Reassisti este filme que me marcou tanto há 7 anos. E agora escrevo minhas impressões sobre ele.
A primeira cena do filme "Euphoria" (2006) nos dá a ideia exata do que significa essa sensação: uma alegria intensa, quase descolada da realidade, que altera a percepção dos personagens e os empurra para fora de seus eixos. Esse impulso pode ser tão arrebatador quanto perigoso, pois não se sustenta diante da dureza concreta da vida. O contraste entre o instante de plenitude e o peso da existência é o fio que atravessa toda a narrativa.
O espaço onde a história se desenrola é isolado, marcado por estradas de chão batido que se entrelaçam como veias, conectando destinos e rompendo o marasmo. O terreno irregular, cheio de crateras, reforça a sensação de precariedade, enquanto o rio que corta a paisagem surge como contraponto: o fluxo contínuo, o verde e a abundância em meio à aspereza. As casas parecem clausuras, escuras e abafadas, mas a luz do sol presente nas cenas externas parece insistir em oferecer uma promessa de liberdade, ainda que distante.
Nesse cenário, vidas estagnadas se cruzam. Homens endurecidos pela brutalidade e pelo álcool, mulheres resignadas à submissão, todos vivendo com o mínimo, invisíveis ao olhar do Estado. É nesse contexto que os personagens centrais se encontram, primeiro apenas em uma troca de olhares, depois em uma conexão única, que cresce nos silêncios e dispensa promessas ou garantias. Suas mãos entrelaçadas, seus corpos expostos em uma nudez quase bíblica, evocam um instante de paraíso. Mas como toda euforia, essa experiência ignora os limites da realidade e carrega em si a fragilidade de ser breve, como uma flor que brota no deserto.
O filme "Mil Vezes Boa Noite" (2013) conta a história de Rebecca, uma fotógrafa de guerra reconhecida por todos pela sua coragem e talento. Ela ama o que faz, porque sabe que suas fotos têm a capacidade de mostrar ao mundo a verdadeira história e os horrores de uma guerra. Seu trabalho dá voz a pessoas que, de outra forma, jamais teriam visibilidade. Entretanto, esses profissionais pagam um alto preço para fazer registros arriscados, muitas vezes custando-lhes a própria vida.
Rebecca, ao acompanhar um grupo de mulheres-bomba no Afeganistão, passa por uma experiência quase fatal que a coloca perante um grande dilema. Ela precisará fazer uma das escolhas mais difíceis desde que se tornou esposa e mãe. Juliette Binoche, sempre maravilhosa, dá o exato tom que a personagem necessita em meio a essa tempestade emocional.
Com um final emocionante, o filme não romantiza o jornalismo, ao contrário, opta por fazer fortes denúncias sociais e também críticas contundentes ao sistema midiático, por vezes submetido a interesses políticos e estruturas de poder. Lança luz sobre questões éticas da imprensa tradicional, que busca conteúdos impactantes para suas manchetes e trata imagens de dor como mero entretenimento.
"O Informante" impressiona pela força de sua narrativa e também pela relevância de seu tema. Baseado em fatos reais, expõe o drama vivido por pessoas comuns que ousaram enfrentar gigantes corporativos americanos.
Jeffrey Wigand e Lowell Bergman, interpretados magistralmente por Russell Crowe e Al Pacino, são pessoas reais que viveram essa história: o cientista que decide revelar segredos da indústria tabagista e o jornalista que luta para levar essa denúncia ao público. Ambos se veem em uma batalha desigual contra o poder econômico e político, onde cada passo exige coragem e implica perdas pessoais.
O filme revela bastidores de um conflito que questiona diretamente a ideia de "imprensa livre", mostrando como interesses financeiros podem sufocar a verdade. A cena inicial sintetiza a ironia e a gravidade da situação, mostrando que é mais fácil entrevistar o líder do 'Hezbollah' do que transmitir o inconveniente depoimento de um cientista americano contra os interesses de poderosos.
Mais do que uma denúncia sobre a indústria tabagista, "O Informante" é um manifesto sobre ética, valores e o preço da integridade. Wigand e Bergman se sustentam apenas em sua convicção moral, mesmo quando tudo ao redor parece conspirar contra eles. Essa postura transforma o filme em uma obra atemporal, que continua relevante em tempos de 'fake news' e manipulação midiática.
"Instructions Not Included" me pegou de surpresa. No início, parecia apenas uma comédia leve, com um enredo já bastante conhecido: um solteirão mulherengo que de repente se descobre pai e é obrigado a cuidar sozinho do bebê. As primeiras cenas até passam a impressão de que o protagonista não vai segurar a trama, mas a história vai mudando de tom e começa a ganhar uma força inesperada, que nos prende e emociona de verdade.
A primeira temática do filme é sobre o medo. Valentín, o personagem principal, desde a infância é obrigado a encarar seus piores medos, os quais se materializam em sua mente na figura de um lobo feroz que aparece sempre que ele precisa enfrentar algo difícil. É uma metáfora poderosa, porque mostra que os maiores desafios não estão do lado de fora, mas dentro da gente. Em seguida, o filme faz uma bela abordagem sobre a paternidade e o amor, e como isso pode modificar um homem. Aquele 'bon vivant' que só queria liberdade, passa a ter receio de perder a companhia de sua filha. Em meio a tudo isso, também são levantados dilemas éticos que permanecem conosco mesmo depois que o filme acaba, como por exemplo a consequência das mentiras "benéficas" contadas para proteger alguém de verdades dolorosas.
O longa, dirigido e estrelado por Eugenio Derbez, aos poucos vai se revelando um drama impactante com um detalhe curioso: acabou se tornando um fenômeno de bilheteria nos Estados Unidos e até hoje é um dos filmes em espanhol mais assistidos por lá. Seu final, tocante e inesperado, deixa uma bonita mensagem: nossos filhos nos ajudam a compreender e perdoar os erros de nossos pais. É uma trama que começa simples, mas a cada cena vai se mostrando mais profunda e inesquecível.
Em "Stardust Memories" Woody Allen recorre à metalinguagem para dar vida a Sandy Bates, um famoso diretor e roteirista de comédias que atravessa uma crise criativa e existencial. A melancolia invade tanto sua obra quanto sua vida pessoal, enquanto o público e os produtores resistem à mudança de tom, cobrando a ausência de humor e insistindo que "as pessoas não querem realismo no cinema".
Os filmes de Allen costumam ser críticos, recheados de diálogos mordazes e de uma subjetividade que o coloca quase sempre no centro da narrativa, algo que muitos interpretam como narcisismo. Houve um tempo que sua filmografia me fascinava; hoje a percebo como um espaço de busca por reconhecimento e validação.
Em um dos diálogos do filme, alguém afirma: "comédia é raiva e hostilidade". A frase sintetiza bem o poder do humor, uma ferramenta capaz de expor verdades sem solenidade, desde que usada com ética e inteligência. É esse o caminho escolhido por Woody Allen para retratar a falta de privacidade das celebridades, o assédio constante de fãs inconvenientes e em busca de oportunidades, a pressão de ONGs por doações e a interferência arbitrária dos produtores nos roteiros.
"Stardust Memories" talvez seja um dos filmes mais introspectivos de Woody Allen, parecendo uma obra autobiográfica com um mosaico de reflexões sobre arte, amor e sentido da vida, revelando um artista em conflito e as expectativas de um público que prefere o riso à inquietude.
"Propriedade" é um grande filme! Um 'thriller' psicológico que se entrelaça com o mais genuíno terror. Desde o primeiro instante, nos confrontamos com uma situação extremamente violenta que representa o medo de todo cidadão. A partir disso, cria-se uma atmosfera que segue em tensão contínua, quase sufocante. Há uma força emocional que atravessa a tela e nos prende psicologicamente, como se o confinamento vivido pela personagem Teresa fosse capaz de roubar nossa própria respiração.
À medida que a história se desenvolve, a dimensão social revela-se com clareza. O choque entre dois universos distintos: os proprietários de terras e os trabalhadores que dependem dela para sobreviver, expõe desigualdades profundas. Essa colisão de interesses transforma o suspense em crítica e a clausura da protagonista serve como metáfora de um país dividido por muros invisíveis. O filme não apenas aterroriza, mas nos convida a refletir sobre as estruturas e injustiças que sustentam essas distâncias.
Com um elenco pouco conhecido do grande público, mas sólido em suas trajetórias no teatro e no cinema autoral, "Propriedade" ganhou autenticidade e frescor. É um terror real, crível, por isso extremamente apavorante. Nada de fantasmas, monstros ou bruxas, apenas gente de carne e osso governada por seus piores instintos.
"Disclosure Day", o novo filme de Steven Spielberg, não é propriamente sobre alienígenas. Eles surgem, na maior parte da trama, apenas através de velhas filmagens militares vazadas. O verdadeiro foco está nos impactos que uma revelação da existência de vida extraterrestre poderia causar: o pânico coletivo, a crise das crenças e os dilemas políticos para governos e militares que, durante anos, teriam recorrido a métodos cruéis para investigar os OVNIs e tratar seus tripulantes como ameaça à segurança nacional.
