É bem interessante o contexto em torno de "O Mestre e Margarida", dirigido por Michael Lockshin. O filme é uma adaptação moderna do romance de Mikhail Bulgákov. Há uma mistura de fantasia sombria e drama, com forte crítica à repressão cultural e ao regime de Stalin. A história não segue uma linha temporal única e linear, mas três planos narrativos que se entrelaçam. O primeiro mostra o escritor conhecido como Mestre tentando concluir seu romance sobre Pôncio Pilatos, considerado subversivo e censurado pelo Conselho de Cultura em Moscou. O segundo é a própria trama bíblica, que aborda dilemas de poder, covardia e verdade com base nas figuras de Pilatos e Jesus. O terceiro plano conta a chegada do misterioso personagem Woland, uma figura demoníaca que expõe a hipocrisia e a repressão da Moscou stalinista.
Bulgárov só conseguiu publicar o livro 'O Mestre e Margarida' décadas depois de escrito, porque sofreu censura sistemática na União Soviética. Já o filme de Lockshin enfrentou ataques devido ao posicionamento do diretor contra a guerra na Ucrânia. Além disso, seu conteúdo direto e crítico foi considerado incoerente com o financiamento público que recebeu. Mesmo assim, virou sucesso de bilheteria, repetindo de certa forma o destino do livro: perseguido pelo poder, mas consagrado pelo público.
Lermontov, um dos maiores poetas russos, destacou-se por sua escrita ácida e humor ferino. Em vida, agradou e desagradou a muitos, mas suas obras atravessaram o tempo e se tornaram clássicos da literatura. Uma de suas peças, "Masquerade", ganhou uma adaptação fiel com o filme de mesmo nome, lançado em 1941 em homenagem ao centenário da morte do autor. Dirigido por Sergei Gerasimov e com Nikolay Mordvinov no papel principal, a história assemelha-se ao drama Othello, de W. Shakespeare, centrado em ciúme, suspeita de infidelidade e tragédia resultantes de desconfianças injustas.
O protagonista Yevgeny Arbenin é um homem marcado por contradições. Antes de casar-se com a jovem Nina, era um jogador astuto, mulherengo e trapaceiro, acumulando inimigos e má fama. Após o casamento, constrói uma máscara social de reclusão e serenidade, aparentando segurança e felicidade. No entanto, essa fachada logo se desfaz, revelando um caráter inseguro e ciumento.
Após um baile de máscaras oferecido pela aristocracia local, um episódio fortuito desperta nele a suspeita da infidelidade de Nina. Com o orgulho ferido e tomado de raiva e desconfiança, Arbenin passa a agir com enorme frieza e arrogância, buscando inícios da suposta deslealdade. Tentando manter intacta a honra perante a sociedade, hipocritamente Arbenin torna-se juiz e carrasco. Acreditando-se impune, é finalmente confrontado com os erros do passado e com o poder trágico da verdade presente.
Mata Hari foi uma dançarina de música javanesa que conquistou enorme sucesso na França, no início do século XX, sempre lembrada por sua beleza e pela aura de mistério que a transformaram no arquétipo da espiã sedutora. Foram justamente esses aspectos de sua personalidade que George Fitzmaurice escolheu destacar no filme "Mata Hari (1931)", estrelado pela diva Greta Garbo.
O enredo não é biográfico, embora mencione fatos da vida da personagem; também não se propõe a exaltar seus feitos, apenas utiliza o glamour que a cerca para tornar tudo envolvente. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, apresenta Mata Hari como uma espiã a serviço da Alemanha (fato jamais comprovado). A narrativa acompanha os eventos de seu último ano de vida, em especial o romance que viveu com um jovem oficial russo (Ramón Novarro), seguido pela prisão e julgamento que selaram seu destino.
A interpretação de Garbo transforma a personagem em uma espécie de deusa etérea, sensual e inatingível para a maioria dos mortais. Do alto desse Olimpo, o que realmente brilha é a personalidade magnética da atriz. Em cada cena, parece que todas as luzes convergem para ela. Vale lembrar que a entonação das falas e o estilo teatral do elenco refletem o padrão de atuação da época, sendo a obra melhor apreciada pela perspectiva e contexto do passado.
Tudo no filme emana luxo: a fotografia impecável, a maquiagem que acentua a beleza e o mistério de Garbo, as peças exuberantes escolhidas para compor seu figurino. Os ricos vestidos, em sua maioria, foram bordados com pedrarias e cristais, transmitindo poder e elegância, reforçando o ar de frieza celestial da protagonista. Coisa de celebridade mesmo!
Em 1901, Anton Tchékhov escreveu a peça 'As Três Irmãs', uma história melancólica levada ao cinema em pelo menos seis versões distintas. Este filme dirigido por Samson Samsonov é uma adaptação fiel da obra de Tchékhov. A fotografia em preto e branco traduz desde o início uma forte carga dramática e, enquanto a câmera percorre a densa floresta de bordos e bétulas, é quase possível sentir a inércia do ar, o isolamento e a clausura que cercam a vida de Olga, Masha e Irina. Seus longos vestidos negros, que varrem lentamente o chão, fazem com que se pareçam lúgubres aves da noite.
Elas têm um irmão, Andrei, que acaba se tornando mais uma fonte de tristezas e problemas ao decidir casar-se com Natasha, uma mulher fútil e controladora. No coração de cada uma daquelas vidas há segredos e sonhos, uma vontade pulsante de abandonar o local onde vivem (uma pequena província russa) e mudar-se para Moscou. O marasmo daqueles dias começa a ser quebrado com a proximidade dos militares destacados para aquela região, que passam a frequentar a casa dos irmãos. Entretanto, isso está longe de significar alegria. Os amores impossíveis, ciúmes, escolhas difíceis e perdas dolorosas que resultam desse convívio amplificam o vazio e o confinamento.
Diante das incertezas e dilemas individuais, os personagens parecem resignar-se com a apatia do presente, acreditando que o contentamento não está ao seu alcance e que seus infortúnios servirão de algum modo para melhorar o mundo das gerações futuras. Eles sabem que o tempo os tornará irrelevantes e esquecidos, assim como suas histórias e amarguras, mas terão contribuído para que a felicidade, enfim, faça parte da vida de muitos. Aqui temos um drama pesado, com uma passagem do tempo quase imperceptível, como se materializasse a letargia daquelas pobres criaturas.
Um dos mais lindos filmes de Bergman. Em "Summer Interlude", os primeiros anos da vida são retratados de maneira poética e lírica. A juventude surge luminosa, tem cor, perfume e alegria, como evocam as imagens cuidadosamente enquadradas, tais como pinturas de um dia de verão, entre flores, pássaros, campos e praias.
À primeira vista pode parecer improvável que Bergman, conhecido por seu estilo introspectivo e marcado por questões existenciais e psicológicas, tenha concebido um filme com tal atmosfera. No entanto, os elementos reflexivos também estão presentes em "Summer Interlude", já que o esplendor da juventude faz parte somente das memórias de Marie, uma bailarina clássica que guarda sua história sob uma aura de mistério.
Durante um ensaio para o balé 'Lago dos Cisnes', Marie recebe um pacote anônimo e, ao abri-lo, confronta-se com um passado de dores e perdas difíceis de superar. A melancolia de seu presente contrasta com as lembranças da juventude, revividas sob intensa carga emocional. Bergman mostra como as experiências do passado moldam a identidade e as escolhas, tema que retomaria em 'Morangos Silvestres' e em tantas outras obras.
O filme "Tsinga", dirigido por Vladimir Golovnev, é um thriller psicológico inspirado em uma antiga lenda do povo Nenet. A tradução literal do título é “escorbuto”, doença letal causada pela deficiência prolongada de vitamina C, que se manifesta por sintomas físicos e psíquicos severos, e historicamente acometia os viajantes em expedições longas a lugares isolados.
