"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor. Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador. O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos. Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
A 2ª temporada foi, até agora, a melhor de Shameless pra mim. A 1ª tinha muito essa função de apresentar aquele universo e os personagens, né? Já aqui, como tudo já está montado, a série consegue aprofundar muito mais as relações e os conflitos. E o mais impressionante é que ela faz isso sem perder o humor: continua tendo cenas absurdamente engraçadas, daquelas de fazer chorar de rir, mas ao mesmo tempo entrega momentos de uma profundidade psicológica e afetiva muito real.
O que mais me pegou nessa temporada foi a forma como Shameless trabalha maternidade e paternidade. A série deixa muito claro que ser pai ou mãe não tem a ver, necessariamente, com biologia. Frank e Monica são os pais “de sangue”, mas isso por si só não faz deles figuras capazes de sustentar esse lugar de forma estável, protetora ou responsável. A Monica até tem afeto, isso dá pra ver, mas afeto sozinho não segura ninguém quando falta estrutura emocional e psíquica. Em contrapartida, a temporada mostra personagens que, mesmo sem laço biológico, conseguem ocupar esse lugar de cuidado de um jeito muito mais verdadeiro.
E foi aí que a relação entre Kevin e Ethel me pegou de jeito. Tem algo de muito bonito e muito doloroso na forma como ele vai se tornando, pra ela, a primeira figura paterna que realmente cuida, acolhe e protege. A cena em que ela, arrumando as malas, agradece “por tudo” me desmontou completamente. Porque não parece um agradecimento por um gesto específico, mas por tudo aquilo que ela finalmente recebeu ali: cuidado, amparo, humanidade. Pra mim, a temporada inteira bate muito nessa tecla de que paternidade e maternidade têm muito mais a ver com presença, vontade de cuidar e responsabilidade afetiva do que com sangue.
A Karen também entra forte nessa discussão. A série não romantiza em nada a maternidade biológica, e eu gostei muito disso. Desde antes do bebê nascer já fica claro que ela não quer ocupar esse lugar, e Shameless não tenta maquiar isso nem transformar recusa em ternura falsa. Acho muito forte quando a série encara essas verdades desconfortáveis sem cair em moralismo barato.
Outra coisa que me conquistou demais foi a relação entre Kevin e Veronica. Eles não são só um casal com química e desejo, embora isso exista muito. O que mais me pega ali é a cumplicidade. Existe entre os dois uma intimidade muito viva, uma sensação de parceria real, de pertencimento, como se eles compartilhassem não só tesão, mas uma vida mesmo. Até quando entram em conflito, quando há ciúme, raiva, erro e desgaste, continua existindo amor, desejo e uma sensação de que um realmente é casa pro outro. E isso deixa tudo ainda mais bonito.
No fundo, o que mais me atravessou nessa temporada foi essa ideia de que um casal e uma família podem, às vezes, virar a chance de viver de outro jeito aquilo que foi ferida na infância. Não no sentido de cura mágica, mas de reparação possível. De finalmente encontrar, no amor e no cuidado, uma cena diferente daquela que faltou antes. Acho que Shameless toca nisso de um jeito muito forte.
No fim, essa temporada me ganhou justamente porque consegue ser caótica, engraçadíssima, triste e profundamente humana ao mesmo tempo. Por trás de toda a sujeira, do humor absurdo e dos personagens completamente disfuncionais, existe uma leitura muito afiada sobre abandono, afeto, cuidado e família. E é aí que a série cresce de verdade.
Eu já tinha cruzado com várias cenas soltas de Shameless no TikTok e sempre ficava com essa sensação de que a série era “pra frente” demais pra televisão tradicional. Apareciam cortes de situações que normalmente são tratadas como tabu, sempre com um grau de ousadia e naturalidade que me chamava muita atenção. Eu tinha a impressão de que era aquele tipo de história que fala de sexo, drogas, precariedade e coisas “feias” da vida sem pedir desculpa, e isso já me deixava curiosa.
Quando finalmente sentei pra ver a primeira temporada, foi amor em tempo recorde. Logo no primeiro episódio eu já estava completamente fisgada, e ali pelos dois primeiros eu já tinha entendido que não era só mais uma dramédia “politicamente incorreta”: era uma série com muito conteúdo por trás da sujeira, do caos e da gritaria. É óbvio que tem momentos extremamente ácidos, piadas cruéis, cenas bem explícitas e situações que, em qualquer outra produção, soariam apenas gratuitas. Mas aqui eu senti exatamente o contrário: o fato de conseguirem encaixar obscenidade, nudez, humor pesado e temas espinhosos com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com profundidade de enredo, virou um mérito, não um defeito.
Shameless consegue fazer algo difícil: mostrar uma família quebrada, atolada em problemas financeiros, emocionais e afetivos, sem cair nem na romantização boba nem no miserê apelativo. A série fala de sobrecarga emocional, de filhos que viram cuidadores, de amizades que funcionam como rede de apoio improvisada, de gente que se vira com o que tem, do jeito que dá, em um contexto de abandono estrutural. Tudo isso atravessado por um humor ácido e sagaz, que às vezes faz você rir e, dois segundos depois, perceber o quão trágica é a situação que acabou de achar engraçada. No fim das contas, a primeira temporada me passou essa sensação de que, por trás de todas as cenas “obscenas” e do choque inicial, existe uma história muito bem escrita sobre família, lealdade e sobrevivência emocional em um mundo que não está minimamente preocupado em ser gentil com ninguém.
Nos personagens, pra mim, a temporada se organiza muito em torno de três eixos: Fiona, Frank e Lip. A Fiona é o exemplo mais gritante de alguém que abdicou da própria vida pra segurar um castelo que vive caindo. Ela é, de fato, o pilar daquela casa, não por vocação materna fofinha, mas porque a mãe fugiu e o pai é um Homer Simpson de Chernobyl, incapaz de assumir qualquer responsabilidade que não seja a próxima garrafa. Gosto muito de como a série mostra o cansaço dela, o jeito que ela tenta ter uma vida própria e, ao mesmo tempo, não consegue não cuidar de todo mundo. A primeira temporada já deixa claro que ela merecia um mundo mais gentil do que aquele, mas também que sem ela tudo desmorona em dois minutos.
