É fato: a história introduzida nesta primeira temporada de "Golden Kamuy" traz uma abordagem inovadora, se comparada com a da grande maioria dos animes à solta na indústria que, por sua vez, têm argumentos excessivamente repetidos.
O que mais despertou minha atenção é o tom sombrio da história que é - parcialmente - adotado. Afinal, a ideia de que o mapa do tesouro está contido não em um papel comum, mas nas peles de homens criminosos não é algo que se vê por aí com frequência. A interação entre os personagens também é destaque, sobretudo o combate sangrento (e cenas de lutas bem arquitetadas) entre aqueles que buscam a tão sonhada fonte de riqueza.
No entanto, o anime tem seus defeitos. Como disse acima, a atmosfera sombria não é predominante, pois divide lugar com uma comédia, muitas vezes, forçada demais. Esse estilo misto prejudicou bastante minha imersão na história (fiquei enrolando para terminar os 12 episódios).
Como sou persistente - ou otimista, quem sabe -, vou dar uma chance à segunda temporada, na esperança de que a qualidade da história evolua.
"A Visita" é um daqueles filmes antigos que, surpreendentemente, consegue manter a sua crítica principal ainda fresca nos dias que correm (SEM SPOILERS neste texto).
Resolvi assisti-lo sem conhecimento da história - Ingrid Bergman que me trouxe até aqui -, então, de início, fui levado a acreditar que o longa-metragem contaria somente a história de um reencontro romântico entre velhos amantes, mas eu não poderia estar mais enganado.
Esta motivação serve para elaborar um cenário onde o ideal de justiça é posto em cheque diante da hipocrisia e do egoísmo coletivos, sendo que a produção se utiliza, muito bem, da comédia dramática para desenvolver essa crítica social. Há cenas que me provocaram riso sincero, tamanho o absurdo das situações (p. ex., o momento da "caçada"), e outras trouxeram bons momentos de tensão.
Todos os atores fizeram um excelente trabalho, a exemplo de Irina Demick (Anya) e Ernst Schröder (o prefeito), mas o destaque vai, inevitavelmente, para Ingrid Bergman e Anthony Quinn. Os protagonistas tem uma química entre si que é irresistível não acompanhar.
A presença de Bergman, por sua vez, é imponente em tela: sua naturalidade em atuar e beleza magnífica (na época com irreconhecíveis 49 anos) tornam a moralmente ambígua Karla Zahanassian, personagem atípica em sua carreira, como "um ímã" que atrai nossa atenção. Pena que Bergman sequer foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1965!
Pois bem, o filme é incrível, merecendo uma "visita" (perdão pelo trocadilho, não resisti) de quem aprecia uma boa obra sem se importar com o ano de produção.
Após muitos anos, eis que surgiu a oportunidade de reassistir à "Cisne Negro".
Enquanto estava na sessão, tentei relembrar os motivos pelos quais aquele filme havia me impressionado na primeira vez que o assisti - e se ainda continuaria gostando da produção.
Então me recordei: a capacidade de criar tensão com um ritmo frenético, sem atrapalhar a fluidez das cenas; a performance soberba de Natalie Portman; a metáfora do embate contra o próprio eu.
Desde os primeiros minutos da trama, o filme consegue incutir no telespectador certa inquietude sobre a relação da protagonista Nina consigo mesma e com os demais personagens à sua volta. E na medida em que a história avança, cria-se um ritmo frenético de cena para cena - sobretudo pelo trabalho de câmera e os efeitos visuais - que é prazeroso de se acompanhar.
Por sua vez, a atuação de Natalie Portman voltou a me fascinar. A atriz parece que simplesmente "nasceu" para interpretar Nina, com a sua expressividade ímpar. Destaque para a maquiagem e o figurino, que não somente realçaram a beleza de Portman, mas trouxeram vivacidade à companhia de balé.
Também não poderia deixar de citar o excelente trabalho de Darren Aronofsky ao elaborar, na forma do surrealismo psicológico, a metáfora do embate contra o próprio eu. De fato, o maior inimigo de Nina é ela mesma - a influência da superproteção da mãe e o rígido controle laboral/pessoal exercido por seu chefe são essenciais para gerar a sua obsessão extrema em alcançar a perfeição como bailarina. E a vulnerabilidade de Nina cria um sentimento de identidade com quem assiste. Afinal, também não somos, por vezes, os maiores opressores de nós mesmos?
Pois bem, diante de tudo, continuo impressionado como na primeira vez que assisti.
Foi uma agradável surpresa assistir a esta película de Hitchcock. O que se inicia como uma luta entre a defesa pela justiça social - o direito à propriedade de uma família campestre e a preservação ambiental - versus a ganância desenfreada de um empresário, desemboca, inesperadamente, num delicado conflito pessoal, onde os limites éticos dos envolvidos são postos à prova - daí o título "Jogo Sujo", em acertada tradução brasileira. A proposta do filme é simples, mas funciona, porque em muitos aspectos sua mensagem é atual.
Contudo, senti falta de mais desenvolvimento de certos personagens (Jill, p. ex., pareceu-me deslocada na trama, sem muito propósito) e maior vivacidade no elenco, com as devidas ressalvas para C.V. France e Edmund Gwenn, ótimos em seus papéis de chefes de família. E, é claro, Phyllis Konstam, esta que roubou a atenção no longa com a sua magnífica performance. A vulnerabilidade da atriz me fez torcer por Chloe até o desfecho da história.
Admito que "Sudden Fear" tem lá os seus aspectos positivos: a estética visual em preto e branco, o ótimo trabalho de enquadramento - os close-ups em Myra Hudson são marcantes -, a trilha sonora que ajuda a experimentar o suspense, as cenas de perseguição.
Por outro lado, a única das atuações que realmente apreciei foi a de Joan Crawford, que, inclusive, vem a melhorar só a partir da segunda metade do filme - sim, o papel de boba apaixonada na primeira metade não me convenceu, chega a ser piegas. A performance de Jack Palance é insossa; não entendo como foi indicada ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em '53. E Gloria Grahame não atua muito bem, gostei mais de seu papel em "In a Lonely Place" (1950). Para completar, sequer funciona a química entre Crawford e Palance...
Bem, pelo menos a trama de assassinato e vingança é interessante, com um desfecho convincente.
O filme ganhou minha atenção ao saber que havia levado oito estatuetas do Oscar - sobretudo a de melhor filme. Já durante a sessão, impressionei-me com a performance dos atores, e a química entre os casais funciona muito bem, principalmente entre Burt Lancaster e Deborah Kerr - a famosa cena do beijo na praia, por exemplo, é de tirar o fôlego.
Nem tudo são flores, porém. Chega um momento em que, acompanhar a narrativa dos dois romances em meio aos dissabores da vida no Exército se torna maçante, sendo desnecessárias as quase duras horas de duração. Ademais, a cena final em que Prewitt toma sua decisão me pareceu um tanto despropositada - optou-se por exagerar no sentimentalismo e, assim, o potencial desse personagem foi esvaziado.
De toda forma, vale a pena acompanhar a película, nem que seja como um simples passatempo num final de semana...
Escolhi "Los Peces Rojos" para assistir sem muita pretensão - desconhecia qualquer detalhe sobre a história do filme, seu elenco ou coisas outras. Mas deliciei-me com a sua proposta: o filme soube tecer, aos poucos, uma atmosfera de mistério que se converte num clímax surpreedente. Devo acrescentar, é claro, a excelente atuação de Arturo de Córdova e Emma Penella, pois souberam "dar vida" a dois amantes que, descontentes com a sua humilde realidade, entregam-se a uma paixão que só aflora as más intenções existentes em cada um.
Confesso: à primeira sessão, tornou-se uma das produções mais enérgicas que já assisti do cinema nacional.
Retrata o nefasto período da ditadura militar com uma sensibilidade ímpar, de tal forma que a pessoa telespectadora parece imergir naquela realidade e acompanhar, de perto, os prazeres e as desventuras da família Paiva. E as atuações são um espetáculo à parte: sem desmerecer o notável trabalho dos coadjuvantes, o carisma de Selton Mello e a versatilidade de Fernanda Torres me conquistaram. E o que dizer da participação especial de Fernanda Montenegro? Fiquei em êxtase.
A trama de mistério em torno das consequências dos delitos para o casal, somada à incerteza sobre a identidade da testemunha, prendeu minha atenção. O suspense é constante.
Quanto às atuações, quem brilha é Anthony Quinn. É o primeiro filme que assisto de sua filmografia, e a sua performance, do início ao fim, dá gosto de acompanhar. Que energia transparece do ator!
Por outro lado, a atuação de Lana Turner pareceu-me um tanto artificial, sem encanto. E a carga de dramaticidade atrelada a Sheila tornou a experiência, em certos momentos, levemente enfadonha. Ainda mais infeliz, porém, são os atos de violência baseada no gênero que os agressores - do ex-cônjuge ao amante - impõem contra Sheila, pois a impressão que fica é a de naturalidade de tais cenas. A própria personagem, enquanto mulher, é retratada como um sujeito mais vulnerável que os homens ao seu redor, concepção que é fruto de um machismo enraizado na sociedade da época e na de hoje também.
