todo arrumado, com livros empilhados, quando ela está em cena as cores frias permanecem, luminosidade clara do ambiente acadêmico e paleta cinza, já quando ele entra em cena as cores quentes dominam a tela, cor âmbar e neon, remetendo a uma estética nostálgica.
A cidade inglesa de Manchester é a personagem central do filme, com seus bairros boêmios cheios de pubs, suas lojas de discos, clubes de músicas, lugares alegres contracenando com suas ruas antigas, árvores mortas e a fria arquitetura industrial vitoriana, lugares formais e antigos contrapondo grafites urbanos e lugares modernos e animados, quando eles estão juntos todo o cenário se completa e as cores frias se misturam com as cores quentes em uma verdadeira bagunça organizada. Essa é a definição do amor.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
3.2 79Ao mesmo tempo que é uma homenagem ao cinema de terror funciona também como uma crítica a Hollywood e sua necessidade infinita de remakes, sequências e prequels.
O filme ao mesmo tempo que crítica essa mercantilização da nostalgia feita pela indústria de cinema, parece querer entender a necessidade das pessoas quererem ver a mesma história várias vezes, as mesmas fórmulas prontas do cinema, como se as pessoas estivessem buscando no cinema viajar para o seu próprio passado para tentar entender fases de suas vidas de uma perspectiva diferente, como se tentassem extrair dessas obras um significado muito maior do que elas foram construídas pra terem.
Mas isso não é somente uma crítica pura e simples, mas a pura constatação que o público é o responsável por transformar lixo em arte, ressignificando o lixo comercial em obras libertadoras que transcendem seu significado original. E os executivos aqui da indústria tentam entender isso apenas pelo viés comercial e ficam perdidos em criar discursos requentados politicamente corretos em obras que foram feitas pra serem polêmicas e cruas, ou criar algo excessivamente comercial, o famoso mais do mesmo, tolhendo ideias e conceitos, como se duvidasse da capacidade intelectual do público de entender metalinguagens ou críticas sociais.
E o subtítulo "Adolescência, Sexo e Morte", ganha novo significado, pensamos que seria apenas mais um terror de acampamento com jovens fazendo sexo e morrendo, mas parece ser na verdade uma linha do tempo sobre as três etapas da vida de uma pessoa e como tudo está sempre se repetindo em ciclo infinito, por isso a cena final desse filme é tão emblemática e diferente. Como se o verdadeiro vilão também pudesse ser o próprio público ( por isso tem várias cenas que ela assume a mesma visão do monstro) que está enterrado no fundo do lago preso para sempre nessa obsessão de repetir o mesmo ciclo. E ele vai ressuscitar, mais uma vez.
As Correntes
3.4 3Na tentativa de mostrar o aprisionamento mental que a personagem principal se encontra, aprisionada em seus próprios traumas e nas expectativas alheias, o filme acaba criando uma experiência sensorial com alguns momentos de beleza ímpar (como na cena que ela e a filha escalam o "farol" do prédio).
Mas é também uma obra que faz nos sentir aprisionados junto com ela, isso poderia até ser bom se tivesse uma narrativa que estivesse na altura do projeto, mas o problema é que tudo parece andar em círculos pois ao não nos dar o aprofundamento que a personagem principal pedia ficamos totalmente reféns da fotografia e dos efeitos sonoros (que são tão destacados que parece até trilha sonora de filmes de terror) para desenvolver toda a narrativa, mesmo tendo seu charme, não conseguem sozinhos nos fazer sentir a emoção que tudo isso pedia, parecendo em alguns momentos mais um suspense equivocado do que um drama, fica o tempo todo a sensação que uma tragédia vai acontecer e quando acaba fica a sensação que faltou algo.
Ciente de que fez um filme confuso, no terceiro ato a história tenta se explicar excessivamente , mas sem nunca conseguir colocar a personagem principal no centro da narrativa, só vemos o trauma geracional ao seu redor, tudo parece muito frio e distante para atingir o público. Quando termina a sensação que fica é que é uma obra esteticamente bonita e tecnicamente bem feita, mas que também acaba truncada e nunca realmente atinge nenhum impacto duradouro fora de alguns belíssimos momentos pontuais. Faltou unir essas correntes.
I Want Your Sex
2.9 10É legal como o filme tem aquele clima de comédias românticas do começo dos anos 2000, o diretor segue todo o convencionalismo do formato dos filmes do gênero apenas para desconstruir seus padrões (adorei a cena final). O filme debocha da ideia de que a nova geração é hiperconsciente e inabalável. Elliot acredita que está sempre no comando, usando termos modernos e noções de consentimento e autonomia, mas é facilmente manipulado e desarmado por uma figura da geração anterior que domina o jogo psicológico real. Olivia Wilde está perfeita no papel e brilha muito o filme inteiro.
O problema principal da obra chega da metade pro final do filme, onde a sátira deixa de fazer sentido, ao priorizar a virada dramática da violação ética e do abuso no mundo da arte, o roteiro acaba enfraquecendo a crítica à Geração Z, deslocando-a de "tema central" para um mero "pano de fundo", pois o personagem principal passa a ser apenas uma vítima de abuso de poder e não estamos falando de tabu em relação ao sexo e sim de um crime sexual, o filme parece se perder com isso, então aquela sátira ao puritano metido a liberal que o filme estava construindo tão bem se desmorona por inteiro. Virando apenas um thriller genérico sobre os perigos da obsessão artística e aquele blá blá blá de sempre já visto um milhão de vezes no cinema.
O filme acaba sofrendo de uma crise de identidade: quer ser uma sátira sobre a postura da Geração Z em relação ao sexo, mas se fecha em um drama sobre exploração predatória onde a discussão geracional se torna secundária. Sem saber que caminho seguir a obra apresenta um criativo desfecho desconstruindo padrões de comédias românticas tradicionais, mas que chega tarde demais para salvar o roteiro que já estava há mais de meia hora boiando no mar.
