Assistindo agora em retrospecto, dá pra perceber como Folhas de Outono é quase uma reencenação desse filme, dentro de seu recorte histórico (o navio soviético no final, por exemplo). Um casal que se entrelaça pela realidade do trabalho e a necessidade de uma resolução em suas vidas. Gosto muito como Kaurismaki filma com um certo tédio e ironia na rotina de seus personagens, que apenas preenchem os espaços, mas pouco se expressam para além desses postos de trabalho que os confinam. Há uma certa beleza nas cores saturadas que permeiam os lugares e figurinos dos personagens, em contraste com seus rostos carregados de uma profunda depressão.
David Leitch faz deste filme uma elegia ao trabalho dos dublês no cinema, explorando até uma consciência de classe dos operários do audiovisual dentro da narrativa (o final com a equipe se rebelando contra uma produtora executiva). Ao mesmo tempo, é um resgate a uma abordagem ingênua do gênero de ação da televisão, que flerta com o romance e a comédia, com um sabor de televisão à tarde. Infelizmente, acho que Leitch concilia bem essas ideias em algumas sequências de ação inspiradas: a luta na boate à la Scott Pilgrim e uma sequência de luta imitando golpes de astros de ação. Em outros momentos, no entanto, carece de uma construção melhor de como conciliar seus variados gêneros e conseguir decupar melhor suas propostas de cinema. Desde que se separou de seu colega diretor, Chad Stahelski, de John Wick, ficou claro quem tinha melhor domínio do cinema e quem apenas tem boas ideias.
"Planeta dos Macacos" é uma das minhas séries favoritas do cinema e da ficção científica. Sempre acho que consegue produzir um exercício fascinante sobre a humanidade e seu ciclo de opressão e emancipação. Este "O Reino" consegue fazer a franquia respirar novos ares ao flertar com elementos de narrativas de fantasia e aventura. Gosto de como parece reencenar mais uma vez a mesma história de sempre, mas há um fértil espaço moral aberto para investigar de maneira inovadora e surpreendente seus personagens dentro de seus ideais de mundo.
Poucas coisas me deixam tão emocionado na ficção científica quanto histórias que terminam encarando o futuro nas estrelas. E é assim que este último Planeta dos Macacos termina: os olhares de seus protagonistas diante da promessa do espaço, algo tão cíclico na história da franquia que começou com astronautas. É um final que aquece o peito, acenando com respeito e carinho às raízes da série.
O subtítulo que parece um nome genérico de marca, “Uma Saga Mad Max”, felizmente condiz com o que o George Miller construiu aqui: uma fábula, uma balada clássica de construção épica. Pois seguindo a tradição de nunca repetir estruturas narrativas nos filmes da franquia, Miller resolve aqui segmentar a obra numa série de atos, como uma peça teatral clássica, onde dá espaço e foco a diferentes momentos e aspectos da trajetória de sua protagonista, Furiosa.
É uma abordagem que dialoga mais com o seu recente “Era Uma Vez um Gênio”, um retorno às formas mais tradicionais e visuais de contação de histórias. Dentro da própria trama, há um interesses dos antagonistas em historiadores orais que tentam manter a memória do mundo e os erros da humanidade desde as tragédias mais antigas. De diversas maneiras, “Furiosa” é mais um perverso conto de fadas que nós conhecemos.
E a partir disso, Miller concebe suas sequências de ação e catarse como gigantescos atos performáticos que marcam passagens narrativas de sua protagonista. Ele mesmo comentou recentemente que encara o cinema mais como música, num cuidado de ritmo e crescendo emocionais, é nesse tato que a encenação e montagem do filme dá conta em sequências longas que possuem diferentes batidas e cortes, onde os sons diegéticos e a trilha extradiegética se fundem em cornetas e roncos de motores. São performances intensas que também operam isoladas em comparação ao Mad Max anterior, “Estrada da Fúria” (e suas imagens em movimento quase ininterruptamente), mas se organizam dentro da articulação dramática de Miller em outros momentos mais “shakespereanos” do filme.
Há na direção do elenco essa busca pela expressividade do cinema mudo, de corpos em movimento que preenchem a tela e a faz transcorrer os espaços deste palco tridimensional projetado. Silhuetas desenhadas pelo sol crepuscular como um teatro das sombras, o clímax num debate dialógico sobre a impossibilidade de reparação através da violência, Miller preza pela encenação, pela forma e verbalização dessas figuras antológicas de seu mundo deserto transfigurado numa terra perdida dos mitos e fantasias da humanidade. Da mesma forma, há uma outra obsessão formal do drama do cinema mudo pelos close-ups, buscando fotografar uma hiperexpressão nos rostos que encontra força nos expressivos olhos da Anya Taylor-Joy, enquanto Furiosa, que também manifesta em sua postura corporal o necessário para traduzir em significantes imagens que dispensam qualquer linha de texto.
Inclusive, tem que louvar como Miller abraça a teatralidade absoluta e o tom de fábula desse filme. Dementus, o vilão interpretado por Chris Hemsworth, é o aspecto mais visível disso, de como ele possui movimentos expansivos em seu desejo por encenar cada interação possível, um líder tosco que sustenta sua imagem numa histriônica e constante performance.
Por fim, é revigorante ver um cineasta veterano como George Miller se apropriar de diversas ferramentas e artifícios, dos efeitos práticos ao CGI mais farsesco, para fabular um cinema onde tudo que pode ser imaginado será filmado e projetado. Envolto de som e fúria, Miller opera um cinema sem limites como um megalomaníaco artesão de imagens em pleno domínio da forma.
Filme com cara de continuação em DVD que você encontraria na locadora. É tão preocupado em repetir uma fórmula e seguir uma cartilha de roteiro engessada, presa numa escolinha americana chata de pensar narrativa só como arquitetura. Por isso, o filme articula mal o que acho essencial no longa anterior: sua carga dramática. Tudo é muito utilitarista em seus elementos narrativos, buscando mais funcionalidades e menos expressão.
