Embora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Venerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Excêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.
Antes de entrar na literalidade do título abrasileirado, é preciso saber que a tradução literal deste excelente western estadunidense é "A Espora Nua", quando, conotativamente, essa tal espora venha a ter vários significados, inclusive sendo uma peça fundamental na história. Porém, apesar dos ingredientes do gênero, pode-se inferir se tratar de um faroeste psicológico, retratando uma complexa e perigosa jornada, sob a belíssima figuração de montanhas e rios, de ganância, avareza, cobiça e traumas, onde todos desconfiam de todos nesse redemoinho de emoções conflitantes. Mas, ainda assim, havendo espaço para brotar emoções bondosas, o que, de certa maneira, acarretou num final abrupto e professoral - será que o preço de um homem é o amor? E um salve para a ambiguidade cênica do mestre James Stewart!
Uma verdadeira comédia dramática do absurdo brilhantemente bizarra. Ambientada numa hipotética e entediante Winnipeg, Canadá, sua língua oficial é a persa, embora coexistindo com a francesa, e tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. E, trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local e a põe em choque de maneira inteligente e com sabedoria, para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. Predominantemente, trata-se de um filme nada convencional sobre pertencimento (família, cidade, país), com um convite à reflexão, transitando entre o núcleo duro da desilusão e a esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) bem mais tênues. Um filme original, singular, estranho e engraçado.
Um recorte frenético e original dos Estados Unidos da América no conturbado Século XXI. Ou seja, hoje. De conteúdo político intenso e personagens profundamente falhos, este ácido e impressionante filme mistura a paranoia extremista da decadência com o esperançar da humanidade de geração em geração, quando o ser humano necessita urgentemente vencer sua luta interna em batalhas invisíveis recorrentes. Propositadamente confuso e desordeiro, o longa, com competência e elegância, sabe envolver e cativar o espectador nos seus torrenciais 162 minutos, numa saga épica, ágil e hilária sob a batuta de excelentes atuações. Obra grandiosa e inteligente que se situa na resistência artística cultural à beira do colapso, o que incomoda a carrancuda patrulha pensadora do cinema como apenas circo de diversão. Essencial!
Vindo das mãos do diretor mexicano Guillermo del Toro - o mestre das reimaginações, há de se esperar excelência e beleza na parte técnica de qualquer obra. Cá não seria diferente. Baseado na conhecida tragédia miltoniana homônima de Mary Shelley (1818), este tocante e profundo filme, ao contrário das adaptações anteriores, não foca no mito da trágica criatura, mas no vazio existencial presente nela e, principalmente, no seu criador, o Barão Victor Frankenstein (firme atuação de Oscar Isaac): gênio, egoísta e, absurdamente, o verdadeiro bicho da trama. Mesmo sendo uma história de ficção gótica, percebe-se muita pressa e superficialismo ao narrar os opulentos dramas expostos, trazendo uma facilidade narrativa dispensável ao longa. Porém, surge como um espetáculo operístico impressionante num mundo de fantasia selvagem e sangrento, onde o homem vira monstro ao brincar de ser Deus. Em resumo, um conflito não resolvido entre pai(s) e filho(s).
Baseado vagamente na vida do mesatenista Marty Reisman, este frenético e barulhento filme suga a total irresponsabilidade e impulsividade de um atleta raiz, defensor do estilo tradicional do tênis de mesa com o uso da raquete dura. Impulsionada pela extraordinária atuação de Timothée Chalamet, sabedor da odiosa insuportabilidade do seu personagem e entregando tal sujeito intragável, a obra oferece tantas conexões que parece se perder dentro da própria trama. Porém, paradoxalmente, cresce com o passar das cenas, muito pelo afã do espectador para o aparecimento das possíveis consequências e armadilhas dos atos anteriores. Caótico, catártico e, por vezes, cômico, o longa, pelas câmeras cintilantes do diretor estadunidense Josh Safdie, desafia o público a apreciar a companhia de um narcisista patético. Surpreendentemente, consegue. E com brilho!