A Primeira Morte de Joana
3.2 18 Assista AgoraInteressante como o filme foca nessa temática pra apenas abandonar ela, mas isso não é um ponto negativo, muito pelo contrário. Pois se pararem pra pensar é absurda essa proposta narrativa, coisa bem do interior essa obsessão pela vida amorosa e não importa muito afinal saber se tinha ou não namorados, sempre será encontrado defeitos em torno disso e motivos pra culpar a mulher por qualquer motivo. Se tivesse muitos namorados seria muito culpada, se tivesse apenas um também seria vista de forma problematizada como pessoa pouco experiente, se tivesse nenhum então piorou.
Interessante como é um filme de amadurecimento que abandona sua própria temática e a investigação (sobre a tia nunca ter namorado) que começa com força total vai perdendo sua força ao longo do filme e ele vai crescendo justamente por causa disso. Até chegar no final, um dos momentos mais emblemáticos quando vemos que a temática do filme não fazia sentido é quando ele atinge sua potência total.
Quando o idoso que arrumava as ferramentas chama a tia avó dela de covarde por nunca ter namorado, acho que é no momento que ocorre A Morte de Joana, pois ela percebe que aquilo muitas vezes era uma imposição dos homens sobre as mulheres e não era sempre uma escolha autônoma delas mesmas. Talvez a recusa de Rosa em se casar e ter namorados não era uma "tristeza", mas uma escolha de vida e de autonomia feminina em um ambiente rural e conservador que não aceitava desvios das normas sociais.
Quando ela descobre que o problema não estava em sua avó, talvez seja quando o luto pela sua morte começa a diminuir e ela percebe que a sociedade começa a sufocar ela de várias formas (principalmente nas cenas de embate com sua mãe) e passa a se sentir como sua avó pode ter se sentido em vários momentos de sua vida.
Como principal ponto negativo achei que alguns atores não se soltavam o suficiente, falando de forma lenta ou até mesmo robótica demais, como se estivessem lendo um papel, mas não chega a atrapalhar o filme, são cenas bem pontuais como naquela que o rapaz convida a mulher pro culto. Mas no geral foi uma ótima experiência que rende muitas reflexões e quem é gaúcho vai se identificar muito com o filme por causa das referências regionais (Centro de Tradições Gaúchas, Bolo Cuca, gírias locais, etc..), destaque também para a pegada ambientalista da obra, muitas cenas fazem críticas ao descaso local com o meio ambiente.
Quem gostou do filme recomendo fortemente Guerra de Algodão (2018), um filme brasileiro com esse mesmo enredo de uma menina de 13 anos investigando sobre o passado da sua avó. Acredito que deva ter servido de inspiração para os realizadores desse aqui.
The Toxic Avenger
2.7 25Joga muito no seguro, mas ainda assim é muito mais marcante e divertido que a porcaria do novo Deadpool que a Disney estragou.
Os atores aqui estão se divertindo muito em seus personagens (Elijah Wood, o Frodo da franquia Senhor dos Anéis, ficou sensacional parodiando o Pinguim do Batman, já o Kevin Bacon como o grande vilão ficou muito bom e rouba a atenção o tempo todo lembrando aqueles vilões caricatos dos desenhos animados dos anos 80 ), e a direção de arte é bem charmosa também (por mais que abusem nos efeitos digitais e que falte um refinamento neles, o visual e a interpretação da criatura ficou legal e usam também alguns gores bem cômicos e divertidos, tem também efeitos práticos como o divertido urubu mutante que fica aparecendo durante todo o filme).
O principal ponto negativo pra mim foi a pressa em contar a história, tudo é muito corrido e não conseguimos sentir a emoção que a obra acredita ter, falta uma pegada mais refinada também no sentido de fugir dos clichês enfadonhos de finais felizes e do tom familiar/paternal que destoa do resto mais pesado e cômico da narrativa, quando acaba a sensação que fica é que foi tudo mais do mesmo, embora muito mais divertido que qualquer filme da Marvel.
Obs: Existe uma cena adicional no começo e outra no final dos créditos satirizando as clássicas promessas de sequências das grandes franquias de heróis.
Prova Final
3.2 436 Assista AgoraÉ muito surpreendente como os efeitos especiais estavam bons aqui (levando em conta que é um filme de 1998, já vi filmes atuais com efeitos bem piores).
Começa bem divertido, a trama até parece que tinha algo relevante pra dizer. Mas em algum momento a história se perde, tudo começa a ficar repetitivo e cansativo, focando apenas na ação de combater alienígenas, o clima de tensão em vez de crescer começa a reduzir, pois a partir do momento que sabemos como os monstros são o suspense acaba e vira um filme perdido, pois quando se explica o terror ele morre, o filme então tenta se levantar apostando nos exageros, tem momentos que beiram o Jurassic Park, mas o terror estava maior antes, quando os monstros eram desconhecidos e menores eram muito mais ameaçadores.
O terceiro ato se perde nos clichês dos filmes escolares, nem vi quem dirigiu o filme, mas com certeza foi um homem pois temos uma personagem que segue o perfil "garota rebelde" que diz claramente que estava fingindo que era lésbica o filme todo apenas pra chamar a atenção, para de usar preto do nada e começa a namorar com o atleta do time, a patricinha do nada também passa a namorar com o nerd da turma mesmo o tratando como lixo desde o começo, é como se todas as mulheres só estivessem a espera de um homem salvador pra mudar de vida, que ridículo.
A expectativa do estúdio era que ele fosse o "novo Pânico". Hoje em dia o filme está completamente esquecido, sem remakes ou continuações. Embora não tenha sido um fracasso total, também não foi um grande sucesso comercial e hoje virou uma obra que até nos divertimos assistindo em alguns momentos, mas sempre com o pensamento que tudo aqui nunca conseguiu atingir a potência que poderia ter sido. No fim, o filme é como o próprio monstro que apresenta, sendo um parasita de obras maiores, é como se tudo aqui já tivesse sido feito de forma muito melhor antes.