O mérito do filme está em alimentar nossa imaginação com essa possibilidade. Afinal, uma parte da humanidade, na qual eu me incluo, anseia por não estar só no universo. Entretanto, é impossível esquecer que se trata de uma produção tipicamente hollywoodiana, moldada por dramatizações e por uma visão essencialmente americana. É uma obra pensada para consumo imediato, como um 'fast-food' que sacia, mas não nutre. Há perseguições exageradas, fugas improváveis, excesso de CGI e a velha fórmula de heróis contra vilões. Essa mistura insossa acabou bloqueando meus esforços de digerir a história ou me emocionar com ela.
"Disclosure Day" também segue uma tendência que tenho notado em filmes do gênero: se antes os extraterrestres eram retratados como invasores perigosos, hoje aparecem como seres vulneráveis, dotados de poderes telepáticos, mas frágeis diante do nosso potencial bélico. De ameaçadores, passaram a vítimas da curiosidade e da crueldade humanas. O que nunca muda é o cenário: continuam desembarcando nos Estados Unidos. E eu me pergunto se não seria mais interessante que visitassem nossas civilizações antigas, com culturas milenares e histórias tão diversas quanto fascinantes.
Por fim, achei que a atuação de Emily Blunt merece destaque, assim como o charme maduro de Colin Firth, que envelheceu com uma elegância que me lembrou bastante Orson Welles em seus últimos anos.
"Una Luz En La Ventana" é um clássico do cinema argentino, lançado em 1942 e considerado o primeiro filme de terror daquele país. Escrito e dirigido por Manuel Romero, é a única obra do gênero que integra sua vasta filmografia, composta por mais de 50 comédias, musicais e melodramas populares.
O filme apresenta uma narrativa simples, mesclando terror e comédia. Seu valor reside menos na complexidade da trama e mais na experiência de assistir a um marco histórico. O enredo acompanha o Dr. Herman, um homem acometido por uma enfermidade genética que deforma sua aparência, tornando-o uma figura assustadora. Um método científico experimental promete cura, mas exige um doador humano.
Mais do que o suspense da história, o verdadeiro terror está na condenação do personagem a viver isolado, privado de amor e relegado às sombras. Essa dimensão simbólica faz com que, ao longo do filme, torne-se perceptível que o Dr. Herman não é um homem mau, e sim amargurado pela exclusão e solidão.
"The Ascent" é mais um filme poderoso. Dirigido por Larisa Shepitko, uma das maiores representantes do cinema feminino, e baseado na obra de Vasiliy Bykov, o longa combina drama psicológico, realismo cru e simbolismo religioso para construir um retrato íntimo e quase espiritual da Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista da União Soviética.
Com uma sensibilidade apurada, Shepitko narra a trajetória de dois soldados russos, Sotnikov e Rybak, que partem em busca de alimentos para sua unidade, bastante debilitada pela fome e pelo frio extremo. Após fracassos sucessivos em sua missão, acabam capturados pelos alemães e submetidos a interrogatório. A partir daí, o filme nos coloca frente a frente com as escolhas morais de cada um: a forma contrastante como enfrentam a tortura e a iminência da morte revela, em seus rostos e atitudes, a diferença entre honra e covardia. Um aceita o martírio em nome de seus princípios, o outro cede ao medo e à traição para sobreviver.
As cenas são intensas e visualmente marcantes, com closes prolongados que reforçam a dimensão simbólica dos personagens, como se os assemelhassem às figuras cristãs de Jesus e Judas. A neve e a paisagem gelada criam uma atmosfera de desolação e vazio, uma estética da solidão que amplifica o peso existencial da narrativa. Trata-se de uma obra-prima que, à época, conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (1977) e recebeu merecido reconhecimento internacional, consolidando a carreira de Larisa Shepitko, que infelizmente foi breve.
Já fazia algum tempo que eu não assistia a um filme tão trágico e de tão rara beleza! "Love, Lies (2016)", dirigido por Park Heung-sik, é uma obra que combina a delicadeza e o realismo característicos do cinema asiático. Ele conta a história de Jung So-yool e Seo Yeon-hee, que desde a infância compartilham uma forte amizade: são como irmãs de alma, inseparáveis, cúmplices em sonhos e segredos. Esse vínculo, tão puro e profundo, acompanha-as até a vida adulta, mas o destino, com crueldade, decide colocar à prova a solidez desse afeto quando ambas descobrem-se apaixonadas pelo mesmo homem.
So-yool foi a primeira a experimentar o amor e acredita ter o direito de reivindicar sua reciprocidade. Contudo, a vida, sempre imprevisível, desviou o curso desse sentimento. A descoberta da perda resultou em uma das cenas mais dolorosas do filme: é quase possível sentir o punhal que atravessa seu peito. A partir desse instante, ela naufraga em sua própria dor, envenenando-se lentamente até que restem apenas o ciúme e o desejo de vingança.
Nesse cenário, o inferno parece engolir a todos. Não há culpados, somente vítimas de um destino implacável. E é justamente ao mergulhar na tragédia que o filme se torna profundamente humano, mostrando como o amor pode ser tanto fonte de luz quanto de perdição.
"Ball of Fire" é uma comédia romântica leve e divertida, com aquele estilo dos anos 1940. A história mistura romance, humor e situações improváveis, criando momentos agradáveis para amantes do cinema daquela época. Sim, o ritmo é meio lento, o enredo é previsível e se prolonga um pouco além do necessário, mas é um filme alegre e envolvente. O humor é do tipo ingênuo, o que em certo ponto parece contrastar com a ambientação e os personagens escolhidos (velhos professores incumbidos de escrever uma enciclopédia), que se comportam como crianças na maioria das cenas.
Mesmo com alguns exageros, o filme funciona bem como entretenimento. O carisma dos protagonistas e os diálogos bem-humorados ajudam a manter o interesse até o fim. É uma produção feita para divertir, sem pretensões, com astros que faziam muito sucesso em Hollywood nos anos 40: Gary Cooper e Barbara Stanwyck.
Embora não seja um daqueles filmes marcantes, é um clássico que não decepciona e garante um sorriso no rosto.
"Mouchette" é um drama trágico sobre a vida de uma menina atingida pela miséria, solidão e violência. Robert Bresson adaptou para o cinema o romance de Georges Bernanos e construiu um retrato devastador da infância roubada. A pequena protagonista, ainda tão jovem, é obrigada a carregar responsabilidades que esmagam qualquer possibilidade de inocência: cuidar de sua mãe enferma e de um irmão recém-nascido. Como se não bastasse, também enfrenta a brutalidade de um pai que a castiga sem piedade. A dureza da vida não rouba apenas seus sonhos, mas sua capacidade de acreditar em ternura. Sem nunca ter conhecido o amor, seria improvável que Mouchette o trouxesse em seu coração, e a cada gesto de violência ou indiferença que recebe, sua pureza se desfaz e a infância se converte em um terreno árido, onde não há espaço para ilusões.
A rebeldia da jovem menina nasce como resposta ao mundo que a oprime, mas essa revolta só aumenta sua solidão, endurece seu coração e a afasta da esperança. Os abusos que sofreu, vindos de diferentes pessoas e em diversas formas, moldaram um destino marcado pela ausência de qualquer promessa de futuro. A vida não a abraçou nem lhe abriu passagem e o filme revela, com uma crueza quase insuportável, como a inocência pode ser esmagada pelas violências cotidianas. Para Mouchette a bonança não existe e sua vida é um testemunho da infância negada, da pureza perdida e da impossibilidade de encontrar consolo em um mundo que nunca lhe ofereceu ternura.
P.S.: Vergonha do título que o filme recebeu no Brasil. Quem o escolheu não devia gostar do que fazia.
"La Femme Au Couteau" é um drama/thriller filmado em 1969 na Costa do Marfim, dirigido e protagonizado por Timité Bassori. Logo de início vemos que a obra foi restaurada e faz parte do Projeto de Patrimônio do Cinema Africano. Os originais padeciam de severa deterioração, mas graças a um trabalho primoroso, agora esse clássico pode ser devidamente apreciado. Na verdade ele não é perfeito, tem alguns problemas técnicos como atuações pouco espontâneas e diálogos mecânicos, engessados. Ainda assim, o clima é cativante e esses detalhes não diminuíram ou afetaram o encantamento de poder assisti-lo.
Muitas cenas foram gravadas em espaços abertos com câmera manual, sem estabilidade, sendo esse um outro percalço que não tirou o tom charmoso do filme. A estética africana e o figurino típico dos anos 60 são super bonitos. A história acompanha um homem dividido entre a introspecção e o mundo exterior. Ele é um intelectual que abraçou a racionalidade e abandonou a superstição. Seu nome não é mencionado no filme, apenas temos acesso a um breve flashback de sua infância e sabemos que, agora, ele está sendo assombrado pela visão de uma mulher misteriosa que o ameaça com uma faca.