Destaque para Sandra Dee, que interpreta Cathy com muita graça. Aliás, uma curiosidade cinéfila: em 1959, um ano antes do lançamento de Portrait in Black, Sandra e Lana contracenavam juntas no clássico Imitation of Life.
É lamentável quando um filme apresenta uma proposta de enredo interessante, mas o seu desenvolvimento é mal construído, o que acaba por frustrar a experiência de quem assiste. É o que ocorre com “The House of 1000 dolls” ou “A Casa das 1000 Bonecas”, em tradução literal.
O fio condutor da trama, o tráfico internacional de mulheres, é um tema sério, que vem ganhando relevância no século XXI, sobretudo devido às notícias compartilhadas pela mídia sobre os casos de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual.
No filme, a abordagem dessa temática seria até interessante caso fosse houvesse mais dedicação por parte do diretor e do elenco. Mas o que vemos é, aparentemente, uma quase total falta de comprometimento daqueles.
Não sabemos claramente como muitas das mulheres ali apresentadas se tornaram vítimas de tráfico – as suas histórias, os seus anseios; há uma ausência de detalhes sobre o modus operandi dos criminosos; os personagens não dispõem de tempo suficiente em tela para um bom arco de desenvolvimento; e as pessoas atoras, com a devida ressalva a Vincent Price (atuando, como é de praxe, de forma admirável), não conseguiram dar vivacidade aos personagens que interpretam, o que torna mais difícil de gerar a empatia necessária ao público. O resultado: um filme desinteressante e, de forma justa, esquecível quando se trata dos melhores thrillers do cinema hollywoodiano antigo.
Ainda assim, vale a pena assistir a produção? Bem, apenas para quem deseja “explorar o currículo” de Vincent Price.
No momento em que escrevo esta resenha, ainda estou desbravando a cinematografia de Orson Welles, empreitada que, a cada filme, tem se mostrado cada vez mais prazerosa. O texto contém alguns spoilers, mas nenhum que cause impacto negativo na experiência de assistir a produção, creio eu.
De início, fiquei surpreendido com o desenvolvimento de certa temática de “Touch of Evil” (traduzido no Brasil como “A Marca da Maldade”). O filme é um noir, protagonizado por Charlton Heston (Miguel Vargas) e Janet Leigh (Susan Vargas) e antagonizado por Orson Welles (Hank Quinlan) – aqui também na direção –, e tem como um dos fios condutores, ainda que nas entrelinhas, a questão da xenofobia.
É surpreendente que uma produção da década de 1950, época em que perdurava a tensão geopolítica da Guerra Fria, tente abordar, e de forma crítica, essa temática. Claro, tratando-se de Orson Welles, multi-artista que sempre ousou desafiar as convenções do modo de se fazer cinema, eu não deveria estar impressionado, mas confesso que o fiquei. O personagem Miguel Vargas, mexicano, é um jovem promotor de justiça e grande defensor de um sistema de justiça mais eficaz. Lado outro, tem-se o detetive Hank Quinlan, norte-americano e veterano da polícia local (fronteira entre México e EUA) cuja perspectiva sobre a justiça e a lei são, no mínimo, controversas. Ocorre que Quinlan, ao longo da trama, vai revelando o sentimento anti-mexicano que nutre por Vargas, e em seu discurso xenófobo, demonstra que esse grave problema de violação aos direitos humanos, infelizmente, ainda é muito atual – impossível não se recordar, por exemplo, da política anti-imigração que vem ganhando força nos Estados Unidos, onde a xenofobia tem raízes estruturais.
Outrossim, a escolha do diretor pelo romance entre uma mulher norte-americana e um homem mexicano foi acertada. Fica nítido o preconceito de certos personagens ao surpreenderem-se com esse relacionamento. O casal, porém, não se intimida e, os atores, de quebra, tem uma química interessante.
Como um bom filme noir, evidente que não poderiam faltar as contumazes críticas ao sistema de inquérito policial. Simulando uma esfera de degradação moral, a corrupção dos agentes policiais é retratada de forma soberba. Destacam-se a parcialidade da polícia, as situações de flagrância forjadas, bem como a violação aos princípios do contraditório e ampla defesa. Quanto a esse último, despertou a minha atenção o fato de, numa determinada cena do filme, o direito ao silêncio ter sido negado somente a um investigado mexicano, o que dialoga, inevitavelmente, com a xenofobia.
Outro fator de destaque são as atuações. Embora o diretor não tenha priorizado a escalação de atores naturais do México para todos os personagens mexicanos, o que poderia ser mais um diferencial da obra, o elenco brilha em tela. Por exemplo, Charlton Heston, na pele de Vargas, interpreta de forma enérgica um promotor de justiça por excelência. Na incansável luta pela efetivação da justiça, ele sabe que, num Estado Democrático de Direito, todos os cidadãos devem ter os seus direitos protegidos, independentemente de sua posição na sistema criminal, se ofendido ou ofensor. Eis uma de suas falas mais pungentes: “Num país livre, os policiais devem representar a lei, e a lei também protege os criminosos”. Orson Welles atua de forma magistral. Atuando com a naturalidade que lhe era habitual, através de reações expressivas e diálogos ácidos, Welles se entrega ao papel de Quinlan, um personagem complexo que cai numa espiral de degradação moral à medida que a trama se desenrola, e precisa confrontar os seus próprios demônios. O filme ainda nos brinda com a participação especial de Marlene Dietrich, que - como de praxe -, mesmo em poucos momentos de cena, demonstra a maestria de sua performance, que a consagrou como uma das maiores estrelas de Hollywood.
Não pretendo esgotar a análise. Portanto, concluo: “Touch of Evil” é definitivamente um dos melhores filmes da carreira do Welles e, ouso dizer, da história cinematográfica. Uma aula de como fazer cinema.
Uma palavra que bem resume "Kemonozume" é: originalidade.
Talvez mais conhecida na cena underground dos animes, a obra ainda não tem o seu devido reconhecimento pelo público em geral. Na verdade, eu diria até que a obra não tem um apelo popular, pois vai na contramão de muitas outras por aí que se contentam com histórias genéricas apenas para atrair público e gerar mais consumo.
Não obstante o enredo trabalhe com alguns pontos comuns já vistos em inúmeros animes - o herói protagonista obstinado, o mal que precisa ser combatido, etc. -, a história é desenvolvida com tamanha criatividade que até os clichês parecem se encaixar bem.
Masaaki Yuasa, o diretor, usa e abusa de sua capacidade inventiva. O estilo de animação é bem diferente do habitual, pois, além dos traços assemelharem-se à esboços (sobretudo os personagens) e o uso de cores vibrantes representar o estado de espírito da história, frequentemente mescla desenho com imagens reais, resultando numa abordagem experimental que beira o surrealismo. Confesso que a estética foi o maior ponto de incentivo para mim conhecer esta obra.
Outro ponto de destaque é o desenvolvimento dos personagens. Isso é mais notável no casal protagonista, Toshihiko e Yuka. Ele divide-se entre se manter fiel à tradição do grupo de samurais (Kifuuken) e a crescente paixão por Yuka, que é uma das criaturas que jurou exterminar; ela, também apaixonada por Toshihiko, sofre com a dualidade entre resistir aos seus instintos de Shokujinki e lutar contra o mundo ao lado de seu amado. Nem tudo são flores, porém: outros personagens poderiam ter sido melhor aproveitados, a exemplo de Kazuma, o irmão de Toshihiko (que até tivera um início de arco, mas interrompido de forma abrupta) e Rie, que infelizmente ficou mais lembrada pela dinâmica de competição amorosa em torno de Toshihiko.
Destaca-se também as críticas sociais exploradas no anime, abordadas com ótimos momentos de humor. A organização Kifuuken, composta majoritariamente por homens, retrata a desigualdade nas relações de poder entre homens e mulheres; a relação entre Yuka e Toshihiko, que é muito gostosa de se acompanhar, desvela a vulnerabilidade masculina e o mito de que a parceira não teria capacidade de proteger seu parceiro, estando somente à espera de ser salva por ele; o gore como saída de escape para os desejos humanos mais ocultos; e várias outras temáticas que não citarei aqui, pois o melhor é conferir a própria obra, não é mesmo?
A trilha sonora, por sua vez, não deixa a desejar. Ponto intrínseco à originalidade do anime, o ritmo vibrante do jazz contemporâneo ajuda bastante na criação de uma atmosfera divertida e surreal.
Dito isto, vale muito a pena acompanhar "Kemonozume" se você gostaria de experimentar a imersão numa obra diferente do habitual.
"Ad Astra" mostrou-se, ao menos para mim, uma excelente surpresa.
O filme parte de uma premissa simples: a busca de um astronauta, Roy McBride, por seu pai, Clifford McBride, também astronauta, o qual está desaparecido há muitos anos em missão ao espaço sideral e cujo desaparecimento parece estar relacionado à uma ameaça não só ao planeta Terra, mas à existência de todo o Sistema Solar. Essa ideia central vai sendo cuidadosamente construída, pois, com o desenrolar da trama, vamos descobrindo importantes revelações sobre a dramática relação entre Roy e seu pai, este, aliás, prestigiado como um herói na Terra, por seus feitos em contribuição à exploração espacial.