A criação do clássico 'Hamlet' teria ocorrido como inspiração após o falecimento precoce do filho Hamnet (Jacobi Jupe), de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes Hathaway (Jessie Buckley estupenda e gritante)? Ser ou não ser, eis a questão brilhantemente retratada pelas mãos da competentíssima diretora chinesa Chloé Zhao baseada no livro homônimo de Maggie O'Farrell. Por ser um drama de época ardente e abrasador, a emoção sentimentalista às vezes piegas preenche a tela e o filme insuportavelmente a cozinha com a necessidade e urgência que a humanidade pede, pois é preciso sentir as perdas de uma forma nova. Já que estas vão acontecer. O trabalho de transfiguração emotiva misturado com a celebração do teatro é violentamente belo, quase sísmico, resultando numa obra elegíaca sem reducionismos.
Daquelas animações que produzem suspiros, seja numa criança ou seja na criança viva no interior de cada adulto. Porque traz esperança à humanidade, ao mesmo tempo que alerta sutilmente sobre o inexorável futuro, não só o do avanço tecnológico ou o do cinzento meio ambiente, mas, sobretudo, o das relações familiares e/ou interpessoais - apesar de que a desobediência aos pais não deva significar rebeldia inocente estilo Peter Pan. É um filme leve, sóbrio, rico e colorido com um design em 2D primoroso, feito à mão por seres humanos, o que propicia uma honestidade emocional latente à obra e uma revigoração delicada ao espectador. Embora seja uma narrativa textual confusa e enigmática, a sensibilidade do diretor francês pende pra seriedade da temática evocada, resultando numa sessão agradável e encantadora.
Respeitando e homenageando os velozes carros de corrida, é um ode ao alucinante e viciante automobilismo esportivo, com todos os temperos que este oferece: treinamento, estratégia, talento, coragem e, sobretudo, adrenalina. Como se existissem filmes dentro do filme, o que justifica a longa duração, as suas subtramas (há aqui uma sutileza temática que pode passar despercebida, como questões geracionais, mídia, dinheiro e família) criam um arco narrativo de redenção e emoção que cativa, apesar dos clichês básicos do cinemão estadunidense. O poder visual é absurdo e mágico, botando o espectador pra dirigir uma máquina automotiva com todo o frenesi barulhento que as pistas de Fórmula 1 oferecem. E são essas cenas que verdadeiramente valem o tempo despendido, ainda que o carisma e a canastrice de Brad Pitt estejam no ápice. Daqueles blockbusters que se sente falta.
Importante, comovente e inspirador documentário iraniano que segue a divorciada Sara Shahverdi, primeira mulher eleita vereadora da sua longínqua aldeia, quem desafia as regras e tradições patriarcais antigas ao ensinar meninas a pilotar motocicletas e ao combater escancaradamente o casamento infantil forçado. Ao retratar a trajetória determinada e obstinada de uma resiliência em pessoa, o filme pulsa esperança e a oferece ternamente às mulheres do Irã, sedentas por mudanças culturais e sociais. Contudo, é, também, desanimador, por desnudar uma sociedade altamente reacionária - embora queira se beneficiar de uma perspectiva externa de ajuda adicional - em plena auroridade do Século XXI. Como um alento cinematográfico, é a geração do poder político de um local ecoando sob um simples desejo de falar com sinceridade.
O retrato da resiliência das pessoas comuns (Mister Nobody, ou Senhor Ninguém) contra as poderosas forças institucionais de um aparato estatal ensandecido pelo conflito bélico. Assim é este conciso e envolvente documentário sobre como a Rússia passou a exigir exibições patrióticas regulares nas escolas primárias a fim de justificar e angariar o apoio dos alunos à guerra russo-ucraniana. Porém, ao também exigir o envio de gravações dessas "aulas", o governo russo ofereceu ao professor Pavel Talankin a chance de produzir um material claro e cristalino da autocracia (momentânea ou não?) de Vladimir Putin. O fato de apenas uma escola ser registrada pode trazer à tona questionamentos sobre o tema documentado neste filme, que opta por um viés altamente parcial, além de intimista e melancólico. Mas sem deixar de ser perturbador e explicitar a megalomania egoísta do presidente da maior nação da Terra.
São tantos os horrrores da ditadura militar brasileira que muitos do visto neste excelente filme passam despercebidos, pois a ordem natural do cidadão médio comum é enxergar somente a repressão policial do supracitado regime. A demonstração da corrupção estatal e a onipresença do medo e da morte são desses exemplos esquecidos mas devidamente retratados no longa, que oferece um Armando/Marcelo (o consolidado Wagner Moura, carregado de arco dramático, brilha como nunca), pesquisador que se tornara fugitivo e paranoico, em busca de respostas, ou da sua história, ou da história em si. Assim como o Brasil, viciado em queimar seus próprios arquivos desde o tal "descobrimento". Estabelecendo uma tensão narrativa propositadamente anticlimática, eis uma obra instigante, reflexiva e perspicaz sobre apagamento das memórias, seja por violência, seja por conveniência.
