É um filme intenso em todos os seus aspectos, ao trazer um recorte da realidade que é duro, difícil e, quase sempre, incompreensível. Isso é a própria vida: algo que não controlamos, onde o imponderável está sempre à espreita. Às vezes, tentamos atribuir explicações e sentido à dor por meio da religião, da fé ou da crença cega na mudança e na melhora. Trata-se de um alento necessário, mas que o filme mostra precisar de fronteiras delimitadas para não se transformar em ilusão destrutiva. Um ótimo drama, com boas atuações e que se consolida como uma verdadeira montanha-russa de emoções.
É um ótimo retrato da comodidade e da nudez de um sentimento que se sustenta apesar de todas as oposições (vontade, desejo, realidade, estética, idade etc.). O filme expõe, por meio dos delírios e da intensidade dos personagens, que certos comprometimentos não são afetados por dinâmicas banais, como o sexo e o adultério — entendidos aqui como acessórios atrelados à vaidade, sem peso ou valor emocional. Essa dinâmica provoca um estranhamento profundo e espantoso: o desapego físico surge como um valor de amor, visto que o verdadeiro sentimento transcende a carne. O final reúne essas questões em um clima pesado e dolorido, pois testar tais limites — mesmo aqueles criados como jogos aparentemente sem importância — incomoda profundamente.
Esse filme é genial do começo ao fim. As transições entre a orientação para a perda e para a reconstrução são claras em toda a obra. O apego é um tempero sutil que retrata a necessidade de perder para se encontrar. Isso ocorre, inicialmente, na tentativa de reaver algo que funcionava como uma herança simbólica, mas que perpetuava o retorno ao problema — ao ponto de origem. Esse processo muda quando o foco recai na resolução de seus próprios problemas e em enfrentar seus medos, sobretudo ao assumir o papel de responsabilidade que deve exercer. Nesse momento, a orientação para a recuperação não só é necessária, mas obrigatória, pois nossos problemas não podem resultar em problemas para os outros. A consolidação desse processo é o reconhecimento de que superar os problemas que criamos, muitas vezes, implica o sacrifício de perder o que há de mais importante para nós, sabendo que essa decisão é o melhor para aqueles que amamos. Os diálogos desse filme, especialmente na parte final, são de uma potência arrepiante. Além disso, a atuação de Harry Dean Stanton é excelente! O amadurecimento do personagem durante o filme é algo extraordinário.
Por ser um filme do Studio Ghibli, deixou um pouco a desejar. No entanto, reconheço que é uma boa obra, com uma história envolvente e uma relativa carga dramática que contribui bastante para o desfecho. Vale a pena assisti-lo, mesmo que, em alguns momentos, a narrativa se arraste um pouco.
O filme é bem interessante, especialmente pelas passagens temporais que estão em evidência. Parece ser uma tentativa de explorar o impulso juvenil em torno da ideia de "paixão", em que tudo deve ser superado para alcançar o que penso ser o ideal para mim. Além disso, explora a própria ideia de liberdade em se relacionar, conviver e mesmo desapegar, em certa medida. Um filme que precisa ser digerido com calma para não perder o foco nos detalhes. A obra apresenta uma transição entre a imaturidade juvenil e uma maturidade emocional, baseada em se reconhecer e identificar falhas que podem ser ajustadas e consertadas. Bem legal, ainda mais com a estética de videogame que busca trabalhar todos os pontos de forma divertida, mas ao mesmo tempo sendo um modo de demonstrar essas transições emocionais, às vezes "infantis", do personagem que — como outras representações do filme demonstram — também foi alguém "babaca" em seus relacionamentos.
Esse realmente tem o selo de "Drama" de qualidade, muito bem executado. Com uma história aparentemente simples e problemas à primeira vista banais — mas que, para o contexto em questão, eram pesados e complicados —, o roteiro brilha. Explorar a maldade infantil, o preconceito e a discriminação motivada pelo subtexto da homossexualidade, dentre outras nuances que resultaram no desfecho, não era para qualquer diretor, ainda mais no início da década de 1960.
