Não sei se tive má vontade com o primeiro Zumbilândia - que assisti em 2009, não achei grandes coisas e nunca revi - ou se este representa algum incremento em relação a ele, mas gostei bastante de "Atire Duas Vezes". É um filme apropriadamente simples, com recursos visuais que, se não são originais, ao menos são bem empregados e ação bastante eficiente. Mas onde funciona mesmo é na comédia.
Em minha resenha sobre O Alfaiate, eu comentei que o aquele filme é comprometido pela personagem da Zoey Deutch, irritante e antipática num contexto em que torcer para que nada de mal lhe ocorra é condição indispensável para que a tensão que o roteiro deseja produzir seja bem-sucedido. Aqui se passa o contrário: ela está tão engraçada que o filme brilha todas em vezes em que aparece, e isto é um risco, pois se trata de uma personagem feita para ser over, podendo passar da conta. Emma Stone também mostra um timing cômico excelente com suas expressões faciais de repulsa e comentários irônicos sobre a colega.
Contando com apenas 01h30min que passam rápido, essa sequência atinge seus objetivos e bom seria se viesse uma trilogia.
Hanna filme é material para estudo sobre como a direção faz a diferença e quais são os seus limites na arte do Cinema. Isso porque chega a causar estranhamento que um roteiro tão genérico e mal desenvolvido, com final inexistente, tenha encontrado um diretor tão bom como Joe Wright, e sabe-se lá o que atraiu o cineasta para um projeto como este. Seja como for, o filme é um deslumbre visual, extremamente bem desenvolvido e fotografado, valendo a pena assisti-lo a despeito da falta de muitos outros atrativos.
Eu não amo "Onze Homens e Um Segredo", mas amo o profissionalismo que este filme envolve. Steven Soderbergh, quando o dirigiu, deve ter pensado algumas vezes que fazer um filme e roubar um cassino têm em comum a união de talentos em trabalho colaborativo, a disciplina intensa e alguma criatividade nos imprevistos. O jogo de câmera é maravilhoso, o roteiro tem várias boas sacadas e distribui a cada integrante do elenco estelar alguns momentos de brilho, a montagem é dinâmica, o filme é todo uma grande maquinaria que trabalha organizadamente, cheia de estilo, conduzida por quem sabe o que está fazendo. Steven Soderbergh é foda, o cara é tão bom em projetos minúsculos e artesanais como em obras de apelo comercial enorme.
Heart Eyes é meio slasher, meio comédia romântica e funciona bem em ambos. Tem uma estética bem trabalhada e referências apropriadas, a despeito da obviedade do desfecho. Realmente há uma atmosfera meio 'Pânico', cujo destino devia ser confiado aos responsáveis por este filme, que conseguiram dar até alguma função ao Mason Gooding (em Pânico ele está sem fazer nada há três filmes). Hear Eyes é engraçado e revigorante, tem bons visuais e protagonistas que passam a funcionar após o desagrado inicial que provocam, como numa comédia romântica.
É um restaurante cujo dono é meio escrotinho, espelhando a clientela que ali aporta, com funcionários explorados fazendo o meio-campo. Uma dupla de assaltantes entra pra saquear o lugar e a partir daqui, quanto menos se souber, melhor. "O Animal Cordial" não se dá a divagações sociológicas, entender o título (e o conceito de homem cordial) é entender tudo. Trata-se de um vigoroso exercício de gênero, com utilização magistral da música e enquadramentos fantásticos, além de excelentes atuações. Esqueça o rigor geográfico, não fique se perguntando se num dado momento algum personagem poderia ou não ter alcançado uma chave ou uma faca, o filme é sensorial e pede alguma boa vontade nesse sentido. Gostei muito e quero ver os seguintes da diretora.
É incrível: dá-se um tema, conversa-se com brasileiros comuns sobre ele e sai um bom documentário. Aqui dá certo de novo: é um desfile de personagens pitorescos, mas perfeitamente críveis, falando coisas que dão o que pensar, pro bem e pro mal. Às vezes parece que haverá um desvio de foco, o documentário será sobre outras coisas, mas logo volta-se ao eixo, a música brega e o universo que a circunda.
* lembrar de ler "Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", de Paulo Cesar de Araújo.
Já havia gostado de Dr. No, que vi anos atrás, mas assistindo a este From Russia With Love me dei conta de como posso até gostar bastante de alguns exemplares de Bond (como Skyfall e alguns outros), mas há uma incompatibilidade de essência: eu gosto do 007 espião, mas os Bonds não são filmes de espionagem e sim filmes de ação protagonizados por um suposto espião.
É fácil perceber isso vendo From Russia... pois os elementos de espionagem do início são muito bem trabalhados. Antagonistas promissores, trama que se apresenta como estratégia e direção elegante (a cena do jogo de xadrez tem uma decupagem belíssima).
Existem, ainda, outros méritos: Sean Conery segue como o James Bond imbatível, os coadjuvantes dão boa sustentação (além dos já citados vilões, há um coadjuvante de destaque e uma bondgirl linda), além de um certo humor britânico que cai bem. No final, há algumas sequências de ação que fazem pensar um pouco no Hitchcock em seus momentos menos cerebrais e mais vigorosos.
Apesar disso, não se trata de um filme perfeito. Como quase todo Bond, há momentos genéricos e uma barriga narrativa ali pelo meio. Quanto mais o filme se afasta da espionagem, menos bom fica. É o que os produtores querem fazer de Bond, fazer o quê.
- A cena inicial é corretamente dirigida, é tensa, mas só. Cena inicial de Pânico tem que ser icônica, comunicar algo sobre o filme em si.<br/><br/>
- Ter três Pânicos em pouco mais de quatro anos faz com que o cinema não tenha tempo de mudar a ponto de essas mudanças serem parte orgânica de um projeto metalinguístico, algo que está no coração da franquia. É verdade que a primeira trilogia foi produzida a toque de caixa, mas trilogia não era algo novo. Não havendo nenhum tendência cinematográfica forte desde os anteriores, e não existindo (ainda bem) algo do tipo "convenções cinematográficas do sétimo filme de uma franquia", desaparece o sagacidade e surge o slasher convencional.<br/><br/>
- As set-pieces são quase todas boas. Apenas de o Kevin Williamson não ser um diretor experiente, gostei da condução de algumas sequências, principalmente as que mostram o Ghostface mais imponente, atacando de forma aberta.<br/><br/>- Os personagens são mal-aproveitados, entram e saem de cena aleatoriamente não apenas para despistar, mas também desperdiçando aqueles que deviam participar mais, como a Gale.<br/><br/>
- As informações iniciais sobre o retorno de diversos personagens mortos provocaram uma expectativa gigante (não por acaso a pré-venda foi enorme), mas foi uma promessa gigantesca para um resultado minúsculo. Roman e Srta. Loomis deviam voltar no futuro para serem mais bem aproveitados, ou nunca. Stu teve mais espaço, ainda assim faltou criatividade. Agora, o que fizeram com Dewey é uma vergonha, cuspiram num personagem querido.<br/><br/>
- Mesmo assim, o suspense bem conduzido, Sidney e Gale fariam de Pânico 7 uma experiência bem melhor se não fosse o horroroso final, horroroso. A motivação até não é das piores, mas são os mais aleatórios Ghostfaces da franquia. Em trama de "quem é o assassino" isso é básico, não pode ser alguém inexpressivo.<br/><br/>
- Aliás, eu sempre pensei que seria legal um Ghostface ser descoberto no meio da trama para depois descobrimos que há outros. Contudo, já deveria ser um personagem estabelecido, nao alguém inócuo, que faz parecer que está atrasando o andamento do enredo.<br/><br/>- Faz tempo que não vejo o terceiro filme, este é o pior dentre todos os demais. Ainda assim, divertido e ficaria mais bem cotado se não fosse o final. <br/><br/>
- Pânico precisa de uns 5, 7 anos de molho e voltar com fôlego novo, tal como fizeram ao contratar o radio silence após o hiato do quarto.<br/><br/>- Christopher Landon provavelmente daria um frescor nisso aqui e Melissa Barrera não falou nada de mais.
Você é um músico medíocre e só está tomando na cabeça, tem um repertório de uma só música, da qual ninguém gosta. Acaba a luz do mundo por 12 segundos, na volta só você se lembra dos Beatles - e da música dos Beatles -, podendo se lançar como um superastro usando todo o repertório de uma das bandas de mais sucesso e impacto cultural da história.
Uma vez sentado no trono de artista mais importante do mundo, a consciência pode te atormentar e te levar a fazer algumas perguntas: Existe plágio se, tecnicamente, eu não copiei nada que já existisse na versão do mundo que eu estou habitando? É errado me passar pelo autor de músicas que nunca serão apresentadas às pessoas, se eu não o fizer, pois seus verdadeiros autores não se lembram da realidade paralela em que as compuseram? Ou o ponto ético está na autoria, eu preciso ter sentido, preciso ser capaz de produzir essa arte, para ser dono dela? Se essa arte me foi "dada" sem eu merecer, não estou no mesmo lugar de pessoas muito talentosas, alguém que, no fundo, foi agraciado por algo insondável?
Se no mundo da arte a glória está reservada aos brilhantes, o que fica para os sonhadores medíocres?
São dilemas muito intrigantes e interessantes que podemos formular por conta própria, já que Yesterday (2019) não faz o menor esforço para explorá-los, dedicando muito de sua energia a um romance formulaico e artificial com a personagem vivida por Lilly James.
Yesterday parece menos um filme de Danny Boyle (que adota aqui uma condução elegante, distanciada da direção nervosa, embalada por montagem frenética que ajudou a popularizar esforços como Transpotting e Quer Quer Ser um Milionário) do que do roteirista Richard Curtis, a mente romântica por trás de Quatro Casamentos e Um Funeral. O roteiro de Curtis tem inúmeros acertos: o retrato que faz da indústria musical equilibra a crítica ácida e o humor escrachado, produzindo cenas eficazes como a "reunião de marketing" e uma personagem que toma de assalto todas as cenas de que participa (a empresária interpretada por Kate McKinnon).
A exploração da premissa, contudo, depende de algumas boas investidas numa direção filosófica ou poética (cito duas cenas específicas: uma que envolve um casal, outra em que o protagonista se encontra com uma versão paralela de uma figura real), mas nunca consegue avançar nessa frente porque ela é obstruída por uma trama romântica que o roteiro fracassa em acoplar organicamente ao centro narrativo - o protagonista tornando-se célebre com a obra dos Beatles.