A palavra bugonia vem de uma antiga crença mediterrânea em que abelhas surgiam espontaneamente de um boi ou vaca em decomposição. Ou seja, um sacrifício simples a fim de resolver uma solução ardilosa. Assim, este interessante filme navega sobre a desumanização da sociedade nos seus variados níveis de violência, desde a física às pós-verdades oriundas dos ruídos da comunicação global (um eufemismo para as fake news conspiratórias das redes sociais). A misantropia mentirosa do bom e sarcástico diretor grego pode afastar certos espectadores, porém, equilibra o absurdo e a honestidade mordaz zombando tanto a amoralidade corporativa quanto a paranoia dos tolos internautas frente à informação infinita. É violento, satírico, inverossímil e deplorável, mas inegavelmente envolvente e ácido ao capturar a loucura de uma convicção. Em linhas tortas, um desesperançoso relato fiel do nosso tempo.
Com uma mistura singular de comicidade e terror, eis um filme envolvente e vertiginosamente assustador, especialmente no tom de suspense evocado sob vários enquadramentos. Por mais que o primeiro terço do longa se arraste testando a paciência do espectador, o mistério central é instigante e profundamente perturbador, ainda mais quando se trata de crianças numa trama inconclusiva e trágica. Em suma, é uma obra satisfatória tanto pela engenhosidade inteligente da narrativa e seus choques de histórias sobrepostas quanto pelas atuações cativantes do elenco, principalmente de Amy Madigan como a maligna e maldosa Tia Gladys.
Cambaleando entre o real e a ficção a fim de estabelecer um cinema-denúncia, este necessário filme tunisiano traz luz ao exagerado bombardeio israelense sobre os palestinos de Gaza, onde não há diferenciação entre pessoas. Basta não ser judeu para que vire um alvo potencial a receber balas de metralhadoras da Força de Defesa de Israel, seja idoso, adulto, jovem ou mesmo uma criança de 06 anos, como é o caso de Hind Rajab. Usando os áudios verdadeiros da menina após pedir socorro ao Centro do Crescente Vermelho da Cisjordânia por estar escondida dentro de um carro, esta dolorosa obra docuficcional não apresenta floreios ao espectador, pelo contrário. De caráter repetitivo e exaustivo, o longa se situa na lâmina afiada do impasse, ético e moral, que estabelece um critério claro: a morte. E sem algum alento, pois não se trata de uma situação isolada. Virou costume de lá.
A partir da perspectiva de uma criança, desde quando feto, esta comovente e filosófica animação é surpreendentemente direta e simples ao atingir temas tensos e espinhosos com sutileza e doçura, tal qual a inocência terna da infância. Ainda que a narrativa possa parecer incisiva, as emoções jorram sem exagero e com personalidade, propiciando um filme visualmente deslumbrante e encantadoramente transportador. Assim, agradando aos pais e filhos, o resultado deste realismo mágico irá diferir a depender de cada espectador, pois as paredes da memória moldam e transformam o indivíduo. Principalmente os que sabem dançar na chuva se equilibrando entre a maturidade e a criancice.
Apesar de não ser uma cinebiografia sobre o ídolo Neil Diamond, é impossível disassociar o nome do ícone ao conjunto da obra. Pois, sobretudo, este é um filme sobre o amor sem ironia nem significados ocultos - é sobre um belo, verdadeiro e companheiro amor. Mike (Hugh Jackman bem convincente), o Lightning, e Claire (Kate Hudson em sua melhor atuação na carreira), a Thunder, não são apenas uma banda de tributo ao mestre Diamond. São partes indissociáveis de uma adoração pela música e de uma ardente paixão por si próprios, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, como diria o mandamento religioso cristão ocidental. Além do longa ser uma homenagem terna ao brilho discreto de vidas simples vividas com sinceridade, mas que tateia quando adentra no melodrama artificial do sentimentalismo barato. Um entretenimento lacrimoso e empático que vale a pipoca.
