Filmes sempre possuíram uma relação muito íntima com o tempo. Seja pela duração que precisa ser precisa para cativar o espectador sem torná-lo cansativo, seja porque uma produção longa demais às vezes é rejeitada por tomar tempo excessivo nas nossas rotinas tão atribuladas, ou mesmo porque o tempo é aquele que define o que conseguimos e o que não conseguimos fazer num dia. Sendo assim, em geral, o cinema não pensa tanto sobre o espaço. Mas "Aqui" é diferente.
Afinal, aqui temos uma produção filmada sempre no exato mesmo local, marcando presença naquele mesmo espaço. Por mais que o tempo pareça a estrela do filme, é o espaço que é o verdadeiro astro aqui. Porque, sem ele, mesmo que o tempo passasse, era como se ele sequer existisse.
E isso é muito claro na vida dos personagens. Como o tempo pode passar - e jamais retrocederá, convém lembrar - mas é o espaço que vai definir as nossas vidas. Seja porque estamos num lugar que nos permite fazer experimentos científicos, praticar com o violino ou treinar aeróbica ou porque podemos ir para outro lugar, seja para conhecer a encantadora Paris ou estudar Direito numa faculdade de prestígio. E, mesmo assim, há muito que podemos fazer numa simples sala de estar.
Podemos criar nossos filhos, nos casar, comemorar aniversários e até mesmo dar à luz. E, mesmo assim, pensamos muito pouco neste espaço, ou sonhamos em deixá-lo para ter o nosso próprio cantinho sem apreciá-lo como devemos. Quantas e quantas vezes não nos preocupamos com o tempo e deixamos o espaço negligenciado? E o quanto isto não acaba por nos afetar ao longo da vida definitivamente não é pouco.
O filme é um pouco repetitivo e o roteiro precisava de um toque a mais de vigor para conectar bem todas as histórias, pois há muitas tramas que revolvem de maneira extremamente superficial, tomando tempo de tela de desenvolvimentos que seriam muito mais interessantes, mas não dá pra dizer que é um fracasso completo.
Os protagonistas, Tom Hanks e Robin Wright, são incríveis como sempre, carismáticos como poucos, e estão rodeados de uma infinidade de coadjuvantes charmosos. É incrível como a tecnologia para rejuvenescer os atores melhorou tremendamente ao longo dos últimos anos (eles parecem mais novos que da primeira vez em que formaram um par), mesmo que ainda não seja 100% realista, uma vez que parecia um filtro de embelezamento pesado na cara deles, por vezes.
Enquanto isto, a preocupação com o departamento de maquiagem para o envelhecimento de personagens, tão importante para a história, parece ter sido negligenciada várias vezes aqui. Tanto nos momentos que requereriam sutileza na transformação (que era basicamente imperceptível, em vez de sutil), quanto nos que precisariam de algo mais drástico (a Kelly Reilly sendo a maior vítima disto). Talvez tenham confiado nos tais filtros para fazer isto também. E o resultado não foi muito bom.
Ainda assim, não tem como não deixar de louvar a reconstrução de cada época nos seus detalhes, em que conseguíamos nos situar no tempo vendo os objetos que estavam ao redor dos personagens e acompanhando as mudanças que a sociedade foi vivenciando ao longo das muitas décadas retratadas. Guerras, crises econômicas e pandemias se misturavam às alegrias e tristeza da vida doméstica, do nascimento à morte.
Onde o filme falhou mesmo foi no roteiro. Passou uns bons vinte minutos até firmar alguma história, meio que apresentando esquetes soltos, e isto fez tudo parecer extremamente sem propósito por longos períodos? Talvez a ambição de apresentar fatias da vida de uma infinidade de pessoas tenha sido um pouco desmedida, até porque tirou o foco da história que realmente importava para passar uma mensagem clara (que só ganha mais peso emocional já no final).
Mesmo assim, é uma obra experimental no melhor sentido, pois apresenta uma proposta nova para contar as mesmas velhas histórias. E que consegue fazer isto com sucesso. Embora o truque fique velho depois de um tempo e não haja aqui nenhuma história muito extraordinária, talvez seja exatamente este o sentido da coisa toda; mostrar que até nas situações mais banais a vida acontece. Aqui.
Que saudades dos anos 2000, hein? Época em que ainda existiam locadoras, Vince Vaughn e Jennifer Aniston eram imensos astros de Hollywood e filmes como "Separados pelo Casamento" rendiam 200 milhões de dólares na bilheteria mundial... E o mais louco é pensar que isso tudo aconteceu há quase vinte anos, embora pareça tão próximo!
E é a passagem do tempo que inicia os conflitos do filme. Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) se apaixonam - sabe-se lá como, porque ela é definitivamente muita areia pro caminhãozinho dele - e descobrem pouco a pouco, com a convivência, que possivelmente não foram feitos um para o outro, pois existem muitas e muitas diferenças simplesmente irreconciliáveis. Mas, tendo investido suas economias numa casa própria, ambos não querem largar aquilo que conquistaram.
E assim se iniciam as desventuras apresentadas no filme. Como nenhum dos dois quer abrir mão do apartamento, mais da metade da trama fica dedicada às tentativas dos dois lados de expulsar o outro dali para poder usufruir do bem sozinho. Tudo isso feito com aquele ar de comédia típica da época.
E é uma pena que o filme tenha perdido tanto tempo com isto. Porque a obra brilha de verdade quando mostra um retrato mais realista da vida de casal, em que o drama acaba se sobressaindo. Até porque este filme, lá no fundo, não é uma comédia pastelão, mas sim um ensaio sobre amor, sobre relacionamentos e sobre a arte de desapegar.
É possível até que tenham percebido isto na montagem, mas as forças dos departamentos comerciais jamais aceitariam que um filme que é um tiro certo como comédia pastelão se tornasse um possível risco de prejuízo caso se tornasse um filme sério. E daí ficamos no meio do caminho.
Enquanto Brooke e Gary são separados pelo casamento, nós, o público, acabamos sendo separados de uma experiência que poderia ser muito melhor pela tão famigerada viabilidade comercial. This is Hollywood, baby...
Em tempos de "Branca de Neve" (2025), quem recomenda uma adaptação live-action de clássicos da Disney bom amigo não parece ser... Mas minha amiga Natalie pode continuar a respirar tranquila, porque esta daqui certamente foi uma ótima recomendação! "Aladdin" está lá no topo entre as melhores ofertas recentes do estúdio.
É difícil demais competir com um clássico, mas esta nova adaptação soube explorar caminhos que a tornaram deslumbrante, mesmo que não tenha a mesma pujança do desenho original. Pode não chegar no mesmo nível? De fato. Mas são duas categorias diferentes. Com parâmetros totalmente distintos.
Temos aqui belíssimos efeitos especiais, visuais estupendos (que figurino incrível e cenografia de encher os olhos, aliás) e as mudanças no roteiro serviram bem ao propósito de atualizar a história. A Jasmine (Naomi Scott), por exemplo, tem aqui muito mais independência como personagem e isto nunca parece artificial, pois as alterações casaram bem com o resto da trama.
Ao contrário do erro cometido em "Mulan" (2020), aqui fizeram questão de deixar todos os mascotes intocáveis intocados. Temos o tapete mágico que consegue transmitir emoções sem nem ter cara e o encantador macaquinho Abu que nos conquista com seu carisma e brilho próprios. E temos, claro, o Gênio.
Will Smith era uma incógnita para mim, ainda mais sabendo que ele estaria no papel que um dia foi de Robin Williams, um dos maiores comediantes - e atores, e dubladores e qualquer outra coisa que esse cara fizesse, porque era simplesmente um gênio (sem trocadilhos) - de todos os tempos... E mesmo assim ele está muito bem no papel! Atraente e cativante, ele incorpora um novo gênio que é simplesmente genial. E que teve um papel estendido com muito merecimento, aliás.
Do campo das performances, não consegui gostar apenas do Jafar da nova versão. Marwan Kenzari está excessivamente afetado, ao mesmo tempo em que simplesmente não tem a mesma verve fascinante que o personagem animado tinha no desenho original. Soou caricato demais até para um filme infantil.
No fim das contas, seria pretensioso demais dizer que este é possivelmente o melhor remake live-action da Disney? Pelo menos entre os que vi, é definitivamente o melhor disparado. E nem precisou de três desejos para conseguir realizar essa proeza.
Para quem vive nas caóticas metrópoles da atualidade, a vida provinciana e pacata de uma pequena cidadezinha como Holland pode parecer mais que simplesmente atraente e se aproximar de um verdadeiro sonho de consumo, não é mesmo? Mas, por trás de toda aparente tranquilidade, sempre existem segredos e mistérios a serem revelados.
É isto que descobre Nancy Vandergroot (Nicole Kidman), uma professora que aparenta ter a vida perfeita, como esposa e mãe, mas que começa a vasculha o passado do seu marido, tão logo suspeita que ele tenha um caso extraconjugal, com a ajuda de um fiel escudeiro, o professor de marcenaria Dave Delgado (Gael García Bernal).
A aventura que eles destramam, entretanto, é muito mais do que eles poderiam supor em um primeiro momento. Longe de um pequeno affair de histórias do gênero mais tradicionais, o que eles encontram aqui é um verdadeiro caso de polícia.
A estética do filme é, de certa maneira, rica. Fez-se questão de imbuir o conteúdo de referências ao passado dos colonizadores holandeses que fundaram a cidade, seja nas vestimentas, danças, canções ou desfiles tradicionais.
De início, parece até prometer um encontro entre "Midsommar: O Mal Não Espera a Noite" (2019), com a exploração de tradições culturais antigas - e tidas por muitos como arcaicas e ultrapassadas -, com "Donas de Casas Desesperadas" (2004-12) ou "Mulheres Perfeitas" (2004) e suas ambientações nos subúrbios aparentemente perfeitos que o estilo de vida americano nos vende desde sempre.
Mas fica só na promessa mesmo. O que temos aqui é um thriller muito mequetrefe em que o nível de suspensão de descrença precisa ir muito além do aceitável para que aquilo tudo se torne minimamente verossímil. E é impressionante como a riqueza estética fica restrita única e exclusivamente a isto: pura estética.
Também é chocante ver o quanto o roteiro não consegue construir os relacionamentos na tela. Nada é plenamente desenvolvido, e às vezes nem mesmo inferido, mas simplesmente acontece da forma que é conveniente para que essa trama siga em frente aos trancos e solavancos.
Nem mesmo no departamento de tramas-de-mistério-rocambolescas-ambientadas-em-cidadezinhas-do-interior esse filme consegue se destacar, porque já temos "Veludo Azul" do David Lynch há quase quarenta anos... No fim, parece que "Holland" é tão ultrapassado quanto chamar os Países Baixos de Holanda.
Em um mundo que cada vez mais nos apresenta o homem-branco-cis-hétero-dos-países-centrais como causador de todos os males, "Red Rocket" é um sopro de ar fresco ao nos mostrar que toda generalização é falha e, portanto, burra.
Aqui acompanhamos a história de um desses homens, o ex-ator pornô e trambiqueiro profissional Mikey Saber (Simon Rex). Para quem acha que ele teria tudo para vencer só por ser quem é, a trama nos dá um recado sombrio: não foi nem de longe o suficiente. E, se não foi fácil para ele, com todas as - reais - facilidades que a vida lhe deu no nascimento, como será para todos nós que não encaixamos perfeitamente nesse papel?
Como nos demais filmes de Sean Baker que já acompanhei, aqui a questão não é exatamente o rótulo. Mas sim o sistema. O sistema que pode até privilegiar alguns (aliás, não podemos esquecer da doce Strawberry, por exemplo, privilegiada pelos excluídos) enquanto nega tudo a outros. Mas, no fim das contas, nunca há espaço para todos, mesmo para aqueles que saem de um ponto de partida vantajoso.
Para que uns tenham muito, outros precisam ter muito pouco. Para que uma minoria tenha tudo, então, é preciso que a vasta maioria não tenha nada. E é para isto que infelizmente estamos nos encaminhando cada vez mais.
Esse subtexto político fica enterrado lá no fundo, aparecendo de vez em quando em passagens que mencionam uma disputa entre pessoas supostamente muito diferentes, mas que querem chegar à gloriosa vitória apenas para dirigir o mesmo consenso. Aquele que o sistema permite que exista e prospere enquanto nos distrai com as mesmas ferramentas de sempre: o pão e o circo.
E talvez seja este o segredo deste filme e da carreira mais recente do cineasta. Ao mesmo tempo que ele atrai atenção e choca com aquilo que prende a atenção do público num primeiro momento, ao abrir mão de um conteúdo político que parte para o confronto de forma mais explícita, ele consegue também deixar muito bem apontado nas entrelinhas as mazelas do mundo em que vivemos que sempre vão nos afetar negativamente, sejamos quem sejamos.
E, para isto, contou com gente muito talentosa na tela. Simon Rex está incrível no papel principal, que em muito se assemelha a muita coisa que ele mesmo viveu, e nem por isso chegou a intimidá-lo. Mais impressionante, então, é ver a qualidade do trabalho dos coadjuvantes, sempre muito autênticos e firmes. A talentosa Bree Elrod e a beldade Suzanne Son, em particular, são achados. Espero demais que consigam outros papéis de destaque no futuro, da mesma forma que o Simon conseguiu aqui um merecido boost para uma carreira que sobrevivia por aparelhos.
No fim, o filme parece até mesclar ficção e realidade com essa aura de autenticidade sem igual, o que o torna ainda mais intenso e pungente. E se, para Mikey e para aqueles que o rodeiam, o sonho americano é cada vez mais impossível de ser atingido, que esperança teremos nós? Talvez nenhuma. Mas o fim de um sonho não é triste. Pelo contrário, é uma oportunidade. Pois sempre é possível dormir novamente e sonhar um novo - e melhor, esperamos - sonho.
Às vezes, as melhores histórias devem continuar ali entocadas, pois são intocáveis. Assim são muitos contos de fada. As histórias podem ser batidas, cheias de clichês e até mesmo uma tremenda bobagem. Mas já são assim há gerações e gerações. E, para mudá-las com sucesso, é preciso fazer tudo com muita exatidão e firmeza. Não é o que acontece aqui.
"Branca de Neve" é uma releitura da clássica animação (que basicamente deu vida à Disney como a conhecemos) dos anos 30 que, "muito evidentemente", como diria a intérprete da protagonista, Rachel Zegler, é uma criação do seu tempo. Mas uma criação que, embora diste em quase um século da nossa contemporaneidade, permanece no imaginário popular com muita força.
E daí que temos o primeiro grau de estranheza com esta nova adaptação. A história, aqui e ali, apresenta modificações que tentam atualizá-la e adaptá-la aos novos tempos. Mas o problema é que não consegue fazer isto em tudo com o vigor necessário. Assim como jamais conseguiria, aliás. Porque a história original é tão icônica que, quanto mais fosse alterada, mais haveria oposição a uma nova versão.
E aí reside o erro. Na tentativa de agradar gregos e troianos, o filme acabou não agradando a ninguém. Para uns, porque mudou muita coisa. Para outros, porque não mudou o suficiente. Para mim, porque virou um monstrengo que ficou no meio do caminho entre uma coisa e outra.
Definitivamente não é o pior filme do ano. Sempre é possível achar um ou outro ponto positivo; o figurino, por exemplo, é de fazer os olhos brilharem. As canções novas são esforçadas. O esmero com a cenografia na reprodução de algumas cenas emblemáticas também é louvável. E o filme brilha quando tenta ser mais fiel ao que já conhecíamos: a cena de perseguição na floresta, a transformação da bruxa, por exemplo, ou a nova versão da clássica canção dos anões.
Anões estes que, pelo menos para mim, não funcionaram. Novamente, a indecisão deixou as criaturas no meio do caminho, pois deixaram de ser humanas (desempregando tantos atores que raríssimas vezes têm oportunidades, e isto que trata-se de uma empresa que diz tanto valorizar a diversidade...) para serem umas criações amorfas. E os anões que estavam escalados, tive a impressão, tiveram de ser - ao menos em parte - reaproveitados em outro núcleo da trama. Tiram a refeição e dão a migalha em nome da inclusão, neste caso. Triste.
Inclusão, inclusive, que fez da Rachel Zegler protagonista. Ela pode não ser fenotipicamente o que se esperava no papel? Óbvio. Mas ela foi lá, resistiu às críticas (fúteis e rasas, convenhamos) e lutou para provar seu valor em cena. E, apesar das críticas esmagadoras, achei que ela está muito bem no papel. Encontra aquele equilíbrio entre seriedade de uma grande produção, leveza por se tratar de algo para o público infantil e determinação para mostrar a sua visão do papel. E ela tem também uma voz encantadora, como já sabíamos graças a "Amor, Sublime Amor" (2021).
Gal Gadot é o contrário. O tom vai além do exagerado e passa a ser histriônico sem qualquer necessidade. Qualquer atriz no papel da Rainha Má em um parque da Disney faz um trabalho melhor com essa personagem. E, ainda assim, é a Rachel Zegler quem está sendo tirada como bode expiatório para o desastre aqui. Porque às vezes o que conta não é a performance, mas sim fatores externos... E ela realmente fez questão de alimentar esses fatores externos, isso é inegável também.
Enfim, já me alonguei muito, e o filme realmente nem merece tanto. Se definitivamente não vai ser o pior filme do ano, no mínimo reconheço que, na melhor das hipóteses, é apenas regular. Na tentativa de agradar todo mundo, a obra atirou para todos os lados e acabou se perdendo entre muitas expectativas.
