"Schramm" é um filme curto (65 minutos) que já nas primeiras cenas revela seu desfecho, apostando no tom de ironia dramática. Mas a direção de Jörg Buttgereit não consegue agregar tensão ou manter o ritmo; a estética e a narrativa são frias, típicas do cinema alemão. A ausência de construção dos personagens faz com que eles não despertem relevância ou emoção, e até mesmo as cenas mais violentas e gráficas soam forçadas como material sensacionalista.
Embora se apresente como horror psicológico, o foco não está nos crimes, mas na mente de Lothar Schramm, o assassino. O filme expõe seus pesadelos, traumas, rotina banal e uma explicação simplista para seus impulsos. Opta por mostrar como experiências com mulheres de sua vida moldaram seu desprezo pelo feminino. Conhecido pela imprensa como o “assassino do batom”, ele parece padecer de certa culpa pelo que faz, expiando-a por meio da automutilação. Para ele, o sexo feminino é repulsivo e ameaçador, e essa visão distorcida talvez sustente a violência que o domina e o leva a acessar somente corpos de mulheres mortas ou inconscientes.
Em minha opinião, o mais perturbador do filme não é a solidão ou paranoia de Lothar, mas a constatação de que psicopatas podem viver como qualquer pessoa: ter vizinhos, frequentar restaurantes, dirigir táxis e até aparentar docilidade. Ainda assim, o filme não consegue transformar essa ideia em uma experiência marcante. Os efeitos especiais são fracos, a qualidade da fotografia é baixa e o final, sem ápice e quase banal, reflete a própria vida do protagonista.
"Na Cova da Serpente" é um drama psicológico dirigido por Anatole Litvak e estrelado por Olivia de Havilland, que fala de maneira autêntica e sensível sobre os dilemas da saúde mental e como funcionavam as instituições psiquiátricas antigamente. A história é baseada no livro de Mary Jane Ward, que conta sua própria experiência após passar oito meses internada devido ao diagnóstico de esquizofrenia.
Durante boa parte do filme, acompanhamos a personagem Virgínia em um estado de confusão que também atinge quem assiste. Sua vida parece seguir um rumo normal até conhecer Robert Cunningham, com quem aceita se casar após passar alguns meses desaparecida. A partir disso, ela mergulha em um colapso psicológico que acaba resultando na sua internação num hospital para transtornos mentais. A história transmite com intensidade o terror da perda de memória e da sensação de vazio e alienação. Virgínia é acompanhada pelo Dr. Mark Kik, um psiquiatra dedicado e criterioso que se interessa pelo seu caso e busca compreender o que pode tê-la deixado em crise.
Acho que o mérito do filme é abordar esse tema com seriedade e sem caricaturas, mostrando tanto os métodos terapêuticos da época (eletrochoques e câmaras de imersão), quanto os problemas estruturais dos hospitais. Ao expor aquelas práticas e limitações, Na Cova da Serpente não apenas causa impacto, mas também nos ajuda a compreender o porquê mudanças profundas precisaram ser feitas no tratamento de pacientes psiquiátricos.
Veronica dirige por uma estrada e, num segundo de distração, sente um forte impacto como se houvesse atropelado algo. Ela bate a cabeça, mas volta a dirigir sem ver o que houve. A partir disso, ela aparenta entrar em choque por acreditar ter matado uma pessoa. O filme começa a mostrar detalhes aparentemente banais da vida da personagem mas, principalmente, seu profundo desconforto e apatia. Ela mal interage com as pessoas, demonstra alienação e confusão mental. O mais perturbador, além de seus silêncios, é que ninguém parece notar o que ela está passando. Os comentários que fazem sobre ela limitam-se à sua aparência, numa clara menção à superficialidade das relações.
Essa é a premissa de "A mulher Sem Cabeça", onde até a normalidade pode ser inquietante. As informações vão sendo oferecidas em pequenas doses para dedução do público, assim como os fatos que envolvem o acidente. Nunca há clareza absoluta, apenas suspeitas de que houve alguma vítima, possivelmente uma das crianças pobres da região, apresentadas nas primeiras cenas do filme. Este é um ponto que expõe o abismo entre classes sociais, porque a perda dessas vidas invisíveis parece ser irrelevante, com peso semelhante ao da morte de um animal.
A interpretação de Maria Onetto merece destaque pela habilidade de revelar-se somente com o olhar e poucas expressões do rosto. Em duas rápidas ocasiões suas lágrimas explodem em culpa, mas logo depois ela retorna à passividade que indica uma vida controlada pelos outros. A direção de Lucrecia Martel é inteligente e mantém incertezas, nos levando a presumir respostas e tirar nossas próprias conclusões. Durante todo o tempo é como se estivéssemos presos à mente de Veronica, compartilhando sua desorientação e enxergando tudo sob suas lentes turvas.
"What Happened To Rosa" é um filme mudo de 1920, dirigido por Victor L. Schertzinger. Trata-se de uma comédia romântica tipo Sessão da Tarde, estrelada por Mabel Normand, uma das maiores comediantes do cinema mudo. Apesar de seu talento, teve a carreira abreviada por escândalos e problemas pessoais.
O filme conta a história de Mayme Ladd, uma jovem balconista da loja de artigos femininos 'Friedman's' que, após visitar uma vidente começa a acreditar que incorporou o espírito de uma nobre e bela espanhola chamada Rosa Alvaro. Mayme, que vive uma rotina apática e desanimadora, passa a comportar-se como a deslumbrante Rosa. E uma noite, num baile de máscaras, vê seu tão esperado desejo quase realizar-se.
Considero interessante a ideia de que mudanças na forma de pensar e agir são mecanismos poderosos para despertar coragem, segurança e dar novos rumos à vida. No caso de Mayme, Rosa funcionou como seu 'alter ego', fazendo com que se sentisse autoconfiante e atraente, capaz de superar a timidez e assumir posturas mais firmes em direção aos seus sonhos.
Assistir a "The Children's Hour" (Infâmia) é vivenciar um drama quase na própria pele. Houve momentos em que a devastação íntima dos personagens pareceu ultrapassar a tela e me atingir diretamente. William Wyler entregou uma obra que escancarou o peso e a maldade de uma mentira e o impacto devastador do preconceito. Trazendo para os dias atuais, essa deve ser a sensação de uma vítima das perigosas 'fake news', pois uma vez destilado o veneno, nunca mais a mácula pode ser retirada por completo.
O filme cresce em intensidade a cada cena, até tornar-se um retrato poderoso da fragilidade humana diante da intolerância. Confesso que, no início, foi difícil imaginar Audrey Hepburn em uma situação tão carregada de tensão, com seu ar quase etéreo de princesa. Mas quando o filme alcança o ápice, ela revela uma atuação surpreendente, delicada e firme ao mesmo tempo, provando que sua força vai muito além da imagem de elegância que a consagrou.
Já Shirley MacLaine está simplesmente extraordinária. Há uma autenticidade em sua presença que não se pode esquecer. O olhar intenso, a vulnerabilidade exposta e a força emocional nos minutos finais são de arrepiar. Juntas, elas transformam o filme em um espetáculo raro, sensível e corajoso, uma obra extraordinária mesmo tantas décadas depois.
Quando procuro informações sobre os filmes que assisto, muitas vezes me surpreendo mais com as histórias que existem ao redor deles do que com os próprios roteiros. Foi exatamente o que aconteceu com "These Three" (Infâmia). O filme nasceu da peça teatral 'The Children's Hour' escrita por Lilian Hellman e apresentada na Broadway em 1934. Na época, a peça foi um sucesso estrondoso e ficou dois anos em cartaz, apesar de ser considerada ousada por tratar de uma relação romântica entre duas mulheres.
Isso me fez pensar em como, sob certos aspectos, a sociedade parece ter regredido. Diante do avanço do conservadorismo e do preconceito, talvez hoje uma peça assim não recebesse o mesmo reconhecimento do público e da crítica.
Dois anos depois, em 1936, o diretor William Wyler decidiu levar a história para o cinema. Mas Hollywood não permitiu que o roteiro passasse pelo rígido 'Código Hays', que censurava qualquer tema considerado 'imoral'. A menção ao lesbianismo foi retirada e substituída por um triângulo amoroso heterossexual. A própria Lilian Hellman fez essa adaptação, mas o resultado perdeu o impacto social quando trocou preconceito e intolerância por ciúmes e traição. "These Three" virou um filme incoerente e sem força dramática.
Somente em 1961 William Wyler conseguiu filmar a história como ela havia sido escrita. Com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine nos papéis principais, entregou uma obra poderosa, sensível e corajosa, que finalmente fez justiça ao impacto da peça.