A Gradiva
4.0 3La Gradiva é como um vulcão prestes a entrar em erupção a qualquer momento. Para um primeiro projeto de direção está bom demais, destaque para o elenco que passa bastante realismo mesmo não tendo nenhum ator profissional fazendo parte do filme. O principal defeito do filme pra mim é a forma apressada do encerramento, destoando do resto da obra que é bem lenta, quase em estilo documental. Uma boa estreia na direção, apesar da diretora querer inserir muitas tramas ao mesmo tempo e nem tudo se sustenta (como a tentativa de gerar um clima de romance entre aluno e professora que parece apenas uma ideia perdida dentro da história).
Pompeia é uma cidade literalmente congelada por uma catástrofe. A vida dos jovens está em um momento de mudanças profundas, na espera de aprovação de universidades. Onde desejo, raiva, ciúme, vergonha e solidão vão se acumulando entre os estudantes até se tornarem quase tão imprevisíveis quanto uma erupção. Assim como o Vesúvio que representa uma espécie de pressão que não se vê até o momento em que explode.
Em Pompeia, o desastre transforma pessoas vivas em vestígios do passado; os adolescentes, ao contrário, estão tentando descobrir como não ficar presos no passado enquanto buscam por uma transição entre a infância e a vida adulta. Fase de descobertas, onde os mitos passam a ser questionados e toda a nossa identidade passa a ser reconstruída.
A viagem a Pompeia é quase uma investigação arqueológica sobre o próprio Toni. Ele começa procurando os restos de uma história de amor e encontra os restos de uma história de horror, desmoronando seu nacionalismo e sua identidade para sempre.
"Para todos que não são daqui"
Palhaços Assassinos do Espaço Sideral
3.3 480Esse filme tem um clima que parece que foi feito em outro universo.
Toda a simplicidade dos anos 80 reunida para homenagear o cinema de terror e ficção científica dos anos 50. E é visível o amor pelo projeto em todos os instantes, no visual carismático das criaturas, na direção de arte incrível até pros dias de hoje (a cena da Casa Maluca do parque de diversões é um espetáculo), nos personagens divertidos (mesmo o guarda abusivo soa divertido, rendendo os momentos mais divertidos da trama em sua tentativa de se manter cético até o fim).
Quando os protagonistas sobrevivem à explosão da nave e acham que estão salvos, tortas caem do céu diretamente em suas caras. Por um breve segundo, o público que prestou atenção no filme se pergunta: "Eles vão derreter como o guarda? No entanto, os personagens começam a rir e percebem que, desta vez, é apenas chantilly normal. É a piada final dos alienígenas, mostrando que mesmo após a derrota de seu líder, a essência do "espírito de palhaço" — a pegadinha — deu a última palavra.
É uma verdadeira relíquia e o tipo de obra que não surge apenas pra ser divertida, por trás de toda a diversão existe uma crítica bastante ácida sobre a sociedade americana e seu consumismo desenfreado, notem que todas as pessoas são usadas e passam a ser consumidas como meros produtos de mercado. Ao mesmo tempo em que as forças de segurança são autoritárias e inimigas dos jovens justamente por não conseguirem os controlar, retratando um conflito de gerações focado no autoritarismo e na ideia da repressão. E também podemos notar a crítica principal da obra que é sobre a sociedade do espetáculo, as pessoas correm em direção aos monstros sorrindo e batendo palmas, virando presas fáceis porque foram educadas a consumir o entretenimento de forma cega.
A grande ironia é que os palhaços usam exatamente a mesma tática dos irmãos vendedores de sorvetes: usam uma estética comercial, colorida e infantil (pipoca, algodão-doce) para atrair as pessoas. No final, o caminhão de sorvete dos jovens se torna a única coisa capaz de rivalizar com os palhaços porque ambos operam na mesma "frequência" da cultura de consumo americana. É por isso que os palhaços alienígenas obedecem cegamente as ordens dadas pelos jovens no sistema de som do veículo com rosto de palhaço gigante e se rendem, pois foram educados a obedecer seu líder supremo de forma cega.
Penny Lane Is Dead
3.3 5Parece apenas fora do tom a tentativa de fazer chover humor em um filme que ao mesmo tempo quer chocar com a temática de abuso sexual. As jovens de 16 anos são pouco convincentes, todas as atrizes parecem adultas demais para interpretar menores de idade (a ideia de fazer uma delas viver abraçada com ursinho de pelúcia soa uma tentativa desesperada para fazer parecer mais realista o fato delas terem pouca idade, isso soa tão perdido e fora do tom como todo o resto da trama).
O filme consegue prender nossa atenção mesmo os personagens sendo todos insuportáveis, tenho que reconhecer que conseguiram tirar leita de pedra na arte de causar tensão e a batalha final (no melhor estilo franquia Pânico) parece ter sido feita pra divertir e proporcionar os momentos mais memoráveis, apesar do humor deslocado atrapalhar a tensão e a profundidade de que tudo isso poderia ter.
O final soa bastante previsível e tudo carece de momentos mais profundos e que explore realmente os personagens e não apenas os arquétipos deles, o desfecho acaba colocando uma mulher como a culpada principal de uma história sobre estupro contra mulher, outro ponto equivocado que acaba colocando pá de cal em tudo e serve apenas pra mostrar que o roteiro também morreu. Muitos podem nem ligar pra essas atuações vilanescas por ser um filme de terror B, mas senti que o filme não conseguiu sair do lugar comum e homenageou tanto os anos 80 que acabou ficando preso ideologicamente neles também, uma pena.
Seu Inferno Particular
2.3 15Mirou em Blade Runner (1982) e acertou em Angélica Zoando na TV (1999) com suas misturas de temas e estilos, aquela parte que eles vão pro espaço naquela nave colorida com o túnel espacial de luzes coloridas e os cristais rosas brilhando pelos cenários é a pura nostalgia em sua forma mais pura, os figurinos de roupas coloridas colantes dos astronautas futuristas, todos os personagens com suas sobrancelhas de Zé Bonitinho e cabelos de Sílvio Santos e as maquiagens toscas lembram o filme da Angélica também (tem até arminhas brilhantes que disparam raios coloridos).