Até mesmo o eixo de novidade narrativa aqui, a puberdade de Riley, fica aquém do que o estúdio já fez. Não faz muito tempo que saiu "Red", esse sim bem massa. Pixar está condenada a imitar Pixar e seu suposto "método". Filme triste.
"Rivais" busca um cinema de tensão e atrito constante. Corpos tensionados pelo tesão do esporte e do sexo. É fascinante como Guadagnino transpõe isso na forma, utilizando diversas ferramentas possíveis, seja a montagem, o CGI, etc. Ele busca criar imagens que só são possíveis com tal força no cinema. Não há receio no excesso; inclusive, é no excesso que ele denota sua qualidade em se assumir como uma narrativa cinematográfica que tensiona e manipula tempo e espaço, e assim a encenação. Um cinema safado e desavergonhado de si mesmo.
Mais um filme em que Paul Schrader coloca seus personagens anti-heróis numa via-crúcis de contradição moral. Neste caso, trata-se de um dos grupos mais execráveis que existem: um ex-supremacista. Schrader opera numa tese religiosa de um mundo natural que só pode ser corrompido ou curado por mãos humanas, seja no jardim ou no corpo tatuado dos protagonistas. É nesses frutos e suas marcas que a presença da humanidade se manifesta. Schrader filma os espaços como mundos autocontidos (o jardim e a cidade) que parecem nunca coexistir. Para mim, o filme perde em alguns textos mais baboseiras que Schrader já escreveu, mas o rigor estético e narrativo ozu-bressiano sustenta a obra.
Gosto muito como a Suzana Amaral filmou São Paulo em muitos planos fechados, nas intimidades enclausuradas das descobertas de uma mulher recém adulta. É uma SP desoladora que conhecemos bem. Consegue traduzir em imagens e sons o que é a escrita de Clarice, uma emoção metafísica que hiperexpressa a concretude da realidade, por exemplo, tem a locução do rádio por onde a protagonista Macabéa decodifica o mundo e o horror pelas palavras, temendo seus sentidos. Nisso, o filme joga entre as aspirações ingênuas de Macabéa com a insalubridade e a melancolia do mundo que a cerca. E no fim, a sua maior fantasia é a sua maior tragédia.
O segundo longa dirigido por Paul Thomas Anderson, aos 27 anos, é um filmaço que evidencia seu lugar na história como autor. A forma como ele decupa, encena e monta as sequências, com tentativas de movimentos mais ousados e experimentações de cortes e fusões, mostra como ele se diverte dentro do universo do seu filme: a indústria de cinema pornográfico dos anos 70 e 80. Essa abordagem transpira a sensação de um jovem cinéfilo filmando com pretensões maiores, mas ainda apreciando o processo.
No meio de tudo isso, ainda é um filme sobre fazer cinema e entrar num mercado tão jovem. Mark Wahlberg, interpretando um ator pornô canastrão, caiu como uma luva. É incrível como ele transita entre o constrangedor e o dramático. Na revisão, algo que gosto muito é como PTA usa a trilha sonora para pontuar os movimentos de cena e as sequências do filme. Perto do final, há uma cena de tráfico de drogas que é um primor nesse sentido, incluindo um personagem que faz mixtapes em fitas K7 em cena.
Além disso, adoro ver filmes em 35mm, assisti assim no CineSesc. Há algo na materialidade da película, nas falhas, nas texturas e nas pausas para a troca de rolos que torna a experiência única. A película funciona como um objeto com sua própria memória no tempo, o que se imprime muito bem na projeção. Muito massa.
O filme "O Mal Não Existe" gradualmente evita o maniqueísmo ao explorar o conflito entre os moradores de uma comunidade rural e uma proposta de um hotel turístico de uma empresa de Tóquio. A narrativa, conduzida por Ryusuke Hamaguchi, habilmente apresenta seus personagens como trabalhadores e indivíduos com crenças e vidas próprias, e não apenas pelo papel que ocupam no trabalho. O trabalho que desempenham não define suas moralidades, e Hamaguchi utiliza momentos cômicos para desmontar nossos preconceitos sobre os personagens. Nesse sentido, lembra um pouco o recente filme brasileiro "Propriedade", dirigido por Daniel Bandeira. O final do filme espelha o início, oferecendo um olhar subjetivo e bucólico que transitou do transcendental para algo desolador em relação a natureza. E a brutalidade exposta nos últimos minutos é uma consequência inevitável que se desenha ao longo do filme, e os personagens reagem a ela conforme seus papéis. Toda ação implica uma reação, e suas consequências são incontornáveis.
Apesar do título "Johnny Guitar", são as mulheres que tomam a frente do filme. A protagonista Vienna e a vilã Emma são duas forças duelando por ressentimentos e projeções sobre seu território e os homens que as cercam. É fascinante como Nicholas Ray coloca todos os elementos centrais de seu filme em poucos minutos no início, estabelecendo as razões do conflito entre as duas. Para além de vingança e mágoas, Vienna acredita no progresso tecnológico e no capital, enquanto Emma incorpora um ideal reacionário, capaz de corroer toda a cidade antes que ela se transforme.
Johnny Guitar, Dancin' Kid e outros pistoleiros são pegos nesse fogo cruzado, onde devem acertar contas com a sina e o vício da violência em suas masculinidades. Ray organiza tudo isso como uma espécie de peça teatral; é um faroeste que se passa em grande parte em espaços fechados, privilegiando uma certa encenação dramática, com o saloon transformando-se num palco.
Joan Crawford e Sterling Hayden protagonizam as melhores cenas, com diálogos que insinuam a história de amor e renúncias de um casal trágico, deixando tudo exposto no que não é dito, mas expressado em olhares e gestos. E como esse filme é colorido, parece uma pintura!