Gosto bastante de filmes de terror psicológico, em que o medo nasce da imaginação de vivenciar aquilo que se assiste. A trilha sonora e os 'jumpscares' cumprem bem o papel de aumentar a tensão, mas o grande mérito desse gênero está em mostrar personagens imersos em situações desesperadoras, como aquelas em que não há controle, solução ou saída. O pânico que invade suas vidas não se relaciona com a morte, mas com a perda da própria sanidade.
Apesar de ser uma produção de orçamento modesto, "Obsessão" é um terror psicológico surpreendente. Escrita e dirigida por Curry Barker, a trama começa de forma leve e aparentemente despretensiosa, acompanhando quatro amigos: Bear, Nikki, Ian e Sarah. Bear é apaixonado por Nikki, mas sua timidez o impede de revelar seus sentimentos. A partir desse tema comum, acontecimentos cada vez mais bizarros e surreais começam a acontecer, culminando em momentos capazes de gelar o sangue.
Seguindo a tendência do terror contemporâneo, "Obsessão" também explora elementos de magia e maldição, encerrando a narrativa com uma mensagem perturbadora: tentar manipular energias ou leis naturais pode ser fatal, sobretudo quando o Universo decide atender aos desejos de maneira diferente da imaginada.
"Batalha Após a Vitória" encerra a trilogia de maneira coerente e emocionante, mostrando que o fim de uma guerra não se dá pela simples assinatura da rendição pelo exército derrotado. Ambientado após a derrota alemã em maio de 1945, o filme mergulha no território das alianças silenciosas, dos acordos políticos secretos e da reorganização das forças que sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich. A ameaça alemã ressurge de forma menos visível, mas ainda poderosa, principalmente por meio das articulações do general Gehlen, que tenta reconstruir sua rede de espionagem à semelhança da antiga organização Saturno, mas agora contando com o apoio indireto de setores do exército americano.
No centro dessa tensão permanece Kramer, talvez em sua fase mais solitária e arriscada, ainda infiltrado entre os alemães. Ele continua vivendo em meio a identidades falsas, suspeitas e perigos constantes, enquanto tenta manter o fluxo de informações para os soviéticos. O filme também revela os destinos de figuras importantes como Sophie Krause, a capitão Schönemann e o major Wilhelmy. Ao mesmo tempo, introduz à trama os generais americanos Smiles e O'Donnell, mostrando como os antigos aliados EUA e URSS começam lentamente a se enxergar como futuros adversários.
A divisão da Alemanha entre lado oriental e ocidental surge como consequência natural daquele cenário de desconfiança e disputa por influência, criando uma sensação de continuidade histórica que torna o desfecho ainda mais impactante. O filme transmite a ideia de que certas guerras não desaparecem, apenas mudam de forma. Entre espionagem, manipulação política e personagens marcados pelas perdas acumuladas ao longo da trilogia, este talvez seja um dos retratos mais humanos e inteligentes já feitos sobre o período pós-guerra, com um encerramento forte, elegante e que, para mim, tornou-se duradouro.
"O Fim de Saturno" dá seguimento ao universo construído no primeiro filme, sem diminuir a tensão que tornou a história tão envolvente. Ainda situado no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial, em meio ao confronto entre União Soviética e Alemanha, o longa mantém a visão íntima da guerra, como uma disputa de inteligência, confiança e sobrevivência. As informações enviadas anteriormente por Kramer, no primeiro filme, passam a ter consequências concretas no avanço russo, enquanto os alemães tentam infiltrar agentes em território soviético numa ofensiva cada vez mais desesperada.
Agora Kramer terá de enfrentar um grave obstáculo em sua missão. Sem conseguir manter contato com os russos depois da interceptação de seu elo humano, ele se vê isolado e pressionado pelo tempo. É nesse momento que Sophie Krause deixa de ser apenas uma personagem secundária e se torna essencial para a história. A aproximação entre os dois não surge como um romance artificial, mas como consequência do desgaste emocional provocado pela guerra. Sophie carrega a decepção de quem já não acredita nos métodos do próprio país e sua escolha de ajudar Kramer torna o filme mais sensível, especialmente porque essa aliança nasce em meio ao medo constante de traição e descoberta.
Por fim, essa segunda parte da trilogia retrata de forma convincente o enfraquecimento do exército alemão diante do inverno soviético e dos erros estratégicos provocados pelas falsas pistas espalhadas pelos russos. Existe uma sensação de cansaço, desorientação e perda gradual de controle como sinais do colapso inevitável. O resultado é uma obra intensa e melancólica, que me deixou com uma ansiedade enorme pelo terceiro filme.
A chamada 'Trilogia de Saturno' é formada pelos filmes "O Caminho para Saturno (1967)", "O Fim de Saturno (1968)" e "Batalha Após a Vitória (1972)", e talvez seja uma das grandes obras esquecidas do cinema soviético. Inspirada no livro de Vassíli Ardamatski e na trajetória real do agente Aleksandr Ivanovitch Kozlov, esses filmes transformam espionagem militar em drama humano, sem recorrer ao heroísmo ou a personagens caricatos. Há um cuidado em mostrar a guerra não pelo confronto armado, mas pela visão estratégica e silenciosa da paciência.
A direção de Villen Azarov é firme e sóbria. O elenco todo é espetacular, mas impressionam as interpretações de Mikhail Volkov e Georgi Zhzhyonov, que dão à trama uma dimensão profundamente humana. Seus personagens são homens obrigados a sustentar máscaras, controlar emoções e sobreviver ao peso psicológico da guerra.
Neste primeiro filme, "O Caminho para Saturno", acompanhamos a ida do capitão Krylov (sob a identidade de Mikhail Kramer) para a organização de inteligência alemã Saturno. O que chama atenção não é apenas o perigo da infiltração, mas a forma meticulosa como o personagem, mesmo com a vida por um fio, constrói sua credibilidade dentro da estrutura militar germânica. Seu treinamento, ascensão militar e métodos discretos de transmissão de informações criam uma tensão contínua, onde cada passo parece trazer uma ameaça.
A obra revela os bastidores políticos do fim da Segunda Guerra e do nascimento da Guerra Fria entre EUA e URSS. Também é interessante perceber como o filme aborda a fragmentação da Alemanha e o clima de incerteza vivido pela população naquele período. No centro de tudo está Kramer, um personagem admirável justamente por sua firmeza contida: alguém que conquista respeito tanto dos russos quanto dos alemães pela integridade, enquanto vive cercado por desconfiança, manipulação e guerra.
O legado que Ingmar Bergman deixou para o cinema é tão importante e precioso que até hoje inspira obras de cineastas igualmente notáveis. Sua formação não era filosofia ou psicologia, mas ele condensava em suas histórias e personagens verdadeiros estudos clínicos da alma humana. O filme "Da Vida Secreta das Marionetes" é mais um testemunho disso. Talvez seja um dos menos conhecidos na sua filmografia, mas igualmente capaz de traduzir os dilemas e inquietudes humanas para cenários da vida real.
Pode ser que, assim como aconteceu comigo, as primeiras perguntas que venham à mente de quem assiste o filme sejam: "quem são as marionetes?" e "quem as manipula?". Sem meias palavras, Bergman deixa claras as respostas, e o mais assombroso é compreender que as suas marionetes não são bonecos inanimados, mas alegorias acerca da nossa própria natureza. Enquanto o teatro da vida segue seu curso, ninguém vê as mãos que manobram os fios. Não se conhecem suas almas, não se sabe de seus sentimentos e segredos.
No filme, acompanhamos o tormento psicológico de Peter Egermann. Um pensamento obsessivo atravessa sua alma, perturba sua sanidade, ameaça seu casamento e a integridade de sua esposa Katarina. É interessante destacar que, embora essa história não seja uma continuação de "Cenas de Um Casamento", Bergman reutilizou os mesmos nomes de um dos casais de 1973. É como se quisesse estabelecer uma ponte simbólica entre as duas narrativas, sugerindo que Katarina e Peter são variações de um mesmo arquétipo, representações das complexidades e fragilidades da vida conjugal.
--------------------------------------------------------------------------------- P.S.: Voltando para ressaltar a estonteante beleza "cara lavada" de Christine Buchegger! ---------------------------------------------------------------------------------
"Cenas de Um Casamento" é uma série sueca criada para a televisão em 1973, composta por seis episódios de cerca de 50 minutos cada. Produzida com baixo orçamento, elenco reduzido e filmada em um estúdio improvisado na casa de Ingmar Bergman, na Ilha de Fårö, surpreendeu e tornou-se um enorme sucesso. No ano seguinte, o material foi adaptado para o cinema em formato de longa-metragem.