No fim das contas, não agradou de verdade a praticamente ninguém. Mas ao menos não perguntou ao espelho se havia filme melhor em todo o mundo. Caso contrário, sequer estaria aqui para recontar essa história... Porque certamente há melhores. E o espelho, quando tudo termina, não perdoa.
Desde cedo, sempre fui um aficionado por televisão (e também por acompanhar índices de audiência). Enquanto as outras crianças queriam ser médicas, advogadas e mesmo astronautas, eu queria mesmo era ter a minha própria emissora. Até criava programas, escalava elencos e bolava grades de programação... Então, talvez exatamente por isto, "Rede de Intrigas" tenha ressoado com muita força desde a primeira vez que vi.
Depois, ali pelo fim da adolescência, comecei a procurar uma coisa mais realista para a vida. Resolvi cursar Comunicação Social. Não por ter ilusão de que entraria necessariamente neste mundo da televisão. Longe disso. Mas porque, de certa maneira, até estaria um pouco mais próximo dele, até porque muito do que se discute aqui gira em torno do trabalho do jornalismo.
Já hoje, mais adulto e calejado, é um outro tema que me pega de jeito: afinal, como é que esse sistema desgraçado consegue usar cada pequena coisinha da vida para nos tornar prisioneiros do deus verde? Tudo é financeirizado. Colocado numa planilha. Envolve um risco e uma oportunidade. Seja na frente ou por trás das câmeras.
Não interessa se você é um apresentador à beira do colapso nervoso (mas viável comercialmente), uma programadora workaholic (tão obcecada com seu trabalho que vê sua vida como extensão dele, e não o contrário) ou um jornalista reputado (que relembra um tempo glorioso que já passou e não voltará mais), você ainda é apenas um peão no jogo.
Quem sabe você não é um suposto felizardo, promovido a um cavalo ou um bispo, que se julga no caminho da vitória; aquela vitória irrefutável que vai lhe render o contato direto com o deus verdinho para todo o sempre. Afinal, não é assim que os executivos se sentem? Com os seus bônus milionários em seus esquemas infinitos?
Mas ninguém é vencedor aqui. Todos saem feridos. Uns de maneira muito óbvia. Outros, nem tanto. Mas ninguém vence. Porque a vitória simplesmente não é uma possibilidade para nenhum deles. E nem para nenhum de nós. Pelo menos não enquanto valerem as regras do jogo.
O brilhantismo deste filme deriva disto. De como ele consegue discutir absolutamente tudo partindo de um mundinho tão particular que, à primeira vista, pareceria interessar apenas a aficionados que sabem o que significa um ponto de audiência, o que é "share" ou o que representa um lead-in para o sucesso de um programa.
Aqui não há uma única pedra que se apresente que não seja revirada. Do particular ao público. Do emocional ao racional. Da mentira e da verdade. Tudo está aqui. E o mais estranho é que o surreal, que à época poderia até chocar, hoje é simplesmente normal. Basta ligar o televisor no fim da tarde e estarão lá programas que já mostraram o que é tido aqui como ficção ao vivo. Com outros personagens? Certamente. Mas o mais chocante é saber que nada disso choca mais.
E, mesmo que as redes de hoje não tenham mais o poder das redes de então, elas ainda têm algum poder residual. São elas que espalham as intrigas que nos colocam uns contra os outros para alimentar o sistema da forma que ele precisa ser alimentado. E, na ausência delas, jamais podemos achar que seremos livres... afinal, de 1976 para cá, surgiram outras redes que nos escravizaram ainda mais. E elas nem precisaram estar em caixinha mágica nenhuma para fazer o seu trabalho com perfeição.
Mais um da longuíssima lista de filmes com títulos traduzidos de forma excessivamente dramática em sua versão brasileira, "Raízes da Ambição" é um faroeste moderno. Situado ali pelo meio dos anos 40, quando a Segunda Guerra Mundial se encaminha para o fim, o mundo dos cowboys ainda persevera.
E das cowgirls também, claro! Pois temos aqui a belíssima Ella Connors (Jane Fonda), que teima em resistir contra tudo e todos, em sua afastada fazenda, com a ajuda apenas do dedicado Dodger (Richard Farnsworth) e do galante Frank (James Caan), especialmente contra o tirânico vilão Ewing (Jason Robards).
Parece uma premissa interessante... mas o filme parece nunca engrenar. O ritmo lento até condiz com a história e com a nossa imersão nela (afinal, tudo num interiorzão nos anos 40 acontecia a um ritmo quase glacial, suponho), mas é impressionante como tanto tempo de tela é destinado a tomadas repetitivas e desnecessárias (por exemplo: quantas vezes não laçaram esses animais e era isso que realmente precisávamos ver?).
Ao menos uma coisa essas tomadas evidenciam com clareza: a cinematografia é tocante. A vastidão a ser explorada - e, no caso deles, domada - encanta o nosso olhar. Mas isto não é o suficiente para esconder o fato de que o roteiro acaba resvalando para clichês do gênero bastante previsíveis.
E lembram-se do ritmo vagaroso? Esqueçam-se dele quando estiverem se encaminhando para os momentos finais; o desfecho é tão apressado que quem estava achando o ritmo lento demais e acabou por cochilar pode simplesmente perdê-lo.
O destaque das performances fica por conta de Richard Farnsworth. Ele tem pouco espaço, mas é quem mais conquista e faz nossos olhos brilharem, tanto quanto os dele brilharam na tela (e foi merecidamente reconhecido por isto). Jane Fonda é magnífica e dá pra ver o seu esforço para se encaixar aqui, mas a caracterização parece incompleta e simplesmente não conseguiu me convencer. James Caan é o típico herói de faroeste e não consegue fugir muito da unidimensionalidade do arquétipo.
Já Jason Robards, meu Deus, parece um vilão de desenho animado. Até dá pra tentar associar essa atuação exagerada a uma obsessão ou algo do tipo, mas o filme não só não tentou desenvolver isto como deixou contrastar assustadoramente com a naturalidade com que se tentava apresentar todo o resto.
Enfim, não é de todo ruim. Muito pelo contrário, como obra simplesmente visual, é estonteante até. Mas, quando vai para os outros sentidos, começa a mostrar suas falhas; aliás, o som - muito provavelmente de forma intencional - era excessivamente agressivo em momentos de ação e maior tensão, enquanto diálogos mal podiam ser ouvidos, mesmo no volume máximo, por vezes.
Na tentativa de mostrar as raízes da ambição, o filme se encarregou apenas de mostrar o fruto de uma árvore que já estava um pouco cansada de tanto os dar (afinal, este era um dos principais gêneros da dramaturgia, especialmente na TV, da época). E, se aqui chegava um cavaleiro, parece que o cavalo também fez questão de nos deixar um pouco da sua marca.
"Os Desajustados" é um filme que carrega consigo uma imensa fama de - imaginem só - desajustado. É uma película de faroeste que se passa na contemporaneidade, e não cem anos antes, no auge do Velho Oeste. Passa longe de ser centrado apenas em viris cowboys (embora eles estejam aqui, é claro), e tem, por sua vez, uma personagem feminina vigorosa e independente. Por fim, é um drama, claro, mas bebe demais na fonte da comédia (assim como a vida). Mais que tudo, é um filme que confronta ficção com a realidade.
Porque todos aqueles personagens desajustados eram igualmente interpretados por pessoas desajustadas, e o próprio público sabia disto. Marilyn Monroe era mundialmente conhecida como sex symbol, mas desejava ser mais que isto, e aqui teve uma oportunidade de mostrar ser mais, embora talvez já fosse tarde demais... Montgomery Clift, num papel menor que o habitual na sua carreira, também misturou ficção e realidade ao falar sobre "já estar melhor depois do acidente", mostrando determinação para seguir em frente, mesmo sabendo que algumas cicatrizes sempre ficam marcadas, ainda que nem sempre aparentes. Clark Gable, então, se despede em grande estilo numa carreira que tem clássicos imortais como "E o Vento Levou..." e "Aconteceu Naquela Noite".
O mundo em que os personagens vivem simplesmente não existia mais. São inúmeras as dificuldades que eles precisam enfrentar: Como eles mesmos observam, os milhares e milhares de animais que eles costumavam caçar, agora são apenas alguns poucos que resistem. É preciso ir para longe para arranjar um novo trabalho. Ou suas famílias não os amam mais; ou, quando os ama, está muito distante. Da mesma maneira, seus maridos agora não são mais seus e estão com outras. Do outro lado da telona, o mundo real também estava em profunda mudança. Saía de cena a Era de Ouro dos Estados Unidos do pós-guerra nos anos 50 (e da indústria cinematográfica também) e entrava em jogo uma nova época de preocupações socioeconômicas sem paralelo.
O filme também é reflexo disto. Tentando fugir às fórmulas tradicionais de então, "Os Desajustados" acaba por ser pioneiro nas novas formas de cinema que iriam surgir mais pro fim da década, adiantando tendências que os grandes estúdios preferiam não entender e mesmo ignorar, levando a imprensa e o público a, infelizmente, seguirem o mesmo rumo. Mas apenas num primeiro momento, pois, com o tempo, passou a ser lido como um clássico como merecia.
Raramente há um filme surgido numa era que ainda era tão dourada que seja tão melancólico e depressivo. Mesmo quando há imagens bonitas na tela, a sensação é de desalento. Como seguir em frente sabendo que o mundo (n)os deixou para trás? É a pergunta que muitos aqui fizeram, tanto em frente quanto por trás das câmeras.
Alguns conseguiram, de fato, seguir adiante. Outros, ficaram por aqui (este foi o último trabalho tanto de Clark Gable quanto de Marilyn Monroe, ambos vitimados ainda cedo demais). Mas a maior vantagem de qualquer filme é que ele é para sempre eterno. E, como tal, para sempre eterniza aqueles que dele participam. Seja(m) ele(s) ajustado(s) ou não.
É impressionante como as histórias da infância sempre são as que mais marcam. Li "Moby Dick" quando tinha uns onze ou doze anos na coleção de clássicos da literatura da Folha e é inacreditável como o filme escavou memórias tão distantes com uma firmeza singular.
Com uma das apresentações mais memoráveis da história da literatura, Ishmael (Richard Basehart) aqui também é quem nos apresenta todo o mundo - igualmente longínquo - dos baleeiros do começo do século XIX. Em uma sociedade que ainda vivia sem a eletricidade, eram eles os responsáveis por produzir o óleo de baleia que acendia as luzes do mundo de então.
Luzes essas que o Capitão Ahab (Gregory Peck) simplesmente não conseguia ver. Envolto num mundo trevoso e consumido pela sede de vingança, ele é o comandante do navio que está disposto a muito mais que apenas lucrar com o óleo retirado das baleias. Ele quer vingança por tudo que os animais lhe causaram ao longo da vida, física e emocionalmente. E esta vingança é muito bem direcionada: afinal, é voltada contra a personagem-título.
É impressionante como, mesmo sendo uma obra distante do nosso tempo atual em séculos, se mantém atual em tantos temas. A luta eterna entre homem e natureza, que parecem viver em dois mundos diferentes, embora compartilhem um só, em especial. Para um lado, convenções sociais complexas e arranjos exatos calculados milimetricamente. Para o outro, o poder que não se deixa convencionar jamais pois é impossível de ser limitado.
E o filme consegue retratar tudo isso com um esplendor sem igual. Igualmente antigo (dista da nossa contemporaneidade em praticamente sete décadas, não menos), é uma superprodução para ninguém colocar defeito. As cenas de ação são intensas e envolventes, as baleias parecem mais realistas que se as recriassem com o infame CGI que temos hoje e o roteiro faz questão de respeitar a história original.
Talvez o seu defeito maior seja focar demais no espetáculo visual e menos nos temas mais profundos que a obra carrega, mas nem por isto deixa de ser incrível. Muito pelo contrário! Torna ainda mais impressionante o fato de que um filme tão recuado no tempo consiga ter tamanha qualidade mesmo para quem tem um referencial mais moderno e - supostamente - mais avançado.
No fim, talvez isto seja um sinal de que Hollywood deveria se inspirar mais em trabalhos como este, limitados em escopo, mas cheios de significado e que também conseguem ser um espetáculo visual simultaneamente, ao invés de tentar reciclar a milésima franquia adormecida do passado ou adaptar o mais novo vídeo game da moda. Ou ao menos é com isso que ainda podemos sonhar enquanto estamos no meio do mar agarrados a um pedaço de madeira enquanto um providencial navio não nos resgata...
A sinopse acima praticamente dá a entender que se trata de uma comédia, mas não se deixem enganar por ela. O que temos aqui é, na verdade, um drama familiar - com leves toques cômicos, como a própria vida - centrado numa história de perda e superação.
"Um Ninho para Dois" (título muito apropriado, aliás) conta a história de um casal que precisa lidar com a morte da sua filha ainda bebê para seguir em frente. Enquanto Jack (Chris O'Dowd) está internado numa clínica psiquiátrica para tratar desta questão, sua esposa, Lily (Melissa McCarthy), a princípio parece já ter seguido adiante sem maiores sequelas. Mas é o estorninho que vai fazer com que ela repense tudo aquilo que deixou guardado a sete chaves.
Embora literal neste caso, o estorninho é muito mais uma abstração. Algo que, a princípio, parece um obstáculo que trabalha para nos interromper e prejudicar, mas que se revela essencial para nossa jornada de crescimento. De superação. De aceitação.
Até porque, na vida, nada jamais será fácil. Nesta situação em específico, então, pode-se muito bem dizer - mesmo jamais tendo estado na pele dos personagens, graças a Deus - que certamente se trata de uma das dores mais difíceis de superar para qualquer ser humano. Mas é preciso sempre ter em mente que precisamos tirar o melhor proveito possível de tudo, especialmente daquilo que é irremediável e imutável. Se o copo parece estar meio vazio, cabe apenas a nós passarmos a entender que ele está sempre - e definitivamente - meio cheio.
Temos aqui todos os ingredientes que fazem um filme muito tocante. O ritmo é leve e sensível, sem grandes sobressaltos. Os atores, muito mais conhecidos por seus trabalhos de comédia, entregam performances emocionantes quando precisam mostrar seu lado drmático. E a história definitivamente já foi contada antes, mas nem por isso apela para o sentimentaloide ou o clichê. O cineasta, Theodore Melfi, afinal, já dirigiu o brilhante "Estrelas Além do Tempo" (2016), que mostra a sua aptidão para lidar com grandes dramas de forma sutil e delicada.
O que prejudica a obra, entretanto, é a falta de maior desenvolvimento entre o antes e o depois. Vemos muito pouco do "antes" com alguns flashbacks, mas fica um pouco difícil entender os protagonistas com mais completude. Parece até uma falta de interesse do roteiro de tentar nos deixar ainda mais investidos no relacionamento deles e na forma como o que eles já viveram gera a história que se desenrola na tela.
O filme sofre um pouco também da famigerada "síndrome do Netflix". Acaba tendo imagens parecidas com a de outras produções, tem alguns atores de outros trabalhos da plataforma (como Timothy Olyphant e Skyler Gisondo, ambos de "Santa Clarita Diet", aqui em papéis menores) e, talvez até por ser produzido para a Netflix, tenta ser um pouco raso numa história que poderia ser mais profunda para agradar a mais públicos.
Mas nem por isso deixa de ser emocionante. Como um estorninho aleatório que surge numa revoada em temporada de acasalamento que não deixa a nossa heroína em paz para seguir sua vida sem refletir sobre o que de fato precisa, "Um Ninho para Dois" talvez tenha o mesmo poder para nos fazer pensar sobre aquilo que realmente precisamos. Mesmo que às vezes nem estejamos nos dando conta disto.
Sempre fui muito fã de tudo que envolve a televisão americana. Por isto mesmo, foi muito estranho perceber, creio que ainda na segunda menção do nome "Michael Ausiello", que eu certamente já havia lido aquele nome antes. E não deu outra. Precisei checar na Wikipédia de onde eu conhecia aquele nome. Como a enciclopédia virtual não possui alerta de spoiler, acabei já vendo onde essa história iria parar, infelizmente... Mas isto não me impediu de continuar interessado no filme, muito pelo contrário!
Temos aqui, afinal, uma história baseada em fatos reais (que pode até ser um pouco batida, mas que é certamente envolvente) de um casal gay que se conhece por acaso numa balada, ainda no início dos anos 2000, e que acabar por se tornar um - cada vez mais raro - caso de relacionamento longevo. Michael (Jim Parsons) e Kit (Ben Aldridge) são absurdamente distintos, mas também definitivamente complementares.
Onde um é neurótico, o outro é livre e desprendido (mas não em tudo que lhe diz respeito). O que um tem de insegurança, o outro tem de firmeza. No que um é bom demais, o outro pode ser ruim, mas isto não é demérito... pois ambos estão ali justamente para aquilo mesmo. Por mais que nem sempre os opostos se atraiam, um relacionamento só é criado e fortalecido quando há o interesse em fazer com que ele se fortaleça. E ali definitivamente havia isto.
Aliás, o ponto alto do filme é a forma como ele cria esse relacionamento na tela com leveza e dedicação. As inseguranças e frustrações dos personagens são expostas aos pouquinhos, de modo que seus intérpretes vão construindo camadas que vão tornando seus personagens tão verossímeis que nós certamente somos capazes de pensar que poderiam ser nossos vizinhos, nossos amigos, nossos irmãos, e - por que não? - nós mesmos, afinal.
Os dois protagonistas estão divinos em seus papéis. Eles são, de certa maneira, vítimas da estereotipagem que ronda algumas carreiras em Hollywood? Definitivamente. Mas isto mais trabalha a favor que contra no caso deste trabalho. Afinal, quem melhor para entender os dramas que os personagens viviam aqui que dois atores igualmente gays?