O Lip é um dos meus favoritos. Ele é meio porra louca, vive tomando decisões questionáveis, mas o coração dele está no lugar o tempo todo. É o típico garoto superinteligente, autossabotado pelo contexto e pelas próprias escolhas, que às vezes parece que vai ser engolido pelo ambiente onde vive. Gosto de como ele equilibra cinismo com cuidado real pela família, sem nunca virar “o bonzinho” da história. Já o Ian eu achei simplesmente adorável desde o começo. Ele é introvertido, mais contido, mas muito corajoso na forma como vive a própria homossexualidade ali naquele contexto todo torto. A namorada de fachada, a amiga da escola, as pequenas estratégias pra se proteger e, ao mesmo tempo, não negar quem ele é… tudo isso foi me ganhando.
A irmã mais nova, a Debbie, é outro destaque gigante. Ela é muito inteligente, muito avançada pra idade, com um senso de cuidado e de leitura emocional das coisas que às vezes supera o dos adultos. É aquela criança que você sente que merecia uma infância muito mais leve, mas que faz o possível dentro do caos que tem. O Carl, por outro lado, é quase o oposto: a criança com uma violência meio inata, que reage às coisas mais bizarras e perturbadoras com uma naturalidade assustadora. E é justamente isso que rende alguns dos momentos mais engraçados e mais incômodos ao mesmo tempo, porque a série não esconde que tem algo errado ali, mas também usa essa “brincadeira com a brutalidade” como comentário sobre o ambiente em que ele está crescendo.
O Frank, como já dá pra perceber desde o primeiro episódio, é esse Homer Simpson elevado à enésima potência: um pai tão ruim que até o Homer pareceria responsável ao lado dele. Ele funciona como alívio cômico em várias cenas, mas também como retrato muito incômodo de um alcoolismo narcísico que atravessa a vida de muita gente. Ele ri, manipula, some, reaparece, faz discurso bonito quando interessa, e a série não tenta redimir isso com facilidade. A Sheila, a mulher com quem ele vai morar, entra quase como uma co-protagonista, trazendo essa mistura muito específica de fragilidade, esquisitice e doçura. É uma personagem que, mesmo cheia de manias e limitações, acaba oferecendo um tipo de afeto e cuidado que o Frank nunca teve em lugar nenhum.
Sobre o Steve (que na verdade é Jimmy), eu comecei gostando muito dele. A forma como ele trata a Fiona, o jeito como parece entrar na bagunça da família sem julgamento, tudo isso faz com que ele ganhe muitos pontos rápido. Só que a primeira temporada também vai revelando as camadas de mentira: o nome falso, a família que ele esconde, a escolha de fugir em vez de encarar as consequências e ir pra cadeia. No fim das contas, por mais carismático que ele seja, tudo isso derruba bastante o crédito dele. E aí sobra o policial loiro, o Tony, que é quase o oposto: doce, correto, devotado, aquele cara que ajuda a tirar os irmãos da cadeia, que se declara, que tem a virgindade “roubada” pela Fiona… e, ainda assim, não é suficiente pra despertar desejo nela. Dá até dó, porque ele claramente merecia alguém que olhasse pra ele com o mesmo brilho que ela reserva pros caras mais caóticos. Mas é coerente: a série mostra que a Fiona se sente viva justamente com esses homens mais perigosos e instáveis, e a segunda temporada já começa deixando isso bem claro.
Pra mim, a cereja do bolo da primeira temporada é, sem dúvida, a Sheila. No comecinho, eu jurei que ela ia ser só uma personagem irritante, meio caricata, presa na própria neurose. Aquelas manias, a casa hermeticamente fechada, o pânico absoluto diante da porta… tudo parecia raso de propósito. Só que, conforme a temporada avança, a série vai abrindo camadas dela com uma delicadeza absurda. A fobia de sair de casa deixa de ser “esquisitice” e vira um retrato muito sensível de trauma, medo e paralisia, e é muito bonito ver como, mesmo apavorada, ela consegue atravessar esses limites quando é realmente necessário: seja por desespero, seja por raiva, seja pra proteger o bebê da Fiona ou defender a própria filha do pai abusivo.
Tem uma cena específica, aliás, que ficou marcada em mim de um jeito quase doloroso de tão bonita: quando a Sheila fica responsável de cuidar do bebê a pedido do Steve. Ver ela se divertindo, se encantando e se organizando em torno daquele corpinho pequeno ativou muito o meu instinto materno, porque dá para sentir que aquele cuidado faz bem para todo mundo ao mesmo tempo: para ela, que encontra uma função amorosa concreta; para o bebê, que recebe um colo seguro; e para a família dele, que pode respirar um pouco fora da lógica exaustiva dos cuidados. Ali eu tive a sensação de que a Sheila vira, de fato, uma das figuras mais importantes do enredo: ela é quem encarna a função materna para os personagens mais jovens e funciona como uma espécie de esposa carinhosa improvisada para o Frank, mesmo sem nunca ter assinado papel nenhum.
Gosto muito de como, aos poucos, a Sheila vai deixando de ser “a mulher estranha do Frank” pra se tornar um dos corações mais humanos da série. Tem uma cena perto do final da temporada em que o Frank diz que ela é a única pessoa capaz de ser gentil com ele, e aquilo resume bem o lugar que ela ocupa ali. Ela é carinhosa com a filha, com o Frank, com as crianças, com quem cruzar o caminho dela, quase como se esse coração enorme nem coubesse só na própria história. A primeira impressão é de figura cômica e irritante; a última é de uma mulher profundamente doce, complexa e corajosa, que a gente aprende a amar sem nem perceber quando foi que isso aconteceu.
O filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
Severance sempre foi uma série que sabe caminhar em silêncio, e a primeira temporada fez isso com uma elegância rara. Cada cena parecia empurrar o mundo para um lugar mais estranho, mais tenso, mais inevitável. Terminei a S1 com a sensação de ter visto algo muito coeso, uma distopia íntima que não precisava gritar para ser brutal.
A segunda temporada, pra mim, quebra esse feitiço em dois pontos muito específicos: o episódio do retiro na neve e o episódio da cidade natal da Cobel. Eu entendo a intenção de abrir o mundo, aprofundar mitologia e dar textura. Mas do jeito que isso foi executado, a série saiu do próprio trilho e começou a girar em torno de si mesma. Não como expansão, mas como digressão que drena tensão.
O efeito foi direto e incômodo: eu não consegui assistir de forma contínua. Assisti parcelado, perdia o interesse, voltava outro dia, sempre me perguntando se ainda valia a pena continuar. Isso nunca aconteceu comigo na primeira temporada. Na S1, eu era puxada pela narrativa. Aqui, em certos momentos, me senti largada no acostamento.