Um minucioso estudo claustrofóbico da maternidade no limite, quando a mulher, casada ou solo, é testada e exigida em cada novo respirar. Cá, neste pungente drama com pitadas de horror, Linda (impossível não citar a atuação corajosa e majestosa de Rose Byrne) vê-se cotidianamente esgotada, tanto lenta quanto naturalmente, ao mesmo tempo em que precisa con(sobre)viver com a doença misteriosa da filha, a ausência do marido, o buraco no teto do apartamento, a relação tóxica com seu terapeuta, o seu trabalho como psicóloga, os vícios, enfim, com um mundo desmoronando ao seu redor. Não há validação nem heroísmo ao ato de ser mãe, pois a câmera da diretora estadunidense é crua, honesta e imparcial mesmo nas situações nada realistas do filme, o que pode ocasionar desagradáveis choques ao espectador mais sensível. Mas, como o próprio título sugere, é um retrato da impotência exausta.
Produzida pela Walt Disney Animation, esta é uma sequência que fez-se necessária, baseada na mensagem reflexiva sobre as diferenças entre espécies existente no primeiro filme. Porque a vida continua e o novo sempre vem. Logo, o trabalho social consciente dessa história eletrizante sem apelação aos clichês do gênero, apesar de algumas previsibilidades esperadas, aprofundou em temas antigos mas numa versão modernizada, como responder perguntas difíceis sobre aqueles em quem se confia e a busca da afirmação de jovens inseguros junto aos familiares mais sisudos. O ritmo muito acelerado dificulta certos entendimentos, porém, foi o caminho escolhido para explicitar a expansão de um novo mundo na cidade zoo(u)tópica. Sintetizando, uma vibrante animação sobre escolhas, tentativas e mudanças. E com o pós créditos dando a dica da parte 3.
Terra Tranquila
3.4 73 Assista AgoraEmbora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Eddington
3.1 107Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Andrei Rublev
4.3 130 Assista AgoraVenerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Neste Mundo e no Outro
4.0 41 Assista AgoraExcêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Gabbeh
3.8 36Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Crumb
4.3 74Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.
O Preço de um Homem
3.8 29Antes de entrar na literalidade do título abrasileirado, é preciso saber que a tradução literal deste excelente western estadunidense é "A Espora Nua", quando, conotativamente, essa tal espora venha a ter vários significados, inclusive sendo uma peça fundamental na história. Porém, apesar dos ingredientes do gênero, pode-se inferir se tratar de um faroeste psicológico, retratando uma complexa e perigosa jornada, sob a belíssima figuração de montanhas e rios, de ganância, avareza, cobiça e traumas, onde todos desconfiam de todos nesse redemoinho de emoções conflitantes. Mas, ainda assim, havendo espaço para brotar emoções bondosas, o que, de certa maneira, acarretou num final abrupto e professoral - será que o preço de um homem é o amor? E um salve para a ambiguidade cênica do mestre James Stewart!
Linguagem Universal
3.2 8 Assista AgoraUma verdadeira comédia dramática do absurdo brilhantemente bizarra. Ambientada numa hipotética e entediante Winnipeg, Canadá, sua língua oficial é a persa, embora coexistindo com a francesa, e tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. E, trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local e a põe em choque de maneira inteligente e com sabedoria, para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. Predominantemente, trata-se de um filme nada convencional sobre pertencimento (família, cidade, país), com um convite à reflexão, transitando entre o núcleo duro da desilusão e a esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) bem mais tênues. Um filme original, singular, estranho e engraçado.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 656 Assista AgoraUm recorte frenético e original dos Estados Unidos da América no conturbado Século XXI. Ou seja, hoje. De conteúdo político intenso e personagens profundamente falhos, este ácido e impressionante filme mistura a paranoia extremista da decadência com o esperançar da humanidade de geração em geração, quando o ser humano necessita urgentemente vencer sua luta interna em batalhas invisíveis recorrentes. Propositadamente confuso e desordeiro, o longa, com competência e elegância, sabe envolver e cativar o espectador nos seus torrenciais 162 minutos, numa saga épica, ágil e hilária sob a batuta de excelentes atuações. Obra grandiosa e inteligente que se situa na resistência artística cultural à beira do colapso, o que incomoda a carrancuda patrulha pensadora do cinema como apenas circo de diversão. Essencial!