E a naturalidade com que eles moldam essas vidas na tela também é acompanhada pelos coadjuvantes. Eles estão lá para auxiliar a contar as histórias deles (e unicamente deles). Mas cada um serve de forma muito contida, porém fundamental, ao seu propósito. Todos se encaixam muito bem. Em particular, foi maravilhoso ver a Sally Field em mais uma brilhante atuação que, ao invés de explorar o espetacularmante dramático que ela já fez tantas vezes - e tão bem, ressalte-se - aborda, por outro lado, uma reação mais comedida, firme e inesperada, indo centralmente no oposto do que geralmente se espera de filmes desse tipo.
Michael Showalter tem uma carreira muitas vezes subestimada, tanto no cinema quanto na televisão, mas definitivamente acertou em cheio aqui. A naturalidade que ele consegue dar aos mundos mais bizarros (como o de Tammy Faye, em "Os Olhos de Tammy Faye") ou caóticos (como o de Hayes, pop star de "Uma Ideia de Você") aqui caiu como uma luva.
Afinal, esta é apenas mais uma história normal que poderia acontecer com qualquer um de nós. Mas aconteceu com o Michael. E ele definitivamente não fez questão de colocar um alerta de spoiler para nada do que viveu neste belo conto que quis nos contar.
Terceiro filme da sequência de adaptações das obras do dramaturgo August Wilson para a telona, "Piano de Família" conta uma história complexa em que muitos conflitos vão surgindo aos pouquinhos conforme a trama segue seu desenvolvimento.
A princípio, os maiores desafios são externos: definitivamente não era nada fácil ser negro em nenhum lugar dos Estados Unidos (e não apenas lá, a bem da verdade) na primeira metade do século XX, fosse no supostamente receptível norte, fosse no cruel sul profundo. E o filme faz questão de discutir isto. Até porque nem teria razão para existir sem isto, convenhamos.
Da mesma maneira, os conflitos internos também não deixam de ser retratados: como a materialidade é capaz de evocar a imaterialidade (e, por óbvio, a espiritualidade). Como as nossas relações muitas vezes são guiadas por este dilema sobre o qual tão pouco nos debruçamos. Por fim, como o passado pode ser repleto de traumas, mas também de lá podemos tirar as maiores lições para vencer os mais monumentais obstáculos.
Na tentativa de embalar tudo isto, entretanto, o filme acaba ficando confuso e errático. Onde "Um Limite entre Nós" (2016) consegue ser preciso e firme para lidar com todas as temáticas que decide abordar, "Piano de Família" acaba por se mostrar mais vacilante.
É louvável perceber o interesse em tentar adaptar tudo da forma mais fiel, transpondo a peça do teatro para este novo ambiente cinematográfico, inclusive trazendo atores de uma das montagens recentes, mas até essa escolha gera um dilema: onde os atores da produção teatral como John David Washington e Ray Fisher soam excessivamente exagerados, por terem uma abordagem necessariamente teatral, Danielle Deadwyler, em contraposição, consegue parecer muito mais natural (uma pena, aliás, que o reconhecimento da Academia não tenha vindo mais uma vez).
No fim, talvez a falta de uma preparação maior para a virada de chave do filme ali pelo final é o que o sepulta. O tom era de drama, com camadas de comédia, mas de repente temos um filme de terror. A condução não ajuda a estabelecer um tom mais firme que consiga fundir tudo de modo a dar liga.
A reverência merecida dada ao material original sem dúvidas não o torna fácil para adaptação, muito menos considerando que este é o longa de estreia do cineasta Malcolm Washington, que está definitivamente num trabalho em família com o pai produtor e o irmão ator. Mas a lição que se pretendia passar, definitivamente, me pareceu perdida e deslocada, ao invés de simplesmente melódica e ressonante, tal como nos melhores recitais de piano.
Os mais velhos sempre dizem que os anos 50 foram o ápice das suas vidas. No mundo do pós-guerra, havia uma esperança latente de que a paz duraria para sempre, que a segurança havia chegado para ficar, que o consumo faria todos felizes e que nunca havia motivo para reclamar. Mas nada disto era ou se tornou verdade.
Nem todos viviam em paz. Nem todos estavam seguros. Nem todos tinham acesso ao consumo ilimitado. E simplesmente havia muita gente com muitos motivos perfeitamente válidos para reclamar.
É neste momento histórico que encontramos um triângulo amoroso formado pelo curador de museu Patrick (David Dawson), pela professora Marion (Emma Corrin) e, por fim, pelo policial, que dá título ao filme, Tom (Harry Styles). O mundo deles pode até ser perfeito na superfície, mas esconde um segredo que, quando revelado, é capaz de pôr tudo a perder.
Mas o que não se perde aqui é o senso de realidade e imersão naquela era. O filme é extremamente contido na maior parte do tempo, por vezes até mesmo cinzento como o próprio Reino Unido, mas nos permite ver também fagulhas cheias de esperança em vários e vários momentos fulcrais.
Longe de ser tediosa, a obra consegue construir muito bem toda aquela aura de respeitabilidade daquela era, ao mesmo tempo em que sabe como nos fazer torcer para que os personagens reajam àquelas situações, sem transformá-los em mocinhos ou vilões. São, afinal, apenas pessoas de carne e osso fazendo o melhor que podiam para viver os seus sonhos e desejos.
E as performances são essenciais para nos transmitir isto. O elenco jovem nos conquista com o seu carisma na tela, mas foi o trio mais velho que me surpreendeu com mais vigor: Gina McKee entrega uma Marion que consegue ser vacilante e perseverante com a mesma firmeza, Linus Roache transmite um belíssimo senso de arrependimento e teimosia simultâneos, e Rupert Everett, que está simplesmente irreconhecível num primeiro momento, é o veterano que não precisa dizer muitas palavras para nos conquistar com a dor que transmite na tela e nos fazer torcer por ele.
"Meu Policial" pode até não ser um filme perfeito, mas a abordagem conservadora aqui caiu muito bem. Escolhas mais ousadas parece que simplesmente não combinariam com o material e Michael Grandage aparenta ter dirigido tudo com ciência disto. Talvez a película não seja mais celebrada porque foi inspirada num romance muito bem quisto e muitos filmes acabam sendo vítimas no processo de adaptação. É até natural que acabem ficando no meio do caminho. Mas isto passa muito longe de justificar que seja condenado por não ser algo que jamais poderia ser. Exatamente como acontece com o personagem-título, não menos.
Numa era em que filmes de ficção científica parecem precisar necessariamente estar ligados a uma grande franquia para simplesmente saírem do papel, "Intruso" já parece um penetra no mundo cinematográfico de 2024. E isto me deixou ainda mais curioso para assisti-lo, a bem da verdade.
Temos aqui um thriller psicológico ambientado num mundo devastado pelas mudanças climáticas, em que secas duram anos e água potável não se encontra facilmente em qualquer lugar, e em que os relacionamentos humanos são postos à prova de formas nunca antes imaginadas.
E neste mundo vivem Hen (Saoirse Ronan) e Junior (Paul Mescal). Eles são um jovem casal que vive numa fazenda recuada (uma das poucas que ainda existe) quando são importunados por um emissário de um gigantesco conglomerado chamado OuterMore, que é simplesmente tão poderoso que basicamente se tornou o governo.
A princípio, a premissa parece interessante. Mas este tipo de filme exige uma construção de mundo muito bem solidificada para funcionar. E, acreditem, aqui não há nada disso. A presença da Saoirse Ronan me remeteu imediatamente a "Rio Perdido" (2014), onde existe o mesmo tipo de problema: a apresentação do mundo é tão ineficaz que não conseguimos suspender a descrença em nenhum momento. E, num thriller, isto é fatal.
Aliás, se o mundo estava devastado, como um simples casal conseguia se manter numa fazenda (ainda mais considerando que praticamente todas estavam destruídas)? E se estavam destruídas, como de repente eles encontram antigos estábulos sendo queimados com hordas de cavalos tão saudáveis de lá saindo? E como eles conseguiam manter tudo aquilo trabalhando num matadouro e numa lanchonete? E, afinal, se o mundo está devastado, como diabos as pessoas têm tempo (e dinheiro) para parar numa lanchonete e pedir seu delicioso milk shake e sua apetitosa torta de chocolate?
Estes acima são apenas alguns dos questionamentos básicos que me fiz ao longo do filme de tantos outros vários (que prefiro não expor para não revelar detalhes mais importantes). Chega um momento em que nada parece fazer sentido. E, se as questões acima são meramente secundárias, o drama que envolve a trama central também carece bastante de senso, convenhamos.
Não é de todo ruim. As performances são impressionantes, aliás. Saoirse Ronan transmite uma sensação de dor que nos emociona e Paul Mescal entrega um sentimento de confusão que nos aflige. E o coadjuvante Aaron Pierre é quem mais me impressionou: seu trabalho é tão bom que me fez sentir nojo do personagem. Excelentes trabalhos de todos os três.
Mas não é só de performances que um filme é feito. Com um roteiro tão vago (que tenta nos impressionar com um plot twist que, a bem da verdade, já é meio que revelado logo no início do filme para quem estava mais atento) e uma construção de mundo tão ineficiente, definitivamente não são elas que vão conseguir salvar o todo.
Se a ideia era retormar thrillers psicológicos de ficção científica longe das franquias a partir daqui, parece que ela fracassou. Na tentativa de juntar tanta coisa e dar dois passos à frente, parece mais que foi dado um passo para trás. E, no fim, além de intruso por ser uma exceção em meio à produção cinematográfica mais comum nos seus gêneros, este acabou por ser também um inimigo do cinema de ótima qualidade, infelizmente.
Num mundo em que mensagens são entregues instantaneamente até mesmo do outro lado do planeta, torna-se difícil imaginar o poder que um simples carta continha. Mas eram elas as maiores detentoras da informação em tempos passados. Transmitiam notícias, boas e ruins. Alertavam pessoas, sobre acontecimentos pretéritos ou coisas que ainda estavam por vir. E, por fim, eram fontes de inspiração e amor.
Era neste mundo em que Vincent Van Gogh (Robert Gulaczyk) vivia. E no qual se inicia a jornada do nosso anti-herói, Armand Roulin (Douglas Booth). Ele é incumbido por seu pai, um carteiro veterano, a entregar a última carta do genial escritor ao seu irmão, Theo. E algo que hoje em dia seria tão simples quanto mandar uma mensagem por um aplicativo qualquer se transforma numa verdadeira saga.
E uma saga que muda a vida de Armand, pois é nela que ele encontra um novo rumo para a sua vida. Da mesma forma que a mensagem do filme tem o poder de nos tocar para que tomemos a mesma atitude.
Os ensinamentos que a obra transmite não são necessariamente óbvios, mas podem ser inferidos com muita facilidade: a lealdade para com aqueles que conhecemos, a obstinação para atingir um objetivo, a perseverança para seguir em frente mesmo diante de obstáculos e o orgulho (no melhor sentido da palavra, muito longe da soberba, mas muito próximo da honra) de se manter firme ao saber que está seguindo atrás de um propósito maior.
E tudo isto vem embalado no meio de uma das animações mais impactantes e originais. Não há como deixar de reconhecer o trabalho de mais de cem artistas na reconstrução de todo esse mundo como se fosse uma pintura do próprio artista. Mais que simplesmente impressionante, o trabalho exposto na tela vai além e tem uma fluidez que, após um tempo, deixa de ser exótica e excêntrica e se torna absurdamente natural.
Tal como no trabalho do pintor, o mundo se molda e se revela muito mais bonito do que nossos olhos conseguem enxergar numa primeira olhada. Os traços são imprecisos, assim como muitas das nossas vacilantes ações. As pinceladas são rápidas, tais como muitas das decisões que precisamos tomar. Mas a luz, sempre tão valorizada, sempre vai nos mostrar o caminho a seguir.
Excetuando um momento inicial um pouco vacilante (que, a bem da verdade, talvez decorra de uma estranheza com as técnicas usadas aqui), a película é simplesmente perfeita. Tal como uma declaração de amor, sabe homenagear tanto na forma quanto no conteúdo de uma maneira ímpar. Se Van Gogh escrevia sempre com muito afeto, os realizadores aqui também fizeram questão de a ele também dedicar uma carta de amor. E, para os cinéfilos de plantão, o formato de filme simplesmente nunca foi tão encantador. Com amor...
Se a vida é um jogo, somos todos meras peças no tabuleiro. A grande maioria de nós são peões; sempre na linha de frente e a serviço dos outros. Também existem as temerosas torres, os indomáveis cavalos, os traiçoeiros bispos, e, por fim, as tão poderosas rainhas. Elas conseguem mover mundo e fundos quando precisam. Mas, ainda assim, apesar de todo seu poder, sua maior função continua a ser a de proteger o rei (e sua grave limitação de passos, coincidentemente).
"O Jogo da Rainha" tenta desvirtuar um pouco disto. Claro que a proteção do monarca ainda é fundamental, mas não é a única meta. Muito pelo contrário. Desde o início, aliás, a obra tenta demarcar essa dissonância com o aviso na tela de que "pouco se sabe sobre as mulheres, e por isso muito se inventa".
Mas não é exatamente verdade. Por mais que até o seja para as plebeias, sobre as quais realmente se sabe muito pouco individualmente, pelo menos sobre as mulheres da corte, até que temos obras inteiras, por vezes ricas em detalhes. E Catherine Parr é uma mulher da corte. Uma rainha, não menos. A mensagem simplesmente não se aplica a ela.
E, mesmo sabendo disto, o filme insiste em tomar liberdades criativas que o comprometem. Uma coisa é tomar liberdades para preencher as lacunas, outra é reescrever a história a bel prazer. Para um drama histórico, soa no mínimo estranho esse tipo de abordagem.
Aliás, o maior ponto positivo do filme é, de longe, a performance de Jude Law. Além de irreconhecível no papel do cruel tirano Henrique VIII, ele nos entrega um personagem extremamente palpável e verossímil, longe de outras adaptações que transformam o monarca gordo e doente que a história eternizou como um sexy e saudável guerreiro.
É sempre maravilhoso ver brasileiros como Karim Aïnouz alçando voos maiores. Não porque ele vai seguir por lá e nos abandonar (até porque ele já retornou na sequência com "Motel Destino"). Mas sim porque pode transpor um pouquinho da nossa rica cultura cinematográfica lá fora. Só é uma pena que "O Jogo da Rainha" não tenha sido tão bem-sucedido neste propósito.
Se a ideia inicial ter neste fim o pontapé para torná-lo um agitador da nossa cultura lá fora, no fim, a obra acabou por parecer apenas mais uma lenha jogada na fogueira de um sem-fim de filmes de época que tenta a sorte nas premiações todos os anos. Vamos torcer que a próxima tentativa gere fagulhas muito mais belas e reluzentes.
Até onde você iria pelo amor da sua vida? Viajaria pelo país revisitando o passado? Reuniria seus amigos e familiares? Reveria lugares marcantes? Acompanharia cada pequeno passo de alguém que sequer se lembra que os deu? Mesmo sabendo que, qualquer daqueles dias, toda aquela memória poderia simplesmente sumir?
São estas as questões que Memórias de um Amor traz à tona. Sam (Colin Firth) e Tusker (Stanley Tucci) são um casal de longa data que tem toda uma história de cumplicidade e amor para contar. Uma história que, entretanto, ameaça ser impedida pela chegada de uma doença degenerativa que acomete Tusker.
A partir daí, eles fazem o que qualquer pessoa sensível faria. Ambos tentam aproveitar cada segundo como se fosse o último. Antes que as dificuldades se amontoem... ou mesmo simplesmente impeçam que as coisas sejam, uma vez mais, do jeito que são. Ou que já foram um dia.
É impossível não se emocionar com este filme, especialmente quando você tenta se colocar no lugar de qualquer um dos dois. O sentimento de perda, dos dois lados, é simplesmente incomensurável. É algo que fatalmente não dá para superar.
E o roteiro mostra isso muito bem. Trata de não ser excessivamente descritivo, ao mesmo tempo em que não é necessariamente vago. Apenas vai mostrando cada detalhe que mostra a cumplicidade de ambos aos pouquinhos. Do jeito que tem de ser. Replicando a própria relação dos personagens, talvez?
E a performance dos atores é simplesmente incomparável neste sentido. Cada qual ao seu estilo, ambos parecem reforçar a tese de que "opostos se atraem". Mais que opostos em muitos aspectos, eles soam mais complementares.
O Tusker de Stanley Tucci tem uma personalidade dúbia, que consegue ser discreta e extravagante, introspectiva e extrovertida, aberta e reservada, feliz e triste. Deste jeito, ele consegue representar absolutamente todo mundo e fazer com que nos vejamos na tela.
Já o Sam de Colin Firth é o homem que sempre queremos encontrar para a vida. Aquele a quem nos renderíamos sem medo pois saberíamos que dele teríamos toda a segurança que precisamos para ir em frente. Firme e dedicado, é ele quem está disposto a enfrentar tudo para seguir ao seu lado.
No fim, a maior lição que fica do filme talvez não seja nem a de que o amor precisa criar memórias marcantes e eternas. Até porque, se a lição fosse esta, nem precisaria existir. Afinal, existe lição mais óbvia que esta?
O maior ensinamento de verdade a ser tirado daqui parece vir do título original: temos tão pouco tempo neste mundo que devemos valorizar cada minuto que temos para fazer cada instante valer a pena. Para além de ser apenas mais uma estrela no céu, devemos buscar ser uma supernova...