O que dói é que Severance continua cheia de ideias fortes e imagens que ficam na cabeça. Mas esses desvios narrativos, pra mim, jogaram a percepção de qualidade da temporada no chão quando comparados com a precisão cirúrgica da primeira. Fica a sensação de um coração brilhante tentando bater dentro de uma estrutura que decidiu se alongar onde não precisava.
Another Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Filme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Sinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Callum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?
Assistindo pela primeira vez, em 2025, pela Globoplay, devo confessar que a achei extremamente viciante. Eu já era fã do trabalho do Walcyr Carrasco desde quando assisti "O outro lado do paraíso" (2017–2018), que é uma novela muito maior e mais complexa do que "Verdades Secretas", que, por sua vez, é mais enxuta. Achei interessante assistir aos atores e atrizes que fizeram ambas as novelas, em especial a Fanny, a Larissa, a Hilda, o Roy e a Nina.
Bom, sobre a novela em si, ela desnuda muita coisa pesada no mundo da moda, como prostituição de luxo, abuso de drogas, exploração sexual etc. Contudo, se por um lado a novela faz essa denúncia de uma forma muito responsável em relação ao tema do vício (em diferentes contextos, desde o alcoolismo da mãe do Anthony até o perder-se da Larissa na cracolândia), por outro lado, achei bizarro – do começo ao fim – como a relação da Angel com o Alex parece ser apresentada de uma maneira totalmente romantizada.
Lembremos: a personagem tem 16 anos e, depois, com 17, torna-se enteada dele. Por mais que tenha sido importante retratar essa situação, que infelizmente ocorre muito na vida real, achei que faltou delicadeza e responsabilidade na forma como isso foi feito. Esse, para mim, é o único defeito dessa novela.
Além disso, é claro, há as inúmeras vezes em que os roteiristas repetem os mesmos absurdos várias vezes seguidas, como nas incontáveis vezes em que a Fanny perdoou o Anthony, ou nas vezes em que o Alex e a Angel se pegavam bem debaixo do nariz da Carolina. Ou talvez essas duas, Fanny e Carolina, sejam realmente as personagens mais burras da novela, como uma representação de como certas mulheres são facilmente manipuladas por certos homens.
A Giovana talvez seja a personagem mais inteligente da novela, com diálogos impecáveis e um humor ácido que nos encanta.
Antes de qualquer coisa: a fotografia de Pluribus é um absurdo de bonita. Cada cena parece pensada com uma calma meio hipnótica, como se a série respirasse por conta própria. As palhetas de cores e tudo mais. E o mais impressionante é que é uma série que não precisa de efeitos especiais para ser incrível. A cena do mercado é o auge disso: tudo se reorganiza diante da gente de um jeito tão preciso, inesperado, impossível e, ao mesmo tempo, tão… humano. O ápice da ficção científica dessa série é justamente nos fazer imaginar como seria o mundo se o próprio ser humano funcionasse assim, refinado, organizado, altruísta. Mas, pra mim, o que mais brilha não é a estética nem a ideia sci-fi. É o fato de que essa hive-mind parece profundamente benevolente. Não há aquela ameaça típica das histórias do gênero. Pelo contrário: existe uma suavidade, uma delicadeza estranha, quase reconfortante. Três episódios e eu já estou encantada, ansiosa pelos próximos.
Tenta ser um filme de humor, mas nem sempre consegue. Francamente, eu prefiro 10 mil vezes o filme de tema análogo, "He's Just Not That Into You" (2009), ao lado do qual este aqui fica bem fraco. Mas enfim, não é um filme de todo ruim.
Como alguém que ficou viciada em The Boys, posso dizer que esse spin-off tem uma qualidade à altura, especialmente em termos de efeitos especiais. O humor também permanece, assim como as cenas de violência obscena. Eu estava com saudade desse universo cinemático.
P.S. Achei muito legal ver que pegaram os atores de O Mundo Sombrio de Sabrina para interpretar a Marie e o Andre.
Vi algumas inconsistências narrativas aqui e ali, mas dá para fazer vista grossa.
Esse filme me pegou como um rito de iniciação. Como filha devota de Afrodite, assistir The Love Witch foi como atravessar um espelho encantado — e do outro lado, encontrar o reflexo distorcido de tudo aquilo que a deusa do amor pode se tornar quando o desejo escapa da alma e vira compulsão.
Visualmente, ele é um deleite: parece um filme perdido da década de 70, resgatado de um baú mágico. A paleta saturada, os figurinos, os olhares longos e a atmosfera de feitiço permanente… tudo evoca uma estética cuidadosamente artificial, que seduz como perfume doce demais. Me senti assistindo uma mistura de Elvira, Rainha das Trevas com as alucinações de Alejandro Jodorowsky, temperada com aquela sensação estranha e encantada de uma cidadezinha à la Twin Peaks, onde o bizarro é rotina.
A protagonista, Elaine, é uma bruxa sensual que usa feitiçaria para ser amada — mas os homens que ela seduz acabam arruinados, porque o amor que ela quer é impossível: ela não busca um vínculo, busca ser adorada. E isso é o ponto mais agudo da dor. Pra mim, é evidente: ela é uma filha de Afrodite que perdeu o eixo. Representa o que acontece quando o arquétipo do amor vira excesso — quando o desejo de ser amada se transforma em vício, e a feminilidade, em maldição. Elaine é ao mesmo tempo inspiração e alerta: símbolo do poder da beleza, mas também da prisão que ela pode se tornar.
A diretora, Anna Biller, diz que o filme não é uma paródia, mas uma tragédia sobre a experiência feminina. E faz sentido. Tudo ali gira em torno de como a mulher é ensinada a ser desejável, a performar o encanto, mas raramente a existir fora disso. A bruxaria é metáfora: feminilidade como feitiço — potente, perigosa, e muitas vezes fatal.
Na internet, o filme gerou divisões: tem quem ame como obra feminista brilhante, tem quem ache problemático ou vazio. Também surgiram acusações ideológicas contra a diretora (como ser TERF), mas até agora, tudo especulativo — nada confirmado. O que permanece é a obra em si: estranha, teatral e incômoda no melhor dos sentidos.
No fim, achei o filme curioso, interessante e peculiar. Um tanto estranho (o que é bom), por vezes anticlimático. Mas inquietante. Me deixou com a sensação de ter tocado num espelho mágico — desses que não mostram o que você é, mas o que você poderia ser, se esquecesse quem é.