A série conta a história de Marianne e Johann, casados há dez anos e vivendo um relacionamento aparentemente feliz e bem sucedido. Liv Ullmann (que na época era casada com Bergman) interpreta Marianne e Erland Josephson dá vida a Johann. À medida que a narrativa avança, fica claro que a relação está marcada por silêncios, insatisfações, mágoas não resolvidas e pressões externas que ameaçam o frágil equilíbrio da vida conjugal.
O que se vê é o colapso daquela estrutura, a transformação das personalidades diante dos conflitos, o sofrimento que se converte em raiva e culpa, as idas e vindas cheias de emoção e a dificuldade de encerrar uma etapa já esgotada. Por fim, Marianne e Johann buscam maneiras de preservar o vínculo afetivo que insiste em uni-los e a necessidade que um sente do outro.
Diz-se que Bergman, após quatro casamentos e experiências pessoais marcadas por traumas, projetou muito de si no personagem Joahnn e no enredo da série. Em 2021, uma refilmagem foi lançada, mas sem alcançar a visceralidade característica de Bergman, que conseguia transformar dor e intensidade em arte de profunda força emocional.
É bem interessante o contexto em torno de "O Mestre e Margarida", dirigido por Michael Lockshin. O filme é uma adaptação moderna do romance de Mikhail Bulgákov. Há uma mistura de fantasia sombria e drama, com forte crítica à repressão cultural e ao regime de Stalin. A história não segue uma linha temporal única e linear, mas três planos narrativos que se entrelaçam. O primeiro mostra o escritor conhecido como Mestre tentando concluir seu romance sobre Pôncio Pilatos, considerado subversivo e censurado pelo Conselho de Cultura em Moscou. O segundo é a própria trama bíblica, que aborda dilemas de poder, covardia e verdade com base nas figuras de Pilatos e Jesus. O terceiro plano conta a chegada do misterioso personagem Woland, uma figura demoníaca que expõe a hipocrisia e a repressão da Moscou stalinista.
Bulgárov só conseguiu publicar o livro 'O Mestre e Margarida' décadas depois de escrito, porque sofreu censura sistemática na União Soviética. Já o filme de Lockshin enfrentou ataques devido ao posicionamento do diretor contra a guerra na Ucrânia. Além disso, seu conteúdo direto e crítico foi considerado incoerente com o financiamento público que recebeu. Mesmo assim, virou sucesso de bilheteria, repetindo de certa forma o destino do livro: perseguido pelo poder, mas consagrado pelo público.
Lermontov, um dos maiores poetas russos, destacou-se por sua escrita ácida e humor ferino. Em vida, agradou e desagradou a muitos, mas suas obras atravessaram o tempo e se tornaram clássicos da literatura. Uma de suas peças, "Masquerade", ganhou uma adaptação fiel com o filme de mesmo nome, lançado em 1941 em homenagem ao centenário da morte do autor. Dirigido por Sergei Gerasimov e com Nikolay Mordvinov no papel principal, a história assemelha-se ao drama Othello, de W. Shakespeare, centrado em ciúme, suspeita de infidelidade e tragédia resultantes de desconfianças injustas.
O protagonista Yevgeny Arbenin é um homem marcado por contradições. Antes de casar-se com a jovem Nina, era um jogador astuto, mulherengo e trapaceiro, acumulando inimigos e má fama. Após o casamento, constrói uma máscara social de reclusão e serenidade, aparentando segurança e felicidade. No entanto, essa fachada logo se desfaz, revelando um caráter inseguro e ciumento.
Após um baile de máscaras oferecido pela aristocracia local, um episódio fortuito desperta nele a suspeita da infidelidade de Nina. Com o orgulho ferido e tomado de raiva e desconfiança, Arbenin passa a agir com enorme frieza e arrogância, buscando inícios da suposta deslealdade. Tentando manter intacta a honra perante a sociedade, hipocritamente Arbenin torna-se juiz e carrasco. Acreditando-se impune, é finalmente confrontado com os erros do passado e com o poder trágico da verdade presente.
Mata Hari foi uma dançarina de música javanesa que conquistou enorme sucesso na França, no início do século XX, sempre lembrada por sua beleza e pela aura de mistério que a transformaram no arquétipo da espiã sedutora. Foram justamente esses aspectos de sua personalidade que George Fitzmaurice escolheu destacar no filme "Mata Hari (1931)", estrelado pela diva Greta Garbo.
O enredo não é biográfico, embora mencione fatos da vida da personagem; também não se propõe a exaltar seus feitos, apenas utiliza o glamour que a cerca para tornar tudo envolvente. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, apresenta Mata Hari como uma espiã a serviço da Alemanha (fato jamais comprovado). A narrativa acompanha os eventos de seu último ano de vida, em especial o romance que viveu com um jovem oficial russo (Ramón Novarro), seguido pela prisão e julgamento que selaram seu destino.
A interpretação de Garbo transforma a personagem em uma espécie de deusa etérea, sensual e inatingível para a maioria dos mortais. Do alto desse Olimpo, o que realmente brilha é a personalidade magnética da atriz. Em cada cena, parece que todas as luzes convergem para ela. Vale lembrar que a entonação das falas e o estilo teatral do elenco refletem o padrão de atuação da época, sendo a obra melhor apreciada pela perspectiva e contexto do passado.
Tudo no filme emana luxo: a fotografia impecável, a maquiagem que acentua a beleza e o mistério de Garbo, as peças exuberantes escolhidas para compor seu figurino. Os ricos vestidos, em sua maioria, foram bordados com pedrarias e cristais, transmitindo poder e elegância, reforçando o ar de frieza celestial da protagonista. Coisa de celebridade mesmo!
Em 1901, Anton Tchékhov escreveu a peça 'As Três Irmãs', uma história melancólica levada ao cinema em pelo menos seis versões distintas. Este filme dirigido por Samson Samsonov é uma adaptação fiel da obra de Tchékhov. A fotografia em preto e branco traduz desde o início uma forte carga dramática e, enquanto a câmera percorre a densa floresta de bordos e bétulas, é quase possível sentir a inércia do ar, o isolamento e a clausura que cercam a vida de Olga, Masha e Irina. Seus longos vestidos negros, que varrem lentamente o chão, fazem com que se pareçam lúgubres aves da noite.
Elas têm um irmão, Andrei, que acaba se tornando mais uma fonte de tristezas e problemas ao decidir casar-se com Natasha, uma mulher fútil e controladora. No coração de cada uma daquelas vidas há segredos e sonhos, uma vontade pulsante de abandonar o local onde vivem (uma pequena província russa) e mudar-se para Moscou. O marasmo daqueles dias começa a ser quebrado com a proximidade dos militares destacados para aquela região, que passam a frequentar a casa dos irmãos. Entretanto, isso está longe de significar alegria. Os amores impossíveis, ciúmes, escolhas difíceis e perdas dolorosas que resultam desse convívio amplificam o vazio e o confinamento.
Diante das incertezas e dilemas individuais, os personagens parecem resignar-se com a apatia do presente, acreditando que o contentamento não está ao seu alcance e que seus infortúnios servirão de algum modo para melhorar o mundo das gerações futuras. Eles sabem que o tempo os tornará irrelevantes e esquecidos, assim como suas histórias e amarguras, mas terão contribuído para que a felicidade, enfim, faça parte da vida de muitos. Aqui temos um drama pesado, com uma passagem do tempo quase imperceptível, como se materializasse a letargia daquelas pobres criaturas.
Um dos mais lindos filmes de Bergman. Em "Summer Interlude", os primeiros anos da vida são retratados de maneira poética e lírica. A juventude surge luminosa, tem cor, perfume e alegria, como evocam as imagens cuidadosamente enquadradas, tais como pinturas de um dia de verão, entre flores, pássaros, campos e praias.
À primeira vista pode parecer improvável que Bergman, conhecido por seu estilo introspectivo e marcado por questões existenciais e psicológicas, tenha concebido um filme com tal atmosfera. No entanto, os elementos reflexivos também estão presentes em "Summer Interlude", já que o esplendor da juventude faz parte somente das memórias de Marie, uma bailarina clássica que guarda sua história sob uma aura de mistério.
Durante um ensaio para o balé 'Lago dos Cisnes', Marie recebe um pacote anônimo e, ao abri-lo, confronta-se com um passado de dores e perdas difíceis de superar. A melancolia de seu presente contrasta com as lembranças da juventude, revividas sob intensa carga emocional. Bergman mostra como as experiências do passado moldam a identidade e as escolhas, tema que retomaria em 'Morangos Silvestres' e em tantas outras obras.
O filme "Tsinga", dirigido por Vladimir Golovnev, é um thriller psicológico inspirado em uma antiga lenda do povo Nenet. A tradução literal do título é “escorbuto”, doença letal causada pela deficiência prolongada de vitamina C, que se manifesta por sintomas físicos e psíquicos severos, e historicamente acometia os viajantes em expedições longas a lugares isolados.