A produção, entretanto, utilizou (e muito bem) esse fio condutor para desenvolver outras temáticas. Nesse sentido, destacam-se, sobretudo, o progresso da tecnologia aeroespacial e os limites éticos e morais da exploração humana no Cosmos, retratados da forma mais realista – e assombrosa – possível. Na história fílmica, por exemplo, o turismo espacial já é uma realidade concreta; a Lua deixa de ser apenas o satélite natural terráqueo para transformar-se numa região operada por empresas privadas e também vulnerável a ataques de grupos piratas modernos; o planeta Marte já possui bases de operações militares norte-americanas; e o ser humano foi capaz de chegar à Netuno, representação dos confins do Sistema Solar. Embora a exploração do espaço tenha a sua importância reconhecida, vez que auxilia na busca da solução de problemas terrestres e de descobertas científicas, discute-se, inevitavelmente, o caráter ético da espécie humana no ambiente espacial e os seus próprios valores íntimos, questões que “Ad Astra” soube explorar (perdão pelo trocadilho, rsrs) com admirável maturidade. Seria um prenúncio da ficção do que está por vir na realidade?
Vale citar outro grande acerto do filme, isto é, a atuação do elenco, com destaque para a dupla protagonista Brad Pitt e Tommy Lee Jones, interpretando, respectivamente, Roy e Clifford, filho e pai. O primeiro, num papel não muito comum em sua carreira, interpreta um homem solitário e introvertido, que, apesar de vivenciar a ausência da figura paterna por um longo período em sua vida, tem a chance de reencontrá-lo através de uma missão espacial de grande risco. A atuação de Pitt é incrível e combina, em sincronia, com o estilo dramático da história; é uma pena que ele não tenha sido, ao menos, indicado ao Oscar de melhor ator em 2019. Também impressiona a atuação de Lee Jones, aqui, num tempo de tela mais curto, porém, com a “química” necessária com Pitt.
Por fim, vale dizer que o filme não deixou nada a desejar na pós-produção. Os efeitos especiais são maravilhosos, ao ponto de, em certos momentos, não sabermos muito bem onde acaba a ficção e começa a realidade, mesmo com o avanço da computação gráfica no cinema atual. As paisagens da Lua e dos planetas, por exemplo, são um colírio para os olhos dos amantes da astronomia.
Recomendo a produção a todos que gostarem de uma história instigante sobre as relações humanas e o futuro da exploração do universo cósmico.
Dentre as inúmeras temáticas abordadas com tanto zelo por "Imitação da Vida" (1959), a questão racial naturalmente se sobressai. No entanto, a maneira como este último tópico é construído na produção é deveras contraditório.
Ora, a relação aparentemente fraterna entre Lora Meredith, mulher branca, e Annie Johnson, mulher negra, não impede que a primeira, após ter alcançado um status social que há muito tempo ambicionava, continuasse a permitir que a segunda exercesse o trabalho doméstico em sua residência. Isso porque o racismo, fator estrutural que é, foi internalizado por Lora, a qual, por sua vez, acostumou-se à genuína amabilidade de Annie na prestação dos serviços domésticos, bem como pela própria Annie, que, mesmo ciente do racismo externo - da sociedade - que sofria, não soube reconhecer o racismo interno - domiciliar - e velado, representado pela subserviência à figura branca. Este é um problema que Douglas Sirk não soube resolver.
Felizmente, a temática do racismo é muito bem explorada noutro ponto, ao tratar da relação entre Annie e Sara Jane, respectivamente, mãe e filha. Esta, mulher branca, desde a sua infância, vai internalizando o discurso racista ao rejeitar o fato de sua mãe ser negra, sobretudo quanto ao conceito estereotipado de beleza: tem um nariz afilado, cabelos lisos, pele branca. Num retrato da época, o simples fato de uma pessoa de pele clara ter um parestesco com um afrodescendente era motivo de exclusão social, e o filme soube representar o assunto muito bem - vale citar a polêmica cena em que Sara e o namorado tem uma discussão acalorada.
Não obstante as críticas, assumo: fui conquistado pela história. Sobretudo por conta da majestosa atuação do trio feminino: Juanita Moore, Lana Turner e Sandra Dee, que soube transmitir aquelas emoções e sentimentos essenciais que uma boa trama precisa.
A proposta do filme é polêmica, contudo, inovadora: quão grave pode ser a influência do trabalho escravo contemporâneo enquanto instrumento de dominação psicológica?
Esse questionamento é uma das premissas básicas da produção. Sabe-se que, conforme ensina a melhor doutrina penalista, o consentimento da vítima é considerado irrelevante para a configuração do delito de redução à condição análoga à de escravo. Afinal, o maior bem jurídico tutelado é a dignidade humana do trabalhador, que pode ter a sua liberdade de ir e vir cerceada em virtude de trabalhos forçados, estar submisso a jornada exaustiva ou a condições degradantes de trabalho, entre outras condutas. Todavia, a história fílmica decide explorar a escravidão contemporânea, especialmente, sob a ótica da própria vítima que talvez vislumbre nessa relação degradante uma saída para melhoria de vida. Esse viés é interessantíssimo, pois o limiar entre a posição de oprimido e opressor vai se tornando cada vez mais sutil, e a forma como esse dilema foi trabalhado na narrativa é digna de elogios. Aqui, faço uma breve digressão para elogiar também a excelente atuação do elenco, sobretudo de Christian Malheiros e Rodrigo Santoro, e a acertada direção de Alexandre Moratto.
Em seu bojo, o enredo traz à baila outras temáticas como o racismo estrutural, o tráfico de pessoas e a corrupção no Poder Público, e retrata, numa crítica visceral, como tais elementos se conectam para originar e fomentar a complexa rede do trabalho análogo à escravidão.
Num País marcado pelo passado escravista, essa discussão urge ser mais debatida, em face das nefastas intervenções no desenvolvimento econômico-social da sociedade moderna. Vale muitíssimo a pena conferir "7 Prisioneiros", representante da melhor safra que o cinema nacional tem a oferecer.
O que aconteceria se o processo de decomposição do corpo ocorresse com a pessoa ainda viva? Ora, é justamente a essa pergunta que “Thanatomorphose” tenta responder. A produção do cineasta francês Éric Falardeau (aqui, em sua estreia) aposta num enredo aparentemente simples, mas que, a posteriori, vai revelando em suas camadas outras discussões interessantes, para além da decomposição cadavérica.
Pelo que os pôsteres e a sinopse denunciam, o body horror é o subgênero explorado por “Thanatomorphose”. Destarte, aqui o corpo é a fonte do medo. E é inegável que os efeitos práticos se destacam – pela aparência tão próxima ao real, o espetáculo de putrefação causa repulsa, bem como surpreende. Mas as possibilidades outras de interpretação da metamorfose corporal também conquistam o seu lugar. A epiderme que apodrece é um sinal de que algo não vai bem, pois o corpo sente e precisa externar a dor: a obsessão pelo prazer carnal, a dignidade sexual ofendida, o perigo de contágio venéreo, a experiência da solidão negativa.
Nem tudo são flores, porém: a atuação do elenco não gerou muita empatia, e algumas decisões do roteiro pareceram-me demasiado incongruentes. Há quem poderia reclamar do ritmo mais lento do filme, mas acredito que este serve muito bem aos propósitos da narrativa, a fim de construir uma atmosfera claustrofóbica mais imersiva.
Por fim, deixo a minha recomendação cinéfila. Mais do que uma mera ode ao grotesco, “Thanatomorphose” é uma produção fértil em possibilidades interpretativas, sendo um ótimo exemplar do que o cinema extremo e underground tem a oferecer de bom.
Há algum tempo eu já cogitava assistir "You Won't Be Alone" (2022) (desde o lançamento de seu trailer, na verdade) mas apenas recentemente tive a oportunidade de conferi-lo.
A habilidade que a jovem bruxa possui relembrou-me, em certa medida, a capacidade dos "troca-peles", da saga literária martiniana "As Crônicas de Gelo e Fogo", de "possuir" o corpo de outro ser vivo, sejam animais ou - mais dificilmente - seres humanos. Ainda recém-nascida, Nevena, a protagonista, recebe uma maldição de uma velha bruxa conhecida pela alcunha de "Devoradora de Lobos": está condenada a também ser uma bruxa, durante toda a sua vida. E como característica elementar de sua nova condição, Nevena será capaz de "possuir" os corpos de outros indivíduos, especialmente pessoas. Porém, tal habilidade, longe de ser objeto de mero divertimento, em verdade, é uma tentativa da jovem para compreender o complexo significado do que é ser humano.
Confesso: acompanhar a experiências da protagonista, em suas múltiplas vivências, mostrou-se muitíssimo interessante. As suas novas identidades são como janelas pelas quais a jovem (e nós), vemos os elementos do mundo ganharem novas significações; os habituais dramas humanos, bem como o turbilhão de emoções que deles provém adquirem outras dimensões, uma vez que tudo ali é um processo de aprendizado para a protagonista
(a subtrama da relação amorosa que Nevena constrói com seu parceiro emocionou-me bastante, por exemplo)
. O diálogo interno que é construído de forma progressiva, mas eficiente, também foi um excelente acerto. Porém, apesar de considerar muito criativa tal abordagem do diretor e roteirista Goran Stolevski, penso que poderia ser melhor explorada,
como as vivências de Nevena sob a pele de outras pessoas.