Ou, caso não consigamos tanto, que sejamos ao menos uma luz tão brilhante quanto esta joia que nos foi presenteada por Harry Macqueen. Sensível, tocante e simplesmente resplandecente. Tanto quanto as mais belas estrelas no céu.
"Os Fantasmas se Divertem" é um dos meus filmes favoritos da infância. Quantas vezes esse filme não estava no ar na TV e eu, à toa, simplesmente parava tudo para assistir mais uma vez, a ponto de até decorar algumas das falas dos personagens? E claro que uma continuação para aquele universo era meio que um desejo desde sempre. E o sucesso deste filme prova que não era um capricho particular.
Mais de três décadas depois, surge então uma continuação para o original. Sai de cena o casal atormentado pela vida pós-morte e entra em jogo um sem-fim de relações familiares, amorosas, profissionais e afins.
O maior erro do filme já começa aí: é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que o filme é simplesmente caótico. Há umas cinco ou seis coisas acontecendo simultaneamente e praticamente nada é desenvolvido a contento.
Para além disso, o filme simplesmente trai o original em muitos aspectos. A Lydia (Winona Ryder), por exemplo, deixa de ser uma anti-heroína interessante, ousada e independente, para se tornar uma senhorinha medrosa e resignada. Já a Delia (Catherine O'Hara) até mantém uma essência mais próxima da passada no filme original, mas acaba não tendo muito material para brilhar (porque, convenhamos, parece que reciclaram alguns trechos na cara dura aqui em vários momentos). No fim, Beetlejuice (Michael Keaton) é o que mais me impressionou do trio dos primórdios. Conseguiu reviver o personagem com muita naturalidade e foi o que teve o material mais condizente com o que já conhecíamos.
Dos novos reforços, infelizmente nem se pode falar muito, pois acabamos nem os conhecendo muito bem. Astrid (Jenna Ortega) até tem momentos interessantes, mas sempre que aparecia parecia gritar "estou aqui para que a geração Z faça TikToks do filme". Os outros, têm um destino muito pior; temos um ajuntamento imenso de personagens sem qualquer desenvolvimento que só estão ali para dar soluções fáceis ao roteiro quando é conveniente.
Enfim, o filme não é de todo ruim e tem aspectos muito louváveis, especialmente o investimento em efeitos visuais práticos. Mas, na sanha de querer se colocar entre dois mundos (e nem falo do mundo dos vivos em contraposição ao mundo dos mortos), acabou se perdendo. Pareceu não decidir se queria ser uma peça de nostalgia e "fan service" ou se queria contar uma história nova e interessante dentro daquele universo.
Tantos e tantos anos depois, acredito que todos ficaram felizes em receber uma nova história centrada neste mundo. Mas também penso que muitos ficaram desgostosos com o resultado final. Se a senha levou 36 anos para ser chamada, não duvido que muita gente esperaria mais 36 por um filme mais redondo (ou "redondinho", como a cabeça do coitado do Bob).
Nikola Tesla é tido como um dos maiores gênios da humanidade. E, muito mais que simplesmente genial, ele é tido como absurdamente incompreendido. Afinal, muito do seu trabalho foi mal interpretado, por vezes usado de maneira errada, e em outros casos, foi simplesmente esquecido. Este filme é uma tentativa de retificar isto.
Aqui temos vislumbres de momentos cruciais da vida do inventor, como sua mítica disputa com Thomas Edison sobre qual sistema de corrente deveria prevalecer, seu relacionamento com o também lendário George Westinghouse e seus experimentos mais excêntricos e incompreendidos.
No meio de tudo isto, a película tenta misturar a dramatização destes momentos fulcrais com passagens que lembram um documentário - com direito a anacronismos óbvios, como a presenção de celulares, projetores e computadores - que colecionam informações e mais informações sobre pessoas e situações que são mencionadas ao longo do filme.
Mas este mecanismo, que a princípio parece até interessante, acaba por se mostrar o primeiro sinal de que a obra não terá muita constância. Nem no uso deste subterfúgio (que some por longos períodos), nem muito menos na exploração mais profunda do personagem central (abandonada em favor de mostrar suas relações superficiais com inúmeros personagens que vão surgindo).
E talvez este seja o maior problema: para um filme que é sobre o Tesla, passa-se muito tempo abordando gente - com excessivos detalhes, por vezes - sem qualquer desdobramento relevante para uma cinebiografia dele. Na tentativa de amarrar a trama de Tesla aos demais acontecimentos e personagens da época (seja Thomas Edison, J.P. Morgan ou Sarah Bernhardt), ele acaba ficando muitas vezes em segundo plano na sua própria história.
A falta de manutenção de um tom mais firme também é muito notória. Por vezes, o filme soa até professoral na sua exposição, em outras o roteiro toma liberdades criativas que contrastam diametralmente com a seriedade de outrora. Até um número musical - de péssima qualidade - conseguiram encaixar. Com que propósito, afinal?
Claro, muito do que por vezes vi ser criticado é resultado do baixo orçamento - nítido demais no que diz respeito aos aspectos da produção em si - e também do estilo do diretor. Mas, mesmo neste caso, ele teve resultados muito melhores em "O Experimento de Milgram" (lançado apenas cinco anos antes, em 2015), por exemplo.
E talvez esta comparação seja a chave para explicar a decepção com este filme. Tesla é uma figura muito mais lendária e reverenciada. Com um impacto muito maior. Com um trabalho muito mais significativo. Com uma vida muito mais longeva. E com uma reputação muito mais pendente de revalidação.
Na busca por fazer um filme reluzente sobre "o homem elétrico", chega a ser chocante como o filme conseguiu ser extremamente burocrático e nem um pouco eletrizante.
Àqueles que odeiam musicais: quantas vezes você não se perguntou o motivo pelo qual os personagens do mais completo nada começavam a cantar uma canção? Mas aqui você jamais terá este tipo de dúvida! Porque não só os números musicais são muito bem encaixados como as letras se encaixam perfeitamente na história que vemos na tela. Afinal, são pequenos pedacinhos da vida do retratado que elas entregam.
Temos aqui uma reconstrução parcial da vida do lendário compositor Cole Porter (Kevin Kline), com foco especial no relacionamento com a sua esposa, Linda (Ashley Judd). Nos altos e baixos da vida, os dois estão juntos... mesmo quando não estão presentes fisicamente.
E esta reconstituição se dá por meio de um show fantástico visto por um Cole à beira da morte quando visitado pelo arcanjo Gabriel (Jonathan Pryce). Em alguns momentos fundamentais, é a intervenção dele que marca as passagens pelas idas e vindas da vida de Cole.
Aliás, além da participação do anjo, são os artistas que surgem ao longo da película cantando músicas de Cole que dão um novo sopro de ar fresco ao filme. Temos gente tão diversa quanto Robbie Williams, Elvis Costello e Natalie Cole cantando alguns clássicos do repertório do artista.
E estes clássicos são muito bem encaixados na história. Mesmo para quem odeia musicais, não é possível dizer que aqui os números não fazem sentido e não ajudam a compor a trama para torná-la mais completa. Quantas vezes as letras não revelam nas entrelinhas mais detalhes daquilo que não se pode dizer plenamente, não é mesmo?
Mas talvez seja este o erro maior do filme: qualquer pesquisa mais profunda, mostra que peca pela falta de acurácia. Mesmo em relação às canções, tanto mais elas revelavam que aquilo que o filme buscava retratar. Compreensível por se tratar de um tempo muito limitado para lidar com toda uma carreira de sucesso, mas também estranho tendo em vista que outros aspectos da vida seriam muito mais interessantes de ser abordados.
No entanto, isto é talvez explicado pela época em que foi lançado. No começo dos anos 2000, toda a questão ainda era um tabu muito maior e o filme buscou "sanitizar" a temática de forma a torná-la palatável para o público, preferindo investir num romance que, na vida real, possivelmente era muito mais limitado ao afeto e respeito que tentou demonstrar com mais parcimônia nos momentos finais.
E nada disto desabona o filme. Muito pelo contrário. Só é uma pena que a vida dele pareça ter sido muito extravagante em todos os aspectos e o filme tenha apenas pincelado isto com grandes mansões, decorações estupendas em festas e vestidos belíssimos. Mas a evolução na tela é, por vezes, tão sóbria e discreta.
No fim, parece que na tentativa de tornar De-Lovely em algo adorável, parecem ter focado mais no "de" que no "lovely". "De" de devoção e de dedicação, mas também de devaneio, de devassidão, de declínio, e também de decepção... mas todos os "de"s continuam adoráveis da mesma maneira.
Nascer, crescer, amadurecer e morrer. Este é o ciclo destinado a absolutamente todas as coisas vivas. Sejam estas coisas os pobres cervos selvagens que vivem nas florestas nevadas de algum povoado perdido na Nova Inglaterra e que pelos homens, sempre valentes e corajosos com seus rifles, são caçados... sem saber que também podem ser alvos.
É neste mundo que se insere Wade Whitehouse (Nick Nolte). Ele não é apenas o xerife da pequena cidade, mas basicamente o seu faz-tudo. Mas, ao mesmo tempo em que tudo faz, ele não tem o controle de nada. Simplesmente não é ele quem apita ali. E é a busca incessante e descontrolada por voz ativa e postura firme que é a sua perdição. E a mola motriz da história.
Porque, embora o título traduzido assim possa indicar (e as cenas iniciais até parecem apontar nesta direção), aqui não temos um thriller convencional típico dos anos 90. Muito pelo contrário. Temos um drama muito sólido e profundo sobre algo que muitas vezes não se discute: a construção da masculinidade e as marcas que ela deixa.
E isto não se faz de forma rasa e maniqueísta, nem muito menos proselitista (seja para condenar o machismo, ou para, como contraponto, reforçá-lo, como já vi o filme ser acusado, por haver um foco maior no mundo masculino). Pelo contrário. Há toda uma cadência e uma evolução muito particulares da história. Em que pequenas coisas vão sendo reveladas aos poucos nos momentos corretos. E a trama vai nos levando a lugares que simplesmente nos pareciam inacreditáveis à primeira vista.
É possível que esta seja uma discussão muito pessoal para o autor (que é diretor e também roteirista), Paul Schrader. Buscando um pouco sobre seu passado, é possível ver que ele possivelmente enfrentou muitas das mesmas pressões e vivências aqui retratadas. E a forma dura e realista como isto se mostra na tela é uma das maiores qualidades da sua execução. Ele, afinal, não foi criado vendo filmes e assistindo televisão para fazer um pastiche de algo conhecido que lide com este tema. Ele criou algo cru e fresco.
E os atores são parte essencial deste processo de criação. Eles conseguem entrar com facilidade na pele de personagens que poderiam até ser caricaturais, mas que possuem, cada qual à sua maneira, seu charme e luz próprios. Não à toa o reconhecimento - infelizmente limitado aos intérpretes e não estendido a demais setores da criação - nas premiações e nas críticas da época.
No fim, Temporada de Caça é uma obra que acabou por não ter conquistado a longevidade que merecia. A temática pesada e a discussão pouco convencional em torno do tema certamente não a ajudam neste sentido. Mas aqueles que estão dispostos a se afligir um pouco - e nem tão pouco assim, no fim das contas - certamente podem esperar um bom filme. Afinal, de toda boa história, sempre há uma lição a ser tirada.
É impressionante como as nossas mãos são capazes de tudo. São elas que nos alimentam, que tão bem comunicam o que precisamos, que nos protegem de tantos perigos, que nos aproximam daquilo que amamos e que nos tornam, por fim, quem somos. Mais que tudo, são capazes de tocar mesmo que indiretamente os mais frios corações, mas também de cometer as maiores atrocidades imagináveis.
Foi tudo isto que Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) conseguiu descobrir ao longo de toda a sua jornada em O Pianista. Tempo para refletir, ele certamente tinha. Mas, muito mais que o tempo, o que ele mais tinha era a necessidade de pôr cada uma dessas ações em prática. E não por capricho pessoal, mas sim para garantir a sua sobrevivência.
Ao longo do caminho, ele e aqueles que o cercam são constantemente e gradativamente desumanizados. Primeiro se perde a casa, depois se vão os pertences, depois se despedem os amigos, e também lhe é tirada a família, eis então que some a sua identidade, assim como lhe passa a fazer falta a saúde e a possibilidade de suprir suas necessidades mais rudimentares... mas, no fim, nunca conseguem lhe tirar a dignidade.
E o filme consegue retratar isto muito bem. Em um mundo tão cruel (e que, convenhamos, continua a ser extremamente desumano, mesmo depois de tantos horrores - como os aqui retratados - revelados), O Pianista consegue encontrar aquele meio-termo entre comum e espetacular.
Porque as circunstâncias tornaram alguém espetacular em apenas mais um (talvez até menos que um, na visão de muitos), mas a verdade é que a própria jornada é fantástica, mesmo tendo em mente que muitos outros passaram pelas mesmas dores, privações e provações.
Ademais, armado deste conhecimento, o filme vai além da tentativa de apenas martirizar um único ser humano, mas consegue transpor toda a jornada de uma única pessoa numa mensagem universal que ressoa com absolutamente qualquer um que tenha contato com a obra. Não é esta a meta última das grandes obras, afinal?
Claro que, em meio a tudo isto, não se pode negar o trabalho de toda a equipe. Adrien Brody é incrível (o nível de dedicação necessário para esta atuação em si é de outro planeta, o reconhecimento vindo tão cedo foi merecidíssimo neste caso), a reconstituição de época feita pela equipe de produção cria uma sensação de imersão sem igual, a edição é direta, mas também sublime e fina, a música - tal como uma obra sobre um músico pede - consegue complementar a atmosfera em tela com precisão e nos tocar com firmeza sem jamais soar sentimentaloide e a direção de Roman Polanski, por fim, consegue amarrar tudo com maestria.
Longe de ser piegas, temos aqui uma postura muito dura, crua e realista, mas sem deixar de expor todas as atrocidades, até com certa parcimônia e elegância, tal qual um concerto de piano. Injustamente criticado por vezes por fatores externos que em nada o desabonam, e considerando apenas o que está na tela, este daqui é definitivamente um dos melhores filmes que já vi na vida.
Mais um filme da categoria títulos-traduzidos-de-forma-excessivamente-dramática (como "Crepúsculo dos Deuses" ou um "Uma Rua Chamada Pecado", por exemplo), tão comuns à época, "Uma Voz nas Sombras" é, pelo contrário, um filme leve, simples e gostoso de acompanhar.
Temos aqui a história de Homer Smith (Sidney Poitier), um faz-tudo que, por acaso, acaba indo parar numa missão de freiras da Europa Central jogadas ali no meio do deserto do Oeste americano para seguir os desígnios de Deus e levar Sua palavra àquelas terras distantes.
Distante também é o relacionamento delas com tudo ao redor. Afinal, praticamente tudo é alienígena para elas. O ambiente. As pessoas. A língua. Mas, aos poucos, tudo vai sendo compreendido e apreendido por elas, que notadamente têm interesse em se adaptar às novas condições.
E por Homer também. Embora ele não seja o estrangeiro (e as dificuldades por ele particularmente enfrentadas são apenas pinceladas, para não fugir ao tema central do filme, muito habilmente), há ali uma oportunidade para aprender. Para ensinar também. E para encontrar a sua própria missão. Algo que ele não poderia esperar antes de ali chegar. Mas que, ao perceber lá estar, fez questão de agarrar.
E, para nós, também há uma oportunidade aqui: de aprender que tudo que nos acontece é uma chance de mudar a própria vida. E dos outros também, afinal. Por mais que sozinhos sejamos impotentes, em conjunto podemos muito mais. Se, para uma pessoa, algo pode ser apenas um sonho, para uma comunidade unida, este devaneio é perfeitamente realizável.
E o mais gostoso de tudo é que esta lição não nos é passada de forma proselitista. Muito pelo contrário! O filme até tem temática cristã - obviamente -, mas não pesa a mão neste lado. A mensagem é repassada de forma universal e respeitosa para todas as fés. Sem arroubos ou grandes firulas, mas sim com momentos de comédia leve e emoção doce.
E as performances são essenciais para isto. Como disse, o filme é extremamente simples, mas o comprometimento dos atores é essencial para garantir credulidade à obra. Sidney Poitier, em especial, é um monstro da atuação (ele poderia ler um cardápio de um restaurante qualquer e continuaria sendo encantador aqui, convenhamos) que vai da intensa felicidade à amarga tristeza, da falta de vontade latente ao espírito mais enérgico para o trabalho, da sensação de perda ao sentimento de se encontrar...
E é isto que faz com que encontremos também, lá no fundo, uma fagulha de esperança de que as coisas podem ser melhores. Por mais que isto seja ficção - e ficção extremamente datada, não menos -, às vezes a fé realmente nos move. E move montanhas também. E, assim como os lírios do campo, as coisas da vida também podem ser muito mais belas. Basta que sejamos nós mesmos as vozes de que precisamos nas sombras.
Aqui
3.3 135 Assista AgoraFilmes sempre possuíram uma relação muito íntima com o tempo. Seja pela duração que precisa ser precisa para cativar o espectador sem torná-lo cansativo, seja porque uma produção longa demais às vezes é rejeitada por tomar tempo excessivo nas nossas rotinas tão atribuladas, ou mesmo porque o tempo é aquele que define o que conseguimos e o que não conseguimos fazer num dia. Sendo assim, em geral, o cinema não pensa tanto sobre o espaço. Mas "Aqui" é diferente.