A trama acompanha uma viagem missionária ao "fim da Terra", na região do Ártico, realizada em agosto de 1991. A bordo de um pequeno barco, o padre Pyotr e seu noviço Fyodor seguem em missão de catequese cristã, levando ensinamentos bíblicos a povoados remotos e batizando-os. Parte do filme se constrói em estilo 'found footage', a partir dos registros feitos por Fyodor em sua câmera manual (olhar interno), enquanto outra parte é narrada por uma câmera onisciente (olhar externo). Essa alternância de técnicas diferencia o real do imaginado e reforça a sensação de estranheza.
O longa tem atmosfera sombria e em alguns momentos parece flertar com o terror. A locação desértica e gelada, onde o nada se funde ao horizonte em meio à névoa, intensifica o desconforto. O enredo mescla mito e realidade ao abordar crenças espirituais, pecados e valores morais, tocando em uma ferida que angustia os cristãos: pregar a palavra de Deus sem se sentir digno dela. Nos créditos finais, o filme conecta essas duas dimensões: a mítica e a histórica, e lembra que em 26 de dezembro de 1991 a União Soviética deixou de existir, sugerindo (talvez) uma metáfora: assim como o escorbuto é uma doença que destrói o corpo, as crises políticas são igualmente disfuncionais e corroem sociedades.
"Two People in One Life and a Dog", do diretor Andrey Zaitsev, é um filme raro em muitos sentidos. Raro por tratar a velhice não como peso ou sombra, mas como uma etapa natural, vivida com alegria e serenidade mesmo diante das limitações. Raro por escapar dos lugares-comuns, sem recorrer a melodramas ou à obsessão pela morte. Raro por revelar três formas de vínculo igualmente belas: um casamento que atravessa meio século, sustentado por cumplicidade e leveza, sem esconder as marcas que o tempo inevitavelmente deixa; o cuidado silencioso entre humanos e animais; e a presença de pessoas mais jovens, que se aproximam dos idosos com afeto e abertura para aprender com sua experiência.
Entre esses jovens, Polina se destaca. Suas interações com o casal Ludmila e Igor revelam a riqueza da troca entre gerações: ela encontra acolhimento e respeito, e em reconhecimento oferece frescor e ternura. Uma das cenas mais delicadas nasce justamente desse encontro, quando Polina dança embalada por Ah! Non Credea Mirarti da ópera La Sonnambula, de Bellini. Ali, música, gesto e olhar se fundem em pura poesia, criando um instante que suspende o tempo.
Como tantas obras russas, este filme não busca um final feliz para o destino das pessoas, nem tampouco faz promessas de mudança. Ele se propõe a ser uma fatia de vida, um instante preservado. O que vemos são dias que seguem, com sua mistura de lembranças, pequenas tristezas, silêncios e companheirismo para apreciar o presente, venha ele da forma que vier.
"The Aviator", do diretor russo Egor Konchalovsky, baseia-se no livro de mesmo nome escrito por Eugene Vodolazkin. É um filme que mescla ficção científica com drama psicológico para contar a história do personagem Innokenty Platonov, um homem do século passado, submetido a um experimento criogênico e reanimado nos dias atuais, após quase 100 anos de hibernação. Ao despertar, sua memória está apagada e será necessário que sua mente resgate, aos poucos, lembranças de sua vida.
A premissa é interessante e nos convida a refletir sobre a obsessão humana pela imortalidade, bem como analisar prós e contras do dia em que a ciência conseguir tal feito. A mente humana será exposta a uma constante necessidade de readaptação em todos os aspectos, o mundo 'vindouro' apresentará inúmeras transformações e as pessoas importantes e amadas não estarão mais presentes. Haverá felicidade possível?
O livro fez bastante sucesso desde o lançamento, mas o filme poderia refinar alguns pontos. As cenas ambientadas no início do século XX parecem inconsistentes e prejudicam a imersão. Há elementos de modernidade na aparência dos personagens, nas roupas, cabelos e atitudes. Também teria sido interessante aplicar a psicologia das cores para representar o passado, o que poderia imprimir um tom nostálgico à narrativa. E, por fim, a ênfase no envolvimento emocional de Innokenty e Nastya (sósia perfeita de seu antigo amor) desvia a atenção das lutas internas do personagem, que mereciam ser melhor exploradas.
"The Three of Us" é um dos longas exibidos no Festival de Cinema Russo 2026 e marca a estreia da jovem cineasta Aleksandra Sarana na direção de longas-metragens. Trata-se de uma comédia romântica no estilo road movie, que se destaca por sua leveza e frescor, sem muitos clichês comuns do gênero e confirmando que a renovação do cinema segue por um bom caminho.
Acrescento que sou uma admiradora do cinema russo, porque acho que não quer ser apenas entretenimento, e sim uma arte que se respeita e se leva a sério sem tornar-se monótona e nunca descuidando da qualidade, especialmente quanto à estética e narrativa.
Neste filme acompanhamos Dasha (Irina Starshenbaum), recém saída de um relacionamento e em busca de novos rumos para sua vida. Prestes a fazer uma viagem de trabalho, ela conhece Sergey ( Sergey Kuznetsov) em circunstâncias um tanto constrangedoras que se transformam em ponto de virada. Ao percorrerem pequenas cidades e vilarejos, eles descobrem também novas perspectivas sobre si mesmos e sobre o amor.
Filme da diretora Stasya Tolstaya, baseado no livro Felicidade Conjugal, de Lev Tolstoy, com preservação dos personagens e da essência da obra. Ao mesmo tempo, Stasya inseriu na trama a sua liberdade criativa, resultando numa adaptação que dialoga com o clássico mas tem sua originalidade.
O drama vivido pelo casal Masha e Sergey Mikhailovich continua presente em toda sua intensidade, num arco doloroso que vai da paixão ao desencanto e culmina na resignação. O figurino e a ambientação são cuidadosamente trabalhados para remeter os acontecimentos ao século XIX, contudo algumas cenas parecem estranhas e deslocadas, retratando tempos mais atuais, quase como se a cineasta quisesse nos mostrar que muitas daquelas situações poderiam estar acontecendo em qualquer época.
A felicidade conjugal, sob o olhar de Tolstoy, é como a varinha verde que Masha buscava na infância: uma ilusão inocente. No mundo adulto não há magia, apenas a realidade frequentemente espinhosa.
"Lermontov" é um drama intimista que se propõe a retratar o último dia de vida do poeta russo Mikhail Yurievich Lermontov. Baseado em fatos reais, o filme mergulha na tensão crescente entre o escritor e seu antigo amigo Nikolai Martynov, culminando no duelo fatal que marcou a história da literatura russa. De início, o ritmo lento e contemplativo pode incomodar, mas é justamente nesse compasso pausado que a obra se torna marcante, permitindo que os silêncios e os vazios carreguem o peso da tragédia iminente.
A fotografia é linda, com paisagens rurais da aldeia de Pyatigorsk, captadas com delicadeza, revelando uma serenidade que contrasta com o conflito entre os protagonistas. A amizade já desgastada pelas constantes provocações de Lermontov ganha contornos definitivos quando Martynov, ofendido em sua honra, decide desafiá-lo. O filme não dramatiza excessivamente esse embate, mas deixa que a tensão se acumule em cada quadro, reforçando a atmosfera de inevitabilidade.
Ao retratar a rotina pacata e quase banal do poeta, a obra transmite uma sensação de paz diante da tragédia. A câmera estática, que se detém em portas, paredes e paisagens, por vezes nos deixa apenas ouvir os sons ao redor e imaginar o que não se vê. Essa escolha estética reforça a delicadeza e a elegância do filme. "Lermontov" é uma experiência sutil e contemplativa, que recompensa com beleza e profundidade.
"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.
Schramm
3.1 58"Schramm" é um filme curto (65 minutos) que já nas primeiras cenas revela seu desfecho, apostando no tom de ironia dramática. Mas a direção de Jörg Buttgereit não consegue agregar tensão ou manter o ritmo; a estética e a narrativa são frias, típicas do cinema alemão. A ausência de construção dos personagens faz com que eles não despertem relevância ou emoção, e até mesmo as cenas mais violentas e gráficas soam forçadas como material sensacionalista.
Embora se apresente como horror psicológico, o foco não está nos crimes, mas na mente de Lothar Schramm, o assassino. O filme expõe seus pesadelos, traumas, rotina banal e uma explicação simplista para seus impulsos. Opta por mostrar como experiências com mulheres de sua vida moldaram seu desprezo pelo feminino. Conhecido pela imprensa como o “assassino do batom”, ele parece padecer de certa culpa pelo que faz, expiando-a por meio da automutilação. Para ele, o sexo feminino é repulsivo e ameaçador, e essa visão distorcida talvez sustente a violência que o domina e o leva a acessar somente corpos de mulheres mortas ou inconscientes.