A atuação de certas pessoas atoras também foi mediana, e a escolha de Anamaria Marinca como a principal antagonista foi um pouco frustrante; seu papel infelizmente não conquistou-me. No entanto, Noomi Rapace e Alice Englert, em especial, foram incríveis em seus pápeis: as suas habilidades de expressarem-se tão somente por gestos lembrou-me da era silenciosa do cinema, em que tal modo de atuação era essencial para cativar a empatia do público.
Por fim, deixo aqui a minha recomendação de "You Won't Be Alone": se você gosta de histórias que exploram a natureza humana, conduzidas com sobriedade, mas com um toque de fantasia, essa produção será uma ótima escolha.
A ambientação teatral que rememora o cinema expressionista alemão, o conteúdo lírico, o canto sereno de Anne Nurmi em harmonia ímpar com os timbres enebriantes de guitarra e do acordeão de Tilo Wolff... sublime!
A trama de Manhandled (1924), comédia dramática estadunidense da era silenciosa, à um primeiro contato, pode iludir-nos. Ora, um casal de jovens de classe média-baixa, que se apercebe dissaboroso com a situação financeira em que se encontra, e cujas partes decidem, cada qual à sua maneira, conquistar uma condição de vida mais abastada para ambos - certamente, já vimos ao menos uma história similar a essa.
No entanto, o enredo desta produção oculta problemáticas mais complexas, especialmente no que toca à comportamentos machistas tão naturalizados na sociedade.
Tessie McGuire, a protagonista do longa, é uma mulher independente, no sentido de que aspira conseguir uma vida de opulência mediante os esforços de seu próprio trabalho; seu namorado, Jim, também deseja tal resultado, mas, de modo oposto, deposita a sua confiança numa invenção mecânica que ele está a desenvolver; há alguns homens que, em suas propostas de emprego para Tessie, demonstram apenas uma pretensão sexual para com a jovem (e acabam despertando desconfianças por parte de Jim, as quais recaem sobre Tessie); e, por fim, vê-se que até uma "amiga" de Tessie, visando ajudá-la, lhe recomenda que esta aja de forma a atrair a atenção daqueles abonados homens para lograr regalias
Bem, fica claro que certos personagens masculinos, principalmente aqueles libertinos, persistem em suprimir o corpo, o espaço e as decisões de Tessie, e para isso utilizam-se de diferentes artifícios. Apesar de tudo, Tessie sempre busca resistir - seu devotado amor ao seu amado é maior do que uma conquista fácil à riqueza material.
Outrossim, Tessie sofre - sofre com os constantes assédios a que está submetida, sofre com as infundadas suspeitas de seu namorado de que ela estaria cometendo adultério (ressalto aqui a cena na qual Jim culpabiliza Tessie de adúltera, ao comentar de sua vestimenta, sendo que aquela, na verdade, tinha sido vítima de violência sexual)... enfim, sofre, entre outros, com a discriminação de gênero alimentada pela sociedade patriarcal em que (sobre)vive
.
Em tempo, gostaria de comentar outros aspectos da produção do diretor canadense Allan Dwan. Quanto às atuações, meu destaque vai para Gloria Swanson. A performance da diva é ímpar: a naturalidade com que encena, a sutileza de suas expressões corporais e faciais, combinada com a sua estonteante beleza, fascinaram-me deveras. Antes da sessão, eu já havia assistido outro filme com a atriz - "Sunset Boulevard" (1950), de Billy Wilder - inclusive, recomendo-o fortemente, pois o considero uma das obras-primas cinquentistas -, e já havia me deleitado com a sua interpretação. Mas com "Manhandled", Gloria Swanson conquistou-me de vez. Ademais, Tom Moore estava ótimo como Jimmy,
confesso que fiquei surpreso! O cunho melodramático que permeia a película culmina num final alentador, ante o infeliz e crescente cenário opressor que persiste no século XXI
Confesso que, ao iniciar a sessão de "The Rainmaker", eu subestimara a película. A atuação de Lancaster me parecera um tanto caricata demais, Hepburn não estava em um de seus melhores momentos... mas o enredo despretencioso foi conquistando-me aos poucos, e logo me apercebi imerso naquele universo cinquentista com ares de velho-oeste.
Assim sendo, pude assimilar, na simplicidade do roteiro, as interessantes metáforas contidas nas entrelinhas. Bill Starbuck - que se revelou para mim a verdadeira estrela do show -, que, em sua vivência errante, estava sempre à procura de sua satisfação material, não obstante ansiava por algo que o fizesse sentir-se especial: a esperança dele próprio fazer chover sobre aquela terra castigada pela seca.
Entretanto, penso que a verdadeira missão de Starbuck - e que talvez ele nem se dera conta - em suas andanças era a de ir em auxílio às pessoas, atuando como uma espécie de conselheiro, fabricando, assim, mudanças positivas na vida de pessoas com quem ele encontrava. O exemplo inicial é a alegria que ele despertou na vida daquela criança no começo da história; e o mais notável é certamente a reconciliação familiar dos Curry e a autoconfiança que Lizzie e File passaram a cultivar, por influência precípua de Starbuck.
A abençoada chuva que finalmente sobreveio naquela terra árida, creio, representa mais que um fenômeno meteorológico; é um acalento para o coração dos habitantes, da modesta família Curry e, sobretudo, para Starbuck, que, cumprindo a sua missão de ajudar aquelas pessoas, enfim obteve uma dádiva dos céus, o que também simboliza a consumação de suas íntimas aspirações - embora não ocorrera da forma como ele almejava. De fato, Starbuck fez jus ao título da produção, pois fez chover alegria e esperança no seio daquelas vivências.
É assombroso como a película guarda alguns traços de identificação com o contexto da pandemia da COVID-19, especialmente quando esta se apresentava nos seus estágios iniciais (com enfoque, é claro, na realidade norte-americana): a preocupação da grande maioria das autoridades e dos profissionais da saúde (especialmente o Dr. Ben Wood, muito bem interpretado por Willian Bishop) com a súbita disseminação do vírus, com a imunização em massa da população e o isolamento das pessoas contaminadas pela doença, e questões afins.
A fotografia é primorosa, a atuação é convincente e as cenas de perseguição, ainda que escassas, são muito empolgantes. Acredito que a opção por um narrador da história foi um tanto supérflua, o que em parte comprometeu minha imersão na trama. O roteiro, por sua vez, tem lá as suas conveniências também - mas isso realmente importa, rsrs?
Enfim, esta produção cinquentista foi um ótimo achado, sobretudo porque tem sua parcela de relevância em nossas vivências atuais.
"Nightmare At Elm Manor" é curta-metragem mudo dirigido por George Harrison Marks, lançado em 1961.
Experimental e com toques de terror e erotismo, a produção é filmada em preto e branco, cuja ambientação atmosférica, a ausência de diálogos e a trilha sonora são uma espécie de homenagem aos clássicos filmes de terror, como o "Nosferatu" (1922) de F.W. Murnal (o close do vampiro já transformado, por exemplo).
A história, no entanto, não trouxe-me muito interesse. Numa tentativa frustrada de tornar o corpo nu da protagonista como o objeto central da trama, o curta negligencia certas questões que eu consideraria pertinentes, como as motivações da protagonista para se alojar sozinha em uma casa sinistra, cujo residente é um terrífico homem de meia-idade. Entendo que, por sua natureza experimental, o conteúdo narrativo poderia ser relegado à segundo plano, mas a semi-ausência deste não me convenceu.
Porém, a produção trouxe alguns elementos que despertaram-me a atenção, sobretudo o enquadramento da câmera e o trabalho da iluminação que, embora típicos do cinema de terror, produziram um bom resultado.
Confesso que fiquei impressionado com a atuação de Jack Elam em Kansas City Confidential, um noir de 1952. O pôster engana: no início da sessão, até mesmo pensei que o personagem de Elam protagonizaria o longa! Embora tenha sido coadjuvante, a sua performance austera e dotada de certo tom vilanesco não muito padrão é memorável, sendo um dos destaques do filme sobredito.
Evidentemente, o curta-metragem francês romantiza a escravização dos ugandeses, bem como a crueldade para com a girafa. No processo de abate do animal, brevemente exibido, a sua carcaça é esfolada. O caçador, homem branco, possivelmente um britânico, contempla todo o procedimento, que é realizado pelos escravizados. Ao final do curta, curiosamente estes são os únicos que consomem a carne do mamífero, sendo clara a tentativa de justificar-se uma suposta inferioridade daqueles indivíduos, incutida sob a ótica etnocêntrica. Ademais, a animada trilha sonora que permeia a produção é no mínimo paradoxal...
Entretanto, a habilidade cinematográfica de Alfred Machin desenvolve-se com tal intensidade que será difícil não reconhecer o seu valor enquanto registro histórico.
Golden Kamuy (1ª Temporada)
4.0 9É fato: a história introduzida nesta primeira temporada de "Golden Kamuy" traz uma abordagem inovadora, se comparada com a da grande maioria dos animes à solta na indústria que, por sua vez, têm argumentos excessivamente repetidos.
O que mais despertou minha atenção é o tom sombrio da história que é - parcialmente - adotado. Afinal, a ideia de que o mapa do tesouro está contido não em um papel comum, mas nas peles de homens criminosos não é algo que se vê por aí com frequência. A interação entre os personagens também é destaque, sobretudo o combate sangrento (e cenas de lutas bem arquitetadas) entre aqueles que buscam a tão sonhada fonte de riqueza.