Disso resultam passagens lamentáveis como aquela em que, num filme de 2019, o interesse romântico do protagonista se queixa de que ele, em vinte anos, nunca chegou nela (e você não fez por quê? E por que só agora?). E essa condição que ela impõe para que o protagonista possa ficar com ela, abdicando de uma carreira que naquele momento parecia merecida? Ela é interesseira, possessiva? Nenhuma das coisas, ela é um não-personagem, um fantoche construído sem verossimilhança para criar obstáculos que o roteiro não conseguiu estabelecer com lastro na maneira como pessoas geralmente se relacionam.
o protagonista se apresenta num show de Ed Sheeran. De acordo com o código de moralidade adotado por Hollywood, estava posto que o filme não terminaria com o protagonista feliz da vida curtindo os frutos de um plágio cósmico, no fim ele acabaria confessando. O cenário armado para tanto foi o mais megalomaníaco possível, a produção conseguiu gravar a cena num show real de Sheeran no estádio de Wembley. A cena, contudo, é frustrante: a revelação sobre não ser o autor das músicas é feita diretamente para a personagem da LJ sem ter nenhuma relação com a relação entre ambos, inclusive porque, se usar essas músicas é errado, o seria querendo ou não dormir com a menina. Além disso, o texto do discurso é fraco demais, um roteirista experiente como Richard Curtis podia ter dado um polimento nessa fala.
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Com tudo isso, seria mentiroso eu escrever sobre Yesterday sem dizer que gostei do filme. Ele é ágil, simpático, o talento de Boyle traz vigor ao clichê (a cena dos namoradinhos no túnel, com nomes de músicas literalmente vindo como um trem, é ótima), a manipulação de câmera é esteticamente atraente e, óbvio, é um filme cheio de músicas dos Beatles, que são admirados com bons motivos.
A chave talvez seja essa. Se tem muito Beatles, o filme sai na frente. Se Across The Universe conseguiu valer a pena...
Um filme sobre prostituição que se leva a sério não precisa, só por isso, encampar alguma tese sociológica. Há algum tempo assisti ao bom "Boa Sorte, Léo Grande", que aborda o tema numa chave intimista bem defendida e em seguida deixa o assunto em aberto.
O problema é tratar do tema sem saber o que fazer com ele, vestindo-o com uma estrutura narrativa que não comporta bem a ambiguidade que está em sua natureza. Bruna Surfistinha adota o esquemático modelo fundo-ascensão-queda-estabilização parecendo glamourizar as escolhas da protagonista na subida, tratá-la com moralismo na queda e após encontrar um desfecho que não chega a ser uma síntese desses movimentos.
Biografias, em livros ou no audiovisual, podem narrar a trajetória de indivíduos admiráveis, desprezíveis, que realizaram grandes feitos ou cujo centro temático está justamente no fato de não terem conseguido empreender o que desejavam. Toda vida humana gera uma biografia, mas é preciso que compreendamos quem é a pessoa retratada e porquê sua história merece ser contada. Este filme parece não compreender bem as razões pelas quais a personagem-título se tornou famosa. Raquel/Bruna é uma figura da internet nascente, uma das primeiras personalidades brasileiras a usar as redes para transformar o privado em público, tornando-se - e nisso a interpretação moral é livre e particular - uma curiosa precursora das influencer digitais antes que isso fosse uma profissão. Contudo, o roteiro ignora na trajetória de Raquel/Bruna tudo que extrapole a sua figura humana e conta a história de uma moça que sai de casa por razões não muito definidas, faz muito sexo, escreve num blog, dá uns tiros na cocaína e tem o seu desfecho escrito num letreiro, em vez de mostrado. Ou seja: provavelmente trata-se de uma adaptação fiel do livro, mas ao custo de gerar a sensação de que o filme não tem outra razão de ser além de explorar a curiosidade do público numa trama erótica encabeçada por uma linda atriz global.
Alguns elementos parecem ser especialmente mal trabalhados. O personagem do Cassio Gabus Mendes parece ser apresentado como um indivíduo afetuoso, bem-intencionado, mas só passa por isso graças à boa atuação do intérprete, pois suas falas remetem a um sujeito possessivo, que manda Raquel/Bruna "descer do alto" quando quem está no salto é ele próprio - que se vê como única saída para uma mulher que ele conheceu fazendo os seus corres. Entendo que existe nisso uma amarra temática: a protagonista não é vista sendo maltratada por seus pais, mas não tolera ficar sob a autoridade deles; assim o será também com parceiros afetivos: ela não consegue receber afeto, mesmo que verdadeiro, se ele vier acompanhado de dependência. É uma motivação, mas o roteiro nada faz com ela até a última cena, quando a verbaliza de forma explícita, e ela cai no vazio.
Ainda assim, Bruna Surfistinha tem algum mérito por parecer um filme, o que não é desprezível no presumido cenário de limitações orçamentárias que enfrentou, e não impediu algum zelo visual, tampouco atuações sólidas por parte de todo o elenco. Seria uma obra ainda melhor se houvesse um centro mais definido, um motivo melhor pra existir.
Ao rever Kill Bill depois de muitos anos, não imaginava que o volume II seria tão superior ao primeiro.
Sim, Kill Bill foi projetado como um filme único, de extensa duração, que o estúdio cortou no meio para ter duas bilheterias. Ocorre que a cisão produziu duas metades com identidade própria: a primeira é um bom filme de ação estilizada, com pancadaria deslumbrante e uma promessa de enredo. A segunda metade entrega o enredo que a primeira prometeu e ainda mais: que roteiro fodido do Quentin Tarantino. Aqui não há cenas boas, mas segmentos completos altamente eficazes: Michael Madsen luta contra o fracasso, mas as mulheres que surgem em seu caminho não são nada fáceis; a "noiva" passa por um treinamento duro cujos ensinamentos acabam por salvar a sua vida no interior de um caixão; Daryl Hannah gostaria de ter ela própria matado a "noiva", e tem essa chance. Isso tudo com uma hora de filme, e há mais depois.
Um dos maiores brilhantismos de Quentin Tarantino foi convencer o público de que é um diretor verborrágico, excessivo, colorido como um bicho exótico, maluco. Tarantino é, isso sim, um dos mais rigorosos arquitetos narrativos do Cinema contemporâneo. Se sua ridículas ideias arrojadas param de pé, é por obra de uma execução minuciosa em todos os elementos verbais e visuais que fazem o espalhafato brilhar sobre uma sólida estrutura que mal aparece. Daí decorre que ele é, também, um competente diretor de atores: todos os citados, mais David Carradine e os demais aparecem devidamente incorporados à estilização que os personagens exigem.
A revisão fez muito bem à minha percepção sobre o desfecho, que antes considerava frustrante - uma após a trilha de sangue, aquilo, e não mais sangue -, mas agora me pareceu perfeito: a violência é simbólica, e não gráfica.
Nunca me animei muito com os rumores de que Tarantino fizesse um terceiro Kill Bill. Ocorre que, se ele só tem mais um filme a fazer e os Kill Bill contam como um só, quem sabe, organizando bem...
A estética de baixo orçamento pode gerar estranhamento, mas Extermínio é um bom filme. Procurando revigorar o gênero, o roteirista Alex Garland e o diretor Danny Boyle focam mais no sobrevivencialismo do que nos ataques zumbis. Há uma boa progressão dos acontecimentos tanto antes como depois de chegarem aos militares - o que é um marco da trama -, mas o maior mérito está nos personagens e no elenco. Todos são bons e muito bem defendidos, com destaque para a Naomi Harris, fazendo com que nos importemos com eles. Ao fim, é mais um bom filme desse diretor que teve uma primeira década de carreira muito promissora e se consolidou depois.
É curioso como qualquer filme dramático com estudo de personagem fica sujeito a levar a pecha de parado, "não acontece nada", mesmo quando claramente não é o caso. Demolição é um filme curto e faz ótimo uso de seus fotogramas: cada diálogo ou cena revela algo sobre o protagonista, sua relação com algum dos outros personagens ou seu arco no enredo.
O roteiro é de boa qualidade, mas quem lhes dá alma são as sólidas atuações do elenco e a direção firme e elegante de Jean-Marc Vallée, esse cineasta fantástico que nos deixou precocemente. Gostei de como o filme foge de saídas fáceis
deixando, por exemplo, de estabelecer uma relação romântica entre os personagens do Jake Gyllenhaal e Naomi Watts, quando percebem que são mais amigos do que outra coisa.
, bem como não procura fechar todas as arestas, como se o luto fosse algo que de repente se resolvesse como uma torneira que alguém pode fechar.
Demolição foi o filme que mais gostei de ver em 2025.
David Ayer surgiu como um autoral roteirista e diretor de temas urbanos e marginais, escrevendo filmes como Dia de Treinamento e o primeiro Velozes e Furiosos, dirigindo obras como Tempos de Violência e outras no mesmo espectro temático, possivelmente tendo encontrado seu auge criativo no ótimo Marcados Para Morrer. Depois tomou uma piaba do estúdio com Esquadrão Suicida, foi deixado à deriva e desde então tem buscado um novo rumo na carreira.
Enquanto Ayer despontava como um cineasta de temas policiais, Kurt Wimmer fazia o mesmo (O Novato, Thomas Crown etc)e tinha ainda uma queda para a ficção científica, roteirizando Esfera, escrevendo/dirigindo o interessante e bem recebido Equilibrium e depois o fracasso de crítica e bilheteria Ultravioleta. Depois passou a se dedicar a roteiros genéricos de ação.
Em suas melhores fases, Ayer e Wimmer se encontraram e juntos fizeram o competente Os Reis da Rua, de 2008. Agora, em decadência, se encontraram de novo para o abominável Beekeeper.
Essa longa introdução é, na verdade, uma reflexão sobre os caminhos do cinema e dos cineastas. Esses dois juntos não dão um Willian Friedklin, mas não são toupeiras e nada justifica que fabriquem um filme tão esculachado como isso aqui.
Pra começar, todos os anos o mercado despeja dezenas de filmes em que algum militar, ex-militar ou assassino de aluguel super específico se lança numa jornada de vingança. Dentre esses, há filmes bons e alguns muito bons. É uma estética testada, reconhecida, que deveria ser fácil para profissionais experientes como os citados.