A trama acompanha uma viagem missionária ao "fim da Terra", na região do Ártico, realizada em agosto de 1991. A bordo de um pequeno barco, o padre Pyotr e seu noviço Fyodor seguem em missão de catequese cristã, levando ensinamentos bíblicos a povoados remotos e batizando-os. Parte do filme se constrói em estilo 'found footage', a partir dos registros feitos por Fyodor em sua câmera manual (olhar interno), enquanto outra parte é narrada por uma câmera onisciente (olhar externo). Essa alternância de técnicas diferencia o real do imaginado e reforça a sensação de estranheza.
O longa tem atmosfera sombria e em alguns momentos parece flertar com o terror. A locação desértica e gelada, onde o nada se funde ao horizonte em meio à névoa, intensifica o desconforto. O enredo mescla mito e realidade ao abordar crenças espirituais, pecados e valores morais, tocando em uma ferida que angustia os cristãos: pregar a palavra de Deus sem se sentir digno dela. Nos créditos finais, o filme conecta essas duas dimensões: a mítica e a histórica, e lembra que em 26 de dezembro de 1991 a União Soviética deixou de existir, sugerindo (talvez) uma metáfora: assim como o escorbuto é uma doença que destrói o corpo, as crises políticas são igualmente disfuncionais e corroem sociedades.
"Two People in One Life and a Dog", do diretor Andrey Zaitsev, é um filme raro em muitos sentidos. Raro por tratar a velhice não como peso ou sombra, mas como uma etapa natural, vivida com alegria e serenidade mesmo diante das limitações. Raro por escapar dos lugares-comuns, sem recorrer a melodramas ou à obsessão pela morte. Raro por revelar três formas de vínculo igualmente belas: um casamento que atravessa meio século, sustentado por cumplicidade e leveza, sem esconder as marcas que o tempo inevitavelmente deixa; o cuidado silencioso entre humanos e animais; e a presença de pessoas mais jovens, que se aproximam dos idosos com afeto e abertura para aprender com sua experiência.
Entre esses jovens, Polina se destaca. Suas interações com o casal Ludmila e Igor revelam a riqueza da troca entre gerações: ela encontra acolhimento e respeito, e em reconhecimento oferece frescor e ternura. Uma das cenas mais delicadas nasce justamente desse encontro, quando Polina dança embalada por Ah! Non Credea Mirarti da ópera La Sonnambula, de Bellini. Ali, música, gesto e olhar se fundem em pura poesia, criando um instante que suspende o tempo.
Como tantas obras russas, este filme não busca um final feliz para o destino das pessoas, nem tampouco faz promessas de mudança. Ele se propõe a ser uma fatia de vida, um instante preservado. O que vemos são dias que seguem, com sua mistura de lembranças, pequenas tristezas, silêncios e companheirismo para apreciar o presente, venha ele da forma que vier.
"The Aviator", do diretor russo Egor Konchalovsky, baseia-se no livro de mesmo nome escrito por Eugene Vodolazkin. É um filme que mescla ficção científica com drama psicológico para contar a história do personagem Innokenty Platonov, um homem do século passado, submetido a um experimento criogênico e reanimado nos dias atuais, após quase 100 anos de hibernação. Ao despertar, sua memória está apagada e será necessário que sua mente resgate, aos poucos, lembranças de sua vida.
A premissa é interessante e nos convida a refletir sobre a obsessão humana pela imortalidade, bem como analisar prós e contras do dia em que a ciência conseguir tal feito. A mente humana será exposta a uma constante necessidade de readaptação em todos os aspectos, o mundo 'vindouro' apresentará inúmeras transformações e as pessoas importantes e amadas não estarão mais presentes. Haverá felicidade possível?
O livro fez bastante sucesso desde o lançamento, mas o filme poderia refinar alguns pontos. As cenas ambientadas no início do século XX parecem inconsistentes e prejudicam a imersão. Há elementos de modernidade na aparência dos personagens, nas roupas, cabelos e atitudes. Também teria sido interessante aplicar a psicologia das cores para representar o passado, o que poderia imprimir um tom nostálgico à narrativa. E, por fim, a ênfase no envolvimento emocional de Innokenty e Nastya (sósia perfeita de seu antigo amor) desvia a atenção das lutas internas do personagem, que mereciam ser melhor exploradas.
"The Three of Us" é um dos longas exibidos no Festival de Cinema Russo 2026 e marca a estreia da jovem cineasta Aleksandra Sarana na direção de longas-metragens. Trata-se de uma comédia romântica no estilo road movie, que se destaca por sua leveza e frescor, sem muitos clichês comuns do gênero e confirmando que a renovação do cinema segue por um bom caminho.
Acrescento que sou uma admiradora do cinema russo, porque acho que não quer ser apenas entretenimento, e sim uma arte que se respeita e se leva a sério sem tornar-se monótona e nunca descuidando da qualidade, especialmente quanto à estética e narrativa.
Neste filme acompanhamos Dasha (Irina Starshenbaum), recém saída de um relacionamento e em busca de novos rumos para sua vida. Prestes a fazer uma viagem de trabalho, ela conhece Sergey ( Sergey Kuznetsov) em circunstâncias um tanto constrangedoras que se transformam em ponto de virada. Ao percorrerem pequenas cidades e vilarejos, eles descobrem também novas perspectivas sobre si mesmos e sobre o amor.
Filme da diretora Stasya Tolstaya, baseado no livro Felicidade Conjugal, de Lev Tolstoy, com preservação dos personagens e da essência da obra. Ao mesmo tempo, Stasya inseriu na trama a sua liberdade criativa, resultando numa adaptação que dialoga com o clássico mas tem sua originalidade.
O drama vivido pelo casal Masha e Sergey Mikhailovich continua presente em toda sua intensidade, num arco doloroso que vai da paixão ao desencanto e culmina na resignação. O figurino e a ambientação são cuidadosamente trabalhados para remeter os acontecimentos ao século XIX, contudo algumas cenas parecem estranhas e deslocadas, retratando tempos mais atuais, quase como se a cineasta quisesse nos mostrar que muitas daquelas situações poderiam estar acontecendo em qualquer época.
A felicidade conjugal, sob o olhar de Tolstoy, é como a varinha verde que Masha buscava na infância: uma ilusão inocente. No mundo adulto não há magia, apenas a realidade frequentemente espinhosa.
"Lermontov" é um drama intimista que se propõe a retratar o último dia de vida do poeta russo Mikhail Yurievich Lermontov. Baseado em fatos reais, o filme mergulha na tensão crescente entre o escritor e seu antigo amigo Nikolai Martynov, culminando no duelo fatal que marcou a história da literatura russa. De início, o ritmo lento e contemplativo pode incomodar, mas é justamente nesse compasso pausado que a obra se torna marcante, permitindo que os silêncios e os vazios carreguem o peso da tragédia iminente.
A fotografia é linda, com paisagens rurais da aldeia de Pyatigorsk, captadas com delicadeza, revelando uma serenidade que contrasta com o conflito entre os protagonistas. A amizade já desgastada pelas constantes provocações de Lermontov ganha contornos definitivos quando Martynov, ofendido em sua honra, decide desafiá-lo. O filme não dramatiza excessivamente esse embate, mas deixa que a tensão se acumule em cada quadro, reforçando a atmosfera de inevitabilidade.
Ao retratar a rotina pacata e quase banal do poeta, a obra transmite uma sensação de paz diante da tragédia. A câmera estática, que se detém em portas, paredes e paisagens, por vezes nos deixa apenas ouvir os sons ao redor e imaginar o que não se vê. Essa escolha estética reforça a delicadeza e a elegância do filme. "Lermontov" é uma experiência sutil e contemplativa, que recompensa com beleza e profundidade.
"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.