Primeiro longa dirigido pelo Paul Thomas Anderson e tem impresso muito o espírito do tempo e do cinema independente dos anos 90 nos EUA. A escolha de uma narrativa num núcleo menor e privilegiando a encenação intensa entre o elenco é muito acertada, pois permite que o PTA enquanto diretor desenvolva e experimente o processo enquanto um cineasta em formação. É fascinante como já tá impresso aqui o quanto ele tem do cinema de Robert Altman como influência, em saber decupar uma narrativa que privilegia o universo de cada personagem e o resgate de Philip Baker Hall, ator do incrível monólogo dirigido por Altman, "Honra Secreta". Um suspense modesto, mas muito bem executado.
"Sangue Negro" é uma obra incontornável pra se pensar a formação do Estado nos EUA: um encontro (e atrito) contraditório do capitalismo e da religião. PTA leu Marx e Engels. É o filme que traz o amadurecimento de uma ruptura na filmografia do PTA que começou em "Embriagado de Amor". Seus filmes então se encaminharam para se concentrar bastante numa experiência sensorial intimista, o desenho de som já herda de Embriagado a sua inquietação, um distanciamento da estrutura de filme-coral. Falando no som, aqui cada ruído é uma nota angustiante que marca o compasso de deterioração psicológica e moral de seus personagens. Daniel Plainview e Eli Sunday, interpretados por Daniel Day-Lewis e Paul Dano respectivamente, protagonizam um dos maiores embates ideológicos, simbólicos e dramáticos da história do cinema.
Revi "Embriagado de Amor" ontem e percebi o quanto funciona como uma prequel espiritual pro que os Safdie fizeram em "Joias Brutas" com o Adam Sandler. PTA em sua direção expressa a ansiedade e o pânico numa encenação de movimentação constante e repetitiva, que também encontra um uso da trilha sonora como uma assombração inquietante, tudo isso de maneira circular e rimada. Correr para o nada. É incrível como esse filme é repleto de estímulos, de cores e sons, que encaixam com uma narrativa nonsense de acidentes e absurdos que ainda se equilibra harmoniosamente como uma história de amor. Se não é o meu favorito do PTA, talvez fica empatado ali com O Mestre. Filmaço.
Revisto e melhor ainda no cinema. É um belo espetáculo do Talking Heads e o diretor Jonathan Demme registra isso como um fluxo corporal e consciente a partir de seu vocalista, David Byrne. A câmera que nunca sai do palco, do campo de suas performances, busca enquadrar e reenquadrar o mesmo lugar e seus mesmos agentes de diferentes formas, transformando o espaço num lugar mutável ao longo do show com truques de cenários e luzes. E Talking Heads é doidera demais, só alegria aqui.
Karim retorna ao grão na imagem de "O Céu de Suely" e "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te amo", elemento que carrega uma certa materialidade na narrativa. É o granulado forte da película que remete ao passado, é o granulado digital estourado que dialoga com as tensões e ruídos que o filme registra na trajetória dos seus personagens. É um filme de calor, suor e cores superssaturados, um neo noir do bregafunk, que nessa energia se permite a pensar imagens febris de sexo e morte que beiram a um estado de sonho, de memórias não -processadas e de apocalipse, e assim lembra "Coração Selvagem" de David Lynch, de como pulsões de tesão e violência navegam nos mesmos corpos num universo caótico.
A imagem digital é componente deste universo, das câmeras de motel onde as intimidades são observadas e gravadas, que traz ainda mais matéria como registro do espaço carregado e extrapolado em tensões do motel no filme, são em seus corredores que as coisas acontecem no real e também no onírico. Ao final, o texto tenta dar ao seu protagonista chance de explicar sua jornada, seus pecados já testemunhados, uma quase redenção, e aí o filme se desmancha um pouco numa pieguice. Mas ainda corria pela minha cabeça o breu total da estrada de horror e absurdo que Karim tinha entregue antes. Gostei.
"Blackhat" é um filme policial que lida com os sintomas de um mundo inteiro conectado à internet, e trabalha as consequências dentro do escopo geopolítico e do trabalho contemporâneo. É o Duro de Matar 4 feito por quem manja da coisa. Michael Mann é um cineasta de ação que é um artesão de imagens, sabe trabalhar com esmero as ferramentas de seu tempo e ofício. Gosto como ele usa o CGI pra materializar o espaço virtual como um universo próprio e palpável e assim como ele se configura em contato com o espaço físico, onde a ação corporal acontece. O que pode ser imaginado, pode ser filmado. E Mann abusa das possibilidades do cinema digital, e experimenta diferentes câmeras, texturas e resoluções de imagem pra dá conta de visualizar o hibridismo e dinamismo da imagem contemporânea.
Gosto que no cinema do Michael Mann todos os seus personagens são abordados como trabalhadores, independente de suas funções sejam lícitas ou não, todas as suas relações perpassam pela lógica do trabalho. Numa maratona pela madrugada de Los Angeles, Max (Jamie Foxx) e Vincent (Tom Cruise) são dois operários meditando sobre suas projeções e éticas no trabalho, o absurdo é que Vincent é um assassino profissional e Max é seu refém e contratado enquanto motorista de táxi. E numa dinâmica de thriller policial, onde cada personagem tem uma meta sobre suas jornadas, observar os efeitos colaterais que esses encontros provocam é onde Mann tão bem captura um certo espírito dos anos 2000, do neoliberalismo que captura paixões e vontades e etc.: Vincent é um sociopata workaholic enquanto Max é o trabalhador dedicado e ingênuo que tenta alguma empatia enquanto só se fode, a dialética disso é um acontecimento que os revelam como duplos radicais de uma condição metódica e agonizante do trabalho moderno. E mesmo tentando manter alguma normalidade dentro de suas morais e métodos, há um lampejo em Max de epifania em enxergar Vincent como um extremo, e ainda que são apenas coiotes vagando pela noite desnorteados pelas luzes da cidade. E nossa, como o digital cai como uma luva para o Mann nesse filme, em como registra de maneira pulsante os espaços urbanos, sempre se movimentando em maratona, febril, junto com seus protagonistas. Filmaço.