Frankenstein
3.7 598 Assista AgoraVindo das mãos do diretor mexicano Guillermo del Toro - o mestre das reimaginações, há de se esperar excelência e beleza na parte técnica de qualquer obra. Cá não seria diferente. Baseado na conhecida tragédia miltoniana homônima de Mary Shelley (1818), este tocante e profundo filme, ao contrário das adaptações anteriores, não foca no mito da trágica criatura, mas no vazio existencial presente nela e, principalmente, no seu criador, o Barão Victor Frankenstein (firme atuação de Oscar Isaac): gênio, egoísta e, absurdamente, o verdadeiro bicho da trama. Mesmo sendo uma história de ficção gótica, percebe-se muita pressa e superficialismo ao narrar os opulentos dramas expostos, trazendo uma facilidade narrativa dispensável ao longa. Porém, surge como um espetáculo operístico impressionante num mundo de fantasia selvagem e sangrento, onde o homem vira monstro ao brincar de ser Deus. Em resumo, um conflito não resolvido entre pai(s) e filho(s).
Marty Supreme
3.7 319 Assista AgoraBaseado vagamente na vida do mesatenista Marty Reisman, este frenético e barulhento filme suga a total irresponsabilidade e impulsividade de um atleta raiz, defensor do estilo tradicional do tênis de mesa com o uso da raquete dura. Impulsionada pela extraordinária atuação de Timothée Chalamet, sabedor da odiosa insuportabilidade do seu personagem e entregando tal sujeito intragável, a obra oferece tantas conexões que parece se perder dentro da própria trama. Porém, paradoxalmente, cresce com o passar das cenas, muito pelo afã do espectador para o aparecimento das possíveis consequências e armadilhas dos atos anteriores. Caótico, catártico e, por vezes, cômico, o longa, pelas câmeras cintilantes do diretor estadunidense Josh Safdie, desafia o público a apreciar a companhia de um narcisista patético. Surpreendentemente, consegue. E com brilho!
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.2 412 Assista AgoraA criação do clássico 'Hamlet' teria ocorrido como inspiração após o falecimento precoce do filho Hamnet (Jacobi Jupe), de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes Hathaway (Jessie Buckley estupenda e gritante)? Ser ou não ser, eis a questão brilhantemente retratada pelas mãos da competentíssima diretora chinesa Chloé Zhao baseada no livro homônimo de Maggie O'Farrell. Por ser um drama de época ardente e abrasador, a emoção sentimentalista às vezes piegas preenche a tela e o filme insuportavelmente a cozinha com a necessidade e urgência que a humanidade pede, pois é preciso sentir as perdas de uma forma nova. Já que estas vão acontecer. O trabalho de transfiguração emotiva misturado com a celebração do teatro é violentamente belo, quase sísmico, resultando numa obra elegíaca sem reducionismos.
Arco
3.8 51 Assista AgoraDaquelas animações que produzem suspiros, seja numa criança ou seja na criança viva no interior de cada adulto. Porque traz esperança à humanidade, ao mesmo tempo que alerta sutilmente sobre o inexorável futuro, não só o do avanço tecnológico ou o do cinzento meio ambiente, mas, sobretudo, o das relações familiares e/ou interpessoais - apesar de que a desobediência aos pais não deva significar rebeldia inocente estilo Peter Pan. É um filme leve, sóbrio, rico e colorido com um design em 2D primoroso, feito à mão por seres humanos, o que propicia uma honestidade emocional latente à obra e uma revigoração delicada ao espectador. Embora seja uma narrativa textual confusa e enigmática, a sensibilidade do diretor francês pende pra seriedade da temática evocada, resultando numa sessão agradável e encantadora.
F1: O Filme
3.7 439 Assista AgoraRespeitando e homenageando os velozes carros de corrida, é um ode ao alucinante e viciante automobilismo esportivo, com todos os temperos que este oferece: treinamento, estratégia, talento, coragem e, sobretudo, adrenalina. Como se existissem filmes dentro do filme, o que justifica a longa duração, as suas subtramas (há aqui uma sutileza temática que pode passar despercebida, como questões geracionais, mídia, dinheiro e família) criam um arco narrativo de redenção e emoção que cativa, apesar dos clichês básicos do cinemão estadunidense. O poder visual é absurdo e mágico, botando o espectador pra dirigir uma máquina automotiva com todo o frenesi barulhento que as pistas de Fórmula 1 oferecem. E são essas cenas que verdadeiramente valem o tempo despendido, ainda que o carisma e a canastrice de Brad Pitt estejam no ápice. Daqueles blockbusters que se sente falta.