A experiência sobrenatural o faz buscar respostas imediatas junto a um curandeiro africano. Surpreso com sua própria atitude, desabafa com um amigo que o escuta e o aconselha em momentos críticos. À medida que a trama se desenvolve, vai se revelando o profundo isolamento do personagem e sua dificuldade de adaptação social. Um dia, ele reencontra casualmente uma amiga de infância e, após saírem juntos algumas vezes, se vê apaixonado por ela. Ao tentar explicar-lhe como se sente estranho fora de seu mundo particular, ele acaba se lembrando de que, quando menino, encontrou um homem também estranho, com uma história semelhante à sua e que acabou enlouquecendo.
Para não ter o mesmo destino e salvar seu relacionamento, ele precisará enfrentar velhos traumas antes que aquela aparição o leve à loucura e, assim, permitir que o mundo real lhe traga as respostas necessárias para se libertar e viver plenamente.
"Schramm" é um filme curto (65 minutos) que já nas primeiras cenas revela seu desfecho, apostando no tom de ironia dramática. Mas a direção de Jörg Buttgereit não consegue agregar tensão ou manter o ritmo; a estética e a narrativa são frias, típicas do cinema alemão. A ausência de construção dos personagens faz com que eles não despertem relevância ou emoção, e até mesmo as cenas mais violentas e gráficas soam forçadas como material sensacionalista.
Embora se apresente como horror psicológico, o foco não está nos crimes, mas na mente de Lothar Schramm, o assassino. O filme expõe seus pesadelos, traumas, rotina banal e uma explicação simplista para seus impulsos. Opta por mostrar como experiências com mulheres de sua vida moldaram seu desprezo pelo feminino. Conhecido pela imprensa como o “assassino do batom”, ele parece padecer de certa culpa pelo que faz, expiando-a por meio da automutilação. Para ele, o sexo feminino é repulsivo e ameaçador, e essa visão distorcida talvez sustente a violência que o domina e o leva a acessar somente corpos de mulheres mortas ou inconscientes.
Em minha opinião, o mais perturbador do filme não é a solidão ou paranoia de Lothar, mas a constatação de que psicopatas podem viver como qualquer pessoa: ter vizinhos, frequentar restaurantes, dirigir táxis e até aparentar docilidade. Ainda assim, o filme não consegue transformar essa ideia em uma experiência marcante. Os efeitos especiais são fracos, a qualidade da fotografia é baixa e o final, sem ápice e quase banal, reflete a própria vida do protagonista.
"Na Cova da Serpente" é um drama psicológico dirigido por Anatole Litvak e estrelado por Olivia de Havilland, que fala de maneira autêntica e sensível sobre os dilemas da saúde mental e como funcionavam as instituições psiquiátricas antigamente. A história é baseada no livro de Mary Jane Ward, que conta sua própria experiência após passar oito meses internada devido ao diagnóstico de esquizofrenia.
Durante boa parte do filme, acompanhamos a personagem Virgínia em um estado de confusão que também atinge quem assiste. Sua vida parece seguir um rumo normal até conhecer Robert Cunningham, com quem aceita se casar após passar alguns meses desaparecida. A partir disso, ela mergulha em um colapso psicológico que acaba resultando na sua internação num hospital para transtornos mentais. A história transmite com intensidade o terror da perda de memória e da sensação de vazio e alienação. Virgínia é acompanhada pelo Dr. Mark Kik, um psiquiatra dedicado e criterioso que se interessa pelo seu caso e busca compreender o que pode tê-la deixado em crise.
Acho que o mérito do filme é abordar esse tema com seriedade e sem caricaturas, mostrando tanto os métodos terapêuticos da época (eletrochoques e câmaras de imersão), quanto os problemas estruturais dos hospitais. Ao expor aquelas práticas e limitações, Na Cova da Serpente não apenas causa impacto, mas também nos ajuda a compreender o porquê mudanças profundas precisaram ser feitas no tratamento de pacientes psiquiátricos.
Veronica dirige por uma estrada e, num segundo de distração, sente um forte impacto como se houvesse atropelado algo. Ela bate a cabeça, mas volta a dirigir sem ver o que houve. A partir disso, ela aparenta entrar em choque por acreditar ter matado uma pessoa. O filme começa a mostrar detalhes aparentemente banais da vida da personagem mas, principalmente, seu profundo desconforto e apatia. Ela mal interage com as pessoas, demonstra alienação e confusão mental. O mais perturbador, além de seus silêncios, é que ninguém parece notar o que ela está passando. Os comentários que fazem sobre ela limitam-se à sua aparência, numa clara menção à superficialidade das relações.
Essa é a premissa de "A mulher Sem Cabeça", onde até a normalidade pode ser inquietante. As informações vão sendo oferecidas em pequenas doses para dedução do público, assim como os fatos que envolvem o acidente. Nunca há clareza absoluta, apenas suspeitas de que houve alguma vítima, possivelmente uma das crianças pobres da região, apresentadas nas primeiras cenas do filme. Este é um ponto que expõe o abismo entre classes sociais, porque a perda dessas vidas invisíveis parece ser irrelevante, com peso semelhante ao da morte de um animal.
A interpretação de Maria Onetto merece destaque pela habilidade de revelar-se somente com o olhar e poucas expressões do rosto. Em duas rápidas ocasiões suas lágrimas explodem em culpa, mas logo depois ela retorna à passividade que indica uma vida controlada pelos outros. A direção de Lucrecia Martel é inteligente e mantém incertezas, nos levando a presumir respostas e tirar nossas próprias conclusões. Durante todo o tempo é como se estivéssemos presos à mente de Veronica, compartilhando sua desorientação e enxergando tudo sob suas lentes turvas.
"What Happened To Rosa" é um filme mudo de 1920, dirigido por Victor L. Schertzinger. Trata-se de uma comédia romântica tipo Sessão da Tarde, estrelada por Mabel Normand, uma das maiores comediantes do cinema mudo. Apesar de seu talento, teve a carreira abreviada por escândalos e problemas pessoais.
O filme conta a história de Mayme Ladd, uma jovem balconista da loja de artigos femininos 'Friedman's' que, após visitar uma vidente começa a acreditar que incorporou o espírito de uma nobre e bela espanhola chamada Rosa Alvaro. Mayme, que vive uma rotina apática e desanimadora, passa a comportar-se como a deslumbrante Rosa. E uma noite, num baile de máscaras, vê seu tão esperado desejo quase realizar-se.
Considero interessante a ideia de que mudanças na forma de pensar e agir são mecanismos poderosos para despertar coragem, segurança e dar novos rumos à vida. No caso de Mayme, Rosa funcionou como seu 'alter ego', fazendo com que se sentisse autoconfiante e atraente, capaz de superar a timidez e assumir posturas mais firmes em direção aos seus sonhos.
Assistir a "The Children's Hour" (Infâmia) é vivenciar um drama quase na própria pele. Houve momentos em que a devastação íntima dos personagens pareceu ultrapassar a tela e me atingir diretamente. William Wyler entregou uma obra que escancarou o peso e a maldade de uma mentira e o impacto devastador do preconceito. Trazendo para os dias atuais, essa deve ser a sensação de uma vítima das perigosas 'fake news', pois uma vez destilado o veneno, nunca mais a mácula pode ser retirada por completo.
O filme cresce em intensidade a cada cena, até tornar-se um retrato poderoso da fragilidade humana diante da intolerância. Confesso que, no início, foi difícil imaginar Audrey Hepburn em uma situação tão carregada de tensão, com seu ar quase etéreo de princesa. Mas quando o filme alcança o ápice, ela revela uma atuação surpreendente, delicada e firme ao mesmo tempo, provando que sua força vai muito além da imagem de elegância que a consagrou.
Já Shirley MacLaine está simplesmente extraordinária. Há uma autenticidade em sua presença que não se pode esquecer. O olhar intenso, a vulnerabilidade exposta e a força emocional nos minutos finais são de arrepiar. Juntas, elas transformam o filme em um espetáculo raro, sensível e corajoso, uma obra extraordinária mesmo tantas décadas depois.
Quando procuro informações sobre os filmes que assisto, muitas vezes me surpreendo mais com as histórias que existem ao redor deles do que com os próprios roteiros. Foi exatamente o que aconteceu com "These Three" (Infâmia). O filme nasceu da peça teatral 'The Children's Hour' escrita por Lilian Hellman e apresentada na Broadway em 1934. Na época, a peça foi um sucesso estrondoso e ficou dois anos em cartaz, apesar de ser considerada ousada por tratar de uma relação romântica entre duas mulheres.
Isso me fez pensar em como, sob certos aspectos, a sociedade parece ter regredido. Diante do avanço do conservadorismo e do preconceito, talvez hoje uma peça assim não recebesse o mesmo reconhecimento do público e da crítica.
Dois anos depois, em 1936, o diretor William Wyler decidiu levar a história para o cinema. Mas Hollywood não permitiu que o roteiro passasse pelo rígido 'Código Hays', que censurava qualquer tema considerado 'imoral'. A menção ao lesbianismo foi retirada e substituída por um triângulo amoroso heterossexual. A própria Lilian Hellman fez essa adaptação, mas o resultado perdeu o impacto social quando trocou preconceito e intolerância por ciúmes e traição. "These Three" virou um filme incoerente e sem força dramática.