Na verdade tudo lembra esse clássico esquecido do cinema nacional, aí do nada parte para uma briga de filmes de máfias japonesas (que não faz o menor sentido com o resto da história), depois vira um terror slasher (sem terror e metaforicamente enfadonho), depois volta pra nave colorida da Xuxa, depois vira outra tentativa de filme, agora um pretensioso thriller erótico (mas sem erotismo é claro), depois volta pra tentar ser um filme de ficção científica com a turma colorida dos Menudos, depois vira uma luta no meio dos reinos de cristais do Didi, depois volta pro que sempre foi, o filme da Angélica Zoando na TV, não passou disso, iria dar zero, mas pela nostalgia boa, vou dar nota 0,5.
Pinóquio: Maldição de Madeira
2.9 18Já quero um crossover com Chucky.
Na cena que o menininho tenta enganar seus amigos dizendo que o Pinóquio é feito de Inteligência Artificial dei muita risada e percebi a ironia da trama, roteiro satirizando sem dó os filmes com efeitos de CGI. Os efeitos especiais desse filme são tão deliciosamente toscos e divertidos, cada cena tem vida própria e é tudo divertido de ver, não tem aquela artificialidade dos efeitos exclusivamente digitais, o filme usa efeitos digitais misturados com efeitos práticos de modo muito equilibrado, muitos animatrônicos exclusivos e cenários reais construídos e não simulados no computador fazem toda a diferença na atmosfera.
Não tem aquelas cores cinzas artificiais quase obrigatórias nos filmes de terror de hoje em dia, aqui os caras usam tons coloridos sem dó, dando muito mais vida a história e passando de forma perfeita a atmosfera lúdica de contos de fadas sombrio, com direito até a liçãozinha de moral distorcida no final.
Obs: O Grilo Falante ficou a cara do Oscar Maroni.
Insana
3.5 83 Assista AgoraEm vez de passarem o filme todo em um suspense tentando descobrir o diagnóstico da menina, seria tão interessante se o filme fizesse isso apenas até a metade e no resto do tempo começasse a partir da cena final, mostrando ela voltando a ser quem era aos poucos. Teríamos um potencial muito mais emocionante, não é mesmo?
Do modo como foi feito ficou parecendo aquelas produções televisivas que ficam tentando prender a audiência o tempo todo, apostando sempre em um suspense e no desespero dos seus personagens e quando acaba é aquela correria pra encerrar logo e frases de auto ajuda jogadas pra todo lado.
Mas apesar de todos os problemas discordo das críticas que falaram que a atriz principal está ruim no papel, sendo que a personagem dela perde totalmente a expressão facial da metade pro fim do filme, achei a atuação muito boa mesmo sem espaço pra ela atuar. O roteiro corrido e amador não explora direito quem ela era antes da doença e muito menos a parte da superação da doença e por isso não vemos muito ela no filme fora das cenas de angústia e pânico, achei até que ela estava atuando bem dentro do roteiro limitado.
Hana Korea
3.5 1Um pouco burocrático e tem personagens que aparecem apenas pra cumprir tabela, como o professor que fica visitando a sala de música no maior estilo Morgan Freeman para dar conselhos de Pedro Bial, rs. Já outros personagens funcionam muito e parecem bem mais verossímeis, como a colega de quarto dela e seus conselhos bem mais realistas.
Existem muitos bons momentos interessantes onde vemos as profundas diferenças culturais entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Mas infelizmente o filme foge de tons cômicos ou divertidos que poderiam fazer a gente amar mais seus personagens, mesmo ela tendo fugido de uma ditadura quase não vemos momentos alegres, são apenas momentos exaustivos e sufocantes, ela se depara com um país preconceituoso com imigrantes.
Eu gostei do roteiro focado no cotidiano e não em idealizações da vida perfeita. A obra aposta em um tom bem mais pessimista do que estava esperando, onde ela tenta o tempo todo apagar sua identidade cultural mudando até mesmo o seu sotaque. Tendo profunda vergonha de ser quem ela é. Como se fosse culpada pelos problemas e autoritarismo da Coreia do Norte, uma reflexão interessante sobre preconceitos contra imigrantes, mas esperava mais momentos divertidos e de alívio no drama que praticamente dura o filme todo, são problemas familiares, de identidade, conflitos culturais e até luto e assédio sexual, é tudo um pouco excessivo, mas sem deixar de ser uma obra relevante, mas repito que uma situação cômica não faria nada mal pro filme, ao aliviar um pouco esses dramas todos a obra só teria a ganhar ao trazer um pouco de esperança.
Mas é por causa de todos esses dramas que a cena final funciona tão bem. E é o único momento da trama que ela passa a ser vista e aceita como uma norte coreana legítima e sem ter vergonha de ser quem ela é. Uma pena que o filme simplesmente acaba quando ela finalmente parece se encontrar, merecíamos mais momentos assim.
Rose of Nevada
2.7 4Tédio no mar, uma obra minimalista demais pra conseguir ter impacto ou mesmo extrair algo dos atores. Acaba sendo um filme frio e que nunca vai pra lugar algum.
Eu demorei pra perceber que eles tinham viajado no tempo, pra mim não funcionou esse filme, fiquei achando estranho ele questionar o namoro lá do cara sendo que ele não precisava do cara pra nada, sei lá, acabei achando que ela estava com ciúmes, achei que o plot twist do filme seria que a viagem no tempo não aconteceu e que eles eram na verdade um casal gay, faria mais sentido, não?
Qual a reflexão mesmo dessa obra?
É tudo sobre um luto coletivo de um vilarejo onde um barco com duas pessoas naufragou a milhares de anos atrás, saindo de uma vila que era mais próspera no passado e agora está abandonada já que o povo prefere pescar em outros lugares com mais peixes da rica Inglaterra, ah me poupe, filme chato e sem nada a dizer, onde o estilo visual comanda tudo e o filme parece só funcionar em torno da fotografia mesmo, o resto naufragou junto com o Rose of Nevada.