No entanto, o anime tem seus defeitos. Como disse acima, a atmosfera sombria não é predominante, pois divide lugar com uma comédia, muitas vezes, forçada demais. Esse estilo misto prejudicou bastante minha imersão na história (fiquei enrolando para terminar os 12 episódios).
Como sou persistente - ou otimista, quem sabe -, vou dar uma chance à segunda temporada, na esperança de que a qualidade da história evolua.
A Visita
4.2 25"A Visita" é um daqueles filmes antigos que, surpreendentemente, consegue manter a sua crítica principal ainda fresca nos dias que correm (SEM SPOILERS neste texto).
Resolvi assisti-lo sem conhecimento da história - Ingrid Bergman que me trouxe até aqui -, então, de início, fui levado a acreditar que o longa-metragem contaria somente a história de um reencontro romântico entre velhos amantes, mas eu não poderia estar mais enganado.
Esta motivação serve para elaborar um cenário onde o ideal de justiça é posto em cheque diante da hipocrisia e do egoísmo coletivos, sendo que a produção se utiliza, muito bem, da comédia dramática para desenvolver essa crítica social. Há cenas que me provocaram riso sincero, tamanho o absurdo das situações (p. ex., o momento da "caçada"), e outras trouxeram bons momentos de tensão.
Todos os atores fizeram um excelente trabalho, a exemplo de Irina Demick (Anya) e Ernst Schröder (o prefeito), mas o destaque vai, inevitavelmente, para Ingrid Bergman e Anthony Quinn. Os protagonistas tem uma química entre si que é irresistível não acompanhar.
A presença de Bergman, por sua vez, é imponente em tela: sua naturalidade em atuar e beleza magnífica (na época com irreconhecíveis 49 anos) tornam a moralmente ambígua Karla Zahanassian, personagem atípica em sua carreira, como "um ímã" que atrai nossa atenção. Pena que Bergman sequer foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1965!
Pois bem, o filme é incrível, merecendo uma "visita" (perdão pelo trocadilho, não resisti) de quem aprecia uma boa obra sem se importar com o ano de produção.
Cisne Negro
4.2 7,9K Assista AgoraApós muitos anos, eis que surgiu a oportunidade de reassistir à "Cisne Negro".
Enquanto estava na sessão, tentei relembrar os motivos pelos quais aquele filme havia me impressionado na primeira vez que o assisti - e se ainda continuaria gostando da produção.
Então me recordei: a capacidade de criar tensão com um ritmo frenético, sem atrapalhar a fluidez das cenas; a performance soberba de Natalie Portman; a metáfora do embate contra o próprio eu.
Desde os primeiros minutos da trama, o filme consegue incutir no telespectador certa inquietude sobre a relação da protagonista Nina consigo mesma e com os demais personagens à sua volta. E na medida em que a história avança, cria-se um ritmo frenético de cena para cena - sobretudo pelo trabalho de câmera e os efeitos visuais - que é prazeroso de se acompanhar.
Por sua vez, a atuação de Natalie Portman voltou a me fascinar. A atriz parece que simplesmente "nasceu" para interpretar Nina, com a sua expressividade ímpar. Destaque para a maquiagem e o figurino, que não somente realçaram a beleza de Portman, mas trouxeram vivacidade à companhia de balé.
Também não poderia deixar de citar o excelente trabalho de Darren Aronofsky ao elaborar, na forma do surrealismo psicológico, a metáfora do embate contra o próprio eu. De fato, o maior inimigo de Nina é ela mesma - a influência da superproteção da mãe e o rígido controle laboral/pessoal exercido por seu chefe são essenciais para gerar a sua obsessão extrema em alcançar a perfeição como bailarina. E a vulnerabilidade de Nina cria um sentimento de identidade com quem assiste. Afinal, também não somos, por vezes, os maiores opressores de nós mesmos?
Pois bem, diante de tudo, continuo impressionado como na primeira vez que assisti.
Jogo Sujo
3.2 14 Assista AgoraFoi uma agradável surpresa assistir a esta película de Hitchcock. O que se inicia como uma luta entre a defesa pela justiça social - o direito à propriedade de uma família campestre e a preservação ambiental - versus a ganância desenfreada de um empresário, desemboca, inesperadamente, num delicado conflito pessoal, onde os limites éticos dos envolvidos são postos à prova - daí o título "Jogo Sujo", em acertada tradução brasileira. A proposta do filme é simples, mas funciona, porque em muitos aspectos sua mensagem é atual.
Contudo, senti falta de mais desenvolvimento de certos personagens (Jill, p. ex., pareceu-me deslocada na trama, sem muito propósito) e maior vivacidade no elenco, com as devidas ressalvas para C.V. France e Edmund Gwenn, ótimos em seus papéis de chefes de família. E, é claro, Phyllis Konstam, esta que roubou a atenção no longa com a sua magnífica performance. A vulnerabilidade da atriz me fez torcer por Chloe até o desfecho da história.
Precipícios d'Alma
4.2 45Admito que "Sudden Fear" tem lá os seus aspectos positivos: a estética visual em preto e branco, o ótimo trabalho de enquadramento - os close-ups em Myra Hudson são marcantes -, a trilha sonora que ajuda a experimentar o suspense, as cenas de perseguição.
Por outro lado, a única das atuações que realmente apreciei foi a de Joan Crawford, que, inclusive, vem a melhorar só a partir da segunda metade do filme - sim, o papel de boba apaixonada na primeira metade não me convenceu, chega a ser piegas. A performance de Jack Palance é insossa; não entendo como foi indicada ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em '53. E Gloria Grahame não atua muito bem, gostei mais de seu papel em "In a Lonely Place" (1950). Para completar, sequer funciona a química entre Crawford e Palance...
Bem, pelo menos a trama de assassinato e vingança é interessante, com um desfecho convincente.
A Um Passo da Eternidade
3.9 161 Assista AgoraO filme ganhou minha atenção ao saber que havia levado oito estatuetas do Oscar - sobretudo a de melhor filme. Já durante a sessão, impressionei-me com a performance dos atores, e a química entre os casais funciona muito bem, principalmente entre Burt Lancaster e Deborah Kerr - a famosa cena do beijo na praia, por exemplo, é de tirar o fôlego.
Nem tudo são flores, porém. Chega um momento em que, acompanhar a narrativa dos dois romances em meio aos dissabores da vida no Exército se torna maçante, sendo desnecessárias as quase duras horas de duração. Ademais, a cena final em que Prewitt toma sua decisão me pareceu um tanto despropositada - optou-se por exagerar no sentimentalismo e, assim, o potencial desse personagem foi esvaziado.
De toda forma, vale a pena acompanhar a película, nem que seja como um simples passatempo num final de semana...
Peixes Vermelhos
4.0 1Escolhi "Los Peces Rojos" para assistir sem muita pretensão - desconhecia qualquer detalhe sobre a história do filme, seu elenco ou coisas outras. Mas deliciei-me com a sua proposta: o filme soube tecer, aos poucos, uma atmosfera de mistério que se converte num clímax surpreedente. Devo acrescentar, é claro, a excelente atuação de Arturo de Córdova e Emma Penella, pois souberam "dar vida" a dois amantes que, descontentes com a sua humilde realidade, entregam-se a uma paixão que só aflora as más intenções existentes em cada um.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraConfesso: à primeira sessão, tornou-se uma das produções mais enérgicas que já assisti do cinema nacional.
Retrata o nefasto período da ditadura militar com uma sensibilidade ímpar, de tal forma que a pessoa telespectadora parece imergir naquela realidade e acompanhar, de perto, os prazeres e as desventuras da família Paiva. E as atuações são um espetáculo à parte: sem desmerecer o notável trabalho dos coadjuvantes, o carisma de Selton Mello e a versatilidade de Fernanda Torres me conquistaram. E o que dizer da participação especial de Fernanda Montenegro? Fiquei em êxtase.
Retrato em Negro
3.8 3A trama de mistério em torno das consequências dos delitos para o casal, somada à incerteza sobre a identidade da testemunha, prendeu minha atenção. O suspense é constante.
Quanto às atuações, quem brilha é Anthony Quinn. É o primeiro filme que assisto de sua filmografia, e a sua performance, do início ao fim, dá gosto de acompanhar. Que energia transparece do ator!
Por outro lado, a atuação de Lana Turner pareceu-me um tanto artificial, sem encanto. E a carga de dramaticidade atrelada a Sheila tornou a experiência, em certos momentos, levemente enfadonha. Ainda mais infeliz, porém, são os atos de violência baseada no gênero que os agressores - do ex-cônjuge ao amante - impõem contra Sheila, pois a impressão que fica é a de naturalidade de tais cenas. A própria personagem, enquanto mulher, é retratada como um sujeito mais vulnerável que os homens ao seu redor, concepção que é fruto de um machismo enraizado na sociedade da época e na de hoje também.
Destaque para Sandra Dee, que interpreta Cathy com muita graça. Aliás, uma curiosidade cinéfila: em 1959, um ano antes do lançamento de Portrait in Black, Sandra e Lana contracenavam juntas no clássico Imitation of Life.