Em "The Scar" ("A Cicatriz"), Krzysztof Kieślowski se inspira no contexto político da Polônia da década de 60, mostrando como grandes decisões eram tomadas pelo governo sem ouvir a população. A construção de uma fábrica química na cidade de Olecko é apresentada como símbolo desse autoritarismo: um projeto que prometia progresso e empregos, mas que ignorava os impactos sociais e ambientais, desalojando famílias e devastando a floresta.
A metáfora da cicatriz serve tanto ao personagem central, Bednarz, que carrega uma questão pessoal de vinte anos atrás, como também à população de Olecko, marcada pela perda de identidade e pertencimento. As cenas em que moradores resistem em deixar suas casas são especialmente fortes, revelando o choque entre a promessa de modernização e a dor da ruptura comunitária.
Um dos diálogos mais importantes é a conversa entre Bednarz e um repórter. O repórter ressalta que, antes da fábrica, a cidade estava economicamente estagnada, mas havia um senso de pertencimento local. Com a industrialização, esse vínculo se dissolveu, restando apenas uma massa avulsa de trabalhadores. Mas Bednarz lhe diz que, na verdade, o povo deveria saber que tudo pertence a todos: as ruas, as casas, o trabalho. Assim, Kieślowski propõe uma reflexão sobre coletividade e consciência social, uma ideia que nos escapa até hoje.
Impressiona a profundidade com que Kieślowski aborda temas controversos sem cair em proselitismo, pregações ou imposição de dogmas. Em "Blind Chance", isso fica evidente. O enredo é complexo e, de início, me deixou confusa até compreender que a história detalharia três possibilidades de destino para o protagonista (Witek), desencadeadas por um mesmo ponto de interseção: a partida de um trem. Cada uma das alternativas apresentava rumos completamente diferentes, inclusive no campo da espiritualidade, dos ideais políticos e dos relacionamentos.
Kieślowski parece refutar a hipótese de que temos um destino previamente traçado. Ao contrário, o filme mostra como ficamos sujeitos ao acaso, a eventos fortuitos que, independentemente de nossas escolhas, podem mudar radicalmente nossas vidas. Esse entendimento restringe a ideia de livre-arbítrio, propondo em seu lugar uma liberdade relativa, onde é possível refazer a rota em cada contexto ou simplesmente seguir o fluxo natural dos acontecimentos.
O ponto de interseção entre os três destinos representa o acaso. Pegar ou não pegar o trem? O resultado não dependia da vontade do personagem, assim como ele também não escolheu as pessoas que encontrou pelo caminho. O que então o guiou e fez com que se tornasse permeável às influências externas e às situações que se apresentavam? Provavelmente suas convicções e sua abertura emocional e intelectual. Assim, Kieślowski sugere que o entrelaçamento de todos esses fatores traça nosso destino: o acaso oferece os caminhos, as pessoas nos atraem para um deles e nossa subjetividade decide se os aceita ou não.
Este longa é a versão expandida do episódio "VI de Dekalog" (“Não pecarás contra a castidade”). Apesar do título, não é uma história de amor, mas de paixão e obsessão. O amor verdadeiro é uma construção, uma escolha consistente e duradoura; já aqui vemos apenas o ímpeto de uma primeira paixão.
O jovem Tomek, com 19 anos, passa a observar sua vizinha Magda através de um telescópio. Ela é uma mulher mais velha, independente, sensual e rapidamente se torna objeto de sua fascinação. O voyeurismo inicial se transforma em obsessão e Tomek acredita estar apaixonado. Seu desejo intenso domina seus dias e noites, levando-o a buscar aproximações cada vez mais ousadas.
Magda, marcada por experiências que a fizeram desacreditar do amor, reage com zombaria. Para ela tudo se resume ao sexo, e por isso seduz o rapaz sem perceber o peso que essa experiência teria em sua vida. O impacto é devastador: Tomek, vivendo a intensidade de sua primeira paixão e sentindo-se humilhado, é levado a uma atitude drástica e dramática.
O filme deixa claro que Magda não compreendeu a responsabilidade de ser o primeiro amor de alguém. Esse papel exige tato, empatia e delicadeza, pois as marcas deixadas podem perdurar para sempre, influenciando todos os relacionamentos futuros. Kieślowski mostra, com sensibilidade, como a falta de cuidado com os sentimentos do outro pode transformar paixão em dor irreparável.
Este longa é uma versão expandida do episódio "V de Dekalog" (“Não matarás”). Nele, Kieślowski amplia o olhar sobre o jovem Jacek Lazar, permitindo-nos acompanhar seus passos antes do crime e compreender algumas de suas motivações. Também conhecemos um pouco mais sobre a vítima (o taxista Waldemar), o que reforça a ideia de que em todo ser humano há bondade e maldade, embora nada disso torne um assassinato justificável ou menos hediondo.
Em "Dekalog V", o foco maior foi dado ao defensor Piotr Balicki, tornando conhecidas sua forma coerente de pensar, agir e também suas emoções. Assim, algumas cenas do julgamento de Jacek foram suprimidas e isso acabou reduzindo parte do contexto emocional que envolve sua condenação. Já no longa, esse aspecto ganhou mais espaço, detalhando a execução da pena e deixando a experiência ainda mais intensa e dolorosa.
Neste filme, um dos elementos visuais marcantes é a fotografia: sombria, carregada de tons cinza e amarelados, pesada e dramática. O uso apropriado de luz e sombra funcionou como um recurso narrativo poderoso, transmitindo a atmosfera sufocante da história e a brutalidade dos acontecimentos.
Na época em que "Dekalog" foi lançado (1988-1989), a pena de morte ainda era aplicada na Polônia. A última execução oficial ocorreu em abril de 1988. Então, ela ainda está presente na narrativa e expõe a frieza e indiferença do Estado ao punir com ato idêntico ao que condena. Kieślowski nos leva a refletir se a morte autorizada pela lei não é tão errada e cruel quanto o crime que pretende punir.
No gênero suspense psicológico, acredito que os elementos decisivos para um bom filme sejam a trama verossímil e qualidade do elenco. "The Invisible Guest" (título original "Contratiempo") possui tais atributos. Com uma narrativa engenhosa e cheia de camadas, os personagens são movimentados ao longo da história como peças em um tabuleiro de xadrez.
O ponto de partida é um acidente de carro em uma estrada isolada, em circunstâncias que jamais poderiam vir à tona para os envolvidos. Porém, a situação foge ao controle e o caso acaba chegando aos tribunais. Uma advogada, especializada na construção de testemunhos, é chamada para auxiliar no processo. Dispondo de apenas 3 horas, tenta articular juntamente com o réu, uma tese de defesa impecável para livrá-lo da prisão.
São então construídas várias versões para explicar e reconfigurar o evento, alternando autores e vítimas conforme novos prismas se delineiam. Essa multiplicidade de perspectivas mantém o clima de dúvida e tensão em alta. E para quem pretende analisar cada tese apresentada, adianto que em algumas delas há falhas que colocam personagens em situações meio impossíveis. Apesar disso, o deslize não compromete a experiência, já que a atmosfera envolvente do filme direciona para um desfecho inesperado.
Aos fãs do gênero, e eu me incluo, trata-se de uma obra instigante, capaz de prender a atenção até o último minuto.
"Peppermint Candy" revela seu desfecho logo nos primeiros minutos. Embora os motivos ainda não sejam conhecidos, as cenas iniciais despertam sensação de constrangimento e estranheza que permanece durante quase todo o filme. Lee Chang-dong adota um estilo direto e realista de retratar a vida, porém seus personagens são introspectivos e silenciosos, sinalizando seus dilemas mais íntimos apenas por meio de atitudes.
No caso do personagem Yeong-ho (Sul Kyung-Gu), nada parece fazer sentido e, a cada nova informação que se tem sobre ele, qualquer empatia inicial se dissolve em meio à revolta e à raiva que seus atos são capazes de despertar. Sempre imprevisível e violento contra todos ao redor, ele sugere ser alguém que há muito perdeu a sanidade.