Leviticus
3.3 95Sou muito fã de A Corrente do Mal e gostei muito desse aqui. Vi várias pessoas falando que ele é apenas um drama e não um terror e acreditei, até que chegou aquela cena da cama e literalmente eu cai da cadeira, mó sustão e olha que não me assusto quase nunca com nada. Parece até mesmo uma obra derivada do mesmo universo e que assusta igualmente, embora A Corrente do Mal ainda seja mais assustador em todo o contexto misterioso da entidade, pois não tem como um filme derivado ganhar do original.
Esse filme subverteu as regras da criatura vista em Corrente do Mal para transformar o universo do filme em um thriller de terror psicológico voltado ao trauma e à repressão social. No universo de Leviticus, a criatura não escolhe aparências aleatórias igual em A Corrente do Mal; ela assume única e exclusivamente a forma física da pessoa que a vítima mais deseja e ama no mundo (fazendo com que os protagonistas Naim e Ryan vejam o monstro com o rosto um do outro). Isso transforma o medo físico em uma tortura emocional, onde o amor se torna a própria arma do crime. A criatura é gerada a partir da culpa, do medo e da dor resultantes de uma violenta "terapia de conversão" imposta por uma igreja conservadora. O monstro passa a ser a personificação da homofobia internalizada, tornando-se um fantasma psicológico que persegue os garotos por causa do preconceito de seus pais, amigos e comunidade.
O ato do monstro jogar pedras em suas vítimas antes de dar o bote final é uma referência literal e bíblica ao apedrejamento, a punição descrita no próprio Livro de Levítico (capítulo 20, versículo 13) para relações homoafetivas. Ver a imagem do namorado atirando pedras contra si reflete o conflito interno de sentir que o próprio amor é o seu maior agressor, mostrando que o medo e a paranoia é o maior combustível pra entidade maligna ganhar força. Acender uma chama arranca a criatura das sombras e desfaz os seus jogos de ilusão mental, expondo o perigo claramente já que a criatura não anda dentro dos padrões divinos, na verdade ela vai pelo sentido oposto, pois subverte a frase "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra", mostrando que ela apenas usa a Bíblia e a santidade como arma para fazer vítimas.
Caso ainda não tenha percebido, o monstro simboliza claramente a serpente (Satanás) que aparece no começo do filme, por isso ela mata as vítimas usando os braços enfiando na boca delas como uma cobra entrando dentro do corpo até engasgarem sufocadas até a morte. Portanto, mesmo que a entidade seja descrita como uma força espiritual de trauma, toda a sua mecânica de caça e execução foi desenhada para se comportar exatamente como uma cobra, ele arrasta as pessoas, enterra as pessoas nos buracos (como na cena da cabeça decepada escondida em uma cova), nas cenas de mortes a câmera está sempre rasteira para atacar suas vítimas como uma serpente em ação, aqui o Diabo usa o pecado como combustível para sufocar suas vítimas, usando como arma a própria Bíblia e a própria igreja, mas ao contrário do que diz o senso comum ele não consegue agir com total eficácia quando chega perto do fogo, pois aqui a mensagem da obra é que a purificação o enfraquece, mostrando que os garotos atordoaram o monstro com as mesmas armas que os fanáticos usaram contra eles, pois no momento que os planos malignos da Serpente foram descobertos pelos garotos ao pararem de se sentirem sufocados pelo pecado, a serpente foi obrigada a mudar de estratégia, por isso que quando pega fogo a sua última frase é "Isso é o que nós somos agora", tentando arrastar o relacionamento dos jovens para o mundo do pecado, da culpa e da vergonha para os sufocar novamente, esse é o seu último bote.
Enquanto o filme de 2014 deixa o espectador em pânico com quem está caminhando na rua, o de 2026 usa o ônibus em movimento para mostrar que, mesmo carregando cicatrizes pesadas, a única saída real é continuar avançando e deixar o passado para trás. Passado esse que não pode ser apagado em uma fogueira justamente por ter deixado traumas profundos, mas mesmo assim vira um final otimista, pois vemos o monstro ficando para trás e observando eles de longe pela janela, sem poder os alcançar naquele momento já que sua estratégia de ataque foi descoberta.
Obs: É triste constatar que esse grande filme de terror não chegará aos cinemas brasileiros, pois um casal gay em ação ainda é mais assustador que qualquer possessão demoníaca para as distribuidoras de cinema no Brasil
Guerreiras do K-Pop
3.7 221Senti que o filme foi corrido demais no final, um problema bem comum nas produções da Sony Animation.
Mas a escolha de fazer um musical em vez de um filme de animação comum foi um baita de um acerto e é muito raro ver um filme musical voltado para as crianças, a forma como homenageiam o folclore coreano é surreal de caprichada, desde as armas usadas pelas guerreiras que fazem uma criativa modernização das armas dos xamãs, a cultura dos talismãs de proteção, o mundo dos mortos e até detalhes que somente quem conhece a cultura de forma aprofundada vai entender, como a piada envolvendo o chapéu do tigre azul sendo roubado pela ave, o que me rendeu ótimas gargalhadas.
Músicas envolventes, direção de arte e qualidade da animação impecável, personagens muito carismáticos, a forma como a obra brinca com os doramas em vários momentos da trama é muito divertida, mesmo sendo uma produção dos EUA é visível o carinho e a admiração pela cultura sul coreana em todos os momentos.
Obs: Fico com dó das pessoas que foram assistir dublado, simplesmente perde toda a emoção em um musical. Sorte que os cinemas aqui da minha cidade mantiveram vários horários legendados, o que já é muito raro para filmes comuns aqui na minha city, ainda mais para uma animação. Ou seja, a cultura coreana realmente rompeu barreiras.