Afinal, aqui temos uma produção filmada sempre no exato mesmo local, marcando presença naquele mesmo espaço. Por mais que o tempo pareça a estrela do filme, é o espaço que é o verdadeiro astro aqui. Porque, sem ele, mesmo que o tempo passasse, era como se ele sequer existisse.
E isso é muito claro na vida dos personagens. Como o tempo pode passar - e jamais retrocederá, convém lembrar - mas é o espaço que vai definir as nossas vidas. Seja porque estamos num lugar que nos permite fazer experimentos científicos, praticar com o violino ou treinar aeróbica ou porque podemos ir para outro lugar, seja para conhecer a encantadora Paris ou estudar Direito numa faculdade de prestígio. E, mesmo assim, há muito que podemos fazer numa simples sala de estar.
Podemos criar nossos filhos, nos casar, comemorar aniversários e até mesmo dar à luz. E, mesmo assim, pensamos muito pouco neste espaço, ou sonhamos em deixá-lo para ter o nosso próprio cantinho sem apreciá-lo como devemos. Quantas e quantas vezes não nos preocupamos com o tempo e deixamos o espaço negligenciado? E o quanto isto não acaba por nos afetar ao longo da vida definitivamente não é pouco.
O filme é um pouco repetitivo e o roteiro precisava de um toque a mais de vigor para conectar bem todas as histórias, pois há muitas tramas que revolvem de maneira extremamente superficial, tomando tempo de tela de desenvolvimentos que seriam muito mais interessantes, mas não dá pra dizer que é um fracasso completo.
Os protagonistas, Tom Hanks e Robin Wright, são incríveis como sempre, carismáticos como poucos, e estão rodeados de uma infinidade de coadjuvantes charmosos. É incrível como a tecnologia para rejuvenescer os atores melhorou tremendamente ao longo dos últimos anos (eles parecem mais novos que da primeira vez em que formaram um par), mesmo que ainda não seja 100% realista, uma vez que parecia um filtro de embelezamento pesado na cara deles, por vezes.
Enquanto isto, a preocupação com o departamento de maquiagem para o envelhecimento de personagens, tão importante para a história, parece ter sido negligenciada várias vezes aqui. Tanto nos momentos que requereriam sutileza na transformação (que era basicamente imperceptível, em vez de sutil), quanto nos que precisariam de algo mais drástico (a Kelly Reilly sendo a maior vítima disto). Talvez tenham confiado nos tais filtros para fazer isto também. E o resultado não foi muito bom.
Ainda assim, não tem como não deixar de louvar a reconstrução de cada época nos seus detalhes, em que conseguíamos nos situar no tempo vendo os objetos que estavam ao redor dos personagens e acompanhando as mudanças que a sociedade foi vivenciando ao longo das muitas décadas retratadas. Guerras, crises econômicas e pandemias se misturavam às alegrias e tristeza da vida doméstica, do nascimento à morte.
Onde o filme falhou mesmo foi no roteiro. Passou uns bons vinte minutos até firmar alguma história, meio que apresentando esquetes soltos, e isto fez tudo parecer extremamente sem propósito por longos períodos? Talvez a ambição de apresentar fatias da vida de uma infinidade de pessoas tenha sido um pouco desmedida, até porque tirou o foco da história que realmente importava para passar uma mensagem clara (que só ganha mais peso emocional já no final).
Mesmo assim, é uma obra experimental no melhor sentido, pois apresenta uma proposta nova para contar as mesmas velhas histórias. E que consegue fazer isto com sucesso. Embora o truque fique velho depois de um tempo e não haja aqui nenhuma história muito extraordinária, talvez seja exatamente este o sentido da coisa toda; mostrar que até nas situações mais banais a vida acontece. Aqui.
Separados pelo Casamento
2.9 581 Assista AgoraQue saudades dos anos 2000, hein? Época em que ainda existiam locadoras, Vince Vaughn e Jennifer Aniston eram imensos astros de Hollywood e filmes como "Separados pelo Casamento" rendiam 200 milhões de dólares na bilheteria mundial... E o mais louco é pensar que isso tudo aconteceu há quase vinte anos, embora pareça tão próximo!
E é a passagem do tempo que inicia os conflitos do filme. Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) se apaixonam - sabe-se lá como, porque ela é definitivamente muita areia pro caminhãozinho dele - e descobrem pouco a pouco, com a convivência, que possivelmente não foram feitos um para o outro, pois existem muitas e muitas diferenças simplesmente irreconciliáveis. Mas, tendo investido suas economias numa casa própria, ambos não querem largar aquilo que conquistaram.
E assim se iniciam as desventuras apresentadas no filme. Como nenhum dos dois quer abrir mão do apartamento, mais da metade da trama fica dedicada às tentativas dos dois lados de expulsar o outro dali para poder usufruir do bem sozinho. Tudo isso feito com aquele ar de comédia típica da época.
E é uma pena que o filme tenha perdido tanto tempo com isto. Porque a obra brilha de verdade quando mostra um retrato mais realista da vida de casal, em que o drama acaba se sobressaindo. Até porque este filme, lá no fundo, não é uma comédia pastelão, mas sim um ensaio sobre amor, sobre relacionamentos e sobre a arte de desapegar.
É possível até que tenham percebido isto na montagem, mas as forças dos departamentos comerciais jamais aceitariam que um filme que é um tiro certo como comédia pastelão se tornasse um possível risco de prejuízo caso se tornasse um filme sério. E daí ficamos no meio do caminho.
Enquanto Brooke e Gary são separados pelo casamento, nós, o público, acabamos sendo separados de uma experiência que poderia ser muito melhor pela tão famigerada viabilidade comercial. This is Hollywood, baby...
Aladdin
3.9 1,3K Assista AgoraEm tempos de "Branca de Neve" (2025), quem recomenda uma adaptação live-action de clássicos da Disney bom amigo não parece ser... Mas minha amiga Natalie pode continuar a respirar tranquila, porque esta daqui certamente foi uma ótima recomendação! "Aladdin" está lá no topo entre as melhores ofertas recentes do estúdio.
É difícil demais competir com um clássico, mas esta nova adaptação soube explorar caminhos que a tornaram deslumbrante, mesmo que não tenha a mesma pujança do desenho original. Pode não chegar no mesmo nível? De fato. Mas são duas categorias diferentes. Com parâmetros totalmente distintos.
Temos aqui belíssimos efeitos especiais, visuais estupendos (que figurino incrível e cenografia de encher os olhos, aliás) e as mudanças no roteiro serviram bem ao propósito de atualizar a história. A Jasmine (Naomi Scott), por exemplo, tem aqui muito mais independência como personagem e isto nunca parece artificial, pois as alterações casaram bem com o resto da trama.
Ao contrário do erro cometido em "Mulan" (2020), aqui fizeram questão de deixar todos os mascotes intocáveis intocados. Temos o tapete mágico que consegue transmitir emoções sem nem ter cara e o encantador macaquinho Abu que nos conquista com seu carisma e brilho próprios. E temos, claro, o Gênio.
Will Smith era uma incógnita para mim, ainda mais sabendo que ele estaria no papel que um dia foi de Robin Williams, um dos maiores comediantes - e atores, e dubladores e qualquer outra coisa que esse cara fizesse, porque era simplesmente um gênio (sem trocadilhos) - de todos os tempos... E mesmo assim ele está muito bem no papel! Atraente e cativante, ele incorpora um novo gênio que é simplesmente genial. E que teve um papel estendido com muito merecimento, aliás.
Do campo das performances, não consegui gostar apenas do Jafar da nova versão. Marwan Kenzari está excessivamente afetado, ao mesmo tempo em que simplesmente não tem a mesma verve fascinante que o personagem animado tinha no desenho original. Soou caricato demais até para um filme infantil.
No fim das contas, seria pretensioso demais dizer que este é possivelmente o melhor remake live-action da Disney? Pelo menos entre os que vi, é definitivamente o melhor disparado. E nem precisou de três desejos para conseguir realizar essa proeza.
Holland
2.4 130 Assista AgoraPara quem vive nas caóticas metrópoles da atualidade, a vida provinciana e pacata de uma pequena cidadezinha como Holland pode parecer mais que simplesmente atraente e se aproximar de um verdadeiro sonho de consumo, não é mesmo? Mas, por trás de toda aparente tranquilidade, sempre existem segredos e mistérios a serem revelados.
É isto que descobre Nancy Vandergroot (Nicole Kidman), uma professora que aparenta ter a vida perfeita, como esposa e mãe, mas que começa a vasculha o passado do seu marido, tão logo suspeita que ele tenha um caso extraconjugal, com a ajuda de um fiel escudeiro, o professor de marcenaria Dave Delgado (Gael García Bernal).
A aventura que eles destramam, entretanto, é muito mais do que eles poderiam supor em um primeiro momento. Longe de um pequeno affair de histórias do gênero mais tradicionais, o que eles encontram aqui é um verdadeiro caso de polícia.
A estética do filme é, de certa maneira, rica. Fez-se questão de imbuir o conteúdo de referências ao passado dos colonizadores holandeses que fundaram a cidade, seja nas vestimentas, danças, canções ou desfiles tradicionais.
De início, parece até prometer um encontro entre "Midsommar: O Mal Não Espera a Noite" (2019), com a exploração de tradições culturais antigas - e tidas por muitos como arcaicas e ultrapassadas -, com "Donas de Casas Desesperadas" (2004-12) ou "Mulheres Perfeitas" (2004) e suas ambientações nos subúrbios aparentemente perfeitos que o estilo de vida americano nos vende desde sempre.
Mas fica só na promessa mesmo. O que temos aqui é um thriller muito mequetrefe em que o nível de suspensão de descrença precisa ir muito além do aceitável para que aquilo tudo se torne minimamente verossímil. E é impressionante como a riqueza estética fica restrita única e exclusivamente a isto: pura estética.
Também é chocante ver o quanto o roteiro não consegue construir os relacionamentos na tela. Nada é plenamente desenvolvido, e às vezes nem mesmo inferido, mas simplesmente acontece da forma que é conveniente para que essa trama siga em frente aos trancos e solavancos.
Nem mesmo no departamento de tramas-de-mistério-rocambolescas-ambientadas-em-cidadezinhas-do-interior esse filme consegue se destacar, porque já temos "Veludo Azul" do David Lynch há quase quarenta anos... No fim, parece que "Holland" é tão ultrapassado quanto chamar os Países Baixos de Holanda.
Red Rocket
3.6 90Em um mundo que cada vez mais nos apresenta o homem-branco-cis-hétero-dos-países-centrais como causador de todos os males, "Red Rocket" é um sopro de ar fresco ao nos mostrar que toda generalização é falha e, portanto, burra.
Aqui acompanhamos a história de um desses homens, o ex-ator pornô e trambiqueiro profissional Mikey Saber (Simon Rex). Para quem acha que ele teria tudo para vencer só por ser quem é, a trama nos dá um recado sombrio: não foi nem de longe o suficiente. E, se não foi fácil para ele, com todas as - reais - facilidades que a vida lhe deu no nascimento, como será para todos nós que não encaixamos perfeitamente nesse papel?
Como nos demais filmes de Sean Baker que já acompanhei, aqui a questão não é exatamente o rótulo. Mas sim o sistema. O sistema que pode até privilegiar alguns (aliás, não podemos esquecer da doce Strawberry, por exemplo, privilegiada pelos excluídos) enquanto nega tudo a outros. Mas, no fim das contas, nunca há espaço para todos, mesmo para aqueles que saem de um ponto de partida vantajoso.
Para que uns tenham muito, outros precisam ter muito pouco. Para que uma minoria tenha tudo, então, é preciso que a vasta maioria não tenha nada. E é para isto que infelizmente estamos nos encaminhando cada vez mais.
Esse subtexto político fica enterrado lá no fundo, aparecendo de vez em quando em passagens que mencionam uma disputa entre pessoas supostamente muito diferentes, mas que querem chegar à gloriosa vitória apenas para dirigir o mesmo consenso. Aquele que o sistema permite que exista e prospere enquanto nos distrai com as mesmas ferramentas de sempre: o pão e o circo.
E talvez seja este o segredo deste filme e da carreira mais recente do cineasta. Ao mesmo tempo que ele atrai atenção e choca com aquilo que prende a atenção do público num primeiro momento, ao abrir mão de um conteúdo político que parte para o confronto de forma mais explícita, ele consegue também deixar muito bem apontado nas entrelinhas as mazelas do mundo em que vivemos que sempre vão nos afetar negativamente, sejamos quem sejamos.
E, para isto, contou com gente muito talentosa na tela. Simon Rex está incrível no papel principal, que em muito se assemelha a muita coisa que ele mesmo viveu, e nem por isso chegou a intimidá-lo. Mais impressionante, então, é ver a qualidade do trabalho dos coadjuvantes, sempre muito autênticos e firmes. A talentosa Bree Elrod e a beldade Suzanne Son, em particular, são achados. Espero demais que consigam outros papéis de destaque no futuro, da mesma forma que o Simon conseguiu aqui um merecido boost para uma carreira que sobrevivia por aparelhos.
No fim, o filme parece até mesclar ficção e realidade com essa aura de autenticidade sem igual, o que o torna ainda mais intenso e pungente. E se, para Mikey e para aqueles que o rodeiam, o sonho americano é cada vez mais impossível de ser atingido, que esperança teremos nós? Talvez nenhuma. Mas o fim de um sonho não é triste. Pelo contrário, é uma oportunidade. Pois sempre é possível dormir novamente e sonhar um novo - e melhor, esperamos - sonho.
Branca de Neve
2.1 336 Assista AgoraÀs vezes, as melhores histórias devem continuar ali entocadas, pois são intocáveis. Assim são muitos contos de fada. As histórias podem ser batidas, cheias de clichês e até mesmo uma tremenda bobagem. Mas já são assim há gerações e gerações. E, para mudá-las com sucesso, é preciso fazer tudo com muita exatidão e firmeza. Não é o que acontece aqui.
"Branca de Neve" é uma releitura da clássica animação (que basicamente deu vida à Disney como a conhecemos) dos anos 30 que, "muito evidentemente", como diria a intérprete da protagonista, Rachel Zegler, é uma criação do seu tempo. Mas uma criação que, embora diste em quase um século da nossa contemporaneidade, permanece no imaginário popular com muita força.
E daí que temos o primeiro grau de estranheza com esta nova adaptação. A história, aqui e ali, apresenta modificações que tentam atualizá-la e adaptá-la aos novos tempos. Mas o problema é que não consegue fazer isto em tudo com o vigor necessário. Assim como jamais conseguiria, aliás. Porque a história original é tão icônica que, quanto mais fosse alterada, mais haveria oposição a uma nova versão.
E aí reside o erro. Na tentativa de agradar gregos e troianos, o filme acabou não agradando a ninguém. Para uns, porque mudou muita coisa. Para outros, porque não mudou o suficiente. Para mim, porque virou um monstrengo que ficou no meio do caminho entre uma coisa e outra.
Definitivamente não é o pior filme do ano. Sempre é possível achar um ou outro ponto positivo; o figurino, por exemplo, é de fazer os olhos brilharem. As canções novas são esforçadas. O esmero com a cenografia na reprodução de algumas cenas emblemáticas também é louvável. E o filme brilha quando tenta ser mais fiel ao que já conhecíamos: a cena de perseguição na floresta, a transformação da bruxa, por exemplo, ou a nova versão da clássica canção dos anões.
Anões estes que, pelo menos para mim, não funcionaram. Novamente, a indecisão deixou as criaturas no meio do caminho, pois deixaram de ser humanas (desempregando tantos atores que raríssimas vezes têm oportunidades, e isto que trata-se de uma empresa que diz tanto valorizar a diversidade...) para serem umas criações amorfas. E os anões que estavam escalados, tive a impressão, tiveram de ser - ao menos em parte - reaproveitados em outro núcleo da trama. Tiram a refeição e dão a migalha em nome da inclusão, neste caso. Triste.
Inclusão, inclusive, que fez da Rachel Zegler protagonista. Ela pode não ser fenotipicamente o que se esperava no papel? Óbvio. Mas ela foi lá, resistiu às críticas (fúteis e rasas, convenhamos) e lutou para provar seu valor em cena. E, apesar das críticas esmagadoras, achei que ela está muito bem no papel. Encontra aquele equilíbrio entre seriedade de uma grande produção, leveza por se tratar de algo para o público infantil e determinação para mostrar a sua visão do papel. E ela tem também uma voz encantadora, como já sabíamos graças a "Amor, Sublime Amor" (2021).
Gal Gadot é o contrário. O tom vai além do exagerado e passa a ser histriônico sem qualquer necessidade. Qualquer atriz no papel da Rainha Má em um parque da Disney faz um trabalho melhor com essa personagem. E, ainda assim, é a Rachel Zegler quem está sendo tirada como bode expiatório para o desastre aqui. Porque às vezes o que conta não é a performance, mas sim fatores externos... E ela realmente fez questão de alimentar esses fatores externos, isso é inegável também.
Enfim, já me alonguei muito, e o filme realmente nem merece tanto. Se definitivamente não vai ser o pior filme do ano, no mínimo reconheço que, na melhor das hipóteses, é apenas regular. Na tentativa de agradar todo mundo, a obra atirou para todos os lados e acabou se perdendo entre muitas expectativas.
No fim das contas, não agradou de verdade a praticamente ninguém. Mas ao menos não perguntou ao espelho se havia filme melhor em todo o mundo. Caso contrário, sequer estaria aqui para recontar essa história... Porque certamente há melhores. E o espelho, quando tudo termina, não perdoa.