Shameless (US) (3ª Temporada)
4.6 172Cada vez mais apaixonada por essa série.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
3.3 24"Good Luck, Have Fun, Don’t Die" (2026) é uma ficção científica muito ousada. Ele flerta com o terror, com a fantasia e até com uma certa lógica de pesadelo tecnológico, mas, no fim, o que ele está tentando fazer é sci-fi de verdade: brincar com IA pós-singularidade, viagem no tempo, simulação, clonagem e colapso do real sem mastigar tudo para o espectador. E isso, pra mim, tem muito valor.
Ao mesmo tempo, tive uma sensação curiosa assistindo: parece um filme mais longo do que realmente é. Não porque seja arrastado o tempo todo, mas porque em alguns momentos ele perde um pouco da tração que precisaria ter para sustentar tantas ideias grandes ao mesmo tempo. Ainda assim, é o tipo de filme que eu admiro mais do que a média justamente por mirar alto, por querer ser estranho, ambicioso e meio perturbador.
O problema é que uma coisa é ser complexo, outra é parecer um pouco furado. Assim como eu comentei na minha avaliação de "Primer" (2004), eu não tenho nenhum problema com filme difícil. Gosto, inclusive. O que me incomoda é quando a sensação não é de complexidade bem arquitetada, mas de que os próprios roteiristas talvez não tenham pensado todas as respostas antes de filmar. Aí deixa de ser só instigante e passa a soar um pouco como queijo suíço narrativo: fascinante, mas cheio de buracos.
Mesmo assim, achei interessantíssimo. Tem imagens muito fortes, conceitos realmente provocativos e uma ousadia rara dentro da ficção científica contemporânea. É daqueles filmes que continuam ecoando depois, mesmo quando você termina ainda meio confusa e vai parar em análise no YouTube e thread no Reddit tentando montar o quebra-cabeça inteiro. Talvez ele não feche tão bem quanto deveria, mas a ambição dele é grande o bastante para me ganhar.
Pra mim, o filme faz mais sentido quando a gente para de tentar encaixá-lo como uma ficção científica “limpa” de viagem no tempo e aceita que ele funciona numa lógica mais híbrida, quase de videogame. Não necessariamente no sentido de que “era tudo simulação desde o começo”, mas de que aquele mundo já está contaminado por loops, retries, prompts e camadas de realidade manipulada. Isso explica melhor por que tanta coisa parece ao mesmo tempo concreta e estranha, e por que a sensação final não é exatamente de vitória.
Também acho que a Ingrid é muito mais central do que o filme faz parecer no começo. A chave dela não é só ser parceira do homem do futuro, mas ser uma exceção biológica real num mundo dominado pela tecnologia. A alergia dela deixa de parecer só uma esquisitice e passa a soar como possível antídoto. Então o novo plano do homem do futuro, no fim, não seria apenas “tentar de novo”, mas investigar uma forma de perpetuar ou reproduzir essa exceção biológica como resistência à IA.
E aí entra um detalhe que, pra mim, muda bastante coisa: o cartão dado à Ingrid no final parece ser o mesmo da agência ligada à Susan e à clonagem de filhos. Isso faz a cena ganhar outro peso, porque sugere que o novo plano pode passar justamente por essa infraestrutura de clonagem. O filme não mastiga tudo, mas claramente liga maternidade, clonagem, repetição e futuro de um jeito que não parece gratuito.
Sobre o final, o que mais fez sentido pra mim foi pensar que a “vitória” deles já estava contaminada. A IA não quer só destruir; ela quer capturar, seduzir e oferecer uma realidade confortável o bastante para que ninguém mais queira resistir. Por isso aquele desfecho perfeito demais parece menos um final feliz e mais uma armadilha elegante.
No fim, a leitura que mais funcionou pra mim foi essa: é um filme em que viagem no tempo, IA, clonagem e simulação já se embaralharam tanto que até a própria ideia de realidade virou uma coisa instável. Isso não resolve todos os furos, mas pelo menos organiza melhor o caos.
Shameless (US) (2ª Temporada)
4.5 157A 2ª temporada foi, até agora, a melhor de Shameless pra mim. A 1ª tinha muito essa função de apresentar aquele universo e os personagens, né? Já aqui, como tudo já está montado, a série consegue aprofundar muito mais as relações e os conflitos. E o mais impressionante é que ela faz isso sem perder o humor: continua tendo cenas absurdamente engraçadas, daquelas de fazer chorar de rir, mas ao mesmo tempo entrega momentos de uma profundidade psicológica e afetiva muito real.
O que mais me pegou nessa temporada foi a forma como Shameless trabalha maternidade e paternidade. A série deixa muito claro que ser pai ou mãe não tem a ver, necessariamente, com biologia. Frank e Monica são os pais “de sangue”, mas isso por si só não faz deles figuras capazes de sustentar esse lugar de forma estável, protetora ou responsável. A Monica até tem afeto, isso dá pra ver, mas afeto sozinho não segura ninguém quando falta estrutura emocional e psíquica. Em contrapartida, a temporada mostra personagens que, mesmo sem laço biológico, conseguem ocupar esse lugar de cuidado de um jeito muito mais verdadeiro.
E foi aí que a relação entre Kevin e Ethel me pegou de jeito. Tem algo de muito bonito e muito doloroso na forma como ele vai se tornando, pra ela, a primeira figura paterna que realmente cuida, acolhe e protege. A cena em que ela, arrumando as malas, agradece “por tudo” me desmontou completamente. Porque não parece um agradecimento por um gesto específico, mas por tudo aquilo que ela finalmente recebeu ali: cuidado, amparo, humanidade. Pra mim, a temporada inteira bate muito nessa tecla de que paternidade e maternidade têm muito mais a ver com presença, vontade de cuidar e responsabilidade afetiva do que com sangue.
A Karen também entra forte nessa discussão. A série não romantiza em nada a maternidade biológica, e eu gostei muito disso. Desde antes do bebê nascer já fica claro que ela não quer ocupar esse lugar, e Shameless não tenta maquiar isso nem transformar recusa em ternura falsa. Acho muito forte quando a série encara essas verdades desconfortáveis sem cair em moralismo barato.
Outra coisa que me conquistou demais foi a relação entre Kevin e Veronica. Eles não são só um casal com química e desejo, embora isso exista muito. O que mais me pega ali é a cumplicidade. Existe entre os dois uma intimidade muito viva, uma sensação de parceria real, de pertencimento, como se eles compartilhassem não só tesão, mas uma vida mesmo. Até quando entram em conflito, quando há ciúme, raiva, erro e desgaste, continua existindo amor, desejo e uma sensação de que um realmente é casa pro outro. E isso deixa tudo ainda mais bonito.