Somente em 1961 William Wyler conseguiu filmar a história como ela havia sido escrita. Com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine nos papéis principais, entregou uma obra poderosa, sensível e corajosa, que finalmente fez justiça ao impacto da peça.
Gosto bastante de filmes de terror psicológico, em que o medo nasce da imaginação de vivenciar aquilo que se assiste. A trilha sonora e os 'jumpscares' cumprem bem o papel de aumentar a tensão, mas o grande mérito desse gênero está em mostrar personagens imersos em situações desesperadoras, como aquelas em que não há controle, solução ou saída. O pânico que invade suas vidas não se relaciona com a morte, mas com a perda da própria sanidade.
Apesar de ser uma produção de orçamento modesto, "Obsessão" é um terror psicológico surpreendente. Escrita e dirigida por Curry Barker, a trama começa de forma leve e aparentemente despretensiosa, acompanhando quatro amigos: Bear, Nikki, Ian e Sarah. Bear é apaixonado por Nikki, mas sua timidez o impede de revelar seus sentimentos. A partir desse tema comum, acontecimentos cada vez mais bizarros e surreais começam a acontecer, culminando em momentos capazes de gelar o sangue.
Seguindo a tendência do terror contemporâneo, "Obsessão" também explora elementos de magia e maldição, encerrando a narrativa com uma mensagem perturbadora: tentar manipular energias ou leis naturais pode ser fatal, sobretudo quando o Universo decide atender aos desejos de maneira diferente da imaginada.
"Batalha Após a Vitória" encerra a trilogia de maneira coerente e emocionante, mostrando que o fim de uma guerra não se dá pela simples assinatura da rendição pelo exército derrotado. Ambientado após a derrota alemã em maio de 1945, o filme mergulha no território das alianças silenciosas, dos acordos políticos secretos e da reorganização das forças que sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich. A ameaça alemã ressurge de forma menos visível, mas ainda poderosa, principalmente por meio das articulações do general Gehlen, que tenta reconstruir sua rede de espionagem à semelhança da antiga organização Saturno, mas agora contando com o apoio indireto de setores do exército americano.
No centro dessa tensão permanece Kramer, talvez em sua fase mais solitária e arriscada, ainda infiltrado entre os alemães. Ele continua vivendo em meio a identidades falsas, suspeitas e perigos constantes, enquanto tenta manter o fluxo de informações para os soviéticos. O filme também revela os destinos de figuras importantes como Sophie Krause, a capitão Schönemann e o major Wilhelmy. Ao mesmo tempo, introduz à trama os generais americanos Smiles e O'Donnell, mostrando como os antigos aliados EUA e URSS começam lentamente a se enxergar como futuros adversários.
A divisão da Alemanha entre lado oriental e ocidental surge como consequência natural daquele cenário de desconfiança e disputa por influência, criando uma sensação de continuidade histórica que torna o desfecho ainda mais impactante. O filme transmite a ideia de que certas guerras não desaparecem, apenas mudam de forma. Entre espionagem, manipulação política e personagens marcados pelas perdas acumuladas ao longo da trilogia, este talvez seja um dos retratos mais humanos e inteligentes já feitos sobre o período pós-guerra, com um encerramento forte, elegante e que, para mim, tornou-se duradouro.
"O Fim de Saturno" dá seguimento ao universo construído no primeiro filme, sem diminuir a tensão que tornou a história tão envolvente. Ainda situado no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial, em meio ao confronto entre União Soviética e Alemanha, o longa mantém a visão íntima da guerra, como uma disputa de inteligência, confiança e sobrevivência. As informações enviadas anteriormente por Kramer, no primeiro filme, passam a ter consequências concretas no avanço russo, enquanto os alemães tentam infiltrar agentes em território soviético numa ofensiva cada vez mais desesperada.
Agora Kramer terá de enfrentar um grave obstáculo em sua missão. Sem conseguir manter contato com os russos depois da interceptação de seu elo humano, ele se vê isolado e pressionado pelo tempo. É nesse momento que Sophie Krause deixa de ser apenas uma personagem secundária e se torna essencial para a história. A aproximação entre os dois não surge como um romance artificial, mas como consequência do desgaste emocional provocado pela guerra. Sophie carrega a decepção de quem já não acredita nos métodos do próprio país e sua escolha de ajudar Kramer torna o filme mais sensível, especialmente porque essa aliança nasce em meio ao medo constante de traição e descoberta.
Por fim, essa segunda parte da trilogia retrata de forma convincente o enfraquecimento do exército alemão diante do inverno soviético e dos erros estratégicos provocados pelas falsas pistas espalhadas pelos russos. Existe uma sensação de cansaço, desorientação e perda gradual de controle como sinais do colapso inevitável. O resultado é uma obra intensa e melancólica, que me deixou com uma ansiedade enorme pelo terceiro filme.
A chamada 'Trilogia de Saturno' é formada pelos filmes "O Caminho para Saturno (1967)", "O Fim de Saturno (1968)" e "Batalha Após a Vitória (1972)", e talvez seja uma das grandes obras esquecidas do cinema soviético. Inspirada no livro de Vassíli Ardamatski e na trajetória real do agente Aleksandr Ivanovitch Kozlov, esses filmes transformam espionagem militar em drama humano, sem recorrer ao heroísmo ou a personagens caricatos. Há um cuidado em mostrar a guerra não pelo confronto armado, mas pela visão estratégica e silenciosa da paciência.
A direção de Villen Azarov é firme e sóbria. O elenco todo é espetacular, mas impressionam as interpretações de Mikhail Volkov e Georgi Zhzhyonov, que dão à trama uma dimensão profundamente humana. Seus personagens são homens obrigados a sustentar máscaras, controlar emoções e sobreviver ao peso psicológico da guerra.
Neste primeiro filme, "O Caminho para Saturno", acompanhamos a ida do capitão Krylov (sob a identidade de Mikhail Kramer) para a organização de inteligência alemã Saturno. O que chama atenção não é apenas o perigo da infiltração, mas a forma meticulosa como o personagem, mesmo com a vida por um fio, constrói sua credibilidade dentro da estrutura militar germânica. Seu treinamento, ascensão militar e métodos discretos de transmissão de informações criam uma tensão contínua, onde cada passo parece trazer uma ameaça.
A obra revela os bastidores políticos do fim da Segunda Guerra e do nascimento da Guerra Fria entre EUA e URSS. Também é interessante perceber como o filme aborda a fragmentação da Alemanha e o clima de incerteza vivido pela população naquele período. No centro de tudo está Kramer, um personagem admirável justamente por sua firmeza contida: alguém que conquista respeito tanto dos russos quanto dos alemães pela integridade, enquanto vive cercado por desconfiança, manipulação e guerra.
O legado que Ingmar Bergman deixou para o cinema é tão importante e precioso que até hoje inspira obras de cineastas igualmente notáveis. Sua formação não era filosofia ou psicologia, mas ele condensava em suas histórias e personagens verdadeiros estudos clínicos da alma humana. O filme "Da Vida Secreta das Marionetes" é mais um testemunho disso. Talvez seja um dos menos conhecidos na sua filmografia, mas igualmente capaz de traduzir os dilemas e inquietudes humanas para cenários da vida real.
Pode ser que, assim como aconteceu comigo, as primeiras perguntas que venham à mente de quem assiste o filme sejam: "quem são as marionetes?" e "quem as manipula?". Sem meias palavras, Bergman deixa claras as respostas, e o mais assombroso é compreender que as suas marionetes não são bonecos inanimados, mas alegorias acerca da nossa própria natureza. Enquanto o teatro da vida segue seu curso, ninguém vê as mãos que manobram os fios. Não se conhecem suas almas, não se sabe de seus sentimentos e segredos.
No filme, acompanhamos o tormento psicológico de Peter Egermann. Um pensamento obsessivo atravessa sua alma, perturba sua sanidade, ameaça seu casamento e a integridade de sua esposa Katarina. É interessante destacar que, embora essa história não seja uma continuação de "Cenas de Um Casamento", Bergman reutilizou os mesmos nomes de um dos casais de 1973. É como se quisesse estabelecer uma ponte simbólica entre as duas narrativas, sugerindo que Katarina e Peter são variações de um mesmo arquétipo, representações das complexidades e fragilidades da vida conjugal.
--------------------------------------------------------------------------------- P.S.: Voltando para ressaltar a estonteante beleza "cara lavada" de Christine Buchegger! ---------------------------------------------------------------------------------
Euforia
3.7 18Reassisti este filme que me marcou tanto há 7 anos.
E agora escrevo minhas impressões sobre ele.
A primeira cena do filme "Euphoria" (2006) nos dá a ideia exata do que significa essa sensação: uma alegria intensa, quase descolada da realidade, que altera a percepção dos personagens e os empurra para fora de seus eixos. Esse impulso pode ser tão arrebatador quanto perigoso, pois não se sustenta diante da dureza concreta da vida. O contraste entre o instante de plenitude e o peso da existência é o fio que atravessa toda a narrativa.