Esse filme tem muitas camadas: a crise de uma separação, ainda mais no cenário de uma criança envolvida (um potencial simbólico em jogo); a tensão sofrida por questões pessoais; a falta de conectividade com as novidades, pela própria ausência de sentidos mais profundos; a burocracia social em relações efêmeras; e, por último, a negação da própria realidade em detrimento de um tipo de "virtude da verdade" — de uma essência humana que transcende as banalidades e futilidades. No fim, desenha-se um quadro de dificuldade de socialização, mediada pela resistência em tolerar visões de mundo diferentes.
O cenário estadunidense é uma metáfora perfeita para o enredo, pois descreve todas essas questões em suas nuances e camadas mais profundas. No entanto, o filme também explora como certas patologias acontecem pela própria ordem social estabelecida: a flexibilização no uso de armas, a espetacularização da liberdade de expressão e os "ismos" recreativos, dentre outras situações que compõem a sociedade americana. Tais dinâmicas tornam tanto os extremos uma ameaça quanto aqueles que se consideram "normais". Ninguém está a salvo dos excessos que a mídia e suas consequências podem causar.
Essa caricatura dos EUA é interessante, pois funciona como um alerta importante para aqueles que são fãs da cultura do Tio Sam, muitas vezes alimentada pelas redes sociais, TV e cinema. E penso que isso fica ainda mais visível hoje, quando o país reitera os elementos apresentados no filme elevado à enésima potência. O curioso é que existe uma linha de continuidade caso olhemos para trás. No ano de 2002, o cineasta Michael Moore lançou o documentário "Tiros em Columbine", que falava de muitas coisas que vimos no filme e que, infelizmente, testemunhamos hoje. Em seu documentário, Moore resgata o livro do sociólogo Barry Glassner, "A Cultura do Medo", conceito que fica em evidência na obra de ficção ao retratar uma "paranoia coletiva" da sociedade moderna. Essa paranoia está muito associada às nossas percepções do perigo, e não ao risco em si. Uma situação modelada pelo excesso de informações ou pelo desvio de finalidade na apresentação de notícias, temas e emoções pelas mediações da rede que, no fim, visa ao lucro. Tudo se justifica em nome da rentabilidade, mesmo em detrimento do sofrimento alheio, da morte e da dor: o importante é consumir e se alarmar.
O caminho traçado por obras que tratam da arte como um roteiro distanciado — uma história sobre a trajetória de figuras, relações e coisas do tipo — é bem agradável de assistir, pois são filmes "sob controle", onde as emoções são sutilmente demandadas, sem grandes tensões. Isso pode ser visto em "Meia-Noite em Paris", bem como em outras obras que seguem a mesma linha, como esta. A introdução do enredo familiar, as mínimas relações desenvolvidas e o campo da própria história como condicionantes para compreender as nuances lançadas são bem interessantes, mesmo que a obra seja genérica ao apresentar todos esses elementos. Contudo, o que foi feito alcançou a sua finalidade. Um bom filme, que, sem pretensões, entrega o que se propõe.
O filme aborda um tema muito interessante e pertinente em reflexões sobre as consequências de um "tipo" de ativismo político. A trilha sonora é boa, mesmo apresentando algumas brechas para discussão. No entanto, esse tipo de tema em produções de Hollywood não funciona muito bem, pois as interações em torno do ativismo, ainda mais em um contexto revolucionário, tendem a ser muito romantizadas, sem muito peso dramático e totalmente subaproveitadas. Embora a narrativa tente e o filme se esforce, a obra acaba reduzida a um drama relacionado a questões familiares. Isso não tira o brilho das atuações, especialmente de Judd Hirsch, que atende com plenitude às exigências do papel; mas os demais personagens são prejudicados pela leitura hollywoodiana desses temas mais sensíveis, cujo foco recai no drama romântico e familiar, formatos que acabam funcionando melhor comercialmente. Trata-se de um embrião do que veremos em "Uma batalha após a outra", em que o tema da revolução e os seus desdobramentos são superficiais demais, tornando-se apenas mais um drama de impacto com boas atuações e direção.
É um filme direto, claro e objetivo em sua proposta. Filmes de guerra devem demonstrar a tensão envolvida, as dificuldades nas pequenas tarefas e os momentos de conquista — mesmo que sejam segundos a mais. Trata-se de uma obra excelente que, na tela do cinema, faz a diferença pela escala e imersão, potencializadas por uma direção de arte refinada e pela fotografia impecável.