No fundo, o que mais me atravessou nessa temporada foi essa ideia de que um casal e uma família podem, às vezes, virar a chance de viver de outro jeito aquilo que foi ferida na infância. Não no sentido de cura mágica, mas de reparação possível. De finalmente encontrar, no amor e no cuidado, uma cena diferente daquela que faltou antes. Acho que Shameless toca nisso de um jeito muito forte.
No fim, essa temporada me ganhou justamente porque consegue ser caótica, engraçadíssima, triste e profundamente humana ao mesmo tempo. Por trás de toda a sujeira, do humor absurdo e dos personagens completamente disfuncionais, existe uma leitura muito afiada sobre abandono, afeto, cuidado e família. E é aí que a série cresce de verdade.
Shameless (US) (1ª Temporada)
4.5 261 Assista AgoraEu já tinha cruzado com várias cenas soltas de Shameless no TikTok e sempre ficava com essa sensação de que a série era “pra frente” demais pra televisão tradicional. Apareciam cortes de situações que normalmente são tratadas como tabu, sempre com um grau de ousadia e naturalidade que me chamava muita atenção. Eu tinha a impressão de que era aquele tipo de história que fala de sexo, drogas, precariedade e coisas “feias” da vida sem pedir desculpa, e isso já me deixava curiosa.
Quando finalmente sentei pra ver a primeira temporada, foi amor em tempo recorde. Logo no primeiro episódio eu já estava completamente fisgada, e ali pelos dois primeiros eu já tinha entendido que não era só mais uma dramédia “politicamente incorreta”: era uma série com muito conteúdo por trás da sujeira, do caos e da gritaria. É óbvio que tem momentos extremamente ácidos, piadas cruéis, cenas bem explícitas e situações que, em qualquer outra produção, soariam apenas gratuitas. Mas aqui eu senti exatamente o contrário: o fato de conseguirem encaixar obscenidade, nudez, humor pesado e temas espinhosos com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com profundidade de enredo, virou um mérito, não um defeito.
Shameless consegue fazer algo difícil: mostrar uma família quebrada, atolada em problemas financeiros, emocionais e afetivos, sem cair nem na romantização boba nem no miserê apelativo. A série fala de sobrecarga emocional, de filhos que viram cuidadores, de amizades que funcionam como rede de apoio improvisada, de gente que se vira com o que tem, do jeito que dá, em um contexto de abandono estrutural. Tudo isso atravessado por um humor ácido e sagaz, que às vezes faz você rir e, dois segundos depois, perceber o quão trágica é a situação que acabou de achar engraçada. No fim das contas, a primeira temporada me passou essa sensação de que, por trás de todas as cenas “obscenas” e do choque inicial, existe uma história muito bem escrita sobre família, lealdade e sobrevivência emocional em um mundo que não está minimamente preocupado em ser gentil com ninguém.
Nos personagens, pra mim, a temporada se organiza muito em torno de três eixos: Fiona, Frank e Lip. A Fiona é o exemplo mais gritante de alguém que abdicou da própria vida pra segurar um castelo que vive caindo. Ela é, de fato, o pilar daquela casa, não por vocação materna fofinha, mas porque a mãe fugiu e o pai é um Homer Simpson de Chernobyl, incapaz de assumir qualquer responsabilidade que não seja a próxima garrafa. Gosto muito de como a série mostra o cansaço dela, o jeito que ela tenta ter uma vida própria e, ao mesmo tempo, não consegue não cuidar de todo mundo. A primeira temporada já deixa claro que ela merecia um mundo mais gentil do que aquele, mas também que sem ela tudo desmorona em dois minutos.
O Lip é um dos meus favoritos. Ele é meio porra louca, vive tomando decisões questionáveis, mas o coração dele está no lugar o tempo todo. É o típico garoto superinteligente, autossabotado pelo contexto e pelas próprias escolhas, que às vezes parece que vai ser engolido pelo ambiente onde vive. Gosto de como ele equilibra cinismo com cuidado real pela família, sem nunca virar “o bonzinho” da história. Já o Ian eu achei simplesmente adorável desde o começo. Ele é introvertido, mais contido, mas muito corajoso na forma como vive a própria homossexualidade ali naquele contexto todo torto. A namorada de fachada, a amiga da escola, as pequenas estratégias pra se proteger e, ao mesmo tempo, não negar quem ele é… tudo isso foi me ganhando.
A irmã mais nova, a Debbie, é outro destaque gigante. Ela é muito inteligente, muito avançada pra idade, com um senso de cuidado e de leitura emocional das coisas que às vezes supera o dos adultos. É aquela criança que você sente que merecia uma infância muito mais leve, mas que faz o possível dentro do caos que tem. O Carl, por outro lado, é quase o oposto: a criança com uma violência meio inata, que reage às coisas mais bizarras e perturbadoras com uma naturalidade assustadora. E é justamente isso que rende alguns dos momentos mais engraçados e mais incômodos ao mesmo tempo, porque a série não esconde que tem algo errado ali, mas também usa essa “brincadeira com a brutalidade” como comentário sobre o ambiente em que ele está crescendo.
O Frank, como já dá pra perceber desde o primeiro episódio, é esse Homer Simpson elevado à enésima potência: um pai tão ruim que até o Homer pareceria responsável ao lado dele. Ele funciona como alívio cômico em várias cenas, mas também como retrato muito incômodo de um alcoolismo narcísico que atravessa a vida de muita gente. Ele ri, manipula, some, reaparece, faz discurso bonito quando interessa, e a série não tenta redimir isso com facilidade. A Sheila, a mulher com quem ele vai morar, entra quase como uma co-protagonista, trazendo essa mistura muito específica de fragilidade, esquisitice e doçura. É uma personagem que, mesmo cheia de manias e limitações, acaba oferecendo um tipo de afeto e cuidado que o Frank nunca teve em lugar nenhum.