O espaço onde a história se desenrola é isolado, marcado por estradas de chão batido que se entrelaçam como veias, conectando destinos e rompendo o marasmo. O terreno irregular, cheio de crateras, reforça a sensação de precariedade, enquanto o rio que corta a paisagem surge como contraponto: o fluxo contínuo, o verde e a abundância em meio à aspereza. As casas parecem clausuras, escuras e abafadas, mas a luz do sol presente nas cenas externas parece insistir em oferecer uma promessa de liberdade, ainda que distante.
Nesse cenário, vidas estagnadas se cruzam. Homens endurecidos pela brutalidade e pelo álcool, mulheres resignadas à submissão, todos vivendo com o mínimo, invisíveis ao olhar do Estado. É nesse contexto que os personagens centrais se encontram, primeiro apenas em uma troca de olhares, depois em uma conexão única, que cresce nos silêncios e dispensa promessas ou garantias. Suas mãos entrelaçadas, seus corpos expostos em uma nudez quase bíblica, evocam um instante de paraíso. Mas como toda euforia, essa experiência ignora os limites da realidade e carrega em si a fragilidade de ser breve, como uma flor que brota no deserto.
Mil Vezes Boa Noite
4.0 157 Assista AgoraO filme "Mil Vezes Boa Noite" (2013) conta a história de Rebecca, uma fotógrafa de guerra reconhecida por todos pela sua coragem e talento. Ela ama o que faz, porque sabe que suas fotos têm a capacidade de mostrar ao mundo a verdadeira história e os horrores de uma guerra. Seu trabalho dá voz a pessoas que, de outra forma, jamais teriam visibilidade. Entretanto, esses profissionais pagam um alto preço para fazer registros arriscados, muitas vezes custando-lhes a própria vida.
Rebecca, ao acompanhar um grupo de mulheres-bomba no Afeganistão, passa por uma experiência quase fatal que a coloca perante um grande dilema. Ela precisará fazer uma das escolhas mais difíceis desde que se tornou esposa e mãe. Juliette Binoche, sempre maravilhosa, dá o exato tom que a personagem necessita em meio a essa tempestade emocional.
Com um final emocionante, o filme não romantiza o jornalismo, ao contrário, opta por fazer fortes denúncias sociais e também críticas contundentes ao sistema midiático, por vezes submetido a interesses políticos e estruturas de poder. Lança luz sobre questões éticas da imprensa tradicional, que busca conteúdos impactantes para suas manchetes e trata imagens de dor como mero entretenimento.
O Informante
3.8 254"O Informante" impressiona pela força de sua narrativa e também pela relevância de seu tema. Baseado em fatos reais, expõe o drama vivido por pessoas comuns que ousaram enfrentar gigantes corporativos americanos.
Jeffrey Wigand e Lowell Bergman, interpretados magistralmente por Russell Crowe e Al Pacino, são pessoas reais que viveram essa história: o cientista que decide revelar segredos da indústria tabagista e o jornalista que luta para levar essa denúncia ao público. Ambos se veem em uma batalha desigual contra o poder econômico e político, onde cada passo exige coragem e implica perdas pessoais.
O filme revela bastidores de um conflito que questiona diretamente a ideia de "imprensa livre", mostrando como interesses financeiros podem sufocar a verdade. A cena inicial sintetiza a ironia e a gravidade da situação, mostrando que é mais fácil entrevistar o líder do 'Hezbollah' do que transmitir o inconveniente depoimento de um cientista americano contra os interesses de poderosos.
Mais do que uma denúncia sobre a indústria tabagista, "O Informante" é um manifesto sobre ética, valores e o preço da integridade. Wigand e Bergman se sustentam apenas em sua convicção moral, mesmo quando tudo ao redor parece conspirar contra eles. Essa postura transforma o filme em uma obra atemporal, que continua relevante em tempos de 'fake news' e manipulação midiática.
Não Aceitamos Devoluções
4.2 369 Assista Agora"Instructions Not Included" me pegou de surpresa. No início, parecia apenas uma comédia leve, com um enredo já bastante conhecido: um solteirão mulherengo que de repente se descobre pai e é obrigado a cuidar sozinho do bebê. As primeiras cenas até passam a impressão de que o protagonista não vai segurar a trama, mas a história vai mudando de tom e começa a ganhar uma força inesperada, que nos prende e emociona de verdade.
A primeira temática do filme é sobre o medo. Valentín, o personagem principal, desde a infância é obrigado a encarar seus piores medos, os quais se materializam em sua mente na figura de um lobo feroz que aparece sempre que ele precisa enfrentar algo difícil. É uma metáfora poderosa, porque mostra que os maiores desafios não estão do lado de fora, mas dentro da gente. Em seguida, o filme faz uma bela abordagem sobre a paternidade e o amor, e como isso pode modificar um homem. Aquele 'bon vivant' que só queria liberdade, passa a ter receio de perder a companhia de sua filha. Em meio a tudo isso, também são levantados dilemas éticos que permanecem conosco mesmo depois que o filme acaba, como por exemplo a consequência das mentiras "benéficas" contadas para proteger alguém de verdades dolorosas.
O longa, dirigido e estrelado por Eugenio Derbez, aos poucos vai se revelando um drama impactante com um detalhe curioso: acabou se tornando um fenômeno de bilheteria nos Estados Unidos e até hoje é um dos filmes em espanhol mais assistidos por lá. Seu final, tocante e inesperado, deixa uma bonita mensagem: nossos filhos nos ajudam a compreender e perdoar os erros de nossos pais. É uma trama que começa simples, mas a cada cena vai se mostrando mais profunda e inesquecível.
Memórias
4.0 170 Assista AgoraEm "Stardust Memories" Woody Allen recorre à metalinguagem para dar vida a Sandy Bates, um famoso diretor e roteirista de comédias que atravessa uma crise criativa e existencial. A melancolia invade tanto sua obra quanto sua vida pessoal, enquanto o público e os produtores resistem à mudança de tom, cobrando a ausência de humor e insistindo que "as pessoas não querem realismo no cinema".
Os filmes de Allen costumam ser críticos, recheados de diálogos mordazes e de uma subjetividade que o coloca quase sempre no centro da narrativa, algo que muitos interpretam como narcisismo. Houve um tempo que sua filmografia me fascinava; hoje a percebo como um espaço de busca por reconhecimento e validação.
Em um dos diálogos do filme, alguém afirma: "comédia é raiva e hostilidade". A frase sintetiza bem o poder do humor, uma ferramenta capaz de expor verdades sem solenidade, desde que usada com ética e inteligência. É esse o caminho escolhido por Woody Allen para retratar a falta de privacidade das celebridades, o assédio constante de fãs inconvenientes e em busca de oportunidades, a pressão de ONGs por doações e a interferência arbitrária dos produtores nos roteiros.
"Stardust Memories" talvez seja um dos filmes mais introspectivos de Woody Allen, parecendo uma obra autobiográfica com um mosaico de reflexões sobre arte, amor e sentido da vida, revelando um artista em conflito e as expectativas de um público que prefere o riso à inquietude.
Propriedade
3.7 130 Assista Agora"Propriedade" é um grande filme! Um 'thriller' psicológico que se entrelaça com o mais genuíno terror. Desde o primeiro instante, nos confrontamos com uma situação extremamente violenta que representa o medo de todo cidadão. A partir disso, cria-se uma atmosfera que segue em tensão contínua, quase sufocante. Há uma força emocional que atravessa a tela e nos prende psicologicamente, como se o confinamento vivido pela personagem Teresa fosse capaz de roubar nossa própria respiração.
À medida que a história se desenvolve, a dimensão social revela-se com clareza. O choque entre dois universos distintos: os proprietários de terras e os trabalhadores que dependem dela para sobreviver, expõe desigualdades profundas. Essa colisão de interesses transforma o suspense em crítica e a clausura da protagonista serve como metáfora de um país dividido por muros invisíveis. O filme não apenas aterroriza, mas nos convida a refletir sobre as estruturas e injustiças que sustentam essas distâncias.
Com um elenco pouco conhecido do grande público, mas sólido em suas trajetórias no teatro e no cinema autoral, "Propriedade" ganhou autenticidade e frescor. É um terror real, crível, por isso extremamente apavorante. Nada de fantasmas, monstros ou bruxas, apenas gente de carne e osso governada por seus piores instintos.
Dia D
3.0 543 Assista Agora"Disclosure Day", o novo filme de Steven Spielberg, não é propriamente sobre alienígenas. Eles surgem, na maior parte da trama, apenas através de velhas filmagens militares vazadas. O verdadeiro foco está nos impactos que uma revelação da existência de vida extraterrestre poderia causar: o pânico coletivo, a crise das crenças e os dilemas políticos para governos e militares que, durante anos, teriam recorrido a métodos cruéis para investigar os OVNIs e tratar seus tripulantes como ameaça à segurança nacional.