O documentário é bastante peculiar, pois a produção parece ter a finalidade de apresentar a figura de um autor que se autopromove como intelectual, expondo seus hábitos, sua vida nos EUA e o seu conjunto de ideias. No entanto, o que se vê é mais uma performance coreografada do que o retrato de um pensador de fato. No fim, é uma obra que encontra ressonância apenas em uma parcela específica da sociedade e dentro de um recorte limitado do contexto político brasileiro (2014-2018). Trata-se de um filme datado, visto que parte mais de uma "projeção" teórica do próprio autor do que de um prestígio intelectual estabelecido.
É um excelente filme que retrata histórias da vida privada em um contexto turbulento do cenário brasileiro. O ambiente da ditadura é confrontado com questões de classe, principalmente os conflitos no chão de fábrica, revelando as nuances das batalhas diárias de forma intensa e, em muitos momentos, sutil. Destacam-se as atuações de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri; os conflitos familiares que ambos encenam são densos e de uma carga dramática que assusta em certos momentos.
Trata-se de uma entre tantas histórias que tornaram aquele conflito algo sem precedentes no mundo moderno. No entanto, o filme é também uma exaltação à arte como forma de mediação: demonstra como a linguagem artística pode, inclusive, romper preconceitos e encontrar espaços comuns, permitindo o diálogo até mesmo com o inimigo.
A sensação que Encontros e Desencontros deixa é de profunda reflexão. As poucas falas são certeiras e densas. Se, por um lado, a experiência do casamento e seus desdobramentos modificam nossas identidades — fazendo com que o 'eu' como figura de desejo e exploração perca o sentido diante do peso das responsabilidades —, por outro, o caso da jovem recém-casada demonstra o início de uma jornada onde tudo ainda é possível.
O encontro desses dois perfis desencadeia sentimentos ambivalentes: a melancolia do homem maduro que percebe que ainda é capaz de sentir emoções novas, e a esperança da jovem recém-saída da universidade sobre o que fazer da vida. É um encontro entre juventude e maturidade, inexperiência e cansaço, razão e emoção. A escolha pela manutenção de uma relação platônica entre os protagonistas foi fantástica, pois demonstrou as nuances das nossas escolhas e a confusão que as acompanha.
A direção de Sofia Coppola foi precisa ao escalar o elenco, unindo a trajetória real dos atores à tese do roteiro: Bill Murray, um veterano que trazia em sua fisionomia o cansaço da indústria, e Scarlett Johansson, uma promessa em ascensão buscando seu espaço. Esse espelhamento foi central para o resultado de uma obra que transita entre o drama romântico e o ensaio filosófico.
O filme opera a partir de uma matriz cristã, intencionalmente desprovida de dogmas confessionais, para construir uma ética comunitária centrada no altruísmo, na família e na gratidão como virtude social. Historicamente, o filme não foi bem recebido em seu contexto, sua canonização ocorreu por um processo retroativo, consolidado apenas nas décadas de 1970 e 1980 por meio de exibições na televisão. Contudo, isso não torna a obra menor, pelo contrário, a performance de James Stewart sustenta a leitura ética da obra ao materializar, por meio de um naturalismo psicológico, a tensão entre frustração individual e integridade moral, culminando em um clímax que revela não fraqueza, mas o peso das responsabilidades comunitárias. Um ponto por vezes esquecido pela leitura religiosa, é a crítica ao capitalismo (banqueiro Potter) em defesa do crédito comunitário. O filme ressoa por uma linha temática de redenção e intervenção sobrenatural, que são visíveis em adaptações modernas de A Christmas Carol (como Scrooged, 1988) ou em dramas de superação como À Procura da Felicidade (2006). Um bom filme com excelentes atuações.
O tema da estética e dos padrões de beleza foi muito bem elaborado aqui, pois partiu de questões psicológicas da negação, narcisismo e da perda de identidade em favor da confirmação social da imagem pública, que aqui se mistura com a própria "imagem" (identidade) privada. A união desses fatores desencadeou de forma eficaz no filme, a deformação de uma identidade que busca e se retroalimenta do reconhecimento social (uma crítica super pertinente atualmente). Essa premissa valida os "exageros" no uso do corpo e do "gore", pois é demonstrado que o preço da "performance" é a deformação.