Em minha opinião, o mais perturbador do filme não é a solidão ou paranoia de Lothar, mas a constatação de que psicopatas podem viver como qualquer pessoa: ter vizinhos, frequentar restaurantes, dirigir táxis e até aparentar docilidade. Ainda assim, o filme não consegue transformar essa ideia em uma experiência marcante. Os efeitos especiais são fracos, a qualidade da fotografia é baixa e o final, sem ápice e quase banal, reflete a própria vida do protagonista.
A Cova da Serpente
4.0 44"Na Cova da Serpente" é um drama psicológico dirigido por Anatole Litvak e estrelado por Olivia de Havilland, que fala de maneira autêntica e sensível sobre os dilemas da saúde mental e como funcionavam as instituições psiquiátricas antigamente. A história é baseada no livro de Mary Jane Ward, que conta sua própria experiência após passar oito meses internada devido ao diagnóstico de esquizofrenia.
Durante boa parte do filme, acompanhamos a personagem Virgínia em um estado de confusão que também atinge quem assiste. Sua vida parece seguir um rumo normal até conhecer Robert Cunningham, com quem aceita se casar após passar alguns meses desaparecida. A partir disso, ela mergulha em um colapso psicológico que acaba resultando na sua internação num hospital para transtornos mentais. A história transmite com intensidade o terror da perda de memória e da sensação de vazio e alienação. Virgínia é acompanhada pelo Dr. Mark Kik, um psiquiatra dedicado e criterioso que se interessa pelo seu caso e busca compreender o que pode tê-la deixado em crise.
Acho que o mérito do filme é abordar esse tema com seriedade e sem caricaturas, mostrando tanto os métodos terapêuticos da época (eletrochoques e câmaras de imersão), quanto os problemas estruturais dos hospitais. Ao expor aquelas práticas e limitações, Na Cova da Serpente não apenas causa impacto, mas também nos ajuda a compreender o porquê mudanças profundas precisaram ser feitas no tratamento de pacientes psiquiátricos.
A Mulher Sem Cabeça
3.5 67Veronica dirige por uma estrada e, num segundo de distração, sente um forte impacto como se houvesse atropelado algo. Ela bate a cabeça, mas volta a dirigir sem ver o que houve. A partir disso, ela aparenta entrar em choque por acreditar ter matado uma pessoa. O filme começa a mostrar detalhes aparentemente banais da vida da personagem mas, principalmente, seu profundo desconforto e apatia. Ela mal interage com as pessoas, demonstra alienação e confusão mental. O mais perturbador, além de seus silêncios, é que ninguém parece notar o que ela está passando. Os comentários que fazem sobre ela limitam-se à sua aparência, numa clara menção à superficialidade das relações.
Essa é a premissa de "A mulher Sem Cabeça", onde até a normalidade pode ser inquietante. As informações vão sendo oferecidas em pequenas doses para dedução do público, assim como os fatos que envolvem o acidente. Nunca há clareza absoluta, apenas suspeitas de que houve alguma vítima, possivelmente uma das crianças pobres da região, apresentadas nas primeiras cenas do filme. Este é um ponto que expõe o abismo entre classes sociais, porque a perda dessas vidas invisíveis parece ser irrelevante, com peso semelhante ao da morte de um animal.
A interpretação de Maria Onetto merece destaque pela habilidade de revelar-se somente com o olhar e poucas expressões do rosto. Em duas rápidas ocasiões suas lágrimas explodem em culpa, mas logo depois ela retorna à passividade que indica uma vida controlada pelos outros. A direção de Lucrecia Martel é inteligente e mantém incertezas, nos levando a presumir respostas e tirar nossas próprias conclusões. Durante todo o tempo é como se estivéssemos presos à mente de Veronica, compartilhando sua desorientação e enxergando tudo sob suas lentes turvas.
What Happened to Rosa
2.5 1"What Happened To Rosa" é um filme mudo de 1920, dirigido por Victor L. Schertzinger. Trata-se de uma comédia romântica tipo Sessão da Tarde, estrelada por Mabel Normand, uma das maiores comediantes do cinema mudo. Apesar de seu talento, teve a carreira abreviada por escândalos e problemas pessoais.
O filme conta a história de Mayme Ladd, uma jovem balconista da loja de artigos femininos 'Friedman's' que, após visitar uma vidente começa a acreditar que incorporou o espírito de uma nobre e bela espanhola chamada Rosa Alvaro. Mayme, que vive uma rotina apática e desanimadora, passa a comportar-se como a deslumbrante Rosa. E uma noite, num baile de máscaras, vê seu tão esperado desejo quase realizar-se.
Considero interessante a ideia de que mudanças na forma de pensar e agir são mecanismos poderosos para despertar coragem, segurança e dar novos rumos à vida. No caso de Mayme, Rosa funcionou como seu 'alter ego', fazendo com que se sentisse autoconfiante e atraente, capaz de superar a timidez e assumir posturas mais firmes em direção aos seus sonhos.
Infâmia
4.4 315Assistir a "The Children's Hour" (Infâmia) é vivenciar um drama quase na própria pele. Houve momentos em que a devastação íntima dos personagens pareceu ultrapassar a tela e me atingir diretamente. William Wyler entregou uma obra que escancarou o peso e a maldade de uma mentira e o impacto devastador do preconceito. Trazendo para os dias atuais, essa deve ser a sensação de uma vítima das perigosas 'fake news', pois uma vez destilado o veneno, nunca mais a mácula pode ser retirada por completo.
O filme cresce em intensidade a cada cena, até tornar-se um retrato poderoso da fragilidade humana diante da intolerância. Confesso que, no início, foi difícil imaginar Audrey Hepburn em uma situação tão carregada de tensão, com seu ar quase etéreo de princesa. Mas quando o filme alcança o ápice, ela revela uma atuação surpreendente, delicada e firme ao mesmo tempo, provando que sua força vai muito além da imagem de elegância que a consagrou.
Já Shirley MacLaine está simplesmente extraordinária. Há uma autenticidade em sua presença que não se pode esquecer. O olhar intenso, a vulnerabilidade exposta e a força emocional nos minutos finais são de arrepiar. Juntas, elas transformam o filme em um espetáculo raro, sensível e corajoso, uma obra extraordinária mesmo tantas décadas depois.
Infâmia
3.8 17Quando procuro informações sobre os filmes que assisto, muitas vezes me surpreendo mais com as histórias que existem ao redor deles do que com os próprios roteiros. Foi exatamente o que aconteceu com "These Three" (Infâmia). O filme nasceu da peça teatral 'The Children's Hour' escrita por Lilian Hellman e apresentada na Broadway em 1934. Na época, a peça foi um sucesso estrondoso e ficou dois anos em cartaz, apesar de ser considerada ousada por tratar de uma relação romântica entre duas mulheres.
Isso me fez pensar em como, sob certos aspectos, a sociedade parece ter regredido. Diante do avanço do conservadorismo e do preconceito, talvez hoje uma peça assim não recebesse o mesmo reconhecimento do público e da crítica.
Dois anos depois, em 1936, o diretor William Wyler decidiu levar a história para o cinema. Mas Hollywood não permitiu que o roteiro passasse pelo rígido 'Código Hays', que censurava qualquer tema considerado 'imoral'. A menção ao lesbianismo foi retirada e substituída por um triângulo amoroso heterossexual. A própria Lilian Hellman fez essa adaptação, mas o resultado perdeu o impacto social quando trocou preconceito e intolerância por ciúmes e traição. "These Three" virou um filme incoerente e sem força dramática.
Somente em 1961 William Wyler conseguiu filmar a história como ela havia sido escrita. Com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine nos papéis principais, entregou uma obra poderosa, sensível e corajosa, que finalmente fez justiça ao impacto da peça.
Obsessão
4.0 209Gosto bastante de filmes de terror psicológico, em que o medo nasce da imaginação de vivenciar aquilo que se assiste. A trilha sonora e os 'jumpscares' cumprem bem o papel de aumentar a tensão, mas o grande mérito desse gênero está em mostrar personagens imersos em situações desesperadoras, como aquelas em que não há controle, solução ou saída. O pânico que invade suas vidas não se relaciona com a morte, mas com a perda da própria sanidade.
Apesar de ser uma produção de orçamento modesto, "Obsessão" é um terror psicológico surpreendente. Escrita e dirigida por Curry Barker, a trama começa de forma leve e aparentemente despretensiosa, acompanhando quatro amigos: Bear, Nikki, Ian e Sarah. Bear é apaixonado por Nikki, mas sua timidez o impede de revelar seus sentimentos. A partir desse tema comum, acontecimentos cada vez mais bizarros e surreais começam a acontecer, culminando em momentos capazes de gelar o sangue.