Não é o que acontece: "Beekeeper" como um agente secreto com 'noção de colméia' não é um conceito bom e sua exploração é ainda pior: Beekeeper é um filme sisudo, desencontrado do ridículo que existe em sua premissa - ridículo que poderia ser um atributo até positivo. As cenas de ação são lamentáveis - há uma em específico, em que o protagonista bate em vários policiais que o cercam na porta de um prédio - que deveriam envergonhar o diretor. A coadjuvante feminina, que "numa manhã de ressaca descobre mais do que a equipe em dois anos" não passa a menor credibilidade como uma experiente agente do FBI. A única outra Beekeeper que aparece parece vir de outro filme (David Ayer precisa aprender com o Chad Stahelski como caracterizar personagens através do visual). Os únicos momentos espirituosos são os que Jeremy Irons, um ator dramático fantástico, recita com absoluta seriedade frases como "pra alguém que levou fazer merda ao estágio de arte, você acabou de fazer uma obra de Shakpespeare".
Mas o momento mais revelador do projeto é quando o personagem-título diz: "eu não me importo com como os presidentes são eleitos. Só me importo com certo e errado". Ali se evidencia qual público Ayer e Wimmer miram, e a ideia que fazem desse público.
Ideia recompensada. Beekeeper foi muito bem de bilheteria e uma sequência vem aí. São os caminhos do cinema.
Premonição é uma franquia subestimada pelo estúdio. Há nela uma mitologia a ser explorada, o exagero que mata muitos filmes corre em seu favor, as possibilidades narrativas são imensas.
Este aqui apresenta ideias que buscam combater o desgaste de ser o sexto filme. Foi bem recebido pelo público e a sétimo já foi confirmado. Não gostei, contudo. Parece-me haver nele um conflito de tom - há um certo drama fundado na circunstância de as vítimas serem familiares, mas nos ataques da morte há um tom cartunesco de mão pesada, permeado por computação gráfica terrível. Se é para abraçar a avacalhação, talvez o projeto se beneficiasse de adotar uma atmosfera de terrir mais consistente. O final é péssimo, além de previsivel não inspira nenhum suspense ou choque. O final do quinto filme deveria virar uma sombra que obrigasse os roteiristas subsequentes a pensar em um desfecho mais interessante.
Agora, o que mais dá pena é o desperdício de uma ideia central tão promissora. Dessa vez a premonição não é da protagonista e sim de sua avó, na década de 60. Depois há um salto temporal e descobrimos que a morte está perseguindo não apenas os sobreviventes do acidente originário, mas também seus descendentes.
E depois? Depois, nada. Vira mais um filme de Premonição, pouca diferença fazendo esse elemento novo. O filme poderia se passar inteiramente na década de 60, ou continuar nessa década mostrando um pouco do que aconteceu depois - quem sabe cortando para os dias atuais quando a morte chega ao avô, fazendo a avó surtar e iniciar a transição para a pessoa paranóica que conhecemos depois; poderia haver alguma ênfase nos fatos descritos no livro da avó, quem sabe até intercalar cenas do presente com flashbacks, conforme a protagonista vai tentando encontrar alguma solução. Explorar, enfim, a noção de "bloodlines", mas nada disso é feito, tudo é banal. Achei especialmente decepcionante por ser roteiro do Guy Busick, profissionalmente geralmente competente.
Obs: a sequência inicial do segundo filme, de 2003, continua não sendo ameaçada como a melhor da franquia.
Danny Boylle pode não ter escrito, produzido ou dirigido este Kneecap, mas certamente viu e gostou. É o seu DNA numa obra que pareceria inverossímil - tanta celeuma em torno do uso de um idioma - se não fosse conhecido o efervescente conflito que a cerca, e da qual a linguagem é apenas um dentre tantos elementos.
Eu não conhecia o trio, não sabia que interpretam a si próprios, e algumas das músicas são muito boas. Com isso, deixei de lado as inverossimilhanças do roteiro (DJ Provái conseguindo fingir que enganava sua esposa para participar dos shows, a briga artificial entre um dos garotos e sua namorada etc). Desprezando-se as arestas, é um bom filme, com ótimas falas ("cada palavra falada em irlandês é uma bala disparada para a liberdade irlandesa") e direção segura de um cineasta que é estreante e nem parece.
Tim Maia nasceu pobre, privou da amizade de um futuro grande astro, contrabandeou a si mesmo para os EUA sendo acolhido por desconhecidos, fez por onde ser deportado, pastou atrás de oportunidades (palavras dele), chegou ao topo da música, usou todo o pó que havia no Brasil, se meteu em casos amorosos complicados e em um culto obscuro, ressurgiu por um tempo e morreu jovem.
É uma história talhada para cinebiografia musical e no que isso apresenta em matéria de oportunidades, também oferece desafios. É muita coisa para um filme, mesmo um filme extenso, e por essa razão o roteiro e a montagem merecem créditos por terem dado conta da empreitada.
Digo isso por considerar correta a decisão de desenvolver mais vagarosamente a juventude do Tim Maia para, alcançado o sucesso, correr um pouco mais com o enredo.
Essa primeira parte é valorizada pela boa reconstituição de época, direção adequada do Mauro Lima e boas atuações de Luis Lobianco como Carlos Imperial. Há trechos que, apesar de desprovidos de impacto direto na trama, são interessantes e engraçados, como o Tim Maia entediado numa apresentação privada da Nara Leão.
Já a segunda consegue desfilar os acontecimentos mais relevantes na trajetória do biografado dedicando tempo relativamente escasso a cada um desses fatos sem conferir ao filme um aspecto de colcha de retalhos. A fuga dessa temida atmosfera protocolar se deve à intensa energia projetada nas excelentes cenas de palco (Tim Maia era um showman e o filme consegue mostrar isso), aos diálogos repletos de suingue e malicia à altura do biografado e às ótimas atuações de todos os intérpretes do astro.
Além, é claro, do elemento mais "inevitável" e bem-vindo do filme: a trilha sonora. Que repertório tinha o Tim Maia. Seja no triste, seja no vibrante, é repertório pra encher duas horas e meia sem repetir muita canção.
Mas o maior mérito do filme, e que é o maior mérito de qualquer cinebiografia, é ajudar a entender o biografado. Tim Maia era um sujeito dos mais complicados, o filme não nega, mas de forma nada panfletária sugere que um indivíduo lascado, marcado por uma história pessoal de rejeições humilhantes, no futuro também rejeitará. Mais do que uma índole boa ou ruim, tratava-se de uma índole fraturada.
Os filmes de Martin Scorsese costumam refletir preocupações e obsessões bastante pessoais do diretor. Ilha do Medo, lançado há 15 anos, soa como um marco: talvez seja o último filme relativamente despretensioso de Scorsese, que depois se lançou em temas sociais, existenciais e espirituais cada vez mais densos.
Trata-se, na verdade, de um exercício de estilo onde Scorsese pode brincar com o gênero noir que provavelmente o formou em sua juventude nos cinemas de Nova York. E como brinca bem: a iluminação, os figurinos, a cenografia são belíssimos, porém funcionais, contam a história sem parecer que estão contando. E quanto mais prestamos atenção a esse elementos, mais compreendemos o enredo.
Ilha do Medo talvez seja, dentre todos os filmes que já, um dos que mais se beneficiam da revisão. O final tem pretensões a ser surpreendente, sim, mas ilumina retrospectivamente tudo o que veio antes. Eu que não gostei muito do filme em 2010, e nem antecipei o seu final, me senti meio envergonhado disso agora:
Quem mais poderia ser o procurado Paciente 67, se o personagem do DiCaprio, a pretexto de não ter outra roupa limpa, fica o tempo todo literalmente vestido como paciente, além de passar a projeção toda recebendo remedinhos, cigarros e socorros dos médicos, como se interno fosse?
E que função teria o encontro com a médica numa caverna, senão um devaneio surreal, e o personagem do Jackie Earle Haley, que lhe explica o filme na metade dele?
Os diálogos possuem uma ambiguidade que passa despercebida a princípio, mas ganham valor na revisão. A todo momento os médicos verdadeiros tratam o trabalho do protagonista com um descaso incompatível com sua suposta natureza de policial federal; já o médico falso e seu parceiro está constantemente sondando suas opiniões. O que inicialmente atribuímos a uma troca de impressões entre colegas logo se mostra um artifício para testar os limites da consciência do protagonista.
Ilha do Medo tende a ocupar uma prateleira secundária e até terciária na filmografia do Martin Scorsese, mais por méritos da filmografia do que por deméritos próprios. É um filme sóbrio, sagaz e inteligente a ponto de merecer ser visto pelo menos duas vezes.
Devo ter visto esse filme umas duas ou três vezes em pouco mais de 15 anos e segue sendo um de meus menos favoritos do Tarantino. Ocorre que Tarantino não dorme no ponto, seus menos melhores ainda são apreciáveis. O que gosto nele é coragem: ele projeta uma maluquice a vai adiante sem medo do ridículo, aliás, às vezes até busca os 50 tons do ridículo, se isso vier em prol do resultado, o homem é bom de serviço. Kill Bill não tem os diálogos afiadíssimos de Pulp Fiction e me parece que o tema vingança foi mais bem-sucedido em Bastardos Inglórios, mas é um filme cheio de personalidade e ótimas cenas de ação - uma revisão do volume 2 talvez o faça melhorar um tanto mais, retrospectivamente.
Obs: nesta página tem comentário meu, de mais de 10 anos atrás, descendo o malho tanto no Kill Bill como no Django, perdoem, eu era xovem.
É uma pena que 18 anos (!!!) após seu lançamento, haja motivo para um renovado interesse em Tropa de Elite - algo que ocorreu após a megaoperação no complexo da Penha, Rio de Janeiro, algumas semanas atrás. Mas aconteceu e acontecerá de novo, talvez com maior frequência, pois o que já estava péssimo desandou de vez.
Mas falemos do filme. Embora quase não acredite que se passou tanto tempo, eu vi Tropa de Elite em DVD naquela primeira leva, quando ele vazou e o boca-a-boca foi poderoso a ponto de beneficiar financeiramente a obra, que foi vista no Cinema por milhões de brasileiros e depois fez carreira internacional, recebendo o Urso de Ouro em Berlim. Na ocasião, houve polêmica: aliciante do ponto de vista cinematográfico, Tropa de Elite parecia fazer apologia da realidade que retratava. Estaria José Padilha defendendo saco e tiro de fuzil como política de segurança? Ou, ao menos, alimentaria o filme esse instinto em seu público?