Um clássico que se destaca precisamente pelo acerto de seu tripé estrutural: direção, elenco e roteiro. O tema "banal" trabalhado na obra ganha uma densidade narrativa interessante, que prende o espectador desde o início. E isso se relaciona diretamente com esse tripé (equilibrio técnico), pois, para que a premissa funcionasse, era necessário uma direção precisa, um elenco sóbrio e um roteiro de extrema coesão. A convergência desses fatores resultou em uma excelente história.
Esse foi uma surpresa, ainda que parcial. O tema clichê desenvolvido está saturado no cinema, e produções com elencos robustos que tratam do tema não têm funcionado ultimamente. No entanto, é justamente nesse ponto que o filme se destaca. A obra parece ter assimilado a lição de Um Drink no Inferno (Tarantino, 1996): embora as tramas sejam diferentes, apresenta uma ruptura estrutural (mudança de gênero) eficaz ao acomodar novos elementos em seu andamento sem perder o rumo.
Esse envelheceu bem, especialmente em tratar da mídia. Uma percepção que, para a época, ganhava espaço, principalmente pela repercussão de "Cidadão Kane". As escolhas aqui foram muito bem elaboradas, pois o núcleo espacial é estreito e bem desenvolvido com um elenco de núcleo que tem seus papéis bem definidos. Filme bem bacana.
A crítica em torno da figura do veterano de guerra é um ponto fundamental para o contexto, pois evidencia a transição de um cinema de propaganda para um cinema crítico. A estrutura narrativa é sutil e bem escolhida, o que faz toda a diferença para o resultado final. O desenvolvimento da crítica não perde o foco e ganha densidade com a progressão da história. É, de fato, um bom filme.
Apresenta um enredo convencional (clichê), embora bem adaptado ao cenário das pistas e amparado por um elenco sólido. De modo geral, é uma variação de Top Gun: Maverick, seguindo a mesma fórmula estética e narrativa.
Pensei que entregaria mais por todo o alarde, mas no fim foi algo bem "mais ou menos". É um tipo de leitura sobre um movimento revolucionário e sua atuação nos EUA, mas por uma ótica estadunidense que quase sempre reduz a seriedade de princípios revolucionários ao amadorismo descolado em torno de visões de mundo, ou na interpretação de excessos como componente necessário para encarar o campo de negação de uma realidade social contrária às minorias e suas mazelas. Em suma, é uma visão tipicamente estadunidense de um grupo social revolucionário.
É um bom filme, mas, em parte, envelheceu mal. A narrativa e parte das atuações, como a de Vivien Leigh, em boa medida são carregadas e testadas a todo instante na intensidade de demonstrar as complexidades em torno de receios, medos e a dificuldade de encarar as mudanças da vida, especialmente em sua trajetória pessoal — reflexo visto em suas ações em torno da estética e de seus desejos. No entanto, no tratamento do desenvolvimento narrativo, o filme pode parecer genérico, mas essa percepção parte mais de quem o assiste contemporaneamente do que propriamente da obra em si. A temática tratada se desgastou com o tempo, mas isso não desabona o seu caráter inovador no contexto no qual está inserido.
Uma história bem atual, não envelheceu, ao olharmos para o recorte cultural de alguns contextos político-sociais contemporâneos. O pano de fundo do contexto europeu, ainda no período da Guerra Fria, é uma boa jogada na construção da narrativa, ainda mais no contexto alemão. Além disso, o enclausuramento intencional do casal em seu multiverso é interessante, pois recondiciona o foco de quem assiste para o preconceito institucional, percebido a todo instante; mas também, ao estreitar certos estigmas, como um casal com diferenças etárias, recombinou uma análise que escancara que a própria felicidade é condicionada a conformidades sociais específicas, no campo etário, na aceitação do seu meio social e na própria semelhança cultural.
Alabama Monroe
4.3 1,4K Assista AgoraÉ um filme intenso em todos os seus aspectos, ao trazer um recorte da realidade que é duro, difícil e, quase sempre, incompreensível. Isso é a própria vida: algo que não controlamos, onde o imponderável está sempre à espreita. Às vezes, tentamos atribuir explicações e sentido à dor por meio da religião, da fé ou da crença cega na mudança e na melhora. Trata-se de um alento necessário, mas que o filme mostra precisar de fronteiras delimitadas para não se transformar em ilusão destrutiva. Um ótimo drama, com boas atuações e que se consolida como uma verdadeira montanha-russa de emoções.
Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
4.3 504 Assista AgoraÉ um ótimo retrato da comodidade e da nudez de um sentimento que se sustenta apesar de todas as oposições (vontade, desejo, realidade, estética, idade etc.). O filme expõe, por meio dos delírios e da intensidade dos personagens, que certos comprometimentos não são afetados por dinâmicas banais, como o sexo e o adultério — entendidos aqui como acessórios atrelados à vaidade, sem peso ou valor emocional. Essa dinâmica provoca um estranhamento profundo e espantoso: o desapego físico surge como um valor de amor, visto que o verdadeiro sentimento transcende a carne. O final reúne essas questões em um clima pesado e dolorido, pois testar tais limites — mesmo aqueles criados como jogos aparentemente sem importância — incomoda profundamente.
Paris, Texas
4.3 760 Assista AgoraEsse filme é genial do começo ao fim. As transições entre a orientação para a perda e para a reconstrução são claras em toda a obra. O apego é um tempero sutil que retrata a necessidade de perder para se encontrar. Isso ocorre, inicialmente, na tentativa de reaver algo que funcionava como uma herança simbólica, mas que perpetuava o retorno ao problema — ao ponto de origem. Esse processo muda quando o foco recai na resolução de seus próprios problemas e em enfrentar seus medos, sobretudo ao assumir o papel de responsabilidade que deve exercer. Nesse momento, a orientação para a recuperação não só é necessária, mas obrigatória, pois nossos problemas não podem resultar em problemas para os outros. A consolidação desse processo é o reconhecimento de que superar os problemas que criamos, muitas vezes, implica o sacrifício de perder o que há de mais importante para nós, sabendo que essa decisão é o melhor para aqueles que amamos. Os diálogos desse filme, especialmente na parte final, são de uma potência arrepiante. Além disso, a atuação de Harry Dean Stanton é excelente! O amadurecimento do personagem durante o filme é algo extraordinário.
As Memórias de Marnie
4.3 679 Assista AgoraPor ser um filme do Studio Ghibli, deixou um pouco a desejar. No entanto, reconheço que é uma boa obra, com uma história envolvente e uma relativa carga dramática que contribui bastante para o desfecho. Vale a pena assisti-lo, mesmo que, em alguns momentos, a narrativa se arraste um pouco.
Scott Pilgrim Contra o Mundo
3.9 3,2K Assista AgoraO filme é bem interessante, especialmente pelas passagens temporais que estão em evidência. Parece ser uma tentativa de explorar o impulso juvenil em torno da ideia de "paixão", em que tudo deve ser superado para alcançar o que penso ser o ideal para mim. Além disso, explora a própria ideia de liberdade em se relacionar, conviver e mesmo desapegar, em certa medida. Um filme que precisa ser digerido com calma para não perder o foco nos detalhes. A obra apresenta uma transição entre a imaturidade juvenil e uma maturidade emocional, baseada em se reconhecer e identificar falhas que podem ser ajustadas e consertadas. Bem legal, ainda mais com a estética de videogame que busca trabalhar todos os pontos de forma divertida, mas ao mesmo tempo sendo um modo de demonstrar essas transições emocionais, às vezes "infantis", do personagem que — como outras representações do filme demonstram — também foi alguém "babaca" em seus relacionamentos.
Infâmia
4.4 315Esse realmente tem o selo de "Drama" de qualidade, muito bem executado. Com uma história aparentemente simples e problemas à primeira vista banais — mas que, para o contexto em questão, eram pesados e complicados —, o roteiro brilha. Explorar a maldade infantil, o preconceito e a discriminação motivada pelo subtexto da homossexualidade, dentre outras nuances que resultaram no desfecho, não era para qualquer diretor, ainda mais no início da década de 1960.
Deus Abençoe a América
4.0 801Esse filme tem muitas camadas: a crise de uma separação, ainda mais no cenário de uma criança envolvida (um potencial simbólico em jogo); a tensão sofrida por questões pessoais; a falta de conectividade com as novidades, pela própria ausência de sentidos mais profundos; a burocracia social em relações efêmeras; e, por último, a negação da própria realidade em detrimento de um tipo de "virtude da verdade" — de uma essência humana que transcende as banalidades e futilidades. No fim, desenha-se um quadro de dificuldade de socialização, mediada pela resistência em tolerar visões de mundo diferentes.