Rompendo Rochas
3.7 17Importante, comovente e inspirador documentário iraniano que segue a divorciada Sara Shahverdi, primeira mulher eleita vereadora da sua longínqua aldeia, quem desafia as regras e tradições patriarcais antigas ao ensinar meninas a pilotar motocicletas e ao combater escancaradamente o casamento infantil forçado. Ao retratar a trajetória determinada e obstinada de uma resiliência em pessoa, o filme pulsa esperança e a oferece ternamente às mulheres do Irã, sedentas por mudanças culturais e sociais. Contudo, é, também, desanimador, por desnudar uma sociedade altamente reacionária - embora queira se beneficiar de uma perspectiva externa de ajuda adicional - em plena auroridade do Século XXI. Como um alento cinematográfico, é a geração do poder político de um local ecoando sob um simples desejo de falar com sinceridade.
Um Zé Ninguém Contra Putin
3.4 26 Assista AgoraO retrato da resiliência das pessoas comuns (Mister Nobody, ou Senhor Ninguém) contra as poderosas forças institucionais de um aparato estatal ensandecido pelo conflito bélico. Assim é este conciso e envolvente documentário sobre como a Rússia passou a exigir exibições patrióticas regulares nas escolas primárias a fim de justificar e angariar o apoio dos alunos à guerra russo-ucraniana. Porém, ao também exigir o envio de gravações dessas "aulas", o governo russo ofereceu ao professor Pavel Talankin a chance de produzir um material claro e cristalino da autocracia (momentânea ou não?) de Vladimir Putin. O fato de apenas uma escola ser registrada pode trazer à tona questionamentos sobre o tema documentado neste filme, que opta por um viés altamente parcial, além de intimista e melancólico. Mas sem deixar de ser perturbador e explicitar a megalomania egoísta do presidente da maior nação da Terra.
O Agente Secreto
3.9 1,0K Assista AgoraSão tantos os horrrores da ditadura militar brasileira que muitos do visto neste excelente filme passam despercebidos, pois a ordem natural do cidadão médio comum é enxergar somente a repressão policial do supracitado regime. A demonstração da corrupção estatal e a onipresença do medo e da morte são desses exemplos esquecidos mas devidamente retratados no longa, que oferece um Armando/Marcelo (o consolidado Wagner Moura, carregado de arco dramático, brilha como nunca), pesquisador que se tornara fugitivo e paranoico, em busca de respostas, ou da sua história, ou da história em si. Assim como o Brasil, viciado em queimar seus próprios arquivos desde o tal "descobrimento". Estabelecendo uma tensão narrativa propositadamente anticlimática, eis uma obra instigante, reflexiva e perspicaz sobre apagamento das memórias, seja por violência, seja por conveniência.
Bugonia
3.6 432 Assista AgoraA palavra bugonia vem de uma antiga crença mediterrânea em que abelhas surgiam espontaneamente de um boi ou vaca em decomposição. Ou seja, um sacrifício simples a fim de resolver uma solução ardilosa. Assim, este interessante filme navega sobre a desumanização da sociedade nos seus variados níveis de violência, desde a física às pós-verdades oriundas dos ruídos da comunicação global (um eufemismo para as fake news conspiratórias das redes sociais). A misantropia mentirosa do bom e sarcástico diretor grego pode afastar certos espectadores, porém, equilibra o absurdo e a honestidade mordaz zombando tanto a amoralidade corporativa quanto a paranoia dos tolos internautas frente à informação infinita. É violento, satírico, inverossímil e deplorável, mas inegavelmente envolvente e ácido ao capturar a loucura de uma convicção. Em linhas tortas, um desesperançoso relato fiel do nosso tempo.
A Hora do Mal
3.7 1,0K Assista AgoraCom uma mistura singular de comicidade e terror, eis um filme envolvente e vertiginosamente assustador, especialmente no tom de suspense evocado sob vários enquadramentos. Por mais que o primeiro terço do longa se arraste testando a paciência do espectador, o mistério central é instigante e profundamente perturbador, ainda mais quando se trata de crianças numa trama inconclusiva e trágica. Em suma, é uma obra satisfatória tanto pela engenhosidade inteligente da narrativa e seus choques de histórias sobrepostas quanto pelas atuações cativantes do elenco, principalmente de Amy Madigan como a maligna e maldosa Tia Gladys.