Obs 2: Outra barreira cultural que foi rompida é que a produção de maior sucesso da história da Netflix é justamente um filme musical e totalmente assumido, acabou com o senso comum que vivia dizendo que o povo não gosta de musicais (filmes musicais recentes até chegaram a esconder que eram do gênero em materiais de divulgação como Meninas Malvadas, A Cor Púrpura e Wonka).
Amaldiçoada
3.8 408 Assista AgoraNão consegue ir além de um filme padrão de faroeste, a crítica a violência contra a mulher não é profunda pois a obra caminha sempre dependendo da violência pra avançar, o filme nunca se aprofunda realmente nas questões psicológicas e nem na crítica religiosa pois fica preso em um ciclo vicioso mostrando várias cenas de violências uma atrás da outra como se isso bastasse por si só pra criticar a misoginia e a perda da autonomia feminina.
O diretor parece saber que as cenas violentas vão perdendo seu impacto após serem repetidas, então dobra a aposta e está sempre aumentando a intensidade delas, enquanto o vilão não tem nuance nenhuma que possa levar a algo além da maldade pela maldade, o ator interpreta muito bem e ele tem um estilo até interessante que beira o sobrenatural, mas sem trazer o aprofundamento que o personagem precisava, é como um vilão de filme B, bem interpretado dentro dos clichês padrões do gênero Western, mas sem nunca soar memorável ou como objeto de estudo.
A expressão mulheres sem voz foi levada a sério demais pelo diretor, duas vezes seguidas ainda.
Acho que o diretor pensou, vamos colocar duas mulheres perdendo a língua, uma língua só cortada fora poderia passar despercebida nas duas horas e meia de filme.
Não tem nenhuma sutileza nessa obra, mesmo nas cenas que as mulheres estão se apoiando não vemos nenhuma tentativa de dar uma leveza na trama, até mesmo nas cenas que ela está sozinha com sua filha pequena não vemos praticamente momentos engraçados, leves ou minimamente memoráveis. As cenas memoráveis são apenas as violentas mesmo, no fim é como se o vilão tivesse vencido em todos os momentos, até quando não estava por perto.
Destaque para a atuação da Dakota e do vilão principal, apesar da simplicidade da trama eles possuem atuações muito boas que conseguem passar tensão e uma sensação constante de urgência na história. Mas é uma pena que todo o filme tá sempre preso nessa ciclo constante que beira o inferno cristão e que queima no fogo eterno a profundidade de tudo. Só não consegue incendiar totalmente as barreiras do bom e velho clichê de velho oeste, embora fique em muitos momentos bem extenuante e vazio.
Garça-Azul
3.5 5Nossa, achei esse filme muito parecido com Aftersun. Blue Heron tem suas qualidades e constrói uma atmosfera intimista interessante, só que é mais focado nos dramas e conflitos, já o trabalho de direção de Charlotte Wells em Aftersun é focado no humor e nos momentos divertidos e opera em um nível quase impecável de sensibilidade e linguagem cinematográfica.
O que faz Aftersun se destacar tanto é a forma como ele lida com a memória e o subtexto. O filme não entrega respostas mastigadas sobre a dor de Calum (Paul Mescal) igual Blue Heron faz com o protagonista; em vez disso, força o espectador a reconstruir aquele vínculo junto com Sophie adulta, usando gravações caseiras e flashes de memória. A cena final ao som de Under Pressure do Queen é uma das sequências mais devastadoras e brilhantemente editadas do cinema recente.
Blue Heron entrega uma experiência envolvente e que apresenta reflexões interessantes sobre como os problemas de saúde mental eram tratados nos anos 90, mas da metade pro final do filme perdemos totalmente o vínculo com o aprofundamento do rapaz pois a história deixa de se passar no passado e passa a ser nos tempos atuais, com poucos momentos em que o rapaz realmente aparece nela, vemos muito pouco dele e ele passa a ser totalmente coadjuvante na trama, perdendo o impacto emocional que tudo poderia ter. Já Aftersun permanece com você por dias em sua memória, justamente por colocar eles como protagonistas da história, focando mais na relação de vínculos e no que ficou não dito entre um pai e uma filha.
Rosalina
3.4 34Que trilha sonora impecável, locações maravilhosas (filmar na Itália de verdade e não em estúdio fez toda a diferença, deixou o filme cheio de brilho e vivo), figurinos incríveis, fotografia belíssima e a atuação da Kaitlyn Dever é a alma do filme, excelente atriz, ela simplesmente consegue ser sarcástica do começo ao fim do filme sem virar uma personagem chata.
A peça original de Shakespeare imortalizou Romeu e Julieta como o ápice da paixão. O filme desconstrói essa ideia mostrando que esse "amor épico" é, na verdade, uma impulsividade adolescente imatura e superficial. Em suma, o filme usa o humor e o anacronismo (comportamentos e linguagem modernos dentro de um cenário renascentista) para questionar o quanto a sociedade historicamente limitou os sonhos das mulheres e vendeu a dependência emocional como o único "final feliz" possível.
A sátira no final de Rosalina é brilhante porque subverte completamente a tragédia mais famosa da literatura, transformando um duplo suicídio sombrio em uma grande cena de humor. O filme escancara que o amor tragicamente "perfeito" de Romeu e Julieta só parecia tão intenso porque durou apenas três dias e foi alimentado pelo drama. Quando a realidade bate à porta, eles viram apenas dois jovens impulsivos presos num relacionamento sem futuro!
Na peça original de Shakespeare, Rosalina é apenas mencionada no Primeiro Ato como a garota por quem Romeu era obcecado até ver a Julieta. Ela sequer tem falas na peça! O filme pega essa "injustiça" histórica e transforma em piada na cena final quando o casal comenta que nem querem saber se eles serão lembrados. Rosalina e Dario ficam com a vida real: liberdade, um relacionamento maduro e zero drama familiar. Enquanto a sociedade prefere romantizar a tragédia e o drama jovem, transformando poemas vazios em uma profundidade que não se sustenta quando a poesia acaba e a vida real começa (como vimos na cena final do barco, onde o romance praticamente já tinha acabado.)