A Casa das 1000 Bonecas
2.7 2É lamentável quando um filme apresenta uma proposta de enredo interessante, mas o seu desenvolvimento é mal construído, o que acaba por frustrar a experiência de quem assiste. É o que ocorre com “The House of 1000 dolls” ou “A Casa das 1000 Bonecas”, em tradução literal.
O fio condutor da trama, o tráfico internacional de mulheres, é um tema sério, que vem ganhando relevância no século XXI, sobretudo devido às notícias compartilhadas pela mídia sobre os casos de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual.
No filme, a abordagem dessa temática seria até interessante caso fosse houvesse mais dedicação por parte do diretor e do elenco. Mas o que vemos é, aparentemente, uma quase total falta de comprometimento daqueles.
Não sabemos claramente como muitas das mulheres ali apresentadas se tornaram vítimas de tráfico – as suas histórias, os seus anseios; há uma ausência de detalhes sobre o modus operandi dos criminosos; os personagens não dispõem de tempo suficiente em tela para um bom arco de desenvolvimento; e as pessoas atoras, com a devida ressalva a Vincent Price (atuando, como é de praxe, de forma admirável), não conseguiram dar vivacidade aos personagens que interpretam, o que torna mais difícil de gerar a empatia necessária ao público. O resultado: um filme desinteressante e, de forma justa, esquecível quando se trata dos melhores thrillers do cinema hollywoodiano antigo.
Ainda assim, vale a pena assistir a produção? Bem, apenas para quem deseja “explorar o currículo” de Vincent Price.
A Marca da Maldade
4.1 229 Assista AgoraNo momento em que escrevo esta resenha, ainda estou desbravando a cinematografia de Orson Welles, empreitada que, a cada filme, tem se mostrado cada vez mais prazerosa. O texto contém alguns spoilers, mas nenhum que cause impacto negativo na experiência de assistir a produção, creio eu.
De início, fiquei surpreendido com o desenvolvimento de certa temática de “Touch of Evil” (traduzido no Brasil como “A Marca da Maldade”). O filme é um noir, protagonizado por Charlton Heston (Miguel Vargas) e Janet Leigh (Susan Vargas) e antagonizado por Orson Welles (Hank Quinlan) – aqui também na direção –, e tem como um dos fios condutores, ainda que nas entrelinhas, a questão da xenofobia.
É surpreendente que uma produção da década de 1950, época em que perdurava a tensão geopolítica da Guerra Fria, tente abordar, e de forma crítica, essa temática. Claro, tratando-se de Orson Welles, multi-artista que sempre ousou desafiar as convenções do modo de se fazer cinema, eu não deveria estar impressionado, mas confesso que o fiquei. O personagem Miguel Vargas, mexicano, é um jovem promotor de justiça e grande defensor de um sistema de justiça mais eficaz. Lado outro, tem-se o detetive Hank Quinlan, norte-americano e veterano da polícia local (fronteira entre México e EUA) cuja perspectiva sobre a justiça e a lei são, no mínimo, controversas. Ocorre que Quinlan, ao longo da trama, vai revelando o sentimento anti-mexicano que nutre por Vargas, e em seu discurso xenófobo, demonstra que esse grave problema de violação aos direitos humanos, infelizmente, ainda é muito atual – impossível não se recordar, por exemplo, da política anti-imigração que vem ganhando força nos Estados Unidos, onde a xenofobia tem raízes estruturais.
Outrossim, a escolha do diretor pelo romance entre uma mulher norte-americana e um homem mexicano foi acertada. Fica nítido o preconceito de certos personagens ao surpreenderem-se com esse relacionamento. O casal, porém, não se intimida e, os atores, de quebra, tem uma química interessante.
Como um bom filme noir, evidente que não poderiam faltar as contumazes críticas ao sistema de inquérito policial. Simulando uma esfera de degradação moral, a corrupção dos agentes policiais é retratada de forma soberba. Destacam-se a parcialidade da polícia, as situações de flagrância forjadas, bem como a violação aos princípios do contraditório e ampla defesa. Quanto a esse último, despertou a minha atenção o fato de, numa determinada cena do filme, o direito ao silêncio ter sido negado somente a um investigado mexicano, o que dialoga, inevitavelmente, com a xenofobia.
Outro fator de destaque são as atuações. Embora o diretor não tenha priorizado a escalação de atores naturais do México para todos os personagens mexicanos, o que poderia ser mais um diferencial da obra, o elenco brilha em tela. Por exemplo, Charlton Heston, na pele de Vargas, interpreta de forma enérgica um promotor de justiça por excelência. Na incansável luta pela efetivação da justiça, ele sabe que, num Estado Democrático de Direito, todos os cidadãos devem ter os seus direitos protegidos, independentemente de sua posição na sistema criminal, se ofendido ou ofensor. Eis uma de suas falas mais pungentes: “Num país livre, os policiais devem representar a lei, e a lei também protege os criminosos”. Orson Welles atua de forma magistral. Atuando com a naturalidade que lhe era habitual, através de reações expressivas e diálogos ácidos, Welles se entrega ao papel de Quinlan, um personagem complexo que cai numa espiral de degradação moral à medida que a trama se desenrola, e precisa confrontar os seus próprios demônios. O filme ainda nos brinda com a participação especial de Marlene Dietrich, que - como de praxe -, mesmo em poucos momentos de cena, demonstra a maestria de sua performance, que a consagrou como uma das maiores estrelas de Hollywood.
Não pretendo esgotar a análise. Portanto, concluo: “Touch of Evil” é definitivamente um dos melhores filmes da carreira do Welles e, ouso dizer, da história cinematográfica. Uma aula de como fazer cinema.
Kemonozume
4.5 2Uma palavra que bem resume "Kemonozume" é: originalidade.
Talvez mais conhecida na cena underground dos animes, a obra ainda não tem o seu devido reconhecimento pelo público em geral. Na verdade, eu diria até que a obra não tem um apelo popular, pois vai na contramão de muitas outras por aí que se contentam com histórias genéricas apenas para atrair público e gerar mais consumo.
Não obstante o enredo trabalhe com alguns pontos comuns já vistos em inúmeros animes - o herói protagonista obstinado, o mal que precisa ser combatido, etc. -, a história é desenvolvida com tamanha criatividade que até os clichês parecem se encaixar bem.
Masaaki Yuasa, o diretor, usa e abusa de sua capacidade inventiva. O estilo de animação é bem diferente do habitual, pois, além dos traços assemelharem-se à esboços (sobretudo os personagens) e o uso de cores vibrantes representar o estado de espírito da história, frequentemente mescla desenho com imagens reais, resultando numa abordagem experimental que beira o surrealismo. Confesso que a estética foi o maior ponto de incentivo para mim conhecer esta obra.
Outro ponto de destaque é o desenvolvimento dos personagens. Isso é mais notável no casal protagonista, Toshihiko e Yuka. Ele divide-se entre se manter fiel à tradição do grupo de samurais (Kifuuken) e a crescente paixão por Yuka, que é uma das criaturas que jurou exterminar; ela, também apaixonada por Toshihiko, sofre com a dualidade entre resistir aos seus instintos de Shokujinki e lutar contra o mundo ao lado de seu amado. Nem tudo são flores, porém: outros personagens poderiam ter sido melhor aproveitados, a exemplo de Kazuma, o irmão de Toshihiko (que até tivera um início de arco, mas interrompido de forma abrupta) e Rie, que infelizmente ficou mais lembrada pela dinâmica de competição amorosa em torno de Toshihiko.
Destaca-se também as críticas sociais exploradas no anime, abordadas com ótimos momentos de humor. A organização Kifuuken, composta majoritariamente por homens, retrata a desigualdade nas relações de poder entre homens e mulheres; a relação entre Yuka e Toshihiko, que é muito gostosa de se acompanhar, desvela a vulnerabilidade masculina e o mito de que a parceira não teria capacidade de proteger seu parceiro, estando somente à espera de ser salva por ele; o gore como saída de escape para os desejos humanos mais ocultos; e várias outras temáticas que não citarei aqui, pois o melhor é conferir a própria obra, não é mesmo?
A trilha sonora, por sua vez, não deixa a desejar. Ponto intrínseco à originalidade do anime, o ritmo vibrante do jazz contemporâneo ajuda bastante na criação de uma atmosfera divertida e surreal.
Dito isto, vale muito a pena acompanhar "Kemonozume" se você gostaria de experimentar a imersão numa obra diferente do habitual.
Ad Astra: Rumo às Estrelas
3.3 870 Assista Agora"Ad Astra" mostrou-se, ao menos para mim, uma excelente surpresa.
O filme parte de uma premissa simples: a busca de um astronauta, Roy McBride, por seu pai, Clifford McBride, também astronauta, o qual está desaparecido há muitos anos em missão ao espaço sideral e cujo desaparecimento parece estar relacionado à uma ameaça não só ao planeta Terra, mas à existência de todo o Sistema Solar. Essa ideia central vai sendo cuidadosamente construída, pois, com o desenrolar da trama, vamos descobrindo importantes revelações sobre a dramática relação entre Roy e seu pai, este, aliás, prestigiado como um herói na Terra, por seus feitos em contribuição à exploração espacial.