Rede de Intrigas
4.2 386 Assista AgoraDesde cedo, sempre fui um aficionado por televisão (e também por acompanhar índices de audiência). Enquanto as outras crianças queriam ser médicas, advogadas e mesmo astronautas, eu queria mesmo era ter a minha própria emissora. Até criava programas, escalava elencos e bolava grades de programação... Então, talvez exatamente por isto, "Rede de Intrigas" tenha ressoado com muita força desde a primeira vez que vi.
Depois, ali pelo fim da adolescência, comecei a procurar uma coisa mais realista para a vida. Resolvi cursar Comunicação Social. Não por ter ilusão de que entraria necessariamente neste mundo da televisão. Longe disso. Mas porque, de certa maneira, até estaria um pouco mais próximo dele, até porque muito do que se discute aqui gira em torno do trabalho do jornalismo.
Já hoje, mais adulto e calejado, é um outro tema que me pega de jeito: afinal, como é que esse sistema desgraçado consegue usar cada pequena coisinha da vida para nos tornar prisioneiros do deus verde? Tudo é financeirizado. Colocado numa planilha. Envolve um risco e uma oportunidade. Seja na frente ou por trás das câmeras.
Não interessa se você é um apresentador à beira do colapso nervoso (mas viável comercialmente), uma programadora workaholic (tão obcecada com seu trabalho que vê sua vida como extensão dele, e não o contrário) ou um jornalista reputado (que relembra um tempo glorioso que já passou e não voltará mais), você ainda é apenas um peão no jogo.
Quem sabe você não é um suposto felizardo, promovido a um cavalo ou um bispo, que se julga no caminho da vitória; aquela vitória irrefutável que vai lhe render o contato direto com o deus verdinho para todo o sempre. Afinal, não é assim que os executivos se sentem? Com os seus bônus milionários em seus esquemas infinitos?
Mas ninguém é vencedor aqui. Todos saem feridos. Uns de maneira muito óbvia. Outros, nem tanto. Mas ninguém vence. Porque a vitória simplesmente não é uma possibilidade para nenhum deles. E nem para nenhum de nós. Pelo menos não enquanto valerem as regras do jogo.
O brilhantismo deste filme deriva disto. De como ele consegue discutir absolutamente tudo partindo de um mundinho tão particular que, à primeira vista, pareceria interessar apenas a aficionados que sabem o que significa um ponto de audiência, o que é "share" ou o que representa um lead-in para o sucesso de um programa.
Aqui não há uma única pedra que se apresente que não seja revirada. Do particular ao público. Do emocional ao racional. Da mentira e da verdade. Tudo está aqui. E o mais estranho é que o surreal, que à época poderia até chocar, hoje é simplesmente normal. Basta ligar o televisor no fim da tarde e estarão lá programas que já mostraram o que é tido aqui como ficção ao vivo. Com outros personagens? Certamente. Mas o mais chocante é saber que nada disso choca mais.
E, mesmo que as redes de hoje não tenham mais o poder das redes de então, elas ainda têm algum poder residual. São elas que espalham as intrigas que nos colocam uns contra os outros para alimentar o sistema da forma que ele precisa ser alimentado. E, na ausência delas, jamais podemos achar que seremos livres... afinal, de 1976 para cá, surgiram outras redes que nos escravizaram ainda mais. E elas nem precisaram estar em caixinha mágica nenhuma para fazer o seu trabalho com perfeição.
Raizes da Ambição
3.1 12 Assista AgoraMais um da longuíssima lista de filmes com títulos traduzidos de forma excessivamente dramática em sua versão brasileira, "Raízes da Ambição" é um faroeste moderno. Situado ali pelo meio dos anos 40, quando a Segunda Guerra Mundial se encaminha para o fim, o mundo dos cowboys ainda persevera.
E das cowgirls também, claro! Pois temos aqui a belíssima Ella Connors (Jane Fonda), que teima em resistir contra tudo e todos, em sua afastada fazenda, com a ajuda apenas do dedicado Dodger (Richard Farnsworth) e do galante Frank (James Caan), especialmente contra o tirânico vilão Ewing (Jason Robards).
Parece uma premissa interessante... mas o filme parece nunca engrenar. O ritmo lento até condiz com a história e com a nossa imersão nela (afinal, tudo num interiorzão nos anos 40 acontecia a um ritmo quase glacial, suponho), mas é impressionante como tanto tempo de tela é destinado a tomadas repetitivas e desnecessárias (por exemplo: quantas vezes não laçaram esses animais e era isso que realmente precisávamos ver?).
Ao menos uma coisa essas tomadas evidenciam com clareza: a cinematografia é tocante. A vastidão a ser explorada - e, no caso deles, domada - encanta o nosso olhar. Mas isto não é o suficiente para esconder o fato de que o roteiro acaba resvalando para clichês do gênero bastante previsíveis.
E lembram-se do ritmo vagaroso? Esqueçam-se dele quando estiverem se encaminhando para os momentos finais; o desfecho é tão apressado que quem estava achando o ritmo lento demais e acabou por cochilar pode simplesmente perdê-lo.
O destaque das performances fica por conta de Richard Farnsworth. Ele tem pouco espaço, mas é quem mais conquista e faz nossos olhos brilharem, tanto quanto os dele brilharam na tela (e foi merecidamente reconhecido por isto). Jane Fonda é magnífica e dá pra ver o seu esforço para se encaixar aqui, mas a caracterização parece incompleta e simplesmente não conseguiu me convencer. James Caan é o típico herói de faroeste e não consegue fugir muito da unidimensionalidade do arquétipo.
Já Jason Robards, meu Deus, parece um vilão de desenho animado. Até dá pra tentar associar essa atuação exagerada a uma obsessão ou algo do tipo, mas o filme não só não tentou desenvolver isto como deixou contrastar assustadoramente com a naturalidade com que se tentava apresentar todo o resto.
Enfim, não é de todo ruim. Muito pelo contrário, como obra simplesmente visual, é estonteante até. Mas, quando vai para os outros sentidos, começa a mostrar suas falhas; aliás, o som - muito provavelmente de forma intencional - era excessivamente agressivo em momentos de ação e maior tensão, enquanto diálogos mal podiam ser ouvidos, mesmo no volume máximo, por vezes.
Na tentativa de mostrar as raízes da ambição, o filme se encarregou apenas de mostrar o fruto de uma árvore que já estava um pouco cansada de tanto os dar (afinal, este era um dos principais gêneros da dramaturgia, especialmente na TV, da época). E, se aqui chegava um cavaleiro, parece que o cavalo também fez questão de nos deixar um pouco da sua marca.
Os Desajustados
3.8 137 Assista Agora"Os Desajustados" é um filme que carrega consigo uma imensa fama de - imaginem só - desajustado. É uma película de faroeste que se passa na contemporaneidade, e não cem anos antes, no auge do Velho Oeste. Passa longe de ser centrado apenas em viris cowboys (embora eles estejam aqui, é claro), e tem, por sua vez, uma personagem feminina vigorosa e independente. Por fim, é um drama, claro, mas bebe demais na fonte da comédia (assim como a vida). Mais que tudo, é um filme que confronta ficção com a realidade.
Porque todos aqueles personagens desajustados eram igualmente interpretados por pessoas desajustadas, e o próprio público sabia disto. Marilyn Monroe era mundialmente conhecida como sex symbol, mas desejava ser mais que isto, e aqui teve uma oportunidade de mostrar ser mais, embora talvez já fosse tarde demais... Montgomery Clift, num papel menor que o habitual na sua carreira, também misturou ficção e realidade ao falar sobre "já estar melhor depois do acidente", mostrando determinação para seguir em frente, mesmo sabendo que algumas cicatrizes sempre ficam marcadas, ainda que nem sempre aparentes. Clark Gable, então, se despede em grande estilo numa carreira que tem clássicos imortais como "E o Vento Levou..." e "Aconteceu Naquela Noite".
O mundo em que os personagens vivem simplesmente não existia mais. São inúmeras as dificuldades que eles precisam enfrentar: Como eles mesmos observam, os milhares e milhares de animais que eles costumavam caçar, agora são apenas alguns poucos que resistem. É preciso ir para longe para arranjar um novo trabalho. Ou suas famílias não os amam mais; ou, quando os ama, está muito distante. Da mesma maneira, seus maridos agora não são mais seus e estão com outras. Do outro lado da telona, o mundo real também estava em profunda mudança. Saía de cena a Era de Ouro dos Estados Unidos do pós-guerra nos anos 50 (e da indústria cinematográfica também) e entrava em jogo uma nova época de preocupações socioeconômicas sem paralelo.
O filme também é reflexo disto. Tentando fugir às fórmulas tradicionais de então, "Os Desajustados" acaba por ser pioneiro nas novas formas de cinema que iriam surgir mais pro fim da década, adiantando tendências que os grandes estúdios preferiam não entender e mesmo ignorar, levando a imprensa e o público a, infelizmente, seguirem o mesmo rumo. Mas apenas num primeiro momento, pois, com o tempo, passou a ser lido como um clássico como merecia.
Raramente há um filme surgido numa era que ainda era tão dourada que seja tão melancólico e depressivo. Mesmo quando há imagens bonitas na tela, a sensação é de desalento. Como seguir em frente sabendo que o mundo (n)os deixou para trás? É a pergunta que muitos aqui fizeram, tanto em frente quanto por trás das câmeras.
Alguns conseguiram, de fato, seguir adiante. Outros, ficaram por aqui (este foi o último trabalho tanto de Clark Gable quanto de Marilyn Monroe, ambos vitimados ainda cedo demais). Mas a maior vantagem de qualquer filme é que ele é para sempre eterno. E, como tal, para sempre eterniza aqueles que dele participam. Seja(m) ele(s) ajustado(s) ou não.
Moby Dick
3.7 99 Assista AgoraÉ impressionante como as histórias da infância sempre são as que mais marcam. Li "Moby Dick" quando tinha uns onze ou doze anos na coleção de clássicos da literatura da Folha e é inacreditável como o filme escavou memórias tão distantes com uma firmeza singular.
Com uma das apresentações mais memoráveis da história da literatura, Ishmael (Richard Basehart) aqui também é quem nos apresenta todo o mundo - igualmente longínquo - dos baleeiros do começo do século XIX. Em uma sociedade que ainda vivia sem a eletricidade, eram eles os responsáveis por produzir o óleo de baleia que acendia as luzes do mundo de então.
Luzes essas que o Capitão Ahab (Gregory Peck) simplesmente não conseguia ver. Envolto num mundo trevoso e consumido pela sede de vingança, ele é o comandante do navio que está disposto a muito mais que apenas lucrar com o óleo retirado das baleias. Ele quer vingança por tudo que os animais lhe causaram ao longo da vida, física e emocionalmente. E esta vingança é muito bem direcionada: afinal, é voltada contra a personagem-título.
É impressionante como, mesmo sendo uma obra distante do nosso tempo atual em séculos, se mantém atual em tantos temas. A luta eterna entre homem e natureza, que parecem viver em dois mundos diferentes, embora compartilhem um só, em especial. Para um lado, convenções sociais complexas e arranjos exatos calculados milimetricamente. Para o outro, o poder que não se deixa convencionar jamais pois é impossível de ser limitado.
E o filme consegue retratar tudo isso com um esplendor sem igual. Igualmente antigo (dista da nossa contemporaneidade em praticamente sete décadas, não menos), é uma superprodução para ninguém colocar defeito. As cenas de ação são intensas e envolventes, as baleias parecem mais realistas que se as recriassem com o infame CGI que temos hoje e o roteiro faz questão de respeitar a história original.
Talvez o seu defeito maior seja focar demais no espetáculo visual e menos nos temas mais profundos que a obra carrega, mas nem por isto deixa de ser incrível. Muito pelo contrário! Torna ainda mais impressionante o fato de que um filme tão recuado no tempo consiga ter tamanha qualidade mesmo para quem tem um referencial mais moderno e - supostamente - mais avançado.
No fim, talvez isto seja um sinal de que Hollywood deveria se inspirar mais em trabalhos como este, limitados em escopo, mas cheios de significado e que também conseguem ser um espetáculo visual simultaneamente, ao invés de tentar reciclar a milésima franquia adormecida do passado ou adaptar o mais novo vídeo game da moda. Ou ao menos é com isso que ainda podemos sonhar enquanto estamos no meio do mar agarrados a um pedaço de madeira enquanto um providencial navio não nos resgata...
Um Ninho Para Dois
3.3 95 Assista AgoraA sinopse acima praticamente dá a entender que se trata de uma comédia, mas não se deixem enganar por ela. O que temos aqui é, na verdade, um drama familiar - com leves toques cômicos, como a própria vida - centrado numa história de perda e superação.
"Um Ninho para Dois" (título muito apropriado, aliás) conta a história de um casal que precisa lidar com a morte da sua filha ainda bebê para seguir em frente. Enquanto Jack (Chris O'Dowd) está internado numa clínica psiquiátrica para tratar desta questão, sua esposa, Lily (Melissa McCarthy), a princípio parece já ter seguido adiante sem maiores sequelas. Mas é o estorninho que vai fazer com que ela repense tudo aquilo que deixou guardado a sete chaves.
Embora literal neste caso, o estorninho é muito mais uma abstração. Algo que, a princípio, parece um obstáculo que trabalha para nos interromper e prejudicar, mas que se revela essencial para nossa jornada de crescimento. De superação. De aceitação.
Até porque, na vida, nada jamais será fácil. Nesta situação em específico, então, pode-se muito bem dizer - mesmo jamais tendo estado na pele dos personagens, graças a Deus - que certamente se trata de uma das dores mais difíceis de superar para qualquer ser humano. Mas é preciso sempre ter em mente que precisamos tirar o melhor proveito possível de tudo, especialmente daquilo que é irremediável e imutável. Se o copo parece estar meio vazio, cabe apenas a nós passarmos a entender que ele está sempre - e definitivamente - meio cheio.
Temos aqui todos os ingredientes que fazem um filme muito tocante. O ritmo é leve e sensível, sem grandes sobressaltos. Os atores, muito mais conhecidos por seus trabalhos de comédia, entregam performances emocionantes quando precisam mostrar seu lado drmático. E a história definitivamente já foi contada antes, mas nem por isso apela para o sentimentaloide ou o clichê. O cineasta, Theodore Melfi, afinal, já dirigiu o brilhante "Estrelas Além do Tempo" (2016), que mostra a sua aptidão para lidar com grandes dramas de forma sutil e delicada.
O que prejudica a obra, entretanto, é a falta de maior desenvolvimento entre o antes e o depois. Vemos muito pouco do "antes" com alguns flashbacks, mas fica um pouco difícil entender os protagonistas com mais completude. Parece até uma falta de interesse do roteiro de tentar nos deixar ainda mais investidos no relacionamento deles e na forma como o que eles já viveram gera a história que se desenrola na tela.
O filme sofre um pouco também da famigerada "síndrome do Netflix". Acaba tendo imagens parecidas com a de outras produções, tem alguns atores de outros trabalhos da plataforma (como Timothy Olyphant e Skyler Gisondo, ambos de "Santa Clarita Diet", aqui em papéis menores) e, talvez até por ser produzido para a Netflix, tenta ser um pouco raso numa história que poderia ser mais profunda para agradar a mais públicos.
Mas nem por isso deixa de ser emocionante. Como um estorninho aleatório que surge numa revoada em temporada de acasalamento que não deixa a nossa heroína em paz para seguir sua vida sem refletir sobre o que de fato precisa, "Um Ninho para Dois" talvez tenha o mesmo poder para nos fazer pensar sobre aquilo que realmente precisamos. Mesmo que às vezes nem estejamos nos dando conta disto.
Alerta de Spoiler
3.9 62Sempre fui muito fã de tudo que envolve a televisão americana. Por isto mesmo, foi muito estranho perceber, creio que ainda na segunda menção do nome "Michael Ausiello", que eu certamente já havia lido aquele nome antes. E não deu outra. Precisei checar na Wikipédia de onde eu conhecia aquele nome. Como a enciclopédia virtual não possui alerta de spoiler, acabei já vendo onde essa história iria parar, infelizmente... Mas isto não me impediu de continuar interessado no filme, muito pelo contrário!
Temos aqui, afinal, uma história baseada em fatos reais (que pode até ser um pouco batida, mas que é certamente envolvente) de um casal gay que se conhece por acaso numa balada, ainda no início dos anos 2000, e que acabar por se tornar um - cada vez mais raro - caso de relacionamento longevo. Michael (Jim Parsons) e Kit (Ben Aldridge) são absurdamente distintos, mas também definitivamente complementares.
Onde um é neurótico, o outro é livre e desprendido (mas não em tudo que lhe diz respeito). O que um tem de insegurança, o outro tem de firmeza. No que um é bom demais, o outro pode ser ruim, mas isto não é demérito... pois ambos estão ali justamente para aquilo mesmo. Por mais que nem sempre os opostos se atraiam, um relacionamento só é criado e fortalecido quando há o interesse em fazer com que ele se fortaleça. E ali definitivamente havia isto.
Aliás, o ponto alto do filme é a forma como ele cria esse relacionamento na tela com leveza e dedicação. As inseguranças e frustrações dos personagens são expostas aos pouquinhos, de modo que seus intérpretes vão construindo camadas que vão tornando seus personagens tão verossímeis que nós certamente somos capazes de pensar que poderiam ser nossos vizinhos, nossos amigos, nossos irmãos, e - por que não? - nós mesmos, afinal.
Os dois protagonistas estão divinos em seus papéis. Eles são, de certa maneira, vítimas da estereotipagem que ronda algumas carreiras em Hollywood? Definitivamente. Mas isto mais trabalha a favor que contra no caso deste trabalho. Afinal, quem melhor para entender os dramas que os personagens viviam aqui que dois atores igualmente gays?