Sobre o Steve (que na verdade é Jimmy), eu comecei gostando muito dele. A forma como ele trata a Fiona, o jeito como parece entrar na bagunça da família sem julgamento, tudo isso faz com que ele ganhe muitos pontos rápido. Só que a primeira temporada também vai revelando as camadas de mentira: o nome falso, a família que ele esconde, a escolha de fugir em vez de encarar as consequências e ir pra cadeia. No fim das contas, por mais carismático que ele seja, tudo isso derruba bastante o crédito dele. E aí sobra o policial loiro, o Tony, que é quase o oposto: doce, correto, devotado, aquele cara que ajuda a tirar os irmãos da cadeia, que se declara, que tem a virgindade “roubada” pela Fiona… e, ainda assim, não é suficiente pra despertar desejo nela. Dá até dó, porque ele claramente merecia alguém que olhasse pra ele com o mesmo brilho que ela reserva pros caras mais caóticos. Mas é coerente: a série mostra que a Fiona se sente viva justamente com esses homens mais perigosos e instáveis, e a segunda temporada já começa deixando isso bem claro.
Pra mim, a cereja do bolo da primeira temporada é, sem dúvida, a Sheila. No comecinho, eu jurei que ela ia ser só uma personagem irritante, meio caricata, presa na própria neurose. Aquelas manias, a casa hermeticamente fechada, o pânico absoluto diante da porta… tudo parecia raso de propósito. Só que, conforme a temporada avança, a série vai abrindo camadas dela com uma delicadeza absurda. A fobia de sair de casa deixa de ser “esquisitice” e vira um retrato muito sensível de trauma, medo e paralisia, e é muito bonito ver como, mesmo apavorada, ela consegue atravessar esses limites quando é realmente necessário: seja por desespero, seja por raiva, seja pra proteger o bebê da Fiona ou defender a própria filha do pai abusivo.
Tem uma cena específica, aliás, que ficou marcada em mim de um jeito quase doloroso de tão bonita: quando a Sheila fica responsável de cuidar do bebê a pedido do Steve. Ver ela se divertindo, se encantando e se organizando em torno daquele corpinho pequeno ativou muito o meu instinto materno, porque dá para sentir que aquele cuidado faz bem para todo mundo ao mesmo tempo: para ela, que encontra uma função amorosa concreta; para o bebê, que recebe um colo seguro; e para a família dele, que pode respirar um pouco fora da lógica exaustiva dos cuidados. Ali eu tive a sensação de que a Sheila vira, de fato, uma das figuras mais importantes do enredo: ela é quem encarna a função materna para os personagens mais jovens e funciona como uma espécie de esposa carinhosa improvisada para o Frank, mesmo sem nunca ter assinado papel nenhum.
Gosto muito de como, aos poucos, a Sheila vai deixando de ser “a mulher estranha do Frank” pra se tornar um dos corações mais humanos da série. Tem uma cena perto do final da temporada em que o Frank diz que ela é a única pessoa capaz de ser gentil com ele, e aquilo resume bem o lugar que ela ocupa ali. Ela é carinhosa com a filha, com o Frank, com as crianças, com quem cruzar o caminho dela, quase como se esse coração enorme nem coubesse só na própria história. A primeira impressão é de figura cômica e irritante; a última é de uma mulher profundamente doce, complexa e corajosa, que a gente aprende a amar sem nem perceber quando foi que isso aconteceu.
A Torre Negra
2.6 838O filme realmente é muito ruim, em termos de roteiro. Não tem um "pacing" legal, não cativa. A única coisa legal é a parte da fantasia sci-fi. Mas o filme, em si, é uma bosta.
Ruptura (2ª Temporada)
4.1 344 Assista AgoraSeverance sempre foi uma série que sabe caminhar em silêncio, e a primeira temporada fez isso com uma elegância rara. Cada cena parecia empurrar o mundo para um lugar mais estranho, mais tenso, mais inevitável. Terminei a S1 com a sensação de ter visto algo muito coeso, uma distopia íntima que não precisava gritar para ser brutal.
A segunda temporada, pra mim, quebra esse feitiço em dois pontos muito específicos: o episódio do retiro na neve e o episódio da cidade natal da Cobel. Eu entendo a intenção de abrir o mundo, aprofundar mitologia e dar textura. Mas do jeito que isso foi executado, a série saiu do próprio trilho e começou a girar em torno de si mesma. Não como expansão, mas como digressão que drena tensão.
O efeito foi direto e incômodo: eu não consegui assistir de forma contínua. Assisti parcelado, perdia o interesse, voltava outro dia, sempre me perguntando se ainda valia a pena continuar. Isso nunca aconteceu comigo na primeira temporada. Na S1, eu era puxada pela narrativa. Aqui, em certos momentos, me senti largada no acostamento.
O que dói é que Severance continua cheia de ideias fortes e imagens que ficam na cabeça. Mas esses desvios narrativos, pra mim, jogaram a percepção de qualidade da temporada no chão quando comparados com a precisão cirúrgica da primeira. Fica a sensação de um coração brilhante tentando bater dentro de uma estrutura que decidiu se alongar onde não precisava.
A Outra Terra
3.7 875 Assista AgoraAnother Earth é aquele tipo de “ficção científica” que usa carcaça de sci-fi, mas não está nem aí pra explicar cientificamente nada. O filme não quer discutir astrofísica, quer perguntar outra coisa: o que você faz depois de destruir a vida de alguém e continuar existindo? A tal Earth 2 funciona como um espelho meio cruel, meio fascinante: a ideia de que existe, em algum lugar, uma versão sua que viveu exatamente a mesma história até certo ponto… mas talvez não tenha cometido aquele erro específico. O filme costura culpa, luto, desejo de segunda chance e, principalmente, a dificuldade de perdoar o outro e a si mesmo, em diálogos aparentemente simples, silêncios desconfortáveis e no jeito como o corpo e o toque viram linguagem quando as palavras já não dão conta.
Gosto muito de como a relação entre os dois protagonistas é construída sempre em cima de fissuras. Tem a curiosidade real que um sente pelo outro, a conversa sobre Platão e a caverna, as especulações sobre a outra Terra… e, ao mesmo tempo, uma tensão moral enorme que o filme não tenta romantizar. É um sci-fi intimista que troca grandes efeitos por duas pessoas quebradas tentando se aproximar sem saber se merecem isso. No meio desse desconforto todo, o filme vai abrindo pequenas frestas de cuidado, música e presença física que, pra mim, são o verdadeiro coração da história.
Pra quem gosta de Eneagrama, eu diria que é o filme mais “tipo 4” que eu já vi na vida: essa coisa de viver tudo em alta voltagem emocional, transformar culpa em estética, procurar sentido dentro da própria ferida. Pra quem não sabe o que é Eneagrama 4, pensa naquele arquétipo da pessoa que sente tudo fundo, se percebe diferente, carrega melancolia bonita e, mesmo assim, insiste em encontrar beleza no meio do desastre. Tem uma cena em especial, estranha e linda, em que ele leva ela para um lugar vazio e toca um “violino” que na verdade é um serrote de verdade. É bizarro, poético e emocionalmente deslocado do jeito mais 4 possível.