O filme constrói sua história lentamente, numa viagem de volta no tempo, como se estivéssemos em um trem rumo ao passado. A cada parada, uma peça se junta ao mosaico daquela vida transtornada. Somente após a última estação desse trem metafórico fica possível juntar todas as frações e compreender integralmente a loucura e o ódio que Yeong-ho preserva dentro de si. "Peppermint Candy" é um drama trágico, de sabor amargo, mas que também carrega uma inexplicável sensibilidade humana, algo que Lee Chang-dong consegue transmitir com maestria.
Este filme me despertou tantas questões que acabei pesquisando mais sobre ele. Primeiro, o estranho título em inglês: "The Cannibal Man". Além da ausência dessa prática na trama, há uma cena que contradiz completamente a ideia de canibalismo. Descobri que o título foi escolhido como estratégia de marketing para atrair o público internacional.
Também percebi que existem duas versões disponíveis: a espanhola e a internacional. Na segunda foram retiradas cenas que mencionam o ocorrido com a mãe do personagem Marcos (Vicente Parra) e explicações sobre a máquina trituradora da empresa alimentícia em que ele trabalha. Além disso, Eloy de La Iglesia precisou realizar diversos cortes e adaptações de roteiro para que o filme passasse pela censura do regime franquista. Essa Censura exigiu a retirada de cerca de 62 cenas para suavizar momentos de violência e sexualidade, além de estipular o final do filme, tornando-o anticlimático.
"La Semana del Asesino" (título original) é um filme memorável, um suspense psicológico em que assassinatos não são cometidos por maldade ou psicopatia, mas por desespero. No período de uma semana, acompanhamos a degradação física e emocional de um homem comum que, equivocadamente, acredita precisar ocultar um crime cometendo outros.
"El Diputado" é um filme que se diferencia um pouco de outras obras de Eloy de La Iglesia. Temos aqui um drama íntimo e, ao mesmo tempo político, vivido numa Espanha que enfrentava duras lutas e fervores sociais, face a transição de uma ditadura que durou mais de 30 anos e uma democracia nascente, mas que ainda convivia com os fantasmas da repressão.
Eloy expõe sem pudor as contradições de um político que tenta conciliar prestígio público e vida secreta. O resultado é um filme que denuncia a hipocrisia social e a violência contra aqueles que ousam viver fora das normas. Mais do que autobiográfico, o filme é um testemunho de uma época e uma reflexão sobre a liberdade que ainda hoje é negada a alguns.
Ainda não tinha assistido aos filmes de Eloy de La Iglesia, embora soubesse que hoje é considerado um cineasta polêmico e influente, documentarista da marginalidade urbana e dos problemas sociais da Espanha pós-Franco. Suas obras são realistas, de tom dramático e sombrio, mas ele soube usar o humor irônico como recurso pontual, capaz de amenizar situações graves ou absurdas e, ao mesmo tempo, intensificar sua crítica social.
"Miedo a Salir de Noche" reúne todos esses elementos. É uma comédia dramática, ambientada em Madri no final dos anos 70, período de transição democrática, quando a violência nas ruas crescia e afetava o cotidiano. A imprensa falada e escrita trazia diariamente manchetes alarmantes, instalando o terror na população, que passou a cercar-se de aparatos de segurança e enclausurar-se em casa com medo de sair à noite.
Toda essa tensão, entretanto, é quebrada por um personagem fascinante: o Sr. Cosme (Antonio Ferrandis), um viúvo idoso que insiste em viver normalmente, sem deixar o medo dominar sua rotina. Através dele, o diretor sugere que o excesso de medidas de proteção também pode gerar novos riscos, que manter a população assustada e isolada serve aos interesses de quem deseja manipular e conservar o poder, e que o perigo é parte inevitável da vida, dentro ou fora de casa. Como diria o Sr. Cosme:
- "Paco, não lhe parece mais perigoso o presidente do seu banco do que a maioria desses ladrõezinhos?"
"La estanquera de Vallecas", dirigido por Eloy de la Iglesia, é uma ótima comédia que não se resume ao humor tolo. Baseado na peça teatral de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma um assalto frustrado a uma tabacaria em Vallecas, em um retrato crítico da sociedade espanhola dos anos 80. A ousadia do diretor está em misturar comicidade com denúncia social, expondo as fragilidades das instituições e a desesperança de uma população marcada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo avanço das drogas.
A narrativa mostra como políticos se aproveitam de escândalos midiáticos para ganhar notoriedade em época de eleição, enquanto a polícia, ineficiente para resolver até um caso simples como o assalto a uma tabacaria, não hesita em recorrer à violência contra os moradores do bairro. Vallecas aparece como um distrito revoltado e descrente, onde a solidariedade popular surge como resposta à ausência de confiança nas autoridades. Nesse cenário, os bandidos não são retratados como vilões perversos, mas como ladrões inexperientes, vítimas da fome e da falta de oportunidades, roubando para sobreviver.
Os assaltantes fazem duas reféns: a dona da tabacaria e sua jovem sobrinha. Desse convívio forçado aflora a humanidade escondida por trás de cada personagem. Entre diálogos tensos e situações inesperadas, surgem vulnerabilidades, afetos e até momentos de ternura, mostrando que, em meio ao caos, há espaço para solidariedade e compreensão. Eloy de la Iglesia, com sua coragem artística, transforma uma comédia em um filme que denuncia desigualdades, critica a política e a repressão policial, e ao mesmo tempo celebra a capacidade humana de encontrar laços mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
"Greenland 2: Migration" é um filme sequência, mas não é necessário ter visto "Greenland" para acompanhar a história. O enredo segue fielmente a fórmula típica dos filmes americanos sobre catástrofes globais: a Terra em colapso, famílias tentando sobreviver e dilemas morais em meio ao caos. Tudo bastante previsível, repetindo elementos já conhecidos do gênero, como jornadas perigosas, perdas emocionais e a busca por um lugar seguro. Sem grandes surpresas para quem já está acostumado com esse tipo de filme.
O filme "Paixão e Sombras", de Walter Hugo Khouri, foi rodado nos estúdios da antiga Vera Cruz, já em ruínas, o que por si só lhe dá uma atmosfera melancólica e simbólica. É um trabalho obscuro e autoral, marcado por introspecção e pela sensação de fim de ciclo, tanto do cinema brasileiro daquela época quanto do próprio percurso criativo do diretor. Nesta obra há o uso da metalinguagem, pois ela conta a história de um diretor de cinema que está em processo de realização de seu novo filme.
A casa vazia escolhida como cenário desse filme está sempre inacabada e escura, parecendo refletir o estado interior do personagem central Marcelo (Fernando Amaral), um diretor de cinema em crise, corroído por ausências e pela fragilidade de seus próprios alicerces. Ele questiona constantemente o valor de seu trabalho e vive imerso em sombras desde que sua musa e estrela principal, Lena (Lilian Lemmertz), o abandonou.
Em contraponto, sua assistente Ana (Monique Lafond) está sempre trazendo-o de volta à realidade, lembrando-o de que há outras razões para continuar e de que ele é capaz de realizar filmes de grande qualidade. É nesse embate interior entre sombra e luz, entre o vazio e a possibilidade, que "Paixão e Sombras" se revela não apenas como uma obra de ficção, mas como um retrato íntimo das inquietações de Khouri diante do cinema e da vida.
O Mestre e Margarida
3.1 3É bem interessante o contexto em torno de "O Mestre e Margarida", dirigido por Michael Lockshin. O filme é uma adaptação moderna do romance de Mikhail Bulgákov. Há uma mistura de fantasia sombria e drama, com forte crítica à repressão cultural e ao regime de Stalin. A história não segue uma linha temporal única e linear, mas três planos narrativos que se entrelaçam. O primeiro mostra o escritor conhecido como Mestre tentando concluir seu romance sobre Pôncio Pilatos, considerado subversivo e censurado pelo Conselho de Cultura em Moscou. O segundo é a própria trama bíblica, que aborda dilemas de poder, covardia e verdade com base nas figuras de Pilatos e Jesus. O terceiro plano conta a chegada do misterioso personagem Woland, uma figura demoníaca que expõe a hipocrisia e a repressão da Moscou stalinista.