Para não realizar um extenso ensaio no qual seria necessário abordar a correção de rota que Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani fizeram em Tropa de Elite 2 para deixar mais explícita a mensagem, e para não dizer que a despeito disso o diretor parece ter um certo fetiche autoritário, algo que se viu em O Mecanismo, é possível elencar algumas características antagônicas neste primeiro Tropa:
a) o filme mostra tortura de maneira gráfica, feia, inclusive contra pessoas que não são diretamente responsáveis pelas mazelas que indica (são torturados adolescentes, familiares de traficantes e criminosos de baixíssimo escalão); b) a mensagem de que o usuário financia o tráfico é bem posta; c) Capitão Nascimento é um sujeito neurótico, esmagado pela violência que sofre e pratica; d) há um sutil contraponto, um oficial do BOPE que se diz "contra tortura", mostrando que as práticas do protagonista não são unânimes sequer na corporação; e) há uma adequada humanização da figura dos policiais - inclusive destacando que alguns vêm do cenário de pobreza e marginalização que torna muitos jovens vulneráveis ao aliciamento do tráfico - sendo o ingresso na polícia tanto uma forma de escapar dessa realidade como uma plataforma de emancipação social.
Por outro lado:
a) todos os oficiais do BOPE são mostrados como incorruptíveis, impecavelmente honestos, algo tido como falso inclusive pelos oficiais que inspiraram o Capitão Nascimento; b) há uma instrumentalidade na tortura: até os que são flagelados de forma desproporcional à contribuição que deram para o cenário de domínio do tráfico têm algo a informar aos torturadores, o que conduz a um raciocínio de que "os fins justificam os meios" avesso à realidade de que, fazendo-se as coisas daquele modo, também existem sacos e cabos de vassoura para inocentes; c) a última cena não coloca a prática da violência em perspectiva, ela te faz torcer para que haja caixão fechado.
Tudo posto em confronto, fica claro que lidando com um tema complexo, e cheio de características que por si sós romantizam o esquadrão especial (o uso de símbolos, cantos, o processo de seleção altamente rigoroso e dedicado a "especiais" etc), o faz de forma desajeitada, ambígua, o que pode causar problemas enquanto "mensagem", mas torna a experiência cinematográfica até mais interessante.
Nos aspectos técnicos, o filme é um triunfo total. Daniel Rezende ("Cidade de Deus") na fase montador e Fátima Toledo jamais terão o reconhecimento que merecem pelas maravilhas que fizeram ao cinema nacional. Se em 2007 eu vi o filme umas três vezes, dessa vez peguei para dar uma olhada e não consegui parar. Tropa de Elite é um filme neurótico, vibrante, que transmite urgência a cada fotograma, mesmo as cenas de treinamento em ambiente controlado parecem importadas de Platoon. Não há passagens mortas nem flacidez narrativa, e grande parte disso deriva da excelente montagem e das interpretações fantásticas. Apesar de Tropa de Elite integrar o folclore nacional pelos inúmeros bordões que introduziu em nosso léxico, apostaria que muitos deles não constavam do roteiro e são resultado de improvisações dos atores siderados pela maluca da Fátima.
E daí decorre a atuação absolutamente monstruosa de Wagner Moura. Baiano simpático, de altura mediana e àquela altura muito jovem (não tinha 30 anos), o sujeito parece ter sofrido uma lavagem cerebral, convertendo-se numa figura que exala autoridade, força e frieza, magnetizando para si todas as atenções toda vez que aparece em cena.
Sucedido por uma segunda parte tão boa quanto - pelo menos é o que lembro dela - Tropa de Elite é ótimo cinema, embora seja uma pena que não possamos a vê-lo apenas como tal, mas como o retrato de uma realidade triste que ainda está por aí.
Apesar de apreciar muito a filmografia do Quentin Tarantino, não assisto aos seus filmes assim que são lançados, e demorei especialmente para chegar a este. As descrições que tinha ouvido a seu respeito não soavam animadoras, havia um qualquer coisa que me afastava da obra, e que bom, encará-la com o ânimo adequado fez bem à experiência.
Dizendo sem rodeios: é um dos melhores filmes do Tarantino, pelo menos um dos três melhores. E não vou discutir se alguém apontá-lo como o melhor.
Sem dúvidas, é o mais maduro. Além da violência estilizada que é a sua marca, o diretor sempre primou pela originalidade - e a colagem de múltiplas referências, algumas beirando o plágio, não retira esse atributo - e pela capacidade de conceber e executar atmosferas muito específicas, sem as quais seus filmes viriam abaixo. Aqui, valendo-se de uma primorosa direção de arte, multipremiada com todas as justiças, ele realiza uma reconstituição viva, nostalgicamente pulsante, da Los Angeles sessentista. E se as inúmeras cenas com personagens dirigindo pelas ruas são apontadas por alguns como excessivas, logo digo que deveriam ser mais numerosas, pois são o coração do filme.
Longe de chegar a catarses apenas com cenas gráficas de ação, Tarantino faz proezas de melancolia (Di Caprio percebe sua queda), entusiasmo (os bons tempos estão de volta), tensão (Brad Pitt faz uma visita a um antigo conhecido, mas percebe que não é bem-vindo pela comunidade) e de novo melancolia (o diálogo com este conhecido não é bem o que se esperava).
E quando Tarantino faz o que se espera dele, causando catarse por meio da violência, ela vem amplificada por todos os sentimentos mais opacos que vieram antes.
Acho curioso como a veneração cinéfila do Tarantino, presente em todos os seus filmes, está impregnada neste não apenas das maneiras mais óbvias - afinal, se trata de um filme sobre cinema, passado em seus bastidores e tendo atores no centro - mas também de forma periférica, com um afeto que contamina até mesmo os aspectos mais duros dessa indústria:
o empresário interpretado pelo Al Pacino e responsável por informar ao Rick Dalton de sua morte enquanto celebridade e o diretor da série que o caricaturiza como um vilão genérico são bons exemplos disso. Nenhum deles é apresentado como encarnações de uma indústria aviltante, que cospe as estrelas de ontem, mas apenas como profissionais que lidam com recursos limitados e encontram respostas pragmáticas para realidades concretas.
O próprio Rick Dalton, que vai ao fundo e volta, não passa exatamente por um arco redentor. Ocorre que sua arrogância e comportamento escroto com os hippies acaba por atraí-los de volta à sua casa, de modo que indiretamente salvam a vida de Sharon Tate e seus amigos. É uma abordagem curiosamente estilizada de defeitos humanos, vistos pelo roteiro como legitimos e compreensiveis no contexto. É Tarantino olhando com carinho para o mundo que recriou.
A estratégia de caracterizar Sharon Tate como um ser quase angélico, de poucas palavras, girar o filme em torno dela dando-lhe pouco espaço, é uma ousadia tremenda. Estreitíssima borda entre não desrespeitar e não caricaturizar, mas Tarantino se sai bastante bem, sabe-se lá como. Talvez por obra da cena em que Tate se vê no cinema - curta de duração, mas que ressoa pelo filme todo humanizando a personagem e trazendo-lhe alguma textura que continua funcionando quando a personagem sai da tela.
Contando com interpretações fantásticas de Leonardo Di Caprio e Brad Pitt - este, exalando carisma numa das melhores performances de sua carreira -, Era Uma Vez em Hollywood conta ainda com o mérito de não dar palco ao Charles Manson, evitando que receba os aplausos de quem quem tenha o viés de admirá-lo. É uma obra imersiva, pessoal e reveladora de que Quentin Tarantino, supostamente próximo da aposentadoria, continua se desafiando e tentando fazer seu próximo melhor filme. É Cinema bom hoje como seria em qualquer tempo.
Após um avassalador inicio de carreira na década de 90, John Singleton entrou pelo milênio enveredando por filmes mais comerciais, dentre os quais ficou meio esquecido este Quatro Irmãos.
O roteiro é irregular, alternando momentos de baixa criatividade - um que outro diálogo capenga e sacadas artificiais como a caricata 'La Vida Loca' - com outros mais bem-sucedidos. Os Quatro Irmãos são suficiente desenvolvidos e os secundário ainda possuem função na trama, como o policial vivido pelo Terrence Howard. Nas atuações, aliás, a obra pisa firme, sendo algumas deficiências na trama contornadas pelo talento dos atores, basta ver que o vilão, personagem de pouca profundidade, torna-se muito interessante graças à performance fantástica de Chiwetel Ejiofor.
Mas a maior qualidade Quatro Irmãos reside na direção de Singleton. Econômico e elegante, ele conduz o filme sem maneirismos visuais, mas imprime energia nas perseguições e tiroteios, além de conferir fluidez aos aspectos dramáticos do longa.
Embora não se trate de um filme dos mais inesquecíveis, há nele elementos que remontam à qualidade de seu realizador e nos fazem lamentar por sua partida precoce.
Terceiro filme de franquia de entretenimento? Pouca chance de prestar. Mudou a equipe criativa? Piorou.
Contra todas as chances, esse terceiro "Corra Que a Polícia Vem Aí" preserva o estilo dos primeiros e não faz feio frente a eles. Infelizmente, o estreante diretor Peter Segal não tem a mesma paciência de David Zucker em construir a cena com verossimilhança para só depois demolir sua lógica interna com o elemento besteirol. Talvez pressionado pelo desgaste da fórmula, desperdiça alguns minutos da último ato colocando atrizes para receber o prêmio dando piruetas e entregando outras piadas precoces demais, quando a graça e o constrangimento naquele espaço solene deviam vir de personagens mais centrais. Por outro lado, também há sequências eficazes, como a da prisão - um segmento longo, mas bem explorado - e um divertido flashback para a década de 70.
Trilogia concluída com sucesso, três bons filmes. É ver o que sai desse remake.
Zumbilândia: Atire Duas Vezes
3.3 621 Assista AgoraNão sei se tive má vontade com o primeiro Zumbilândia - que assisti em 2009, não achei grandes coisas e nunca revi - ou se este representa algum incremento em relação a ele, mas gostei bastante de "Atire Duas Vezes". É um filme apropriadamente simples, com recursos visuais que, se não são originais, ao menos são bem empregados e ação bastante eficiente. Mas onde funciona mesmo é na comédia.
Em minha resenha sobre O Alfaiate, eu comentei que o aquele filme é comprometido pela personagem da Zoey Deutch, irritante e antipática num contexto em que torcer para que nada de mal lhe ocorra é condição indispensável para que a tensão que o roteiro deseja produzir seja bem-sucedido. Aqui se passa o contrário: ela está tão engraçada que o filme brilha todas em vezes em que aparece, e isto é um risco, pois se trata de uma personagem feita para ser over, podendo passar da conta. Emma Stone também mostra um timing cômico excelente com suas expressões faciais de repulsa e comentários irônicos sobre a colega.