Tem três blocos específicos que me pegaram de um jeito muito pessoal.
O primeiro envolve justamente essa mistura de fascínio estético e desconforto moral. Depois de toda a aproximação, ele leva ela pra esse espaço vazio, toca aquela música absurda usando um serrote como se fosse violino, cria um momento quase hipnótico… e os dois acabam transando. Até aí já existe um estranhamento ético forte, porque a gente sabe o que ela fez com a vida dele e o filme não tenta fingir que isso é um romance “fofo”. Logo depois, quando ele começa a falar sobre a motorista adolescente que causou o acidente, sem saber que está falando dela, a contradição explode. E o corpo dela simplesmente devolve tudo: ela sai, pega o metrô, se olha no espelho e vomita. Não é “nojo” dele, é o corpo recusando a posição impossível em que ela se colocou: ao mesmo tempo amante e algoz daquele homem. Esse desconforto é totalmente intencional, e eu achei muito forte o filme ter coragem de ir até aí sem aliviar.
O segundo momento, pra mim o mais poderoso de todos, é a cena do faxineiro que colocou cloro nos próprios olhos e ouvidos, ficou cego e surdo e está internado. Ele é quase uma versão extrema do impulso dela de desaparecer do mundo. Quando ela chega perto, ele reconhece a presença dela só pelo toque e fala o nome dela, mesmo sem ver nem ouvir. Ela deita na cama junto com ele, cria ali um tipo de aconchego que não passa pela linguagem, é só corpo, calor, peso. E então vem o detalhe que eu achei absolutamente sublime: ela pega a palma da mão dele e escreve, letra por letra, “forgive”. Os dois choram. É a mensagem inteira do filme condensada em um gesto mínimo: a possibilidade de perdoar o outro e, principalmente, de começar a se perdoar.
O final amarra tudo isso de um jeito que eu achei muito bonito. Ela ganha a passagem pra Earth 2, o grande prêmio, a chance literal de fugir pra um lugar onde talvez “nada disso” tenha acontecido. E escolhe dar o bilhete pra ele, o homem cuja família ela matou, pra que ele possa ir descobrir se, na outra Terra, a família ainda está viva. Ela encontra um tipo estranho de paz ali: não porque as coisas se resolveram magicamente, mas porque, dentro do irreparável, ela fez o máximo que podia. Abriu mão da própria fuga pra oferecer a ele uma possibilidade de reencontro.
E aí vem a cena final, quando uma outra ela – a “ela” da Earth 2 – aparece na sua frente. Esse encontro só existe porque ela ficou na Earth 1. É justamente ao entregar o convite que era dela que ela consegue, simbolicamente e literalmente, se reencontrar consigo mesma. No fim, Another Earth, pra mim, é sobre isso: viver com a dor do que não tem conserto e, ainda assim, encontrar coragem pra permanecer, perdoar e se olhar de volta sem desviar o rosto.
Jeffrey Epstein: Poder e Perversão
3.7 148 Assista AgoraFilme de terror da vida real!
Pisque Duas Vezes
3.5 662 Assista AgoraUm pouco difícil de entender (ligar os pontos), mas é um dos melhores filmes de terror que eu já vi até hoje.
O Mistério de Varginha
3.2 34Documentário excelente sobre uma história que marcou o Brasil e o mundo. Mostra todos os lados, todos os depoimentos e contradições.
Oito Mulheres e um Segredo
3.6 1,1K Assista AgoraFilme bem legalzinho. Cumpre o papel de entreter e faz dar algumas risadas. Entrega TUDO em elenco. Passa rápido: quando você dá conta, o filme já acabou. Só achei que as coisas se resolveram rápido demais, como se tivesse faltado conflitos.
Timer: Contagem Regressiva Para o Amor
3.2 186 Assista AgoraSinceramente, achei de uma qualidade de humor, de diálogos e de profundidade muito maior do que os filmes de hoje em dia. Assim como "He's Just Not That Into You", que também foi lançado em 2009, TiMER mostra a força do cinema da primeira década dos anos 2000.
A Steph é talvez a personagem mais interessante do filme inteiro – e ela sabe disso. Inapropriada de um jeito genial. Já o Mikey mostrou que, mesmo um jovem rapaz tem potencial de ser um grande homem, se souber como tratar uma grande mulher.
A cena final, da Oona com o Dan, mostra que, sim, há uma fagulha entre eles, que, mais cedo ou mais tarde, acabará se tornando inevitável que se transforme em um grande amor. Mas, apesar disso, não é ele quem ela está escolhendo amar no momento, e sim o Mikey – que provou (junto com o exemplo da separação dos pais da Oona) que, no fim, o que vale é esse amor que se constrói, sem idealizações, mas com atos concretos de amor.
Eternidade
3.5 147 Assista AgoraCallum Turner ("Luke") é um dos meus maiores crushes do cinema. Elizabeth Olsen ("Joan") é uma das minhas maiores inspirações. Vocês façam as contas. Como 1+1=2, esse elenco está incrível.
O filme é divertido. Romance que une comédia e fantasia. A proposta é legal. Adorei ver os cartazes das eternidades.
A maior demonstração de amor do Larry foi deixá-la ir embora, por imaginar que esse seria o ápice da felicidade dela.
Família do Bagulho
3.6 1,5K Assista AgoraDivertido. Filme vibe "Sessão da Tarde para +18 com alusão a incesto e a contrabando internacional". 😅
A Família
3.4 526 Assista AgoraFilme divertido, mas um pouco fraco. "O Grande Chefão" em versão Sessão da Tarde.
Só achei que foi um furo de roteiro passar uma máfia inteira na frente do filho do protagonista, naquela cena do desembarque de trem, e ninguém ver o garoto. E depois verem ele no meio da rua, sozinho, à noite, e não desconfiarem. O garoto é invisível por acaso?
Verdades Secretas
4.3 284Assistindo pela primeira vez, em 2025, pela Globoplay, devo confessar que a achei extremamente viciante. Eu já era fã do trabalho do Walcyr Carrasco desde quando assisti "O outro lado do paraíso" (2017–2018), que é uma novela muito maior e mais complexa do que "Verdades Secretas", que, por sua vez, é mais enxuta. Achei interessante assistir aos atores e atrizes que fizeram ambas as novelas, em especial a Fanny, a Larissa, a Hilda, o Roy e a Nina.