Seguindo a tendência do terror contemporâneo, "Obsessão" também explora elementos de magia e maldição, encerrando a narrativa com uma mensagem perturbadora: tentar manipular energias ou leis naturais pode ser fatal, sobretudo quando o Universo decide atender aos desejos de maneira diferente da imaginada.
Batalha Após a Vitória
5.0 1"Batalha Após a Vitória" encerra a trilogia de maneira coerente e emocionante, mostrando que o fim de uma guerra não se dá pela simples assinatura da rendição pelo exército derrotado. Ambientado após a derrota alemã em maio de 1945, o filme mergulha no território das alianças silenciosas, dos acordos políticos secretos e da reorganização das forças que sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich. A ameaça alemã ressurge de forma menos visível, mas ainda poderosa, principalmente por meio das articulações do general Gehlen, que tenta reconstruir sua rede de espionagem à semelhança da antiga organização Saturno, mas agora contando com o apoio indireto de setores do exército americano.
No centro dessa tensão permanece Kramer, talvez em sua fase mais solitária e arriscada, ainda infiltrado entre os alemães. Ele continua vivendo em meio a identidades falsas, suspeitas e perigos constantes, enquanto tenta manter o fluxo de informações para os soviéticos. O filme também revela os destinos de figuras importantes como Sophie Krause, a capitão Schönemann e o major Wilhelmy. Ao mesmo tempo, introduz à trama os generais americanos Smiles e O'Donnell, mostrando como os antigos aliados EUA e URSS começam lentamente a se enxergar como futuros adversários.
A divisão da Alemanha entre lado oriental e ocidental surge como consequência natural daquele cenário de desconfiança e disputa por influência, criando uma sensação de continuidade histórica que torna o desfecho ainda mais impactante. O filme transmite a ideia de que certas guerras não desaparecem, apenas mudam de forma. Entre espionagem, manipulação política e personagens marcados pelas perdas acumuladas ao longo da trilogia, este talvez seja um dos retratos mais humanos e inteligentes já feitos sobre o período pós-guerra, com um encerramento forte, elegante e que, para mim, tornou-se duradouro.
O FIM DE SATURNO
3.8 2"O Fim de Saturno" dá seguimento ao universo construído no primeiro filme, sem diminuir a tensão que tornou a história tão envolvente. Ainda situado no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial, em meio ao confronto entre União Soviética e Alemanha, o longa mantém a visão íntima da guerra, como uma disputa de inteligência, confiança e sobrevivência. As informações enviadas anteriormente por Kramer, no primeiro filme, passam a ter consequências concretas no avanço russo, enquanto os alemães tentam infiltrar agentes em território soviético numa ofensiva cada vez mais desesperada.
Agora Kramer terá de enfrentar um grave obstáculo em sua missão. Sem conseguir manter contato com os russos depois da interceptação de seu elo humano, ele se vê isolado e pressionado pelo tempo. É nesse momento que Sophie Krause deixa de ser apenas uma personagem secundária e se torna essencial para a história. A aproximação entre os dois não surge como um romance artificial, mas como consequência do desgaste emocional provocado pela guerra. Sophie carrega a decepção de quem já não acredita nos métodos do próprio país e sua escolha de ajudar Kramer torna o filme mais sensível, especialmente porque essa aliança nasce em meio ao medo constante de traição e descoberta.
Por fim, essa segunda parte da trilogia retrata de forma convincente o enfraquecimento do exército alemão diante do inverno soviético e dos erros estratégicos provocados pelas falsas pistas espalhadas pelos russos. Existe uma sensação de cansaço, desorientação e perda gradual de controle como sinais do colapso inevitável. O resultado é uma obra intensa e melancólica, que me deixou com uma ansiedade enorme pelo terceiro filme.
O CAMINHO PARA SATURNO
3.8 2A chamada 'Trilogia de Saturno' é formada pelos filmes "O Caminho para Saturno (1967)", "O Fim de Saturno (1968)" e "Batalha Após a Vitória (1972)", e talvez seja uma das grandes obras esquecidas do cinema soviético. Inspirada no livro de Vassíli Ardamatski e na trajetória real do agente Aleksandr Ivanovitch Kozlov, esses filmes transformam espionagem militar em drama humano, sem recorrer ao heroísmo ou a personagens caricatos. Há um cuidado em mostrar a guerra não pelo confronto armado, mas pela visão estratégica e silenciosa da paciência.
A direção de Villen Azarov é firme e sóbria. O elenco todo é espetacular, mas impressionam as interpretações de Mikhail Volkov e Georgi Zhzhyonov, que dão à trama uma dimensão profundamente humana. Seus personagens são homens obrigados a sustentar máscaras, controlar emoções e sobreviver ao peso psicológico da guerra.
Neste primeiro filme, "O Caminho para Saturno", acompanhamos a ida do capitão Krylov (sob a identidade de Mikhail Kramer) para a organização de inteligência alemã Saturno. O que chama atenção não é apenas o perigo da infiltração, mas a forma meticulosa como o personagem, mesmo com a vida por um fio, constrói sua credibilidade dentro da estrutura militar germânica. Seu treinamento, ascensão militar e métodos discretos de transmissão de informações criam uma tensão contínua, onde cada passo parece trazer uma ameaça.
A obra revela os bastidores políticos do fim da Segunda Guerra e do nascimento da Guerra Fria entre EUA e URSS. Também é interessante perceber como o filme aborda a fragmentação da Alemanha e o clima de incerteza vivido pela população naquele período. No centro de tudo está Kramer, um personagem admirável justamente por sua firmeza contida: alguém que conquista respeito tanto dos russos quanto dos alemães pela integridade, enquanto vive cercado por desconfiança, manipulação e guerra.
Da Vida das Marionetes
4.3 69O legado que Ingmar Bergman deixou para o cinema é tão importante e precioso que até hoje inspira obras de cineastas igualmente notáveis. Sua formação não era filosofia ou psicologia, mas ele condensava em suas histórias e personagens verdadeiros estudos clínicos da alma humana. O filme "Da Vida Secreta das Marionetes" é mais um testemunho disso. Talvez seja um dos menos conhecidos na sua filmografia, mas igualmente capaz de traduzir os dilemas e inquietudes humanas para cenários da vida real.
Pode ser que, assim como aconteceu comigo, as primeiras perguntas que venham à mente de quem assiste o filme sejam: "quem são as marionetes?" e "quem as manipula?". Sem meias palavras, Bergman deixa claras as respostas, e o mais assombroso é compreender que as suas marionetes não são bonecos inanimados, mas alegorias acerca da nossa própria natureza. Enquanto o teatro da vida segue seu curso, ninguém vê as mãos que manobram os fios. Não se conhecem suas almas, não se sabe de seus sentimentos e segredos.
No filme, acompanhamos o tormento psicológico de Peter Egermann. Um pensamento obsessivo atravessa sua alma, perturba sua sanidade, ameaça seu casamento e a integridade de sua esposa Katarina. É interessante destacar que, embora essa história não seja uma continuação de "Cenas de Um Casamento", Bergman reutilizou os mesmos nomes de um dos casais de 1973. É como se quisesse estabelecer uma ponte simbólica entre as duas narrativas, sugerindo que Katarina e Peter são variações de um mesmo arquétipo, representações das complexidades e fragilidades da vida conjugal.
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P.S.: Voltando para ressaltar a estonteante beleza "cara lavada"
de Christine Buchegger!
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Cenas de um Casamento
4.4 234"Cenas de Um Casamento" é uma série sueca criada para a televisão em 1973, composta por seis episódios de cerca de 50 minutos cada. Produzida com baixo orçamento, elenco reduzido e filmada em um estúdio improvisado na casa de Ingmar Bergman, na Ilha de Fårö, surpreendeu e tornou-se um enorme sucesso. No ano seguinte, o material foi adaptado para o cinema em formato de longa-metragem.
A série conta a história de Marianne e Johann, casados há dez anos e vivendo um relacionamento aparentemente feliz e bem sucedido. Liv Ullmann (que na época era casada com Bergman) interpreta Marianne e Erland Josephson dá vida a Johann. À medida que a narrativa avança, fica claro que a relação está marcada por silêncios, insatisfações, mágoas não resolvidas e pressões externas que ameaçam o frágil equilíbrio da vida conjugal.
O que se vê é o colapso daquela estrutura, a transformação das personalidades diante dos conflitos, o sofrimento que se converte em raiva e culpa, as idas e vindas cheias de emoção e a dificuldade de encerrar uma etapa já esgotada. Por fim, Marianne e Johann buscam maneiras de preservar o vínculo afetivo que insiste em uni-los e a necessidade que um sente do outro.