O cenário estadunidense é uma metáfora perfeita para o enredo, pois descreve todas essas questões em suas nuances e camadas mais profundas. No entanto, o filme também explora como certas patologias acontecem pela própria ordem social estabelecida: a flexibilização no uso de armas, a espetacularização da liberdade de expressão e os "ismos" recreativos, dentre outras situações que compõem a sociedade americana. Tais dinâmicas tornam tanto os extremos uma ameaça quanto aqueles que se consideram "normais". Ninguém está a salvo dos excessos que a mídia e suas consequências podem causar.
Essa caricatura dos EUA é interessante, pois funciona como um alerta importante para aqueles que são fãs da cultura do Tio Sam, muitas vezes alimentada pelas redes sociais, TV e cinema. E penso que isso fica ainda mais visível hoje, quando o país reitera os elementos apresentados no filme elevado à enésima potência. O curioso é que existe uma linha de continuidade caso olhemos para trás. No ano de 2002, o cineasta Michael Moore lançou o documentário "Tiros em Columbine", que falava de muitas coisas que vimos no filme e que, infelizmente, testemunhamos hoje. Em seu documentário, Moore resgata o livro do sociólogo Barry Glassner, "A Cultura do Medo", conceito que fica em evidência na obra de ficção ao retratar uma "paranoia coletiva" da sociedade moderna. Essa paranoia está muito associada às nossas percepções do perigo, e não ao risco em si. Uma situação modelada pelo excesso de informações ou pelo desvio de finalidade na apresentação de notícias, temas e emoções pelas mediações da rede que, no fim, visa ao lucro. Tudo se justifica em nome da rentabilidade, mesmo em detrimento do sofrimento alheio, da morte e da dor: o importante é consumir e se alarmar.
As Cores do Tempo
3.3 4O caminho traçado por obras que tratam da arte como um roteiro distanciado — uma história sobre a trajetória de figuras, relações e coisas do tipo — é bem agradável de assistir, pois são filmes "sob controle", onde as emoções são sutilmente demandadas, sem grandes tensões. Isso pode ser visto em "Meia-Noite em Paris", bem como em outras obras que seguem a mesma linha, como esta. A introdução do enredo familiar, as mínimas relações desenvolvidas e o campo da própria história como condicionantes para compreender as nuances lançadas são bem interessantes, mesmo que a obra seja genérica ao apresentar todos esses elementos. Contudo, o que foi feito alcançou a sua finalidade. Um bom filme, que, sem pretensões, entrega o que se propõe.
O Peso de um Passado
4.0 59 Assista AgoraO filme aborda um tema muito interessante e pertinente em reflexões sobre as consequências de um "tipo" de ativismo político. A trilha sonora é boa, mesmo apresentando algumas brechas para discussão. No entanto, esse tipo de tema em produções de Hollywood não funciona muito bem, pois as interações em torno do ativismo, ainda mais em um contexto revolucionário, tendem a ser muito romantizadas, sem muito peso dramático e totalmente subaproveitadas. Embora a narrativa tente e o filme se esforce, a obra acaba reduzida a um drama relacionado a questões familiares. Isso não tira o brilho das atuações, especialmente de Judd Hirsch, que atende com plenitude às exigências do papel; mas os demais personagens são prejudicados pela leitura hollywoodiana desses temas mais sensíveis, cujo foco recai no drama romântico e familiar, formatos que acabam funcionando melhor comercialmente. Trata-se de um embrião do que veremos em "Uma batalha após a outra", em que o tema da revolução e os seus desdobramentos são superficiais demais, tornando-se apenas mais um drama de impacto com boas atuações e direção.
1917
4.2 1,8K Assista AgoraÉ um filme direto, claro e objetivo em sua proposta. Filmes de guerra devem demonstrar a tensão envolvida, as dificuldades nas pequenas tarefas e os momentos de conquista — mesmo que sejam segundos a mais. Trata-se de uma obra excelente que, na tela do cinema, faz a diferença pela escala e imersão, potencializadas por uma direção de arte refinada e pela fotografia impecável.