Bulgárov só conseguiu publicar o livro 'O Mestre e Margarida' décadas depois de escrito, porque sofreu censura sistemática na União Soviética. Já o filme de Lockshin enfrentou ataques devido ao posicionamento do diretor contra a guerra na Ucrânia. Além disso, seu conteúdo direto e crítico foi considerado incoerente com o financiamento público que recebeu. Mesmo assim, virou sucesso de bilheteria, repetindo de certa forma o destino do livro: perseguido pelo poder, mas consagrado pelo público.
Baile de Máscaras
3.5 1Lermontov, um dos maiores poetas russos, destacou-se por sua escrita ácida e humor ferino. Em vida, agradou e desagradou a muitos, mas suas obras atravessaram o tempo e se tornaram clássicos da literatura. Uma de suas peças, "Masquerade", ganhou uma adaptação fiel com o filme de mesmo nome, lançado em 1941 em homenagem ao centenário da morte do autor. Dirigido por Sergei Gerasimov e com Nikolay Mordvinov no papel principal, a história assemelha-se ao drama Othello, de W. Shakespeare, centrado em ciúme, suspeita de infidelidade e tragédia resultantes de desconfianças injustas.
O protagonista Yevgeny Arbenin é um homem marcado por contradições. Antes de casar-se com a jovem Nina, era um jogador astuto, mulherengo e trapaceiro, acumulando inimigos e má fama. Após o casamento, constrói uma máscara social de reclusão e serenidade, aparentando segurança e felicidade. No entanto, essa fachada logo se desfaz, revelando um caráter inseguro e ciumento.
Após um baile de máscaras oferecido pela aristocracia local, um episódio fortuito desperta nele a suspeita da infidelidade de Nina. Com o orgulho ferido e tomado de raiva e desconfiança, Arbenin passa a agir com enorme frieza e arrogância, buscando inícios da suposta deslealdade. Tentando manter intacta a honra perante a sociedade, hipocritamente Arbenin torna-se juiz e carrasco. Acreditando-se impune, é finalmente confrontado com os erros do passado e com o poder trágico da verdade presente.
Mata Hari
3.8 40 Assista AgoraMata Hari foi uma dançarina de música javanesa que conquistou enorme sucesso na França, no início do século XX, sempre lembrada por sua beleza e pela aura de mistério que a transformaram no arquétipo da espiã sedutora. Foram justamente esses aspectos de sua personalidade que George Fitzmaurice escolheu destacar no filme "Mata Hari (1931)", estrelado pela diva Greta Garbo.
O enredo não é biográfico, embora mencione fatos da vida da personagem; também não se propõe a exaltar seus feitos, apenas utiliza o glamour que a cerca para tornar tudo envolvente. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, apresenta Mata Hari como uma espiã a serviço da Alemanha (fato jamais comprovado). A narrativa acompanha os eventos de seu último ano de vida, em especial o romance que viveu com um jovem oficial russo (Ramón Novarro), seguido pela prisão e julgamento que selaram seu destino.
A interpretação de Garbo transforma a personagem em uma espécie de deusa etérea, sensual e inatingível para a maioria dos mortais. Do alto desse Olimpo, o que realmente brilha é a personalidade magnética da atriz. Em cada cena, parece que todas as luzes convergem para ela. Vale lembrar que a entonação das falas e o estilo teatral do elenco refletem o padrão de atuação da época, sendo a obra melhor apreciada pela perspectiva e contexto do passado.
Tudo no filme emana luxo: a fotografia impecável, a maquiagem que acentua a beleza e o mistério de Garbo, as peças exuberantes escolhidas para compor seu figurino. Os ricos vestidos, em sua maioria, foram bordados com pedrarias e cristais, transmitindo poder e elegância, reforçando o ar de frieza celestial da protagonista.
Coisa de celebridade mesmo!
As Três Irmãs
1Em 1901, Anton Tchékhov escreveu a peça 'As Três Irmãs', uma história melancólica levada ao cinema em pelo menos seis versões distintas. Este filme dirigido por Samson Samsonov é uma adaptação fiel da obra de Tchékhov. A fotografia em preto e branco traduz desde o início uma forte carga dramática e, enquanto a câmera percorre a densa floresta de bordos e bétulas, é quase possível sentir a inércia do ar, o isolamento e a clausura que cercam a vida de Olga, Masha e Irina. Seus longos vestidos negros, que varrem lentamente o chão, fazem com que se pareçam lúgubres aves da noite.
Elas têm um irmão, Andrei, que acaba se tornando mais uma fonte de tristezas e problemas ao decidir casar-se com Natasha, uma mulher fútil e controladora. No coração de cada uma daquelas vidas há segredos e sonhos, uma vontade pulsante de abandonar o local onde vivem (uma pequena província russa) e mudar-se para Moscou. O marasmo daqueles dias começa a ser quebrado com a proximidade dos militares destacados para aquela região, que passam a frequentar a casa dos irmãos. Entretanto, isso está longe de significar alegria. Os amores impossíveis, ciúmes, escolhas difíceis e perdas dolorosas que resultam desse convívio amplificam o vazio e o confinamento.
Diante das incertezas e dilemas individuais, os personagens parecem resignar-se com a apatia do presente, acreditando que o contentamento não está ao seu alcance e que seus infortúnios servirão de algum modo para melhorar o mundo das gerações futuras. Eles sabem que o tempo os tornará irrelevantes e esquecidos, assim como suas histórias e amarguras, mas terão contribuído para que a felicidade, enfim, faça parte da vida de muitos. Aqui temos um drama pesado, com uma passagem do tempo quase imperceptível, como se materializasse a letargia daquelas pobres criaturas.
Juventude
4.2 81 Assista AgoraUm dos mais lindos filmes de Bergman. Em "Summer Interlude", os primeiros anos da vida são retratados de maneira poética e lírica. A juventude surge luminosa, tem cor, perfume e alegria, como evocam as imagens cuidadosamente enquadradas, tais como pinturas de um dia de verão, entre flores, pássaros, campos e praias.
À primeira vista pode parecer improvável que Bergman, conhecido por seu estilo introspectivo e marcado por questões existenciais e psicológicas, tenha concebido um filme com tal atmosfera. No entanto, os elementos reflexivos também estão presentes em "Summer Interlude", já que o esplendor da juventude faz parte somente das memórias de Marie, uma bailarina clássica que guarda sua história sob uma aura de mistério.
Durante um ensaio para o balé 'Lago dos Cisnes', Marie recebe um pacote anônimo e, ao abri-lo, confronta-se com um passado de dores e perdas difíceis de superar. A melancolia de seu presente contrasta com as lembranças da juventude, revividas sob intensa carga emocional. Bergman mostra como as experiências do passado moldam a identidade e as escolhas, tema que retomaria em 'Morangos Silvestres' e em tantas outras obras.
Tsinga
2.8 1O filme "Tsinga", dirigido por Vladimir Golovnev, é um thriller psicológico inspirado em uma antiga lenda do povo Nenet. A tradução literal do título é “escorbuto”, doença letal causada pela deficiência prolongada de vitamina C, que se manifesta por sintomas físicos e psíquicos severos, e historicamente acometia os viajantes em expedições longas a lugares isolados.