Contando com apenas 01h30min que passam rápido, essa sequência atinge seus objetivos e bom seria se viesse uma trilogia.
Pânico 4
3.2 2,7K Assista AgoraUm tanto arrastado, mas ainda bom. Provavelmente top 3 da franquia.
Hanna
3.5 944 Assista AgoraHanna filme é material para estudo sobre como a direção faz a diferença e quais são os seus limites na arte do Cinema. Isso porque chega a causar estranhamento que um roteiro tão genérico e mal desenvolvido, com final inexistente, tenha encontrado um diretor tão bom como Joe Wright, e sabe-se lá o que atraiu o cineasta para um projeto como este. Seja como for, o filme é um deslumbre visual, extremamente bem desenvolvido e fotografado, valendo a pena assisti-lo a despeito da falta de muitos outros atrativos.
Onze Homens e um Segredo
3.8 668 Assista AgoraEu não amo "Onze Homens e Um Segredo", mas amo o profissionalismo que este filme envolve. Steven Soderbergh, quando o dirigiu, deve ter pensado algumas vezes que fazer um filme e roubar um cassino têm em comum a união de talentos em trabalho colaborativo, a disciplina intensa e alguma criatividade nos imprevistos. O jogo de câmera é maravilhoso, o roteiro tem várias boas sacadas e distribui a cada integrante do elenco estelar alguns momentos de brilho, a montagem é dinâmica, o filme é todo uma grande maquinaria que trabalha organizadamente, cheia de estilo, conduzida por quem sabe o que está fazendo. Steven Soderbergh é foda, o cara é tão bom em projetos minúsculos e artesanais como em obras de apelo comercial enorme.
Heart Eyes: Terror à Primeira Vista
2.8 165 Assista AgoraHeart Eyes é meio slasher, meio comédia romântica e funciona bem em ambos. Tem uma estética bem trabalhada e referências apropriadas, a despeito da obviedade do desfecho. Realmente há uma atmosfera meio 'Pânico', cujo destino devia ser confiado aos responsáveis por este filme, que conseguiram dar até alguma função ao Mason Gooding (em Pânico ele está sem fazer nada há três filmes). Hear Eyes é engraçado e revigorante, tem bons visuais e protagonistas que passam a funcionar após o desagrado inicial que provocam, como numa comédia romântica.
O Animal Cordial
3.4 630 Assista AgoraÉ um restaurante cujo dono é meio escrotinho, espelhando a clientela que ali aporta, com funcionários explorados fazendo o meio-campo. Uma dupla de assaltantes entra pra saquear o lugar e a partir daqui, quanto menos se souber, melhor. "O Animal Cordial" não se dá a divagações sociológicas, entender o título (e o conceito de homem cordial) é entender tudo. Trata-se de um vigoroso exercício de gênero, com utilização magistral da música e enquadramentos fantásticos, além de excelentes atuações. Esqueça o rigor geográfico, não fique se perguntando se num dado momento algum personagem poderia ou não ter alcançado uma chave ou uma faca, o filme é sensorial e pede alguma boa vontade nesse sentido. Gostei muito e quero ver os seguintes da diretora.
Vou Rifar Meu Coração
4.1 222É incrível: dá-se um tema, conversa-se com brasileiros comuns sobre ele e sai um bom documentário. Aqui dá certo de novo: é um desfile de personagens pitorescos, mas perfeitamente críveis, falando coisas que dão o que pensar, pro bem e pro mal. Às vezes parece que haverá um desvio de foco, o documentário será sobre outras coisas, mas logo volta-se ao eixo, a música brega e o universo que a circunda.
* lembrar de ler "Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar", de Paulo Cesar de Araújo.
Moscou Contra 007
3.7 210 Assista AgoraJá havia gostado de Dr. No, que vi anos atrás, mas assistindo a este From Russia With Love me dei conta de como posso até gostar bastante de alguns exemplares de Bond (como Skyfall e alguns outros), mas há uma incompatibilidade de essência: eu gosto do 007 espião, mas os Bonds não são filmes de espionagem e sim filmes de ação protagonizados por um suposto espião.
É fácil perceber isso vendo From Russia... pois os elementos de espionagem do início são muito bem trabalhados. Antagonistas promissores, trama que se apresenta como estratégia e direção elegante (a cena do jogo de xadrez tem uma decupagem belíssima).
Existem, ainda, outros méritos: Sean Conery segue como o James Bond imbatível, os coadjuvantes dão boa sustentação (além dos já citados vilões, há um coadjuvante de destaque e uma bondgirl linda), além de um certo humor britânico que cai bem. No final, há algumas sequências de ação que fazem pensar um pouco no Hitchcock em seus momentos menos cerebrais e mais vigorosos.
Apesar disso, não se trata de um filme perfeito. Como quase todo Bond, há momentos genéricos e uma barriga narrativa ali pelo meio. Quanto mais o filme se afasta da espionagem, menos bom fica. É o que os produtores querem fazer de Bond, fazer o quê.
Pânico 7
2.7 354 Assista AgoraAnotações para a resenha de Pânico 7 (que talvez vire a própria resenha):<br/><br/>
- A cena inicial é corretamente dirigida, é tensa, mas só. Cena inicial de Pânico tem que ser icônica, comunicar algo sobre o filme em si.<br/><br/>
- Ter três Pânicos em pouco mais de quatro anos faz com que o cinema não tenha tempo de mudar a ponto de essas mudanças serem parte orgânica de um projeto metalinguístico, algo que está no coração da franquia. É verdade que a primeira trilogia foi produzida a toque de caixa, mas trilogia não era algo novo. Não havendo nenhum tendência cinematográfica forte desde os anteriores, e não existindo (ainda bem) algo do tipo "convenções cinematográficas do sétimo filme de uma franquia", desaparece o sagacidade e surge o slasher convencional.<br/><br/>
- As set-pieces são quase todas boas. Apenas de o Kevin Williamson não ser um diretor experiente, gostei da condução de algumas sequências, principalmente as que mostram o Ghostface mais imponente, atacando de forma aberta.<br/><br/>- Os personagens são mal-aproveitados, entram e saem de cena aleatoriamente não apenas para despistar, mas também desperdiçando aqueles que deviam participar mais, como a Gale.<br/><br/>
- As informações iniciais sobre o retorno de diversos personagens mortos provocaram uma expectativa gigante (não por acaso a pré-venda foi enorme), mas foi uma promessa gigantesca para um resultado minúsculo. Roman e Srta. Loomis deviam voltar no futuro para serem mais bem aproveitados, ou nunca. Stu teve mais espaço, ainda assim faltou criatividade. Agora, o que fizeram com Dewey é uma vergonha, cuspiram num personagem querido.<br/><br/>
- Mesmo assim, o suspense bem conduzido, Sidney e Gale fariam de Pânico 7 uma experiência bem melhor se não fosse o horroroso final, horroroso. A motivação até não é das piores, mas são os mais aleatórios Ghostfaces da franquia. Em trama de "quem é o assassino" isso é básico, não pode ser alguém inexpressivo.<br/><br/>
- Aliás, eu sempre pensei que seria legal um Ghostface ser descoberto no meio da trama para depois descobrimos que há outros. Contudo, já deveria ser um personagem estabelecido, nao alguém inócuo, que faz parecer que está atrasando o andamento do enredo.<br/><br/>- Faz tempo que não vejo o terceiro filme, este é o pior dentre todos os demais. Ainda assim, divertido e ficaria mais bem cotado se não fosse o final. <br/><br/>
- Pânico precisa de uns 5, 7 anos de molho e voltar com fôlego novo, tal como fizeram ao contratar o radio silence após o hiato do quarto.<br/><br/>- Christopher Landon provavelmente daria um frescor nisso aqui e Melissa Barrera não falou nada de mais.
Yesterday
3.4 1,0KVocê é um músico medíocre e só está tomando na cabeça, tem um repertório de uma só música, da qual ninguém gosta. Acaba a luz do mundo por 12 segundos, na volta só você se lembra dos Beatles - e da música dos Beatles -, podendo se lançar como um superastro usando todo o repertório de uma das bandas de mais sucesso e impacto cultural da história.
Uma vez sentado no trono de artista mais importante do mundo, a consciência pode te atormentar e te levar a fazer algumas perguntas: Existe plágio se, tecnicamente, eu não copiei nada que já existisse na versão do mundo que eu estou habitando? É errado me passar pelo autor de músicas que nunca serão apresentadas às pessoas, se eu não o fizer, pois seus verdadeiros autores não se lembram da realidade paralela em que as compuseram? Ou o ponto ético está na autoria, eu preciso ter sentido, preciso ser capaz de produzir essa arte, para ser dono dela? Se essa arte me foi "dada" sem eu merecer, não estou no mesmo lugar de pessoas muito talentosas, alguém que, no fundo, foi agraciado por algo insondável?
Se no mundo da arte a glória está reservada aos brilhantes, o que fica para os sonhadores medíocres?
São dilemas muito intrigantes e interessantes que podemos formular por conta própria, já que Yesterday (2019) não faz o menor esforço para explorá-los, dedicando muito de sua energia a um romance formulaico e artificial com a personagem vivida por Lilly James.
Yesterday parece menos um filme de Danny Boyle (que adota aqui uma condução elegante, distanciada da direção nervosa, embalada por montagem frenética que ajudou a popularizar esforços como Transpotting e Quer Quer Ser um Milionário) do que do roteirista Richard Curtis, a mente romântica por trás de Quatro Casamentos e Um Funeral. O roteiro de Curtis tem inúmeros acertos: o retrato que faz da indústria musical equilibra a crítica ácida e o humor escrachado, produzindo cenas eficazes como a "reunião de marketing" e uma personagem que toma de assalto todas as cenas de que participa (a empresária interpretada por Kate McKinnon).
A exploração da premissa, contudo, depende de algumas boas investidas numa direção filosófica ou poética (cito duas cenas específicas: uma que envolve um casal, outra em que o protagonista se encontra com uma versão paralela de uma figura real), mas nunca consegue avançar nessa frente porque ela é obstruída por uma trama romântica que o roteiro fracassa em acoplar organicamente ao centro narrativo - o protagonista tornando-se célebre com a obra dos Beatles.