A princípio, parece um extra de blu-ray/DVD pra quem é curioso em ouvir dos próprios envolvidos sobre as experiências de bastidores ao realizar algo como Sopranos.
Mas se sobressai um pouco no meu aspecto favorito aqui: em como consegue espelhar a trajetória da série com a vida pessoal do seu criador, David Chase, e de como os vícios e contradições da sua criação acabam sendo ecos de sua própria personalidade e trajetória de trabalho e família. E isso se estende para outros personagens, sejam do elenco ou da produção, a parte mais tocante é quando olha para James Gandolfini e a sombra de Tony Soprano na vida dele.
Jeremy Saulnier é um cineasta com uma trajetória que evidencia sua habilidade em construir cenários carregados de tensão imprevisível que será descarregada nos mais brutais atos de violência. "Rebel Ridge" parece, no início, que irá pelo mesmo caminho de seus filmes anteriores, uma trama que muito lembra o primeiro Rambo, só que agora um militar negro contra uma força policial miliciana (e majoritariamente branca) nos EUA. Mas na primeira meia hora, Saulnier opta por uma outra abordagem dentro da linha de suspense de ação. Seu protagonista, enquanto construção militar e dentro de sua identidade racial, entende que só é permitido mediar a situação através de uma postura defensiva e de contra-ataque. E aí que Saulnier gasta um tempo descartando todas as possibilidades mais "diplomáticas" para seu protagonista resolver a situação, armando e desarmando possibilidades de a violência se manifestar de maneira destrutiva, jogando com as nossas expectativas reprimidas. O final, o clímax, é resultado desse esgotamento de qualquer anistia, concessões e etc, e mesmo assim seu protagonista age como uma figura de anti-ação, quase um herói pacifista por impedimento e ocasião, impossibilitando qualquer via possível de morte da polícia local.
Lamento que o Saulnier carrega aqui uma estética e decupagem menos inventiva em sua direção, parece um filme de ação de locadora que seu pai adoraria assistir. E isso é tanto um elogio quanto um pesar.
É o filme com mais estrutura de gibi do Hellboy já feito: o diabão como um coadjuvante andarilho que contribui para resolver as tretas dos outros e presenciar o horror na humanidade. A primeira metade também constrói muito bem a atmosfera de terror folk que a premissa pede, é um filme fantástico mais interiorano, de mitos e folclores de pequenas comunidades. Na segunda metade, Bryan Taylor dirige o que geralmente faz e me surpreende ao entregar sequências de ação que são ou mal decupadas ou mal montadas, principalmente em movimentos paralelos dos personagens. Já imaginava o CGI besta e algumas fritações do Taylor (diretor de Adrenalina e Gamer), mas aqui me parece tudo meio empacado, sem a fluidez de imagens de trabalhos anteriores, essa mescla de horror e ação não casou bem pra ele aqui, não concilia bem as duas coisas. Pior que gosto da abordagem de tudo, a princípio, é um Hellboy bem elaborado como personagem, é o tipo de história curta que amo nos gibis do Mignola e seus parceiros, mas a cada sequência a execução vai perdendo o eixo da coisa.
Filme-memória, filme-registro. Steve McQueen observa as ruas e interiores de Amsterdã durante os anos pandêmicos enquanto uma voz relata crimes e políticas cotidianas da ocupação n4zista na Holanda. É um filme que dialoga com "Zona de Interesse", o horror da experiência n4zifascista alemã que deixou traços e ecos nos espaços físicos, e aqui na história concreta da cidade. Em relação à forma, McQueen produz imagens distantes a maior parte do tempo, registra o cotidiano dos lugares como se fosse uma presença fantasmagórica que observa o presente enquanto se comenta o passado. Em alguns momentos permite o tempo presente tomar forma de maneira absoluta, a história vívida, como no início da vacinação da COVID-19 e em protestos antifa na Holanda. No fim a cidade fala, a cidade registra, a cidade observa e documenta, McQueen materializa assim isso tudo.
Meu terror favorito de 2024. Kiyoshi Kurosawa retorna para uma inquietação das cidades, um sentimento alienado pelos espaços urbanos e de trabalho, e quase como uma versão mais formal e mundana ao seu modo de "Tetsuo The Iron Man" nesse sentido, de como esses espaços e a vida contemporânea produzem comportamentos e identidades dissociadas. E a forma como ele materializa isso em imagem transitando entre a imagem digital límpida e o granulado, carregado de uma textura pesada, gera um dos desfechos mais legais dos filmes recentes dele.
É um "boy meets girl" com o tio e a tia da escola, um flerte preto na meia-idade, é muito bonito como o filme articula esse romance através dos encontros e das correrias de trampo do dia a dia. E a escolha de uma decupagem que flui com o rolê dos personagens, uma câmera desavergonhada que se movimenta e passeia pelas ruas mineiras. Uma sequência de pans, travellings e zooms que conduzem nosso olhar curioso sobre as coisas. E o final repentino e ao acaso, como uma anedota de sortes e azares, é uma promessa honesta: um dia de cada vez, tem hora que a gente acerta.
Sombras no Paraíso
3.9 31 Assista AgoraAssistindo agora em retrospecto, dá pra perceber como Folhas de Outono é quase uma reencenação desse filme, dentro de seu recorte histórico (o navio soviético no final, por exemplo). Um casal que se entrelaça pela realidade do trabalho e a necessidade de uma resolução em suas vidas. Gosto muito como Kaurismaki filma com um certo tédio e ironia na rotina de seus personagens, que apenas preenchem os espaços, mas pouco se expressam para além desses postos de trabalho que os confinam. Há uma certa beleza nas cores saturadas que permeiam os lugares e figurinos dos personagens, em contraste com seus rostos carregados de uma profunda depressão.