A trama acompanha uma viagem missionária ao "fim da Terra", na região do Ártico, realizada em agosto de 1991. A bordo de um pequeno barco, o padre Pyotr e seu noviço Fyodor seguem em missão de catequese cristã, levando ensinamentos bíblicos a povoados remotos e batizando-os. Parte do filme se constrói em estilo 'found footage', a partir dos registros feitos por Fyodor em sua câmera manual (olhar interno), enquanto outra parte é narrada por uma câmera onisciente (olhar externo). Essa alternância de técnicas diferencia o real do imaginado e reforça a sensação de estranheza.
O longa tem atmosfera sombria e em alguns momentos parece flertar com o terror. A locação desértica e gelada, onde o nada se funde ao horizonte em meio à névoa, intensifica o desconforto. O enredo mescla mito e realidade ao abordar crenças espirituais, pecados e valores morais, tocando em uma ferida que angustia os cristãos: pregar a palavra de Deus sem se sentir digno dela. Nos créditos finais, o filme conecta essas duas dimensões: a mítica e a histórica, e lembra que em 26 de dezembro de 1991 a União Soviética deixou de existir, sugerindo (talvez) uma metáfora: assim como o escorbuto é uma doença que destrói o corpo, as crises políticas são igualmente disfuncionais e corroem sociedades.
Duas Pessoas e Um Cão
3.7 2"Two People in One Life and a Dog", do diretor Andrey Zaitsev, é um filme raro em muitos sentidos. Raro por tratar a velhice não como peso ou sombra, mas como uma etapa natural, vivida com alegria e serenidade mesmo diante das limitações. Raro por escapar dos lugares-comuns, sem recorrer a melodramas ou à obsessão pela morte. Raro por revelar três formas de vínculo igualmente belas: um casamento que atravessa meio século, sustentado por cumplicidade e leveza, sem esconder as marcas que o tempo inevitavelmente deixa; o cuidado silencioso entre humanos e animais; e a presença de pessoas mais jovens, que se aproximam dos idosos com afeto e abertura para aprender com sua experiência.
Entre esses jovens, Polina se destaca. Suas interações com o casal Ludmila e Igor revelam a riqueza da troca entre gerações: ela encontra acolhimento e respeito, e em reconhecimento oferece frescor e ternura. Uma das cenas mais delicadas nasce justamente desse encontro, quando Polina dança embalada por Ah! Non Credea Mirarti da ópera La Sonnambula, de Bellini. Ali, música, gesto e olhar se fundem em pura poesia, criando um instante que suspende o tempo.
Como tantas obras russas, este filme não busca um final feliz para o destino das pessoas, nem tampouco faz promessas de mudança. Ele se propõe a ser uma fatia de vida, um instante preservado. O que vemos são dias que seguem, com sua mistura de lembranças, pequenas tristezas, silêncios e companheirismo para apreciar o presente, venha ele da forma que vier.
O Aviador
3.0 1"The Aviator", do diretor russo Egor Konchalovsky, baseia-se no livro de mesmo nome escrito por Eugene Vodolazkin. É um filme que mescla ficção científica com drama psicológico para contar a história do personagem Innokenty Platonov, um homem do século passado, submetido a um experimento criogênico e reanimado nos dias atuais, após quase 100 anos de hibernação. Ao despertar, sua memória está apagada e será necessário que sua mente resgate, aos poucos, lembranças de sua vida.
A premissa é interessante e nos convida a refletir sobre a obsessão humana pela imortalidade, bem como analisar prós e contras do dia em que a ciência conseguir tal feito. A mente humana será exposta a uma constante necessidade de readaptação em todos os aspectos, o mundo 'vindouro' apresentará inúmeras transformações e as pessoas importantes e amadas não estarão mais presentes. Haverá felicidade possível?
O livro fez bastante sucesso desde o lançamento, mas o filme poderia refinar alguns pontos. As cenas ambientadas no início do século XX parecem inconsistentes e prejudicam a imersão. Há elementos de modernidade na aparência dos personagens, nas roupas, cabelos e atitudes. Também teria sido interessante aplicar a psicologia das cores para representar o passado, o que poderia imprimir um tom nostálgico à narrativa. E, por fim, a ênfase no envolvimento emocional de Innokenty e Nastya (sósia perfeita de seu antigo amor) desvia a atenção das lutas internas do personagem, que mereciam ser melhor exploradas.
Nós Três
3.2 1"The Three of Us" é um dos longas exibidos no Festival de Cinema Russo 2026 e marca a estreia da jovem cineasta Aleksandra Sarana na direção de longas-metragens. Trata-se de uma comédia romântica no estilo road movie, que se destaca por sua leveza e frescor, sem muitos clichês comuns do gênero e confirmando que a renovação do cinema segue por um bom caminho.
Acrescento que sou uma admiradora do cinema russo, porque acho que não quer ser apenas entretenimento, e sim uma arte que se respeita e se leva a sério sem tornar-se monótona e nunca descuidando da qualidade, especialmente quanto à estética e narrativa.
Neste filme acompanhamos Dasha (Irina Starshenbaum), recém saída de um relacionamento e em busca de novos rumos para sua vida. Prestes a fazer uma viagem de trabalho, ela conhece Sergey ( Sergey Kuznetsov) em circunstâncias um tanto constrangedoras que se transformam em ponto de virada. Ao percorrerem pequenas cidades e vilarejos, eles descobrem também novas perspectivas sobre si mesmos e sobre o amor.
Felicidade Conjugal
3.0 1Filme da diretora Stasya Tolstaya, baseado no livro Felicidade Conjugal, de Lev Tolstoy, com preservação dos personagens e da essência da obra. Ao mesmo tempo, Stasya inseriu na trama a sua liberdade criativa, resultando numa adaptação que dialoga com o clássico mas tem sua originalidade.
O drama vivido pelo casal Masha e Sergey Mikhailovich continua presente em toda sua intensidade, num arco doloroso que vai da paixão ao desencanto e culmina na resignação. O figurino e a ambientação são cuidadosamente trabalhados para remeter os acontecimentos ao século XIX, contudo algumas cenas parecem estranhas e deslocadas, retratando tempos mais atuais, quase como se a cineasta quisesse nos mostrar que muitas daquelas situações poderiam estar acontecendo em qualquer época.
A felicidade conjugal, sob o olhar de Tolstoy, é como a varinha verde que Masha buscava na infância: uma ilusão inocente. No mundo adulto não há magia, apenas a realidade frequentemente espinhosa.
Lermontov
3.5 1"Lermontov" é um drama intimista que se propõe a retratar o último dia de vida do poeta russo Mikhail Yurievich Lermontov. Baseado em fatos reais, o filme mergulha na tensão crescente entre o escritor e seu antigo amigo Nikolai Martynov, culminando no duelo fatal que marcou a história da literatura russa. De início, o ritmo lento e contemplativo pode incomodar, mas é justamente nesse compasso pausado que a obra se torna marcante, permitindo que os silêncios e os vazios carreguem o peso da tragédia iminente.
A fotografia é linda, com paisagens rurais da aldeia de Pyatigorsk, captadas com delicadeza, revelando uma serenidade que contrasta com o conflito entre os protagonistas. A amizade já desgastada pelas constantes provocações de Lermontov ganha contornos definitivos quando Martynov, ofendido em sua honra, decide desafiá-lo. O filme não dramatiza excessivamente esse embate, mas deixa que a tensão se acumule em cada quadro, reforçando a atmosfera de inevitabilidade.
Ao retratar a rotina pacata e quase banal do poeta, a obra transmite uma sensação de paz diante da tragédia. A câmera estática, que se detém em portas, paredes e paisagens, por vezes nos deixa apenas ouvir os sons ao redor e imaginar o que não se vê. Essa escolha estética reforça a delicadeza e a elegância do filme. "Lermontov" é uma experiência sutil e contemplativa, que recompensa com beleza e profundidade.
Priest of Darkness
3.5 2"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.