Pode não ser denso, mas na leveza e no humor também existe sua profundidade e o filme aqui está muito acima da média das comédias românticas em todos os aspectos, essa comédia romântica tinha tudo pra virar um clássico do cinema se tivesse uma melhor divulgação e quem sabe uma estreia nos cinemas.
Todo Mundo em Pânico
2.6 360 Assista AgoraMelhor que o remake recente de Corra que a Polícia Vem Aí com toda certeza é, mas ainda assim é inferior a todos os outros filmes da franquia Todo Mundo em Pânico (tirando o 5 que continua o pior de todos) e muito inferior ao cult As Branquelas.
São várias esquetes e piadas forçadas, enquanto assistia eu ficava pensando que algumas das piadas não eram realmente ruins e devem ter ficado realmente ótimas no papel, mas na hora de ver na tela parece apenas algo vazio jogado ali de qualquer maneira apressada e que não causa risos, tem poucos momentos realmente criativos, o destaque mesmo foram as cenas parodiando A Substância, Guerreiras do K-Pop e o final parodiando os encerramentos de todos os filmes recentes da franquia Pânico, essas cenas me lembraram levemente dos velhos tempos da franquia por alguns poucos minutos.
Mas no resto do filme só ficava pensando em que momento tudo se perdeu e virou humor de churrasco pra tiozões, tudo parece apenas algo formulaico e infantil, antes parecia ser mais engraçado, ousado e tinha uma espécie de sátira social contínua e não apenas piadas soltas e totalmente isoladas querendo atirar pra todos os lados e sem atingir ninguém, no final toda aquela ousadia vendida pelo marketing de que "o filme iria trazer os bons tempos do humor politicamente incorreto de volta" ficou tão vazia como promessa de campanha de político.
O primeiro Todo Mundo em Pânico (2000) funcionava muito bem porque ele respeitava a estrutura de um filme de terror/suspense; as piadas ganhavam força justamente por quebrar a tensão de uma cena que parecia assustadora de verdade (como esquecer da cena do silicone ficando preso na faca do Ghostface? se fosse só essa cena sem todo o clima de perseguição ela não causaria quase nenhum riso). Quando um filme de paródia se transforma em uma metralhadora de esquete, disparando piadas sem respiro, o humor acaba saturando porque não há contraste. E aqui temos uma verdadeira metralhadora de piadas automáticas e sem impacto, quando acaba já esquecemos todo o filme.
Sangue Possuído
2.1 27 Assista AgoraEsse filme canadense de baixo orçamento pode parecer meio perdido em seu passeio por vários tipos de filmes de terror diferentes, mas achei bem coerente em sua crítica ao machismo, a religião e todo o conceito patriarcal que se esconde por trás das comunidades religiosas e de como eles sempre culpam as mulheres de serem livres enquanto os homens são parabenizados por serem selvagens. Destaque para a atuação da Summer no papel principal (nossa futura Carrie - A Estranha, outra obra com temática de opressão religiosa que chega no Halloween desse ano), que resgata bastante a tensão de uma adolescente vivendo sob a ótica da opressão, é criticada por tudo que para os homens da sua idade é normal, até mesmo ler Histórias em Quadrinhos.
Com elementos típicos de Folk Horror, desde a comunidade isolada e assassinatos misteriosos, até o comportamento das meninas que ao se depararem com o medo, o luto e o trauma, aos poucos vão voltando para um estado primitivo e ancestral do comportamento humano e ao visual da criatura apresentada como uma mistura de humano com árvore e que aparece para várias meninas que estão sozinhas na floresta.
Ao vermos que o assassino é apenas um humano de carne e osso, o tom do filme muda drasticamente dos tons sombrios de contos de fadas sobrenatural com elementos de folk horror para o horror real, sangrento e visceral de um terror policial de sobrevivência, encerrando a mensagem da temática de amadurecimento do filme, do monstro saindo pra dar lugar ao homem, os pesadelos infantis da menina indo embora ao se deparar com a realidade bruta e cruel. Mostrando que o tempo todo a criatura que espreitava na floresta e aparecia em vários momentos emblemáticos do filme realmente existia e não era um Homem Árvore e sim um simples caçador humano disfarçado com vegetações e pronto para fazer novas presas.
Se reparar no começo do filme na cena da abordagem policial ela visualiza um cara estranho ao lado da viatura, reparem bem nele, logo depois esse mesmo cara atravessa a rua e ela desvia o carro, ele é o assassino abusador que aparece no final do filme. Ao passar pela viatura, o olhar dela cruza com o dele. Os adultos ignoram aquela figura periférica, mas ela, com a intuição e o medo aguçados, fixa os olhos no homem e percebe que há algo de profundamente errado e ameaçador nele. O roteiro planta esse momento de forma genial: a resposta para o mistério estava literalmente na cara da polícia e sob os olhos da protagonista desde o início do filme, mas a comunidade preferiu ignorar o perigo real que andava entre eles, forçando as garotas a buscarem suas próprias respostas na floresta. O fato de ela ser a única a conseguir enxergá-lo no começo do filme amarra perfeitamente toda a psicologia da história por dois motivos principais: O primeiro deles é O "Sexto Sentido" do Trauma: como a protagonista já carrega uma bagagem de vulnerabilidade, luto e medo daquele ambiente opressor, a mente dela funciona quase como um radar para o perigo real. Enquanto os outros estão cegos pela rotina ou pela falsa sensação de segurança da comunidade, ela capta a presença da ameaça rondando os limites da floresta. O segundo deles é A Projeção do Monstro: Isso explica perfeitamente por que ela lidera a criação do "mito" e do ritual. Como ela viu aquele homem bizarro e ameaçador, mas provavelmente não conseguiu processar ou expressar isso de forma racional para os adultos (que não acreditariam ou a reprimiriam), a mente dela transformou aquela figura assustadora na floresta no "monstro sobrenatural" e sua amiga que perdeu a melhor amiga pro assassino é a única que acredita inicialmente nela.