Disso resultam passagens lamentáveis como aquela em que, num filme de 2019, o interesse romântico do protagonista se queixa de que ele, em vinte anos, nunca chegou nela (e você não fez por quê? E por que só agora?). E essa condição que ela impõe para que o protagonista possa ficar com ela, abdicando de uma carreira que naquele momento parecia merecida? Ela é interesseira, possessiva? Nenhuma das coisas, ela é um não-personagem, um fantoche construído sem verossimilhança para criar obstáculos que o roteiro não conseguiu estabelecer com lastro na maneira como pessoas geralmente se relacionam.
Isso fica especialmente chato no fim, quando
o protagonista se apresenta num show de Ed Sheeran. De acordo com o código de moralidade adotado por Hollywood, estava posto que o filme não terminaria com o protagonista feliz da vida curtindo os frutos de um plágio cósmico, no fim ele acabaria confessando. O cenário armado para tanto foi o mais megalomaníaco possível, a produção conseguiu gravar a cena num show real de Sheeran no estádio de Wembley. A cena, contudo, é frustrante: a revelação sobre não ser o autor das músicas é feita diretamente para a personagem da LJ sem ter nenhuma relação com a relação entre ambos, inclusive porque, se usar essas músicas é errado, o seria querendo ou não dormir com a menina. Além disso, o texto do discurso é fraco demais, um roteirista experiente como Richard Curtis podia ter dado um polimento nessa fala.
Com tudo isso, seria mentiroso eu escrever sobre Yesterday sem dizer que gostei do filme. Ele é ágil, simpático, o talento de Boyle traz vigor ao clichê (a cena dos namoradinhos no túnel, com nomes de músicas literalmente vindo como um trem, é ótima), a manipulação de câmera é esteticamente atraente e, óbvio, é um filme cheio de músicas dos Beatles, que são admirados com bons motivos.
A chave talvez seja essa. Se tem muito Beatles, o filme sai na frente. Se Across The Universe conseguiu valer a pena...
Bruna Surfistinha
2.9 3,0K Assista AgoraUm filme sobre prostituição que se leva a sério não precisa, só por isso, encampar alguma tese sociológica. Há algum tempo assisti ao bom "Boa Sorte, Léo Grande", que aborda o tema numa chave intimista bem defendida e em seguida deixa o assunto em aberto.
O problema é tratar do tema sem saber o que fazer com ele, vestindo-o com uma estrutura narrativa que não comporta bem a ambiguidade que está em sua natureza. Bruna Surfistinha adota o esquemático modelo fundo-ascensão-queda-estabilização parecendo glamourizar as escolhas da protagonista na subida, tratá-la com moralismo na queda e após encontrar um desfecho que não chega a ser uma síntese desses movimentos.
Biografias, em livros ou no audiovisual, podem narrar a trajetória de indivíduos admiráveis, desprezíveis, que realizaram grandes feitos ou cujo centro temático está justamente no fato de não terem conseguido empreender o que desejavam. Toda vida humana gera uma biografia, mas é preciso que compreendamos quem é a pessoa retratada e porquê sua história merece ser contada. Este filme parece não compreender bem as razões pelas quais a personagem-título se tornou famosa. Raquel/Bruna é uma figura da internet nascente, uma das primeiras personalidades brasileiras a usar as redes para transformar o privado em público, tornando-se - e nisso a interpretação moral é livre e particular - uma curiosa precursora das influencer digitais antes que isso fosse uma profissão. Contudo, o roteiro ignora na trajetória de Raquel/Bruna tudo que extrapole a sua figura humana e conta a história de uma moça que sai de casa por razões não muito definidas, faz muito sexo, escreve num blog, dá uns tiros na cocaína e tem o seu desfecho escrito num letreiro, em vez de mostrado. Ou seja: provavelmente trata-se de uma adaptação fiel do livro, mas ao custo de gerar a sensação de que o filme não tem outra razão de ser além de explorar a curiosidade do público numa trama erótica encabeçada por uma linda atriz global.
Alguns elementos parecem ser especialmente mal trabalhados. O personagem do Cassio Gabus Mendes parece ser apresentado como um indivíduo afetuoso, bem-intencionado, mas só passa por isso graças à boa atuação do intérprete, pois suas falas remetem a um sujeito possessivo, que manda Raquel/Bruna "descer do alto" quando quem está no salto é ele próprio - que se vê como única saída para uma mulher que ele conheceu fazendo os seus corres. Entendo que existe nisso uma amarra temática: a protagonista não é vista sendo maltratada por seus pais, mas não tolera ficar sob a autoridade deles; assim o será também com parceiros afetivos: ela não consegue receber afeto, mesmo que verdadeiro, se ele vier acompanhado de dependência. É uma motivação, mas o roteiro nada faz com ela até a última cena, quando a verbaliza de forma explícita, e ela cai no vazio.
Ainda assim, Bruna Surfistinha tem algum mérito por parecer um filme, o que não é desprezível no presumido cenário de limitações orçamentárias que enfrentou, e não impediu algum zelo visual, tampouco atuações sólidas por parte de todo o elenco. Seria uma obra ainda melhor se houvesse um centro mais definido, um motivo melhor pra existir.
Kill Bill: Volume 2
4.2 1,5K Assista AgoraAo rever Kill Bill depois de muitos anos, não imaginava que o volume II seria tão superior ao primeiro.
Sim, Kill Bill foi projetado como um filme único, de extensa duração, que o estúdio cortou no meio para ter duas bilheterias. Ocorre que a cisão produziu duas metades com identidade própria: a primeira é um bom filme de ação estilizada, com pancadaria deslumbrante e uma promessa de enredo. A segunda metade entrega o enredo que a primeira prometeu e ainda mais: que roteiro fodido do Quentin Tarantino. Aqui não há cenas boas, mas segmentos completos altamente eficazes: Michael Madsen luta contra o fracasso, mas as mulheres que surgem em seu caminho não são nada fáceis; a "noiva" passa por um treinamento duro cujos ensinamentos acabam por salvar a sua vida no interior de um caixão; Daryl Hannah gostaria de ter ela própria matado a "noiva", e tem essa chance. Isso tudo com uma hora de filme, e há mais depois.
Um dos maiores brilhantismos de Quentin Tarantino foi convencer o público de que é um diretor verborrágico, excessivo, colorido como um bicho exótico, maluco. Tarantino é, isso sim, um dos mais rigorosos arquitetos narrativos do Cinema contemporâneo. Se sua ridículas ideias arrojadas param de pé, é por obra de uma execução minuciosa em todos os elementos verbais e visuais que fazem o espalhafato brilhar sobre uma sólida estrutura que mal aparece. Daí decorre que ele é, também, um competente diretor de atores: todos os citados, mais David Carradine e os demais aparecem devidamente incorporados à estilização que os personagens exigem.
A revisão fez muito bem à minha percepção sobre o desfecho, que antes considerava frustrante - uma após a trilha de sangue, aquilo, e não mais sangue -, mas agora me pareceu perfeito: a violência é simbólica, e não gráfica.
Nunca me animei muito com os rumores de que Tarantino fizesse um terceiro Kill Bill. Ocorre que, se ele só tem mais um filme a fazer e os Kill Bill contam como um só, quem sabe, organizando bem...
Extermínio
3.7 1,1K Assista AgoraA estética de baixo orçamento pode gerar estranhamento, mas Extermínio é um bom filme. Procurando revigorar o gênero, o roteirista Alex Garland e o diretor Danny Boyle focam mais no sobrevivencialismo do que nos ataques zumbis. Há uma boa progressão dos acontecimentos tanto antes como depois de chegarem aos militares - o que é um marco da trama -, mas o maior mérito está nos personagens e no elenco. Todos são bons e muito bem defendidos, com destaque para a Naomi Harris, fazendo com que nos importemos com eles. Ao fim, é mais um bom filme desse diretor que teve uma primeira década de carreira muito promissora e se consolidou depois.
Demolição
3.7 474É curioso como qualquer filme dramático com estudo de personagem fica sujeito a levar a pecha de parado, "não acontece nada", mesmo quando claramente não é o caso. Demolição é um filme curto e faz ótimo uso de seus fotogramas: cada diálogo ou cena revela algo sobre o protagonista, sua relação com algum dos outros personagens ou seu arco no enredo.
O roteiro é de boa qualidade, mas quem lhes dá alma são as sólidas atuações do elenco e a direção firme e elegante de Jean-Marc Vallée, esse cineasta fantástico que nos deixou precocemente. Gostei de como o filme foge de saídas fáceis
deixando, por exemplo, de estabelecer uma relação romântica entre os personagens do Jake Gyllenhaal e Naomi Watts, quando percebem que são mais amigos do que outra coisa.
Demolição foi o filme que mais gostei de ver em 2025.
Beekeeper: Rede de Vingança
3.2 234 Assista AgoraDavid Ayer surgiu como um autoral roteirista e diretor de temas urbanos e marginais, escrevendo filmes como Dia de Treinamento e o primeiro Velozes e Furiosos, dirigindo obras como Tempos de Violência e outras no mesmo espectro temático, possivelmente tendo encontrado seu auge criativo no ótimo Marcados Para Morrer. Depois tomou uma piaba do estúdio com Esquadrão Suicida, foi deixado à deriva e desde então tem buscado um novo rumo na carreira.
Enquanto Ayer despontava como um cineasta de temas policiais, Kurt Wimmer fazia o mesmo (O Novato, Thomas Crown etc)e tinha ainda uma queda para a ficção científica, roteirizando Esfera, escrevendo/dirigindo o interessante e bem recebido Equilibrium e depois o fracasso de crítica e bilheteria Ultravioleta. Depois passou a se dedicar a roteiros genéricos de ação.
Em suas melhores fases, Ayer e Wimmer se encontraram e juntos fizeram o competente Os Reis da Rua, de 2008. Agora, em decadência, se encontraram de novo para o abominável Beekeeper.
Essa longa introdução é, na verdade, uma reflexão sobre os caminhos do cinema e dos cineastas. Esses dois juntos não dão um Willian Friedklin, mas não são toupeiras e nada justifica que fabriquem um filme tão esculachado como isso aqui.
Pra começar, todos os anos o mercado despeja dezenas de filmes em que algum militar, ex-militar ou assassino de aluguel super específico se lança numa jornada de vingança. Dentre esses, há filmes bons e alguns muito bons. É uma estética testada, reconhecida, que deveria ser fácil para profissionais experientes como os citados.