O mérito do filme está em alimentar nossa imaginação com essa possibilidade. Afinal, uma parte da humanidade, na qual eu me incluo, anseia por não estar só no universo. Entretanto, é impossível esquecer que se trata de uma produção tipicamente hollywoodiana, moldada por dramatizações e por uma visão essencialmente americana. É uma obra pensada para consumo imediato, como um 'fast-food' que sacia, mas não nutre. Há perseguições exageradas, fugas improváveis, excesso de CGI e a velha fórmula de heróis contra vilões. Essa mistura insossa acabou bloqueando meus esforços de digerir a história ou me emocionar com ela.
"Disclosure Day" também segue uma tendência que tenho notado em filmes do gênero: se antes os extraterrestres eram retratados como invasores perigosos, hoje aparecem como seres vulneráveis, dotados de poderes telepáticos, mas frágeis diante do nosso potencial bélico. De ameaçadores, passaram a vítimas da curiosidade e da crueldade humanas. O que nunca muda é o cenário: continuam desembarcando nos Estados Unidos. E eu me pergunto se não seria mais interessante que visitassem nossas civilizações antigas, com culturas milenares e histórias tão diversas quanto fascinantes.
Por fim, achei que a atuação de Emily Blunt merece destaque, assim como o charme maduro de Colin Firth, que envelheceu com uma elegância que me lembrou bastante Orson Welles em seus últimos anos.
Una luz en la Ventana
3.0 1"Una Luz En La Ventana" é um clássico do cinema argentino, lançado em 1942 e considerado o primeiro filme de terror daquele país. Escrito e dirigido por Manuel Romero, é a única obra do gênero que integra sua vasta filmografia, composta por mais de 50 comédias, musicais e melodramas populares.
O filme apresenta uma narrativa simples, mesclando terror e comédia. Seu valor reside menos na complexidade da trama e mais na experiência de assistir a um marco histórico. O enredo acompanha o Dr. Herman, um homem acometido por uma enfermidade genética que deforma sua aparência, tornando-o uma figura assustadora. Um método científico experimental promete cura, mas exige um doador humano.
Mais do que o suspense da história, o verdadeiro terror está na condenação do personagem a viver isolado, privado de amor e relegado às sombras. Essa dimensão simbólica faz com que, ao longo do filme, torne-se perceptível que o Dr. Herman não é um homem mau, e sim amargurado pela exclusão e solidão.
A Ascensão
4.3 63"The Ascent" é mais um filme poderoso. Dirigido por Larisa Shepitko, uma das maiores representantes do cinema feminino, e baseado na obra de Vasiliy Bykov, o longa combina drama psicológico, realismo cru e simbolismo religioso para construir um retrato íntimo e quase espiritual da Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista da União Soviética.
Com uma sensibilidade apurada, Shepitko narra a trajetória de dois soldados russos, Sotnikov e Rybak, que partem em busca de alimentos para sua unidade, bastante debilitada pela fome e pelo frio extremo. Após fracassos sucessivos em sua missão, acabam capturados pelos alemães e submetidos a interrogatório. A partir daí, o filme nos coloca frente a frente com as escolhas morais de cada um: a forma contrastante como enfrentam a tortura e a iminência da morte revela, em seus rostos e atitudes, a diferença entre honra e covardia. Um aceita o martírio em nome de seus princípios, o outro cede ao medo e à traição para sobreviver.
As cenas são intensas e visualmente marcantes, com closes prolongados que reforçam a dimensão simbólica dos personagens, como se os assemelhassem às figuras cristãs de Jesus e Judas. A neve e a paisagem gelada criam uma atmosfera de desolação e vazio, uma estética da solidão que amplifica o peso existencial da narrativa. Trata-se de uma obra-prima que, à época, conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim (1977) e recebeu merecido reconhecimento internacional, consolidando a carreira de Larisa Shepitko, que infelizmente foi breve.
Amor, Mentiras
4.1 22Já fazia algum tempo que eu não assistia a um filme tão trágico e de tão rara beleza! "Love, Lies (2016)", dirigido por Park Heung-sik, é uma obra que combina a delicadeza e o realismo característicos do cinema asiático. Ele conta a história de Jung So-yool e Seo Yeon-hee, que desde a infância compartilham uma forte amizade: são como irmãs de alma, inseparáveis, cúmplices em sonhos e segredos. Esse vínculo, tão puro e profundo, acompanha-as até a vida adulta, mas o destino, com crueldade, decide colocar à prova a solidez desse afeto quando ambas descobrem-se apaixonadas pelo mesmo homem.
So-yool foi a primeira a experimentar o amor e acredita ter o direito de reivindicar sua reciprocidade. Contudo, a vida, sempre imprevisível, desviou o curso desse sentimento. A descoberta da perda resultou em uma das cenas mais dolorosas do filme: é quase possível sentir o punhal que atravessa seu peito. A partir desse instante, ela naufraga em sua própria dor, envenenando-se lentamente até que restem apenas o ciúme e o desejo de vingança.
Nesse cenário, o inferno parece engolir a todos. Não há culpados, somente vítimas de um destino implacável. E é justamente ao mergulhar na tragédia que o filme se torna profundamente humano, mostrando como o amor pode ser tanto fonte de luz quanto de perdição.
Bola de Fogo
4.1 38 Assista Agora"Ball of Fire" é uma comédia romântica leve e divertida, com aquele estilo dos anos 1940. A história mistura romance, humor e situações improváveis, criando momentos agradáveis para amantes do cinema daquela época. Sim, o ritmo é meio lento, o enredo é previsível e se prolonga um pouco além do necessário, mas é um filme alegre e envolvente. O humor é do tipo ingênuo, o que em certo ponto parece contrastar com a ambientação e os personagens escolhidos (velhos professores incumbidos de escrever uma enciclopédia), que se comportam como crianças na maioria das cenas.
Mesmo com alguns exageros, o filme funciona bem como entretenimento. O carisma dos protagonistas e os diálogos bem-humorados ajudam a manter o interesse até o fim. É uma produção feita para divertir, sem pretensões, com astros que faziam muito sucesso em Hollywood nos anos 40: Gary Cooper e Barbara Stanwyck.
Embora não seja um daqueles filmes marcantes, é um clássico que não decepciona e garante um sorriso no rosto.
Mouchette, a Virgem Possuída
4.0 64 Assista Agora"Mouchette" é um drama trágico sobre a vida de uma menina atingida pela miséria, solidão e violência. Robert Bresson adaptou para o cinema o romance de Georges Bernanos e construiu um retrato devastador da infância roubada. A pequena protagonista, ainda tão jovem, é obrigada a carregar responsabilidades que esmagam qualquer possibilidade de inocência: cuidar de sua mãe enferma e de um irmão recém-nascido. Como se não bastasse, também enfrenta a brutalidade de um pai que a castiga sem piedade. A dureza da vida não rouba apenas seus sonhos, mas sua capacidade de acreditar em ternura. Sem nunca ter conhecido o amor, seria improvável que Mouchette o trouxesse em seu coração, e a cada gesto de violência ou indiferença que recebe, sua pureza se desfaz e a infância se converte em um terreno árido, onde não há espaço para ilusões.
A rebeldia da jovem menina nasce como resposta ao mundo que a oprime, mas essa revolta só aumenta sua solidão, endurece seu coração e a afasta da esperança. Os abusos que sofreu, vindos de diferentes pessoas e em diversas formas, moldaram um destino marcado pela ausência de qualquer promessa de futuro. A vida não a abraçou nem lhe abriu passagem e o filme revela, com uma crueza quase insuportável, como a inocência pode ser esmagada pelas violências cotidianas. Para Mouchette a bonança não existe e sua vida é um testemunho da infância negada, da pureza perdida e da impossibilidade de encontrar consolo em um mundo que nunca lhe ofereceu ternura.
P.S.: Vergonha do título que o filme recebeu no Brasil. Quem o escolheu não devia gostar do que fazia.
A Mulher Com Uma Faca
3.3 5 Assista Agora"La Femme Au Couteau" é um drama/thriller filmado em 1969 na Costa do Marfim, dirigido e protagonizado por Timité Bassori. Logo de início vemos que a obra foi restaurada e faz parte do Projeto de Patrimônio do Cinema Africano. Os originais padeciam de severa deterioração, mas graças a um trabalho primoroso, agora esse clássico pode ser devidamente apreciado. Na verdade ele não é perfeito, tem alguns problemas técnicos como atuações pouco espontâneas e diálogos mecânicos, engessados. Ainda assim, o clima é cativante e esses detalhes não diminuíram ou afetaram o encantamento de poder assisti-lo.
Muitas cenas foram gravadas em espaços abertos com câmera manual, sem estabilidade, sendo esse um outro percalço que não tirou o tom charmoso do filme. A estética africana e o figurino típico dos anos 60 são super bonitos. A história acompanha um homem dividido entre a introspecção e o mundo exterior. Ele é um intelectual que abraçou a racionalidade e abandonou a superstição. Seu nome não é mencionado no filme, apenas temos acesso a um breve flashback de sua infância e sabemos que, agora, ele está sendo assombrado pela visão de uma mulher misteriosa que o ameaça com uma faca.