O Dublê
3.3 360 Assista AgoraDavid Leitch faz deste filme uma elegia ao trabalho dos dublês no cinema, explorando até uma consciência de classe dos operários do audiovisual dentro da narrativa (o final com a equipe se rebelando contra uma produtora executiva). Ao mesmo tempo, é um resgate a uma abordagem ingênua do gênero de ação da televisão, que flerta com o romance e a comédia, com um sabor de televisão à tarde. Infelizmente, acho que Leitch concilia bem essas ideias em algumas sequências de ação inspiradas: a luta na boate à la Scott Pilgrim e uma sequência de luta imitando golpes de astros de ação. Em outros momentos, no entanto, carece de uma construção melhor de como conciliar seus variados gêneros e conseguir decupar melhor suas propostas de cinema. Desde que se separou de seu colega diretor, Chad Stahelski, de John Wick, ficou claro quem tinha melhor domínio do cinema e quem apenas tem boas ideias.
Planeta dos Macacos: O Reinado
3.5 394 Assista Agora"Planeta dos Macacos" é uma das minhas séries favoritas do cinema e da ficção científica. Sempre acho que consegue produzir um exercício fascinante sobre a humanidade e seu ciclo de opressão e emancipação. Este "O Reino" consegue fazer a franquia respirar novos ares ao flertar com elementos de narrativas de fantasia e aventura. Gosto de como parece reencenar mais uma vez a mesma história de sempre, mas há um fértil espaço moral aberto para investigar de maneira inovadora e surpreendente seus personagens dentro de seus ideais de mundo.
Poucas coisas me deixam tão emocionado na ficção científica quanto histórias que terminam encarando o futuro nas estrelas. E é assim que este último Planeta dos Macacos termina: os olhares de seus protagonistas diante da promessa do espaço, algo tão cíclico na história da franquia que começou com astronautas. É um final que aquece o peito, acenando com respeito e carinho às raízes da série.
Furiosa: Uma Saga Mad Max
3.7 695 Assista AgoraO subtítulo que parece um nome genérico de marca, “Uma Saga Mad Max”, felizmente condiz com o que o George Miller construiu aqui: uma fábula, uma balada clássica de construção épica. Pois seguindo a tradição de nunca repetir estruturas narrativas nos filmes da franquia, Miller resolve aqui segmentar a obra numa série de atos, como uma peça teatral clássica, onde dá espaço e foco a diferentes momentos e aspectos da trajetória de sua protagonista, Furiosa.
É uma abordagem que dialoga mais com o seu recente “Era Uma Vez um Gênio”, um retorno às formas mais tradicionais e visuais de contação de histórias. Dentro da própria trama, há um interesses dos antagonistas em historiadores orais que tentam manter a memória do mundo e os erros da humanidade desde as tragédias mais antigas. De diversas maneiras, “Furiosa” é mais um perverso conto de fadas que nós conhecemos.
E a partir disso, Miller concebe suas sequências de ação e catarse como gigantescos atos performáticos que marcam passagens narrativas de sua protagonista. Ele mesmo comentou recentemente que encara o cinema mais como música, num cuidado de ritmo e crescendo emocionais, é nesse tato que a encenação e montagem do filme dá conta em sequências longas que possuem diferentes batidas e cortes, onde os sons diegéticos e a trilha extradiegética se fundem em cornetas e roncos de motores. São performances intensas que também operam isoladas em comparação ao Mad Max anterior, “Estrada da Fúria” (e suas imagens em movimento quase ininterruptamente), mas se organizam dentro da articulação dramática de Miller em outros momentos mais “shakespereanos” do filme.
Há na direção do elenco essa busca pela expressividade do cinema mudo, de corpos em movimento que preenchem a tela e a faz transcorrer os espaços deste palco tridimensional projetado. Silhuetas desenhadas pelo sol crepuscular como um teatro das sombras, o clímax num debate dialógico sobre a impossibilidade de reparação através da violência, Miller preza pela encenação, pela forma e verbalização dessas figuras antológicas de seu mundo deserto transfigurado numa terra perdida dos mitos e fantasias da humanidade. Da mesma forma, há uma outra obsessão formal do drama do cinema mudo pelos close-ups, buscando fotografar uma hiperexpressão nos rostos que encontra força nos expressivos olhos da Anya Taylor-Joy, enquanto Furiosa, que também manifesta em sua postura corporal o necessário para traduzir em significantes imagens que dispensam qualquer linha de texto.
Inclusive, tem que louvar como Miller abraça a teatralidade absoluta e o tom de fábula desse filme. Dementus, o vilão interpretado por Chris Hemsworth, é o aspecto mais visível disso, de como ele possui movimentos expansivos em seu desejo por encenar cada interação possível, um líder tosco que sustenta sua imagem numa histriônica e constante performance.
Por fim, é revigorante ver um cineasta veterano como George Miller se apropriar de diversas ferramentas e artifícios, dos efeitos práticos ao CGI mais farsesco, para fabular um cinema onde tudo que pode ser imaginado será filmado e projetado. Envolto de som e fúria, Miller opera um cinema sem limites como um megalomaníaco artesão de imagens em pleno domínio da forma.
Bom pra nóis!
Divertida Mente 2
4.0 645 Assista AgoraFilme com cara de continuação em DVD que você encontraria na locadora. É tão preocupado em repetir uma fórmula e seguir uma cartilha de roteiro engessada, presa numa escolinha americana chata de pensar narrativa só como arquitetura. Por isso, o filme articula mal o que acho essencial no longa anterior: sua carga dramática. Tudo é muito utilitarista em seus elementos narrativos, buscando mais funcionalidades e menos expressão.
Até mesmo o eixo de novidade narrativa aqui, a puberdade de Riley, fica aquém do que o estúdio já fez. Não faz muito tempo que saiu "Red", esse sim bem massa. Pixar está condenada a imitar Pixar e seu suposto "método". Filme triste.