E a naturalidade com que eles moldam essas vidas na tela também é acompanhada pelos coadjuvantes. Eles estão lá para auxiliar a contar as histórias deles (e unicamente deles). Mas cada um serve de forma muito contida, porém fundamental, ao seu propósito. Todos se encaixam muito bem. Em particular, foi maravilhoso ver a Sally Field em mais uma brilhante atuação que, ao invés de explorar o espetacularmante dramático que ela já fez tantas vezes - e tão bem, ressalte-se - aborda, por outro lado, uma reação mais comedida, firme e inesperada, indo centralmente no oposto do que geralmente se espera de filmes desse tipo.
Michael Showalter tem uma carreira muitas vezes subestimada, tanto no cinema quanto na televisão, mas definitivamente acertou em cheio aqui. A naturalidade que ele consegue dar aos mundos mais bizarros (como o de Tammy Faye, em "Os Olhos de Tammy Faye") ou caóticos (como o de Hayes, pop star de "Uma Ideia de Você") aqui caiu como uma luva.
Afinal, esta é apenas mais uma história normal que poderia acontecer com qualquer um de nós. Mas aconteceu com o Michael. E ele definitivamente não fez questão de colocar um alerta de spoiler para nada do que viveu neste belo conto que quis nos contar.
Piano de Família
3.0 34Terceiro filme da sequência de adaptações das obras do dramaturgo August Wilson para a telona, "Piano de Família" conta uma história complexa em que muitos conflitos vão surgindo aos pouquinhos conforme a trama segue seu desenvolvimento.
A princípio, os maiores desafios são externos: definitivamente não era nada fácil ser negro em nenhum lugar dos Estados Unidos (e não apenas lá, a bem da verdade) na primeira metade do século XX, fosse no supostamente receptível norte, fosse no cruel sul profundo. E o filme faz questão de discutir isto. Até porque nem teria razão para existir sem isto, convenhamos.
Da mesma maneira, os conflitos internos também não deixam de ser retratados: como a materialidade é capaz de evocar a imaterialidade (e, por óbvio, a espiritualidade). Como as nossas relações muitas vezes são guiadas por este dilema sobre o qual tão pouco nos debruçamos. Por fim, como o passado pode ser repleto de traumas, mas também de lá podemos tirar as maiores lições para vencer os mais monumentais obstáculos.
Na tentativa de embalar tudo isto, entretanto, o filme acaba ficando confuso e errático. Onde "Um Limite entre Nós" (2016) consegue ser preciso e firme para lidar com todas as temáticas que decide abordar, "Piano de Família" acaba por se mostrar mais vacilante.
É louvável perceber o interesse em tentar adaptar tudo da forma mais fiel, transpondo a peça do teatro para este novo ambiente cinematográfico, inclusive trazendo atores de uma das montagens recentes, mas até essa escolha gera um dilema: onde os atores da produção teatral como John David Washington e Ray Fisher soam excessivamente exagerados, por terem uma abordagem necessariamente teatral, Danielle Deadwyler, em contraposição, consegue parecer muito mais natural (uma pena, aliás, que o reconhecimento da Academia não tenha vindo mais uma vez).
No fim, talvez a falta de uma preparação maior para a virada de chave do filme ali pelo final é o que o sepulta. O tom era de drama, com camadas de comédia, mas de repente temos um filme de terror. A condução não ajuda a estabelecer um tom mais firme que consiga fundir tudo de modo a dar liga.
A reverência merecida dada ao material original sem dúvidas não o torna fácil para adaptação, muito menos considerando que este é o longa de estreia do cineasta Malcolm Washington, que está definitivamente num trabalho em família com o pai produtor e o irmão ator. Mas a lição que se pretendia passar, definitivamente, me pareceu perdida e deslocada, ao invés de simplesmente melódica e ressonante, tal como nos melhores recitais de piano.
Meu Policial
3.4 154 Assista AgoraOs mais velhos sempre dizem que os anos 50 foram o ápice das suas vidas. No mundo do pós-guerra, havia uma esperança latente de que a paz duraria para sempre, que a segurança havia chegado para ficar, que o consumo faria todos felizes e que nunca havia motivo para reclamar. Mas nada disto era ou se tornou verdade.
Nem todos viviam em paz. Nem todos estavam seguros. Nem todos tinham acesso ao consumo ilimitado. E simplesmente havia muita gente com muitos motivos perfeitamente válidos para reclamar.
É neste momento histórico que encontramos um triângulo amoroso formado pelo curador de museu Patrick (David Dawson), pela professora Marion (Emma Corrin) e, por fim, pelo policial, que dá título ao filme, Tom (Harry Styles). O mundo deles pode até ser perfeito na superfície, mas esconde um segredo que, quando revelado, é capaz de pôr tudo a perder.
Mas o que não se perde aqui é o senso de realidade e imersão naquela era. O filme é extremamente contido na maior parte do tempo, por vezes até mesmo cinzento como o próprio Reino Unido, mas nos permite ver também fagulhas cheias de esperança em vários e vários momentos fulcrais.
Longe de ser tediosa, a obra consegue construir muito bem toda aquela aura de respeitabilidade daquela era, ao mesmo tempo em que sabe como nos fazer torcer para que os personagens reajam àquelas situações, sem transformá-los em mocinhos ou vilões. São, afinal, apenas pessoas de carne e osso fazendo o melhor que podiam para viver os seus sonhos e desejos.
E as performances são essenciais para nos transmitir isto. O elenco jovem nos conquista com o seu carisma na tela, mas foi o trio mais velho que me surpreendeu com mais vigor: Gina McKee entrega uma Marion que consegue ser vacilante e perseverante com a mesma firmeza, Linus Roache transmite um belíssimo senso de arrependimento e teimosia simultâneos, e Rupert Everett, que está simplesmente irreconhecível num primeiro momento, é o veterano que não precisa dizer muitas palavras para nos conquistar com a dor que transmite na tela e nos fazer torcer por ele.
"Meu Policial" pode até não ser um filme perfeito, mas a abordagem conservadora aqui caiu muito bem. Escolhas mais ousadas parece que simplesmente não combinariam com o material e Michael Grandage aparenta ter dirigido tudo com ciência disto. Talvez a película não seja mais celebrada porque foi inspirada num romance muito bem quisto e muitos filmes acabam sendo vítimas no processo de adaptação. É até natural que acabem ficando no meio do caminho. Mas isto passa muito longe de justificar que seja condenado por não ser algo que jamais poderia ser. Exatamente como acontece com o personagem-título, não menos.
Intruso
3.1 145Numa era em que filmes de ficção científica parecem precisar necessariamente estar ligados a uma grande franquia para simplesmente saírem do papel, "Intruso" já parece um penetra no mundo cinematográfico de 2024. E isto me deixou ainda mais curioso para assisti-lo, a bem da verdade.
Temos aqui um thriller psicológico ambientado num mundo devastado pelas mudanças climáticas, em que secas duram anos e água potável não se encontra facilmente em qualquer lugar, e em que os relacionamentos humanos são postos à prova de formas nunca antes imaginadas.
E neste mundo vivem Hen (Saoirse Ronan) e Junior (Paul Mescal). Eles são um jovem casal que vive numa fazenda recuada (uma das poucas que ainda existe) quando são importunados por um emissário de um gigantesco conglomerado chamado OuterMore, que é simplesmente tão poderoso que basicamente se tornou o governo.
A princípio, a premissa parece interessante. Mas este tipo de filme exige uma construção de mundo muito bem solidificada para funcionar. E, acreditem, aqui não há nada disso. A presença da Saoirse Ronan me remeteu imediatamente a "Rio Perdido" (2014), onde existe o mesmo tipo de problema: a apresentação do mundo é tão ineficaz que não conseguimos suspender a descrença em nenhum momento. E, num thriller, isto é fatal.
Aliás, se o mundo estava devastado, como um simples casal conseguia se manter numa fazenda (ainda mais considerando que praticamente todas estavam destruídas)? E se estavam destruídas, como de repente eles encontram antigos estábulos sendo queimados com hordas de cavalos tão saudáveis de lá saindo? E como eles conseguiam manter tudo aquilo trabalhando num matadouro e numa lanchonete? E, afinal, se o mundo está devastado, como diabos as pessoas têm tempo (e dinheiro) para parar numa lanchonete e pedir seu delicioso milk shake e sua apetitosa torta de chocolate?
Estes acima são apenas alguns dos questionamentos básicos que me fiz ao longo do filme de tantos outros vários (que prefiro não expor para não revelar detalhes mais importantes). Chega um momento em que nada parece fazer sentido. E, se as questões acima são meramente secundárias, o drama que envolve a trama central também carece bastante de senso, convenhamos.
Não é de todo ruim. As performances são impressionantes, aliás. Saoirse Ronan transmite uma sensação de dor que nos emociona e Paul Mescal entrega um sentimento de confusão que nos aflige. E o coadjuvante Aaron Pierre é quem mais me impressionou: seu trabalho é tão bom que me fez sentir nojo do personagem. Excelentes trabalhos de todos os três.
Mas não é só de performances que um filme é feito. Com um roteiro tão vago (que tenta nos impressionar com um plot twist que, a bem da verdade, já é meio que revelado logo no início do filme para quem estava mais atento) e uma construção de mundo tão ineficiente, definitivamente não são elas que vão conseguir salvar o todo.
Se a ideia era retormar thrillers psicológicos de ficção científica longe das franquias a partir daqui, parece que ela fracassou. Na tentativa de juntar tanta coisa e dar dois passos à frente, parece mais que foi dado um passo para trás. E, no fim, além de intruso por ser uma exceção em meio à produção cinematográfica mais comum nos seus gêneros, este acabou por ser também um inimigo do cinema de ótima qualidade, infelizmente.
Com Amor, Van Gogh
4.3 1,0K Assista AgoraNum mundo em que mensagens são entregues instantaneamente até mesmo do outro lado do planeta, torna-se difícil imaginar o poder que um simples carta continha. Mas eram elas as maiores detentoras da informação em tempos passados. Transmitiam notícias, boas e ruins. Alertavam pessoas, sobre acontecimentos pretéritos ou coisas que ainda estavam por vir. E, por fim, eram fontes de inspiração e amor.
Era neste mundo em que Vincent Van Gogh (Robert Gulaczyk) vivia. E no qual se inicia a jornada do nosso anti-herói, Armand Roulin (Douglas Booth). Ele é incumbido por seu pai, um carteiro veterano, a entregar a última carta do genial escritor ao seu irmão, Theo. E algo que hoje em dia seria tão simples quanto mandar uma mensagem por um aplicativo qualquer se transforma numa verdadeira saga.
E uma saga que muda a vida de Armand, pois é nela que ele encontra um novo rumo para a sua vida. Da mesma forma que a mensagem do filme tem o poder de nos tocar para que tomemos a mesma atitude.
Os ensinamentos que a obra transmite não são necessariamente óbvios, mas podem ser inferidos com muita facilidade: a lealdade para com aqueles que conhecemos, a obstinação para atingir um objetivo, a perseverança para seguir em frente mesmo diante de obstáculos e o orgulho (no melhor sentido da palavra, muito longe da soberba, mas muito próximo da honra) de se manter firme ao saber que está seguindo atrás de um propósito maior.
E tudo isto vem embalado no meio de uma das animações mais impactantes e originais. Não há como deixar de reconhecer o trabalho de mais de cem artistas na reconstrução de todo esse mundo como se fosse uma pintura do próprio artista. Mais que simplesmente impressionante, o trabalho exposto na tela vai além e tem uma fluidez que, após um tempo, deixa de ser exótica e excêntrica e se torna absurdamente natural.
Tal como no trabalho do pintor, o mundo se molda e se revela muito mais bonito do que nossos olhos conseguem enxergar numa primeira olhada. Os traços são imprecisos, assim como muitas das nossas vacilantes ações. As pinceladas são rápidas, tais como muitas das decisões que precisamos tomar. Mas a luz, sempre tão valorizada, sempre vai nos mostrar o caminho a seguir.
Excetuando um momento inicial um pouco vacilante (que, a bem da verdade, talvez decorra de uma estranheza com as técnicas usadas aqui), a película é simplesmente perfeita. Tal como uma declaração de amor, sabe homenagear tanto na forma quanto no conteúdo de uma maneira ímpar. Se Van Gogh escrevia sempre com muito afeto, os realizadores aqui também fizeram questão de a ele também dedicar uma carta de amor. E, para os cinéfilos de plantão, o formato de filme simplesmente nunca foi tão encantador. Com amor...
O Jogo da Rainha
3.2 28 Assista AgoraSe a vida é um jogo, somos todos meras peças no tabuleiro. A grande maioria de nós são peões; sempre na linha de frente e a serviço dos outros. Também existem as temerosas torres, os indomáveis cavalos, os traiçoeiros bispos, e, por fim, as tão poderosas rainhas. Elas conseguem mover mundo e fundos quando precisam. Mas, ainda assim, apesar de todo seu poder, sua maior função continua a ser a de proteger o rei (e sua grave limitação de passos, coincidentemente).
"O Jogo da Rainha" tenta desvirtuar um pouco disto. Claro que a proteção do monarca ainda é fundamental, mas não é a única meta. Muito pelo contrário. Desde o início, aliás, a obra tenta demarcar essa dissonância com o aviso na tela de que "pouco se sabe sobre as mulheres, e por isso muito se inventa".
Mas não é exatamente verdade. Por mais que até o seja para as plebeias, sobre as quais realmente se sabe muito pouco individualmente, pelo menos sobre as mulheres da corte, até que temos obras inteiras, por vezes ricas em detalhes. E Catherine Parr é uma mulher da corte. Uma rainha, não menos. A mensagem simplesmente não se aplica a ela.
E, mesmo sabendo disto, o filme insiste em tomar liberdades criativas que o comprometem. Uma coisa é tomar liberdades para preencher as lacunas, outra é reescrever a história a bel prazer. Para um drama histórico, soa no mínimo estranho esse tipo de abordagem.
Aliás, o maior ponto positivo do filme é, de longe, a performance de Jude Law. Além de irreconhecível no papel do cruel tirano Henrique VIII, ele nos entrega um personagem extremamente palpável e verossímil, longe de outras adaptações que transformam o monarca gordo e doente que a história eternizou como um sexy e saudável guerreiro.
É sempre maravilhoso ver brasileiros como Karim Aïnouz alçando voos maiores. Não porque ele vai seguir por lá e nos abandonar (até porque ele já retornou na sequência com "Motel Destino"). Mas sim porque pode transpor um pouquinho da nossa rica cultura cinematográfica lá fora. Só é uma pena que "O Jogo da Rainha" não tenha sido tão bem-sucedido neste propósito.
Se a ideia inicial ter neste fim o pontapé para torná-lo um agitador da nossa cultura lá fora, no fim, a obra acabou por parecer apenas mais uma lenha jogada na fogueira de um sem-fim de filmes de época que tenta a sorte nas premiações todos os anos. Vamos torcer que a próxima tentativa gere fagulhas muito mais belas e reluzentes.
Memórias de Um Amor
3.4 61Até onde você iria pelo amor da sua vida? Viajaria pelo país revisitando o passado? Reuniria seus amigos e familiares? Reveria lugares marcantes? Acompanharia cada pequeno passo de alguém que sequer se lembra que os deu? Mesmo sabendo que, qualquer daqueles dias, toda aquela memória poderia simplesmente sumir?
São estas as questões que Memórias de um Amor traz à tona. Sam (Colin Firth) e Tusker (Stanley Tucci) são um casal de longa data que tem toda uma história de cumplicidade e amor para contar. Uma história que, entretanto, ameaça ser impedida pela chegada de uma doença degenerativa que acomete Tusker.
A partir daí, eles fazem o que qualquer pessoa sensível faria. Ambos tentam aproveitar cada segundo como se fosse o último. Antes que as dificuldades se amontoem... ou mesmo simplesmente impeçam que as coisas sejam, uma vez mais, do jeito que são. Ou que já foram um dia.
É impossível não se emocionar com este filme, especialmente quando você tenta se colocar no lugar de qualquer um dos dois. O sentimento de perda, dos dois lados, é simplesmente incomensurável. É algo que fatalmente não dá para superar.
E o roteiro mostra isso muito bem. Trata de não ser excessivamente descritivo, ao mesmo tempo em que não é necessariamente vago. Apenas vai mostrando cada detalhe que mostra a cumplicidade de ambos aos pouquinhos. Do jeito que tem de ser. Replicando a própria relação dos personagens, talvez?
E a performance dos atores é simplesmente incomparável neste sentido. Cada qual ao seu estilo, ambos parecem reforçar a tese de que "opostos se atraem". Mais que opostos em muitos aspectos, eles soam mais complementares.
O Tusker de Stanley Tucci tem uma personalidade dúbia, que consegue ser discreta e extravagante, introspectiva e extrovertida, aberta e reservada, feliz e triste. Deste jeito, ele consegue representar absolutamente todo mundo e fazer com que nos vejamos na tela.
Já o Sam de Colin Firth é o homem que sempre queremos encontrar para a vida. Aquele a quem nos renderíamos sem medo pois saberíamos que dele teríamos toda a segurança que precisamos para ir em frente. Firme e dedicado, é ele quem está disposto a enfrentar tudo para seguir ao seu lado.
No fim, a maior lição que fica do filme talvez não seja nem a de que o amor precisa criar memórias marcantes e eternas. Até porque, se a lição fosse esta, nem precisaria existir. Afinal, existe lição mais óbvia que esta?