Encerrando com chave de ouro podemos ouvir "Whole Wide World do Wreckless Eric", clássico dos anos 70 sobre a solidão de um homem que resolve dar a volta ao mundo para procurar a garota que esconderam. Combinando com a temática do filme da menina amiga dela que queria fugir do vilarejo e conhecer o mundo e aqui a mensagem musical da obra adquire novas camadas quando a letra realça "a garota que esconderam" realçando a mensagem de liberdade e empoderamento feminino e união das mulheres pra romperem as normas sociais da opressão.
Backrooms: Um Não-Lugar
3.2 464 Assista AgoraQue filmaço, não dava nada pra essa lenda da internet. Mas fiquei agoniado em todos os minutos, ele não é tão assustador igual Obsessão, mas é perturbador de uma forma totalmente diferente e nos consegue passar muita claustrofobia enquanto nos sentimos presos nessas salas e corredores infinitos.
Embora a metáfora sobre depressão seja óbvia e com muitos momentos em que o filme se explica de forma exageradamente didática pra audiência (como a cena da reunião com a terapeuta em volta da mesa), gostei demais de ter visto ele e superou muito minhas expectativas que estavam bem baixas, pois quem está acostumado a assistir adaptações de games para os cinemas sabe como elas ficam bem ruins.
Aqui embora a direção de arte fica bem acima em qualidade do que o resto do filme, funcionou muito bem em causar vertigem e nos deixar com a sensação de sufocamento e acabou fazendo um paralelo perfeito com os sintomas e sensações de uma depressão e o plot twist é simplesmente perfeito.
Na psicologia da depressão, existe um fenômeno muito comum que é a falsa melhora ou a sensação temporária de que "tudo passou" e o encerramento do filme é o puro suco disso e funciona muito, sua metáfora também é muito boa ao mostrar que até mesmo os profissionais de saúde mental mais renomados podem estar presos em um "loop infinito" sem perceberem.
Obs: Precisam urgente chamar a A24 pra dirigir Silent Hill e resgatar essa franquia do buraco (da Backrooms) em que ela se encontra.
Girls Like Girls
3.0 5É previsível e entediante, como se a diretora tivesse construído um enredo do nada apenas pra criar cenas sem uma narrativa forte que as acompanhem. Como um diretor de cinema de terror criando personagens apenas pra inserir violência gráfica neles.
Na ânsia de ser um romance teen pra geração que não pode se frustrar e muito menos se chocar com nada, a obra esquece até do clipe de 2015 que pretendia homenagear (que era muito mais impactante e melhor que esse filme todo aqui).
Não tem conflitos (só briguinhas clichês amorosas), nem mesmo política, nem ao menos machismo (só em cenas realmente bem pequenas e suavizadas, até mesmo o pai que a abandonou é retratado como bonzinho) e nem mesmo aparece a temida homofobia (mesmo sendo um filme que se passa em 2006, antes da legalização do casamento gay nos EUA, o máximo que vemos de homofobia aqui é o rapaz dizendo pra namorada não passar creme rosa no seu corpo que é coisa de gay), a sensação é como um grande Filme Conforto, ou seja, um romance interminável repleto de momentos vazios, como se o filme não tivesse tido a coragem de contar os reais motivos da demora de uma assumir o namoro com a outra, que deveria ser o ponto central da narrativa (fica até parecendo que sua namorada é a vilã da história).
Ainda quero uma adaptação do clipe, dessa vez nas mãos de uma direção especializada em cinema e que tenha coragem de descer a lenha na sociedade, pois jogar no seguro não significa nada além de falta de coragem pra fazer críticas ácidas. Nada contra a estrela pop e seus milhões de seguidores, mas vamos chamar de volta os temidos diretores de cinema odiados e com poucos seguidores pra dirigir os filmes.
Como ponto positivo eu gostei da fotografia e seu verão ensolarado, do clima nostálgico do começo dos anos 2000 e as atrizes até que tentaram salvar tudo, mas andorinhas sozinhas não podem trazer o verão. Falando em verão, vale ver o filme lésbico australiano "Meu Primeiro Verão", esse sim consegue fazer um filme sáfico feliz, mas sem ser covarde, é sim memorável e ainda trata de traumas, de lutos e tem densidade emocional fortíssima mesmo sendo um filme leve, seus momentos contemplativos são belos, não apenas entediantes como nesse filme clichê aqui.
Procurando Emily
3.5 12O filme funciona tão bem pois Owen não é apenas um rapaz abobalhado, ele precisa ser assim, pois o personagem dele é a representação do amor idealizado e a sua ingenuidade é a sua maior fraqueza mas também sua melhor e mais poderosa arma, enquanto o personagem de Emily é a pura representação do cinismo arromântico e ao fugir da ingenuidade acaba ignorando que não existe maturidade sem a vulnerabilidade emocional.
Por mais que seja clichê a premissa dos "opostos se atraem" aqui funciona bem pois vemos duas ideologias diferentes entrando em conflito o tempo todo e com isso acabam se completando entre erros e acertos e a direção do filme equilibra muito bem isso impulsionada pelo carisma dos personagens e da trilha sonora que é muito linda.
Reparem como o quarto do rapaz é todo bagunçado, cheio de instrumentos musicais jogados pelos cantos, enquanto o dela é todo arrumado, com livros empilhados, quando ela está em cena as cores frias permanecem, luminosidade clara do ambiente acadêmico e paleta cinza, já quando ele entra em cena as cores quentes dominam a tela, cor âmbar e neon, remetendo a uma estética nostálgica.
A cidade inglesa de Manchester é a personagem central do filme, com seus bairros boêmios cheios de pubs, suas lojas de discos, clubes de músicas, lugares alegres contracenando com suas ruas antigas, árvores mortas e a fria arquitetura industrial vitoriana, lugares formais e antigos contrapondo grafites urbanos e lugares modernos e animados, quando eles estão juntos todo o cenário se completa e as cores frias se misturam com as cores quentes em uma verdadeira bagunça organizada. Essa é a definição do amor.