O Jardim das Aflições
3.5 152O documentário é bastante peculiar, pois a produção parece ter a finalidade de apresentar a figura de um autor que se autopromove como intelectual, expondo seus hábitos, sua vida nos EUA e o seu conjunto de ideias. No entanto, o que se vê é mais uma performance coreografada do que o retrato de um pensador de fato. No fim, é uma obra que encontra ressonância apenas em uma parcela específica da sociedade e dentro de um recorte limitado do contexto político brasileiro (2014-2018). Trata-se de um filme datado, visto que parte mais de uma "projeção" teórica do próprio autor do que de um prestígio intelectual estabelecido.
Eles Não Usam Black-Tie
4.3 314É um excelente filme que retrata histórias da vida privada em um contexto turbulento do cenário brasileiro. O ambiente da ditadura é confrontado com questões de classe, principalmente os conflitos no chão de fábrica, revelando as nuances das batalhas diárias de forma intensa e, em muitos momentos, sutil. Destacam-se as atuações de Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri; os conflitos familiares que ambos encenam são densos e de uma carga dramática que assusta em certos momentos.
O Pianista
4.4 1,8K Assista AgoraTrata-se de uma entre tantas histórias que tornaram aquele conflito algo sem precedentes no mundo moderno. No entanto, o filme é também uma exaltação à arte como forma de mediação: demonstra como a linguagem artística pode, inclusive, romper preconceitos e encontrar espaços comuns, permitindo o diálogo até mesmo com o inimigo.
Encontros e Desencontros
3.8 1,7K Assista AgoraA sensação que Encontros e Desencontros deixa é de profunda reflexão. As poucas falas são certeiras e densas. Se, por um lado, a experiência do casamento e seus desdobramentos modificam nossas identidades — fazendo com que o 'eu' como figura de desejo e exploração perca o sentido diante do peso das responsabilidades —, por outro, o caso da jovem recém-casada demonstra o início de uma jornada onde tudo ainda é possível.
O encontro desses dois perfis desencadeia sentimentos ambivalentes: a melancolia do homem maduro que percebe que ainda é capaz de sentir emoções novas, e a esperança da jovem recém-saída da universidade sobre o que fazer da vida. É um encontro entre juventude e maturidade, inexperiência e cansaço, razão e emoção. A escolha pela manutenção de uma relação platônica entre os protagonistas foi fantástica, pois demonstrou as nuances das nossas escolhas e a confusão que as acompanha.
A direção de Sofia Coppola foi precisa ao escalar o elenco, unindo a trajetória real dos atores à tese do roteiro: Bill Murray, um veterano que trazia em sua fisionomia o cansaço da indústria, e Scarlett Johansson, uma promessa em ascensão buscando seu espaço. Esse espelhamento foi central para o resultado de uma obra que transita entre o drama romântico e o ensaio filosófico.
A Felicidade Não Se Compra
4.5 1,2K Assista AgoraO filme opera a partir de uma matriz cristã, intencionalmente desprovida de dogmas confessionais, para construir uma ética comunitária centrada no altruísmo, na família e na gratidão como virtude social. Historicamente, o filme não foi bem recebido em seu contexto, sua canonização ocorreu por um processo retroativo, consolidado apenas nas décadas de 1970 e 1980 por meio de exibições na televisão. Contudo, isso não torna a obra menor, pelo contrário, a performance de James Stewart sustenta a leitura ética da obra ao materializar, por meio de um naturalismo psicológico, a tensão entre frustração individual e integridade moral, culminando em um clímax que revela não fraqueza, mas o peso das responsabilidades comunitárias. Um ponto por vezes esquecido pela leitura religiosa, é a crítica ao capitalismo (banqueiro Potter) em defesa do crédito comunitário. O filme ressoa por uma linha temática de redenção e intervenção sobrenatural, que são visíveis em adaptações modernas de A Christmas Carol (como Scrooged, 1988) ou em dramas de superação como À Procura da Felicidade (2006). Um bom filme com excelentes atuações.
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraO tema da estética e dos padrões de beleza foi muito bem elaborado aqui, pois partiu de questões psicológicas da negação, narcisismo e da perda de identidade em favor da confirmação social da imagem pública, que aqui se mistura com a própria "imagem" (identidade) privada. A união desses fatores desencadeou de forma eficaz no filme, a deformação de uma identidade que busca e se retroalimenta do reconhecimento social (uma crítica super pertinente atualmente). Essa premissa valida os "exageros" no uso do corpo e do "gore", pois é demonstrado que o preço da "performance" é a deformação.