A experiência sobrenatural o faz buscar respostas imediatas junto a um curandeiro africano. Surpreso com sua própria atitude, desabafa com um amigo que o escuta e o aconselha em momentos críticos. À medida que a trama se desenvolve, vai se revelando o profundo isolamento do personagem e sua dificuldade de adaptação social. Um dia, ele reencontra casualmente uma amiga de infância e, após saírem juntos algumas vezes, se vê apaixonado por ela. Ao tentar explicar-lhe como se sente estranho fora de seu mundo particular, ele acaba se lembrando de que, quando menino, encontrou um homem também estranho, com uma história semelhante à sua e que acabou enlouquecendo.
Para não ter o mesmo destino e salvar seu relacionamento, ele precisará enfrentar velhos traumas antes que aquela aparição o leve à loucura e, assim, permitir que o mundo real lhe traga as respostas necessárias para se libertar e viver plenamente.
Schramm
3.0 59"Schramm" é um filme curto (65 minutos) que já nas primeiras cenas revela seu desfecho, apostando no tom de ironia dramática. Mas a direção de Jörg Buttgereit não consegue agregar tensão ou manter o ritmo; a estética e a narrativa são frias, típicas do cinema alemão. A ausência de construção dos personagens faz com que eles não despertem relevância ou emoção, e até mesmo as cenas mais violentas e gráficas soam forçadas como material sensacionalista.
Embora se apresente como horror psicológico, o foco não está nos crimes, mas na mente de Lothar Schramm, o assassino. O filme expõe seus pesadelos, traumas, rotina banal e uma explicação simplista para seus impulsos. Opta por mostrar como experiências com mulheres de sua vida moldaram seu desprezo pelo feminino. Conhecido pela imprensa como o “assassino do batom”, ele parece padecer de certa culpa pelo que faz, expiando-a por meio da automutilação. Para ele, o sexo feminino é repulsivo e ameaçador, e essa visão distorcida talvez sustente a violência que o domina e o leva a acessar somente corpos de mulheres mortas ou inconscientes.
Em minha opinião, o mais perturbador do filme não é a solidão ou paranoia de Lothar, mas a constatação de que psicopatas podem viver como qualquer pessoa: ter vizinhos, frequentar restaurantes, dirigir táxis e até aparentar docilidade. Ainda assim, o filme não consegue transformar essa ideia em uma experiência marcante. Os efeitos especiais são fracos, a qualidade da fotografia é baixa e o final, sem ápice e quase banal, reflete a própria vida do protagonista.
A Cova da Serpente
4.0 45"Na Cova da Serpente" é um drama psicológico dirigido por Anatole Litvak e estrelado por Olivia de Havilland, que fala de maneira autêntica e sensível sobre os dilemas da saúde mental e como funcionavam as instituições psiquiátricas antigamente. A história é baseada no livro de Mary Jane Ward, que conta sua própria experiência após passar oito meses internada devido ao diagnóstico de esquizofrenia.
Durante boa parte do filme, acompanhamos a personagem Virgínia em um estado de confusão que também atinge quem assiste. Sua vida parece seguir um rumo normal até conhecer Robert Cunningham, com quem aceita se casar após passar alguns meses desaparecida. A partir disso, ela mergulha em um colapso psicológico que acaba resultando na sua internação num hospital para transtornos mentais. A história transmite com intensidade o terror da perda de memória e da sensação de vazio e alienação. Virgínia é acompanhada pelo Dr. Mark Kik, um psiquiatra dedicado e criterioso que se interessa pelo seu caso e busca compreender o que pode tê-la deixado em crise.
Acho que o mérito do filme é abordar esse tema com seriedade e sem caricaturas, mostrando tanto os métodos terapêuticos da época (eletrochoques e câmaras de imersão), quanto os problemas estruturais dos hospitais. Ao expor aquelas práticas e limitações, Na Cova da Serpente não apenas causa impacto, mas também nos ajuda a compreender o porquê mudanças profundas precisaram ser feitas no tratamento de pacientes psiquiátricos.
A Mulher Sem Cabeça
3.5 67Veronica dirige por uma estrada e, num segundo de distração, sente um forte impacto como se houvesse atropelado algo. Ela bate a cabeça, mas volta a dirigir sem ver o que houve. A partir disso, ela aparenta entrar em choque por acreditar ter matado uma pessoa. O filme começa a mostrar detalhes aparentemente banais da vida da personagem mas, principalmente, seu profundo desconforto e apatia. Ela mal interage com as pessoas, demonstra alienação e confusão mental. O mais perturbador, além de seus silêncios, é que ninguém parece notar o que ela está passando. Os comentários que fazem sobre ela limitam-se à sua aparência, numa clara menção à superficialidade das relações.
Essa é a premissa de "A mulher Sem Cabeça", onde até a normalidade pode ser inquietante. As informações vão sendo oferecidas em pequenas doses para dedução do público, assim como os fatos que envolvem o acidente. Nunca há clareza absoluta, apenas suspeitas de que houve alguma vítima, possivelmente uma das crianças pobres da região, apresentadas nas primeiras cenas do filme. Este é um ponto que expõe o abismo entre classes sociais, porque a perda dessas vidas invisíveis parece ser irrelevante, com peso semelhante ao da morte de um animal.
A interpretação de Maria Onetto merece destaque pela habilidade de revelar-se somente com o olhar e poucas expressões do rosto. Em duas rápidas ocasiões suas lágrimas explodem em culpa, mas logo depois ela retorna à passividade que indica uma vida controlada pelos outros. A direção de Lucrecia Martel é inteligente e mantém incertezas, nos levando a presumir respostas e tirar nossas próprias conclusões. Durante todo o tempo é como se estivéssemos presos à mente de Veronica, compartilhando sua desorientação e enxergando tudo sob suas lentes turvas.
What Happened to Rosa
2.5 1"What Happened To Rosa" é um filme mudo de 1920, dirigido por Victor L. Schertzinger. Trata-se de uma comédia romântica tipo Sessão da Tarde, estrelada por Mabel Normand, uma das maiores comediantes do cinema mudo. Apesar de seu talento, teve a carreira abreviada por escândalos e problemas pessoais.
O filme conta a história de Mayme Ladd, uma jovem balconista da loja de artigos femininos 'Friedman's' que, após visitar uma vidente começa a acreditar que incorporou o espírito de uma nobre e bela espanhola chamada Rosa Alvaro. Mayme, que vive uma rotina apática e desanimadora, passa a comportar-se como a deslumbrante Rosa. E uma noite, num baile de máscaras, vê seu tão esperado desejo quase realizar-se.
Considero interessante a ideia de que mudanças na forma de pensar e agir são mecanismos poderosos para despertar coragem, segurança e dar novos rumos à vida. No caso de Mayme, Rosa funcionou como seu 'alter ego', fazendo com que se sentisse autoconfiante e atraente, capaz de superar a timidez e assumir posturas mais firmes em direção aos seus sonhos.
Infâmia
4.4 316Assistir a "The Children's Hour" (Infâmia) é vivenciar um drama quase na própria pele. Houve momentos em que a devastação íntima dos personagens pareceu ultrapassar a tela e me atingir diretamente. William Wyler entregou uma obra que escancarou o peso e a maldade de uma mentira e o impacto devastador do preconceito. Trazendo para os dias atuais, essa deve ser a sensação de uma vítima das perigosas 'fake news', pois uma vez destilado o veneno, nunca mais a mácula pode ser retirada por completo.
O filme cresce em intensidade a cada cena, até tornar-se um retrato poderoso da fragilidade humana diante da intolerância. Confesso que, no início, foi difícil imaginar Audrey Hepburn em uma situação tão carregada de tensão, com seu ar quase etéreo de princesa. Mas quando o filme alcança o ápice, ela revela uma atuação surpreendente, delicada e firme ao mesmo tempo, provando que sua força vai muito além da imagem de elegância que a consagrou.
Já Shirley MacLaine está simplesmente extraordinária. Há uma autenticidade em sua presença que não se pode esquecer. O olhar intenso, a vulnerabilidade exposta e a força emocional nos minutos finais são de arrepiar. Juntas, elas transformam o filme em um espetáculo raro, sensível e corajoso, uma obra extraordinária mesmo tantas décadas depois.
Infâmia
3.8 17Quando procuro informações sobre os filmes que assisto, muitas vezes me surpreendo mais com as histórias que existem ao redor deles do que com os próprios roteiros. Foi exatamente o que aconteceu com "These Three" (Infâmia). O filme nasceu da peça teatral 'The Children's Hour' escrita por Lilian Hellman e apresentada na Broadway em 1934. Na época, a peça foi um sucesso estrondoso e ficou dois anos em cartaz, apesar de ser considerada ousada por tratar de uma relação romântica entre duas mulheres.
Isso me fez pensar em como, sob certos aspectos, a sociedade parece ter regredido. Diante do avanço do conservadorismo e do preconceito, talvez hoje uma peça assim não recebesse o mesmo reconhecimento do público e da crítica.