A Cicatriz
3.4 9 Assista AgoraEm "The Scar" ("A Cicatriz"), Krzysztof Kieślowski se inspira no contexto político da Polônia da década de 60, mostrando como grandes decisões eram tomadas pelo governo sem ouvir a população. A construção de uma fábrica química na cidade de Olecko é apresentada como símbolo desse autoritarismo: um projeto que prometia progresso e empregos, mas que ignorava os impactos sociais e ambientais, desalojando famílias e devastando a floresta.
A metáfora da cicatriz serve tanto ao personagem central, Bednarz, que carrega uma questão pessoal de vinte anos atrás, como também à população de Olecko, marcada pela perda de identidade e pertencimento. As cenas em que moradores resistem em deixar suas casas são especialmente fortes, revelando o choque entre a promessa de modernização e a dor da ruptura comunitária.
Um dos diálogos mais importantes é a conversa entre Bednarz e um repórter. O repórter ressalta que, antes da fábrica, a cidade estava economicamente estagnada, mas havia um senso de pertencimento local. Com a industrialização, esse vínculo se dissolveu, restando apenas uma massa avulsa de trabalhadores. Mas Bednarz lhe diz que, na verdade, o povo deveria saber que tudo pertence a todos: as ruas, as casas, o trabalho. Assim, Kieślowski propõe uma reflexão sobre coletividade e consciência social, uma ideia que nos escapa até hoje.
Sorte Cega
4.1 65 Assista AgoraImpressiona a profundidade com que Kieślowski aborda temas controversos sem cair em proselitismo, pregações ou imposição de dogmas. Em "Blind Chance", isso fica evidente. O enredo é complexo e, de início, me deixou confusa até compreender que a história detalharia três possibilidades de destino para o protagonista (Witek), desencadeadas por um mesmo ponto de interseção: a partida de um trem. Cada uma das alternativas apresentava rumos completamente diferentes, inclusive no campo da espiritualidade, dos ideais políticos e dos relacionamentos.
Kieślowski parece refutar a hipótese de que temos um destino previamente traçado. Ao contrário, o filme mostra como ficamos sujeitos ao acaso, a eventos fortuitos que, independentemente de nossas escolhas, podem mudar radicalmente nossas vidas. Esse entendimento restringe a ideia de livre-arbítrio, propondo em seu lugar uma liberdade relativa, onde é possível refazer a rota em cada contexto ou simplesmente seguir o fluxo natural dos acontecimentos.
O ponto de interseção entre os três destinos representa o acaso. Pegar ou não pegar o trem? O resultado não dependia da vontade do personagem, assim como ele também não escolheu as pessoas que encontrou pelo caminho. O que então o guiou e fez com que se tornasse permeável às influências externas e às situações que se apresentavam? Provavelmente suas convicções e sua abertura emocional e intelectual. Assim, Kieślowski sugere que o entrelaçamento de todos esses fatores traça nosso destino: o acaso oferece os caminhos, as pessoas nos atraem para um deles e nossa subjetividade decide se os aceita ou não.
Não Amarás
4.2 300 Assista AgoraEste longa é a versão expandida do episódio "VI de Dekalog" (“Não pecarás contra a castidade”). Apesar do título, não é uma história de amor, mas de paixão e obsessão. O amor verdadeiro é uma construção, uma escolha consistente e duradoura; já aqui vemos apenas o ímpeto de uma primeira paixão.
O jovem Tomek, com 19 anos, passa a observar sua vizinha Magda através de um telescópio. Ela é uma mulher mais velha, independente, sensual e rapidamente se torna objeto de sua fascinação. O voyeurismo inicial se transforma em obsessão e Tomek acredita estar apaixonado. Seu desejo intenso domina seus dias e noites, levando-o a buscar aproximações cada vez mais ousadas.
Magda, marcada por experiências que a fizeram desacreditar do amor, reage com zombaria. Para ela tudo se resume ao sexo, e por isso seduz o rapaz sem perceber o peso que essa experiência teria em sua vida. O impacto é devastador: Tomek, vivendo a intensidade de sua primeira paixão e sentindo-se humilhado, é levado a uma atitude drástica e dramática.
O filme deixa claro que Magda não compreendeu a responsabilidade de ser o primeiro amor de alguém. Esse papel exige tato, empatia e delicadeza, pois as marcas deixadas podem perdurar para sempre, influenciando todos os relacionamentos futuros. Kieślowski mostra, com sensibilidade, como a falta de cuidado com os sentimentos do outro pode transformar paixão em dor irreparável.
Não Matarás
4.1 135Este longa é uma versão expandida do episódio "V de Dekalog" (“Não matarás”). Nele, Kieślowski amplia o olhar sobre o jovem Jacek Lazar, permitindo-nos acompanhar seus passos antes do crime e compreender algumas de suas motivações. Também conhecemos um pouco mais sobre a vítima (o taxista Waldemar), o que reforça a ideia de que em todo ser humano há bondade e maldade, embora nada disso torne um assassinato justificável ou menos hediondo.
Em "Dekalog V", o foco maior foi dado ao defensor Piotr Balicki, tornando conhecidas sua forma coerente de pensar, agir e também suas emoções. Assim, algumas cenas do julgamento de Jacek foram suprimidas e isso acabou reduzindo parte do contexto emocional que envolve sua condenação. Já no longa, esse aspecto ganhou mais espaço, detalhando a execução da pena e deixando a experiência ainda mais intensa e dolorosa.
Neste filme, um dos elementos visuais marcantes é a fotografia: sombria, carregada de tons cinza e amarelados, pesada e dramática. O uso apropriado de luz e sombra funcionou como um recurso narrativo poderoso, transmitindo a atmosfera sufocante da história e a brutalidade dos acontecimentos.
Na época em que "Dekalog" foi lançado (1988-1989), a pena de morte ainda era aplicada na Polônia. A última execução oficial ocorreu em abril de 1988. Então, ela ainda está presente na narrativa e expõe a frieza e indiferença do Estado ao punir com ato idêntico ao que condena. Kieślowski nos leva a refletir se a morte autorizada pela lei não é tão errada e cruel quanto o crime que pretende punir.
Um Contratempo
4.2 2,0KNo gênero suspense psicológico, acredito que os elementos decisivos para um bom filme sejam a trama verossímil e qualidade do elenco. "The Invisible Guest" (título original "Contratiempo") possui tais atributos. Com uma narrativa engenhosa e cheia de camadas, os personagens são movimentados ao longo da história como peças em um tabuleiro de xadrez.
O ponto de partida é um acidente de carro em uma estrada isolada, em circunstâncias que jamais poderiam vir à tona para os envolvidos. Porém, a situação foge ao controle e o caso acaba chegando aos tribunais. Uma advogada, especializada na construção de testemunhos, é chamada para auxiliar no processo. Dispondo de apenas 3 horas, tenta articular juntamente com o réu, uma tese de defesa impecável para livrá-lo da prisão.
São então construídas várias versões para explicar e reconfigurar o evento, alternando autores e vítimas conforme novos prismas se delineiam. Essa multiplicidade de perspectivas mantém o clima de dúvida e tensão em alta. E para quem pretende analisar cada tese apresentada, adianto que em algumas delas há falhas que colocam personagens em situações meio impossíveis. Apesar disso, o deslize não compromete a experiência, já que a atmosfera envolvente do filme direciona para um desfecho inesperado.
Aos fãs do gênero, e eu me incluo, trata-se de uma obra instigante, capaz de prender a atenção até o último minuto.
Peppermint Candy
4.0 24"Peppermint Candy" revela seu desfecho logo nos primeiros minutos. Embora os motivos ainda não sejam conhecidos, as cenas iniciais despertam sensação de constrangimento e estranheza que permanece durante quase todo o filme. Lee Chang-dong adota um estilo direto e realista de retratar a vida, porém seus personagens são introspectivos e silenciosos, sinalizando seus dilemas mais íntimos apenas por meio de atitudes.