O Homem Errado
3.9 107 Assista AgoraUm clássico que se destaca precisamente pelo acerto de seu tripé estrutural: direção, elenco e roteiro. O tema "banal" trabalhado na obra ganha uma densidade narrativa interessante, que prende o espectador desde o início. E isso se relaciona diretamente com esse tripé (equilibrio técnico), pois, para que a premissa funcionasse, era necessário uma direção precisa, um elenco sóbrio e um roteiro de extrema coesão. A convergência desses fatores resultou em uma excelente história.
Pecadores
4.0 1,3K Assista AgoraEsse foi uma surpresa, ainda que parcial. O tema clichê desenvolvido está saturado no cinema, e produções com elencos robustos que tratam do tema não têm funcionado ultimamente. No entanto, é justamente nesse ponto que o filme se destaca. A obra parece ter assimilado a lição de Um Drink no Inferno (Tarantino, 1996): embora as tramas sejam diferentes, apresenta uma ruptura estrutural (mudança de gênero) eficaz ao acomodar novos elementos em seu andamento sem perder o rumo.
A Montanha dos Sete Abutres
4.4 257 Assista AgoraEsse envelheceu bem, especialmente em tratar da mídia. Uma percepção que, para a época, ganhava espaço, principalmente pela repercussão de "Cidadão Kane". As escolhas aqui foram muito bem elaboradas, pois o núcleo espacial é estreito e bem desenvolvido com um elenco de núcleo que tem seus papéis bem definidos. Filme bem bacana.
Os Melhores Anos de Nossa Vida
4.1 90A crítica em torno da figura do veterano de guerra é um ponto fundamental para o contexto, pois evidencia a transição de um cinema de propaganda para um cinema crítico. A estrutura narrativa é sutil e bem escolhida, o que faz toda a diferença para o resultado final. O desenvolvimento da crítica não perde o foco e ganha densidade com a progressão da história. É, de fato, um bom filme.
F1: O Filme
3.7 443 Assista AgoraApresenta um enredo convencional (clichê), embora bem adaptado ao cenário das pistas e amparado por um elenco sólido. De modo geral, é uma variação de Top Gun: Maverick, seguindo a mesma fórmula estética e narrativa.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 669 Assista AgoraPensei que entregaria mais por todo o alarde, mas no fim foi algo bem "mais ou menos". É um tipo de leitura sobre um movimento revolucionário e sua atuação nos EUA, mas por uma ótica estadunidense que quase sempre reduz a seriedade de princípios revolucionários ao amadorismo descolado em torno de visões de mundo, ou na interpretação de excessos como componente necessário para encarar o campo de negação de uma realidade social contrária às minorias e suas mazelas. Em suma, é uma visão tipicamente estadunidense de um grupo social revolucionário.
Uma Rua Chamada Pecado
4.3 463 Assista AgoraÉ um bom filme, mas, em parte, envelheceu mal. A narrativa e parte das atuações, como a de Vivien Leigh, em boa medida são carregadas e testadas a todo instante na intensidade de demonstrar as complexidades em torno de receios, medos e a dificuldade de encarar as mudanças da vida, especialmente em sua trajetória pessoal — reflexo visto em suas ações em torno da estética e de seus desejos. No entanto, no tratamento do desenvolvimento narrativo, o filme pode parecer genérico, mas essa percepção parte mais de quem o assiste contemporaneamente do que propriamente da obra em si. A temática tratada se desgastou com o tempo, mas isso não desabona o seu caráter inovador no contexto no qual está inserido.
O Medo Devora a Alma
4.3 114 Assista AgoraUma história bem atual, não envelheceu, ao olharmos para o recorte cultural de alguns contextos político-sociais contemporâneos. O pano de fundo do contexto europeu, ainda no período da Guerra Fria, é uma boa jogada na construção da narrativa, ainda mais no contexto alemão. Além disso, o enclausuramento intencional do casal em seu multiverso é interessante, pois recondiciona o foco de quem assiste para o preconceito institucional, percebido a todo instante; mas também, ao estreitar certos estigmas, como um casal com diferenças etárias, recombinou uma análise que escancara que a própria felicidade é condicionada a conformidades sociais específicas, no campo etário, na aceitação do seu meio social e na própria semelhança cultural.