Rivais
3.6 575 Assista Agora"Rivais" busca um cinema de tensão e atrito constante. Corpos tensionados pelo tesão do esporte e do sexo. É fascinante como Guadagnino transpõe isso na forma, utilizando diversas ferramentas possíveis, seja a montagem, o CGI, etc. Ele busca criar imagens que só são possíveis com tal força no cinema. Não há receio no excesso; inclusive, é no excesso que ele denota sua qualidade em se assumir como uma narrativa cinematográfica que tensiona e manipula tempo e espaço, e assim a encenação. Um cinema safado e desavergonhado de si mesmo.
Jardim dos Desejos
3.1 31 Assista AgoraMais um filme em que Paul Schrader coloca seus personagens anti-heróis numa via-crúcis de contradição moral. Neste caso, trata-se de um dos grupos mais execráveis que existem: um ex-supremacista. Schrader opera numa tese religiosa de um mundo natural que só pode ser corrompido ou curado por mãos humanas, seja no jardim ou no corpo tatuado dos protagonistas. É nesses frutos e suas marcas que a presença da humanidade se manifesta. Schrader filma os espaços como mundos autocontidos (o jardim e a cidade) que parecem nunca coexistir. Para mim, o filme perde em alguns textos mais baboseiras que Schrader já escreveu, mas o rigor estético e narrativo ozu-bressiano sustenta a obra.
A Hora da Estrela
3.9 586 Assista AgoraGosto muito como a Suzana Amaral filmou São Paulo em muitos planos fechados, nas intimidades enclausuradas das descobertas de uma mulher recém adulta. É uma SP desoladora que conhecemos bem. Consegue traduzir em imagens e sons o que é a escrita de Clarice, uma emoção metafísica que hiperexpressa a concretude da realidade, por exemplo, tem a locução do rádio por onde a protagonista Macabéa decodifica o mundo e o horror pelas palavras, temendo seus sentidos. Nisso, o filme joga entre as aspirações ingênuas de Macabéa com a insalubridade e a melancolia do mundo que a cerca. E no fim, a sua maior fantasia é a sua maior tragédia.
Boogie Nights: Prazer Sem Limites
4.0 574 Assista AgoraO segundo longa dirigido por Paul Thomas Anderson, aos 27 anos, é um filmaço que evidencia seu lugar na história como autor. A forma como ele decupa, encena e monta as sequências, com tentativas de movimentos mais ousados e experimentações de cortes e fusões, mostra como ele se diverte dentro do universo do seu filme: a indústria de cinema pornográfico dos anos 70 e 80. Essa abordagem transpira a sensação de um jovem cinéfilo filmando com pretensões maiores, mas ainda apreciando o processo.
No meio de tudo isso, ainda é um filme sobre fazer cinema e entrar num mercado tão jovem. Mark Wahlberg, interpretando um ator pornô canastrão, caiu como uma luva. É incrível como ele transita entre o constrangedor e o dramático. Na revisão, algo que gosto muito é como PTA usa a trilha sonora para pontuar os movimentos de cena e as sequências do filme. Perto do final, há uma cena de tráfico de drogas que é um primor nesse sentido, incluindo um personagem que faz mixtapes em fitas K7 em cena.
Além disso, adoro ver filmes em 35mm, assisti assim no CineSesc. Há algo na materialidade da película, nas falhas, nas texturas e nas pausas para a troca de rolos que torna a experiência única. A película funciona como um objeto com sua própria memória no tempo, o que se imprime muito bem na projeção. Muito massa.
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O Mal Não Existe
3.6 57 Assista AgoraO filme "O Mal Não Existe" gradualmente evita o maniqueísmo ao explorar o conflito entre os moradores de uma comunidade rural e uma proposta de um hotel turístico de uma empresa de Tóquio. A narrativa, conduzida por Ryusuke Hamaguchi, habilmente apresenta seus personagens como trabalhadores e indivíduos com crenças e vidas próprias, e não apenas pelo papel que ocupam no trabalho. O trabalho que desempenham não define suas moralidades, e Hamaguchi utiliza momentos cômicos para desmontar nossos preconceitos sobre os personagens. Nesse sentido, lembra um pouco o recente filme brasileiro "Propriedade", dirigido por Daniel Bandeira. O final do filme espelha o início, oferecendo um olhar subjetivo e bucólico que transitou do transcendental para algo desolador em relação a natureza. E a brutalidade exposta nos últimos minutos é uma consequência inevitável que se desenha ao longo do filme, e os personagens reagem a ela conforme seus papéis. Toda ação implica uma reação, e suas consequências são incontornáveis.
Johnny Guitar
4.1 106 Assista AgoraApesar do título "Johnny Guitar", são as mulheres que tomam a frente do filme. A protagonista Vienna e a vilã Emma são duas forças duelando por ressentimentos e projeções sobre seu território e os homens que as cercam. É fascinante como Nicholas Ray coloca todos os elementos centrais de seu filme em poucos minutos no início, estabelecendo as razões do conflito entre as duas. Para além de vingança e mágoas, Vienna acredita no progresso tecnológico e no capital, enquanto Emma incorpora um ideal reacionário, capaz de corroer toda a cidade antes que ela se transforme.
Johnny Guitar, Dancin' Kid e outros pistoleiros são pegos nesse fogo cruzado, onde devem acertar contas com a sina e o vício da violência em suas masculinidades. Ray organiza tudo isso como uma espécie de peça teatral; é um faroeste que se passa em grande parte em espaços fechados, privilegiando uma certa encenação dramática, com o saloon transformando-se num palco.
Joan Crawford e Sterling Hayden protagonizam as melhores cenas, com diálogos que insinuam a história de amor e renúncias de um casal trágico, deixando tudo exposto no que não é dito, mas expressado em olhares e gestos. E como esse filme é colorido, parece uma pintura!