A Voz de Hind Rajab
4.2 125 Assista AgoraCambaleando entre o real e a ficção a fim de estabelecer um cinema-denúncia, este necessário filme tunisiano traz luz ao exagerado bombardeio israelense sobre os palestinos de Gaza, onde não há diferenciação entre pessoas. Basta não ser judeu para que vire um alvo potencial a receber balas de metralhadoras da Força de Defesa de Israel, seja idoso, adulto, jovem ou mesmo uma criança de 06 anos, como é o caso de Hind Rajab. Usando os áudios verdadeiros da menina após pedir socorro ao Centro do Crescente Vermelho da Cisjordânia por estar escondida dentro de um carro, esta dolorosa obra docuficcional não apresenta floreios ao espectador, pelo contrário. De caráter repetitivo e exaustivo, o longa se situa na lâmina afiada do impasse, ético e moral, que estabelece um critério claro: a morte. E sem algum alento, pois não se trata de uma situação isolada. Virou costume de lá.
A Pequena Amélie
3.9 46A partir da perspectiva de uma criança, desde quando feto, esta comovente e filosófica animação é surpreendentemente direta e simples ao atingir temas tensos e espinhosos com sutileza e doçura, tal qual a inocência terna da infância. Ainda que a narrativa possa parecer incisiva, as emoções jorram sem exagero e com personalidade, propiciando um filme visualmente deslumbrante e encantadoramente transportador. Assim, agradando aos pais e filhos, o resultado deste realismo mágico irá diferir a depender de cada espectador, pois as paredes da memória moldam e transformam o indivíduo. Principalmente os que sabem dançar na chuva se equilibrando entre a maturidade e a criancice.
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
3.3 66 Assista AgoraApesar de não ser uma cinebiografia sobre o ídolo Neil Diamond, é impossível disassociar o nome do ícone ao conjunto da obra. Pois, sobretudo, este é um filme sobre o amor sem ironia nem significados ocultos - é sobre um belo, verdadeiro e companheiro amor. Mike (Hugh Jackman bem convincente), o Lightning, e Claire (Kate Hudson em sua melhor atuação na carreira), a Thunder, não são apenas uma banda de tributo ao mestre Diamond. São partes indissociáveis de uma adoração pela música e de uma ardente paixão por si próprios, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, como diria o mandamento religioso cristão ocidental. Além do longa ser uma homenagem terna ao brilho discreto de vidas simples vividas com sinceridade, mas que tateia quando adentra no melodrama artificial do sentimentalismo barato. Um entretenimento lacrimoso e empático que vale a pipoca.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
3.6 183 Assista AgoraUm minucioso estudo claustrofóbico da maternidade no limite, quando a mulher, casada ou solo, é testada e exigida em cada novo respirar. Cá, neste pungente drama com pitadas de horror, Linda (impossível não citar a atuação corajosa e majestosa de Rose Byrne) vê-se cotidianamente esgotada, tanto lenta quanto naturalmente, ao mesmo tempo em que precisa con(sobre)viver com a doença misteriosa da filha, a ausência do marido, o buraco no teto do apartamento, a relação tóxica com seu terapeuta, o seu trabalho como psicóloga, os vícios, enfim, com um mundo desmoronando ao seu redor. Não há validação nem heroísmo ao ato de ser mãe, pois a câmera da diretora estadunidense é crua, honesta e imparcial mesmo nas situações nada realistas do filme, o que pode ocasionar desagradáveis choques ao espectador mais sensível. Mas, como o próprio título sugere, é um retrato da impotência exausta.
Zootopia 2
3.7 164 Assista AgoraProduzida pela Walt Disney Animation, esta é uma sequência que fez-se necessária, baseada na mensagem reflexiva sobre as diferenças entre espécies existente no primeiro filme. Porque a vida continua e o novo sempre vem. Logo, o trabalho social consciente dessa história eletrizante sem apelação aos clichês do gênero, apesar de algumas previsibilidades esperadas, aprofundou em temas antigos mas numa versão modernizada, como responder perguntas difíceis sobre aqueles em quem se confia e a busca da afirmação de jovens inseguros junto aos familiares mais sisudos. O ritmo muito acelerado dificulta certos entendimentos, porém, foi o caminho escolhido para explicitar a expansão de um novo mundo na cidade zoo(u)tópica. Sintetizando, uma vibrante animação sobre escolhas, tentativas e mudanças. E com o pós créditos dando a dica da parte 3.