A produção, entretanto, utilizou (e muito bem) esse fio condutor para desenvolver outras temáticas. Nesse sentido, destacam-se, sobretudo, o progresso da tecnologia aeroespacial e os limites éticos e morais da exploração humana no Cosmos, retratados da forma mais realista – e assombrosa – possível. Na história fílmica, por exemplo, o turismo espacial já é uma realidade concreta; a Lua deixa de ser apenas o satélite natural terráqueo para transformar-se numa região operada por empresas privadas e também vulnerável a ataques de grupos piratas modernos; o planeta Marte já possui bases de operações militares norte-americanas; e o ser humano foi capaz de chegar à Netuno, representação dos confins do Sistema Solar. Embora a exploração do espaço tenha a sua importância reconhecida, vez que auxilia na busca da solução de problemas terrestres e de descobertas científicas, discute-se, inevitavelmente, o caráter ético da espécie humana no ambiente espacial e os seus próprios valores íntimos, questões que “Ad Astra” soube explorar (perdão pelo trocadilho, rsrs) com admirável maturidade. Seria um prenúncio da ficção do que está por vir na realidade?
Vale citar outro grande acerto do filme, isto é, a atuação do elenco, com destaque para a dupla protagonista Brad Pitt e Tommy Lee Jones, interpretando, respectivamente, Roy e Clifford, filho e pai. O primeiro, num papel não muito comum em sua carreira, interpreta um homem solitário e introvertido, que, apesar de vivenciar a ausência da figura paterna por um longo período em sua vida, tem a chance de reencontrá-lo através de uma missão espacial de grande risco. A atuação de Pitt é incrível e combina, em sincronia, com o estilo dramático da história; é uma pena que ele não tenha sido, ao menos, indicado ao Oscar de melhor ator em 2019. Também impressiona a atuação de Lee Jones, aqui, num tempo de tela mais curto, porém, com a “química” necessária com Pitt.
Por fim, vale dizer que o filme não deixou nada a desejar na pós-produção. Os efeitos especiais são maravilhosos, ao ponto de, em certos momentos, não sabermos muito bem onde acaba a ficção e começa a realidade, mesmo com o avanço da computação gráfica no cinema atual. As paisagens da Lua e dos planetas, por exemplo, são um colírio para os olhos dos amantes da astronomia.
Recomendo a produção a todos que gostarem de uma história instigante sobre as relações humanas e o futuro da exploração do universo cósmico.
Imitação da Vida
4.2 100 Assista AgoraDentre as inúmeras temáticas abordadas com tanto zelo por "Imitação da Vida" (1959), a questão racial naturalmente se sobressai. No entanto, a maneira como este último tópico é construído na produção é deveras contraditório.
Ora, a relação aparentemente fraterna entre Lora Meredith, mulher branca, e Annie Johnson, mulher negra, não impede que a primeira, após ter alcançado um status social que há muito tempo ambicionava, continuasse a permitir que a segunda exercesse o trabalho doméstico em sua residência. Isso porque o racismo, fator estrutural que é, foi internalizado por Lora, a qual, por sua vez, acostumou-se à genuína amabilidade de Annie na prestação dos serviços domésticos, bem como pela própria Annie, que, mesmo ciente do racismo externo - da sociedade - que sofria, não soube reconhecer o racismo interno - domiciliar - e velado, representado pela subserviência à figura branca. Este é um problema que Douglas Sirk não soube resolver.
Felizmente, a temática do racismo é muito bem explorada noutro ponto, ao tratar da relação entre Annie e Sara Jane, respectivamente, mãe e filha. Esta, mulher branca, desde a sua infância, vai internalizando o discurso racista ao rejeitar o fato de sua mãe ser negra, sobretudo quanto ao conceito estereotipado de beleza: tem um nariz afilado, cabelos lisos, pele branca. Num retrato da época, o simples fato de uma pessoa de pele clara ter um parestesco com um afrodescendente era motivo de exclusão social, e o filme soube representar o assunto muito bem - vale citar a polêmica cena em que Sara e o namorado tem uma discussão acalorada.
Não obstante as críticas, assumo: fui conquistado pela história. Sobretudo por conta da majestosa atuação do trio feminino: Juanita Moore, Lana Turner e Sandra Dee, que soube transmitir aquelas emoções e sentimentos essenciais que uma boa trama precisa.
7 Prisioneiros
3.9 330A proposta do filme é polêmica, contudo, inovadora: quão grave pode ser a influência do trabalho escravo contemporâneo enquanto instrumento de dominação psicológica?
Esse questionamento é uma das premissas básicas da produção. Sabe-se que, conforme ensina a melhor doutrina penalista, o consentimento da vítima é considerado irrelevante para a configuração do delito de redução à condição análoga à de escravo. Afinal, o maior bem jurídico tutelado é a dignidade humana do trabalhador, que pode ter a sua liberdade de ir e vir cerceada em virtude de trabalhos forçados, estar submisso a jornada exaustiva ou a condições degradantes de trabalho, entre outras condutas. Todavia, a história fílmica decide explorar a escravidão contemporânea, especialmente, sob a ótica da própria vítima que talvez vislumbre nessa relação degradante uma saída para melhoria de vida. Esse viés é interessantíssimo, pois o limiar entre a posição de oprimido e opressor vai se tornando cada vez mais sutil, e a forma como esse dilema foi trabalhado na narrativa é digna de elogios. Aqui, faço uma breve digressão para elogiar também a excelente atuação do elenco, sobretudo de Christian Malheiros e Rodrigo Santoro, e a acertada direção de Alexandre Moratto.
Em seu bojo, o enredo traz à baila outras temáticas como o racismo estrutural, o tráfico de pessoas e a corrupção no Poder Público, e retrata, numa crítica visceral, como tais elementos se conectam para originar e fomentar a complexa rede do trabalho análogo à escravidão.
Num País marcado pelo passado escravista, essa discussão urge ser mais debatida, em face das nefastas intervenções no desenvolvimento econômico-social da sociedade moderna. Vale muitíssimo a pena conferir "7 Prisioneiros", representante da melhor safra que o cinema nacional tem a oferecer.
Thanatomorphose
2.4 243O que aconteceria se o processo de decomposição do corpo ocorresse com a pessoa ainda viva? Ora, é justamente a essa pergunta que “Thanatomorphose” tenta responder. A produção do cineasta francês Éric Falardeau (aqui, em sua estreia) aposta num enredo aparentemente simples, mas que, a posteriori, vai revelando em suas camadas outras discussões interessantes, para além da decomposição cadavérica.
Pelo que os pôsteres e a sinopse denunciam, o body horror é o subgênero explorado por “Thanatomorphose”. Destarte, aqui o corpo é a fonte do medo. E é inegável que os efeitos práticos se destacam – pela aparência tão próxima ao real, o espetáculo de putrefação causa repulsa, bem como surpreende. Mas as possibilidades outras de interpretação da metamorfose corporal também conquistam o seu lugar. A epiderme que apodrece é um sinal de que algo não vai bem, pois o corpo sente e precisa externar a dor: a obsessão pelo prazer carnal, a dignidade sexual ofendida, o perigo de contágio venéreo, a experiência da solidão negativa.
Nem tudo são flores, porém: a atuação do elenco não gerou muita empatia, e algumas decisões do roteiro pareceram-me demasiado incongruentes. Há quem poderia reclamar do ritmo mais lento do filme, mas acredito que este serve muito bem aos propósitos da narrativa, a fim de construir uma atmosfera claustrofóbica mais imersiva.
Por fim, deixo a minha recomendação cinéfila. Mais do que uma mera ode ao grotesco, “Thanatomorphose” é uma produção fértil em possibilidades interpretativas, sendo um ótimo exemplar do que o cinema extremo e underground tem a oferecer de bom.
Você Não Estará Só
3.6 138Há algum tempo eu já cogitava assistir "You Won't Be Alone" (2022) (desde o lançamento de seu trailer, na verdade) mas apenas recentemente tive a oportunidade de conferi-lo.
A habilidade que a jovem bruxa possui relembrou-me, em certa medida, a capacidade dos "troca-peles", da saga literária martiniana "As Crônicas de Gelo e Fogo", de "possuir" o corpo de outro ser vivo, sejam animais ou - mais dificilmente - seres humanos. Ainda recém-nascida, Nevena, a protagonista, recebe uma maldição de uma velha bruxa conhecida pela alcunha de "Devoradora de Lobos": está condenada a também ser uma bruxa, durante toda a sua vida. E como característica elementar de sua nova condição, Nevena será capaz de "possuir" os corpos de outros indivíduos, especialmente pessoas. Porém, tal habilidade, longe de ser objeto de mero divertimento, em verdade, é uma tentativa da jovem para compreender o complexo significado do que é ser humano.
Confesso: acompanhar a experiências da protagonista, em suas múltiplas vivências, mostrou-se muitíssimo interessante. As suas novas identidades são como janelas pelas quais a jovem (e nós), vemos os elementos do mundo ganharem novas significações; os habituais dramas humanos, bem como o turbilhão de emoções que deles provém adquirem outras dimensões, uma vez que tudo ali é um processo de aprendizado para a protagonista
(a subtrama da relação amorosa que Nevena constrói com seu parceiro emocionou-me bastante, por exemplo)
como as vivências de Nevena sob a pele de outras pessoas.