Jogada de Risco
3.6 112 Assista AgoraPrimeiro longa dirigido pelo Paul Thomas Anderson e tem impresso muito o espírito do tempo e do cinema independente dos anos 90 nos EUA. A escolha de uma narrativa num núcleo menor e privilegiando a encenação intensa entre o elenco é muito acertada, pois permite que o PTA enquanto diretor desenvolva e experimente o processo enquanto um cineasta em formação. É fascinante como já tá impresso aqui o quanto ele tem do cinema de Robert Altman como influência, em saber decupar uma narrativa que privilegia o universo de cada personagem e o resgate de Philip Baker Hall, ator do incrível monólogo dirigido por Altman, "Honra Secreta". Um suspense modesto, mas muito bem executado.
Sangue Negro
4.3 1,2K Assista Agora"Sangue Negro" é uma obra incontornável pra se pensar a formação do Estado nos EUA: um encontro (e atrito) contraditório do capitalismo e da religião. PTA leu Marx e Engels. É o filme que traz o amadurecimento de uma ruptura na filmografia do PTA que começou em "Embriagado de Amor". Seus filmes então se encaminharam para se concentrar bastante numa experiência sensorial intimista, o desenho de som já herda de Embriagado a sua inquietação, um distanciamento da estrutura de filme-coral. Falando no som, aqui cada ruído é uma nota angustiante que marca o compasso de deterioração psicológica e moral de seus personagens. Daniel Plainview e Eli Sunday, interpretados por Daniel Day-Lewis e Paul Dano respectivamente, protagonizam um dos maiores embates ideológicos, simbólicos e dramáticos da história do cinema.
Embriagado de Amor
3.6 501 Assista AgoraRevi "Embriagado de Amor" ontem e percebi o quanto funciona como uma prequel espiritual pro que os Safdie fizeram em "Joias Brutas" com o Adam Sandler. PTA em sua direção expressa a ansiedade e o pânico numa encenação de movimentação constante e repetitiva, que também encontra um uso da trilha sonora como uma assombração inquietante, tudo isso de maneira circular e rimada. Correr para o nada. É incrível como esse filme é repleto de estímulos, de cores e sons, que encaixam com uma narrativa nonsense de acidentes e absurdos que ainda se equilibra harmoniosamente como uma história de amor. Se não é o meu favorito do PTA, talvez fica empatado ali com O Mestre. Filmaço.
Stop Making Sense
4.6 52Revisto e melhor ainda no cinema. É um belo espetáculo do Talking Heads e o diretor Jonathan Demme registra isso como um fluxo corporal e consciente a partir de seu vocalista, David Byrne. A câmera que nunca sai do palco, do campo de suas performances, busca enquadrar e reenquadrar o mesmo lugar e seus mesmos agentes de diferentes formas, transformando o espaço num lugar mutável ao longo do show com truques de cenários e luzes. E Talking Heads é doidera demais, só alegria aqui.
Motel Destino
3.4 191 Assista AgoraKarim retorna ao grão na imagem de "O Céu de Suely" e "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te amo", elemento que carrega uma certa materialidade na narrativa. É o granulado forte da película que remete ao passado, é o granulado digital estourado que dialoga com as tensões e ruídos que o filme registra na trajetória dos seus personagens. É um filme de calor, suor e cores superssaturados, um neo noir do bregafunk, que nessa energia se permite a pensar imagens febris de sexo e morte que beiram a um estado de sonho, de memórias não -processadas e de apocalipse, e assim lembra "Coração Selvagem" de David Lynch, de como pulsões de tesão e violência navegam nos mesmos corpos num universo caótico.
A imagem digital é componente deste universo, das câmeras de motel onde as intimidades são observadas e gravadas, que traz ainda mais matéria como registro do espaço carregado e extrapolado em tensões do motel no filme, são em seus corredores que as coisas acontecem no real e também no onírico. Ao final, o texto tenta dar ao seu protagonista chance de explicar sua jornada, seus pecados já testemunhados, uma quase redenção, e aí o filme se desmancha um pouco numa pieguice. Mas ainda corria pela minha cabeça o breu total da estrada de horror e absurdo que Karim tinha entregue antes. Gostei.
Hacker
2.5 286 Assista Agora"Blackhat" é um filme policial que lida com os sintomas de um mundo inteiro conectado à internet, e trabalha as consequências dentro do escopo geopolítico e do trabalho contemporâneo. É o Duro de Matar 4 feito por quem manja da coisa. Michael Mann é um cineasta de ação que é um artesão de imagens, sabe trabalhar com esmero as ferramentas de seu tempo e ofício. Gosto como ele usa o CGI pra materializar o espaço virtual como um universo próprio e palpável e assim como ele se configura em contato com o espaço físico, onde a ação corporal acontece. O que pode ser imaginado, pode ser filmado. E Mann abusa das possibilidades do cinema digital, e experimenta diferentes câmeras, texturas e resoluções de imagem pra dá conta de visualizar o hibridismo e dinamismo da imagem contemporânea.
Incrível.
Colateral
3.6 638 Assista AgoraGosto que no cinema do Michael Mann todos os seus personagens são abordados como trabalhadores, independente de suas funções sejam lícitas ou não, todas as suas relações perpassam pela lógica do trabalho. Numa maratona pela madrugada de Los Angeles, Max (Jamie Foxx) e Vincent (Tom Cruise) são dois operários meditando sobre suas projeções e éticas no trabalho, o absurdo é que Vincent é um assassino profissional e Max é seu refém e contratado enquanto motorista de táxi. E numa dinâmica de thriller policial, onde cada personagem tem uma meta sobre suas jornadas, observar os efeitos colaterais que esses encontros provocam é onde Mann tão bem captura um certo espírito dos anos 2000, do neoliberalismo que captura paixões e vontades e etc.: Vincent é um sociopata workaholic enquanto Max é o trabalhador dedicado e ingênuo que tenta alguma empatia enquanto só se fode, a dialética disso é um acontecimento que os revelam como duplos radicais de uma condição metódica e agonizante do trabalho moderno. E mesmo tentando manter alguma normalidade dentro de suas morais e métodos, há um lampejo em Max de epifania em enxergar Vincent como um extremo, e ainda que são apenas coiotes vagando pela noite desnorteados pelas luzes da cidade. E nossa, como o digital cai como uma luva para o Mann nesse filme, em como registra de maneira pulsante os espaços urbanos, sempre se movimentando em maratona, febril, junto com seus protagonistas. Filmaço.