Bom, sobre a novela em si, ela desnuda muita coisa pesada no mundo da moda, como prostituição de luxo, abuso de drogas, exploração sexual etc. Contudo, se por um lado a novela faz essa denúncia de uma forma muito responsável em relação ao tema do vício (em diferentes contextos, desde o alcoolismo da mãe do Anthony até o perder-se da Larissa na cracolândia), por outro lado, achei bizarro – do começo ao fim – como a relação da Angel com o Alex parece ser apresentada de uma maneira totalmente romantizada.
Lembremos: a personagem tem 16 anos e, depois, com 17, torna-se enteada dele. Por mais que tenha sido importante retratar essa situação, que infelizmente ocorre muito na vida real, achei que faltou delicadeza e responsabilidade na forma como isso foi feito. Esse, para mim, é o único defeito dessa novela.
Além disso, é claro, há as inúmeras vezes em que os roteiristas repetem os mesmos absurdos várias vezes seguidas, como nas incontáveis vezes em que a Fanny perdoou o Anthony, ou nas vezes em que o Alex e a Angel se pegavam bem debaixo do nariz da Carolina. Ou talvez essas duas, Fanny e Carolina, sejam realmente as personagens mais burras da novela, como uma representação de como certas mulheres são facilmente manipuladas por certos homens.
A Giovana talvez seja a personagem mais inteligente da novela, com diálogos impecáveis e um humor ácido que nos encanta.
Pluribus (1ª Temporada)
4.0 333 Assista AgoraAntes de qualquer coisa: a fotografia de Pluribus é um absurdo de bonita. Cada cena parece pensada com uma calma meio hipnótica, como se a série respirasse por conta própria. As palhetas de cores e tudo mais. E o mais impressionante é que é uma série que não precisa de efeitos especiais para ser incrível.
A cena do mercado é o auge disso: tudo se reorganiza diante da gente de um jeito tão preciso, inesperado, impossível e, ao mesmo tempo, tão… humano. O ápice da ficção científica dessa série é justamente nos fazer imaginar como seria o mundo se o próprio ser humano funcionasse assim, refinado, organizado, altruísta.
Mas, pra mim, o que mais brilha não é a estética nem a ideia sci-fi. É o fato de que essa hive-mind parece profundamente benevolente. Não há aquela ameaça típica das histórias do gênero. Pelo contrário: existe uma suavidade, uma delicadeza estranha, quase reconfortante.
Três episódios e eu já estou encantada, ansiosa pelos próximos.
Apocalipse nos Trópicos
3.8 188Filme de terror da vida real!
Como Ser Solteira
3.3 487 Assista AgoraTenta ser um filme de humor, mas nem sempre consegue. Francamente, eu prefiro 10 mil vezes o filme de tema análogo, "He's Just Not That Into You" (2009), ao lado do qual este aqui fica bem fraco. Mas enfim, não é um filme de todo ruim.
Gen V (2ª Temporada)
3.3 86 Assista AgoraBem legal. Talvez não tão boa quanto a primeira temporada, mas ok.
Rick and Morty (8ª Temporada)
3.8 50Com exceção de uns dois episódios, que achei muito nonsense, eu gostei bastante dessa temporada.
Rick and Morty (8ª Temporada)
3.8 50Com exceção de uns dois episódios, que achei muito nonsense, eu gostei bastante dessa temporada.
Gen V (1ª Temporada)
3.7 251 Assista AgoraComo alguém que ficou viciada em The Boys, posso dizer que esse spin-off tem uma qualidade à altura, especialmente em termos de efeitos especiais. O humor também permanece, assim como as cenas de violência obscena. Eu estava com saudade desse universo cinemático.
P.S. Achei muito legal ver que pegaram os atores de O Mundo Sombrio de Sabrina para interpretar a Marie e o Andre.
Vi algumas inconsistências narrativas aqui e ali, mas dá para fazer vista grossa.
A Bruxa do Amor
3.6 229Esse filme me pegou como um rito de iniciação. Como filha devota de Afrodite, assistir The Love Witch foi como atravessar um espelho encantado — e do outro lado, encontrar o reflexo distorcido de tudo aquilo que a deusa do amor pode se tornar quando o desejo escapa da alma e vira compulsão.
Visualmente, ele é um deleite: parece um filme perdido da década de 70, resgatado de um baú mágico. A paleta saturada, os figurinos, os olhares longos e a atmosfera de feitiço permanente… tudo evoca uma estética cuidadosamente artificial, que seduz como perfume doce demais. Me senti assistindo uma mistura de Elvira, Rainha das Trevas com as alucinações de Alejandro Jodorowsky, temperada com aquela sensação estranha e encantada de uma cidadezinha à la Twin Peaks, onde o bizarro é rotina.
A protagonista, Elaine, é uma bruxa sensual que usa feitiçaria para ser amada — mas os homens que ela seduz acabam arruinados, porque o amor que ela quer é impossível: ela não busca um vínculo, busca ser adorada. E isso é o ponto mais agudo da dor. Pra mim, é evidente: ela é uma filha de Afrodite que perdeu o eixo. Representa o que acontece quando o arquétipo do amor vira excesso — quando o desejo de ser amada se transforma em vício, e a feminilidade, em maldição. Elaine é ao mesmo tempo inspiração e alerta: símbolo do poder da beleza, mas também da prisão que ela pode se tornar.
A diretora, Anna Biller, diz que o filme não é uma paródia, mas uma tragédia sobre a experiência feminina. E faz sentido. Tudo ali gira em torno de como a mulher é ensinada a ser desejável, a performar o encanto, mas raramente a existir fora disso. A bruxaria é metáfora: feminilidade como feitiço — potente, perigosa, e muitas vezes fatal.
Na internet, o filme gerou divisões: tem quem ame como obra feminista brilhante, tem quem ache problemático ou vazio. Também surgiram acusações ideológicas contra a diretora (como ser TERF), mas até agora, tudo especulativo — nada confirmado. O que permanece é a obra em si: estranha, teatral e incômoda no melhor dos sentidos.
No fim, achei o filme curioso, interessante e peculiar. Um tanto estranho (o que é bom), por vezes anticlimático. Mas inquietante. Me deixou com a sensação de ter tocado num espelho mágico — desses que não mostram o que você é, mas o que você poderia ser, se esquecesse quem é.