Diz-se que Bergman, após quatro casamentos e experiências pessoais marcadas por traumas, projetou muito de si no personagem Joahnn e no enredo da série. Em 2021, uma refilmagem foi lançada, mas sem alcançar a visceralidade característica de Bergman, que conseguia transformar dor e intensidade em arte de profunda força emocional.
O Mestre e Margarida
3.1 3É bem interessante o contexto em torno de "O Mestre e Margarida", dirigido por Michael Lockshin. O filme é uma adaptação moderna do romance de Mikhail Bulgákov. Há uma mistura de fantasia sombria e drama, com forte crítica à repressão cultural e ao regime de Stalin. A história não segue uma linha temporal única e linear, mas três planos narrativos que se entrelaçam. O primeiro mostra o escritor conhecido como Mestre tentando concluir seu romance sobre Pôncio Pilatos, considerado subversivo e censurado pelo Conselho de Cultura em Moscou. O segundo é a própria trama bíblica, que aborda dilemas de poder, covardia e verdade com base nas figuras de Pilatos e Jesus. O terceiro plano conta a chegada do misterioso personagem Woland, uma figura demoníaca que expõe a hipocrisia e a repressão da Moscou stalinista.
Bulgárov só conseguiu publicar o livro 'O Mestre e Margarida' décadas depois de escrito, porque sofreu censura sistemática na União Soviética. Já o filme de Lockshin enfrentou ataques devido ao posicionamento do diretor contra a guerra na Ucrânia. Além disso, seu conteúdo direto e crítico foi considerado incoerente com o financiamento público que recebeu. Mesmo assim, virou sucesso de bilheteria, repetindo de certa forma o destino do livro: perseguido pelo poder, mas consagrado pelo público.
Baile de Máscaras
3.5 1Lermontov, um dos maiores poetas russos, destacou-se por sua escrita ácida e humor ferino. Em vida, agradou e desagradou a muitos, mas suas obras atravessaram o tempo e se tornaram clássicos da literatura. Uma de suas peças, "Masquerade", ganhou uma adaptação fiel com o filme de mesmo nome, lançado em 1941 em homenagem ao centenário da morte do autor. Dirigido por Sergei Gerasimov e com Nikolay Mordvinov no papel principal, a história assemelha-se ao drama Othello, de W. Shakespeare, centrado em ciúme, suspeita de infidelidade e tragédia resultantes de desconfianças injustas.
O protagonista Yevgeny Arbenin é um homem marcado por contradições. Antes de casar-se com a jovem Nina, era um jogador astuto, mulherengo e trapaceiro, acumulando inimigos e má fama. Após o casamento, constrói uma máscara social de reclusão e serenidade, aparentando segurança e felicidade. No entanto, essa fachada logo se desfaz, revelando um caráter inseguro e ciumento.
Após um baile de máscaras oferecido pela aristocracia local, um episódio fortuito desperta nele a suspeita da infidelidade de Nina. Com o orgulho ferido e tomado de raiva e desconfiança, Arbenin passa a agir com enorme frieza e arrogância, buscando inícios da suposta deslealdade. Tentando manter intacta a honra perante a sociedade, hipocritamente Arbenin torna-se juiz e carrasco. Acreditando-se impune, é finalmente confrontado com os erros do passado e com o poder trágico da verdade presente.
Mata Hari
3.8 40 Assista AgoraMata Hari foi uma dançarina de música javanesa que conquistou enorme sucesso na França, no início do século XX, sempre lembrada por sua beleza e pela aura de mistério que a transformaram no arquétipo da espiã sedutora. Foram justamente esses aspectos de sua personalidade que George Fitzmaurice escolheu destacar no filme "Mata Hari (1931)", estrelado pela diva Greta Garbo.
O enredo não é biográfico, embora mencione fatos da vida da personagem; também não se propõe a exaltar seus feitos, apenas utiliza o glamour que a cerca para tornar tudo envolvente. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, apresenta Mata Hari como uma espiã a serviço da Alemanha (fato jamais comprovado). A narrativa acompanha os eventos de seu último ano de vida, em especial o romance que viveu com um jovem oficial russo (Ramón Novarro), seguido pela prisão e julgamento que selaram seu destino.
A interpretação de Garbo transforma a personagem em uma espécie de deusa etérea, sensual e inatingível para a maioria dos mortais. Do alto desse Olimpo, o que realmente brilha é a personalidade magnética da atriz. Em cada cena, parece que todas as luzes convergem para ela. Vale lembrar que a entonação das falas e o estilo teatral do elenco refletem o padrão de atuação da época, sendo a obra melhor apreciada pela perspectiva e contexto do passado.
Tudo no filme emana luxo: a fotografia impecável, a maquiagem que acentua a beleza e o mistério de Garbo, as peças exuberantes escolhidas para compor seu figurino. Os ricos vestidos, em sua maioria, foram bordados com pedrarias e cristais, transmitindo poder e elegância, reforçando o ar de frieza celestial da protagonista.
Coisa de celebridade mesmo!
As Três Irmãs
1Em 1901, Anton Tchékhov escreveu a peça 'As Três Irmãs', uma história melancólica levada ao cinema em pelo menos seis versões distintas. Este filme dirigido por Samson Samsonov é uma adaptação fiel da obra de Tchékhov. A fotografia em preto e branco traduz desde o início uma forte carga dramática e, enquanto a câmera percorre a densa floresta de bordos e bétulas, é quase possível sentir a inércia do ar, o isolamento e a clausura que cercam a vida de Olga, Masha e Irina. Seus longos vestidos negros, que varrem lentamente o chão, fazem com que se pareçam lúgubres aves da noite.
Elas têm um irmão, Andrei, que acaba se tornando mais uma fonte de tristezas e problemas ao decidir casar-se com Natasha, uma mulher fútil e controladora. No coração de cada uma daquelas vidas há segredos e sonhos, uma vontade pulsante de abandonar o local onde vivem (uma pequena província russa) e mudar-se para Moscou. O marasmo daqueles dias começa a ser quebrado com a proximidade dos militares destacados para aquela região, que passam a frequentar a casa dos irmãos. Entretanto, isso está longe de significar alegria. Os amores impossíveis, ciúmes, escolhas difíceis e perdas dolorosas que resultam desse convívio amplificam o vazio e o confinamento.
Diante das incertezas e dilemas individuais, os personagens parecem resignar-se com a apatia do presente, acreditando que o contentamento não está ao seu alcance e que seus infortúnios servirão de algum modo para melhorar o mundo das gerações futuras. Eles sabem que o tempo os tornará irrelevantes e esquecidos, assim como suas histórias e amarguras, mas terão contribuído para que a felicidade, enfim, faça parte da vida de muitos. Aqui temos um drama pesado, com uma passagem do tempo quase imperceptível, como se materializasse a letargia daquelas pobres criaturas.
Juventude
4.2 81Um dos mais lindos filmes de Bergman. Em "Summer Interlude", os primeiros anos da vida são retratados de maneira poética e lírica. A juventude surge luminosa, tem cor, perfume e alegria, como evocam as imagens cuidadosamente enquadradas, tais como pinturas de um dia de verão, entre flores, pássaros, campos e praias.
À primeira vista pode parecer improvável que Bergman, conhecido por seu estilo introspectivo e marcado por questões existenciais e psicológicas, tenha concebido um filme com tal atmosfera. No entanto, os elementos reflexivos também estão presentes em "Summer Interlude", já que o esplendor da juventude faz parte somente das memórias de Marie, uma bailarina clássica que guarda sua história sob uma aura de mistério.
Durante um ensaio para o balé 'Lago dos Cisnes', Marie recebe um pacote anônimo e, ao abri-lo, confronta-se com um passado de dores e perdas difíceis de superar. A melancolia de seu presente contrasta com as lembranças da juventude, revividas sob intensa carga emocional. Bergman mostra como as experiências do passado moldam a identidade e as escolhas, tema que retomaria em 'Morangos Silvestres' e em tantas outras obras.
Tsinga
2.8 1O filme "Tsinga", dirigido por Vladimir Golovnev, é um thriller psicológico inspirado em uma antiga lenda do povo Nenet. A tradução literal do título é “escorbuto”, doença letal causada pela deficiência prolongada de vitamina C, que se manifesta por sintomas físicos e psíquicos severos, e historicamente acometia os viajantes em expedições longas a lugares isolados.