Um Dos Nossos: David Chase e a Família Soprano
4.4 9 Assista AgoraA princípio, parece um extra de blu-ray/DVD pra quem é curioso em ouvir dos próprios envolvidos sobre as experiências de bastidores ao realizar algo como Sopranos.
Mas se sobressai um pouco no meu aspecto favorito aqui: em como consegue espelhar a trajetória da série com a vida pessoal do seu criador, David Chase, e de como os vícios e contradições da sua criação acabam sendo ecos de sua própria personalidade e trajetória de trabalho e família. E isso se estende para outros personagens, sejam do elenco ou da produção, a parte mais tocante é quando olha para James Gandolfini e a sombra de Tony Soprano na vida dele.
Rebel Ridge
3.4 175Jeremy Saulnier é um cineasta com uma trajetória que evidencia sua habilidade em construir cenários carregados de tensão imprevisível que será descarregada nos mais brutais atos de violência. "Rebel Ridge" parece, no início, que irá pelo mesmo caminho de seus filmes anteriores, uma trama que muito lembra o primeiro Rambo, só que agora um militar negro contra uma força policial miliciana (e majoritariamente branca) nos EUA. Mas na primeira meia hora, Saulnier opta por uma outra abordagem dentro da linha de suspense de ação. Seu protagonista, enquanto construção militar e dentro de sua identidade racial, entende que só é permitido mediar a situação através de uma postura defensiva e de contra-ataque. E aí que Saulnier gasta um tempo descartando todas as possibilidades mais "diplomáticas" para seu protagonista resolver a situação, armando e desarmando possibilidades de a violência se manifestar de maneira destrutiva, jogando com as nossas expectativas reprimidas. O final, o clímax, é resultado desse esgotamento de qualquer anistia, concessões e etc, e mesmo assim seu protagonista age como uma figura de anti-ação, quase um herói pacifista por impedimento e ocasião, impossibilitando qualquer via possível de morte da polícia local.
Lamento que o Saulnier carrega aqui uma estética e decupagem menos inventiva em sua direção, parece um filme de ação de locadora que seu pai adoraria assistir. E isso é tanto um elogio quanto um pesar.
Hellboy e o Homem Torto
2.2 126É o filme com mais estrutura de gibi do Hellboy já feito: o diabão como um coadjuvante andarilho que contribui para resolver as tretas dos outros e presenciar o horror na humanidade. A primeira metade também constrói muito bem a atmosfera de terror folk que a premissa pede, é um filme fantástico mais interiorano, de mitos e folclores de pequenas comunidades. Na segunda metade, Bryan Taylor dirige o que geralmente faz e me surpreende ao entregar sequências de ação que são ou mal decupadas ou mal montadas, principalmente em movimentos paralelos dos personagens. Já imaginava o CGI besta e algumas fritações do Taylor (diretor de Adrenalina e Gamer), mas aqui me parece tudo meio empacado, sem a fluidez de imagens de trabalhos anteriores, essa mescla de horror e ação não casou bem pra ele aqui, não concilia bem as duas coisas. Pior que gosto da abordagem de tudo, a princípio, é um Hellboy bem elaborado como personagem, é o tipo de história curta que amo nos gibis do Mignola e seus parceiros, mas a cada sequência a execução vai perdendo o eixo da coisa.
The Occupied City
3.2 3Filme-memória, filme-registro. Steve McQueen observa as ruas e interiores de Amsterdã durante os anos pandêmicos enquanto uma voz relata crimes e políticas cotidianas da ocupação n4zista na Holanda. É um filme que dialoga com "Zona de Interesse", o horror da experiência n4zifascista alemã que deixou traços e ecos nos espaços físicos, e aqui na história concreta da cidade. Em relação à forma, McQueen produz imagens distantes a maior parte do tempo, registra o cotidiano dos lugares como se fosse uma presença fantasmagórica que observa o presente enquanto se comenta o passado. Em alguns momentos permite o tempo presente tomar forma de maneira absoluta, a história vívida, como no início da vacinação da COVID-19 e em protestos antifa na Holanda. No fim a cidade fala, a cidade registra, a cidade observa e documenta, McQueen materializa assim isso tudo.
Visto no IMS Paulista.
Chime
3.2 27Meu terror favorito de 2024. Kiyoshi Kurosawa retorna para uma inquietação das cidades, um sentimento alienado pelos espaços urbanos e de trabalho, e quase como uma versão mais formal e mundana ao seu modo de "Tetsuo The Iron Man" nesse sentido, de como esses espaços e a vida contemporânea produzem comportamentos e identidades dissociadas. E a forma como ele materializa isso em imagem transitando entre a imagem digital límpida e o granulado, carregado de uma textura pesada, gera um dos desfechos mais legais dos filmes recentes dele.
O Dia Que Te Conheci
3.6 48É um "boy meets girl" com o tio e a tia da escola, um flerte preto na meia-idade, é muito bonito como o filme articula esse romance através dos encontros e das correrias de trampo do dia a dia. E a escolha de uma decupagem que flui com o rolê dos personagens, uma câmera desavergonhada que se movimenta e passeia pelas ruas mineiras. Uma sequência de pans, travellings e zooms que conduzem nosso olhar curioso sobre as coisas. E o final repentino e ao acaso, como uma anedota de sortes e azares, é uma promessa honesta: um dia de cada vez, tem hora que a gente acerta.