O maior ensinamento de verdade a ser tirado daqui parece vir do título original: temos tão pouco tempo neste mundo que devemos valorizar cada minuto que temos para fazer cada instante valer a pena. Para além de ser apenas mais uma estrela no céu, devemos buscar ser uma supernova...
Ou, caso não consigamos tanto, que sejamos ao menos uma luz tão brilhante quanto esta joia que nos foi presenteada por Harry Macqueen. Sensível, tocante e simplesmente resplandecente. Tanto quanto as mais belas estrelas no céu.
Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
3.4 592 Assista Agora"Os Fantasmas se Divertem" é um dos meus filmes favoritos da infância. Quantas vezes esse filme não estava no ar na TV e eu, à toa, simplesmente parava tudo para assistir mais uma vez, a ponto de até decorar algumas das falas dos personagens? E claro que uma continuação para aquele universo era meio que um desejo desde sempre. E o sucesso deste filme prova que não era um capricho particular.
Mais de três décadas depois, surge então uma continuação para o original. Sai de cena o casal atormentado pela vida pós-morte e entra em jogo um sem-fim de relações familiares, amorosas, profissionais e afins.
O maior erro do filme já começa aí: é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que o filme é simplesmente caótico. Há umas cinco ou seis coisas acontecendo simultaneamente e praticamente nada é desenvolvido a contento.
Para além disso, o filme simplesmente trai o original em muitos aspectos. A Lydia (Winona Ryder), por exemplo, deixa de ser uma anti-heroína interessante, ousada e independente, para se tornar uma senhorinha medrosa e resignada. Já a Delia (Catherine O'Hara) até mantém uma essência mais próxima da passada no filme original, mas acaba não tendo muito material para brilhar (porque, convenhamos, parece que reciclaram alguns trechos na cara dura aqui em vários momentos). No fim, Beetlejuice (Michael Keaton) é o que mais me impressionou do trio dos primórdios. Conseguiu reviver o personagem com muita naturalidade e foi o que teve o material mais condizente com o que já conhecíamos.
Dos novos reforços, infelizmente nem se pode falar muito, pois acabamos nem os conhecendo muito bem. Astrid (Jenna Ortega) até tem momentos interessantes, mas sempre que aparecia parecia gritar "estou aqui para que a geração Z faça TikToks do filme". Os outros, têm um destino muito pior; temos um ajuntamento imenso de personagens sem qualquer desenvolvimento que só estão ali para dar soluções fáceis ao roteiro quando é conveniente.
Enfim, o filme não é de todo ruim e tem aspectos muito louváveis, especialmente o investimento em efeitos visuais práticos. Mas, na sanha de querer se colocar entre dois mundos (e nem falo do mundo dos vivos em contraposição ao mundo dos mortos), acabou se perdendo. Pareceu não decidir se queria ser uma peça de nostalgia e "fan service" ou se queria contar uma história nova e interessante dentro daquele universo.
Tantos e tantos anos depois, acredito que todos ficaram felizes em receber uma nova história centrada neste mundo. Mas também penso que muitos ficaram desgostosos com o resultado final. Se a senha levou 36 anos para ser chamada, não duvido que muita gente esperaria mais 36 por um filme mais redondo (ou "redondinho", como a cabeça do coitado do Bob).
Tesla: O Homem Elétrico
2.5 35 Assista AgoraNikola Tesla é tido como um dos maiores gênios da humanidade. E, muito mais que simplesmente genial, ele é tido como absurdamente incompreendido. Afinal, muito do seu trabalho foi mal interpretado, por vezes usado de maneira errada, e em outros casos, foi simplesmente esquecido. Este filme é uma tentativa de retificar isto.
Aqui temos vislumbres de momentos cruciais da vida do inventor, como sua mítica disputa com Thomas Edison sobre qual sistema de corrente deveria prevalecer, seu relacionamento com o também lendário George Westinghouse e seus experimentos mais excêntricos e incompreendidos.
No meio de tudo isto, a película tenta misturar a dramatização destes momentos fulcrais com passagens que lembram um documentário - com direito a anacronismos óbvios, como a presenção de celulares, projetores e computadores - que colecionam informações e mais informações sobre pessoas e situações que são mencionadas ao longo do filme.
Mas este mecanismo, que a princípio parece até interessante, acaba por se mostrar o primeiro sinal de que a obra não terá muita constância. Nem no uso deste subterfúgio (que some por longos períodos), nem muito menos na exploração mais profunda do personagem central (abandonada em favor de mostrar suas relações superficiais com inúmeros personagens que vão surgindo).
E talvez este seja o maior problema: para um filme que é sobre o Tesla, passa-se muito tempo abordando gente - com excessivos detalhes, por vezes - sem qualquer desdobramento relevante para uma cinebiografia dele. Na tentativa de amarrar a trama de Tesla aos demais acontecimentos e personagens da época (seja Thomas Edison, J.P. Morgan ou Sarah Bernhardt), ele acaba ficando muitas vezes em segundo plano na sua própria história.
A falta de manutenção de um tom mais firme também é muito notória. Por vezes, o filme soa até professoral na sua exposição, em outras o roteiro toma liberdades criativas que contrastam diametralmente com a seriedade de outrora. Até um número musical - de péssima qualidade - conseguiram encaixar. Com que propósito, afinal?
Claro, muito do que por vezes vi ser criticado é resultado do baixo orçamento - nítido demais no que diz respeito aos aspectos da produção em si - e também do estilo do diretor. Mas, mesmo neste caso, ele teve resultados muito melhores em "O Experimento de Milgram" (lançado apenas cinco anos antes, em 2015), por exemplo.
E talvez esta comparação seja a chave para explicar a decepção com este filme. Tesla é uma figura muito mais lendária e reverenciada. Com um impacto muito maior. Com um trabalho muito mais significativo. Com uma vida muito mais longeva. E com uma reputação muito mais pendente de revalidação.
Na busca por fazer um filme reluzente sobre "o homem elétrico", chega a ser chocante como o filme conseguiu ser extremamente burocrático e nem um pouco eletrizante.
De-Lovely - Vida e Amores de Cole Porter
3.7 38 Assista AgoraÀqueles que odeiam musicais: quantas vezes você não se perguntou o motivo pelo qual os personagens do mais completo nada começavam a cantar uma canção? Mas aqui você jamais terá este tipo de dúvida! Porque não só os números musicais são muito bem encaixados como as letras se encaixam perfeitamente na história que vemos na tela. Afinal, são pequenos pedacinhos da vida do retratado que elas entregam.
Temos aqui uma reconstrução parcial da vida do lendário compositor Cole Porter (Kevin Kline), com foco especial no relacionamento com a sua esposa, Linda (Ashley Judd). Nos altos e baixos da vida, os dois estão juntos... mesmo quando não estão presentes fisicamente.
E esta reconstituição se dá por meio de um show fantástico visto por um Cole à beira da morte quando visitado pelo arcanjo Gabriel (Jonathan Pryce). Em alguns momentos fundamentais, é a intervenção dele que marca as passagens pelas idas e vindas da vida de Cole.
Aliás, além da participação do anjo, são os artistas que surgem ao longo da película cantando músicas de Cole que dão um novo sopro de ar fresco ao filme. Temos gente tão diversa quanto Robbie Williams, Elvis Costello e Natalie Cole cantando alguns clássicos do repertório do artista.
E estes clássicos são muito bem encaixados na história. Mesmo para quem odeia musicais, não é possível dizer que aqui os números não fazem sentido e não ajudam a compor a trama para torná-la mais completa. Quantas vezes as letras não revelam nas entrelinhas mais detalhes daquilo que não se pode dizer plenamente, não é mesmo?
Mas talvez seja este o erro maior do filme: qualquer pesquisa mais profunda, mostra que peca pela falta de acurácia. Mesmo em relação às canções, tanto mais elas revelavam que aquilo que o filme buscava retratar. Compreensível por se tratar de um tempo muito limitado para lidar com toda uma carreira de sucesso, mas também estranho tendo em vista que outros aspectos da vida seriam muito mais interessantes de ser abordados.
No entanto, isto é talvez explicado pela época em que foi lançado. No começo dos anos 2000, toda a questão ainda era um tabu muito maior e o filme buscou "sanitizar" a temática de forma a torná-la palatável para o público, preferindo investir num romance que, na vida real, possivelmente era muito mais limitado ao afeto e respeito que tentou demonstrar com mais parcimônia nos momentos finais.
E nada disto desabona o filme. Muito pelo contrário. Só é uma pena que a vida dele pareça ter sido muito extravagante em todos os aspectos e o filme tenha apenas pincelado isto com grandes mansões, decorações estupendas em festas e vestidos belíssimos. Mas a evolução na tela é, por vezes, tão sóbria e discreta.
No fim, parece que na tentativa de tornar De-Lovely em algo adorável, parecem ter focado mais no "de" que no "lovely". "De" de devoção e de dedicação, mas também de devaneio, de devassidão, de declínio, e também de decepção... mas todos os "de"s continuam adoráveis da mesma maneira.
Temporada de Caça
3.4 40 Assista AgoraNascer, crescer, amadurecer e morrer. Este é o ciclo destinado a absolutamente todas as coisas vivas. Sejam estas coisas os pobres cervos selvagens que vivem nas florestas nevadas de algum povoado perdido na Nova Inglaterra e que pelos homens, sempre valentes e corajosos com seus rifles, são caçados... sem saber que também podem ser alvos.
É neste mundo que se insere Wade Whitehouse (Nick Nolte). Ele não é apenas o xerife da pequena cidade, mas basicamente o seu faz-tudo. Mas, ao mesmo tempo em que tudo faz, ele não tem o controle de nada. Simplesmente não é ele quem apita ali. E é a busca incessante e descontrolada por voz ativa e postura firme que é a sua perdição. E a mola motriz da história.
Porque, embora o título traduzido assim possa indicar (e as cenas iniciais até parecem apontar nesta direção), aqui não temos um thriller convencional típico dos anos 90. Muito pelo contrário. Temos um drama muito sólido e profundo sobre algo que muitas vezes não se discute: a construção da masculinidade e as marcas que ela deixa.
E isto não se faz de forma rasa e maniqueísta, nem muito menos proselitista (seja para condenar o machismo, ou para, como contraponto, reforçá-lo, como já vi o filme ser acusado, por haver um foco maior no mundo masculino). Pelo contrário. Há toda uma cadência e uma evolução muito particulares da história. Em que pequenas coisas vão sendo reveladas aos poucos nos momentos corretos. E a trama vai nos levando a lugares que simplesmente nos pareciam inacreditáveis à primeira vista.
É possível que esta seja uma discussão muito pessoal para o autor (que é diretor e também roteirista), Paul Schrader. Buscando um pouco sobre seu passado, é possível ver que ele possivelmente enfrentou muitas das mesmas pressões e vivências aqui retratadas. E a forma dura e realista como isto se mostra na tela é uma das maiores qualidades da sua execução. Ele, afinal, não foi criado vendo filmes e assistindo televisão para fazer um pastiche de algo conhecido que lide com este tema. Ele criou algo cru e fresco.
E os atores são parte essencial deste processo de criação. Eles conseguem entrar com facilidade na pele de personagens que poderiam até ser caricaturais, mas que possuem, cada qual à sua maneira, seu charme e luz próprios. Não à toa o reconhecimento - infelizmente limitado aos intérpretes e não estendido a demais setores da criação - nas premiações e nas críticas da época.
No fim, Temporada de Caça é uma obra que acabou por não ter conquistado a longevidade que merecia. A temática pesada e a discussão pouco convencional em torno do tema certamente não a ajudam neste sentido. Mas aqueles que estão dispostos a se afligir um pouco - e nem tão pouco assim, no fim das contas - certamente podem esperar um bom filme. Afinal, de toda boa história, sempre há uma lição a ser tirada.
O Pianista
4.4 1,8K Assista AgoraÉ impressionante como as nossas mãos são capazes de tudo. São elas que nos alimentam, que tão bem comunicam o que precisamos, que nos protegem de tantos perigos, que nos aproximam daquilo que amamos e que nos tornam, por fim, quem somos. Mais que tudo, são capazes de tocar mesmo que indiretamente os mais frios corações, mas também de cometer as maiores atrocidades imagináveis.
Foi tudo isto que Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) conseguiu descobrir ao longo de toda a sua jornada em O Pianista. Tempo para refletir, ele certamente tinha. Mas, muito mais que o tempo, o que ele mais tinha era a necessidade de pôr cada uma dessas ações em prática. E não por capricho pessoal, mas sim para garantir a sua sobrevivência.
Ao longo do caminho, ele e aqueles que o cercam são constantemente e gradativamente desumanizados. Primeiro se perde a casa, depois se vão os pertences, depois se despedem os amigos, e também lhe é tirada a família, eis então que some a sua identidade, assim como lhe passa a fazer falta a saúde e a possibilidade de suprir suas necessidades mais rudimentares... mas, no fim, nunca conseguem lhe tirar a dignidade.
E o filme consegue retratar isto muito bem. Em um mundo tão cruel (e que, convenhamos, continua a ser extremamente desumano, mesmo depois de tantos horrores - como os aqui retratados - revelados), O Pianista consegue encontrar aquele meio-termo entre comum e espetacular.
Porque as circunstâncias tornaram alguém espetacular em apenas mais um (talvez até menos que um, na visão de muitos), mas a verdade é que a própria jornada é fantástica, mesmo tendo em mente que muitos outros passaram pelas mesmas dores, privações e provações.
Ademais, armado deste conhecimento, o filme vai além da tentativa de apenas martirizar um único ser humano, mas consegue transpor toda a jornada de uma única pessoa numa mensagem universal que ressoa com absolutamente qualquer um que tenha contato com a obra. Não é esta a meta última das grandes obras, afinal?
Claro que, em meio a tudo isto, não se pode negar o trabalho de toda a equipe. Adrien Brody é incrível (o nível de dedicação necessário para esta atuação em si é de outro planeta, o reconhecimento vindo tão cedo foi merecidíssimo neste caso), a reconstituição de época feita pela equipe de produção cria uma sensação de imersão sem igual, a edição é direta, mas também sublime e fina, a música - tal como uma obra sobre um músico pede - consegue complementar a atmosfera em tela com precisão e nos tocar com firmeza sem jamais soar sentimentaloide e a direção de Roman Polanski, por fim, consegue amarrar tudo com maestria.
Longe de ser piegas, temos aqui uma postura muito dura, crua e realista, mas sem deixar de expor todas as atrocidades, até com certa parcimônia e elegância, tal qual um concerto de piano. Injustamente criticado por vezes por fatores externos que em nada o desabonam, e considerando apenas o que está na tela, este daqui é definitivamente um dos melhores filmes que já vi na vida.
Uma Voz nas Sombras
3.8 59 Assista AgoraMais um filme da categoria títulos-traduzidos-de-forma-excessivamente-dramática (como "Crepúsculo dos Deuses" ou um "Uma Rua Chamada Pecado", por exemplo), tão comuns à época, "Uma Voz nas Sombras" é, pelo contrário, um filme leve, simples e gostoso de acompanhar.
Temos aqui a história de Homer Smith (Sidney Poitier), um faz-tudo que, por acaso, acaba indo parar numa missão de freiras da Europa Central jogadas ali no meio do deserto do Oeste americano para seguir os desígnios de Deus e levar Sua palavra àquelas terras distantes.
Distante também é o relacionamento delas com tudo ao redor. Afinal, praticamente tudo é alienígena para elas. O ambiente. As pessoas. A língua. Mas, aos poucos, tudo vai sendo compreendido e apreendido por elas, que notadamente têm interesse em se adaptar às novas condições.
E por Homer também. Embora ele não seja o estrangeiro (e as dificuldades por ele particularmente enfrentadas são apenas pinceladas, para não fugir ao tema central do filme, muito habilmente), há ali uma oportunidade para aprender. Para ensinar também. E para encontrar a sua própria missão. Algo que ele não poderia esperar antes de ali chegar. Mas que, ao perceber lá estar, fez questão de agarrar.
E, para nós, também há uma oportunidade aqui: de aprender que tudo que nos acontece é uma chance de mudar a própria vida. E dos outros também, afinal. Por mais que sozinhos sejamos impotentes, em conjunto podemos muito mais. Se, para uma pessoa, algo pode ser apenas um sonho, para uma comunidade unida, este devaneio é perfeitamente realizável.
E o mais gostoso de tudo é que esta lição não nos é passada de forma proselitista. Muito pelo contrário! O filme até tem temática cristã - obviamente -, mas não pesa a mão neste lado. A mensagem é repassada de forma universal e respeitosa para todas as fés. Sem arroubos ou grandes firulas, mas sim com momentos de comédia leve e emoção doce.
E as performances são essenciais para isto. Como disse, o filme é extremamente simples, mas o comprometimento dos atores é essencial para garantir credulidade à obra. Sidney Poitier, em especial, é um monstro da atuação (ele poderia ler um cardápio de um restaurante qualquer e continuaria sendo encantador aqui, convenhamos) que vai da intensa felicidade à amarga tristeza, da falta de vontade latente ao espírito mais enérgico para o trabalho, da sensação de perda ao sentimento de se encontrar...
E é isto que faz com que encontremos também, lá no fundo, uma fagulha de esperança de que as coisas podem ser melhores. Por mais que isto seja ficção - e ficção extremamente datada, não menos -, às vezes a fé realmente nos move. E move montanhas também. E, assim como os lírios do campo, as coisas da vida também podem ser muito mais belas. Basta que sejamos nós mesmos as vozes de que precisamos nas sombras.