A trama acompanha uma viagem missionária ao "fim da Terra", na região do Ártico, realizada em agosto de 1991. A bordo de um pequeno barco, o padre Pyotr e seu noviço Fyodor seguem em missão de catequese cristã, levando ensinamentos bíblicos a povoados remotos e batizando-os. Parte do filme se constrói em estilo 'found footage', a partir dos registros feitos por Fyodor em sua câmera manual (olhar interno), enquanto outra parte é narrada por uma câmera onisciente (olhar externo). Essa alternância de técnicas diferencia o real do imaginado e reforça a sensação de estranheza.
O longa tem atmosfera sombria e em alguns momentos parece flertar com o terror. A locação desértica e gelada, onde o nada se funde ao horizonte em meio à névoa, intensifica o desconforto. O enredo mescla mito e realidade ao abordar crenças espirituais, pecados e valores morais, tocando em uma ferida que angustia os cristãos: pregar a palavra de Deus sem se sentir digno dela. Nos créditos finais, o filme conecta essas duas dimensões: a mítica e a histórica, e lembra que em 26 de dezembro de 1991 a União Soviética deixou de existir, sugerindo (talvez) uma metáfora: assim como o escorbuto é uma doença que destrói o corpo, as crises políticas são igualmente disfuncionais e corroem sociedades.
Duas Pessoas e Um Cão
3.7 2"Two People in One Life and a Dog", do diretor Andrey Zaitsev, é um filme raro em muitos sentidos. Raro por tratar a velhice não como peso ou sombra, mas como uma etapa natural, vivida com alegria e serenidade mesmo diante das limitações. Raro por escapar dos lugares-comuns, sem recorrer a melodramas ou à obsessão pela morte. Raro por revelar três formas de vínculo igualmente belas: um casamento que atravessa meio século, sustentado por cumplicidade e leveza, sem esconder as marcas que o tempo inevitavelmente deixa; o cuidado silencioso entre humanos e animais; e a presença de pessoas mais jovens, que se aproximam dos idosos com afeto e abertura para aprender com sua experiência.
Entre esses jovens, Polina se destaca. Suas interações com o casal Ludmila e Igor revelam a riqueza da troca entre gerações: ela encontra acolhimento e respeito, e em reconhecimento oferece frescor e ternura. Uma das cenas mais delicadas nasce justamente desse encontro, quando Polina dança embalada por Ah! Non Credea Mirarti da ópera La Sonnambula, de Bellini. Ali, música, gesto e olhar se fundem em pura poesia, criando um instante que suspende o tempo.
Como tantas obras russas, este filme não busca um final feliz para o destino das pessoas, nem tampouco faz promessas de mudança. Ele se propõe a ser uma fatia de vida, um instante preservado. O que vemos são dias que seguem, com sua mistura de lembranças, pequenas tristezas, silêncios e companheirismo para apreciar o presente, venha ele da forma que vier.
O Aviador
3.0 1"The Aviator", do diretor russo Egor Konchalovsky, baseia-se no livro de mesmo nome escrito por Eugene Vodolazkin. É um filme que mescla ficção científica com drama psicológico para contar a história do personagem Innokenty Platonov, um homem do século passado, submetido a um experimento criogênico e reanimado nos dias atuais, após quase 100 anos de hibernação. Ao despertar, sua memória está apagada e será necessário que sua mente resgate, aos poucos, lembranças de sua vida.
A premissa é interessante e nos convida a refletir sobre a obsessão humana pela imortalidade, bem como analisar prós e contras do dia em que a ciência conseguir tal feito. A mente humana será exposta a uma constante necessidade de readaptação em todos os aspectos, o mundo 'vindouro' apresentará inúmeras transformações e as pessoas importantes e amadas não estarão mais presentes. Haverá felicidade possível?
O livro fez bastante sucesso desde o lançamento, mas o filme poderia refinar alguns pontos. As cenas ambientadas no início do século XX parecem inconsistentes e prejudicam a imersão. Há elementos de modernidade na aparência dos personagens, nas roupas, cabelos e atitudes. Também teria sido interessante aplicar a psicologia das cores para representar o passado, o que poderia imprimir um tom nostálgico à narrativa. E, por fim, a ênfase no envolvimento emocional de Innokenty e Nastya (sósia perfeita de seu antigo amor) desvia a atenção das lutas internas do personagem, que mereciam ser melhor exploradas.
Nós Três
3.2 1"The Three of Us" é um dos longas exibidos no Festival de Cinema Russo 2026 e marca a estreia da jovem cineasta Aleksandra Sarana na direção de longas-metragens. Trata-se de uma comédia romântica no estilo road movie, que se destaca por sua leveza e frescor, sem muitos clichês comuns do gênero e confirmando que a renovação do cinema segue por um bom caminho.
Acrescento que sou uma admiradora do cinema russo, porque acho que não quer ser apenas entretenimento, e sim uma arte que se respeita e se leva a sério sem tornar-se monótona e nunca descuidando da qualidade, especialmente quanto à estética e narrativa.
Neste filme acompanhamos Dasha (Irina Starshenbaum), recém saída de um relacionamento e em busca de novos rumos para sua vida. Prestes a fazer uma viagem de trabalho, ela conhece Sergey ( Sergey Kuznetsov) em circunstâncias um tanto constrangedoras que se transformam em ponto de virada. Ao percorrerem pequenas cidades e vilarejos, eles descobrem também novas perspectivas sobre si mesmos e sobre o amor.
Felicidade Conjugal
3.0 1Filme da diretora Stasya Tolstaya, baseado no livro Felicidade Conjugal, de Lev Tolstoy, com preservação dos personagens e da essência da obra. Ao mesmo tempo, Stasya inseriu na trama a sua liberdade criativa, resultando numa adaptação que dialoga com o clássico mas tem sua originalidade.
O drama vivido pelo casal Masha e Sergey Mikhailovich continua presente em toda sua intensidade, num arco doloroso que vai da paixão ao desencanto e culmina na resignação. O figurino e a ambientação são cuidadosamente trabalhados para remeter os acontecimentos ao século XIX, contudo algumas cenas parecem estranhas e deslocadas, retratando tempos mais atuais, quase como se a cineasta quisesse nos mostrar que muitas daquelas situações poderiam estar acontecendo em qualquer época.
A felicidade conjugal, sob o olhar de Tolstoy, é como a varinha verde que Masha buscava na infância: uma ilusão inocente. No mundo adulto não há magia, apenas a realidade frequentemente espinhosa.
Lermontov
3.5 1"Lermontov" é um drama intimista que se propõe a retratar o último dia de vida do poeta russo Mikhail Yurievich Lermontov. Baseado em fatos reais, o filme mergulha na tensão crescente entre o escritor e seu antigo amigo Nikolai Martynov, culminando no duelo fatal que marcou a história da literatura russa. De início, o ritmo lento e contemplativo pode incomodar, mas é justamente nesse compasso pausado que a obra se torna marcante, permitindo que os silêncios e os vazios carreguem o peso da tragédia iminente.
A fotografia é linda, com paisagens rurais da aldeia de Pyatigorsk, captadas com delicadeza, revelando uma serenidade que contrasta com o conflito entre os protagonistas. A amizade já desgastada pelas constantes provocações de Lermontov ganha contornos definitivos quando Martynov, ofendido em sua honra, decide desafiá-lo. O filme não dramatiza excessivamente esse embate, mas deixa que a tensão se acumule em cada quadro, reforçando a atmosfera de inevitabilidade.
Ao retratar a rotina pacata e quase banal do poeta, a obra transmite uma sensação de paz diante da tragédia. A câmera estática, que se detém em portas, paredes e paisagens, por vezes nos deixa apenas ouvir os sons ao redor e imaginar o que não se vê. Essa escolha estética reforça a delicadeza e a elegância do filme. "Lermontov" é uma experiência sutil e contemplativa, que recompensa com beleza e profundidade.
Priest of Darkness
3.5 2"Priest of Darkness" é mais um tesouro do cinema japonês. Um filme com uma história que hoje soa quase ingênua, mas guarda a força cultural da época. As atuações são bastante teatrais, como era comum nos filmes do início do século passado. Por tratar-se de um drama, achei que a inserção do humor ficou destoante e desnecessária, mas enfim, ele está presente.
O que mais me chamou atenção na trama foi o choque entre as duas faces do Japão: aquela marcada pela dignidade e lealdade, e a outra, onde se escondem crimes e contravenções. Quando essas duas realidades se encontraram, uma pequena família se desestruturou totalmente, mostrando como o peso da tradição e da sombra, se presentes no mesmo contexto, pode trazer consequências terríveis.
Sim, o filme parece nos contar uma fábula, mas por trás daquela inocente beleza havia uma sociedade que se impunha sacrifícios severos em nome dos costumes, chegando a níveis extremos. Esse cenário nos lembra o quanto um encontro entre honra e transgressão podia ser aterrador.