Não é o que acontece: "Beekeeper" como um agente secreto com 'noção de colméia' não é um conceito bom e sua exploração é ainda pior: Beekeeper é um filme sisudo, desencontrado do ridículo que existe em sua premissa - ridículo que poderia ser um atributo até positivo. As cenas de ação são lamentáveis - há uma em específico, em que o protagonista bate em vários policiais que o cercam na porta de um prédio - que deveriam envergonhar o diretor. A coadjuvante feminina, que "numa manhã de ressaca descobre mais do que a equipe em dois anos" não passa a menor credibilidade como uma experiente agente do FBI. A única outra Beekeeper que aparece parece vir de outro filme (David Ayer precisa aprender com o Chad Stahelski como caracterizar personagens através do visual). Os únicos momentos espirituosos são os que Jeremy Irons, um ator dramático fantástico, recita com absoluta seriedade frases como "pra alguém que levou fazer merda ao estágio de arte, você acabou de fazer uma obra de Shakpespeare".
Mas o momento mais revelador do projeto é quando o personagem-título diz: "eu não me importo com como os presidentes são eleitos. Só me importo com certo e errado". Ali se evidencia qual público Ayer e Wimmer miram, e a ideia que fazem desse público.
Ideia recompensada. Beekeeper foi muito bem de bilheteria e uma sequência vem aí. São os caminhos do cinema.
Premonição 6: Laços de Sangue
3.3 734 Assista AgoraPremonição é uma franquia subestimada pelo estúdio. Há nela uma mitologia a ser explorada, o exagero que mata muitos filmes corre em seu favor, as possibilidades narrativas são imensas.
Este aqui apresenta ideias que buscam combater o desgaste de ser o sexto filme. Foi bem recebido pelo público e a sétimo já foi confirmado. Não gostei, contudo. Parece-me haver nele um conflito de tom - há um certo drama fundado na circunstância de as vítimas serem familiares, mas nos ataques da morte há um tom cartunesco de mão pesada, permeado por computação gráfica terrível. Se é para abraçar a avacalhação, talvez o projeto se beneficiasse de adotar uma atmosfera de terrir mais consistente. O final é péssimo, além de previsivel não inspira nenhum suspense ou choque. O final do quinto filme deveria virar uma sombra que obrigasse os roteiristas subsequentes a pensar em um desfecho mais interessante.
Agora, o que mais dá pena é o desperdício de uma ideia central tão promissora. Dessa vez a premonição não é da protagonista e sim de sua avó, na década de 60. Depois há um salto temporal e descobrimos que a morte está perseguindo não apenas os sobreviventes do acidente originário, mas também seus descendentes.
E depois? Depois, nada. Vira mais um filme de Premonição, pouca diferença fazendo esse elemento novo. O filme poderia se passar inteiramente na década de 60, ou continuar nessa década mostrando um pouco do que aconteceu depois - quem sabe cortando para os dias atuais quando a morte chega ao avô, fazendo a avó surtar e iniciar a transição para a pessoa paranóica que conhecemos depois; poderia haver alguma ênfase nos fatos descritos no livro da avó, quem sabe até intercalar cenas do presente com flashbacks, conforme a protagonista vai tentando encontrar alguma solução. Explorar, enfim, a noção de "bloodlines", mas nada disso é feito, tudo é banal. Achei especialmente decepcionante por ser roteiro do Guy Busick, profissionalmente geralmente competente.
Obs: a sequência inicial do segundo filme, de 2003, continua não sendo ameaçada como a melhor da franquia.
Kneecap - Música e Liberdade
3.8 26 Assista AgoraDanny Boylle pode não ter escrito, produzido ou dirigido este Kneecap, mas certamente viu e gostou. É o seu DNA numa obra que pareceria inverossímil - tanta celeuma em torno do uso de um idioma - se não fosse conhecido o efervescente conflito que a cerca, e da qual a linguagem é apenas um dentre tantos elementos.
Eu não conhecia o trio, não sabia que interpretam a si próprios, e algumas das músicas são muito boas. Com isso, deixei de lado as inverossimilhanças do roteiro (DJ Provái conseguindo fingir que enganava sua esposa para participar dos shows, a briga artificial entre um dos garotos e sua namorada etc). Desprezando-se as arestas, é um bom filme, com ótimas falas ("cada palavra falada em irlandês é uma bala disparada para a liberdade irlandesa") e direção segura de um cineasta que é estreante e nem parece.
Tim Maia - Não Há Nada Igual
3.6 592 Assista AgoraTim Maia nasceu pobre, privou da amizade de um futuro grande astro, contrabandeou a si mesmo para os EUA sendo acolhido por desconhecidos, fez por onde ser deportado, pastou atrás de oportunidades (palavras dele), chegou ao topo da música, usou todo o pó que havia no Brasil, se meteu em casos amorosos complicados e em um culto obscuro, ressurgiu por um tempo e morreu jovem.
É uma história talhada para cinebiografia musical e no que isso apresenta em matéria de oportunidades, também oferece desafios. É muita coisa para um filme, mesmo um filme extenso, e por essa razão o roteiro e a montagem merecem créditos por terem dado conta da empreitada.
Digo isso por considerar correta a decisão de desenvolver mais vagarosamente a juventude do Tim Maia para, alcançado o sucesso, correr um pouco mais com o enredo.
Essa primeira parte é valorizada pela boa reconstituição de época, direção adequada do Mauro Lima e boas atuações de Luis Lobianco como Carlos Imperial. Há trechos que, apesar de desprovidos de impacto direto na trama, são interessantes e engraçados, como o Tim Maia entediado numa apresentação privada da Nara Leão.
Já a segunda consegue desfilar os acontecimentos mais relevantes na trajetória do biografado dedicando tempo relativamente escasso a cada um desses fatos sem conferir ao filme um aspecto de colcha de retalhos. A fuga dessa temida atmosfera protocolar se deve à intensa energia projetada nas excelentes cenas de palco (Tim Maia era um showman e o filme consegue mostrar isso), aos diálogos repletos de suingue e malicia à altura do biografado e às ótimas atuações de todos os intérpretes do astro.
Além, é claro, do elemento mais "inevitável" e bem-vindo do filme: a trilha sonora. Que repertório tinha o Tim Maia. Seja no triste, seja no vibrante, é repertório pra encher duas horas e meia sem repetir muita canção.
Mas o maior mérito do filme, e que é o maior mérito de qualquer cinebiografia, é ajudar a entender o biografado. Tim Maia era um sujeito dos mais complicados, o filme não nega, mas de forma nada panfletária sugere que um indivíduo lascado, marcado por uma história pessoal de rejeições humilhantes, no futuro também rejeitará. Mais do que uma índole boa ou ruim, tratava-se de uma índole fraturada.
É mais do que muitas cinebiografias fazem.
Ilha do Medo
4.2 4,1K Assista AgoraOs filmes de Martin Scorsese costumam refletir preocupações e obsessões bastante pessoais do diretor. Ilha do Medo, lançado há 15 anos, soa como um marco: talvez seja o último filme relativamente despretensioso de Scorsese, que depois se lançou em temas sociais, existenciais e espirituais cada vez mais densos.
Trata-se, na verdade, de um exercício de estilo onde Scorsese pode brincar com o gênero noir que provavelmente o formou em sua juventude nos cinemas de Nova York. E como brinca bem: a iluminação, os figurinos, a cenografia são belíssimos, porém funcionais, contam a história sem parecer que estão contando. E quanto mais prestamos atenção a esse elementos, mais compreendemos o enredo.
Ilha do Medo talvez seja, dentre todos os filmes que já, um dos que mais se beneficiam da revisão. O final tem pretensões a ser surpreendente, sim, mas ilumina retrospectivamente tudo o que veio antes. Eu que não gostei muito do filme em 2010, e nem antecipei o seu final, me senti meio envergonhado disso agora:
Quem mais poderia ser o procurado Paciente 67, se o personagem do DiCaprio, a pretexto de não ter outra roupa limpa, fica o tempo todo literalmente vestido como paciente, além de passar a projeção toda recebendo remedinhos, cigarros e socorros dos médicos, como se interno fosse?
E que função teria o encontro com a médica numa caverna, senão um devaneio surreal, e o personagem do Jackie Earle Haley, que lhe explica o filme na metade dele?
E mais:
Os diálogos possuem uma ambiguidade que passa despercebida a princípio, mas ganham valor na revisão. A todo momento os médicos verdadeiros tratam o trabalho do protagonista com um descaso incompatível com sua suposta natureza de policial federal; já o médico falso e seu parceiro está constantemente sondando suas opiniões. O que inicialmente atribuímos a uma troca de impressões entre colegas logo se mostra um artifício para testar os limites da consciência do protagonista.
Ilha do Medo tende a ocupar uma prateleira secundária e até terciária na filmografia do Martin Scorsese, mais por méritos da filmografia do que por deméritos próprios. É um filme sóbrio, sagaz e inteligente a ponto de merecer ser visto pelo menos duas vezes.
Kill Bill: Volume 1
4.2 2,4K Assista AgoraDevo ter visto esse filme umas duas ou três vezes em pouco mais de 15 anos e segue sendo um de meus menos favoritos do Tarantino. Ocorre que Tarantino não dorme no ponto, seus menos melhores ainda são apreciáveis. O que gosto nele é coragem: ele projeta uma maluquice a vai adiante sem medo do ridículo, aliás, às vezes até busca os 50 tons do ridículo, se isso vier em prol do resultado, o homem é bom de serviço. Kill Bill não tem os diálogos afiadíssimos de Pulp Fiction e me parece que o tema vingança foi mais bem-sucedido em Bastardos Inglórios, mas é um filme cheio de personalidade e ótimas cenas de ação - uma revisão do volume 2 talvez o faça melhorar um tanto mais, retrospectivamente.
Obs: nesta página tem comentário meu, de mais de 10 anos atrás, descendo o malho tanto no Kill Bill como no Django, perdoem, eu era xovem.
Tropa de Elite
4.0 1,9K Assista AgoraÉ uma pena que 18 anos (!!!) após seu lançamento, haja motivo para um renovado interesse em Tropa de Elite - algo que ocorreu após a megaoperação no complexo da Penha, Rio de Janeiro, algumas semanas atrás. Mas aconteceu e acontecerá de novo, talvez com maior frequência, pois o que já estava péssimo desandou de vez.