Dois anos depois, em 1936, o diretor William Wyler decidiu levar a história para o cinema. Mas Hollywood não permitiu que o roteiro passasse pelo rígido 'Código Hays', que censurava qualquer tema considerado 'imoral'. A menção ao lesbianismo foi retirada e substituída por um triângulo amoroso heterossexual. A própria Lilian Hellman fez essa adaptação, mas o resultado perdeu o impacto social quando trocou preconceito e intolerância por ciúmes e traição. "These Three" virou um filme incoerente e sem força dramática.
Somente em 1961 William Wyler conseguiu filmar a história como ela havia sido escrita. Com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine nos papéis principais, entregou uma obra poderosa, sensível e corajosa, que finalmente fez justiça ao impacto da peça.
Obsessão
3.9 927 Assista AgoraGosto bastante de filmes de terror psicológico, em que o medo nasce da imaginação de vivenciar aquilo que se assiste. A trilha sonora e os 'jumpscares' cumprem bem o papel de aumentar a tensão, mas o grande mérito desse gênero está em mostrar personagens imersos em situações desesperadoras, como aquelas em que não há controle, solução ou saída. O pânico que invade suas vidas não se relaciona com a morte, mas com a perda da própria sanidade.
Apesar de ser uma produção de orçamento modesto, "Obsessão" é um terror psicológico surpreendente. Escrita e dirigida por Curry Barker, a trama começa de forma leve e aparentemente despretensiosa, acompanhando quatro amigos: Bear, Nikki, Ian e Sarah. Bear é apaixonado por Nikki, mas sua timidez o impede de revelar seus sentimentos. A partir desse tema comum, acontecimentos cada vez mais bizarros e surreais começam a acontecer, culminando em momentos capazes de gelar o sangue.
Seguindo a tendência do terror contemporâneo, "Obsessão" também explora elementos de magia e maldição, encerrando a narrativa com uma mensagem perturbadora: tentar manipular energias ou leis naturais pode ser fatal, sobretudo quando o Universo decide atender aos desejos de maneira diferente da imaginada.
Batalha Após a Vitória
5.0 1"Batalha Após a Vitória" encerra a trilogia de maneira coerente e emocionante, mostrando que o fim de uma guerra não se dá pela simples assinatura da rendição pelo exército derrotado. Ambientado após a derrota alemã em maio de 1945, o filme mergulha no território das alianças silenciosas, dos acordos políticos secretos e da reorganização das forças que sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich. A ameaça alemã ressurge de forma menos visível, mas ainda poderosa, principalmente por meio das articulações do general Gehlen, que tenta reconstruir sua rede de espionagem à semelhança da antiga organização Saturno, mas agora contando com o apoio indireto de setores do exército americano.
No centro dessa tensão permanece Kramer, talvez em sua fase mais solitária e arriscada, ainda infiltrado entre os alemães. Ele continua vivendo em meio a identidades falsas, suspeitas e perigos constantes, enquanto tenta manter o fluxo de informações para os soviéticos. O filme também revela os destinos de figuras importantes como Sophie Krause, a capitão Schönemann e o major Wilhelmy. Ao mesmo tempo, introduz à trama os generais americanos Smiles e O'Donnell, mostrando como os antigos aliados EUA e URSS começam lentamente a se enxergar como futuros adversários.
A divisão da Alemanha entre lado oriental e ocidental surge como consequência natural daquele cenário de desconfiança e disputa por influência, criando uma sensação de continuidade histórica que torna o desfecho ainda mais impactante. O filme transmite a ideia de que certas guerras não desaparecem, apenas mudam de forma. Entre espionagem, manipulação política e personagens marcados pelas perdas acumuladas ao longo da trilogia, este talvez seja um dos retratos mais humanos e inteligentes já feitos sobre o período pós-guerra, com um encerramento forte, elegante e que, para mim, tornou-se duradouro.
O FIM DE SATURNO
3.8 2"O Fim de Saturno" dá seguimento ao universo construído no primeiro filme, sem diminuir a tensão que tornou a história tão envolvente. Ainda situado no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial, em meio ao confronto entre União Soviética e Alemanha, o longa mantém a visão íntima da guerra, como uma disputa de inteligência, confiança e sobrevivência. As informações enviadas anteriormente por Kramer, no primeiro filme, passam a ter consequências concretas no avanço russo, enquanto os alemães tentam infiltrar agentes em território soviético numa ofensiva cada vez mais desesperada.
Agora Kramer terá de enfrentar um grave obstáculo em sua missão. Sem conseguir manter contato com os russos depois da interceptação de seu elo humano, ele se vê isolado e pressionado pelo tempo. É nesse momento que Sophie Krause deixa de ser apenas uma personagem secundária e se torna essencial para a história. A aproximação entre os dois não surge como um romance artificial, mas como consequência do desgaste emocional provocado pela guerra. Sophie carrega a decepção de quem já não acredita nos métodos do próprio país e sua escolha de ajudar Kramer torna o filme mais sensível, especialmente porque essa aliança nasce em meio ao medo constante de traição e descoberta.
Por fim, essa segunda parte da trilogia retrata de forma convincente o enfraquecimento do exército alemão diante do inverno soviético e dos erros estratégicos provocados pelas falsas pistas espalhadas pelos russos. Existe uma sensação de cansaço, desorientação e perda gradual de controle como sinais do colapso inevitável. O resultado é uma obra intensa e melancólica, que me deixou com uma ansiedade enorme pelo terceiro filme.
O CAMINHO PARA SATURNO
3.8 2A chamada 'Trilogia de Saturno' é formada pelos filmes "O Caminho para Saturno (1967)", "O Fim de Saturno (1968)" e "Batalha Após a Vitória (1972)", e talvez seja uma das grandes obras esquecidas do cinema soviético. Inspirada no livro de Vassíli Ardamatski e na trajetória real do agente Aleksandr Ivanovitch Kozlov, esses filmes transformam espionagem militar em drama humano, sem recorrer ao heroísmo ou a personagens caricatos. Há um cuidado em mostrar a guerra não pelo confronto armado, mas pela visão estratégica e silenciosa da paciência.
A direção de Villen Azarov é firme e sóbria. O elenco todo é espetacular, mas impressionam as interpretações de Mikhail Volkov e Georgi Zhzhyonov, que dão à trama uma dimensão profundamente humana. Seus personagens são homens obrigados a sustentar máscaras, controlar emoções e sobreviver ao peso psicológico da guerra.
Neste primeiro filme, "O Caminho para Saturno", acompanhamos a ida do capitão Krylov (sob a identidade de Mikhail Kramer) para a organização de inteligência alemã Saturno. O que chama atenção não é apenas o perigo da infiltração, mas a forma meticulosa como o personagem, mesmo com a vida por um fio, constrói sua credibilidade dentro da estrutura militar germânica. Seu treinamento, ascensão militar e métodos discretos de transmissão de informações criam uma tensão contínua, onde cada passo parece trazer uma ameaça.
A obra revela os bastidores políticos do fim da Segunda Guerra e do nascimento da Guerra Fria entre EUA e URSS. Também é interessante perceber como o filme aborda a fragmentação da Alemanha e o clima de incerteza vivido pela população naquele período. No centro de tudo está Kramer, um personagem admirável justamente por sua firmeza contida: alguém que conquista respeito tanto dos russos quanto dos alemães pela integridade, enquanto vive cercado por desconfiança, manipulação e guerra.
Da Vida das Marionetes
4.3 70O legado que Ingmar Bergman deixou para o cinema é tão importante e precioso que até hoje inspira obras de cineastas igualmente notáveis. Sua formação não era filosofia ou psicologia, mas ele condensava em suas histórias e personagens verdadeiros estudos clínicos da alma humana. O filme "Da Vida Secreta das Marionetes" é mais um testemunho disso. Talvez seja um dos menos conhecidos na sua filmografia, mas igualmente capaz de traduzir os dilemas e inquietudes humanas para cenários da vida real.
Pode ser que, assim como aconteceu comigo, as primeiras perguntas que venham à mente de quem assiste o filme sejam: "quem são as marionetes?" e "quem as manipula?". Sem meias palavras, Bergman deixa claras as respostas, e o mais assombroso é compreender que as suas marionetes não são bonecos inanimados, mas alegorias acerca da nossa própria natureza. Enquanto o teatro da vida segue seu curso, ninguém vê as mãos que manobram os fios. Não se conhecem suas almas, não se sabe de seus sentimentos e segredos.
No filme, acompanhamos o tormento psicológico de Peter Egermann. Um pensamento obsessivo atravessa sua alma, perturba sua sanidade, ameaça seu casamento e a integridade de sua esposa Katarina. É interessante destacar que, embora essa história não seja uma continuação de "Cenas de Um Casamento", Bergman reutilizou os mesmos nomes de um dos casais de 1973. É como se quisesse estabelecer uma ponte simbólica entre as duas narrativas, sugerindo que Katarina e Peter são variações de um mesmo arquétipo, representações das complexidades e fragilidades da vida conjugal.
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P.S.: Voltando para ressaltar a estonteante beleza "cara lavada"
de Christine Buchegger!
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