No caso do personagem Yeong-ho (Sul Kyung-Gu), nada parece fazer sentido e, a cada nova informação que se tem sobre ele, qualquer empatia inicial se dissolve em meio à revolta e à raiva que seus atos são capazes de despertar. Sempre imprevisível e violento contra todos ao redor, ele sugere ser alguém que há muito perdeu a sanidade.
O filme constrói sua história lentamente, numa viagem de volta no tempo, como se estivéssemos em um trem rumo ao passado. A cada parada, uma peça se junta ao mosaico daquela vida transtornada. Somente após a última estação desse trem metafórico fica possível juntar todas as frações e compreender integralmente a loucura e o ódio que Yeong-ho preserva dentro de si. "Peppermint Candy" é um drama trágico, de sabor amargo, mas que também carrega uma inexplicável sensibilidade humana, algo que Lee Chang-dong consegue transmitir com maestria.
A Semana do Assassino
3.4 9 Assista AgoraEste filme me despertou tantas questões que acabei pesquisando mais sobre ele. Primeiro, o estranho título em inglês: "The Cannibal Man". Além da ausência dessa prática na trama, há uma cena que contradiz completamente a ideia de canibalismo. Descobri que o título foi escolhido como estratégia de marketing para atrair o público internacional.
Também percebi que existem duas versões disponíveis: a espanhola e a internacional. Na segunda foram retiradas cenas que mencionam o ocorrido com a mãe do personagem Marcos (Vicente Parra) e explicações sobre a máquina trituradora da empresa alimentícia em que ele trabalha. Além disso, Eloy de La Iglesia precisou realizar diversos cortes e adaptações de roteiro para que o filme passasse pela censura do regime franquista. Essa Censura exigiu a retirada de cerca de 62 cenas para suavizar momentos de violência e sexualidade, além de estipular o final do filme, tornando-o anticlimático.
"La Semana del Asesino" (título original) é um filme memorável, um suspense psicológico em que assassinatos não são cometidos por maldade ou psicopatia, mas por desespero. No período de uma semana, acompanhamos a degradação física e emocional de um homem comum que, equivocadamente, acredita precisar ocultar um crime cometendo outros.
El Diputado
3.8 4"El Diputado" é um filme que se diferencia um pouco de outras obras de Eloy de La Iglesia. Temos aqui um drama íntimo e, ao mesmo tempo político, vivido numa Espanha que enfrentava duras lutas e fervores sociais, face a transição de uma ditadura que durou mais de 30 anos e uma democracia nascente, mas que ainda convivia com os fantasmas da repressão.
Eloy expõe sem pudor as contradições de um político que tenta conciliar prestígio público e vida secreta. O resultado é um filme que denuncia a hipocrisia social e a violência contra aqueles que ousam viver fora das normas. Mais do que autobiográfico, o filme é um testemunho de uma época e uma reflexão sobre a liberdade que ainda hoje é negada a alguns.
Miedo a Salir de Noche
3.8 1Ainda não tinha assistido aos filmes de Eloy de La Iglesia, embora soubesse que hoje é considerado um cineasta polêmico e influente, documentarista da marginalidade urbana e dos problemas sociais da Espanha pós-Franco. Suas obras são realistas, de tom dramático e sombrio, mas ele soube usar o humor irônico como recurso pontual, capaz de amenizar situações graves ou absurdas e, ao mesmo tempo, intensificar sua crítica social.
"Miedo a Salir de Noche" reúne todos esses elementos. É uma comédia dramática, ambientada em Madri no final dos anos 70, período de transição democrática, quando a violência nas ruas crescia e afetava o cotidiano. A imprensa falada e escrita trazia diariamente manchetes alarmantes, instalando o terror na população, que passou a cercar-se de aparatos de segurança e enclausurar-se em casa com medo de sair à noite.
Toda essa tensão, entretanto, é quebrada por um personagem fascinante: o Sr. Cosme (Antonio Ferrandis), um viúvo idoso que insiste em viver normalmente, sem deixar o medo dominar sua rotina. Através dele, o diretor sugere que o excesso de medidas de proteção também pode gerar novos riscos, que manter a população assustada e isolada serve aos interesses de quem deseja manipular e conservar o poder, e que o perigo é parte inevitável da vida, dentro ou fora de casa. Como diria o Sr. Cosme:
- "Paco, não lhe parece mais perigoso o presidente do seu banco do que a maioria desses ladrõezinhos?"
La Estanquera de Vallecas
3.4 2"La estanquera de Vallecas", dirigido por Eloy de la Iglesia, é uma ótima comédia que não se resume ao humor tolo. Baseado na peça teatral de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma um assalto frustrado a uma tabacaria em Vallecas, em um retrato crítico da sociedade espanhola dos anos 80. A ousadia do diretor está em misturar comicidade com denúncia social, expondo as fragilidades das instituições e a desesperança de uma população marcada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo avanço das drogas.
A narrativa mostra como políticos se aproveitam de escândalos midiáticos para ganhar notoriedade em época de eleição, enquanto a polícia, ineficiente para resolver até um caso simples como o assalto a uma tabacaria, não hesita em recorrer à violência contra os moradores do bairro. Vallecas aparece como um distrito revoltado e descrente, onde a solidariedade popular surge como resposta à ausência de confiança nas autoridades. Nesse cenário, os bandidos não são retratados como vilões perversos, mas como ladrões inexperientes, vítimas da fome e da falta de oportunidades, roubando para sobreviver.
Os assaltantes fazem duas reféns: a dona da tabacaria e sua jovem sobrinha. Desse convívio forçado aflora a humanidade escondida por trás de cada personagem. Entre diálogos tensos e situações inesperadas, surgem vulnerabilidades, afetos e até momentos de ternura, mostrando que, em meio ao caos, há espaço para solidariedade e compreensão. Eloy de la Iglesia, com sua coragem artística, transforma uma comédia em um filme que denuncia desigualdades, critica a política e a repressão policial, e ao mesmo tempo celebra a capacidade humana de encontrar laços mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
Destruição Final 2
2.4 78 Assista Agora"Greenland 2: Migration" é um filme sequência, mas não é necessário ter visto "Greenland" para acompanhar a história. O enredo segue fielmente a fórmula típica dos filmes americanos sobre catástrofes globais: a Terra em colapso, famílias tentando sobreviver e dilemas morais em meio ao caos. Tudo bastante previsível, repetindo elementos já conhecidos do gênero, como jornadas perigosas, perdas emocionais e a busca por um lugar seguro. Sem grandes surpresas para quem já está acostumado com esse tipo de filme.
Paixão e Sombras
3.9 10O filme "Paixão e Sombras", de Walter Hugo Khouri, foi rodado nos estúdios da antiga Vera Cruz, já em ruínas, o que por si só lhe dá uma atmosfera melancólica e simbólica. É um trabalho obscuro e autoral, marcado por introspecção e pela sensação de fim de ciclo, tanto do cinema brasileiro daquela época quanto do próprio percurso criativo do diretor. Nesta obra há o uso da metalinguagem, pois ela conta a história de um diretor de cinema que está em processo de realização de seu novo filme.
A casa vazia escolhida como cenário desse filme está sempre inacabada e escura, parecendo refletir o estado interior do personagem central Marcelo (Fernando Amaral), um diretor de cinema em crise, corroído por ausências e pela fragilidade de seus próprios alicerces. Ele questiona constantemente o valor de seu trabalho e vive imerso em sombras desde que sua musa e estrela principal, Lena (Lilian Lemmertz), o abandonou.
Em contraponto, sua assistente Ana (Monique Lafond) está sempre trazendo-o de volta à realidade, lembrando-o de que há outras razões para continuar e de que ele é capaz de realizar filmes de grande qualidade. É nesse embate interior entre sombra e luz, entre o vazio e a possibilidade, que "Paixão e Sombras" se revela não apenas como uma obra de ficção, mas como um retrato íntimo das inquietações de Khouri diante do cinema e da vida.