Mas falemos do filme. Embora quase não acredite que se passou tanto tempo, eu vi Tropa de Elite em DVD naquela primeira leva, quando ele vazou e o boca-a-boca foi poderoso a ponto de beneficiar financeiramente a obra, que foi vista no Cinema por milhões de brasileiros e depois fez carreira internacional, recebendo o Urso de Ouro em Berlim. Na ocasião, houve polêmica: aliciante do ponto de vista cinematográfico, Tropa de Elite parecia fazer apologia da realidade que retratava. Estaria José Padilha defendendo saco e tiro de fuzil como política de segurança? Ou, ao menos, alimentaria o filme esse instinto em seu público?
Para não realizar um extenso ensaio no qual seria necessário abordar a correção de rota que Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani fizeram em Tropa de Elite 2 para deixar mais explícita a mensagem, e para não dizer que a despeito disso o diretor parece ter um certo fetiche autoritário, algo que se viu em O Mecanismo, é possível elencar algumas características antagônicas neste primeiro Tropa:
a) o filme mostra tortura de maneira gráfica, feia, inclusive contra pessoas que não são diretamente responsáveis pelas mazelas que indica (são torturados adolescentes, familiares de traficantes e criminosos de baixíssimo escalão); b) a mensagem de que o usuário financia o tráfico é bem posta; c) Capitão Nascimento é um sujeito neurótico, esmagado pela violência que sofre e pratica; d) há um sutil contraponto, um oficial do BOPE que se diz "contra tortura", mostrando que as práticas do protagonista não são unânimes sequer na corporação; e) há uma adequada humanização da figura dos policiais - inclusive destacando que alguns vêm do cenário de pobreza e marginalização que torna muitos jovens vulneráveis ao aliciamento do tráfico - sendo o ingresso na polícia tanto uma forma de escapar dessa realidade como uma plataforma de emancipação social.
Por outro lado:
a) todos os oficiais do BOPE são mostrados como incorruptíveis, impecavelmente honestos, algo tido como falso inclusive pelos oficiais que inspiraram o Capitão Nascimento; b) há uma instrumentalidade na tortura: até os que são flagelados de forma desproporcional à contribuição que deram para o cenário de domínio do tráfico têm algo a informar aos torturadores, o que conduz a um raciocínio de que "os fins justificam os meios" avesso à realidade de que, fazendo-se as coisas daquele modo, também existem sacos e cabos de vassoura para inocentes; c) a última cena não coloca a prática da violência em perspectiva, ela te faz torcer para que haja caixão fechado.
Tudo posto em confronto, fica claro que lidando com um tema complexo, e cheio de características que por si sós romantizam o esquadrão especial (o uso de símbolos, cantos, o processo de seleção altamente rigoroso e dedicado a "especiais" etc), o faz de forma desajeitada, ambígua, o que pode causar problemas enquanto "mensagem", mas torna a experiência cinematográfica até mais interessante.
Nos aspectos técnicos, o filme é um triunfo total. Daniel Rezende ("Cidade de Deus") na fase montador e Fátima Toledo jamais terão o reconhecimento que merecem pelas maravilhas que fizeram ao cinema nacional. Se em 2007 eu vi o filme umas três vezes, dessa vez peguei para dar uma olhada e não consegui parar. Tropa de Elite é um filme neurótico, vibrante, que transmite urgência a cada fotograma, mesmo as cenas de treinamento em ambiente controlado parecem importadas de Platoon. Não há passagens mortas nem flacidez narrativa, e grande parte disso deriva da excelente montagem e das interpretações fantásticas. Apesar de Tropa de Elite integrar o folclore nacional pelos inúmeros bordões que introduziu em nosso léxico, apostaria que muitos deles não constavam do roteiro e são resultado de improvisações dos atores siderados pela maluca da Fátima.
E daí decorre a atuação absolutamente monstruosa de Wagner Moura. Baiano simpático, de altura mediana e àquela altura muito jovem (não tinha 30 anos), o sujeito parece ter sofrido uma lavagem cerebral, convertendo-se numa figura que exala autoridade, força e frieza, magnetizando para si todas as atenções toda vez que aparece em cena.
Sucedido por uma segunda parte tão boa quanto - pelo menos é o que lembro dela - Tropa de Elite é ótimo cinema, embora seja uma pena que não possamos a vê-lo apenas como tal, mas como o retrato de uma realidade triste que ainda está por aí.
Era Uma Vez em... Hollywood
3.8 2,3K Assista AgoraApesar de apreciar muito a filmografia do Quentin Tarantino, não assisto aos seus filmes assim que são lançados, e demorei especialmente para chegar a este. As descrições que tinha ouvido a seu respeito não soavam animadoras, havia um qualquer coisa que me afastava da obra, e que bom, encará-la com o ânimo adequado fez bem à experiência.
Dizendo sem rodeios: é um dos melhores filmes do Tarantino, pelo menos um dos três melhores. E não vou discutir se alguém apontá-lo como o melhor.
Sem dúvidas, é o mais maduro. Além da violência estilizada que é a sua marca, o diretor sempre primou pela originalidade - e a colagem de múltiplas referências, algumas beirando o plágio, não retira esse atributo - e pela capacidade de conceber e executar atmosferas muito específicas, sem as quais seus filmes viriam abaixo. Aqui, valendo-se de uma primorosa direção de arte, multipremiada com todas as justiças, ele realiza uma reconstituição viva, nostalgicamente pulsante, da Los Angeles sessentista. E se as inúmeras cenas com personagens dirigindo pelas ruas são apontadas por alguns como excessivas, logo digo que deveriam ser mais numerosas, pois são o coração do filme.
Longe de chegar a catarses apenas com cenas gráficas de ação, Tarantino faz proezas de melancolia (Di Caprio percebe sua queda), entusiasmo (os bons tempos estão de volta), tensão (Brad Pitt faz uma visita a um antigo conhecido, mas percebe que não é bem-vindo pela comunidade) e de novo melancolia (o diálogo com este conhecido não é bem o que se esperava).
E quando Tarantino faz o que se espera dele, causando catarse por meio da violência, ela vem amplificada por todos os sentimentos mais opacos que vieram antes.
Acho curioso como a veneração cinéfila do Tarantino, presente em todos os seus filmes, está impregnada neste não apenas das maneiras mais óbvias - afinal, se trata de um filme sobre cinema, passado em seus bastidores e tendo atores no centro - mas também de forma periférica, com um afeto que contamina até mesmo os aspectos mais duros dessa indústria:
o empresário interpretado pelo Al Pacino e responsável por informar ao Rick Dalton de sua morte enquanto celebridade e o diretor da série que o caricaturiza como um vilão genérico são bons exemplos disso. Nenhum deles é apresentado como encarnações de uma indústria aviltante, que cospe as estrelas de ontem, mas apenas como profissionais que lidam com recursos limitados e encontram respostas pragmáticas para realidades concretas.
O próprio Rick Dalton, que vai ao fundo e volta, não passa exatamente por um arco redentor. Ocorre que sua arrogância e comportamento escroto com os hippies acaba por atraí-los de volta à sua casa, de modo que indiretamente salvam a vida de Sharon Tate e seus amigos. É uma abordagem curiosamente estilizada de defeitos humanos, vistos pelo roteiro como legitimos e compreensiveis no contexto. É Tarantino olhando com carinho para o mundo que recriou.
A estratégia de caracterizar Sharon Tate como um ser quase angélico, de poucas palavras, girar o filme em torno dela dando-lhe pouco espaço, é uma ousadia tremenda. Estreitíssima borda entre não desrespeitar e não caricaturizar, mas Tarantino se sai bastante bem, sabe-se lá como. Talvez por obra da cena em que Tate se vê no cinema - curta de duração, mas que ressoa pelo filme todo humanizando a personagem e trazendo-lhe alguma textura que continua funcionando quando a personagem sai da tela.
Contando com interpretações fantásticas de Leonardo Di Caprio e Brad Pitt - este, exalando carisma numa das melhores performances de sua carreira -, Era Uma Vez em Hollywood conta ainda com o mérito de não dar palco ao Charles Manson, evitando que receba os aplausos de quem quem tenha o viés de admirá-lo. É uma obra imersiva, pessoal e reveladora de que Quentin Tarantino, supostamente próximo da aposentadoria, continua se desafiando e tentando fazer seu próximo melhor filme. É Cinema bom hoje como seria em qualquer tempo.
Quatro Irmãos
3.5 288 Assista AgoraApós um avassalador inicio de carreira na década de 90, John Singleton entrou pelo milênio enveredando por filmes mais comerciais, dentre os quais ficou meio esquecido este Quatro Irmãos.
O roteiro é irregular, alternando momentos de baixa criatividade - um que outro diálogo capenga e sacadas artificiais como a caricata 'La Vida Loca' - com outros mais bem-sucedidos. Os Quatro Irmãos são suficiente desenvolvidos e os secundário ainda possuem função na trama, como o policial vivido pelo Terrence Howard. Nas atuações, aliás, a obra pisa firme, sendo algumas deficiências na trama contornadas pelo talento dos atores, basta ver que o vilão, personagem de pouca profundidade, torna-se muito interessante graças à performance fantástica de Chiwetel Ejiofor.
Mas a maior qualidade Quatro Irmãos reside na direção de Singleton. Econômico e elegante, ele conduz o filme sem maneirismos visuais, mas imprime energia nas perseguições e tiroteios, além de conferir fluidez aos aspectos dramáticos do longa.
Embora não se trate de um filme dos mais inesquecíveis, há nele elementos que remontam à qualidade de seu realizador e nos fazem lamentar por sua partida precoce.
Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3: O Insulto …
3.4 204 Assista AgoraTerceiro filme de franquia de entretenimento? Pouca chance de prestar. Mudou a equipe criativa? Piorou.
Contra todas as chances, esse terceiro "Corra Que a Polícia Vem Aí" preserva o estilo dos primeiros e não faz feio frente a eles. Infelizmente, o estreante diretor Peter Segal não tem a mesma paciência de David Zucker em construir a cena com verossimilhança para só depois demolir sua lógica interna com o elemento besteirol. Talvez pressionado pelo desgaste da fórmula, desperdiça alguns minutos da último ato colocando atrizes para receber o prêmio dando piruetas e entregando outras piadas precoces demais, quando a graça e o constrangimento naquele espaço solene deviam vir de personagens mais centrais. Por outro lado, também há sequências eficazes, como a da prisão - um segmento longo, mas bem explorado - e um divertido flashback para a década de 70.
Trilogia concluída com sucesso, três bons filmes. É ver o que sai desse remake.