A atuação de certas pessoas atoras também foi mediana, e a escolha de Anamaria Marinca como a principal antagonista foi um pouco frustrante; seu papel infelizmente não conquistou-me. No entanto, Noomi Rapace e Alice Englert, em especial, foram incríveis em seus pápeis: as suas habilidades de expressarem-se tão somente por gestos lembrou-me da era silenciosa do cinema, em que tal modo de atuação era essencial para cativar a empatia do público.
Por fim, deixo aqui a minha recomendação de "You Won't Be Alone": se você gosta de histórias que exploram a natureza humana, conduzidas com sobriedade, mas com um toque de fantasia, essa produção será uma ótima escolha.
Not Every Pain Hurts
4.0 1A ambientação teatral que rememora o cinema expressionista alemão, o conteúdo lírico, o canto sereno de Anne Nurmi em harmonia ímpar com os timbres enebriantes de guitarra e do acordeão de Tilo Wolff... sublime!
Maltratada
3.9 6A trama de Manhandled (1924), comédia dramática estadunidense da era silenciosa, à um primeiro contato, pode iludir-nos. Ora, um casal de jovens de classe média-baixa, que se apercebe dissaboroso com a situação financeira em que se encontra, e cujas partes decidem, cada qual à sua maneira, conquistar uma condição de vida mais abastada para ambos - certamente, já vimos ao menos uma história similar a essa.
No entanto, o enredo desta produção oculta problemáticas mais complexas, especialmente no que toca à comportamentos machistas tão naturalizados na sociedade.
Tessie McGuire, a protagonista do longa, é uma mulher independente, no sentido de que aspira conseguir uma vida de opulência mediante os esforços de seu próprio trabalho; seu namorado, Jim, também deseja tal resultado, mas, de modo oposto, deposita a sua confiança numa invenção mecânica que ele está a desenvolver; há alguns homens que, em suas propostas de emprego para Tessie, demonstram apenas uma pretensão sexual para com a jovem (e acabam despertando desconfianças por parte de Jim, as quais recaem sobre Tessie); e, por fim, vê-se que até uma "amiga" de Tessie, visando ajudá-la, lhe recomenda que esta aja de forma a atrair a atenção daqueles abonados homens para lograr regalias
Bem, fica claro que certos personagens masculinos, principalmente aqueles libertinos, persistem em suprimir o corpo, o espaço e as decisões de Tessie, e para isso utilizam-se de diferentes artifícios. Apesar de tudo, Tessie sempre busca resistir - seu devotado amor ao seu amado é maior do que uma conquista fácil à riqueza material.
Outrossim, Tessie sofre - sofre com os constantes assédios a que está submetida, sofre com as infundadas suspeitas de seu namorado de que ela estaria cometendo adultério (ressalto aqui a cena na qual Jim culpabiliza Tessie de adúltera, ao comentar de sua vestimenta, sendo que aquela, na verdade, tinha sido vítima de violência sexual)... enfim, sofre, entre outros, com a discriminação de gênero alimentada pela sociedade patriarcal em que (sobre)vive
Em tempo, gostaria de comentar outros aspectos da produção do diretor canadense Allan Dwan. Quanto às atuações, meu destaque vai para Gloria Swanson. A performance da diva é ímpar: a naturalidade com que encena, a sutileza de suas expressões corporais e faciais, combinada com a sua estonteante beleza, fascinaram-me deveras. Antes da sessão, eu já havia assistido outro filme com a atriz - "Sunset Boulevard" (1950), de Billy Wilder - inclusive, recomendo-o fortemente, pois o considero uma das obras-primas cinquentistas -, e já havia me deleitado com a sua interpretação. Mas com "Manhandled", Gloria Swanson conquistou-me de vez. Ademais, Tom Moore estava ótimo como Jimmy,
apesar de, em certos momentos, a atitude machista do personagem ser insurportável - e, ainda sim,
(contraditário, sim, mas fiquei torcendo por eles até o desfecho do filme, hahaha).
Para concluir, uma vez que falei no desfecho,
confesso que fiquei surpreso! O cunho melodramático que permeia a película culmina num final alentador, ante o infeliz e crescente cenário opressor que persiste no século XXI
Lágrimas do Céu
3.7 12 Assista AgoraConfesso que, ao iniciar a sessão de "The Rainmaker", eu subestimara a película. A atuação de Lancaster me parecera um tanto caricata demais, Hepburn não estava em um de seus melhores momentos... mas o enredo despretencioso foi conquistando-me aos poucos, e logo me apercebi imerso naquele universo cinquentista com ares de velho-oeste.
Assim sendo, pude assimilar, na simplicidade do roteiro, as interessantes metáforas contidas nas entrelinhas. Bill Starbuck - que se revelou para mim a verdadeira estrela do show -, que, em sua vivência errante, estava sempre à procura de sua satisfação material, não obstante ansiava por algo que o fizesse sentir-se especial: a esperança dele próprio fazer chover sobre aquela terra castigada pela seca.
Entretanto, penso que a verdadeira missão de Starbuck - e que talvez ele nem se dera conta - em suas andanças era a de ir em auxílio às pessoas, atuando como uma espécie de conselheiro, fabricando, assim, mudanças positivas na vida de pessoas com quem ele encontrava. O exemplo inicial é a alegria que ele despertou na vida daquela criança no começo da história; e o mais notável é certamente a reconciliação familiar dos Curry e a autoconfiança que Lizzie e File passaram a cultivar, por influência precípua de Starbuck.
A abençoada chuva que finalmente sobreveio naquela terra árida, creio, representa mais que um fenômeno meteorológico; é um acalento para o coração dos habitantes, da modesta família Curry e, sobretudo, para Starbuck, que, cumprindo a sua missão de ajudar aquelas pessoas, enfim obteve uma dádiva dos céus, o que também simboliza a consumação de suas íntimas aspirações - embora não ocorrera da forma como ele almejava. De fato, Starbuck fez jus ao título da produção, pois fez chover alegria e esperança no seio daquelas vivências.
Cidade Apavorada
3.7 9É assombroso como a película guarda alguns traços de identificação com o contexto da pandemia da COVID-19, especialmente quando esta se apresentava nos seus estágios iniciais (com enfoque, é claro, na realidade norte-americana): a preocupação da grande maioria das autoridades e dos profissionais da saúde (especialmente o Dr. Ben Wood, muito bem interpretado por Willian Bishop) com a súbita disseminação do vírus, com a imunização em massa da população e o isolamento das pessoas contaminadas pela doença, e questões afins.
A fotografia é primorosa, a atuação é convincente e as cenas de perseguição, ainda que escassas, são muito empolgantes. Acredito que a opção por um narrador da história foi um tanto supérflua, o que em parte comprometeu minha imersão na trama. O roteiro, por sua vez, tem lá as suas conveniências também - mas isso realmente importa, rsrs?
Enfim, esta produção cinquentista foi um ótimo achado, sobretudo porque tem sua parcela de relevância em nossas vivências atuais.
Nightmare At Elm Manor
2.9 3"Nightmare At Elm Manor" é curta-metragem mudo dirigido por George Harrison Marks, lançado em 1961.
Experimental e com toques de terror e erotismo, a produção é filmada em preto e branco, cuja ambientação atmosférica, a ausência de diálogos e a trilha sonora são uma espécie de homenagem aos clássicos filmes de terror, como o "Nosferatu" (1922) de F.W. Murnal (o close do vampiro já transformado, por exemplo).
A história, no entanto, não trouxe-me muito interesse. Numa tentativa frustrada de tornar o corpo nu da protagonista como o objeto central da trama, o curta negligencia certas questões que eu consideraria pertinentes, como as motivações da protagonista para se alojar sozinha em uma casa sinistra, cujo residente é um terrífico homem de meia-idade. Entendo que, por sua natureza experimental, o conteúdo narrativo poderia ser relegado à segundo plano, mas a semi-ausência deste não me convenceu.
Porém, a produção trouxe alguns elementos que despertaram-me a atenção, sobretudo o enquadramento da câmera e o trabalho da iluminação que, embora típicos do cinema de terror, produziram um bom resultado.
Os Quatro Desconhecidos
3.8 23 Assista AgoraConfesso que fiquei impressionado com a atuação de Jack Elam em Kansas City Confidential, um noir de 1952. O pôster engana: no início da sessão, até mesmo pensei que o personagem de Elam protagonizaria o longa! Embora tenha sido coadjuvante, a sua performance austera e dotada de certo tom vilanesco não muito padrão é memorável, sendo um dos destaques do filme sobredito.
La Chasse à la girafe en Ouganda
2.2 1Evidentemente, o curta-metragem francês romantiza a escravização dos ugandeses, bem como a crueldade para com a girafa. No processo de abate do animal, brevemente exibido, a sua carcaça é esfolada. O caçador, homem branco, possivelmente um britânico, contempla todo o procedimento, que é realizado pelos escravizados. Ao final do curta, curiosamente estes são os únicos que consomem a carne do mamífero, sendo clara a tentativa de justificar-se uma suposta inferioridade daqueles indivíduos, incutida sob a ótica etnocêntrica. Ademais, a animada trilha sonora que permeia a produção é no mínimo paradoxal...
Entretanto, a habilidade cinematográfica de Alfred Machin desenvolve-se com tal intensidade que será difícil não reconhecer o seu valor enquanto registro histórico.